CABRAL, Sérgio. Grande Otelo: uma biografia. São Paulo: Editora 34, 2007, 320p. Resenha de: SANTOS, Tadeu Pereira dos. Grande Otelo sob o olhar de Sérgio Cabral. Histórias & Perspectivas, Uberlândia,  v. 22, n.41 – Jul./Dez. 2009.

O livro “Grande Otelo: uma biografia” foi escrito pelo jornalista Sérgio Cabral1, a partir do acervo particular de Sebastião Bernardes de Souza Prata/Grande Otelo, como resultado de um projeto dirigido pela Sarau (Agência especializada em espetáculos musicais e teatrais) e apoiado pela Petrobrás. A obra está estruturada em 25 tópicos, nos quais se evidencia a experiência de Sebastião Prata em um enredo que vai do seu nascimento à morte. Trata dos aspectos centrais da vida de Grande Otelo, em um processo em que presente e passado se mesclam na interpretação do autor.

O enredo sobre Grande Otelo destaca o imaginário construído sobre e para Sebastião Prata, como ator cômico, travestido no seu personagem Grande Otelo, fazendo dos principais meios de comunicação de circulação nacional (revistas e periódicos), ao longo do século XX, vozes suportes dessa memória.

Na interpretação de Cabral, Otelo ocupa o lugar central da narrativa pela seletividade de seu passado oferecido a ler em um movimento de heroicização. Assim sendo, a sua narrativa é construída com o propósito de que os acontecimentos sobre Otelo tenham o caráter de grandeza, transformando-o em herói do cinema e do teatro enfatizando a sua notoriedade, o seu brilhantismo e a sua genialidade. Essa constitui a espinha dorsal da escrita do autor, pelo manuseio do passado na construção de uma memória sobre Grande Otelo, isto é, como escritor/jornalista, é a partir de 2006 que ele interpreta a trajetória de vida do artista desde seu nascimento à morte, tomando a infância do mesmo como ponto de partida de sua interpretação. Destaca as suas experiências na cidade de Uberlândia, na Estação Mogiana, nas ruas e em um Circo Mambembe em trânsito pelo Triângulo Mineiro e Alto- Paranaiba.

Ao tratar do seu deslocamento para São Paulo, credita a essa experiência, tutelada por Abigail Parecis, o suporte de sua formação artística e sua inserção nas Companhias Negras de Teatro de Revistas. Cabral narra relações de Bastiãozinho com figuras públicas do campo artístico, referenciais marcantes na sua afirmação como Grande Otelo. O autor destaca amplamente jornais dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia onde Otelo figurava como atração dos espetáculos.

Além disso, narra suas experiências em São Paulo, explicitando a sua passagem pelo Patronato de Menores e sua posterior adoção pela família Queiroz que oportunizou seus estudos no Liceu Coração de Jesus, no qual se destacava nas apresentações cênicas, convencendo seus pais adotivos de que o potencial artístico fluía em seu ser. Cabral descreve ainda o seu retorno às atividades artísticas com Zaíra Calvacante e posterior engajamento com Jardel Jardecolis, que o leva ao exterior. Após seu retorno, estabelece- se na cidade do Rio de Janeiro.

Cabe ressaltar, que a infância é interpretada por Cabral como uma vivência marcada por aventura, sofrimento, mas, sobretudo, como reveladora da “predestinação” de Otelo ao mundo das artes, pois desde criança já se constituía em sucesso por onde passava e ocupava lugar de destaque na imprensa nacional.

Posteriormente à interpretação das experiências de Otelo em Minas e São Paulo, Cabral direciona-a para o Rio de Janeiro, descrevendo os acontecimentos reveladores da transformação de Sebastião Prata em seu personagem Grande Otelo, destacando Jardel Jardecolis como definidor de seu nome artístico Grande Otelo e dos múltiplos significados por ele assumidos na sua vida, a exemplo de sua iniciação no cinema, local de encontro com Mesquitinha, um dos seus mestres na vida.

A narrativa do período de 1935 a 1940 delineia o processo em que Otelo vai assimilando o Rio de Janeiro e se afirmando com as participações em peças teatrais e filmes da Cinelândia, espaços em que conheceu Noel Rosa, Mário Lago, Mesquitinha. Ao trabalhar com Ari Barroso em “Batuque”, fez parceria com Déo Maria ao interpretar e cantar a música “No tabuleiro da Baiana”. Destaca o autor que, em 1940, Sebastião Prata já era Grande Otelo e assumia lugar na escrita jornalista, como cartaz de peças de teatro e como alvo dos críticos da época.

O Cassino da Urca é dado a ler por Cabral como central na vida artística de Otelo por lá ter conhecido, na década de 1940, grandes destaques como Orson Welles, Carmem Miranda, Wilson Batista, Ataulfo Alves e Herivelto Martins, seu grande amigo. Contudo, leva o leitor a outros universos freqüentados por Otelo em seus trabalhos em rádio, cinema e música. Sobretudo, explicita os filmes dos quais participou, as dificuldades enfrentadas enquanto desempregado, sua participação na imprensa e suas relações familiares antes de integrar-se à Atlântida.

Tendo como suporte da sua escrita a imprensa da época, Cabral revela ao leitor uma fase definitiva na transformação de Sebastião em seu personagem Grande Otelo, em um processo em que faz do mesmo o suporte definidor do imaginário dos significados a ele atribuídos. Consoante aos propósitos de sua interpretação, intercala as suas glórias e frustrações, com destaque aos filmes O Moleque Tião e a Dupla do Barulho, ao seu exercício jornalístico na Revista Fiu-Fiu e à tragédia de 1949, quando da morte de Chuvisco, seu enteado, e suicídio da sua esposa. Como biógrafo transforma episódios pessoais do artista em grandes acontecimentos, ressaltando as suas glórias, os seus feitos, em um procedimento que lhe confere natureza de grande herói do cinema e do teatro: No primeiro semestre de 1943, os jornais andaram publicando também notas sobre as atividades futuras de Otelo no cinema. Ademar Gonzaga, o grande comandante da Cinédia, anunciou a realização do filme Alma do Morro, tendo o ator como protagonista. Pouco depois, a revista Cena Muda informou que a Atlântida faria vários filmes de curta-metragem e que o primeiro deles focalizaria Grande Otelo. Certo mesmo que, em 1943, ele seria definitivamente consagrado como um Grande astro do cinema brasileiro.2 O enredo de Cabral cristaliza uma dada versão sobre Otelo, a que está no imaginário de diferentes gerações, manifesta nas lembranças sobre ele. Esta versão corrobora as avaliações de seus trabalhos pelos meios de comunicação, reveladores da sua versatilidade, ponto importante na configuração da sua memória.

Cabral direciona a sua narrativa para explicitar a participação de Otelo no cinema brasileiro, em um percurso que vai da Atlântida ao Cinema Novo, entrecruzando suas atividades em rádio, televisão e teatro, em formato de um catálogo localizador do tempo e do espaço onde estava Otelo. No período entre a segunda metade da década de 1950 e a década de 1980 mapeia os passos de Otelo, agregando suas experiências nos diferentes canais de TV da época, tais como as TVs Excelsior, Tupi e o início da sua participação na Rede Globo, em que trabalhou até à década de 1990.

Além do catálogo das atividades de trabalho, Cabral também faz um mapeamento de figuras públicas dos campos artístico e político com as quais Otelo conviveu ao longo da sua trajetória de vida, evidenciando-as em cada fase.

A catalogação efetuada por Cabral revela os grandes feitos de Otelo, em um processo constitutivo da sua imagem como homem que viveu para o mundo das artes, doando sua vida para o cinema e o teatro do país, sacrificando sua família, justificando suas escolhas na sua condição de herói, por estar presente nos grandes momentos da atividade cultural no país. Cabral referencia o filme Macunaíma (1969), apresentado ao leitor como o trabalho de maior repercussão do artista pelas homenagens no país e exterior, o que lhe deu visibilidade nos diferentes meios de comunicação.

Dessa forma, leva o leitor às experiências de Otelo na década de 1970, destacando a sua participação em novelas e programas da TV Globo, com referências às suas participações no teatro e no cinema.

Em relação à década de 1980, Cabral constrói a sua narrativa de maneira a apontar Otelo já direcionando o enredo para sua morte. Isto é, ao elaborar uma relação, das homenagens a ele prestadas no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Minas Gerais, destaca a comemoração dos seus setenta anos, em 1985, a sua passagem por Uberlândia e, sobretudo, explicita sua participação no movimento pela Separação do Triângulo Mineiro e Alto-Paranaiba em que o artista fora garoto propaganda do Estado, contrariando seus conterrâneos uberlandenses. Nesse universo, entremeado por atividades de trabalho, Otelo é apresentado como um sujeito que indaga como fora e era tratado, revelando as suas angústias e, ao mesmo tempo, os seus problemas de saúde. Cabral o mostra como um sujeito que lutava pela vida e que permaneceu ativo até o seu último instante; isto é, um sonhador e lutador mesmo com saúde precária, decorrente da sua vida boêmia e idade.

Por exercer estreita relação com as atividades do cinema e do teatro, Otelo sempre recomeçava a sua vida, desta vez com o filho Pratinha, por meio da produtora Go-Up Produções Artísticas, agregando-se a isso o seu trabalho na Escolinha do Professor Raimundo da TV Globo, homenagens, amores e os sonhos de escrever livros e produzir filmes. Essas eram experiências de Otelo na década de 1990, relatadas por Cabral quando definitivamente ausentava-se do cinema e do teatro em razão da sua morte em 1993, por não resistir ao último infarto sofrido em plena Paris, onde receberia sua última homenagem. Desde o final da década de 1970, seu agravado estado de saúde o obrigara a hospitalizar-se em sua terra natal (Uberlândia) e em seguida por diversas vezes no Rio de Janeiro.

No enredo construído por Cabral, Otelo é o centro da narrativa, na medida em que a sua história, o entrecruzamento entre seus trabalhos, principalmente no cinema, são peculiares aos propósitos do autor em fazer de Otelo um herói na sua trama. Por isso, os personagens a ele vinculados são apresentados na medida em que possibilitam afigurar-lhe grandioso, um homem que se fez do porte dos demais, grande entre as grandes figuras públicas do país. Ao destacar a publicação do livro Bom Dia, Manhã, de autoria de Grande Otelo, Cabral seleciona do prefácio um parágrafo que destaca a importância do ator na vida nacional: Não sei de brasileiro vivo mais importante no cenário da vida nacional – seja ele político, esportista, artista, escritor – do que Sebastião Prata, pouco conhecido pelo nome inscrito no registro civil. Mas quem não conhece Grande Otelo? Os brasileiros mais célebres e amados – o poeta Drumond, o arquiteto Niemeyer, a atriz Fernanda Montenegro, o atleta Pelé, para citar apenas quatro expoentes – serão tão grandes, mas não serão maiores do que este pequeno homem de carapinha grisalha, nascido na pobreza do povo brasileiro, de imenso talento, de irremediável vocação para a arte, criador sem igual, a força e a graça. Nosso povão não possui quem seja tão sua imagem, que o simbolize com tamanha verdade.3 Decorrente desse movimento de escrita, observamos as poucas referências a familiares, talvez pela opção de quem sacrificou a família em função do cinema e do teatro. No cotidiano do artista, vida conflituosa com as mulheres, a boemia, os atrasos aos compromissos, a lida trabalhista (fugas) e as relações de convivência com alguns diretores, nos indicam as tensões vividas.

A biografia assume relevância para estudiosos ou simpatizantes da temática na medida em que lhes possibilita perceber uma interpretação sobre Otelo vinculada ao cinema, em um movimento transformador de Sebastião Prata em Grande Otelo, construída com suporte na grande imprensa brasileira. Aos historiadores, possibilita problematizar os procedimentos adotados pelo biográfico como recurso peculiar à escrita da história, analisando o propósito do autor e a materialidade da narrativa. Nesse movimento, são percebidos os recursos utilizados para a construção de uma versão sobre o sujeito por aquele que se propõe a “contar” sua vida.

As minúcias narradas constituem a estrutura do enredo em que texto e iconografia produzem sentidos configuradores de verdade.

A narrativa é construída de modo a criar uma falsa impressão no leitor de que os acontecimentos contados, e a maneira como o são, encerram a experiência do biografado, quando, ao contrário, o que se apresenta é apenas uma interpretação condicionada ao uso de documentos e às questões propostas pelo autor.

Nesse movimento, a escrita também revela concepções de história que se explicitam na maneira de narrar. Como se trata de uma história para fazer do biografado um herói, coloca-se em evidência os seus grandes feitos: sua participação pelos diferentes meios cinematográficos (Chanchadas, Cinema Novo, Cinema Marginal); sua inserção pelo jornalismo; seu mergulho no mundo musical por meio da composição de samba; sua trajetória no rádio, no teatro e na televisão, nos quais o aspecto factual assume relevância na narrativa, ao transformar experiências do artista em grandes manchetes, o que possibilita engrandecê-lo e heroicizá-lo.

Devemos ainda considerar que essa forma de reconstruir o passado a partir do presente ocupa lugar singular no mercado editorial.

Ou seja, essas narrativas transformadas em mercadorias têm nele espaço cativo e são dadas a ler como História.

Desse modo, muitas biografias evidenciam uma concepção de História centrada nos “grandes” homens e acontecimentos, valorizando a ideia do detalhe travestido em data, personificação, ao subjugar a história à trajetória de apenas alguns, o que leva a um movimento cristalizador de uma dada forma de interpretar, reveladora de uma concepção restritiva onde alguns sujeitos são considerados agentes históricos dignos de terem suas vidas biografadas.

Aqui, o sujeito Sebastião Prata dá lugar ao artista Grande Otelo. Suas agruras do cotidiano, seus anseios, enfim, sua experiência no meio social cede espaço, na ótica do biógrafo, aos festejos e dotes artísticos apresentados por Otelo. Cabral não enxerga no artista o homem e, despeja sua análise no caráter singular do artista, deixando de lado as ações do sujeito. Nos flashes literários promovidos por Cabral, nas fotos, no palco da história, o sujeito é Grande Otelo quem surge, Sebastião Prata é apenas coadjuvante nas lentes do biógrafo.

1 Sérgio Cabral é jornalista, músico, compositor e escritor. Escreveu as seguintes obras: Pixinguinha: vida e obra (1977), com a qual venceu o concurso de monografias da Funarte sobre MPB; No tempo de Almirante (1991); No tempo de Ari Barroso (1993); As Escolas de Samba do Rio de Janeiro (1996); Antonio Carlos Jobim: uma biografia (1997); Mangueira: nação verde e rosa (1998) e Nara Leão: uma biografia (2001), entre outras. Cabral é presença constante em programas de diferentes canais da televisão brasileira e participante ativo de festivais de música como jurado.

Notas

2 CABRAL, Sérgio. Grande Otelo uma biografia. São Paulo. Editora 34, 2007. p104.

3 AMADO, Jorge & OLINTO, Antônio. Prefácio do livro Bom dia, manhã de autoria de Grande Otelo. In. CABRAL, Sérgio. Grande Otelo: uma biografia. São Paulo: Editora 34, 2007. p. 290.

Tadeu Pereira dos SantosMestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia, pesquisador da vida e obra de Sebastião Prata/Grande Otelo e bolsita Capes sob orientação da Professora Drª Heloisa Helena Pacheco Cardoso.

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