ROSEMAN, Sharon R.; PAKHURST, Shawn S. (Eds.). Recasting Culture and Space in Iberian Contexts. Albany: State University of New York Press, 2008. Resenha de: FONSECA, Inês. Ler História, n.58, p. 238-243, 2010.

1 Organizado por dois antropólogos (Sharon R. Roseman, da Memorial University of Newfoundland e Shawn S. Parkhurst, da University of Louisville), este livro tem por objectivo analisar a interdependência entre as relações de poder e os processos de construção e transformação cultural, atribuindo uma centralidade aos contextos espaciais em que estes ocorrem. Para tal, conta com o contributo de vários autores consagrados que têm dedicado as suas investigações antropológicas a terrenos situados na Península Ibérica: João Leal, Brian Juan O’Neill, António Medeiros, Susan M. DiGiacomo, Oriol Pi-Sunyer, Maria Cátedra, José Manuel Sobral, Jacqueline Urla e James W. Fernandez.

2 Inicialmente, através de um olhar superficial, surgem duas objecções relativamente à organização da obra e à temática enunciada e que se prendem com as dificuldades inerentes a este tipo de colectâneas. Em primeiro lugar, porquê a selecção destes autores e não de outros (que também se ocupam do contexto da Península Ibérica), uma vez que é imediatamente visível a participação de autores nacionais ou de influência anglo-saxónica em detrimento da possível participação de autores francófonos, por exemplo, que também se ocupam da mesma àrea geográfica. E em segundo lugar, que identidade cultural e social é essa que parece ser sugerida na alusão do título ao «contexto ibérico» e na referência da introdução à «Ibéria», que unidade existe entre estes terrenos e o que é que os distingue de outros (no sul da Europa, por exemplo)? Na verdade, trata-se aqui da publicação de um conjunto de ensaios apresentados originalmente num painel do congresso da American Anthropological Association – é este o motivo inicial que confere unidade ao conjunto dos textos e que justifica a presença de cada um na publicação final. Simultaneamente, a totalidade dos artigos ganha uma coerência e um significado próprio através do texto de apresentação (escrito pelos organizadores), onde se estabelece como fio condutor da obra e denominador comum entre os artigos a questão da importância do elemento da espacialização nas configurações culturais analisadas.

3 O livro está organizado em quatro partes – 1. Espaços Coloniais e Identidades Nacionais; 2. Fascismo, Espaços Culturais e Políticas de Memória; 3. Regionalismo e Espaço e 4. Políticas Culturais e o Global – onde se observam diferentes escalas espaciais (global, nacional, regional, local) e as suas conexões, nas quais as relações entre poder e cultura se conjugam produzindo identidades e subjectividades relativamente a cada um dos espaços considerados.

4 No texto intitulado Culture and space in iberian anthropology, da autoria dos organizadores da obra, refere-se a existência de uma antropologia ibérica, conceito que temos alguma dificuldade em aceitar sem crítica e cuja definição não fica bem explicitada – trata-se de uma antropologia praticada em terrenos da Península Ibérica ou sobre temáticas especificamente relacionadas com esta delimitação geográfica? A existência desta unidade cultural e social fica por explicar. No entanto, é feita, uma excelente síntese sobre a temática principal aqui tratada: a importância do factor espacial na construção das identidas e das relações de poder.

5 Na primeira parte da colectânea, é tratada a questão da produção de identidades nacionais em contextos e espaços coloniais vs. colonizados.

6 No texto inicial, João Leal questiona a identidade nacional portuguesa na perspectiva da sua relação com dois espaços (o território nacional continental e o império). O autor começa por fazer alusão ao paradoxo da distinção (proposta por G.Stocking) entre os estudos antropológicos das «culturas primitivas» pelos países imperialistas e das «tradições e costumes populares nacionais» pelos países preocupados em construir uma unidade nacional – o caso português constitui um cúmulo das duas situações. Esse facto reflecte-se não só na cultura popular, mas também no pensamento de intelectuais e antropólogos, cujos discursos (mesmo quando se referem à construção de uma identidade nacional) incluem um sub-texto relativo ao império (sempre presente, mesmo quando escondido).

7 Por sua vez, Brian Juan O’Neill refere-se à actual construção identitária de um grupo minoritário (a comunidade Kristang) em Malaca (antiga colónia portuguesa). Esta é o resultado de uma justaposição de identidades sucessivas, recriadas em diferentes fases e obedecendo a distintas lógicas: de aproximação à cultura e identidade portuguesa, de afastamento relativamente aos malaios, de supressão de elementos não-malaios, etc. O processo culmina com a construção daquilo que o autor considera uma identidade hiperportuguesa, semelhante à das comunidades de emigrantes protugueses. Trata-se de uma tentativa por parte deste grupo em se distinguir relativamente aos grupos vizinhos próximos (geografica e culturalmente).

8 Finalmente, no último artigo deste grupo, António Medeiros refere-se ao aparelho ideológico imperialista do Estado Novo e através do estudo da exposição colonial portuguesa (celebrada em 1934, no Porto) mostra como este se preocupou em construir uma identidade nacional com base na simultaneidade de elementos distintos – através da representação do território rural português (com o folclore de algumas regiões do país – Minho e Trás-os-Montes) e da representação das colónias. Trata-se de questionar e explorar os processos de construção, por parte do regime fascista, de uma certa ideia da nacionalidade portuguesa expressa no célebre slogan «Portugal: do Minho a Timor» e que tinha como objectivo a inclusão de todas as províncias do império (do continente e ultramarinas) numa unidade.

9 Na segunda parte, são abordadas as construções de memórias daqueles que se viram forçados ao exílio ou que viveram sob regimes ditatoriais e interroga-se a contribuição de diferentes espaços culturais nesses processos.

10 No artigo de Susan M. DiGiacomo, analisam-se dois sistemas educativos, ao longo do século XX em Espanha: um de tradição progressista e de inovação pedagógica e outro de tradição conservadora e ultramontana. Ambos são analisados como metonímias dos respectivos regimes (republicano e franquista) e nesse sentido, a sala de aula é entendida como um espaço onde têm lugar relações de poder: entre dominantes e dominados e as suas respectivas visões do mundo. As memórias sobre o que foi esse espaço de poder (onde, aparentemente, apenas os dominantes dominam!) são o resultado do posicionamento de cada um face ao poder exercido (do lado dos dominados ou dos dominantes). O facto de algumas dessas memórias sobre o passado se manifestarem através do humor (como refere a autora) demonstra que a resistência é possível.

11 No texto que apresenta, Sharon R. Roseman analisa a acção da sección femenina da Falange, durante a ditadura franquista, junto dos grupos de mulheres no contexto rural da Galiza. Trata-se de uma intervenção que tem como objectivo fazer penetrar a ideologia estatal e os seus agentes numa região e junto de populações que até então tinham tido pouco contacto com o Estado Espanhol. Esta tarefa é realizada através de um esforço de modernização do estilo de vida das populações camponesas e cumpre-se através da imposição de novas práticas e actividades quotidianas relativas não só ao espaço de trabalho (os campos) como também ao espaço privado das famílias (as casas). A autora mostra-nos como, apesar de uma certa resistência manifestada pelas populações relativamente a práticas inovadoras pouco adaptadas ao seu quotidiano, a maioria das memórias sobre a sección femenina e a sua acção são positivas – no sentido de reconhecer a introdução de melhorias nas condições de vida destas populações, que o Estado fazia assim participar na sua ideologia (nomeadamente, no que diz respeito ao papel da mulher na sociedade).

12 No último artigo desta parte, Oriol Pi-Sunyer revela-nos as suas memórias relativas à infância vivida no seio de uma família republicana catalã que se viu obrigada a várias migrações (primeiro, da cidade para a província de Barcelona; depois, para França) até, finalmente, se instalar em Inglaterra. O autor refere a existência de «culturas portáteis» e conta como, durante todo o período de exílio, na sua própria família alguns elementos da cultura catalã (maneira de ver o mundo, gastronomia, idioma, etc.) foram transportados e reproduzidos (com maior ou menor dificuldade) nos vários locais por onde passaram. Por outro lado, novos elementos das culturas onde se integraram foram sendo adoptados – entre outros, ressalva a partilha da preocupação com o conflito bélico e o posicionamento da sua família contra os fascismos europeus, solidária com os franceses e ingleses. Finalmente, o autor alude a essa cultura familiar híbrida, que constitui o resultado dos diversos movimentos e exílios por que passaram, demonstrando que os processos de construção cultural e de memória social nunca ocorrem em sentido único.

13 A terceira parte desta obra centra-se na problemática dos contextos regionais e das clivagens que eles implicam (urbano-rural / norte-sul / centro-periferia).

14 No estudo de María Cátedra, o culto da Virgem de Sonsoles em Ávila e a rivalidade entre esta e a Santa Teresa de Ávila servem de pretexto para explorar a distinção urbano-rural existente na sociedade daquela cidade. Se a Santa Teresa é amplamente reconhecida, a partir do exterior, como símbolo de Ávila, enquanto que a Virgem de Sonsoles (padroeira do Valle de Amblés) tem menos notoriedade e é sobretudo uma santa daquele contexto rural, a autora interroga-se sobre a importância atribuída a esta última pelos habitantes da cidade. Através de uma descrição dos conflitos que têm existido ao longo do século XX, entre as confrarias e a hierarquia da igreja católica (no sentido de determinar quem detém a responsabilidade sobre a gestão dos assuntos da Virgem de Sonsoles) e dos vários grupos sociais envolvidos, vemos emergirem por detrás destas disputas o factor que justifica a sua existência – os interesses económicos.

15 No texto de José Manuel Sobral, o autor parte de uma série de acontecimentos das últimas 3 décadas e de alguns aspectos veiculados nos discursos populares, relativos à existência de uma conflitualidade norte-sul em Portugal, para demonstrar que se trata da herança de um discurso intelectual sobre a identidade portuguesa que cruza os factores raça e espaço. Recorrendo às obras de vários autores dos séculos XIX e XX (geógrafos, antropólogos, historiadores, escritores) que se debruçaram sobre a questão da identidade nacional, demonstra a construção de estereótipos sobre o país. Estes revelam a existência de uma primeira fase, com a presença de argumentos de carácter racial, que justificariam a divisão do país entre: o norte (de herança ariana) e o sul (de herança semítica). O autor defende que as actuais relações da região norte do país (periférica) e o centro geopolítico (considerado o sul, por oposição) – Lisboa – constituem um elemento fundamental na continuidade desse discurso sobre a divisão norte-sul que ainda hoje se verifica (nomeadamente, ao nível do comportamento dos eleitores: mais conservadores, a norte e progressistas, a sul).

16 O objecto de análise, no texto de Shawn S. Parkhurst, são as representações dos jornais regionais do Alto Douro e o modo como contribuem para a fabricação de uma homogeneidade simbólica relativa à sua região de referência. Partindo da leitura de artigos de um correspondente local, publicados em jornais regionais, refere-se a conexão entre o contexto espacial e o posicionamento social do seu autor. Neste sentido, surgem à luz do dia as tensões presentes nos diferentes níveis espaciais (a aldeia, a região, o país, a união europeia) através de uma construção identitária.

17 Na quarta parte é a relação entre o local e o global que é problematizada, através da observação das culturas políticas e da participação cívica.

18 No início do seu texto, Jacqueline Urla explicita que não pretende analisar a relação entre o local e o global enquanto par de opostos, mas no sentido de questionar aquilo que possa existir da conexão entre um e outro. Através da observação de um espaço de diversão urbano (o Kafe Antzokia) a autora revela uma transformação recentemente ocorrida na construção identitária no País Basco, pondo em evidência a relação entre os seus limites (linguísticos, espaciais e culturais) localizados e uma abertura ao pluralismo e ao global, que resulta no que parece um paradoxo: uma identidade basca cosmopolita.

19 No seu Posfácio, James W. Fernandez.revê os artigos presentes na obra e trabalha dois conceitos que os atravessam, estabelecendo a diferença entre «espaço» (enquanto entidade territorial, limitada) e «sítio» (no sentido da construção social do espaço e das significações que lhe são atribuídas).

20 Concluindo, esta obra apresenta-nos um conjunto de estudos etnográficos em torno de uma temática comum: a construção social e cultural de espaços, em diferentes contextos geográficos, sociais, culturais e históricos (desde os séculos XIX e XX até à actualidade). A perspectiva de análise adoptada – que salienta as relações de poder que estão presentes e participam nesse processo – torna-a um contributo interessante para os investigadores de diferentes domínios das ciências sociais.

Inês Fonseca – Departamento de Antropologia e CRIA – FCSH-UNL

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