DILTHEY, Wilhelm. Ideias sobre uma psicologia descritiva e analítica. Trad. Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Via verita, 2011. Resenha de: MERTENS, Roberto Saraiva Kahlmeyer. Veritas, Porto Alegre v. 56 n. 3, p. 187-190, set./dez. 2011.

Em 2011, celebra-se o centenário de morte de Wilhelm Dilthey (1833-1911). Para esta data, no Brasil e no exterior, editoras e universidades vêm se mobilizando, desde o ano passado, para organizar novas edições e eventos acadêmicos sobre o filósofo alemão. Associados à Fundação Fritz Thyssen em Colônia, Alemanha, tradutores de diversos idiomas vêm vertendo a obra para o inglês, o russo e o japonês. Também traduções para o português estão sendo preparadas no Brasil.

Em nosso país, trabalhos de diferentes fases da obra de Dilthey já foram traduzidos por editoras de expressão. Até o momento, o resultado dessas publicações é um desenho sincopado da produção do autor que foi, além de filósofo, hermeneuta, psicólogo, historiólogo e pedagogo. Com todas as lacunas, entretanto, tal política editorial ainda nos é mais favorável do que a situação de penúria que enfrentávamos até a presente data, quadro em que eram quase ausentes as traduções confiáveis de Dilthey. Sem o interesse de avaliar o estado da arte das pesquisas sobre Dilthey (tarefa ampla que não seria pertinente em uma resenha), nos limitamos a indicar que a flagrante carência de estudos críticos no Brasil (lacuna que, muito mais do que uma hipótese, é uma evidência empírica) fez com que o esforço de recepção do pensamento desse autor, em nosso país, se limitasse praticamente à aplicação do método diltheyano pelo historiador Octávio Tarquínio de Sousa na redação de suas biografias e, muito posteriormente, em alguns rodapés de José Guilherme Merquior.

Formada de trabalhos heterogêneos, é lugar comum indicar que a obra de Wilhelm Dilthey é assistemática desde sua juventude; mas, essa característica não nos impede de ver um interesse comum que perpassa todos os escritos do alemão. Consideremos, por exemplo, o ensaio Ideias sobre uma psicologia descritiva e analítica, que se trata de uma obra tardia, escrita entre os anos de 1892-94 e revista em 1907-08. Tal trabalho é costumeiramente lido ao lado dos escritos literários de Dilthey (sobretudo seu Vivência e poesia), tema que comparece na obra de maturidade do autor (final da década de 1880). Por apresentar as bases psicológicas e

teóricas do conhecimento do pensamento de Dilthey, o ensaio em questão também é utilmente recomendado como introdução à obra A construção do mundo histórico nas ciências humanas, de 1905 (o que não constitui nenhum anacronismo, haja visto as datas de redação e revisão do texto de psicologia). Toda essa equivalência deve-se ao fato das referidas obras terem o mesmo pano de fundo e motivação.

Com a derrocada dos idealismos no fim do século XIX, o que vemos é uma tendência ao positivismo. Ante a drástica crise de paradigmas que grassava, chegou-se a acreditar que apenas um recurso às ciências positivas poderia garantir o acesso a um conhecimento válido. Deste modo, a filosofia parecia não ter outra escolha senão subordinar-se à ciência, rejeitando sua vocação metafísica e tornando-se, pois, algo assim como epistemologia. Destarte, em uma época na qual a sociologia é criada e a antropologia e a psicologia avançam com vigor, traz perplexidade constatarmos que o saber pretensamente rigoroso de tais ciências se encontra atrelado aos princípios e métodos das ciências positivas.

Entendendo que o idealismo foi deposto, mas que o positivismo também não constitui solução, a resposta a essa falta de alternativa é dada por Dilthey de maneira combativa e entusiástica. No interior de sua “filosofia da vida”, especialmente nas bases lançadas em Introdução às ciências humanas (1883), o filósofo propunha uma fundamentação das referidas ciências num solo próprio ao espírito e, antes, denunciando a atuação abstrativa e autonomizante que ciências naturais exerciam sobre as humanas. Segundo Dilthey, as ciências abstrativas, em seu modo de agir, cindem o fenômeno da vida, convertendo-o em objeto. Tal objeto, porém, apareceria isolado num campo de investigação sem conservar seu nexo com a própria vida. Quer dizer, para que as ciências abstrativas possam apontar um fenômeno como objeto de pesquisa, é preciso que todo o contexto do mundo vivido (isto é, o horizonte em que se dá a realidade absoluta das vivências) seja negligenciado, daí Dilthey afirmar que a abstração “desvivifica” o conhecimento.

É com base nessa premissa que o filósofo estabelece a clássica distinção entre o fazer das diferentes ciências: as naturais, abstraindo o fenômeno de seu horizonte total, isolam-no, determinam-no e explicam-no, sendo seu conhecimento retirado do que estava implícito em hipóteses (literalmente, um ex-plicare); as humanas, por sua vez, tomariam (ou deveriam tomar) o fenômeno em seu horizonte de modo a abranger ou compreender (no sentido estrito do termo latino comprehensio) seu todo, seriam, portanto, compreensivas.

A tentativa de uma fundamentação das ciências humanas (espe-cialmente as sociais e as históricas) conserva, ao longo do tempo, suas principais características e pressupostos, sofrendo reformulações de

pouca monta. Isso é o que vemos na obra Ideias sobre uma psicologia descritiva e analítica, apontada como extensão do projeto hermenêutico diltheyano que apresenta os termos da psicologia descritiva analítica, no que tange a análise das vivências do saber, a amplitude da captação de seus objetos, os valores e propósitos aos quais correspondem à descrição e análise da atividade psíquica, pontos basilares aos estudos posteriores, referentes à constituição do mundo histórico.

Embora em forma de ensaio, a obra, em nove capítulos, aborda (com até mais didática do que outros escritos do mesmo autor), primeiramente, a tarefa de fundamentação das ciências do homem, da sociedade e da história pela psicologia; após, distingue a psicologia explicativa da descritiva analítica, a estrutura, o desenvolvimento de diversidade da vida psíquica.

Entre os referidos capítulos, chamemos atenção para o primeiro. Nele, Dilthey mostra a necessidade de uma fundamentação psicológica das ciências da realidade histórico-social, mas, antes, esboça a maneira com a qual atua a psicologia científica (apresentação que vale, extensivamente, para as ciências positivas). Além de nomear estudiosos do homem comprometidos com o modelo positivista (Spencer e Taine), Dilthey indica que a psicologia científica seria explicativa, lógico-causal, dedutiva, materialista e hipotética. Uma esclarecedora reflexão acerca do modelo hipotético, paradigmático das ciências positivas, é dada ao leitor, que passa a entender a hipótese não apenas como um componente metodológico do conhecimento, mas como uma “hipostasia do real”, obstáculo epistemológico que denuncia inconsistência no próprio modo de conhecer das ciências. Tal inconsistência é ilustrada pelo próprio Dilthey quando assevera que, no conhecer pela ciência, “somos banidos para o interior de uma nuvem de hipóteses, para as quais não há nenhuma esperança de que se possa comprová-las a partir de fatos psíquicos” (p. 28). Tal afirmativa nos mostra que mesmo a explicação da natureza dependeria de uma compreensão fundamentada no psiquismo.

Também digno de atenção é o capítulo dois, no qual, por meio da distinção entre a psicologia explicativa e a descritivo-analítica, apresenta-se a interface que a filosofia do século XVIII possui com a psicologia do XIX. Daí, Dilthey desfiar o roteiro que nos leva de Wolf a Kant e, deste, à psicologia de Drobisch, passando pela de Herbart e de Waitz.

Possuidor de muitas intuições luminosas ao longo de suas 152 páginas, o ensaio de psicologia de Dilthey nos reserva, em seu oitavo capítulo, a confirmação de uma suspeita que se insinuava desde o primeiro momento, a influência que o autor exerceu sobre os autores vinculados às ditas “filosofias da existência”. Ao ler a passagem transcrita logo adiante nesse tópico referente ao desenvolvimento da vida psíquica, se faz

possível imaginar o quanto as ideias de Dilthey constituíram êmulo aos estudos de Scheler, Heidegger e Jaspers: “Não se poderia compreender o desenvolvimento do homem sem a intelecção do nexo amplo de sua existência: sim, o ponto de partida de cada estudo do desenvolvimento é essa apreensão do nexo no homem já desenvolvido e a análise desse contexto” (p. 125). O que se delineia aqui é a missão assumida por alguns pensadores do século XX em reconhecer o que há de incomensurável na existência humana.

Sob o selo da Via verita (editora que, na contramão dos apelos mercadológicos, possui um projeto editorial que pretende viabilizar versões de textos de relevo para o pensamento filosófico no século XXI) e com tradução de Marco Antonio Casanova, a edição brasileira pode ser criticamente avaliada, aqui, sob o ponto de vista da tradução: constata-se que ela apresenta uma versão elaborada de maneira atenta à tendência dos estudos mais atuais da obra de Dilthey. Por isso traduzir a expressão alemã Geisteswissenschaften por “ciências humanas” (em vez da literal “ciências do espírito”), apoiando-se em traduções precedentes para a língua inglesa e encontrando endosso junto a comentaristas especializados que se inclinam a acatar que “ciências humanas” traz melhor a conexão de sentido da realidade histórica e social do que a nomenclatura “ciências do espírito” (na qual a noção de “espírito” facilmente pode sugerir erroneamente uma independência de homens reais). Deste modo, por suas opções e acuro terminológico, a tradução brasileira se mostra claramente superior à portuguesa, apresentada sob o título: Psicologia e Compreensão – Ideias sobre uma psicologia descritiva analítica (Edições 70).

Roberto Saraiva Kahlmeyer-Mertens– Doutor em Filosofia pela UERJ. Professor Adjunto naUniversidade Cândido Mendes (UCAM) e no Centro Universitário Plínio Leite. E-mail: [email protected]

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