CARDINA, Miguel, A tradição da contestação. Resistência estudantil em Coimbra no marcelismo. Coimbra: Angelus Novus, 2008. Resenha de: OLIVEIRA, Luísa Thiago de. Ler História, n.59, p. 285-287, 2010.

1 Resultante de uma dissertação de mestrado defendida, em 2005, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, orientada por Rui Bebiano, esta obra tem como objectivo caracterizar e compreender a politização estudantil em Coimbra de 1968 a 1974, dialogando com a situação nacional e internacional.

2 O objectivo é cabalmente cumprido num texto que se estrutura em 5 capítulos: dissidência estudantil e autonomia associativa; contexto e conteúdo da «crise académica de 69»; mudança social, oposições e juventude; 1970-74: um olhar a partir de Coimbra; culturas, sociabilidades e compromisso.

3 Trata-se de um trabalho de grande qualidade, teoricamente sustentado, na esteira dos estudos historiográficos que mostram a visibilidade da condição juvenil e a afirmação da sua cultura nos «longos anos 60», de que Rui Bebiano é uma indiscutível referência em Portugal, após um trabalho pioneiro de Nuno Caiado que como tal permaneceu por largos anos1. Todavia, este estudo, centrado em Coimbra, que não é de modo algum um estudo de História local e regional, aproxima-se, nalgumas páginas, da micro-história, dela convocando as potencialidades.

4 Com uma empiria sólida, que passou por muitas fontes primárias escritas, nomeadamente muita literatura cinzenta e imprensa periódica, metodologicamente alicerçada em análise textual, esta obra revela um maior trabalho com as palavras escritas do que com as orais. Parco na utilização da História Oral, MC afirma contudo as suas potencialidades para aos estudos historiográficos, ofuscados pela injustificada «crença na superior autoridade do documento escrito» (p. 19). A finura de análise textual é bem patente na análise das organizações maoístas ou das organizações de direita, por exemplo. MC capta as transformações de mentalidades bem como as sucessivas agendas políticas em textos cheios de palavras-de-ordem onde a diferença pode estar nas subtilezas da defesa de um «ensino popular» ou «ao serviço do povo» ou «popular, democrático e de massas». Sendo uma pesquisa difícil, esta reverteu num texto sintético, de grande clareza e rigor.

5 Criticando a tendência para «glorificar momentos particulares» (p. 17) de luta estudantil, como a crise de 1969, MC estuda os afrontamentos épicos mas também as resistências no campo mais do quotidiano, numa perspectiva de estruturação de culturas de resistência e este constitui um dos muitos méritos da obra.

6 Nos processos de mudança analisados, MC salienta a superação da visão temerosa ou pejorativa da política, existente nos anos 50 (característica encontrada também na ditadura franquista por Susan Narotsky e Gavin Smith), por uma outra forma de a encarar nos anos 60 e 70. A política constitui então um campo largo, que exige novas atitudes e comportamentos em áreas até então vistas com «não-políticas».

7 Olhando para este tempo de transformação, dum Portugal anacrónico, MC debruça-se sobre as mudanças de práticas culturais, as sociabilidades, a entrada significativa das mulheres no espaço público e a emergência da guerra colonial como um problema não só sentido como também objecto da agenda reivindicativa dos estudantes portugueses.

8 É nesta atenção à reconfiguração da cultura estudantil que MC analisa, por exemplo, os debates em torno da praxe, tema obviamente relevante quando se fala da academia coimbrã, e que MC perspectiva à luz da chamada problemática da «invenção da tradição» e cujo significado identitário de incorporação na Coimbra dos doutores sublinha.

9 Tal como é nesta óptica da reformulação do universo estudantil, que MC examina os confrontos existentes em torno de reportórios, textos e encenações, ensaios, espectáculos e itinerâncias dos grupos teatrais da Coimbra da época marcelista, que levam a posicionamentos perante o Oficina de Teatro da Universidade de Coimbra (OTUC), o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC) e o Círculo de Iniciação Teatral da Universidade de Coimbra (CITAC), sendo que destas acções resultaram cargas policiais, tiros e um ferido.

10 Num século marcado pela emergência dos movimentos juvenis e numa conjuntura de visibilidade da condição da juventude, até como actor social, também em Portugal se afirma a nova «cultura-mundo» com os seus gostos, por exemplo, na música, no cinema, na literatura, na banda desenhada, no vestuário, nas novas práticas de sociabilidade, na aventura das viagens. Porém, no contexto português, o colonialismo e o regime ditatorial (que, nesses anos, alguma imprensa, em renovação, tentava contornar) implicavam referenciais específicos para o protesto estudantil, que então se exprimiu com novo radicalismo embora sem a mesma dimensão festiva da «Nova Esquerda» ocidental. É nomeadamente nos «novos radicalismos de expressão marxista», constituídos por uma constelação de grupos de extrema-esquerda que criticam, simultaneamente, as «modernas sociedades de consumo ocidentais» e o «burocratismo soviético» (p.104) que MC se debruça.

11 MC encara os grupos estudantis como tendo um «habitual deficit de memória» (p.16) devido à sua renovação e curta permanência nas escolas. Contudo, os estudantes parecem manter redes de sociabilidade (associações de antigos alunos, círculos profissionais, por exemplo), tais como outros grupos que viveram experiências marcantes que exigiam uma nova socialização. Se parece plausível que a transmissão de memória entre gerações estudantis possa ser mais frouxa, por outro lado, a própria natureza transitória dessa experiência, transitória mas destacada, poderá levar a «memória de grupo» a fortalecer-se e a reproduzir-se através das redes sociais entretecidas e mantidas ciclicamente através de sucessivos actos comemorativos.

12 Feitas estas observações pontuais, salientem-se sobretudo as conclusões desta obra que são solidamente defendidas.

13 Assim, o processo que, em 1969, leva à greve às aulas e aos exames não emerge de repente, enquadrando-se num processo de mudança e politização anterior, iniciado pela luta contra o Decreto-Lei nº 40.900 em 1956/7 e pela crise de 1962 e acentuado, já nesta década, pela denúncia de realidades de fundo como o carácter repressivo do regime e a guerra colonial ou por acontecimentos datados como a apoio às vítimas das cheias de 67.

14 Do mesmo modo, o termo da crise de 1969 também não representa o fim da luta estudantil: a crítica frontal ao colonialismo ganha terreno, há uma nova crise em 1971, a cultura politiza-se, pululam novas organizações.

15 Esta mudança não é apenas política num sentido estrito, sendo que, mesmo neste campo, se verificam as inovações mencionadas. A mudança é também cultural e social, expandindo-se, difusa mas subtilmente, e gerando um novo clima. O estudante vê-se como comprometido com a luta pela transformação do mundo, da vida e do quotidiano e a ele próprio cabe já ser actor dessa mudança, manifesta no campo da cultura, das relações de género e das sociabilidades. E é neste sentido que “tudo é político”.

16 Estamos, pois, perante uma obra de referência que resulta de uma investigação difícil, sustentada, inovadora, que contribui fortemente para o renovar dos estudos sobre os movimentos estudantis, juvenis e as oposições nos anos 60 e 70 do século passado.

Nota

1 Ver nomeadamente: Bebiano, Rui, O Poder da Imaginação. Juventude, Rebeldia e Resistência nos Anos 6 (…)

Luísa Tiago de Oliveira – CEHC – ISCTE-IUL

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