TAYLOR, Charles. Uma era secular. Trad. de Nélio Schneider e Luiza Araújo. São Leopoldo: Ed. da Unisinos, 2010. Resenha de: CAMATI, Odair. Conjectura, Caxias do Sul, v. 18, n. 3, p. 192-195, set/dez, 2013.

Charles Taylor é um filósofo contemporâneo, nascido em 5 de novembro de 1931, na cidade de Montreal, no Canadá. É Professor Emérito de Filosofia e Ciência Política na Universidade de Mcgill. De 1976 a 1981, Taylor dirigiu a cadeira de “Pensamento Político e Social” na Universidade de Oxford. Suas principais contribuições são na área da filosofia política, filosofia social e história da filosofia, com isso defende uma participação ativa na vida política, tendo concorrido ao Senado canadense.

O livro Uma era secular, no original [A Secular Age] (2007), lançado no Brasil pela Editora Unisinos, em 2010, está divido em cinco partes, nas quais Taylor busca responder a dois questionamentos, a saber: (i) o que significa dizer que vivemos em uma era secular; e (ii) por que passamos de uma sociedade na qual era praticamente impossível não acreditar em Deus para uma sociedade na qual a fé representa uma entre tantas possibilidades humanas. Para isso o filósofo canadense apresenta três formas de compreender a secularidade: a primeira é a tradicional separação entre Igreja e Estado; a segunda forma afirma que a secularidade consiste no abandono de convicções e práticas religiosas; por fim, a terceira forma à qual Taylor se dedica é a compreensão da fé como uma opção entre outras.

A primeira parte da obra apresenta o processo ocorrido no início da Idade Moderna que abriu a possibilidade para que hoje se possa compreender a fé em Deus como uma entre tantas possibilidades. Taylor cita a Reforma Protestante e o processo de desencantamento do mundo descrito por Max Webber como os principais impulsionadores da secularização moderna.

Além disso, o surgimento de uma sociedade disciplinar permitiu que não houvesse mais necessidade de Deus para manter a ordem social, pois o homem é um ser racional capaz de manter a ordem do mundo por si mesmo. Surge, portanto, na modernidade, espaços de acesso direto como a esfera pública, as economias de mercado e o Estado Democrático onde os indivíduos estão como que em igualdade, visto que as hierarquias sociais foram derrubadas. Com a queda das hierarquias sociais, Deus ou o divino também fica sem um lugar específico, a igualdade entre os homens pode garantir a estabilidade social, independentemente da existência de Deus.

Na segunda parte da obra de Taylor busca percorrer o caminho que permitiu que o humanismo exclusivo se tornasse uma opção de vida para as pessoas. Especialmente a partir dos séculos XVII e XVIII o papel e o lugar do transcendente foram cada vez mais diminuídos. Deus é apenas o Criador que dotou os homens das capacidades necessárias para que o próprio homem pudesse reger o mundo sem nenhuma interferência divina. O ser humano é racional, por isso pode gerir o mundo e criar as condições para uma civilização de benefício mútuo, ou seja, em que os homens colaborem uns com os outros. Além disso, com a ciência moderna, foi possível afirmar que o universo é governado por leis causais que em nada dependem de interferências externas, ou se preferirmos, em nada depende de Deus.

Na terceira parte, Taylor apresenta os mal-estares que a imanência pura pode causar, a saber: a sensação de fragilidade de sentido, a estagnação sentida ao tentarmos solenizar momentos cruciais de nossa vida e um vazio do comum, ou seja, nada mais tem sentido. Além disso, com a objetivação do universo, esse se apresenta para nós sem propósitos, assim nós decidimos quais objetivos vamos atribuir ao mundo. Estamos sozinhos no universo, e isso pode ser assustador ou estimulante. Para Taylor esse processo gerou uma fragmentação e uma perda de profundidade, visto que o ser humano não encontra algo que possa dar sentido profundo ao seu viver. A tentativa moderna de depositar o sentido no humanismo exclusivo tem seu fracasso especialmente nas duas Grandes Guerras Mundiais, ocasião em que a humanidade percebeu que ela, por si, não pode dar sentido pleno à sua própria existência, além de não conseguir construir uma civilização de benefício mútuo.

Na quarta parte da obra, Taylor tenta estabelecer o novo lugar ocupado pela religião no mundo contemporâneo. Com a cultura da autenticidade, ocorreu um forte processo de individuação, cada indivíduo tem que buscar expressar uma maneira original de ser. Desse modo, a prática religiosa é não só uma escolha individual, mas também deve falar ao indivíduo, deve estar associada ao seu desenvolvimento espiritual. Está implícita uma exigência: segue teu caminho espiritual e deixa que os outros sigam livremente os seus caminhos espirituais. O resultado disso é um aumento do número dos que se dizem ateus, agnósticos ou que se afirmam apenas como não religiosos, mas na contramão disso há uma derrubada das barreiras entre as religiões e um aumento de pessoas que se afirmam crentes no sentido de crer sem pertencer, ou seja, são religiosas para manter a memória ancestral e garantir alguma necessidade futura, como, por exemplo, um funeral. O fenômeno geral percebido por Taylor é o que ele mesmo chama de “religião mínima”, a fé é vivida no círculo imediato da pessoa com sua família e amigos, não mais em igrejas. Aqui a preocupação central é com a dimensão particular.

Na quinta e última partes, o filósofo canadense se preocupa em analisar quais são as condições de crença da sociedade contemporânea.

Primeiramente, estamos vivendo em uma estrutura imanente, ou seja, não existe mais um cosmos repleto de sentido ou um Deus capaz de dar esse sentido; assim sendo, o sentido último é o próprio homem. O que não pode ser negado é que a busca por sentido é uma postura necessária à humanidade. Diante disso, podemos ver o transcendente como uma ameaça e um obstáculo ou podemos olhá-lo como a nossa mais profunda resposta à nossa necessidade de dar sentido à existência. Segundo, há uma fragilização das posições religiosas e da crença, ou dizendo de outra forma, há uma pressão cruzada entre quais são as finalidades da nossa vida. Nesse sentido, o dilema aqui colocado é onde encontrar plenitude, onde se encontra o elemento capaz de dar sentido profundo à existência humana: Será o humanismo exclusivo ou o retorno à religião transcendente? Diante do cenário atual não é possível dar uma resposta a essa questão, visto que estamos apenas no início de todo esse processo e não conhecemos o seu desfecho.

O livro Uma era secular é, sem dúvida, uma brilhante tentativa de compreender em que consiste dizer que vivemos em uma era secular. A obra percorre o caminho que permitiu que pudéssemos falar em secularidade, bem como apresenta uma compreensão diferenciada do que representa realmente a secularidade. Sua contribuição é de grande importância para que cada vez mais busquemos melhor compreender a realidade contemporânea e, em especial, o que chamamos de secularidade. A obra de Taylor revela uma enorme riqueza de detalhes históricos que podem fazer toda a diferença na compreensão desse tema; além disso, sua preocupação em compreender os fenômenos em sua totalidade é essencial para qualquer discussão, particularmente acerca de um fenômeno tão abrangente como é a secularidade.

Odair Camati  – Mestrando em Filosofia pelo PPGFil na Universidade de Caxias do Sul (UCS). Caxias do Sul, RS. E-mail: [email protected]

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