O assunto de hoje é sobre os diferentes modos de ler os textos K. Marx e F. Engels dentro de um curso de Teoria da História. Na primeira parte, apresento comentadores e/ou tradutores de Marx e Engels que escreveram para historiadores, mas que leram a obra de Marx e Engels sobre o ponto de vista de certa Filosofia ou de certa Sociologia.

Na segunda parte, faço o mesmo exercício, mas incluo apenas comentadores que falam do interior dos domínios históricos e que se assumem como historiadores de ofício e/ou de formação inicial.

Os dois grupos de textos circulam em cursos de Teoria da História e foram transformados em propedêuticas pelo uso que os professores e alunos fazem deles. Aqui, recebem o mesmo tratamento. Mas a escolha foi circunstancial. São os textos propedêuticos que tenho em mãos (maio de 2020).

De cada um dos textos, quando possível, exploro os interesses dos comentadores, os modos como situam teoria da História de Marx e Engels entre os concorrentes e antecedentes desses filósofos alemães.

Também exploro semelhanças e diferenças em termos de perguntas e respostas, entre os comentadores externos aos domínios históricos e entre os comentadores que pertencem aos domínios históricos.

Essas semelhanças e diferenças podem guiá-lo em seu percurso de leitura, adaptando uma ou mesclando várias das nove estratégias aqui descritas. Darei como cumprida a meta se, ao final, cada um conseguir esboçar o seu próprio percurso a partir das demandas de professor de História, fazendo juz ao subtítulo dessa aula: „dez roteiros para a leitura“

Marx e Engels na propedêutica de Teoria da História

Marx e Engels são tratados em livros de teoria de tipo vário: histórias da historiografia, por autores, escolas, paradigmas; antologias sobre textos de Marx e Engels, acompanhados por comentários biobibliográficos; obras coletivas que reúnem comentários de síntese de determinado grupo de autores, em geral, obedecendo a cronologia dos nascimentos dos autores ou das dos respectivos textos; obras individuais de teoria da História, do tipo coletânea, que reservam um ou outro capítulo para a teoria da História de Marx e/ou de Engels; e, por fim, livros-tese intitulados “teoria da história” que exploram questões específicas como o contrato de objetividade da obra histórica.

Marx e Engels, contudo, não são unanimidades quando o objeto é “teoria da História.” Coletâneas respeitadas, lançadas recentemente, como a História pensada: teoria e método na historiografia europeia do século XIX (2010) e A constituição da História como ciência: de Ranke a Braudel (2013), não incluem textos ou comentadores seus.

Isso se deve, entre outras razões, aos concorrentes modelos identitários de “historiador” e “historiador profissional” que circulam entre nós.

Três perguntas, em geral, formuladas sem indicação de tempo, espaço e circunstâncias, ilustram esses conflitos de representação identitária: “Marx era historiador, filósofo ou sociólogo?” “Marx produziu historiografia?” “A lógica ou o sentido do processo histórico é uma questão importante para o historiador profissional?”

Mas esse não é esse o meu objetivo nesta aula. O que eu quero enfatizar é a relação entre os propósitos dos comentadores e as escolhas de textos. Partindo de comparações entre as posições dos comentadores, penso que vocês podem ganhar confiança e liberdade para montar percursos de leitura de partes da obra de Marx e de Engels.

Marx e Engels entre profissionais da Filosofia e da Sociologia

Acompanhem esses exemplos de grande circulação entre nós, tipificados por área de atuação dos comentadores e/ou tradutores de Marx e Engels. Comecemos com os que ofereceram teses de Marx e Engels aos historiadores, sob o ponto de vista da Filosofia e da Sociologia: Florestan Fernandes (1989), Patrick Gardner (2008), Francisco Rüdiger (1991) e Leandro Konder (2010).

Gardner, Rüdiger e Konder são filósofos que abordam cada um à sua maneira a obra de Marx e de Engels. Gardner trata a teoria como um domínio cindido entre a Filosofia especulativa da História (que investiga o sentido do processo) e a Epistemologia/Metodologia da História (que investiga procedimentos e categorias de investigação e escrita).[1] Gardner situa Marx no primeiro ramo, dominantemente em oposição à especulação hegeliana sobre a história.

Os instrumentos escolhidos para caracterizar a especulação de Marx sobre o sentido  da história (“desenvolvimento” por meio de “leis dialéticas” e necessários “estádios” e o objetivo atribuído a esse processo – a revolução) são o conceito de “materialismo histórico” e a tese da “inevitável vitória do proletariado.”[2]

O ramo esquecido por Gardner é explorado por Francisco Rüdiger. Ele aborda a teoria da História como epistemólogo da ciência da História. Sua intenção é expor didaticamente os “paradigmas” que “fundamentam os métodos de estudo e os procedimentos de pesquisa” utilizados pelos historiadores.

Nessa rubrica, os textos de Marx compõem um “paradigma” fundador da “ciência da história” que concorre com outro paradigma fundador, estabelecido Max Weber. O paradigma de Marx (e Engels) supera e incorpora, em parte, duas “matrizes fundamentais” do século XIX: historicismo e o positivismo.

O paradigma fundador é tratado sob dois momentos da carreira de Marx. No primeiro,[3] Marx combina princípios do historicismo (considerar a historicidade) e do positivismo (extrair leis da mudança social). Dessa articulação emergem as ideias de “processo histórico” (“acumulação de trabalho e transformação da natureza”), ciência da História (“ciência positiva”) e “método” (a substância é o concreto e a função do historiador é compreender e intervir).

No segundo momento de Marx[4] o positivismo predomina, sobretudo na compreensão do processo (“histórico natural, regido por leis econômicas de cunho necessário”), que se reproduz na concepção de método histórico (busca das leis desse processo).[5]

A síntese de Leandro Konder[6] aborda Marx e Engels como produtores de “uma concepção do homem e uma concepção da história”. Como Gardner, Konder situa Marx e Engels como antagonista de Hegel e dos hegelianos de esquerda, no que diz respeito à “concepção de história”.

Apesar de escrever para uma coletânea dirigida aos historiadores profissionais e referir-se à “história” em Marx como “história social” ou o “exame aprofundado da transformação estrutural das sociedades”, Konder prioriza aquilo que Gardner designou de Filosofia especulativa da História. Assim, concebe a “história” de Marx como “processo de modificações nas condições de trabalho dos seres humanos”.[7]

Em outra passagem, Konder refere-se à “concepção da história elaborada por Marx” como um modelo interpretativo. Aplicado ao presente de Marx, o modelo teria gerado As lutas de classes na França de 1848 a 1850 e O 18 do brumário de Luís Bonaparte.[8]

Florestan Fernandes, por fim, é o nosso exemplo de sociólogo que, do mesmo modo que Konder, Rüdiger e Gardner, escreve para historiadores. Mas escreve também para os cientistas sociais. Sugerindo uma identidade para o historiador marxista, ele ironiza o trabalho dos historiadores “profissionais” dos anos 1980, aferram à especialização e resistem à investigação das questões sociais do seu tempo.

Fernandes estuda a “história” em Marx e Engels sob as expressões “ciência da História”, “ciências sociais”, “ciência de síntese” ou “ciência magna entre as ciências sociais.” Essas ambiguidades, extraídas de Marx, são replicadas por Fernandes na apresentação dos significados de sujeito/motor da história (a luta de classes), de “pesquisa histórica” (busca da causalidade econômica), “teoria da história” ou lógica do processo histórico (sucessão dos modos de produção) e de “método” para uma “ciência social da história”[9] à serviço, por exemplo, das lutas enfrentadas pelo operariado.[10]

Temos, então, quatro especialistas em Marx e Engels e diferentes modos de abordar as teses de Marx e Engels sobre História. As questões predominantes são: (1) Em que consiste o processo histórico? (2) Que tipo de ciência é a História? e (3) O que significa método [histórico] em Marx e Engels?

Pela descrição acima e sua a respectiva representação no quadro 1, podemos constatar que, no grupo, os interesses em termos de objeto são desiguais, já que Konder e Fernandes exploram processo e método, Rüdiger explora episteme e método e Gardner explora o processo.

Mesmo quando tratam de matéria idêntica, as teses de Gardner, Konder e Florestan sobre o processo diferem, assim como diferem as teses de Rüdiger, Konder e Fernandes sobre método.

Konder e Florestan veem processo como mudança nas condições de existência. A ênfase e/ou a primazia dos conceitos, contudo, é desigual. Enquanto Konder enfatiza a ideia de “trabalho”, Florestan enfatiza a sucessão dos modos de produção.

Gardner e Rüdiger respondem à questão do processo em movimentos distintos. Gardner secciona o processo em desenvolvimento (leis/estágios) e fins (revolução), enquanto Rüdiger apresenta o processo em suas versões historicista (o trabalho transformando a natureza) e positivista (o trabalho transformando a natureza, mas regido por leis necessárias).

As questões “que tipo de ciência é a história” e “o que significa o método na teoria de Marx e Engels” estão relacionadas. Autores podem ter escrito “método” para significar “ciência” e/ou “ciência da história” ou o inverso.

Os olhares, contudo, nos induzem à resposta centrada na metodologia, como fez Fernandes (interpretar, intervindo para a mudança social), e à resposta centrada na epistemologia, como fez Rüdiger: para o tempo historicista, uma ciência de compreensão; para o tempo positivista, uma ciência de explicação por leis necessárias.

Marx e Engels entre profissionais da História

Vimos as variações sobre as representações de teoria da História em Marx e Engels entre três filósofos e um sociólogos. Vejamos, agora, o que os historiadores de ofício e os historiadores por formação inicial nos dizem ao discutir “teoria da História” nos textos dos dois filósofos alemães.

Os textos que tenho em mãos foram produzidos por sete comentadores que divulgam a obra de Marx e Engels em seus livros propedêuticos de Teoria da História: três brasileiros – Marly Viana, Ramón Castro e José D’Assunção Barros – e quatro estrangeiros – Eric Hobsbawm, Michel Vovelle, Josep Fontana e Mary Fulbrook.

Marly Vianna e Ramón Castro[11] exploram “história” em Marx como um conceito-chave.[12] A concepção de história está no “materialismo-histórico.” Os comentadores não veem história como “filosofia da história”: “Marx não trabalhou com generalidades sobre o homem e a natureza […] Seus conceitos, baseados no real-histórico, são um modelo […] para a busca das leis de seu desenvolvimento interno [das sociedades] e daquelas que marcam a transição de um modelo a outro.”

O conceito “história” é significado como o “modo de produção da vida material [que] condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral”[13] e a exemplificação está na seguinte proposição: “os homens fazem sua própria história, mas não o fazem como querem.”[14]

Assim, ainda segundo Vianna e Castro, Marx contribui com o “método da economia política” para as “ciências humanas” e para a “História.”[15] Esse método está na Introdução à Contribuição à crítica da economia política, onde ele reprova as estratégias interpretativas de Hegel e dos economistas clássicos.[16]

Outro brasileiro que inclui Marx e Engels em seu trabalho propedêutico é José D’Assunção Barros. Ele afirma que a contribuição maior de Marx e Engels para a Teoria da História está no “materialismo histórico”, concebido como “paradigma historiográfico” ou “teoria da história.”

O materialismo histórico é empregado na “compreensão da história“ e na “elaboração do conhecimento historiográfico.” Adiante ele reforça: é “uma forma de entender a história e de fazer a História.”[17]

Esse materialismo histórico é configurado como um corpo de conceitos, cujo núcleo são as ideias de “dialética”, “historicidade” e “modo de produção.”[18] Eles fazem a diferença de Marx e Engels em relação ao concorrente “paradigma da descontinuidade” (de Friedrich Nietzsche) e aos paradigmas antecedentes: o “positivista” (Louis Bourdeau, Paul Lacombe, Wilhelm Bauer e Louis Halphen, Charles-Victor Langlois e Charles Seignobos) e o “historicista“ (Barthold Georg Niebuhr, Leopold von Ranke, Johann Gustav Droysen e Wilhelm Dilthey).[19]

Dos autores estrangeiros, o Michel Vovelle[20] é nosso velho conhecido dos anos 1990. Ele cita Marx como escritor de história (ainda que da “história imediata”),[21] mas demora-se sobre o Marx que recusou a Filosofia especulativa pela História [22] e tentou criar “uma ciência do homem como sujeito da História.[23]

É o mesmo Marx que estabeleceu uma explicação para a “dinâmica histórica” e a destruição do sistema capitalista, mediante as “leis do seu desenvolvimento: leis de diminuição da taxa de lucro médio, gerando a concentração capitalista, e consequentemente a pauperização e as crises.”[24] Essa “noção-chave” está também na Crítica à economia política.[25] O que influencia os historiadores franceses, para Vovelle, é o “método de análise unindo Economia e História.”[26]

Mary Fulbrook se ocupa da relação entre “multiplicidade de abordagens teóricas concorrentes ou ‘paradigmas‘ da investigação histórica” e “objetividade.” Ela não nos oferece os títulos nos quais se baseia. Mas é importante, tanto quando o primeiro texto de Hobsbawm (veremos adiante), porque compara Marx e Ranke. São autores antitéticos situados no início da “cientificização” (universitária) da História.

Fulbrook afirma que a teoria da história de Marx versa sobre: substância (produção), processo (que é também uma metafísica – o progresso em direção a um fim ou a emancipação humana), um método científico naturalista (a busca das leis sociais e econômicas que explicariam esse processo) e uma função historiadora que não era apenas interpretar o passado com fim em si mesmo: interpretar é mudar as coisas.[27]

O Marx de Eric Hobsbawm (1968) é o teórico que apresenta uma “abordagem” ou um “modelo” alternativo de “investigar o passado humano.”[28] Esse modelo, “o materialismo histórico”, era alternativo a outros cinco construtos teóricos: à historiografia política e factual de Ranke; à historiografia dos fatos sociais como fatos naturais que se espelhasse no Positivismo; ao evolucionismo darwinista, que submetia o “progresso” à “evolução” natural acidental; ao marxismo vulgar, defensor do determinismo econômico, do mecanicismo base/superestrutura e das leis necessárias; e ao estruturalismo que não toma a mudança social como problema.

O Marx de Hobsbawm é também o que compreende o “desenvolvimento histórico” como interação dos fenômenos sociais com os fenômenos econômicos. A mudança social[29] é explicada por um modelo estruturado em dois elementos: (1) “níveis” hierarquizados [“relações sociais de produção e reprodução” e “forças materiais de produção”], que oferecem uma “direção” à história; e (2) “contradições internas”, fornecedoras do “mecanismo para a mudança que se torna desenvolvimento.”[30]

Em texto produzido no ano 1983, Hobsbawm replica a contribuição de Marx aos historiadores: ele criou a “teoria geral” ou a “concepção materialista da história.” Essa teoria está sintetizada em uma frase de A ideologia alemã: “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.”

Para Hobsbawm, o materialismo histórico não é “história” [uma narrativa sobre o passado humano], mas uma guia para a história, um programa de pesquisa[31] exposto de modo completo no Prefácio de 1859 do livro Para a crítica da Economia Política.

Assim, a sua aplicação ao estudo de qualquer sociedade deve ser iniciada pela análise “do seu modo de produção” (modo como transfora a natureza pelo trabalho e modo como se organiza socialmente) e, em seguida, pela análise das necessárias e progressivas contradições (das “forças produtivas materiais da sociedade“, com as “relações produtivas existentes e suas expressões superestruturais”).[32]

Nosso último comentador é Josep Fontana. Ele se ocupa da construção do “materialismo histórico” como um “método de análise da realidade” (Marx) e a sua transformação em “doutrina científica”, nomológica e economicista (Paul Lafarge, Karl Kautsky Georgi Plekhanov).[33]

Assim, para conhecer o “materialismo histórico” mais próximo de uma ferramenta (inacabada) de orientação para a pesquisa histórica e para a análise de conjuntura, ele nos remete à tese de que “a vida social é essencialmente prática”[34] e ao conceito de “modos de produção” [35] e à proposição de que a história é luta de classes.[36]

A aplicação do materialismo histórico, da mesma forma, está em As lutas de classe na França de 1848 a 1850 (1850), no 18 do brumário de Louis Bonaparte (1852) e em A guerra dos camponeses na Alemanha (1850),[37] embora a “pesquisa histórica” não possua, nessas obras, o “rigor empírico” enfatizado em A ideologia alemã.[38]

Idêntica insuficiência está bem representada em um texto tornado canônico: Prefácio da Contribuição à crítica da economia política. Aí, Marx se aproximou do que mais criticava: o esquematismo “filosófico.”[39]

Ao fim deste segundo segmento, podemos constatar que os comentadores historiadores de ofício ou por formação inicial também se diferenciam quando as questões são a natureza do processo e o estatuto epistemológico da ciência da História. Essa diferença se refletiu, principalmente, nas suas escolhas de leitura, como explicito no quadro 2.

Todos enfocam a história ou a Teoria da História em Marx como um modelo interpretativo. Todos também demarcam as diferenças entre a especulação puramente conceitual, ao modo hegeliano, e a especulação empírica, de caráter socioeconômico, ao modo marxista.

Fulbrook não faz separação radical entre criar o passado e criar um modelo de interpretar o passado. É por isso que situa Ranke e Marx no mesmo patamar, diferenciando os dois autores pela natureza da substância do processo histórico de cada um. Vianna e Castro, ao contrário, enfatizam o caráter não metafísico da teoria de Marx e de Engels. Barros vai em direção oposta aos três quando afirma que o materialismo histórico é, simultaneamente, uma forma de “entender a história e de fazer história”. [40]

Os demais comentadores enfatizaram esse “fazer história” (com o significado de escrever história). Aí também divergiram. Vovelle parece reforçar o caráter economicista que teria influenciado os historiadores franceses, enquanto Hobsbawm e Fontana se esforçam para separar o bom modelo de análise social (modos de produção e contradição), aberto à historicidade de cada formação social, do esquema cientificista que tenta encaixar qualquer formação social ao suposto modelo analítico, instrumentalizado por leis e capaz de previsão.

Conclusão

Para os nossos objetivos nesta disciplina, é fácil constatar que as respostas fornecidas por filósofos, historiadores e pelo sociólogo aos significados de processo histórico e ao estatuto epistemológico da história em Marx e Engels são diferentes e até divergentes. A diferença, na maioria dos casos, não significa “erro de interpretação” ou “deliberada má fé.”

As diferenças são explicáveis pela formação do comentador, em geral versado em História, Filosofia, Sociologia ou Economia. São explicadas pela a ideia que esses profissionais fazem dos conceitos e da relação entre os conceitos de história-processo e de história-conhecimento.

Outra variável que gera diferenças é a situação comunicativa que envolve a publicação dos comentários. Autores atendem a interesses do editor, escrevem para determinado perfil de leitor ou para atender certa demanda social imediata.

Comentadores também geram interpretações diferentes e até divergentes quando partem de fontes diferentes. Alguns usam publicações russas, outros inglesas ou francesas. Uns traduziram Marx e Engels a partir de textos publicados na primeira metade do século XX. Outros examinaram edições críticas do início do século XXI.

Uma variável não menos importante é o caráter mutante e inconcluso de uma teoria da história em Marx e a sua modificação pós-morte, por Engels e outros autores engajados nas lutas proletárias.

Com isso, quero afirmar ser absurda a atitude de sacralizar ou de condenar conceitos, proposições, hipóteses e modelos mediadores de compreensão do passado longínquo ou do tempo presente, inclusive os de Marx e Engels.

Uma atitude sensata é problematizar a realidade a partir do que a realidade nos oferece, empregando algumas categorias e hipóteses da teoria de Marx e Engels. Nesse caso, a teoria é um regulador da análise. Não pode substituir as fontes que fundamentam o estabelecimento dos fatos. Não, pode por si só, antecipar a nova tese.

Com base nessas conclusões, eu os convido a fazerem os seus próprios roteiros de leitura, como eu fiz na semana passada. Pedi para vocês lerem um trecho inicial de A ideologia alemã (1845-1846) porque o meu propósito era fazê-los compreender as diferenças entre as ideias de processo histórico material/social da humanidade, de Marx, e o processo histórico conceitual/religioso de Hegel e dos neo-hegelianos.

Pedi também para lerem o último capítulo de A origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884) para perceberem como e por que Engels combinou dois modelos interpretativos (de Morgan e de Marx), oferecendo uma visão totalizadora do processo histórico de um personagem bastante conhecido de todos nós, professores de história: a humanidade.

Essas foram as minhas razões e escolhas. Quais são as suas escolhas e razões para a próxima leitura de Marx e de Engels?

Referências

BARROS, José D’Assunção. Teoria da História II. Os primeiros paradigmas: Positivismo e Historicismo. 4ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

BARROS, José D’Assunção. O materialismo histórico. In: Teoria da História III. Os paradigmas revolucionários. 3ed. Petrópolis: Vozes, 2013. p.15-154.

BENTIVOGLIO, Júlio; LOPES, Marcos Antônio (org.). A constituição da história como ciência: De Ranke a Braudel. Petrópolis: Vozes, 2013.

FERNANDES, Florestan. Introdução. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx e Engels, História. São Paulo: Ática, 1989. p.9-143.

FONTANA, Josep. Marx e o „Materialismo Histórico“. In: A história dos homens. Bragança Paulista: Edusc, 2004. p.119-219. Tradução de Heloisa Jochims Reichel e Marcelo Fernando Da Costa.

FULBROOK, Mary. Historical theory. London: Routledge, 2002.

GARDNER. Patrick. Marx (1818-1883). In: Teorias da História. 6ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2008. p.153-155.

HOBSBAWM, Eric J. O que os historiadores devem a Marx? In: Sobre história. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Tradução de Cid Knipel Moreira. P.155-170.

KONDER, Leandro. A história em Marx. In: MALERBA, Jurandir (org.). Lições de História: O longo caminho da ciência no longo século XIX. Rio de Janeiro: FGV; Porto Alegre: EdiPUCRS, 2010. p.173-189.

MARTINS, Estevão de Rezende (org.). A história pensada: Teoria e método na historiografia europeia do século XIX. São Paulo: Contexto, 2010.

VIANNA, Marly de almeida Gomes; CASTRO, Ramón Peña. Karl Marx (1818-1883). In: PARADA, Maurício (org.). Os historiadores clássicos da história. V.2. De Tocqueville a Thompson. Rio de Janeiro: Editora da PUCRIO; Petrópolis: Vozes, 2013. p.113-137.

VOVELLE, Michel. Karl Marx. In: SALES, Véronique (org.). Os historiadores. São Paulo: Unesp, 2011. p.45-63.

[1] Gardner, 2008, p.9.

[2] Gardner, 2008, p.55, p.63.

[3] É o Marx de A ideologia alemã (1845). Rüdiger, 1991, p.59.

[4] É o Marx de Contribuição à crítica da Economia Política (1859).

[5] Rüdiger, 1991, p.59-62.

[6] Os livros diretamente relacionados por Konder à “concepção da história” de Marx são: A sagrada família, A ideologia alemã, para a produção da ideia, e As lutas de classes na França de 1848 e 1850 e O 18 do brumário de Luís Bonaparte, para a “aplicação ao tempo presente.” Konder, 2010, p.179.

[7] Konder, 2010, p.177. A citação direta sobre „concepção da história“ de Marx é extraída do „Prefácio de 1859“, à Contribuição à crítica da economia Política: “o modo de produção da via material condiciona o processo da vida social, política e espiritual, em geral”; “Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, ao contrário, o seu ser social que determina a sua consciência.” Konder, 2010, p.183.

[8] Konder, 2010, p.179.

[9] Fernandes, p., 1989, p.137, p.140.

[10] Fernandes, 1989, p.14-16.

[11] O significado de “história” é extraído do Prefácio à Contribuição à crítica da economia política de O 18 do brumário de Luiz Bonaparte.

[12] Além de práxis, ideologia, revolução, Internacional, proletariado, economia e método.

[13] Prefácio à contribuição à crítica da economia política.

[14] O 18 do Brumário de Luiz Bonaparte. Vianna; Castro, 2013, p.119-120.

[15] Vianna; Castro, 2013, p.131.

[16] Os axiomas que podem auxiliar aos historiadores são: “Do mesmo modo que a anatomia do homem é a chave para a compreensão da anatomia do macaco […] a economia burguesa nos dá a chave para a economia antiga…” ; examinar a produção predominante (o capital), examinar a propriedade da terra, examinar as relações recíprocas entre a produção predominante e a propriedade da terra. Vianna; Castro, 2013, p.133.

[17] Barros, [2011] 2013, p. 16-18.

[18] Os três conceitos estão sintetizados na Contribuição à crítica da Economia Política (1859). A dialética está no Manifesto e em A ideologia alemã. O modo de produção está em A ideologia alemã e no prefácio de Contribuição para a crítica da Economia Política (1859). Barros não cita Marx ou Engels na apresentação do conceito de historicidade.

[19] Barros, [2011] 2014, p.102-103, p.136-138.

[20] O Capital e Crítica à economia política.

[21] A luta de classes na França e O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte.

[22] Sentido ambíguo de ciência/processo. Vovelle, [2003] 2011, p.45.

[23] Vovelle, [2003] 2011, p.51.

[24] Livro 3 de O Capital.

[25] “Não é a consciência dos homens que determina seu ser, é, ao contrário, seu ser social que determina sua consciência”. Vovelle, [2003] 2011, p.54.

[26] Vovelle, [2003] 2011, p.60.

[27] Fulbrook, 2002, p.13-14.

[28] Hobsbawm, 2005, p.157.

[29] Diferenciação de „grupos humanos“ ou da „transformação de um tipo de sociedade em outro“.

[30] Hobsbawm, [1997] 2005, p.162-167.

[31] Hobsbawm, 2005, p.174-175.

[32] Hobsbawm, 2005, p.177.

[33] Fontana, 2004, p.219.

[34] Teses sobre Fueuerbach (1845) – „toda a vida social é essencialmente prática.“ Fontana, 2005, p.201.

[35] A ideologia alemã (1845/1846).

[36] Manifesto Comunista (1848).

[37] Escrito por Engels.

[38] Fontana, 2004, p.207.

[39] Fontana, 2004, p.207.

[40] Barros, [2011] 2013, p. 16-18.

Itamar Freitas

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