TAYLOR, Charles. A ética da autenticidade. Trad. de Talyta Carvalho São Paulo: É Realizações, 2011.Resenha de: BELTRAMI, Fábio. Conjectura, Caxias do Sul, v. 17, n. 1, p. 230-233, jan/abr, 2012.

Charles Taylor é um autor contemporâneo, nascido em 5 de novembro de 1931, na cidade de Montreal, no Canadá. É professor de Filosofia e Ciência Política na Universidade McGill, na cidade de Montreal. O livro A ética da autenticidade, no original The ethics of authenticity (1992), lançado no Brasil pela editora É Realizações, no ano de 2011, com 128 páginas e tradução realizada por Talyta Carvalho, está estruturado em dez capítulos, nos quais Taylor busca uma compreensão acerca das relações atuais dos indivíduos e como os mesmos tendem a se comportar atualmente, focando seu estudo em questões relativas à autenticidade.

No que tange à autenticidade, Taylor percorre uma trajetória histórica sobre as fontes da mesma, citando Rousseau e o contato íntimo do ser humano consigo mesmo, bem como Herder, com a ideia de que cada ser humano tem um jeito original de ser humano e a necessidade de um contato consigo mesmo, com sua natureza interior, com o ser humano que é o modo particular de cada um ser humano. Para Taylor a autenticidade está baseada na ideia de que, independentemente de mim, existe algo nobre, valioso e, portanto, significativo na configuração da minha própria vida. A partir desse pressuposto, Taylor propõe um estudo sobre questões referentes à autenticidade e propõe uma alternativa focada nela, sustentando a possibilidade de defesa de um ideal de autenticidade.

Taylor se foca na questão do significado da autenticidade, no debate concernente ao significado do conceito e não no conceito propriamente dito, bem como na cultura e na utilização desse conceito atualmente.

Taylor inicia o livro descrevendo, segundo seu entendimento, os “Três Mal-estares” atuais da modernidade. Busca analisar o que considera alguns dos males da modernidade, dizendo com isso (males) aquilo que as pessoas experimentam como sendo a perda ou o declínio, muito embora a humanidade permaneça em um desenvolvimento contínuo.

A primeira fonte de preocupação destacada por Taylor, e à qual mais se atém, é o individualismo e seu lado sombrio: o centrar-se em si mesmo que nivela e restringe a vida dos homens, tornando-a pobre em significado e menos preocupada com os demais ou com a sociedade.

Taylor sustenta que as pessoas costumavam se ver como parte de uma ordem maior. Essa ordem dava significado ao mundo, e as coisas que nos circundavam não eram apenas pensadas como matéria-prima. Diz o autor que, há pelo menos dois séculos, vêm se debatendo sobre isso, sobre a falta de sensação que as pessoas têm de haver algo maior, algo pelo qual valha a pena morrer. Taylor afirma que o individualismo acaba por gerar o que denomina “desencantamento do mundo”; a ordem maior perdeu seu encanto.

Incorporada aqui, na faceta do individualismo, a necessidade de reconhecimento, e esse, como dependente – tendo em vista o fato, conforme sustenta, de os seres humanos serem seres de diálogo – do reconhecimento dos outros. Aqui, o nível da relação se centra na questão do reconhecimento e da necessidade da sua existência. Sustenta que, na idade moderna, não surgiu o reconhecimento em si, mas as condições em que se pode fracassar ao tentar o reconhecimento.

A segunda fonte de preocupação de Taylor é a primazia da instrumentalização da razão, o tipo de racionalidade em que nos baseamos diretamente na relação custo/benefício, a eficiência máxima como medida de sucesso, ligada, diretamente, à primeira preocupação a ponto de as criaturas poderem vir a ser tratadas como matéria-prima ou instrumentos de projetos, em busca dessa máxima eficiência. Ocorre a perda do significado dessas criaturas que, em alguns casos, podem vir a ser os próprios seres humanos.

A consequência disso, para Taylor, é “uma cultura do narcisismo” e do individualismo de autorrealização, onde há negligência com relação a restrições externas, sejam elas históricas, sejam elas sociais e naturais, que se entendam prejudiciais à autorrealização, bem como a significativa amplitude com que se dispensam essas causas externas prejudiciais, com a consequente centralização na realização do indivíduo. Ocorre, aqui, um atomismo social. Tem-se, então, uma forma de individualismo de autorrealização e uma instrumentalização da razão. Taylor sustenta estarem ligadas a um sentimento de “nós mesmos”, como razão potencialmente desengajada, puro intelecto, de pensamento autônomo e autogerador.

A falta de sentimento de pertença ou até mesmo de um governo divino gera esse desencantamento, essa dessacralização, a qual, segundo o autor, vem ganhando força em décadas recentes, gerando um alarde no sentido de que as pessoas estão vendo os seus relacionamentos de forma revogável. Taylor chama isso de “subjetivação”, ou seja, a centralização das coisas no sujeito. O autor utiliza como exemplo o modo como as demandas de crescimento econômico são utilizadas para justificar distribuição desigual de riqueza e renda e a utilização de tecnologia mesmo quando algo completamente diferente se faz necessário.

Taylor faz menção a Marx e a Weber, e diz que tantos outros teóricos já explicitaram essa preocupação. Weber a denominou “jaula de ferro”.

Para o autor, devemos nos ater ao fato da existência de razão desengajada, contudo, há outra face, da qual somos agentes corporificados, vivendo em condições dialógicas, habitando o tempo de uma maneira especificamente humana. Logo, há a necessidade de se respeitar essa natureza corporificada. Taylor utiliza como exemplo contrário o tratamento médico que se esquece dos pacientes como pessoas, que negligencia a relação essencial entre o agente da cura e o paciente.

Viver a razão instrumental fora dessa celeuma proporcionaria algo ideal. Taylor diz que, para modificar o significado da autenticidade, não basta apenas a perspectiva do indivíduo, mas a união com a esfera institucional, o que, para ele, nos leva à terceira preocupação.

A terceira preocupação é a consequência do individualismo e da razão instrumental na esfera política e a possível perda de liberdade decorrente dessas preocupações. O autor inicia a análise dessa terceira preocupação, trazendo a seguinte questão: uma sociedade estruturada em torno da razão instrumentalizada pode ser vista como ferramenta de supressão de liberdade e do aparecimento de indivíduos não participantes das decisões governamentais? Diz Taylor que os indivíduos dessa classe preferirão ficar em sua casa, desfrutando as satisfações da vida privada, como autênticos “últimos homens” nietzschianos e confiarão ao governo os meios para a produção de tais satisfações e a distribuição das mesmas.

Gera-se uma forma de despotismo, ao qual Taylor, em menção a Alexis de Tocqueville, denomina “despotismo suave”. Não há lugar para o terror; o governo será moderno e paternalista, com um enorme poder de tutela, a ponto de a participação dos indivíduos diminuir, e as associações que os socorriam se fragmentarem. O indivíduo se vê impotente diante do poder burocrático. Essa fragmentação consiste na decrescente capacidade de o povo formar um propósito comum e levá-lo adiante, na dificuldade de identificação mútua entre os conviventes, em especial, na sociedade política. Tal falta de identificação pode vir a refletir uma instrumentalização da sociedade, com viés atomista mencionado anteriormente.

O modelo paternalista, voltado ao individualismo e à consequente tutela, tem como paradigma a supressão da liberdade, a ponto de tolher graus de liberdade do cidadão. Ao se estruturar nos moldes do individualismo e da razão instrumental, o sistema governamental paternalista promove os meios de desfrute da vida privada com a contrapartida de suprimir a liberdade de escolhas diferentes desse sistema de fruição da vida privada.

Da análise do livro, percebe-se que o autor busca uma alternativa para o uso da autenticidade, buscando elencar, analisar e criticar a posição de alguns autores e do próprio pensamento atual sobre a autenticidade.

Nessa busca, Taylor identifica vertentes que permitem pensar a autenticidade como um ideal, contudo, se assim for pensado, sustenta que devemos recobrar nosso sentimento de existência e conectá-lo a um todo maior.

Fábio Beltrami– Advogado. Mestrando em Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul.

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