VATTIMO, Gianni. Diálogo com Nietzsche: Ensaios 1961-2000. Trad. Silvana C. Leite. São Paulo: Martins Fontes, 2010. Resenha de: MANIERI, Dagmar. Nietzsche e a história: a relação com o passado. Revista de Teoria da História, n.5, junho/ 2011.

Depois de seus lançamentos em 2000 (Milão:Garzanti), 2002 (Barcelona:Paidós) e 2006 (Columbia Univerty Press), os leitores brasileiros do filósofo italiano Gianni Vattimo já podem encontrar mais uma de suas obras. Diálogo com Nietzsche surpreende, logo na apresentação, com a afirmação de que “um trabalho de organização “definitiva” de seu pensamento – a de Nietzsche – não é possível e não o será ainda por um tempo” (VATTIMO, 2010, p. 2). É que em torno de Nietzsche, assim pensa Vattimo, ainda existe toda uma “mitologia nietzschiana”. Eis o motivo da obra, a razão do interesse que o filósofo alemão desperta em pensadores da condição pós-moderna como Vattimo.

Acima de tudo o que mais preocupa Vattimo ao rever o pensamento de Nietzsche é a problemática da história. Por isso seu destaque especial em relação ao historicismo e à idéia de eterno retorno. A apreensão de Vattimo é clara e bem explicativa. Mas há um ponto (e que podemos dizer, meio “obscuro”) onde ele parece adaptar o pensamento de Nietzsche às suas preocupações. Isto ocorre particularmente com relação à instância do agir. Encontramos passagens inquietantes no segundo ensaio – A visão de mundo de Nietzsche – que nos faz pensar nas seguintes questões: quando o historicismo já não existe e em seu lugar aparece o eterno retorno, o que dá significado à minha ação? O que me motiva a viver neste mundo(de repetição) nietzschiano? Vattimo explica que em Nietzsche o “poder de decidir” nos chega através de uma espécie de “raiz remota”. Daí para diante, ele se atreve (que em suas palavras surge como “podemos imaginar”) a identificar esse novo padrão como a “totalidade do ser”. Depois, apresentanos sua idéia: “Aliás, esse é também um sentido possível dos discursos sobre a responsabilidade de cada decisão, na qual está implicado o destino de tudo” (Ibid., p. 72).

Temos aqui, dois problemas: o “ser” e a “responsabilidade”. Objetos estranhos que Vattimo insere no mundo nietzschiano. Vattimo não deixa de explicar esse “ser”; diz que ele aparece como “totalidade do ser”, a raiz remota. Esse “ser” é a criatividade, sempre ativa, jamais ocorrida de uma vez por todas. Hipótese: minha autocriação deve se referir a esse “ser”. E o mundo? Não existe o mundo, mas “mundos como posições sempre em movimento da origem, a qual gera os mundos como, ou enquanto (e talvez seja a mesma coisa), gera as perspectivas dentro das quais eles se revelam” (Ibid., pp. 73, 74). Como me aproximar da verdade? “Manter-se em relação com a origem, evitar perder-se no interior da própria perspectiva histórica absolutizando-a, (…)”, responde Vattimo (Ibid., p. 74).

Assim, o problema é que Vattimo, numa falsa saída, parece “desejar” uma nova metafísica em Nietzsche; por isso posso afirmar a “responsabilidade”. Isto significa um “dedicar-se conscientemente à própria autoformação”. O “ser” aparece como “dinamicidade da origem permanentemente viva e originante”; mas para me manter nesta perspectiva nietzschiana, Vattimo acrescenta que devo assumir plenamente “as próprias responsabilidades”: de um homem de autocriação. Assim, o problema principal está na preocupação de Vattimo em fixar um Nietzsche, simplesmente, na ordem da criação.

Gilles Deleuze já havia feito essa tentativa de se pensar o eterno retorno como “repetição”. Mas é evidente que essa última adquiria, aos olhos de Deleuze, uma

dimensão progressista: A repetição aparece, pois, como a diferença sem conceito, a diferença que se subtrai à diferença conceitual indefinidamente continuada. Ela exprime uma potência própria do existente, uma obstinação do existente na intuição, que resiste a toda especificação pelo conceito, por mais longe que se leve esta especificação (DELEUZE, 2006, p. 36).

Quanto ao tema da metafísica em Nietzsche , Robert Legros empreendeu uma abordagem crítica – que se encontra na obra coletiva Por que não somos nietzschianos – ao mostrar que Nietzsche não conseguiu ficar infenso à metafísica:

A interpretação nietzschiana da vida como criação dos valores torna a pôr em questão o subjetivismo metafísico a que cede Nietzsche quando exalta a soberania do indivíduo independente, a “grande individualidade”, o indivíduo singular e incomparável, o filósofo como criador de valores (LEGROS, 1993, p.180).

Mas aqui, trata-se de visualizar no empreendimento de Nietzsche a própria dimensão da metafísica, diverso de Vattimo que parece desejar fixar um Nietzsche simplesmente relativista. Isto fica evidente no ensaio O problema do conhecimento histórico e a formação da idéia nietzschiana da verdade. Nele, o leitor encontrará passagens importantes sobre o pensamento do primeiro Nietzsche (da década de 1870) sobre a história. Vattimo responde a uma pergunta que é fundamental para a teoria da história: que forma historiográfica nasce do pensamento de Nietzsche? Para isso, toma como base a obra Considerações extemporâneas II – Da utilidade e desvantagem da história para a vida. Mostra que para Nietzsche o “fato (histórico) é algo novo”, contra o trabalho positivista que “mumifica” o passado ao trazer a idéia equivocada da verdade como objetividade e reflexo fiel dos fatos. Eis a nova perspectiva da história que Nietzsche apresenta:

(…) significa encontrá-los – os fatos históricos – como abertos e como sujeitos a um ato de interpretação e sistematização de nossa parte. Esse ato não deve, antes de tudo, ser objetivo: o importante é que seja dirigido por uma visão geral sólida, profunda, orgânica (VATTIMO, 2010, p. 91).

Esse “pressuposto filosófico” significa que antes de irmos ao passado, temos que tomar uma postura critica ante o presente. Assim, a história vai revelar que outros mundos poderiam ser possíveis. Faço história com a “consciência do devir das coisas”.

Mas infelizmente, Vattimo não aborda a história genealógica do segundo Nietzsche (da década de 1880), em especial da Genealogia da moral. É evidente que esse trabalho de exegese da genealogia nietzschiana foi realizado com maestria por Foucault.

Em Nietzsche, a genealogia e a história (um dos capítulos da obra lançada no Brasil como Microfísica do poder) Foucault mistura a interpretação de Nietzsche com sua própria abordagem. É um verdadeiro manifesto da história genealógica. Em Vattimo, por outro lado, a genealogia aparece em poucas passagens. Isto porque Vattimo elimina qualquer dimensão gnoseológica em Nietzsche: “(…) a verdade, em seu “sistema”, não tem mais lugar. Isso significa que, segundo Nietzsche, essa verdade não se dá e não pode ser dada” (VATTIMO, 2010, p. 115). A genealogia ao mostrar que há um fundamento (a vontade de potência) que explica a origem do valor (o fundamento da significação das coisas), abre a possibilidade de uma nova interpretação da história, como a arqueologia de Foucault, por exemplo. Mas Vattimo nega essa possibilidade: “(…) não se pode entender a “natureza”, o instinto ou a vontade de potência como uma verdade última a que o resto possa ser reduzido” (Ibid., p. 119). Como que Vattimo explica, então, as “certezas” que os homens aplicam à “realidade”? Como “preconceito moral”, “razão de utilidade”: Vattimo reveste sua explicação com um teor psicológico. Ele insiste: “Por isso, embora em Nietzsche a terminologia oscile, parece-nos mais fiel ao seu pensamento usar o termo “preconceito” ” (Idem).

Além desses ensaios, a obra apresenta análises importantes sobra a arte – Arte a identidade sobre a atualidade da estética de Nietzsche – e sobre a hermenêutica em Nietzsche e a hermenêutica contemporânea. São no total quinze ensaios. No último, Nietzsche 1994, Vattimo delineia as mais recentes abordagens sobre o filósofo alemão.

Enfatiza que o Nietzsche político, tão preponderante na linha francesa de Foucault/Deleuze dá espaço, em nossos dias, para um Nietzsche esteta. É Derrida quem traz hoje os vestígios de Nietzsche:“(…) não restam hoje muitos vestígios da interpretação de Deleuze, e que em contrapartida a de Derrida se afirma” (VATTIMO, 2010, p. 358).

Creio que alguns reparos poderiam dar melhor qualidade a Diálogo com Nietzsche para as próximas edições. Primeiro: embora no final da Observação, Vattimo explique a origem e data de vários ensaios, mesmo assim todos deveriam estar datados.

Isto para não ocorrer um estranhamento no leitor diante da repetição de algumas idéias, como nos primeiros ensaios. Segundo: a obra apresenta uma série de expressões em alemão, sem tradução.

Ao realizar esse balanço de ordem mais geral, resta-nos visualizar no Diálogo com Nietzsche uma obra indispensável para aqueles que se preocupam com a problemática histórica. Nesses ensaios de Gianni Vattimo há uma apreensão eficiente das ideias do primeiro Nietzsche sobre a história. O filósofo italiano acrescenta, ainda, uma boa reflexão sobre a relação da dimensão histórica com outras dimensões da vida e do mundo intelectual, como a arte, a ação, a filosofia, entre outros.

Dagmar Manieri – Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); professor Adjunto de História (Teoria da História) da Universidade Federal do Tocantins (UFT). E-mail: [email protected]

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