GIBERT, Javier García. La humanitas hispana. Sobre o humanismo literário em Siglos de Oro. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 2010, 239 p. Resenha de: GILES, Ana Inés Rodríguez. Varia História. Belo Horizonte, v. 28, no. 47, Jan./ Jun. 2012.

La humanitas hispana visa completar a pesquisa sobre o humanismo espanhol, deficiente entre os interesses dos estudiosos. Neste livro, J. García Gibert expõe uma defesa meticulosamente justificada do humanismo espanhol, no contexto da corrente européia. Como o autor distingue o movimento ibérico do movimento continental, por argumentar que o primeiro não rompeu com o passado como os movimentos franceses ou italianos, ele analisa o debate historiográfico sobre esse assunto. Ele também distingue o humanismo espanhol do europeu, porque o primeiro buscou popularizar o conhecimento, enquanto os humanistas de outras regiões não o fizeram, como enfatiza ao longo do livro. O autor também analisa outras diferenças, como as influências mútuas entre o movimento nacional e o continental,

García Gibert encontra duas dificuldades que tentam resolver ao longo do livro, que dizem respeito à possibilidade, em termos ideológicos, de a cultura espanhola ter um humanismo renascentista e se foi preparado o aspecto linguístico. A primeira parte é resolvida pelo autor, afirmando que havia uma lenda negra sobre a Espanha, que ele não aceita, enquanto analisa esse debate histórico. Ele afirma que o humanismo espanhol era diferente porque não destruía os aspectos que faziam parte de uma herança, mas poderia ser construído a partir deles, tendo métodos e procedimentos errados, mas as intenções humanísticas e seguindo os aspectos formais, que estão relacionados com o segundo problema e resolve dessa maneira.

García Gibert analisa diferentes livros e corpus, movimentos ou escritores particulares, separando forma e função do discurso. Ele compara os autores espanhóis, mas também inclui escritores de outros países europeus. Ao longo deste livro, podemos encontrar muitas análises sobre literatura espanhola e algumas biografias intelectuais também. Também podemos encontrar um estudo iconográfico extremamente interessante, no qual ele examina a função dos livros nas esculturas funerárias espanholas, através das variações das posições dos corpos mentirosos, prestando atenção ao volume que estão carregando. Este estudo é útil para analisar a mudança na importância da literatura para nobres e clérigos, e é muito interessante do ponto de vista metodológico.

O autor chama especialmente sua atenção para a questão da Reforma Católica e defende as possibilidades de um desenvolvimento do humanismo consagrado nesse movimento, contra a possibilidade de um protestante. Ele conclui que não podemos distinguir entre o humanismo renascentista e a mente pós -identista, que o influenciou e incentivou na Espanha.

Sobre esse problema, García Gibert revisa a discussão sobre a influência da Inquisição no movimento humanista. O autor afirma que, apesar de a Inquisição expurgar livros e incomodar numerosos intelectuais, despertou o espírito dos escritores, que conscientizaram a importância de suas mensagens. O autor se refere à clareza das regras e proibições nessa redução da intervenção da Inquisição no movimento intelectual espanhol. Essa defesa significa que os acusadores foram responsabilizados pelas dificuldades que os intelectuais experimentaram. O autor conclui que o pensamento contra-reformista espanhol não foi restringido por agentes repressivos externos, além disso, o renascimento espanhol se espalhou pela península e influenciou a contra-reforma,

Duas idéias prevalecem ao longo do livro: livre arbítrio e decepção. Quanto ao primeiro, podemos encontrar muitas referências ao longo deste estudo, relacionando o trabalho de muitos autores – como ele faz na interessante comparação entre Alonso de Cartagena, Marqués de Santillana e Juan de Mena – a esse conceito. As referências à decepção são ainda mais interessantes e são colocadas no século XVII do humanismo espanhol, desde que entendidas como uma reação psicológica a uma situação histórica específica. Ele encontra aqui a forma do ceticismo na Espanha durante esse período, enquanto em outros lugares lançou as bases para a revolução científica e filosófica. O pensamento espanhol não teria se interessado particularmente nessas áreas de conhecimento, como em assuntos místicos.

O aspecto mais fraco deste livro é a idéia que se refere à “alma nacional” espanhola, onde o autor encontra uma justificativa romântica para esse fenômeno: a falta de interesse do pensamento espanhol na pesquisa científica expressaria sua lealdade a uma longa tradição filosófica focado em assuntos espirituais. A idéia da alma espanhola foi proposta em seu tempo, mas finalmente discutida e abandonada pelos historiadores.

No entanto, o livro tem outras idéias originais. É o caso do estudo mais destacado deste livro, que diz respeito ao conceito de analogia. O autor analisa como o ser humano tem sido considerado um centro analógico por meio de um mecanismo que possibilitou superar a distância entre o finito e o infinito de tal maneira que essa ideia incorporou a noção de transcendência.

O autor também encontra algumas particularidades nesse humanismo relacionadas ao desenvolvimento do erasmismo na Espanha e à ausência de discussão entre propostas clássicas e modernas. Dessa forma, ele introduz a importância do idealismo e do realismo na literatura renascentista espanhola, mas também a importância do pensamento escolástico como uma particularidade do movimento.

Por fim, García Gibert analisa o trabalho dos principais escritores do período barroco, atendendo aos diferentes paradigmas que eles levantaram: Cervantes e liberdade; Quevedo e o potencial aprimoramento moral do ser humano – levando em conta seu livre arbítrio e a importância da cultura escrita para atingir esse objetivo -; Baltasar Gracián, cujo projeto humanista é considerado pelo autor como o mais representativo do movimento barroco espanhol, enquanto o mais característico da mente contra-reformista. A partir da análise da obra deste escritor, o autor traz à discussão a questão da “discrição” e o conceito de “pessoa”, considerando a humanidade como um conceito cultural: se o artifício é o estigma da imperfeição humana, então,

As idéias colocadas por García Gibert tornam este livro uma leitura particular que pode surpreender os estudiosos por causa de sua transgressão, mas também as novas maneiras de ler a literatura clássica, considerando-a formar conceitos que não eram usuais não apenas neste período, mas também para historiadores, misturando eles com alguns outros conceitos que já foram abandonados pela historiografia.

Ana Inés Rodríguez Giles – Centro de Estudos de História Social Européia / Instituto de Pesquisas em Humanidades e Ciências Sociais (UNLP – CONICET). Faculdade de Humanidades e Ciências da Educação (FaHCE). Universidade Nacional da Prata (UNLP). [email protected].

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