LÉOURIER, Christian. Contos e lendas da mitologia celta. Tradução de Monica Stahel. São Paulo: Editora WMF/ Martins Fontes, 2008, 224 p. Resenha de: CAMPOSI, Luciana de.  Entre a História e a Memória dos  mitos e lendas celtas. sÆculum REVISTA DE HISTÓRIA, João Pessoa, [23] jul./ dez. 2010.

Mitos, lendas e contos folclóricos sempre foram guardiões da memória e, para algumas culturas que valorizavam sobremaneira a oralidade, essas narrativas também eram as responsáveis por transmitir a história. As narrativas mitológicas celtas2, que, na sua maioria vão apresentar as batalhas travadas entre deuses e monstros, homens e criaturas fantásticas, são narrativas fundamentais para se entender a dinâmica da sociedade celta na Irlanda. Todos esses contos que hoje lemos refletem, por assim dizer, a reverência que os celtas nutriam pela oralidade: conferiam um caráter quase que sagrado às palavras atribuindo a elas um aspecto mágico como é possível constatar em algumas narrativas como, por exemplo, em “A busca dos filhos de Tuireann” em que três jovens empreendem uma viagem pelos mares do mundo em busca de tesouros fantásticos e para se locomoverem apenas dizem: “– Barco de Mananann, já que estás sob nossos pés, leva-nos à Pérsia!” (p.45). São as palavras as responsáveis por conduzir os jovens a incontáveis aventuras, da mesma maneira que as palavras são usadas para transmitir o conhecimento, as tradições e, desta feita, perpetuar pela oralidade as tradições, a história e a memória.

Entre essas as narrativas há uma em especial “A mulher mais bonita do mundo” que se encontra, originalmente, no quarto ramo d’O Mabinogion, denominado Math, o filho de Mathonuu. Este ramo do Mabinogion narra as aventuras do rei Math do país de Gales, seu fiel amigo Gwydion, seu sobrinho Llew llaw Giffes e Arianhod, a colérica mãe de Llew. Tomada de fúria por ter dado à luz um menino indesejado, Arianrod o amaldiçoa e, depois disso, encerra-se numa fortaleza. Por intermédio da magia Gwydion vai quebrando cada uma das maldições proferidas pela irmã e quando se faz necessário, por intermédio de sortilégios, cria para seu sobrinho uma mulher com as mais belas flores existentes nas terras galesas. Quando está pronta essa mulher feita de flores recebe o nome de Blodeuvedd (Cara de Flores)3. Sendo criada a partir de elementos não humanos, Blodeuvedd vê o mundo de forma diferente e trai seu esposo o que o leva a matar o amante da esposa em uma luta para ter sua honra restaurada. Decepcionado com sua criação, Guydion transforma a “mulher mais bonita do mundo” em coruja, para que ninguém mais apreciasse sua beleza enquanto o Sol brilhar, só será permitido a ela voar durante a noite. Essa narrativa pode ser analisada como um mito de criação como sugere Miranda e Stephen Aldhouse-Green em seu estudo The Quest for the shaman, ainda sem tradução no Brasil. Os autores fazem uma pesquisa detalhada acerca da criação em vários mitos celtas presentes no Mabinogion e na narrativa que é considerada a Ilíada Celta, A razia das vacas de Cooley (Tain Bó Cooley). Analisando dados arqueológicos e cruzando-os com as fontes literárias, os autores conseguem apresentar ao leitor que já possui um prévio conhecimento da mitologia celta, aspectos fundamentais dessa sociedade que, muitas vezes, permanecem ocultos pelos véus da literatura esotérica e de fantasia que nas últimas décadas apossou-se das narrativas míticas celtas para construir uma história e preservar uma memória que obviamente não estava de acordo com o pensamento e a lógica celta, mas atendia perfeitamente aos apelos de um mercado crescente, que em nada se preocupa com a verdadeira pesquisa sobre os celtas, sua história, mitologia e memória, mas apenas com os dividendos gerados por eles.

Outra narrativa que também reflete aspectos importantes do mundo feminino e as influências do outro mundo na vida dos mortais é “A fraqueza dos ulates”, onde é narrada a aventura amorosa do rei Crumchu com a deusa Macha. Esta se apiedou do rei e foi viver com ele em sua propriedade devido à tristeza que sentia pela falta de uma esposa. Macha restituiu a alegria e a prosperidade das terras de Crunnchu e pede a ele que jamais revele seu segredo: todas as manhãs ela corre com os cavalos em velocidade surpreendente, mesmo grávida. Não contendo sua língua, o rei acaba dizendo, em assembleia, o segredo de sua esposa, o que desperta a ira do grande rei da Irlanda e este obriga Macha a correr com seus velozes cavalos para não assistir à morte de seu esposo. A deusa vence os cavalos do rei e, ao final, exausta dá a luz a gêmeos e profere uma maldição: todo homem em Ulster será frágil como uma mulher dando à luz. As mulheres, crianças e os filhos de deuses estariam livres de tal maldição.

A partir desse momento a capital de Ulster passou a chamar-se Emain Macha, os gêmeos de Macha. A narrativa descrita por Christian Léourier assim como descrita por outros autores como Pedro May faz uma ponte desse mito com a conturbada situação da província do Ulster atualmente (localizada no norte da ilha, mais precisamente onde hoje está a Irlanda do Norte) que não honra os acordos de paz e muitas vezes descumprem o cessar fogo proposto pelo IRA e pelo seu braço político e Sinn Féain. Como sugere o autor, ainda hoje a maldição dos deuses antigos atinge sem clemência o mundo moderno dessacralizado. São os ecos da memória mítica que caminham conosco.

A narrativa “A ilha das mulheres” é outra versão bem simplificada da famosa “A viagem de Bran”, cristianizada como “A viagem de São Brandão”, narrativas essas que também deram origem a outras, como, por exemplo, “Connla e a donzela encantada”. Bran é um bom rei que um dia recebe a visita de uma bela mulher que exige de volta um galho de ouro que Bran encontrou na praia. A jovem leva seu galho de macieira feito de ouro e prata embora, mas Bran apaixona-se e vai atrás dela. Empreende uma viagem por mar e desembarca em uma ilha paradisíaca onde não há dor nem males. Depois de alguns dias Bran e a tripulação decidem voltar para a Irlanda, mas são alertados para que não o façam. Desobedecem e assim que pisam na terra transformam-se em cinzas. Passaram-se mais de trezentos anos, pois no país das fadas a contagem do tempo é diferente. Assustado Bran narra suas aventuras aos seus descendentes irlandeses e parte novamente à procura da ilha mágica para que lá possa viver pela eternidade, pois ele não poderá habitar a terra novamente.

Essa narrativa da viagem em busca de um lugar mítico, sem dor nem morte é uma constante nas narrativas celtas, mesmo após a cristianização da Irlanda, pois a partir daí as viagens a lugares míticos são vistos como peregrinações para difundir os ensinamentos cristãos realizando assim uma reapropriação dos Cristãos irlandeses da Alta Idade Média dos antigos mitos e lendas celtas que, ao apagarem seu passado pagão e darem versões cristãs as antigas narrativas, acabam por preservar tanto a história como a memória dos deuses e dos próprios celtas pagãos.

A publicação de Contos e lendas da mitologia celta vem contribuir sobremaneira para que o público brasileiro que há algum tempo “descobriu” os celtas e permanece ávido de novos conhecimentos. Essa publicação vem, de certa forma, preencher essa lacuna que muitas vezes foi – e ainda é – ocupada por uma literatura esotérica e por pseudo estudos que mais confundem do que esclarecem o público – acadêmico ou leigo – sobre os celtas; pois tais estudos estão a cada dia mais consolidados no Brasil e, a prova disso são as publicações especializadas, os simpósios e o maior número de traduções de importantes obras sejam elas acadêmicas ou de divulgação.

Contos e lendas da mitologia celta apresenta uma linguagem acessível, numa tradução bem cuidada e com ilustrações bem criativas executadas por Mauricio Negro. Essas narrativas são fontes importantes para quem deseja travar um primeiro contato com a mitologia celta e pode ser a porta de entrada para aqueles que desejam iniciar estudos e pesquisas sobre a sociedade, cultura, mitologia e religião dos povos celtas, sempre aliados a outras fontes literárias de origem celta bem como bibliografia especializada que, infelizmente ainda é avis rara no Brasil.

Notas

2 CAMPOS, Luciana. Contos-de-fada celtas. Brathair, v. 3, n. 1, 2003, p. 65-66. Disponível em:<http://www.brathair.com>.

3 MORAIS, Domingos (tradução). O Mabinogion. Lisboa: Assíro e Alvim, 2000.

Luciana de Campos –  Mestre em História pela Universidade Paulista Júlio de Mesquita Filho, campus de Franca. Professora Assistente no departamento de História da Universidade Federal do Maranhão. Membro do NEVE – Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos (http://groups.google.com.br/group/scandia/).

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