ALMEIDA FILHO, Naomar. O que é saúde? Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2011,160 p. (coleção temas em saúde) Resenha de: DANTOS, Milena Silva dos; GONÇALVES, Lucia Hisako Takase; OLIVEIRA, Marília de Fátima Vieira de. Revista Trabalho, Educação e Saúde, Rio de Janeiro, v.11, n.3, set./dez. 2013.

A obra apresentada faz parte de uma coleção sobre temas em saúde e foi publicada pela Editora Fiocruz em 2011. Naomar de Almeida Filho, ph.D. em epidemiologia e professor-titular do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), inicia sua obra fazendo uma apresentação sobre seu interesse pela temática abordada, demonstrando preocupação com essa questão desde a década de 1980, durante sua formação como docente e pesquisador na área da epidemiologia. Para apresentar ao leitor sua proposta, ele começa com um rápido comentário crítico, carregado de ironias em sua fala. Isso entusiasma o leitor e faz com que haja maior atração pela leitura, já que o autor é objetivo, usa uma linguagem acessível.

O que é saúde? está dividido em sete capítulos, cada um deles trazendo uma pequena introdução e o ponto de vista do autor sobre os temas em questão, além de breves comentários sobre o que será analisado adiante.

O primeiro capítulo se intitula “Saúde como problema”, em que o autor apresenta o pressuposto de que “a saúde é um problema simultaneamente filosófico, científico, tecnológico, político e prático”, apenas para dar início à apreciação analítica da obra. Sua proposta de discussão é sistematizada e de problematização de conceitos, começando por uma introdução histórico-etimológica como fundamento para uma rápida exploração da questão epistemológica da saúde – o que tem grande importância do ponto de vista teórico-conceitual para que o leitor prossiga em uma leitura clara e objetiva. Ainda neste capítulo, o autor traça uma pauta de cinco itens para continuação da discussão a respeito da temática. Estes itens foram transformados em títulos para serem debatidos nos cinco capítulos subsequentes.

O segundo capítulo, “Saúde como fenômeno”, trata da saúde como um fato, atributo, função orgânica, estado vital individual ou situação social, definido negativamente como ausência de doenças e incapacidade, ou positivamente como funcionalidades, capacidades, necessidades e demandas.

No terceiro capítulo, “Saúde como medida”, o autor analisa as estratégias de medida da saúde e faz uma avaliação do estado de saúde, indicadores demográficos e epidemiológicos e análogos de risco, competindo com estimadores econométricos de salubridade ou carga de doença. A discussão abrange limites e possibilidades de tratamento em nossa cultura científica, impasses e desdobramentos de propostas de análises quantitativas da situação de saúde, como se esta fosse um recurso econômico das sociedades modernas.

“Saúde como ideia”, o quarto capítulo, propõe a análise de concepções de saúde como ideia ou dispositivo ideológico, estruturante da visão de mundo de sociedades concretas e construção cultural. Para isso, o autor buscou explorar algumas teorias que retomam os conceitos de saúde-doença. A maioria das teorias abordadas é oriunda principalmente da antropologia médica anglo-saxônica, que busca valorizar elementos psicossociais e culturais da saúde.

O quinto capítulo, “Saúde como valor”, tem a proposta de avaliar as bases lógicas, teóricas e metodológicas da concepção de saúde como valor: valor de uso, valor de troca, valor de vida. E, para que parte da cidadania global contemporânea contemple esses valores, é necessário tê-los tanto na forma de procedimentos, serviços e atos regulados e legitimados, indevidamente apropriados como mercadoria, quanto na de direito social, serviço público ou bem comum.

“Saúde como campo de práticas” é a denominação para o sexto capítulo, que trata das pautas preliminares. Neste, exploram-se concepções de saúde como práxis, conjunto de atos sociais de cuidado e atenção a necessidades e carências de saúde e qualidade de vida, conformadas em campos e subcampos de saberes e práticas institucionalmente regulados, operados em setores de governo e de mercados, em redes sociais e institucionais. Para isto, foram retomados alguns argumentos utilizados nos capítulos anteriores.

O sétimo capítulo, intitulado “Saúde como síntese”, faz considerações das possibilidades de uma concepção holística da saúde, retomando análises anteriores. Dessa forma, o autor conclui afirmando que não se pode falar da saúde no singular, mas sim de várias ‘saúdes’, e que para estudar com rigor e eficiência teórica esse conceito plural de saúde, deve-se considerar o somatório de interfaces entre as ciências sociais e as ciências da saúde. A abordagem da questão da saúde é bastante diversificada; portanto, para se apreender essa multiplicidade de conceituações, é necessário construir algo mais sólido, complexo e articulado do que se tem na contemporaneidade.

O autor conclui a obra afirmando que a sua principal proposição é que não podemos tratar a sáude com casos isolados, mas sim como um todo, na pluralidade de vida e na riqueza de perspectivas conceituais e metodológicas, a depender dos níveis de complexidade e dos planos de emergência considerados. Afirma também que sua intenção é abrir um leque de questões e avançar nos debates provocados pelo exercício de problematização que foi levantado.

Ao longo da obra, os conceitos de saúde e de doença foram, por sucessivas vezes, discutidos de modo ora mais simples, ora com maior complexidade, destacando as diversidades de formas e realçando suas nuances. A problematização utilizada mostra que as ideias de saúde que são socialmente disseminadas refletem interações entre as diferenças biológicas, distinções sociais e políticas, ocorrendo, portanto, as reais visualizações das desigualdades na saúde.

Pensamos que o livro de Naomar de Almeida Filho seja de grande utilidade não só acadêmica, mas também para o público em geral, para que se possa disseminar uma questão tão discutida e pouco resolvida em nossa sociedade.

Milena Silva dos Santos – Universidade Federal do Pará (UFPA), Belém, Pará, Brasil. E-mail: [email protected]

Lucia Hisako Takase Gonçalves – Universidade Federal do Pará (UFPA), Belém, Pará, Brasil. E-mail: [email protected]

Marília de Fátima Vieira de Oliveira – Universidade Federal do Pará (UFPA), Belém, Pará, Brasil. E-mail: [email protected]

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