SANTOS FILHO, José Camilo dos; MORAES, Silvia E. (orgs.). Escola e Universidade na pós-modernidade. Campinas/ São Paulo: Mercado de Letras/ FAPESP, 1ª reimp., 2010, 247p. Resenha de: PASSOS, Rogério Duarte Fernandes dos. Escola e Universidade na pos-modernidade. Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 3, n. 1, p. 236 – 236, jan/jun. 2011.

Escola e Universidade na Pós-Modernidade, obra coordenada pelos professores José Camilo dos Santos Filho e Silvia E. Moraes debate as interfaces e intercorrências que se colocam para a Universidade – e para a própria educação – no bojo do processo que se convencionou chamar de pós-modernidade.

A conceituação e contextualização da pós-modernidade como momento histórico que não apenas sucedeu a modernidade, mas reestruturou o olhar humano acerca do relacionamento do homem em face do mundo que o cerca e em face do próprio conhecimento – e, por conseguinte, da própria Universidade –, é objeto da obra em questão, donde se tem uma reconstrução do processo que resultou na superação do paradigma de razão da era moderna, como se lê do texto de José Camilo dos Santos Filho.

Consoante nos é colocado pelo trabalho do professor inglês Mike Featherstone, esse, por certo, é um processo que alcança a Universidade, obrigando-a a uma reflexão acerca de seu papel, cotejando novas formas de comunicação e incorporação de novas tecnologias em favor da instrumentalização do saber – a exemplo do livro digital –, contemplando inclusive a mobilidade dos estudantes na produção e construção do conhecimento.

Os aspectos que envolvem a crise identitária da Universidade moderna não podem ser tomados sem um profundo estudo que esteja aliado à compreensão da própria crise do Estado moderno, donde se tem um novo pressuposto gnosiológico, de sorte que a relação do homem com a natureza não pressupõe apenas a uma transformação entre ambos, mas o alicerçar de transformações apoiadas em conhecimento – manifestação de um verdadeiro pós-industrialismo –, voltadas à prestação de serviços e à sua operacionalização, ocasionando modificações na estrutura social, cada vez mais necessitada de redes de processamento e geração de informação.

As soberanias nacionais erodidas e a própria mundialização da economia criam o espaço para o reexame do Estado e a análise de sua crise identitária, ao lado do esforço de alguns grupos para manutenção das identidades locais e étnicas, em que o paradigma do mercado coloca desafios ao modelo de universidade idealista humboldtiana, originalmente concebida no bojo de uma sociedade pré-industrial. Essas são algumas das linhas da relevante contribuição de Pedro Goergen.

A universidade desafiada pela crise de uma racionalidade que propõe uma explicação única para o mundo não se coloca mais como elemento sustentável, de maneira que a pós-modernidade oportuniza o questionamento de seu papel como agente capaz de reger o conhecimento. O seu projeto educativo tem a ocasião de construir uma nova significação, contemplando um projeto de educação geral capaz de trazer fundamentos para a compreensão holística da natureza e os correspectivos princípios de ciência, trazendo consigo os referenciais da literatura, da história – e de muitas outras áreas do conhecimento – para a tentativa de se compreender verdadeiramente os fatos que circundam a vida social, despertando as competências para uma vida de aprendizagem, debatendo o conseguinte papel e relacionamento entre alta cultura e cultura popular.

A interdisciplinaridade, no interior desse processo, torna-se ferramenta de grande importância para subsidiar a eficaz formação e atuação especializada do estudante, no que conclui Elisabete Monteiro de Aguiar Pereira – dentre tantos outros aspectos abordados em seu trabalho – que caberá às universidades de todo o mundo responder a esses dilemas, recuperando a capacidade de se autoquestionar, lançando-se na utopia da construção de um projeto que identifique a sua função contemporânea.

Silvia E. Moraes fecha a obra discutindo questões que envolvem o currículo, a transversalidade e a pós-modernidade, contemplando evolução científico-tecnológica, meio ambiente, cidadania, multiculturalismo, estética, sexualidade e saúde.

Essa tarefa implica em uma superação das concepções positivistas de ciência, além da superação do fracionamento do saber e da descontextualização de problemas. Lembra a autora acerca da necessidade de igual superação que ciência e filosofia devem empreender no intuito de abandonar as suas reivindicações metafísicas, enxergando-se como algumas dentre as várias narrativas de um conjunto maior.

A transversalidade é parte de suas preocupações, em diagnóstico de superação do currículo moderno, transpassado por um contexto de pluralismo cultural, solidariedade e teorias científicas emergentes, que refutam uma suposta neutralidade da ciência, propondo em seu interior uma profunda reflexão de natureza ética.

Experiências curriculares em diferentes países – de diferentes realidades em distintos continentes – são cuidadosamente abordadas por Silvia E. Moraes na sua proposta de instrumentalização e compreensão do pluriculturalismo na construção curricular, no que há advertência de não se ter novos currículos apenas como novos conteúdos a serem agregados aos já vigentes, mas, sobretudo, em tê-los como instrumentos para o estabelecimento de relações de entendimento entre a produção econômica e a construção de conhecimento.

Por derradeiro, Escola e Universidade na Pós-Modernidade nos traz uma relevante contribuição para a compreensão do ambiente escolar – e principalmente o universitário – no bojo das transformações e reorientações de paradigma que a condição pós-moderna propõe no tradicional método positivista da aprendizagem, em especial, no reconhecimento da edificação de um novo papel da instituição universitária em face das circunstâncias de um Estado que – se se constitui ainda em unidade básica de referência para análise – se dilui em uma rede ao longo do mercado mundializado estabelecido pelo processo de globalização.

Rogério Duarte Fernandes dos Passos – Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Email: [email protected]

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