Boletim Historiar. São Cristóvão, n.6, 2014.

Artigos

Resenhas

Publicado: 2014-12-31

Educação a Distância e Práticas Educativas Comunicacionais e Interculturais. São Cristóvão, v.14, n. 3, 2014.

Dossiê | Educação a Distância

Expediente Revista EDaPECI

Dossiê | Educação a Distância

Artigos Gerais

Bibliografia Comentada

Publicado: 2014-12-30

Educação a Distância e Práticas Educativas Comunicacionais e Interculturais. São Cristóvão, v.14, n.2, 2014.

Culturas Digitais e Educação

Expediente Revista EDaPECI

Editorial: apresentação do dossiê Culturas Digitais e Educação

Culturas Digitais e Educação

Bibliografia Comentada

Publicado: 2014-12-20

Os 50 Anos do Golpe Civil-Militar / Crítica Histórica / 2014

As produções sobre o golpe civil-militar de 1964 e seus desdobramentos são muitas e com variadas temáticas. Livros de memória, filmes e documentários, pesquisas acadêmicas, enfim, uma gama de reflexões sobre esse passado recente da história do Brasil, que ainda suscita calorosas polêmicas. Da segunda metade da década de 1970 em diante, a maior parte das interpretações puseram em lados opostos Estado e sociedade. O primeiro, representante das forças opressoras, fez uso de mecanismos de manipulação e repressão, subjugando a segunda, que sofreu as consequências duras do autoritarismo estatal; mas que, mesmo com todos os percalços, não hesitou em resistir.

As abordagens que priorizam o estudo da repressão política e / ou dos focos de resistência ao Estado ditatorial possuem um papel social importantíssimo de denunciar os atos de violência e tortura, sobretudo num país como o Brasil onde o processo de redemocratização se deslanchou, em grande parte, através de acordos e negociações e não resultou em punições a torturadores. No entanto, a despeito da enorme relevância dessas interpretações, um aspecto foi, há tempos, silenciado: o golpe de 1964 e a ditadura civil-militar foram construções sociais e não simples invenções de cima para baixo ou de fora para dentro. Isto significa que o Estado é parte da sociedade e, muitas das vezes, práticas autoritárias, como a intervenção militar, foram reivindicadas por significativos setores sociais. Um passado incômodo para uma sociedade que pretende legitimar uma identidade de nação democrática. Acreditamos ser necessário enfrentar esses fantasmas até para evitar possíveis assombros e levantar debates em torno do comportamento da sociedade frente aos arbítrios praticados pelo Estado não apenas no momento da ditadura, mas sobretudo em momentos de democracia como o que vivemos atualmente.

Neste sentido, a edição da Revista Crítica Histórica nº 10 apresenta o dossiê Entre história e memória no cinquentenário do golpe de 1964 com o objetivo de fomentar o debate em torno dos 50 anos do golpe civil-militar e do regime autoritário inaugurado a partir deste evento histórico. Ao organizar o dossiê, pretendi reunir diferentes abordagens sobre temáticas variadas, que tratam do sistema repressor e da resistência, mas também, e sobretudo, da relação complexa entre Estado e sociedade, entre autoritarismo e democracia.

Abrindo o dossiê, o artigo de Rodrigo José da Costa, “Por uma História do Golpe Civil e Militar em Alagoas”, faz um balanço do que foi produzido em 2004, nos 40 anos do golpe, e no ano de 2014, nos 50 anos, com ênfase nas disputas pela memória, sobretudo na imprensa alagoana. Também analisa produções acadêmicas e memorialísticas de Alagoas e inventaria acerca de fontes históricas surgidas nos últimos anos. O autor é doutorando em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Seguindo, Carla Darlem Silva dos Reis, mestranda em História da Universidade Federal de Sergipe (UFS), discute a mudança de posicionamento político do periódico Gazeta de Sergipe após o golpe de 1964 no texto intitulado “Gazeta de Sergipe: ‘Gazeta Combativa’? (1959-1968)”. No terceiro artigo, intitulado “Ditadura no Paraná: ‘Foi na lavoura que a subversão encontrou resistência’”, Juliana Valentini, mestre em História pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), trata das formas de organização e posicionamento político de setores agrários do Paraná frente ao governo João Goulart e ao golpe de 1964. Logo depois, Ueber José de Oliveira, professor adjunto do Departamento de Educação e Ciências Humanas da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), procura compreender, no artigo “A Fórmula para o caos: o golpe de 64 e a conspiração contra o governador Francisco Lacerda de Aguiar, no Espírito Santo (1964-1966)”, o posicionamento dos principais atores individuais e coletivos da realidade capixaba diante do golpe de 1964, com ênfase na ação de forças políticas oposicionistas que pretendiam destituir o então governador do Espírito Santo Francisco Lacerda de Aguiar. Professora da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Marylu Alves de Oliveira é autora do próximo artigo, intitulado “Esteja preso, comunista! Breves considerações sobre práticas anticomunistas no pós-golpe civil-militar de 1964 no Piauí”, que tem como objetivo apresentar as principais práticas anticomunistas após o golpe civil-militar de 1964 no Piauí. Com o título “O Serviço Nacional de Informações (SNI): o sindicalismo em Pernambuco como alvo (1964- 1967)”, o artigo de Dmitri Felix do Nascimento, doutorando pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (UL), analisa a constituição do aparato repressor da ditadura militar a partir da criação do Serviço Nacional de Informações (SNI) e a perseguição ao Conselho Sindical dos Trabalhadores (CONSINTRA) em Pernambuco. O sétimo artigo do dossiê, “Militares de esquerda e o regime militar: ‘Marechal da Legalidade’ na defesa da democracia”, foi escrito por Karla Guilherme Carloni, professora adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). A autora aborda a atuação política do marechal Henrique Teixeira Lott durante a crise de 1961 e o regime militar, destacando sua postura de esquerda e a perseguição a ele liderada pelos mentores da ditadura. Logo depois, Andréa Lemos, doutora pela Universidade Federal Fluminense (UFF), apresenta o artigo chamado “A Editora Brasiliense e a oposição à ditadura civil-militar brasileira”, destacando os principais aspectos da construção da linha editorial da Editora Brasiliense e as ações políticas de seus editores frente à ditadura civil-militar. No nono texto do dossiê intitulado “Friedrich Hayek e os liberais brasileiros na transição democrática”, o doutorando em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Gabriel Onofre analisa as ideias do filósofo e economista austríaco Friedrich Hayek sobre política, economia e sociedade que serviram de referência para os grupos (neo)liberais brasileiros durante a transição democrática. Por fim, fechando o dossiê, Cleidson Carlos Santos Vieira, mestrando em História pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), escreve o artigo “Anistia de 1979, justiça de transição e Comissões da Verdade: apontamentos e limites”, o qual analisa o processo de transição democrática e suas limitações institucionais e jurídicas.

Além do dossiê, a seção de fluxo contínuo traz quatro artigos com temas diferenciados sobre história política do Brasil republicado. O primeiro, intitulado “O negro nos meandros dos debates parlamentares da Primeira República (1889-1894)”, foi escrito por Talita Teixeira, mestranda em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e tem como objetivo analisar a imagem de nação almejada por autoridades políticas após a Proclamação da República, identificando o papel destinado ao negro. Sob o título “O carnaval carioca oficializado: a aliança entre sambistas e prefeitura do Rio de Janeiro (1932-1935)”, o segundo artigo foi escrito por Paula Cresciulo de Almeida, mestra em História pelo Programa de Pós Graduação em História da Universidade Fluminense (UFF). A autora pretende analisar o processo de reconhecimento e oficialização dos desfiles das escolas de samba no carnaval carioca pelo prefeito do Rio de Janeiro, Pedro Ernesto, em 1935. Em seguida, mestrando em História também pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Diego Carvalho da Silva escreve o artigo “Caminhos da redemocratização: alguns apontamentos da política no pós-guerra em Pernambuco (1945-1946)”, cujo objetivo é analisar o processo da reorganização dos principais partidos políticos em princípios de 1945 em Pernambuco, a partir do encaminhamento do processo de abertura política do Estado Novo. Por último, Leide Rodrigues dos Santos, graduanda em História pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), escreve o artigo “Mobral: a representação ideológica do Regime Militar nas entrelinhas da alfabetização de adultos” com o intuito de analisar as representações do discurso político do Estado presentes em materiais didáticos, publicações e propagandas utilizadas pelo Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral) no período equivalente a sua implantação e extinção (1967 -1985).

Na seção seguinte, Gisele Iecker de Almeida, doutoranda em História pela Universiteit Gent (Bélgica), apresenta uma entrevista feita com a historiadora Nina Schneider, que é pesquisadora de pósdoutorado Marie Curie na Universidade de Konstanz, na Alemanha e doutora em História pela Universidade de Essex (Reino Unido). A entrevista intitulada “Justiça de Transição no Brasil: uma entrevista com Nina Schneider” foi realizada em 20 de setembro de 2014 e aborda os debates atuais sobre o processo de transição democrática no Brasil, a justiça de transição e os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade.

Encerrando o número 10 da Revista Crítica Histórica, o mestrando em História pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) Flávio Pereira apresenta uma resenha da obra de Karl Marx O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, destacando a temática do político em torno do conceito de luta de classes.

Através de mais um número lançado pela Revista Crítica Histórica, esperamos contribuir proveitosamente com o debate historiográfico e com boas reflexões. Aproveito para agradecer aos autores, que se dedicaram e produziram textos de excelência para esta edição.

Michelle Reis de Macedo – Doutora. Professora Adjunta de História do Brasil da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Organizadora da edição nº 10.


MACEDO, Michelle Reis de. Apresentação. Crítica Histórica, Maceió, v. 5, n. 10, dezembro, 2014. Acessar publicação original [DR]

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Revista de Ensino, Educação e Ciências Humanas. Londrina, v. 15, n. esp, dez. 2014.

Artigos

O movimento queremista e a democratização de 1945: Trabalhadores na luta por direitos – MACEDO (AN)

MACEDO, Michelle Reis de. O movimento queremista e a democratização de 1945: Trabalhadores na luta por direitos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013. Resenha de: COUTINHO, Renato Soares. Anos 90, Porto Alegre, v. 21, n. 40, p. 553-558, dez. 2014.

Boas perguntas, por vezes, costumam gerar boas respostas.

É muito raro uma pesquisa consistente, com hipóteses originais e abordagem coerente partir de uma questão de menor relevância. Nas últimas décadas, as pesquisas na área de história e o pensamento social brasileiro vêm se debruçando sobre um debate gerado por uma indagação inquietante. Como Getúlio Vargas, presidente que governou durante período ditatorial, especialmente entre 1937 e 1945, conseguiu estabelecer suas bases de apoio eleitoral entre os trabalhadores brasileiros, com o Partido Trabalhista Brasileiro, no período democrático, entre 1946 e 1964? Indo direto ao problema, podemos sintetizar a pergunta da seguinte maneira: como explicar a popularidade de Vargas e de seu projeto político, o trabalhismo, entre os trabalhadores? Em linhas gerais, podemos identificar a existência de duas vertentes analíticas que percorrem caminhos bastante distintos para explicar o mesmo fenômeno. A mais antiga delas destaca as ações dos agentes estatais. Censura, repressão policial e propaganda política são os objetos mais investigados da perspectiva que busca, em última análise, entender a popularidade de Getúlio Vargas como resultado das bem-sucedidas estratégias de dominação social. Interpretações mais recentes preocupam-se com as relações mantidas entre o Estado e os setores populares, elevando os trabalhadores à condição de ator político. Projetos e crenças políticas, demandas sociais e organizações sindicais, ideias e valores culturais dos trabalhadores tornam-se objeto de estudo dos historiadores. Ou seja, temos duas correntes interpretativas que formularam variáveis independentes que se situam em polos distintos: para uma delas, as ações do Estado explicam o comportamento dos trabalhadores; para outra, as interações entre eles e o Estado se tornam a chave explicativa.

Para os leitores que estão familiarizados com o tema, não é difícil decifrar quais são as perspectivas apontadas acima. A primeira delas, a mais antiga, acabou por produzir e consolidar o conceito de populismo como ferramenta conceitual capaz de explicar a popularidade de líderes como Vargas – valorizado pelo seu carisma.

Segundo essa perspectiva, a estrutura social construída pelo processo de modernização capitalista tardia acabou conferindo ao Estado-Nacional uma condição privilegiada de dominação sobre os trabalhadores, por conta da ausência de um histórico de lutas capaz de gerar, entre essa camada da população, uma consciência de classe autônoma.

A segunda perspectiva delineada anteriormente vem cumprindo a tarefa de dialogar e enfrentar proposições que há décadas estão enraizadas não só no campo acadêmico, mas também no senso comum. Tendo como base trabalhos inovadores, como a A invenção do trabalhismo (GOMES, 2005), o suposto problema da falta de organização e consciência de classe dos trabalhadores brasileiros foi substituído por vasta pesquisa documental que visava a dar conta da construção da cultura política do operariado brasileiro a partir das suas próprias experiências de luta. A premissa de que a repressão e a propaganda foram capazes de gerar satisfação ou persuadir os trabalhadores foi abandonada. Pesquisas recentes, baseadas em fontes documentais, comprovam que o operário brasileiro interagiu com o Estado, resultando em trocas materiais e simbólicas que, em muitos aspectos, respondiam aos anseios e às reivindicações dos próprios trabalhadores. Vale destacar que não se trata de mudar os nomes, simplesmente trocando o termo populismo por trabalhismo. Não se trata da substituição de conceitos.

Trabalhismo é compreendido como um projeto político resultante das relações entre Estado e classe trabalhadora, em que ambos foram protagonistas na construção do projeto político.

O livro O movimento queremista e a democratização de 1945, da historiadora Michelle Reis de Macedo (Rio de Janeiro, 7 Letras, 2013), oferece sólida resposta para a pergunta que mobiliza diversos historiadores brasileiros. Nas palavras da autora: “[…] por que vários setores sociais, especialmente a maioria dos trabalhadores e setores populares, apoiavam o ditador?” (p. 17). Sem se perder nos intermináveis debates conceituais que envolvem a temática escolhida, a autora não se furta de destacar com clareza a sua filiação teórica e metodológica. Porém, o faz sem os andaimes das citações bibliográficas que, quando exageradas, tornam o texto enfadonho até mesmo para o especialista. O livro de Michelle de Macedo é uma obra sustentada por uma edificação conceitual rica e clara, mas com as estruturas teóricas cobertas pelo refinado acabamento documental. A utilização de uma vasta documentação e a análise das fontes são os maiores méritos do trabalho da historiadora, e, para a satisfação do leitor, as polêmicas conceituais são discorridas em meio aos problemas postos pela pesquisa.

O livro é o primeiro publicado sobre o movimento queremista no Brasil. Inspirados pela frase “Queremos Getúlio”, os queremistas organizaram comícios, produziram panfletos e pressionaram diretamente o presidente Getúlio Vargas a lançar sua própria candidatura para as eleições que colocaram fim ao regime ditatorial do Estado Novo, em dezembro de 1945. O movimento acabou não conseguindo sucesso na sua principal empreitada – a candidatura de Vargas –, mas teve influência determinante no resultado eleitoral das eleições presidenciais de 1946, além de ter contribuído decisivamente para a organização das bases programáticas e para a composição social do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

Dividido em quatro capítulos, a obra destaca inicialmente a conjuntura internacional gerada pela vitória dos países aliados sobre os regimes fascistas ditatoriais na Segunda Guerra Mundial.

A autora mostra como o discurso de oposição ao Estado Novo buscou associar a imagem de Vargas aos líderes fascistas europeus.

A União Democrática Nacional (UDN), partido que inicialmente arregimentou um leque de oposicionistas a Vargas, iniciou a campanha eleitoral motivada pela certeza de que a imagem do ditador não poderia resistir ao contexto de ampla mobilização e exaltação dos valores liberais democráticos que ressurgiam prestigiados ao final da guerra. A campanha para a presidência, articulada em torno do brigadeiro Eduardo Gomes, começou contagiada pelo otimismo da certeza da vitória.

Nem mesmo o avanço das organizações queremistas a partir do segundo semestre de 1945 foi capaz de conter o ânimo da campanha udenista. Mesmo nos casos em que a mobilização queremista se mostravam coordenada e em crescimento, a resposta dos líderes udenistas era marcada pelo descrédito daqueles que julgavam os atos dos trabalhadores como “desvios” gerados pela propaganda estadonovista.

No segundo capítulo, Michelle de Macedo vai ao encontro do seu objeto de estudo. Ao analisar as ações coletivas dos queremistas, a autora mostra para o leitor os significados que norteavam as escolhas políticas dos trabalhadores que apoiavam Getúlio Vargas. Através de matérias veiculadas em jornais e de cartas enviadas para o presidente, a autora desvenda valores e anseios que orientavam os trabalhadores que defendiam a candidatura de Vargas. As divergências entre o pensamento liberal udenista e a cultura política dos trabalhadores entravam em conflito especialmente em torno da compreensão de “qual” democracia estava em jogo. Para os queremistas os avanços materiais promovidos pela legislação trabalhista conquistada nos anos anteriores eram mais importantes do que um sistema político baseado em regras formais de competição partidária. A cultura política popular mostrava-se alheia ao discurso liberal da campanha udenista, que tinha como princípio o fortalecimento das instituições da democracia representativa. Investigando quais eram as demandas populares em 1945, a autora mostrou como a questão da representatividade nos parâmetros da democracia liberal estava em segundo plano para o trabalhador brasileiro. Naquela ocasião, mesmo com a vitória das democracias liberais no conflito mundial, o interesse do trabalhador brasileiro era assegurar os benefícios trabalhistas que foram distribuídos durante o governo do presidente Vargas. Nesse contexto, a saída de Vargas representava uma ameaça aos ganhos materiais conquistados no regime que encerrava. E a ameaça era real. Afinal, a campanha udenista desqualificava a legislação social, acusando-a de “fascista”. Aliás, foi nessa época que surgiu a famosa expressão de que “a CLT era cópia da Carta del Lavoro”. Arroubos eleitorais udenistas, certamente, mas que assustaram os trabalhadores.

No capítulo seguinte, a análise do apoio dos comunistas ao queremismo é um dos pontos mais interessantes e elucidativos na disputa entre udenistas e queremistas. Os udenistas tinham como certo a oposição do líder comunista Luiz Carlos Prestes a Getúlio Vargas. Não foi o que ocorreu. Ao contrário, Prestes apoiou Vargas.

A partir daí, os liberais udenistas reforçaram a crítica aos partidários de Vargas e Prestes associando suas crenças aos regimes totalitários europeus. No discurso da UDN, o fascismo de Vargas e o comunismo de Prestes representavam a mais terrível ameaça aos valores democráticos. A participação do Partido Comunista do Brasil (PCB) foi um complicador a mais na campanha eleitoral udenista. Como também da imprensa, toda ela alinhada com a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes e com a UDN. Ainda no terceiro capítulo, a autora apresenta uma série de matérias publicadas nos jornais que visavam a ensinar a história do Brasil para o trabalhador brasileiro.

Nesses textos, o povo brasileiro sempre aparecia atuando em busca dos seus direitos sociais.

Por fim, Michelle de Macedo analisa o processo de institucionalização do movimento após a desistência de Getúlio Vargas de participar das eleições presidenciais. O queremismo é entendido nesse momento como um primeiro esboço das principais demandas dos trabalhadores que apoiariam, nos anos seguintes, o PTB.

Outro ponto de grande relevância do capítulo que conclui o livro é a pressão feita por facções do queremismo para que Getúlio Vargas declarasse seu apoio à candidatura de Eurico Gaspar Dutra, candidato do PSD. Isso realça o grau de autonomia que os defensores da candidatura de Vargas tinham em relação ao líder político. Durante toda a campanha eleitoral de Dutra, Vargas não pronunciou uma única palavra de apoio ao candidato do PSD. Apenas às vésperas da votação é que Vargas decidiu pedir o voto a Dutra, fato que, muito certamente, contribuiu para a derrota da UDN nas eleições de 1946.

A autora mostra como a pressão dos queremistas contribuiu para a decisão de Vargas, e esse evento comprova como as interações entre a liderança política e os agentes sociais são marcadas por pressões – mesmo que desiguais – vindas de ambos os lados.

Como já escrevi anteriormente, o livro de Michelle de Macedo é mais uma valiosa resposta a um problema que intriga muitos historiadores: a popularidade de Getúlio Vargas entre os trabalhadores.

Resposta que agrega mais substância ainda aos pesquisadores que se dedicam a compreender o fenômeno Vargas não apenas como o resultado de ações manipuladoras por parte do Estado, mas como o resultado da materialização de demandas sociais produzidas por agentes conscientes e organizados.

Referências

FERREIRA, Jorge (Org.). O populismo e sua história: debate e crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

GOMES, Angela de Castro. A invenção do trabalhismo. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005.

MACEDO, Michelle Reis de. O movimento queremista e a democratização de 1945: Trabalhadores na luta por direitos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013.

Renato Soares Coutinho – Doutor em História Social pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense e Professor de História do Brasil da Universidade Castelo Branco. Contato: [email protected].

Périclès, la démocratie athénienne à l’épreuve du grand homme – AZOULAY (RMA)

AZOULAY, Vicent. Périclès, la démocratie athénienne à l’épreuve du grand homme. Paris: Armand Colin, 2010, 280p. AZOULAY, Vicent. Pericles of Athens. Princeton: Princeton University Press, 2014. (translated by Janet Lloyd, with a foreword by Paul Cartledge), 312 p. Resenha de: FUNARI, Pedro Paulo A. Revista Mundo Antigo, v.3, n.6, dez., 2014.

Péricles (495-429 a.C.) pode ser considerado um dos personagens históricos mais citados e referidos em todos os tempos. Marcou não apenas a história de Atenas, no seu auge, como exerceu influência nos milênios posteriores, graças, em parte, às narrativas do historiador Tucídides no próprio século V a.C. e do filósofo de época romana Plutarco, autor de uma biografia do estadista. O historiador Vincent Azoulay aceitou o desafio de retratar o ateniense para a coleção de “novas biografias históricas” da editora parisiense, tendo o grande êxito da edição francesa e sua premiação (Prix du Sénat du livre d’histoire 2011), levado à tradução para o inglês e à edição recente em Princeton. O jovem historiador francês tem se dedicado à História cultural do mundo grego, a partir de uma perspectiva fundada na teoria social, e com o recurso sistemático não só à tradição textual, como à epigrafia e à Arqueologia. Pode considerar-se, ainda, que sua perspectiva se insere nos estudos de recepção e usos do passado, como neste belo volume. Desde a introdução, explicita que se trata de um ir e vir constante entre presente e passado, nessa ordem, com o uso de abordagens de cunho sociológico (como o conceito de habitus de Pierre Bourdieu), mas também com destaque para as evidências arqueológicas, referidas com frequência ao decorrer do volume. Leia Mais

A Justiça do Trabalho e sua história – GOMES; SILVA (RBH)

GOMES, Ângela de Castro; SILVA, Fernando Teixeira da (Org.). A Justiça do Trabalho e sua história. Campinas: Ed. Unicamp, 2013. 528p. Resenha de: LIMONCIC, Flávio. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.34, n.68, jul./dez. 2014.

Nos últimos 70 anos, as vidas de milhões de mulheres e homens Brasil afora se cruzaram nas varas da Justiça do Trabalho. Nos próximos anos, outras tantas o farão. A Justiça do Trabalho é uma instituição central não apenas do aparato estatal que regula as relações de trabalho no Brasil, mas do próprio mundo do trabalho brasileiro. Por isso, causa estranheza o fato de que ela tenha sido tão pouco visitada pela historiografia e pela sociologia do trabalho no Brasil. A Justiça do Trabalho e sua história, volume organizado por Ângela de Castro Gomes e Fernando Teixeira da Silva, constitui importante contribuição para a superação de tal lacuna. E o faz segundo a melhor tradição historiográfica, com base em exaustiva pesquisa de fontes produzidas por esse ramo do Poder Judiciário ao longo de décadas e em diferentes cidades e regiões do Brasil, envolvendo tanto trabalhadores individuais quanto categorias profissionais.

O livro é estruturado em cinco partes, além de uma apresentação na qual os organizadores realizam um apanhado histórico da trajetória do tribunal. A começar pelos organizadores, os autores têm longa trajetória acadêmica ou profissional e larga produção na área de estudos do trabalho.

A primeira parte, com textos de Clarice Gontarski Speranza e Rinaldo José Varussa, trata da conciliação entre patrões e empregados em torno das condições de vida e trabalho. Speranza desenvolve suas reflexões a partir das relações entre mineiros de carvão e seus patrões no Rio Grande do Sul, entre 1946 e 1954, ao passo que Varussa o faz a partir dos trabalhadores de frigoríficos do Oeste do Paraná nas décadas de 1990 e 2000. A segunda parte discute a Justiça do Trabalho na arbitragem dos conflitos entre patrões e empregados. O texto de Antonio Luigi Negro e Edinaldo Antonio Oliveira Souza desenvolve uma reflexão sobre a Justiça do Trabalho na Bahia entre 1943 e 1948, ao passo que Benito Bisso Schmidt realiza sua análise a partir da ação de uma trabalhadora da indústria de sapatos em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul, entre 1958 e 1961. Fernando Teixeira da Silva e Larissa Rosa Corrêa discutem a questão do poder normativo da Justiça do Trabalho na terceira parte, o primeiro em São Paulo às vésperas do golpe de 1964, a segunda tendo como tema a política salarial nos primeiros anos da ditadura civil-militar (1964-1968). A atuação da Justiça do Trabalho no mundo rural brasileiro é o tema da quarta parte. Antonio Torres Montenegro reflete sobre a ação de tal Justiça na ditadura civil-militar, ao passo que Frank Luce trata do estatuto do trabalhador rural na região do cacau. Por fim, na quinta e última parte se discute a Justiça do Trabalho diante das formas de contratação do trabalho oriundas de processos de flexibilização e precarização das relações de trabalho. Vinícius de Rezende concentra suas reflexões na indústria do calçado de Franca entre 1940 e 1980, Magda Barros Biavaschi reflete sobre a terceirização a partir de processos judiciais, e Ângela de Castro Gomes discute a Justiça do Trabalho diante do trabalho análogo à escravidão.

Muito embora historiadores que atuam em diversas universidades brasileiras componham a maioria dos trabalhos referidos – como, aliás, seria de se esperar em um livro que traz a História em seu nome –, Frank Luce é advogado trabalhista e professor de estudos do trabalho na York University, Toronto, e Magda Barros Biavaschi é desembargadora aposentada do Tribunal Regional do Trabalho do Rio Grande do Sul. A reflexões de ambos evidenciam a importância não só do diálogo com outras disciplinas – no caso da Justiça do Trabalho, o diálogo com a área de direito parece de evidente importância –, como, também, da incorporação de ângulos novos ao tema, como os estudos sobre o mundo rural.

Na Apresentação, os organizadores introduzem, ainda, uma questão fundamental, dessa vez relativa às fontes.

Ainda que a compreensão do que constitui fonte histórica tenha mudado desde que a disciplina histórica se constituiu como campo do saber, fontes continuam sendo imprescindíveis para o trabalho do historiador, e este volume anda de par em par com a literatura histórica e sociológica que, nas últimas décadas, tem utilizado fontes judiciais. No entanto, advertem os organizadores do volume, a documentação produzida pela Justiça do Trabalho tem sido sistematicamente eliminada graças à Lei 7627, de 10 de novembro de 1987 (coincidentemente, o 50º aniversário do Estado Novo). Somente no ano de 2005, quase 540 mil processos foram eliminados no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, localizado em São Paulo.

A Lei 7627 é apenas uma das ameaças às fontes judiciais brasileiras. Outras provêm de projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional e de Resoluções do Conselho Nacional de Justiça, às quais vem somar-se a rápida e constante inovação tecnológica que torna obsoletos e, portanto, potencialmente inacessíveis, diversos suportes imateriais, como arquivos eletrônicos. Nesse sentido, o presente livro constitui, também, um alerta para o tipo de reflexão que pode ser perdido caso as fontes judiciais brasileiras em geral, e as da Justiça do Trabalho em particular, sejam efetivamente descartadas.

Suscitar questões, mais do que chegar a conclusões, parece ser a medida de um bom trabalho. E este o faz, ao sugerir ao menos duas, que são tratadas de passagem na “Apresentação”. Da longa manus do Estado de inspiração fascista a elemento do que Ângela de Castro Gomes chama, em outro trabalho, de pacto trabalhista, seria de grande interesse que a Justiça do Trabalho fosse pensada de forma mais sistemática na arquitetura institucional do corporativismo brasileiro. Seria de igual interesse, também, que o papel do Estado na mediação do conflito entre patrões e empregados fosse estudado num enfoque internacional comparativo. De fato, no contexto dos anos 1930 e 1940, vários países criaram agências estatais para a regulação de diferentes mercados, inclusive o de trabalho.

Ao sugerir tais questões, assim como ao reunir reflexões de tal qualidade, A Justiça do trabalho e sua história constitui contribuição fundamental não só para a compreensão da atuação da Justiça do Trabalho, como também para um melhor entendimento de como esta se enraizou nos corações e mentes de gerações de trabalhadores brasileiros.

Flávio Limoncic – Departamento de História, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). E-mail: [email protected].

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1964-2014: Memórias, testemunho e Estado / Fronteiras – Revista Catarinense de História / 2014

O número 24 da revista Fronteiras, a Revista Catarinense de História, traz o Dossiê – 1964-2014: memórias, testemunho e Estado, com discussões produzidas a partir do XV Encontro Estadual de História da ANPUH-SC – “1964-2014: Memórias, Testemunhos e Estado”, ocorrido em agosto de 2014, em Florianópolis. Neste volume, o dossiê apresenta artigos de autores e autoras que se debruçaram, em diferentes perspectivas e enfoques, na temática que envolveu o período militar no Brasil, especialmente no Estado de Santa Catarina; e um relato da Comissão da Verdade em Santa Catarina. Também apresenta artigos de fluxo contínuo e resenhas.

Caroline Jacques Cubas apresenta o artigo Igreja Católica em tempo de ditadura militar: do diálogo à subversão em páginas impressas, onde problematiza os posicionamentos desta instituição religiosa em relação ao regime militar; as representações sociais e políticas observadas em periódicos nacionais entre 1968 e 1979. Reinaldo Lindolfo Lohn, no artigo intitulado Santa Catarina e a ditadura empresarial: o caso da política agrária, nos mostra como a política agrária dos setores vinculados à agropecuária empresarial em Santa Catarina, encontrou meios para impor diretrizes e interesses com a instauração do golpe militar; e analisa o aparelho estatal ao longo das décadas de 1950 e 1960.

O documentário “Que bom te ver viva” é tema de estudos de Arielle Rosa Rodrigues e Mariana Cristina Silva. As autoras analisam questões relacionadas com as memórias de mulheres ex-militantes da esquerda revolucionária brasileira, sobreviventes da tortura física e psicológica sofridas nas prisões da ditadura, entre as décadas de 1960 e 1970; refletem sobre a relação entre história e memória e as experiências traumáticas vividas por mulheres. Segue o tema das mulheres com o artigo Novembrada: as mulheres, o cárcere e as solidariedades, de Marlene de Fáveri. A autora recupera memórias de mulheres que participaram do evento contestatório ao regime militar ocorrido em Florianópolis, em novembro de 1979; mostra parte do cotidiano da prisão, os atos de solidariedade e as resistências, observando as relações de poder e gênero.

Em seguida, o artigo de Luiz Felipe Falcão que traz o título Alegorias da verdade: esboços nas conexões entre História Oral e História do Tempo Presente sobre a resistência à ditadura e o processo de democratização no Brasil nas últimas décadas do século XX. O autor analisa depoimentos de ex-militantes e ativistas das esquerdas brasileiras acerca de suas atividades de resistência ao regime militar, e o processo de democratização; aborda versões dos acontecimentos e reflexões historiográficas para formulações de uma história do Tempo Presente.

Derlei Catarina de Luca apresenta um relato dos trabalhos da Comissão Estadual da Verdade de Santa Catarina, criada para auxiliar a Comissão Nacional da Verdade; o intuito era de examinar e esclarecer as violações de direitos humanos praticadas por motivação exclusivamente política, ocorridas entre 1946 e 1988, no Estado de Santa Catarina. Esta Comissão foi criada por decreto governamental em março de 2013, com o objetivo de efetivar o direito à memória e à verdade histórica. Neste relato, que se intitula A Busca da Verdade, a autora historiciza os trabalhos da Comissão; seus resultados; publiciza nomes de pessoas que estiveram sob a mira do aparato repressivo; as resistências; assassinatos; torturas; e conclui que é “Para que nunca se esqueça. Para que nunca mais aconteça.” Derlei Catarina de Luca é membro da Comissão Estadual da Verdade e militante do Coletivo Catarinense Memória, Verdade, Justiça.

Na seção Artigos, André Souza Martinello e Marcos Fábio Freire Montysuma apresentam o texto intitulado Experiências e percepções ambientais de migrantes japoneses no sul do Brasil nos anos de 1950 a 197; observam, através das memórias destes migrantes, o contato com diferentes configurações geográficas, climáticas e culturais; as adaptações e as diferenciações em relação aos espaços de terra trabalhados. Noutro artigo, com o título “Não deixe o Canto do Morcego acabar”: embates entre preservacionistas e investidores na Praia Brava – Itajaí (SC), Gloria Alejandra Guarnizo Luna mostra as denúncias sobre a ocupação de forma desordenada e a consequente destruição da orla marítima no município de Itajaí, analisando discursos das mídias contemporâneas e os movimentos de resistência da população.

Na seção Resenhas, Waldir José Rampinelli faz uma análise sobre a trilogia de Elio Gaspari, que trata da ditadura militar brasileira: A ditadura envergonhada: as ilusões armadas; A ditadura escancarada: as ilusões armadas, e A ditadura derrotada: o sacerdote e o feiticeiro. Heloísia Nunes dos Santos resenha o livro de Derlei Catarina de Luca, No corpo e na alma; e Daniele Beatriz Manfrini apresenta a obra de Margareth Rago, A aventura de contar-se.

Marlene de Fáveri

Janine Gomes da Silva

Samira Moretto Peruchi

Organizadoras do Dossiê


FÁVERI, Marlene de; SILVA, Janine Gomes da; PERUCHI, Samira Moretto. Apresentação. Fronteiras: Revista catarinense de História. Florianópolis, n.24, 2014. Acessar publicação original [DR]

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História das Sociedades africanas: temas, questões e perspectivas de estudo / Anos 90 / 2014

Desde pelo menos meados do século XX, pode-se falar da existência de uma área acadêmica denominada estudos africanos ou africanologia, integrada por profissionais de diferentes disciplinas (antropologia, arqueologia, arte, direito, filosofia, história, literatura, música, sociologia, entre outras), que têm em comum o interesse pela análise de aspectos relativos aos povos, às sociedades, instituições, atividades econômicas, aos sistemas simbólicos, discursos e às interpretações sobre a África e os africanos.

Esta área tem sido desenvolvida a partir de pelo menos três diferentes tendências gerais de abordagem. A primeira ganhou forma na Europa ocidental, desde o período da colonização na África, e evoluiu de uma perspectiva racializada e eurocêntrica para outra mais diversificada, em que as particularidades africanas passaram gradualmente a ser consideradas (DIALLO, 2001; GOERG, 1991; VYDRINE, 1995; MAINO, 2005). A segunda emergiu nos Estados Unidos nos anos 1950-1960 e teve a origem ligada em parte às demandas de conhecimento das universidades estadunidenses sobre as jovens nações africanas no momento em que elas eram inseridas no complexo jogo das relações internacionais do período da Guerra Fria; vincula-se também à emergência dos movimentos de reivindicação de direitos civis protagonizados por afro- estadunidenses, desejosos de ver seus laços históricos fortalecidos com o seu continente de origem (FERREIRA, 2010). A terceira é constituída por intelectuais nativos da África, de variada formação, e suas interpretações valorizam as referências locais, bem como a experiência dos próprios africanos, fundando-se em conhecimento erudito articulado a saberes tradicionais, endógenos (NZIEM, 1986; LOPES, 1995; KAKOMBO, 2005; BARBOSA, 2012).

No Brasil, a área ganhou força na última década, embora exista há mais de meio século em núcleos de pesquisa pioneiros, como o Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), na Universidade Federal da Bahia, fundado em 1959; o Centro de Estudos Africanos (CEA), da Universidade de São Paulo, criado em 1965, e o Centro de Estudos Afro-Asiáticos (CEAA), da Universidade Cândido Mendes, em 1973. Fora desses, não obstante iniciativas isoladas, somente no início do século XXI assiste-se a um movimento no sentido da institucionalização dos estudos africanos, através de atividades em diversas disciplinas – sobretudo história e literatura, e em menor proporção antropologia e sociologia (MARQUES; JARDIM, 2012).

Esta alteração corresponde a uma resposta da comunidade acadêmica diante das exigências colocadas pela obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e africana no ensino fundamental e médio após a promulgação da lei federal nº 10.639 / 2003, ampliada pela lei federal nº 11.645 / 2008. É a partir deste momento que ocorre, ao que parece, uma progressiva inserção curricular de temas africanos, com a criação de disciplinas nos cursos de história de 34 universidades públicas. É também desse momento em diante que se pode observar uma tendência à ampliação do interesse pela África, para além da docência, com pesquisa acadêmica formal incipiente (PEREIRA, 2013).

Tal movimento implica, em certa medida, uma tomada de posição em relação aos referenciais de estudo, aos métodos e instrumentos conceituais e analíticos empregados nas análises, bem como uma definição mais clara deles quanto à sua aplicabilidade aos temas e problemas específicos das sociedades africanas em sua experiência social, cultural e histórica. Implica igualmente a definição mais precisa de fronteiras entre os estudos africanos e estudos afro-brasileiros, em especial aqueles vinculados ao tráfico atlântico e à diáspora que, embora próximos em certos pontos, não são necessariamente equivalentes (PIAULT, 1997; SANSONE, 2002; ZOUNGBO, 2012). As condições para que isso venha a ocorrer de modo cada vez mais consistente foram ampliadas com a criação de uma rede nacional de NEABs (Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros) e, em 2011, com a criação do GT Nacional de História da África, vinculada à Associação Nacional de História (ANPUH).

O presente dossiê tem a finalidade de contribuir neste processo de afirmação institucional. Dele participam especialistas em estudos africanos provenientes de diversas regiões brasileiras, da África ocidental, Estados Unidos e Europa, com experiência em distintos temas de investigação, em sua maior parte colaboradores da Rede Multidisciplinar de Estudos Africanos do Instituto Latino de Estudos Avançados da UFRGS (http: / / grupodeestudosafricanos.blogspot. com.br / 2014 / 06 / tendencias-de-estudo.html), criada em 2014, sob nossa coordenação e do jovem pesquisador guineense Frederico Matos Alves Cabral.

No que diz respeito ao enfoque do dossiê, maior atenção veio a ser dada aos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), devido muito provavelmente às afinidades culturais que nos unem a Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, mas também comparecem textos sobre outros espaços africanos, na Costa do Marfim e na Namíbia, com o desenvolvimento de questões políticas e sociais que lhe são próprias. Quanto ao espectro da análise, abrange os modos de organização social, instituições e tipos de exercício do poder, relações de dominação e resistência, processos identitários, elaborações discursivas, formas de representação e preservação da memória coletiva em diferentes áreas geográficas e contextos, no lapso temporal compreendido entre o século XV e o início do século XXI.

Neste amplo quadro geográfico e histórico, cumpre identificar em primeiro lugar o papel diferencial das dinâmicas sociais e a grande capacidade de adaptação e interação das sociedades africanas ou de indivíduos provenientes delas em situações de contato dentro e fora do continente. Do que se pode depreender dos trabalhos iniciais do dossiê, relativos à alta Guiné e ao litoral centro-ocidental durante os séculos XV-XIX, no período de formação do “mundo atlântico”, os africanos não se fecharam em costumes e instituições imutáveis, mas abriram-se a diferentes inovações. Não se trata, muito longe disso, de assimilação, nem mesmo de processos de mestiçagem ou crioulização pura e simples, mas de transformações decorrentes da ampliação de suas possibilidades históricas ou de alterações que afetaram suas estruturas sociais originais.

É o que indica o estudo do africanista português José da Silva Horta, da Universidade de Lisboa, ao examinar a tessitura das primeiras redes de contato intracontinentais de que participaram africanos livres. Delas tomaram parte indivíduos de diferentes grupos de origem, entre a Senegâmbia, o arquipélago de Cabo Verde, os rios da Guiné e Serra Leoa, de onde sua diferencial participação na formação de aristocracias africanas e luso-africanas nas elites locais. Neste trânsito também circularam conceitos, práticas e experiências religiosas de origem africana em paralelo aos elementos do sagrado cristão, produzindo o que o autor designa de imaginários comunicantes – optando desse modo pela ideia da coexistência, ou no máximo de justaposição de elementos das diferentes cosmologias postas em contato, em vez das sínteses ou mesclas sugeridas pela ideia de imaginários mestiços.

Noutra área geográfica, mas com sentido parecido, verifica-se o processo de reconfiguração desencadeado pela cristianização do Congo na primeira metade do século XVI, quando foi decisiva a atuação de sacerdotes e catequistas congueses na estruturação de novas práticas religiosas. Ao aliar elementos cristãos aos elementos tradicionais de sua sociedade, estes serviram de destacados mediadores culturais, algo posto em evidência pela pesquisadora Marina de Mello e Souza, da Universidade de São Paulo.

Por razões diferentes, mas relacionadas com as alterações impostas pela gradual importância do porto de Luanda no tráfico transatlântico, surgiram desde o século XVII comunidades de escravos fugitivos, conhecidas pelos nomes de mutolos ou quilombos, que funcionavam como foco de resistência em áreas sob controle português. Em detalhado estudo, o brasileiro Roquinaldo Ferreira, que atua há anos na Universidade de Brown, examina os fatores associados a esta questão – que ganhou maior projeção no século XIX, no contexto da crise do tráfico internacional de escravos.

Outro aspecto a ser sublinhado tem a ver com a alta capacidade de resiliência daquelas sociedades, que souberam resistir a pressões e determinações exteriores, mantendo vivos seus traços essenciais, sobretudo em face da situação colonial – para usar a conhecida expressão cunhada por Georges Balandier. Nesse sentido, o trabalho de Regiane Augusto de Mattos, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, desenvolve uma questão pouquíssimo explorada no estudo da institucionalização da conquista colonial europeia ao fim do século XIX: o protagonismo das mulheres anciãs chefes de linhagens do norte de Moçambique, chamadas pia-mwene – com quem as autoridades portuguesas, para garantir sua influência local, foram forçadas a se relacionar, e inclusive a negociar.

Por sua vez, as contradições inerentes às relações desequilibradas entre a metrópole lusa e as colonias de Angola e Moçambique são evidenciadas na interpretação do significado da proclamação da república portuguesa, em 1910, feita por Valdemir Zamparoni, da Universidade Federal da Bahia. O autor examina o contraste entre o ideal universalista do conceito político de república, sua efetiva manifestação conservadora em Portugal e as espectativas frustradas das camadas dirigentes coloniais em face do pragmatismo administrativo de cariz racista inerente ao projeto imperial transplantado para a África.

A busca da complexidade das estratégias africanas norteia por sua vez o texto de Marçal de Menezes Paredes, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, no estudo sobre a formação nacional em Moçambique no período posterior à independência. A atenção recai especificamente no projeto político e ideológico da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), que se baseia na ideia de um homem novo, em consonância com uma noção particular de moçambicanidade.

Saindo da comunidade linguística oficial lusófona, a proposta de análise do brasileiro Acácio de Almeida Santos, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e do marfinês Aghi Bahi, da Universidade Félix Houphouët-Boigny, recoloca em outros termos as categorias e os conceitos retirados da literatura sociólogica e da ciência política para entender as relações entre sociedade civil e participação política na Costa do Marfim. Trata-se de pensar os componentes e as variáveis da ação política de diferentes segmentos sociais, desde o período colonial até o momento presente, o que põe em causa a ideia corriqueira de um suposto apolitismo ou de uma suposta passividade da sociedade civil diante das elites que controlam o Estado.

Os três últimos artigos privilegiam os discursos e as representações nas sociedades africanas do século XX, pondo acento nas dinâmicas culturais que dão sentido à história e à memória e orientam a ação social e política no período contemporâneo.

O circuito em que transitaram teorias e ideias políticas e a maneira criativa como foram lidas, apropriadas e reinterpretadas pelos intelectuais africanos em diferentes locais, condições e contextos é o que confere grande originalidade ao pensamento social africano, tal como demonstra o artigo de Leila Leite Hernandez, da Universidade de São Paulo.

A maneira pela qual a produção didática em livros de história escritos no período posterior à independência de Angola tem retratado os portugueses, examinada por Anderson Ribeiro Oliva, da Universidade de Brasília, permite entrever o quanto a relação especular com o antigo colonizador continua a conferir sentido a uma identidade nacional em construção.

Por fim, a disputa pela preservação da memória de determinados atores envolvidos em acontecimentos traumáticos do período colonial do sudoeste africano, em especial o caso do massacre dos Herero e dos Nama pelos alemães, entre 1904-1908, sugere leituras multifacetadas e divergentes das relações euro-africanas ou afro- europeias na Alemanha e na Namíbia. As diferentes formas de celebração dos acontecimentos na memória coletiva dos grupos envolvidos e as interpretações fornecidas pela história levantam a questão da descolonização do passado, como bem aponta o estudo de Silvio Marcus Correa, da Universidade Federal de Santa Catarina, que encerra o dossiê. Para concluir, resta agradecer aos colaboradores que gentilmente enviaram seus textos, acreditando e confiando no dossiê temático aqui publicado. Os resultados alcançados, vistos em conjunto, provam a qualidade dos estudos africanos produzidos no Brasil, vislumbrando caminhos, perspectivas de análise e grandes possibilidades de um futuro promissor.

Referências

BARBOSA, Muryatan Santana. A África por ela mesma: a perspectiva africana na História Geral da África (UNESCO). Tese (Doutorado). São Paulo: Programa de Pós-Graduação em História – USP, 2012.

DIALLO, Youssouf. L’Africanisme en Allemagne, hier et aujourd’hui. Cahiers des Études Africaines (Paris), n. 161, tome XLI-1, 2001, p. 13-43.

FERREIRA, Roquinaldo. A institucionalização dos estudos africanos nos Estados Unidos: advento, consolidação e transformações. Revista Brasileira de História (ANPUH), v. 30. n. 59, 2010, p. 73-90

GOERG, Odile. L’historiographie de l’Afrique de l’Ouest: tendances actuelles. Gêneses (Paris), n. 6, 1991, p. 68-78.

KAKOMBO, Jean-Marie Mutamba. L’histoire de l’Afrique vue par les africains. In: MANDÉ, Issiaka; STEFANSON, Blandine (Orgs.). Les historiens africains et la mondialisation. Actes du 3º congrès international des historiens africains, Bamako, 2001. Paris: Bamako: Éditions Karthala; AHA / ASHIMA, 2005. p. 237-251.

LOPES, Carlos. A pirâmide invertida: historiografia africana feita por africanos. In: VVAA. A Construção e ensino da História de África. Colóquio de Lisboa, 7-9 de junho de 1994. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995. p. 12-32.

MAINO, Elisabetta. Pour une genealogie de l’africanisme portugais. Cahiers des Études Africaines, n. 177, tome XLV-1, 2005, p. 165-215.

MARQUES, Diego Ferreira; JARDIM, Marta da Rosa. O que é isto: a África e sua história? In: TRAJANO FILHO, Wilson (Org.). Travessias antropológicas: estudos em contextos africanos. Brasília: Associação Brasileira de Antropologia (ABA), 2012. p. 31-61.

NZIEM, Ndaywel. African historians and africanist historians. In: JEWSIEWICKI, Bogumil; NEWBURY, David (Eds). African historiographies. What history for which Africa?. Beverly Hills; London; New Delhi: Sage Publications, 1986. p. 20-27.

PEREIRA, Márcia Guerra. A pesquisa em história da África nas universidades brasileiras: um panorama. In: XXVII Simpósio Nacional de História – Conhecimento histórico e diálogo social. Disponível em: http: / / www.snh2013.anpuh. org / resources / anais / 27 / 1364762337_ARQUIVO_ApesquisaemHistoriadaAfrica. pdf. Acesso em: 12 jul. 2014. Anos 90, Porto Alegre, v. 21, n. 40, p. 13-20, dez. 2014

PIAULT, Marc H. Images de l’Afrique, Afrique imaginaire ou question d’identité brésilienne. Journal des Africanistes (Paris), tome 67-1, p. 9-25, 1997.

SANSONE, Lívio. Da África ao afro: uso e abuso da África entre os intelectuais e na cultura popular brasileira durante o século XX. Afro-Ásia (UFBA), v. 27, 2002. p. 249-269.

VYDRINE, Valentin. A propos des études africains en Russie. Journal des Africanistes (Paris), tome 65-2, 1995. p. 235-238.

ZOUNGBO, Victorien Lavou. Idas e vindas: Áfricas, Américas. Trajetórias imaginárias e políticas. Projeto História (PUCSP), n. 44, p. 9-22, 2012. Anos 90, Porto Alegre, v. 21, n. 40, p. 13-20, dez. 2014

José Rivair Macedo – Departamento de História e PPG de História – UFRGS; Pesquisador do CNPq; Sócio-correspondente da Academia Portuguesa da História; Coordenador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros, Indígenas e Africanos – UFRGS; Coordenador da Rede Multidisciplinar de Estudos Africanos – UFRGS.


MACEDO, José Rivair. Apresentação. Anos 90, Porto Alegre, v. 21, n. 40, dez., 2014. Acessar publicação original [DR]

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História e Sociologia / História e Cultura / 2014

A Sociologia surge durante o século XIX, o século das especializações, inspirada nas Ciências Naturais, em busca da explicação da regularidade dos “fatos sociais”. A História, por sua vez, é um campo do saber de longa data, por muito tempo considerada como uma área que visa acentuar a singularidade dos acontecimentos. Nessa linha interpretativa, enquanto a primeira se propõe a estabelecer um olhar geral e abrangente, buscando a interpretação e a generalização, a segunda se define pelo olhar da lupa que enxerga ao nível do detalhe e é capaz de dar luz ao arbitrário do movimento histórico. Esta é uma narrativa possível, embora há muito superada, sobre as duas ciências e suas fronteiras, pois, ao estabelecer tais definições de forma estanque, não é capaz de compreender as trocas e influências mútuas que as constituem. Essa visão também não considera as possibilidades criativas apresentadas por perspectivas contemporâneas, em ambas as áreas ou em focos interdisciplinares, que buscam ir além dos olhares que põem demasiada ênfase às “determinações estruturais” ou às ilimitadas escolhas conscientes dos agentes que conduzem as mudanças sociais.

Tal interpretação remonta às narrativas do século XIX de origem das disciplinas científicas que, embora não sejam falsas, são criações que dependem da seleção e da organização de eventos. É lugar-comum que a França é o contexto no qual a Sociologia se consolida como ciência, a partir das ambições levadas a cabo, entre outros, em primeiro lugar por Auguste Comte e, de forma mais sofisticada e definitiva por Émile Durkheim. A nova ciência buscava a explicação dos fenômenos sociais a partir de análises comparativas que possibilitassem a generalização e o estabelecimento de modelos explicativos da dinâmica social, portanto, em perspectiva antagônica com a historiografia prevalecente, aquela desenvolvida por Leopold von Ranke, centrada no estudo do fenômeno histórico compreendido em sua singularidade. A História serviria como ciência auxiliar às pretensões universalizantes da Sociologia.

Entretanto, ainda se referindo ao mesmo contexto francês, foi a partir da perspectiva inovadora dos Annales, desde a sua primeira geração de historiadores, que se estabeleceu uma revolução na maneira de se conceber a historiografia na década de 1930. Busca-se nessa perspectiva a interdisciplinaridade, especialmente entre a Antropologia, a Geografia, a Linguística, a Economia e a Sociologia. Houve, desta forma, uma influência muito grande da Sociologia neste novo e decisivo paradigma de se estudar a História a partir da perspectiva da “história-problema”, da preocupação com a interpretação e não mais com a simples narração e cronologia de fatos. A História incorporava elementos da Sociologia, recriando-se a partir de uma tradição que lhe é própria, recolocando novos “problemas” a desafiarem historiadores e sociólogos. Este é somente um exemplo, de importância inegável, do diálogo profícuo que se estabeleceu entre as duas áreas do conhecimento, renovando seus objetivos e as formas de produção do conhecimento acadêmico.

As ciências se configuram enquanto campos de saber específicos a partir de sua institucionalização, das definições de métodos, técnicas e objetos de pesquisa. Compreender o aspecto contextual, dinâmico e de natureza renovadora das ciências nos permite vislumbrar seu caráter plural, com as contribuições distintas da historiografia e sociologia francesas, norte-americanas, inglesas, latino-americanas, dentre outras que poderíamos provisoriamente classificar, bem como acompanhar seu desenvolvimento e suas trocas enriquecedoras. É no diálogo, muitas vezes contrastivo, que se fundam e se renovam as tradições teóricas e é por meio dele que os campos do saber se reinventam. A sociologia e a historiografia contemporânea, com sua ampla diversificação de autores, abordagens teóricas e metodologias renovam as questões e possibilidades de encontro entre as áreas.

Muito tem sido discutido mais contemporaneamente sobre as fronteiras e contribuições entre as duas áreas. O sociólogo Norbert Elias, expoente da sociologia histórica, apresenta-se como crítico de modelos explicativos sociológicos sistêmicos que pouco dão atenção à dinâmica histórica, mas não busca no elemento histórico algo “único” ou uma “singularidade absoluta”, em direção divergente, em uma abordagem que aproxima as duas áreas do conhecimento, visando analisar os processos históricos. Assim, Elias fomenta uma teoria sociológica que permite interpretar a mudança histórica como aspecto fundamental do social e a história de maneira menos subjetiva. Já o historiador Paul Veyne, em O inventário das diferenças. História e Sociologia (1983), acredita que a História deva recorrer e caminhar junto à Sociologia para ser interpretativa e problemática, mostrando que não há leis na História e que a História é, na verdade, o inventário das diferenças. O historiador deve, segundo Veyne, incorporar as teorias da Sociologia para perceber os tempos históricos em suas diferenças dentro do que há de constantes.

Para além das fronteiras demarcadas entre História e Sociologia, outros saberes, do qual se destacam aqueles originários dos Estudos Culturais, como as correntes teóricas contemporâneas dos estudos queer, pós-coloniais e feministas, apresentam-se como perspectivas críticas às limitações disciplinares. Críticos dos pressupostos normativos, presentes em diversificados campos de conhecimento, constroem a partir de incorporações criativas de diversos saberes, novas formas de conhecimento sobre o social e o histórico. É, portanto, na interdisciplinaridade que surgem outras abordagens inovadoras e críticas às relações de saber e poder institucionalizadas, que reproduzem ou invisibilizam diversas hierarquias e subalternizações da vida social.

Embora tenhamos alguns exemplos de reflexões nos estudos acadêmicos nacionais, notamos que são sempre importantes e mesmo necessárias produções que busquem refletir sobre a dinâmica entre as áreas, suas fronteiras e, especialmente, suas contribuições, tanto no âmbito teórico, como na realização de pesquisas empíricas, principalmente porque as reflexões e aportes teóricos das Ciências Sociais mudam com o passar do tempo. Tal é a proposta deste dossiê, apresentar artigos, tanto fundamentados em discussões teóricas, quanto baseados em pesquisas empíricas, que mostrem as contribuições, aproximações e o diálogo entre a Sociologia e a História.

Com base na proposta do dossiê, de apresentar uma interlocução entre áreas do conhecimento, a partir de uma perspectiva histórica e sociológica, incorporamos o Serviço Social ao debate, tendo em vista seu reconhecimento como profissão inserida no campo das ciências humanas e sociais.

O Serviço Social no Brasil surge nos anos de 1930, na fase monopólica do capital, como resposta às demandas e necessidades sociais da época. Com a emergência da questão social, entendida também como questão política, resultado da luta de classes e das desigualdades sociais produzidas no capitalismo, a profissão foi requisitada pelo Estado e pelos setores privados, objetivando, num cenário tenso, contraditório e antagônico, enfrentar as mazelas sociais pela via das políticas públicas.

Sendo assim, o Serviço Social não surge como uma ciência inscrita oficialmente num campo de saber, mas como uma profissão inserida na divisão social do trabalho, ou seja, como uma especialização do trabalho coletivo, dada sua dimensão interventiva. Isso não significa ausência da dimensão investigativa na profissão, tendo em vista que o Serviço Social atualmente é reconhecido e considerado área de produção do conhecimento. Nesse caso, as ciências humanas e sociais, especialmente a História, a Sociologia, a Economia e a Ciência Política, têm contribuído de forma significativa para a produção de conhecimento na área de Serviço Social. Concomitantemente, sobretudo nas últimas décadas, pesquisas, reflexões e produções teóricas do Serviço Social também têm contribuído com essas áreas do saber.

Tendo em vista a complexificação da realidade social, marcada pelas especializações e pela fragmentação do saber, inúmeros são os desafios do tempo presente no que se refere ao conhecimento produzido. Em muitas situações, esse conhecimento aparece descontextualizado, isolado, desconexo e justaposto, o que exige dos pesquisadores e estudiosos das diversas áreas do saber uma postura interdisciplinar.

A interdisciplinaridade pressupõe interlocução, diálogo, pluralismo de ideias, de posicionamentos, de concepções e abordagens. Nesse sentido, a interdisciplinaridade como postura, permite amplitude na análise e apreensão da realidade social a partir de várias angulações e perspectivas. A postura interdisciplinar contribui para a apropriação da natureza epistemológica e ontológica da realidade social, com vistas ao conhecimento de fatos, fenômenos e processos sócio-históricos.

Nesse cenário complexo e desafiador para a produção de conhecimento foi que surgiu a proposta desse dossiê, tendo em vista a necessidade de aproximação e interlocução entre as diversas áreas do saber.

O dossiê conta com treze artigos de estudiosos e pesquisadores das áreas de História, Sociologia e Serviço Social, voltados à temática das relações entre as áreas de História e Sociologia. Também apresenta uma entrevista com o pesquisador e professor Richard Miskolci que versa sobre sua trajetória acadêmica, refletindo sobre a importância da interdisciplinaridade no desenvolvimento de suas pesquisas focadas na temática das diferenças e dentro de uma perspectiva queer.

No primeiro artigo, Encontros entre História e Sociologia: primeiros embates metodológicos na França, Brunno Hoffmann perfaz uma discussão própria da virada do século XIX para o XX no contexto francês, quando a Sociologia e a História delimitavam suas fronteiras e disputavam no campo acadêmico as formas legítimas de abordagem do mesmo objeto: a vida do homem em sociedade.

Ulisses do Valle, no texto A relação entre História e Sociologia no horizonte da conceitualização e da explicação dos objetos históricos: reflexões sobre o pensamento de Max Weber, reflete sobre a História e a Sociologia a partir das propostas de Max Weber.

O terceiro artigo, História e Sociologia: a contribuição de Norbert Elias, de Tereza Cristina Kirschner, discute a elaboração criativa e interdisciplinar do sociólogo alemão e sua recepção entre sociólogos e historiadores.

Em As contribuições da Sociologia para o desenvolvimento da História Intelectual, Marcos Sorrilha Pinheiro analisa os “empréstimos teóricos” da sociologia de Pierre Bourdieu, Raymond Williams e Charles Tilly na elaboração de métodos de pesquisa da área de História Intelectual.

Elisângela de Jesus Santos problematiza, em Intelectuais e História: identidade caipira e o com-texto civilizatório brasileiro do século XX, a partir da perspectiva dos estudos culturais latino-americanos e dos estudos descoloniais, a construção do personagem literário Jeca Tatu na obra de Monteiro Lobato, dando destaque ao conceito de “colonialidade”.

O artigo de Maria Cecília Adão, Análise Histórico-Sociológica das Mudanças Comportamentais Femininas e do Impacto destas nas Famílias Militares, busca compreender como as mudanças comportamentais empreendidas pelas mulheres, desde a década de 1960 até os dias atuais, impactam nos arranjos familiares dos oficiais militares. Para isso a pesquisa realiza uma análise complementar entre elementos teóricos sociológicos e metodologias de pesquisas históricas.

Karen Fernanda da Silva Bortoloti, em seu artigo, Anísio Teixeira e as Ciências Sociais, apresenta reflexões sobre a contribuição e o legado de Anísio Teixeira para as Ciências Sociais e a educação brasileira.

Já o artigo Mapas Afetivos: recursos metodológicos baseados na história oral e reflexões sobre identidades espaciais e temporais em estudo sociológico, de Andréa Vettorassi, apresenta, por meio de metodologia baseada na história oral, com ênfase nos “mapas afetivos”, reflexões sobre o cotidiano, memória e identidade de trabalhadores migrantes em cidades do interior do Estado de São Paulo.

O manuscrito Paradoxos da Cidadania à Brasileira: sociologia histórica do campo jurídico no Brasil, de Márcio Caniello, aborda o sentido paradoxal da cidadania no Brasil, tendo como referência uma análise da formação sócio-histórica brasileira.

Quanto ao artigo de Clóvis Carvalho Britto, Paulo Brito do Prado e Raquel Miranda Barbosa, Vendo o sol nascer bordado: poderes, saberes e fazeres de reeducandas na Unidade Prisional de Goiás, os autores analisam, sob o crivo da memória e a ótica das relações de gênero, o Projeto Cabocla, implantado na Cidade de Goiás, como forma de trabalho e geração de renda para mulheres. Com base em entrevistas com mulheres, idealizadoras e trabalhadoras do projeto, enfatizam suas trajetórias de vida, suas redes de sociabilidade, cultura, relações de poder e identidades.

No artigo Os movimentos populares no Brasil: elementos sócio-históricos e desafios atuais, Michelly Ferreira Monteiro Elias retrata os movimentos sociais de caráter popular no Brasil no contexto de acirramento da luta de classes, tendo como referência temporal as últimas décadas do século XX e os primeiros anos do século XXI. Em uma conjuntura adversa, sob hegemonia do capital financeiro, apresenta as fragilidades, potencialidades e desafios postos aos movimentos populares na cena contemporânea.

Meire de Souza Neves, em seu artigo, A contribuição da Teoria Social Crítica para a formação em Serviço Social, apresenta os desafios e dilemas contemporâneos da formação em Serviço Social, destacando a importância e necessidade de se reafirmar uma perspectiva crítica, ancorada na tradição marxista, no projeto de formação profissional.

No último artigo, Confissões de um sociólogo, aprendiz de historiador (ou viceversa): aspectos da relação entre Sociologia e História em uma pesquisa sobre Oswald de Andrade, Giordano Barbin Bertelli em uma perspectiva dialógica entre os dois saberes, visa refletir sobre sua própria trajetória de pesquisa sobre Oswald de Andrade, buscando uma visão dinâmica e processual da realidade social e considerando a prática de pesquisa um campo de tensionamento e confrontação ao poder.

Como apresentamos, este dossiê é composto por trabalhos que trazem temáticas e metodologias variadas visando um mesmo propósito, refletir sobre o diálogo entre a História e a Sociologia numa perspectiva interdisciplinar. Desejamos, assim, boas leituras!

Reginaldo Guiraldelli – Professor da Universidade de Brasília, UnB Doutor em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista, UNESP / Franca.

Fernando de Figueiredo – Balieiro Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos, UFSCar.

Semíramis Corsi Silva – Doutora em História pela Universidade Estadual Paulista, UNESP / Franca Organizadores do Dossiê História e Sociologia.


GUIRALDELLI, Reginaldo; BALIEIRO, Fernando de Figueiredo; SILVA, Semíramis Corsi. Apresentação. História e Cultura. Franca, v.3, n.3 (Especial), dez., 2014. Acessar publicação original [DR]

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O uso da calculadora nos anos iniciais do ensino fundamental – SELVA; BORBA (Bo)

SELVA, A.C.V. BORBA, R.E.S.R. O uso da calculadora nos anos iniciais do ensino fundamental. Belo Horizonte: Autêntica, 2010. Resenha de: KISTEMANN JR., Marco Aurélio. BOLEMA, Rio Claro, v.28, n.50, p.1579-1582, dez., 2014.

Este livro das educadoras matemáticas Ana Selva e Rute Borba, já na sua introdução, revela que a discussão sobre o uso da calculadora nas salas de aula do Ensino Fundamental é atual e controverso, dividindo opiniões nos diversos segmentos educacionais, uma vez que a polêmica se dirige para a questão de como a calculadora pode auxiliar no desenvolvimento de atividades em sala de aula, influenciando positivamente o aprendizado matemático de alunos de séries iniciais.

De acordo com as autoras, algumas defesas do uso da calculadora embasam-se no amplo uso dessa ferramenta em situações matemáticas extra-escolares. Por outro lado, sujeitos que se opõem ao uso da mesma, argumentam que crianças que ainda não dominam as operações aritméticas não devem ser expostas ao uso da calculadora para a solução de problemas matemáticos. Corroboramos a opinião das autoras de que a mera introdução da calculadora, sem reflexões sobre suas reais possibilidades e seus limites, não é suficiente para que essa mídia seja propulsora de desenvolvimento de conceitos matemáticos, na correção de erros e como instrumento de autoavaliação.

Apesar das divergências, as autoras defendem que, se bem utilizada em situações didáticas planejadas com critério, a calculadora constitui-se como ferramenta que pode auxiliar o aluno, por exemplo, na constituição do sistema de numeração decimal, na operação com números naturais e racionais, entre outros conceitos matemáticos. Para guiar suas ações investigativas, Selva e Borba traçam questionamentos centrais buscando investigar se: (i) o uso de calculadora por alunos em séries iniciais inibe o raciocínio dos mesmos; (ii) o uso de calculadora impede avanços matemáticos; e (iii) a calculadora pode auxiliar o desenvolvimento do raciocínio matemático de alunos dos anos iniciais.

No capítulo II, intitulado O que pensam professores sobre o uso da calculadora, fica claro, nas falas das autoras, que o principal responsável pelo uso da calculadora em sala de aula é o(a) professor(a), cabendo a este profissional a decisão final de elaboração de atividades para que os alunos, desde cedo, possam interagir usando a calculadora. Nesse sentido, percebemos que discussões sobre o uso de computadores e calculadoras em sala de aula propiciarão aos professores conhecimentos sobre como e porque utilizarem essas ferramentas enquanto instrumentos de ensino e de aprendizagem. As autoras, neste capítulo, apresentam ainda um levantamento realizado junto a professores que atuam nos 4º e 5 º anos, buscando descobrir se estes propõem atividades e como são as propostas elaboradas para o uso de calculadora no Ensino Fundamental. Esse levantamento tem como escopo analisar, de uma forma abrangente, a concepção de professores com relação ao uso da calculadora, a importância da mesma, as (des)vantagens percebidas quando de sua utilização e quais conteúdos são mais apropriados para serem desenvolvidos com esse recurso didático. Um resultado importante desse levantamento, dentre outros, é o que revela que, embora os professores afirmem reconhecer a necessidade do uso da calculadora em sala de aula, apontando as (des)vantagens de sua utilização, os mesmos reconhecem que não têm feito uso sistemático deste recurso no seu cotidiano escolar.

O que as pesquisas mostram sobre o uso da calculadora dá nome ao terceiro capítulo desse livro, no qual Selva e Borba discutem como e o que dizem os pesquisadores em Educação Matemática sobre o uso de calculadora em sala de aula. Embora defendam que o uso de computadores e calculadoras pode promover uma reorganização da atividade matemática, ressalta-se, ao longo do capítulo, que a calculadora é um mero instrumento coadjuvante e acessório nas atividades matemáticas propostas, uma vez que as tarefas devem ser interpretadas e consumadas pelos alunos.

As autoras relatam que estudos nacionais e internacionais vêm apresentando resultados que demonstram que a calculadora pode exercer um papel importante na compreensão de conceitos matemáticos, explicitando que a calculadora pode e deve ser proposta em sala de aula a partir de situações que estimulem os alunos a refletirem, subsiando também o professor na proposição de atividades matemáticas.

O Capítulo IV, Usando a calculadora em sala de aula, apresenta uma série de seis observações realizadas pelas autoras, em 2006, em uma escola particular em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, em uma turma de 5º ano do Ensino Fundamental e de quatro observações em uma turma de 4º ano do mesmo nível e na mesma escola. A escolha por essa escola e essas séries se deve ao histórico – de pelo menos quatro anos – de desenvolvimento de atividades envolvendo a calculadora em sala de aula. Nesta escola buscam-se diversas formas de se superar dificuldades no trabalho com o uso da calculadora, tais como a resistência dos pais, a dependência dos alunos com relação ao uso de calculadora e o despreparo docente para o uso de tecnologias. Em suma, este capítulo mostra exemplos de atividades que podem ser utilizadas em sala de aula com o apoio da calculadora e os momentos prazerosos de aprendizagem resultantes das discussões de conteúdos matemáticos por parte de professor e alunos do Ensino Fundamental de uma escola particular pernambucana.

O capítulo intitulado Como os livros didáticos têm tratado o uso da calculadora, concentra-se no papel desempenhado pelos responsáveis por planejar e elaborar os livros didáticos, bem como no papel daqueles que analisam livros didáticos de Matemática dos anos iniciais e suas propostas concernentes ao uso de calculadora. Para tanto, realizou-se a análise detalhada de coleções de livros didáticos em particular no que se referia às atividades nas quais se observava a necessidade do uso da calculadora, buscando também uma verificação acerca das reflexões que os compêndios didáticos, no que diz respeito ao uso de tecnologias, proporcionam aos professores em suas práticas pedagógicas.

Percebemos também neste capítulo que, embora a importância da calculadora como ferramenta de cálculo seja reconhecida, o seu uso em sala de aula com sua representação simbólica alternativa, perfazendo-se como instrumento de explorações conceituais em cenários variados de resolução de problemas, ainda apresenta-se como alvo de muitos preconceitos, pois muitos profissionais consideram que a inserção da calculadora pode inibir o raciocínio dos alunos, além de gerar a denominada preguiça mental.

O penúltimo capítulo, Outras atividades com calculadora, apresenta propostas de atividades com a calculadora organizadas de forma criteriosa, levando-se em consideração o tipo de atividade, o eixo matemático a que se refere e os conceitos trabalhados. As atividades buscam entre outras propostas: (i) explorar o valor posicional do sistema de numeração decimal; (ii) propor a resolução de problemas com grandezas e medidas; (iii) explorar a divisão como geradora de números decimais e a multiplicação de decimais; (iv) explorar diferentes representações dos conceitos matemáticos e as relações entre operações inversas; e (v) estimular atividades de estimativas e realização de cálculos confirmadores de resultados.

No capítulo que encerra o livro, as autoras enfatizam que o fato da calculadora enriquecer o processo de ensino aprendizagem não significa que se deva extinguir o ensino de algoritmos com o uso de papel e lápis na resolução de problemas matemáticos. Em oposição a essa ideia absurda, as autoras asseveram que o tradicional uso do papel e do lápis permitem também aos alunos evoluir na resolução de um problema, ampliando as possibilidades de estratégias favorecedoras da construção dos conceitos matemáticos que permeiam o algoritmo. Contudo, ressaltam a importância do uso de novas tecnologias no processo de ensino e aprendizagem matemática já nos anos iniciais do Ensino Fundamental.

Para Selva e Borba é fundamental que ocorra a elaboração de propostas pedagógicas que tragam em seu bojo o uso de tecnologias que perpassem todos os níveis e modalidades de ensino, carecendo também de uma contundente conscientização da comunidade escolar como um todo, pais, alunos, professores, e gestores, para a relevância do trabalho envolvendo tecnologias diversas na escola.

Entendemos que a riqueza do tema exposto por Selva e Borba se revela inicialmente quando se ressalta, em diversos pontos do livro, que o uso da calculadora para a exploração de conceitos matemáticos vem desmistificando o papel da calculadora na sala de aula dos anos iniciais. Entendemos que essa desmistificação é gradativa, mas pode levar os agentes educacionais a adquirir uma visão mais abrangente sobre a utilização de calculadora na escola por meio de atividades que promovam a construção de conceitos matemáticos.

Por fim, a riqueza do tema se revela também quando são apresentadas investigações realizadas pelas autoras que demonstram que a presença da calculadora pode ser motivadora para os alunos, gerando um ambiente de reflexões acerca de situações matemáticas que se tornam repetitivas, enfadonhas e dominadas por práticas mecânicas nas quais se utilizam somente lápis e papel. Ao optar por essa tecnologia, ou seja, pela calculadora, aos alunos é dada uma opção distinta da mera aprendizagem de um algoritmo, o que se torna uma ferramenta valiosa para a reflexão sobre conceitos matemáticos, constituindo-se em um recurso pedagógico complementar para as propostas do professor de Matemática.

Marco Aurélio Kistemann Júnior – Doutor em Educação Matemática pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), Rio Claro, São Paulo. Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro-RJ. Professor e pesquisador do Departamento de Matemática e do Mestrado Profissional em Educação Matemática, onde lidera o GRIFE/UFJF (Grupo de Investigações Financeiro-Econômicas em Educação Matemática), na Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil. E-mail: [email protected].

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Aprendizagem histórica: fundamentos e paradigmas | Jörn Rüsen

A obra de Jörn Rüsen (1938 –) tem sido bem divulgada entre as ciências humanas no Brasil, sobretudo em função dos esforços concentrados de alguns grupos de pesquisa, em teoria da história e historiografia ou na área de educação histórica, por meio de seus periódicos; entre eles, esta Revista de Teoria da História (UFG). A maneira como o autor tem sido recepcionado entre nós pelo público universitário, isto é outra questão. É fora de dúvida, todavia, que encontram-se entre nós pesquisadores muito bem equipados e habilitados para uma avaliação apurada das contribuições de Rüsen e da aplicabilidade de suas teorias à historiografia ou à didática da história. Para uma análise detida de sua Historik, aprendemos com eles que há que se considerar as discussões da historiografia alemã pós-guerra e, igualmente, os debates teóricos e epistemológicos nas ciências humanas desde o XIX – ou antes, desde a filosofia das luzes – até a atualidade. Além disso, o contexto de europeização e história global, assim como algumas questões políticas, tais quais a alteridade, os direitos do homem e o meio ambiente, próprias do humanismo contemporâneo. Notem-se bem, por fim, a amplitude e a impressionante coerência interna de seu projeto e a filosofia da história subjacente, mantenedora de uma compreensão otimista do mundo. Leia Mais

A invenção de África: Gnose, filosofia e a ordem do conhecimento – MUDIMBE (AN)

MUDIMBE, Valentin Yves. A invenção de África: Gnose, filosofia e a ordem do conhecimento. Mangualde (Portugal), Luanda: Edições Pedago; Edições Mulemba, 2013. Resenha de: WEBER, Priscila Maria. Anos 90, Porto Alegre, v. 21, n. 40, p. 563-568, dez. 2014.

“O mito é um texto que se pode dividir em partes e revelar a experiência humana e a ordem social” (MUDIMBE, 2013, p. 180).

A obra A invenção da África: Gnose, Filosofia e a Ordem do conhecimento1, de Valentin Yves Mudimbe2, caracteriza-se por abranger uma perspectiva historicista que problematiza os conceitos e discursos do que conhecemos como uma África mitificada. As verdades veiculadas por filósofos, antropólogos, missionários religiosos e ideólogos, bem como imagens ocidentalizadas e/ou eurocêntricas, inerentes aos processos de transformações dos vários tipos de conhecimentos, são desconstruídas por Mudimbe pari passu aos padrões imperiais ou coloniais. Para tal empreitada, vale ressaltar as inúmeras referências que compõem um sólido corpus documental utilizado pelo autor em sua investigação, ou seja, estas transitam da filosofia romana ao romantismo alemão. Ou ainda, o questionar e investigar através do termo gnose, cunhado com o intuito de erguer uma arqueologia do(s) sentido(s) do Pensamento Africano.

Para o autor, o sentido, assim como os usos de um conhecimento “africanizado” e a forma como foi orquestrado, ou seja, um sistema de pensamento que emergiu estritamente de questões filosóficas, pode ser observado através dos conteúdos veiculados pelos pensadores que o forjam, ou ainda, através dos sistemas de pensamento que são rotulados como tradicionais e as possíveis relações destes com o conhecimento normativo sobre África. Logo, uma sucessão de epistemes, assim como os procedimentos e as disciplinas possibilitados por elas são responsáveis por atividades históricas que legitimam uma “evolução social” no qual o conhecimento funciona como uma forma de poder. As africanidades seriam um fait, um acontecimento e a sua (re)interpretação crítica abrange uma desmistificação que se calca na argumentação de uma história africana inventada a partir de sua exterioridade.

Essa exterioridade que veste a África de roupagens exóticas é problematizada com as inúmeras missões e alianças que arranjavam um forte compromisso com os interesses religiosos e a política imperial. No entanto, o cerne da problematização presente no texto de Mudimbe concentra-se na análise da experiência colonial, um período ainda contestado e controverso, visto que propiciou novas configurações históricas e possibilidades de novos ícones discursivos acerca das tradições e culturas africanas. Sobre a estruturação colonizadora, o autor a coloca como um sistema dicotômico, com um grande número de oposições paradigmáticas significadas. São elas: as políticas para domesticar nativos; os procedimentos de aquisição, distribuição e exploração de terras nas colônias; e a forma como organizações e os modos de produção foram geridos.

Assim, emergem hipóteses e ações complementares, como o domínio do espaço físico, a reforma das mentes nativas e a integração de histórias econômicas locais segundo uma perspectiva ocidental.

Os conceitos de tradicional versus moderno, oral versus escrito e impresso, ou os sistemas de comunidades agrárias e consuetudinárias versus civilização urbana e industrializada, economias de subsistências versus economias altamente produtivas, podem ser citados para que exemplifiquemos o modo como o discurso colonizador pregava um salto de uma extremidade considerada subdesenvolvida para outra, considerada desenvolvida. Queremos com isso dizer que houve um lugar epistemológico de invenção de uma África. O colonialismo torna-se um projeto e pode ser pensado como uma duplicação dos discursos ocidentais sobre verdades humanas.

Para que seja possível obter a história de discursos africanos, é importante observar que alterações no interior dos símbolos dominantes não modificaram substancialmente o sentido de conversão da África, mas apenas as políticas para sua expressão ideológica e etnocêntrica. É como se houvesse uma negritude, uma personalidade negra inerente à “civilização africana” que possui símbolos próprios, como a experiência da escravidão e da colonização como sinais dos sofrimentos dos escolhidos por Deus.3 Contudo, à medida que compreendemos o percurso dos discursos e rompemos epistemologicamente com posições essencializadas, podemos questionar, como sugere Mudimbe, quem fala nestes discursos? A partir de que contexto e em que sentido são questões pertinentes? Talvez consigamos responder essas questões com uma reescrita das relações entre etnografia africana e as políticas de conversão.

Desse modo, o texto de A invenção da África traz com pertinência o refletir sobre alguns autores como E. W. Blyden,4 que rejeitava opiniões racistas ou conclusões “científicas” como os estudos de frenologia populares nos oitocentos. Frequentemente cognominado como fundador do nacionalismo africano e do pan-africanismo, Blyden em alguma medida comporta esse papel, visto que descreveu o peso e os inconvenientes das dependências e explorações, apresentando “teses” para a libertação e ressaltando a importância da indigenização do cristianismo e apoio ao Islã. Para Mudimbe, essas propostas políticas, apesar de algum romantismo e inconsistências, fazem parte dos primeiros movimentos esboçados por um homem negro, que aprofundava vantagens de uma estrutura política independente e moderna para o continente.

A obra segue com reflexões que esboçam embates a respeito da legitimação da filosofia africana enquanto um sistema de conhecimento, visto que algumas críticas expõem esse pensée como incapaz de produzir algo que sensatamente seja considerado como filosofia.

A história do conhecimento na África é por vezes desfigurada e dispersa em virtude da sua composição, ou seja, o acessar de documentações para sua constituição por vezes não apenas oferece as respostas, mas as ditam. Além disso, o próprio conjunto do que se considera por conhecimento advém de modelos gregos e romanos, que mesmo ricos paradoxalmente são como todo e qualquer modelo, incompletos. Muitos dos discursos que testemunham o conhecimento sobre a África ainda são aqueles que colocam estas sociedades enquanto incompetentes e não produtoras de seus próprios textos, pois estes não necessariamente se ocupam de uma lógica do escrito (DIAGNE, 2014).

A gnose africana testemunha o valor de um conhecimento que é africano em virtude dos seus promotores, mas que se estende a um território epistemológico ocidental. O que a gnose confirma é uma questão dramática, mas comum, que reflete a sua própria existência ou, como uma questão pode permanecer pertinente? É interessante lembrar que o conhecimento dito africano, na sua variedade e multiplicidade, comporta modalidades africanas expressas em línguas não africanas, ou ainda categorias filosóficas e antropológicas usadas por especialistas europeus veiculadas em línguas africanas. Isso quer dizer que as formas protagonizadas pela antropologia ou pelo estruturalismo marxista onde havia uma lógica original do pensamento trans-histórico inexistem.

As ciências, ou a filosofia, história e antropologia são discursos de conhecimento, logo, discursos de poder e possuem o “[…] projeto de conduzir a consciência do homem à sua condição real, de restituí-la aos conteúdos e formas que lhe conferiram a existência e que nos iludiram nela” (FOUCAULT, 1973, p. 364). Sucintamente, a obra de Mudimbe comporta a análise de algumas teorias e problematizações, como a escrita africana na literatura e na política, propositora de novos horizontes que salientam a alteridade do sujeito e a importância do lugar arqueológico. Ou ainda podemos salientar a negritude, a personalidade negra, e os movimentos pan-africanistas como conhecidas estratégias que postulam lugares.

Contribuições de escolas antropológicas, o nascimento da etnofilosofia, a preocupação com a hermenêutica, ou o repensar do primitivo e da teologia cristã, dividem as ortodoxias que podem ser visibilizadas, por exemplo, com a discussão sobre a Filosofia Bantu, de Tempels ou ainda com as revelações de Marcel Griaule acerca da cosmologia Dogon. A antropologia que descreve “organizações primitivas”, e também programas de controle advindos das estratégias colonialistas, produziu um conhecimento que demandava aprofundamento nas sincronias dessas dinâmicas. Com isso, é plausível considerarmos que os discursos históricos que interpretam uma África mítica são apenas um momento, porém significativo, de uma fase que se caracteriza por uma reinvenção do passado africano, uma necessidade que advém desde a década de 1920.

Notas

1 Editada recentemente no ano de 2013 pelas edições Pedago em parceria com as Edições Mulemba, da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, o volume é uma tradução do original em inglês publicado em 1988 pela Indiana University Press.

2 Nascido em Jadotville no ano de 1941, antigo Congo Belga e atualmente República Democrática do Congo, Valentim Yves Mudimbe posicionou seus interesses de pesquisa no campo da fenomenologia e do estruturalismo, com foco nas práticas de linguagens cotidianas. O autor doutorou-se em filosofia pela Catholic University of Louvain em 1970, tornando-se um notável pensador, seja através de suas obras que problematizam o que se conhece como história e cultura africana, ou ainda pela oportunidade de trabalhar em instituições de Paris-Nanterre, Zaire, Stanford, e ainda no Havard College. Mudimbe ocupou cargos como a coordenação do Board of African Philosophy (EUA) e do International African Institute na University of London (Inglaterra), e atualmente é professor da Duke University (EUA). Disponível em: <https://literature.duke.edu/people?Gurl=& Uil=1464&subpage=profile>. Acesso em: 16 jun. 2014 3 “A negritude é o entusiasmo de ser, viver e participar de uma harmonia natural, social e espiritual. Também implica assumir algumas posições políticas básicas: que o colonialismo desprezou os africanos e que, portanto, o fim do colonialismo devia promover a auto-realização dos africanos. (MUDIMBE, 2013, p. 123). “A negritude destaca-se como resultado de múltiplas influências: a Bíblia, livros de antropólogos e escolas intelectuais francesas (simbolismos, romantismo, surrealismo, etc.) legados literários e modelos literários (Baudelaire, Lautréamont, Rimbaud, Mallarmé, Valéry, Claudel, St. John Perse, Apolinaire, etc.). Hauser apresenta várias provas das fontes ocidentais da negritude e duvida seriamente da sua autenticidade africana. HAUSER, M. Essai sur la poétique de la négritude. Lille: Université de Lille III, 1982, p. 533.” (MUDIMBE, 2013, p. 116) 4 Para informações mais precisas sobre Edward Wilmot Blyden, sugere-se A Virtual Museum of the Life and Work of Blyden. Disponível em: <http://www.columbia.edu/~hcb8/EWB_Museum/Dedication.html>. Acesso em: 30 jun. 2014.

Referências

DIAGNE, Mamoussé. Lógica do Escrito, lógica do Oral: conflicto no centro do arquivo. In: HOUNTONDJI, Paulin J. (Org.). O antigo e o moderno: a produção do saber na África contemporânea. Mangualde; Luanda: Edições Pedago; Edições Mulemba, 2014.

FOUCAULT, Michel. Les Mots et les Choses. Paris: Gallimard, 1973.

HAUSER, Michel. Essai sur la poétique de la négritude. Lille: Université de Lille III, 1982.

MUDIMBE, Valentin Yves. A invenção da África: Gnose, filosofia e a ordem do conhecimento. Mangualde, Luanda: Edições Pedago; Edições Mulemba, 2013.

Priscila Maria Weber – Doutoranda em História PUCRS – Bolsista CAPES. E-mail: priscilamariaweber @yahoo.com.br.

Sortir de la grande nuit: essai sur l’Afrique décolonisée – MBEMBE (AN)

MBEMBE, Achille. Sortir de la grande nuit: essai sur l’Afrique décolonisée. Paris: Éditions La Découvert, 2010, 246p. Resenha de: MIGLIAVACCA, Adriano Moraes. Anos 90, Porto Alegre, v. 21, n. 40, p. 559-562, dez. 2014.

Desde as descolonizações e retiradas de seus países dos antigos poderes coloniais europeus, a situação do continente africano vem sendo assunto frequente e polêmico entre intelectuais, políticos e formadores de opinião no próprio continente e fora dele. Os diversos problemas econômicos e sociais, a instabilidade política e os conflitos internos fazem com que a metáfora da “caixa sem chave”, usada como epígrafe de um dos capítulos do livro Sortir de la grande nuit: essai sur l’Afrique décolonisée, do cientista político camaronês Achille Mbembe, pareça se justificar. O hermetismo presente nessa metáfora amplifica-se com a imagem que o leitor encontra logo no título do livro: a da “grande noite”.

A obra de Mbembe apresenta um exame complexo da natureza desse fechamento em que se encontram o continente e os fenômenos que o compõem. Obra de teor político, Sortir de la grande nuit, além de se valer de imagens poéticas, parte de um relato pessoal de memórias do próprio autor, camaronês com formação acadêmica na França e longa passagem pelos Estados Unidos, que vive atualmente na África do Sul, onde leciona na Universidade de Witwatersrand. O percurso intelectual da obra reflete, portanto, a trajetória do próprio autor: tendo importante foco na África francófona e seu relacionamento ambíguo e tenso com os poderes coloniais franceses, não deixa de considerar as possibilidades e visões que advêm desses diversos países que perfaz a experiência do autor.

Em seu ecletismo literário, o ensaio inicia-se com uma narrativa dos anos de infância, no Camarões, estabelecendo a África, incontroversamente, como núcleo de onde o pensamento do autor se organiza e a partir do qual se articulam as influências de fora. De sua infância em Camarões, Mbembe destaca e elabora seu convívio inicial com os dois elementos que, articulados, dão o teor do livro: a noite e a morte. O autor recorda como o impressionaram, quando criança, os cadáveres ao relento, revolvidos por escavadeiras; relembra também os revolucionários tornados terroristas pelo discurso do poder colonial, mortos aos quais foi negado o reconhecimento de uma sepultura. Acima de tudo, o autor lembra como buscava simbolizar e entender essa realidade que o cercava, e é aí que a metáfora central do livro aparece em sentido denotativo e conotativo: era à noite que o jovem Achille Mbembe buscava construir um discurso sobre a morte. Não é negado o papel que teve o encontro com o cristianismo nessa busca por entendimento: a religião que veio de fora aparecia tanto como discurso de insubmissão quanto como possibilidade de haver, após o escuro da morte e da noite, algo de vida.

Mbembe deixa evidente, no decorrer da obra, o ceticismo com que encara a cultura do colonizador em seus anos de estudante na França. Lá, ele se depara com um povo orgulhoso de sua tradição republicana humanista e universalista, de sua língua como uma “língua humana, universal”. Mbembe não deixa de apontar e elaborar uma contradição entre esse humanismo universalista e o racismo que vê no bojo da própria sociedade francesa e na forma como esta se impusera em seu país natal. A obra do autor antilhano Frantz Fanon abre para ele novas perspectivas sobre o tema da raça, o faz ver o confinamento em uma raça como algo que pode ser superado, bem distante da rigidez dos postulados raciais com que as tradições francesas formaram narrativas de cidadania e pertença a uma humanidade; postulados nos quais o estatuto de “cidadão” é barrado àqueles que, embora admitidos na grande esfera da “humanidade”, o são com certas limitações: são seres humanos “primitivos”, limitados em sua humanidade última. O pensamento de Fanon o coloca à frente com o desafio de romper tal clausura identitária e fazer ver que o homem negro, longe de ser um “primitivo”, é um “homem”, ao qual não faltam quaisquer predicados que definem essa categoria.

Para além da França, Mbembe articula as oportunidades de entendimento que se lhe apresentaram suas experiências nos Estados Unidos e na África do Sul. Uma história de luta por direitos civis, a presença de personalidades negras altamente influentes e a capacidade, mais pronunciada que a da França, de captar para suas universidades as elites africanas, fazendo dos Estados Unidos um destino mais atraente do que a França, cuja influência Mbembe vê declinar. A África do Sul não consegue esconder os vestígios de seu passado discriminatório, que faz o autor ver nela “o signo da besta”; no entanto, o trânsito étnico, nacional e cultural do país dá a ele um cosmopolitismo que é incorporado pelo autor em seu pensamento.

Acima de tudo, é enfatizada a necessidade de uma descolonização, mais que política ou econômica, subjetiva, interior; ou, para usar as palavras do autor, é necessária uma “reconstituição do sujeito”, no qual se desmontem as estruturas coloniais e o possível seja reabilitado. Mbembe é inequívoco em afirmar que esta não é uma tarefa meramente prática-política: um trabalho epistemológico e estético deve ser efetuado, por meio do qual um novo conhecer-se a si mesmo pode emergir. Em particular, a importância da literatura e da crítica literária é enfatizada nesse movimento de descolonização.

A exclusão da África enquanto realidade surge no discurso ocidental primeiramente como uma operação da linguagem. A literatura africana surge como uma reação contra a falta de realidade que reveste o signo africano, enquanto a crítica literária busca operar a desconstrução da prosa colonial, sua montagem mental, suas representações e formas simbólicas que serviram de infraestrutura ao projeto imperial.

Em quaisquer áreas disciplinares, Mbembe identifica no discurso africano três paradigmas político intelectuais, não necessariamente autoexcludentes: o nacionalismo anticolonial, o marxismo e o pan- -africanismo. O primeiro teve uma influência importante na esfera da cultura, da política e economia; o segundo foi fundamental na formação do que veio a ser conhecido como “socialismo africano”; e o terceiro enfatizou a solidariedade racial e transnacional. Para Mbembe, parece, tais paradigmas tendem a ser excessivamente fixos, não dando conta da complexidade e do dinamismo que caracterizam o continente africano. O autor lembra como a África não compreende apenas os negros, mas também as diversas etnias que vieram lançar raízes em seu solo; não compreende apenas os que lá ficam, mas os que de lá saíram, mas continuam sendo, não obstante, africanos.

A África de Mbembe constitui-se, então, não como fonte estática, mas como intervalo de modificações e passagens; seu é o discurso, não mais das origens, mas do movimento, de uma “circulação de mundos”, como conceitua o próprio autor. A esse novo paradigma, Mbembe dá o nome de “afropolitanismo” – movimento no qual a África relativiza suas raízes e busca se reconhecer no distante e o distante no próximo, o próprio no outro. Esse novo paradigma, Mbembe enfatiza, torna insustentável mesmo a “solidariedade negra” proposta pelo pan-africanismo; a raça, afinal, resulta do discurso colonial e externo, exatamente aquele que se busca superar.

Talvez não seja coincidência o fato de o livro se iniciar com as palavras “Il y a um demi-siécle” (há meio século) e terminar com “temps nouveaux” (novos tempos). No título mesmo, já se insinua a inclinação do pensamento do autor para o que há de vir, ao qual todo o trabalho histórico, biográfico e crítico, estendendo-se ao longo da obra. A saída da grande noite a que o autor insta seu leitor é uma busca de vida, uma vontade de comunidade; a noite e a morte englobam as heranças do passado colonial – o confinamento racial, a dependência política e econômica, a subordinação psíquica e intelectual. A vida que busca o empreendimento do autor passa pela negação mesma dessas heranças, mas se dirige a uma nova identidade, um novo centro, que não negue, mas celebre sua multiplicidade.

Notas

1 O livro acaba de ser publicado em língua portuguesa, com o título Sair da grande noite: ensaio sobre a África descolonizada. Mangualde; Luanda: Edições Pedagô; Edições Mulemba, 2014. 204p.

Adriano Moraes Migliavacca – Formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul; doutorando em Literaturas Estrangeiras Modernas pela mesma universidade. E-mail: [email protected].

Mochileiros da fé | R. Bitun

Na busca por uma melhor compreensão sobre o cenário religioso brasileiro, Ricardo Bitun, sociólogo da religião e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), privilegia-nos com um assunto pertinente de uma maior reflexão, o fenômeno nominado por ele “mochileiros da fé”. Nessa obra, Bitun aborda tal movimento a partir do dinamismo e da fluidez com que os adeptos da fé protestante se deslocam de uma Igreja para outra sem qualquer restrição. Usando essa figura de linguagem, o autor compara esses indivíduos aos backpakers, ou seja, “aquele[s] que carrega[m] uma mochila nas costas”, turistas ou peregrinos que agem por conta própria sem dar satisfação a nenhum grupo coletivo de viajantes. Assim, Bitun divide o trânsito religioso em duas etapas: interorganizacional e intraorganizacional. A primeira ocorre de adeptos do catolicismo, espiritismo ou religiões de origem africana para o pentecostalismo; a segunda refere-se àqueles indivíduos que se encontram no pentecostalismo, porém se movimentam entre as igrejas pentecostais e neopentecostais. O livro, além da introdução e das considerações finais, apresenta quatro capítulos: “Em que mundo transitam os mochileiros”, “Os espaços sagrados da peregrinação”, “Por onde vagueiam os mochileiros” e “Eles… os mochileiros”. Leia Mais

Religiosidade no Brasil | J. B. B. Pereira

O primeiro artigo tem como título “As religiões indígenas: o caso tupi-guarani”. Nele, o autor Roque de Barros Laraia não se apropria de fazer um inventário das diferentes religiões indígenas do Brasil, mas, sim, por meio do exemplo tupi-guarani, possibilitar ao leitor o entendimento de algumas características dos sistemas de crenças existentes entre os índios do Brasil. Laraia se detém na descrição do pajé e de tupã, e trata do entendimento de alma para os indígenas. Assim, o autor levanta os quatro tipos de alma: espíritos errantes (aqueles que morreram e não alcançaram ser bons), espíritos criadores ou heróis culturais, os donos das florestas, das águas e dos rios, e os espíritos de animais. Outros dois pontos norteadores para a compreensão das religiões indígenas, segundo o autor, referem-se ao entendimento de “céu” que indica onde estão as almas dos antepassados, o herói mítico, e à perda da vida eterna, em que, como nas religiões cristãs, há uma Eva, só que Tupi não colheu o milho desobedecendo à ordem de Mahyra.

Faustino Teixeira é o autor do segundo artigo da coletânea: “As faces do catolicismo brasileiro”. Inicialmente, Teixeira apresenta dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre as religiões no censo de 2000, em que o catolicismo continua como a religião com o maior número de fiéis, porém apontando para um grande crescimento de evangélicos e dos sem religião. Muito instrutivo, o autor aponta a complexidade da religião católica no Brasil e de forma bastante lúcida enumera quatro vertentes dos meandros do catolicismo: santorial, oficial, de reafiliados e midiático. Ao findar sua análise, Teixeira conclui que o Brasil é um país do sincretismo religioso, mas que ainda há de se elucidar o intenso trânsito entre tradições opostas. Leia Mais

Historicidade e literatura / História da Historiografia / 2014

Este dossiê tem como objetivo pensar a historicidade a partir de sua complexa e por vezes conflitiva relação com a literatura. Com “literatura”, algumas vezes, os acadêmicos se referem a escritos literários geralmente ficcionais, como os romances, e centram suas análises na questão da demarcação entre a disciplina historiográfica e o trabalho criativo de escritores não constrangidos pelas fontes documentais nem pelo que realmente ocorreu. No contexto dessa discussão, surgem os sempre vigentes debates filosóficos em torno da possibilidade de conhecer o passado, da questão do ceticismo, do realismo, do relativismo histórico e, é claro, da relação entre história e ciência. Todas essas questões conformam um corpus de problemas subsumidos sob a denominação filosofia crítica da história, criada para distingui- -la da filosofia substantiva da história. Esta última, também denominada filosofia especulativa da história, busca desvelar o sentido ou finalidade do devir humano, lendo no teatro de horrores que a humanidade atravessou e atravessa a presença de etapas no caminho progressivo até a realização de uma sociedade moralmente melhor. Os historiadores acadêmicos e os filósofos críticos da história têm se afastado da especulação sobre o sentido da marcha da história, mas por diferentes razões pelas quais se distinguiram da literatura. A diferença entre as referidas áreas de conhecimento e a literatura residia no propósito de contar ou não o que realmente havia acontecido e na necessidade ou não de constrangimento em vista das evidências. Por sua vez, o rechaço da filosofia substantiva da história adveio de sua pretensão de referir-se ao passado em si para emitir juízos avaliadores acerca do futuro sem ater-se às fontes documentais. A filosofia especulativa, a bem da verdade, aproximava-se mais da literatura que a investigação científica, ainda que de maneira não intencional. Leia Mais

O terror renegado: a retratação pública de integrantes de organizações de resistência à ditadura Civil-militar no Brasil, 1970-1975 | Alessandra GAsparotto

O livro é resultado de uma adaptação da dissertação de mestrado de Alessandra Gasparotto, agraciada com o Prêmio de Pesquisa Memórias Reveladas 2010. Portanto, a obra cumpre com o pré-requisito de reunir informações relevantes sobre os fatos da história política recente no país a partir de meticulosa pesquisa.

O tema desenvolvido é o dos “arrependimentos” durante a ditadura civil-miliar no Brasil, em que jovens militantes de esquerda foram apresentados aos veículos de comunicação entre 1970 e 1975, renegando suas atividades na luta-armada e oposição ao regime imposto em 1964. Como apurado no livro, “as retratações eram apresentadas na forma de manifestações públicas, entrevistas coletivas, cartas escritas “de próprio punho” e aparições em programas de televisão, além de declarações de arrependimento atribuídas aos militantes por autoridades policiais e militares”. A autora coloca os termos “arrependidos” ou “arrependimento” sempre em itálico, pois considera que foram construídos pelo regime autoritário e pela imprensa da época.

Através de 42 casos referidos no livro, fica evidente que o período de maior incidência desses casos deu-se entre 1970 e 1971, porém o artifício estendeu-se de forma esporádica até 1975. A estratégia do regime foi a de apresentar uma mudança radical no posicionamento e no sentido das ações de antigos militantes que lutaram conta ele de armas na mão. Uma vez “arrependidos”, passavam a defensores do regime ao qual combateram. Essas retratações eram tidas como ações individuais, de militantes que se arrependeram da luta por aquisição de consciência de seus erros, foram exploradas com o objetivo apontar a fraqueza moral da esquerda e, principalmente, da luta armada.

Apresentados como “terroristas arrependidos”, também chamados na época de “desbundados” os militantes tiveram suas vidas sujeitadas à exposição, ganhando muito destaque na mídia nacional. Em alguns casos os protagonistas nunca foram perdoados pela suposta delação ou abandono da causa. Seus atos repercutiram “nas celas dos presídios, no isolamento da clandestinidade ou do exílio, foram recebidos como traição”, observa a autora. O tema nebuloso da traição e do arrependimento é tratado de forma madura, sem explicações simplistas e sem julgamentos de valores precipitados.

Preocupada em contextualizar de forma criteriosa e não repetir a desqualificação a qual foram submetidos por longos anos os “arrependidos”, a autora transita pela bibliografia do tema ditadura civil-militar com desenvoltura e naturalidade, dando assim um sentido acurado na análise de suas fontes primárias que são diversas e muito qualificadas: jornais, revistas, vídeos feitos para televisão, entrevistas pela internet, entrevistas com os “arrependidos” e familiares. Dessa maneira, Gasparotto dá voz as suas fontes, mas coteja suas posições com outros dados e caminhos de forma equilibrada, fazendo um balanço contextualizado e jamais anacrônico ou abusivo.

Merece destaque no livro, além de toda a construção teórico-metodológica clara, a abordagem muito bem articulada na reconstrução dos passos do primeiro grupo de “arrependidos” tornado público em 22/5/1970 no Rio Grande do Sul e veiculado com destaque pela televisão e nas capas de três dos principais jornais de Porto Alegre. Mobilizados por Rômulo Fontes, um grupo de cinco jovens chegou a tecer elogios ao governo do presidente Médici e sua realizações. Essa retratação serviu como pedra basilar na construção de uma estratégia de retratações. Foi de fato uma manifestação arquitetada pelos militantes “arrependidos”, porém o episódio espontâneo deu o tom para uma série de outros “arrependimentos”, ora negociados com contrapartidas de redução de penas ou liberdade, ora impostos a partir de brutal tortura. Também deu margem para diversos convites ao arrependimento e, ainda, falsificação ou alegação de arrependimentos. Então, se houve um movimento espontâneo, ele foi logo ampliado e transformado em ação psicológica para atingir a população, seus desdobramentos contaram com o terrorismo de Estado como meio de convencimento para os reticentes.

Pouco depois do primeiro caso de arrependimento, ganhou notoriedade o caso de Massafumi Yoshinaga de 21 anos, cuja entrevista foi exibida na TV Tupi de São Paulo, no Telejornal Ultra-Notícias do Dia, também foi capa da Revista Veja. Yoshinaga teria sido inclusive referido em discurso do próprio Presidente segundo a Folha de São Paulo em 4 de julho de 1970, e sua manchete “Médici indica o caminho da reconciliação”. O teor da matéria dava voz ao Presidente da República: “afirmou que a política nacionalista de desenvolvimento é o caminho para vencer o terrorismo e reconciliar o país, unindo a todos no esforço para a construção de um futuro promissor”. Médici ainda teria citado “o caso do ex-terrorista Massafumi Yoshinaga, que se entregou às autoridades em São Paulo, impressionado pelas recentes iniciativas do Governo”. Anos mais tarde, sem conseguir estabilidade emocional o jovem Yoshinaga suicidou-se.

Ainda no campo dos casos célebres, a autora dedica uma análise considerável a Celso Lungaretti. Foi tratado de forma muito dura, durante muitos anos por antigos militantes da esquerda que o responsabilizavam, ao que tudo indica injustamente, pela delação de um campo de treinamento da VPR. Ao ser apresentado na televisão, Lungaretti havia sido terrivelmente torturado.

“Foi assim que, na noite do dia 9 de julho de 1970, durante a exibição do Jornal Nacional, os telespectadores da TV Globo que esperavam por mais um capítulo da novela Irmãos Coragem, grande sucesso da época, viram-se surpreendidos pela aparição de Lungaretti – um jovem franzino, de 19 anos e aparência abatida, que renegou sua militância política, negou a tortura nos porões do regime, fez um apelo à juventude para que não ingressasse na luta armada e chegou até mesmo a elogiar algumas obras do Presidente Médici” (Gasparotto, 76-77).

Os anos do governo Médici atestam a face mais dura do regime, mas também revelam a mídia em estreita colaboração com o regime na desqualificação de seus opositores. A televisão foi vista como veículo apropriado para atingir o ambiente psicossocial dos grandes centros urbanos, sua utilização foi priorizada por uma ótica de comunicação capaz de mobilizar e sensibilizar a opinião pública ao mesmo tempo em que ela própria, a TV, se valia do tema do “terrorismo arrependido” para e aumentar os índices de audiência.

Ao longo de seu trabalho Alessandra Gasparotto não somente localiza, data, organiza e expõe de forma consistente como foram explorados na época através da televisão e das páginas de jornal as retratações públicas dos ditos “arrependidos”. Na verdade, ela investiga, dá voz e valoriza a subjetividade dos envolvidos, interpreta resgatando memórias e construindo a história como deve ser; rica e plural. A construção do objeto de sua pesquisa é minuciosamente desenvolvida, sem que isso prejudique a narrativa e a compreensão do leitor, seu rigor não é rigidez, mas compromisso com os personagens, com o contexto, com a memória e com a história, buscado na fluidez de sua escrita e nos filtros de diferentes prismas e fontes. Livro essencial para quem estuda a história do período da ditadura Civil-militar, livro essencial para a memória do Brasil.

Nilo Andé Piana der Castro –  Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


GASPAROTTO, Alessandra. O terror renegado: a retratação pública de integrantes de organizações de resistência à ditadura Civil-militar no Brasil, 1970-1975. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2012. Resenha de: CASTRO, Nilo Andé Piana der. Revista Maracanan. Rio de Janeiro, n.11, p. 138-140, dezembro, 2014. Acessar publicação original [DR]

 

Intelectuais, ciência e modernidade / Intellèctus / 2014

A revista Intellèctus (Uerj), em seu segundo número do volume XIII, dá início a uma nova fase de seu projeto editorial, passando a incluir dossiês temáticos organizados por especialistas convidados, como este que temos o prazer de apresentar sobre o tema “Intelectuais, ciência e modernidade”.

Os artigos que reunimos trazem resultados de pesquisas originais, vinculadas às distintas matrizes no campo da história intelectual, na sua especial interface com a história da ciência. Voltam-se a temáticas como a circulação de ideias e saberes – por meio da formação de redes de interlocução, leituras e correspondência entre intelectuais –, e o surgimento dos espaços formais e informais a partir dos quais, no Brasil e no espaço ibero-americano, de modo mais amplo, se constituíram os campos científicos na modernidade. Leia Mais

Outros Tempos. São Luís, v.2 n. 2, 2005.

Apresentação

Artigos

Publicado: 2014-11-29

Boletim Historiar. São Cristóvão, n.5, 2014.

Artigos

Resenhas

A Conferência de Viena e a Internacionalização dos Direitos Humanos | Matheus de Carvalho Hernandez

O livro apresenta uma detalhada análise da II Conferência Mundial dos Direitos Humanos, a Conferência de Viena, de 1993, situando-a como importante ponto de inflexão para os direitos humanos internacionais. Com o objetivo de proceder a uma nova avaliação global do tema dos direitos humanos, no sentido de aperfeiçoar e fortalecer a proteção internacional desses direitos, a Conferência de Viena destacou como principais temas a ser tratado: a universalidade e indivisibilidade dos direitos humanos, o problema da violação dos direitos humanos, a vinculação entre direitos humanos, democracia e desenvolvimento (o chamado 3Ds, tema pelo qual a Conferência é mais lembrada), a erradicação da pobreza e da exclusão social, a necessidade de maior coordenação e a retirada de reservas aos tratados de direitos humanos.

O principal questionamento que move a investigação é sobre “o lugar da Conferência de Viena no desenvolvimento dos direitos humanos, bem como em seus possíveis impactos para o processo de legitimação e efetivação dos direitos humanos no sistema internacional” (p. 75). Para contextualizar a discussão, Hernandez traça os antecedentes históricos desta conferência a partir do pós-Segunda Guerra: a instrumentalização dos direitos humanos na lógica da Guerra Fria e uma detalhada análise, da pouco mencionada, I Conferência Mundial de Direitos Humanos, a Conferência de Teerã, em 1968. Muitos dos embates ali travados, principalmente as questões sobre a indivisibilidade e universalidade dos direitos humanos, voltariam com força total em 1993. Leia Mais

Child Migration and Human Rights in a Global Age | Jacqueline Bhabha

O tema das migrações internacionais tende a ser mais estudado nas Ciências Sociais do que nas Relações Internacionais (RI). Ainda assim, esse é um assunto que transcende fronteiras nacionais e que também poderia ser explicado pelas teorias das RI. Dentre as muitas óticas pelas quais as migrações podem ser vistas, destaca-se o número de crianças desacompanhadas atravessando a fronteira rumo aos Estados Unidos da América (EUA). Ainda que isso não seja uma novidade, o volume desse fluxo vem aumentando nos últimos anos, sendo inclusive noticiado pela mídia internacional. Nessa linha, Jacqueline Bhabha analisa o tema da migração infantil.

A autora adota uma ótica da criança como sujeito de direitos, presentes na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (1989) para estudar como os Estados lidam com a migração das crianças desacompanhadas (incluindo o seu direito à reunificação familiar), a situação das crianças cidadãs cujos pais são imigrantes irregulares, a adoção internacional, as crianças traficadas, as crianças soldado, as crianças refugiadas e os adolescentes migrantes por causas econômicas. As crianças começam a aparecer nos estudos migratórios relacionadas em trabalhos sobre migrações femininas e familiares. Contudo, a abordagem das crianças como atores com voz própria nem sempre é observada, pois essas normalmente são tratadas como objeto. Ao mesmo tempo, nas RI, os temas que envolvem esse grupo são considerados low politics e recebem pouca atenção internacional e da Academia. Apesar disso, Watson (2006) defende que as crianças são atores da disciplina que impactam as relações interestatais. Leia Mais

EaD em Foco. Rio de Janeiro, v.4, n.2, 2014.

Editorial

Estudos de Caso

Publicado: 2014-10-30

Traduções de Maquiavel: da Índia portuguesa ao Brasil / Tempo / 2014

Desde há muito, no vocabulário português, “tradução” significa o ato de converter um texto falado ou escrito de um idioma a outro, desejando-se, para o tradutor, um ótimo conhecimento da língua a lhe servir de fonte, bem como uma familiaridade maior com a língua almejada. Conforme o muito citado clérigo luso-francês setecentista Bluteau, as boas traduções não seriam feitas por palavras, mas por equivalências. Para ele, o vocábulo seria ainda uma figura retórica, ao repetir-se a mesma palavra com diferentes sentidos. Alude, então, ao famoso ditado”traduttore, traditore”, todavia, ponderando sobre a possível fidelidade dos bons trabalhos. 1A acepção de transferir e transformar, relativa ao termo, foi enfatizada em dicionários posteriores da língua portuguesa,2 sem prejuízo dos primeiros significados, mas conotandoo ato de traduzir como esclarecer o significado de algo. Ou seja, traduzir seria, principalmente, uma interpretação, uma compreensão e uma explicação do que pretende ser entendido.3

O dossiê ora apresentado lida com algumas “traduções” do autor Niccolò Machiavelli (1469-1527) e de suas obras, valendo-se não apenas do primeiro sentido apontado, mas também dos outros, em busca de equivalências e / ou interpretações. Em todos os casos, nele procura-se entender certas expressões assumidas por Maquiavel no mundo lusofônico através dos tempos. Essas expressões foram buscadas no império ultramarino português da época moderna, do século XVI ao XVIII, mas também no Brasil independente do século XX.

Nas histórias de Portugal, suas conquistas coloniais e do Brasil, os escritos desse florentino vivenciaram uma trajetória peculiar. Inicialmente, foram lidos com interesse por humanistas durante a expansão lusa na primeira metade do século XVI, com avanços na África, na Ásia e na América nos reinados de D. Manuel I e D. João III. Em um de seus proêmios, Maquiavel ousadamente comparou-se aos navegadores que, então, descobriam o Novo Mundo, fazendo um paralelo entre a sua teoria política e as viagens ultramarinas.4Embora ele não tenha incorporado em seus livros maiores reflexões sobre as novas conquistas então encetadas pelas monarquias ibéricas, após sua morte, suas ideias incidiram na elaboração de textos que dissertavam sobre a natureza e a legitimidade do governo de Portugal nas partes do mundo, principalmente no Oriente. Naquele momento, a censura eclesiástica em Roma e nos países ibéricos ainda não condenara plenamente as obras do secretário florentino. Comparavam-se, então, as epopeias lusitanas aos feitos dos antigos romanos, sendo os Discorsi – cuja tradução para o espanhol fora encomendada por Carlos I e dedicada ao futuro Felipe II de Espanha – uma fonte principal.5

Procura-se entender certas expressões assumidas por Maquiavel no mundo lusofônico através dos tempos, no império ultramarino português da época moderna, mas também no Brasil independente do século XX

Sucedeu-se na segunda metade do Quinhentos o tempo dos índices de livros proibidos (romanos, portugueses e espanhóis) e do reforço da ortodoxia católica. Entretanto, paradoxalmente, a pecha de autor proibido e o surgimento do antimaquiavelismo não diminuíram o interesse por essas ideias – ou pelo que elas representavam – no ambiente ibérico e marcadamente português. Nesse mundo de guerras e afirmações de poderes com pretensões mundiais, Il principe – como seria conhecido o opúsculo – e seu autor eram referências incontornáveis. No ambiente católico que formalmente o rechaçou, Maquiavel personificava os vícios da política, frequentemente contrapostos a uma atuação cristã. Mas ele também podia inspirar de forma velada ações tidas como irreprocháveis. Naquele tempo, a má fama do autor de Florença associava-se aos próprios preceitos de uma pérfida razão de Estado. Contudo, suas ideias eram também encontradas em autores formalmente definidos como antimaquiavélicos.6

Nos séculos XVII e XVIII, em Portugal e no Brasil, surgiram governantes cujas práticas políticas podem ser identificadas como outra vertente de exercício do poder, mais objetiva e temerária, distinta da comumente veiculada aos pactose mediações característicos de uma monarquia católica respaldada pela filosofia neoescolástica. Em Portugal,essa cultura politicafoireforçada na conjuntura da Guerra da Restauração (1640-1668).7Todavia, mesmo nesse meio, não raro administradores e rebeldes incorporaram em seus discursos estratégias de dissimulação, que sabemos não terem sidoexclusivas de Maquiavel, mas foram recorrentemente a ele associadas como maquiavelismos. Mais tarde, a participação de nobres portugueses na Guerra de Sucessão da Espanha (1701-1713) constituiu um outro grande momento de internacionalização e contato com ideias excêntricas ao tradicional ambiente reinol lusitano.8

Essa breve remissão diacrônica aponta para uma perspectiva teórica e metodológica diferente para o estudo dos governos, ideias e práticas na monarquia portuguesa e emsuas conquistas ultramarinas.9Diante desse mundo apenas superficialmente hostil às ideias de Maquiavel, é aconselhável ler as fontes a contrapelo e desconfiar das banais acusações de maquiavelismo, facilmente proferidas a fim de denegrir os inimigos. Esse era um tempo no qual a má reputação do autor florentino contaminava outras formas de dissimulação e de ardil político, existentes desde a cultura clássica.10 Abre-se, assim, o leque de possibilidades à heterodoxia e à singularidade, mais frequentesdo que as análises modelares dos Estados modernos europeus deixam entrever, para captar esse grande contexto político e cultural – na realidade, multifacetado. Por cópias manuscritas cuidadosamente guardadas e hoje desparecidas, ou por livros proibidos depositados nas bibliotecas monásticas, ou por edições nunca expostas pelos seus detentores, sobreviviam as ideias maquiavelianas, evitando-se, a todo custo, sua vinculação ao maquiavelismo – o que as fragilizaria ante os possíveis acusadores.

Mais adiante, no Brasil já republicano e na esteira da Revolução de 1930, desponta a primeira tradução em língua portuguesa de Il principe, antecedendo em dois anos a sua congênere europeia. Contudo, no país liberto há muito da censura inquisitorial, sobrevivia o tom depreciativo para tratar do que fosse alusivo a Maquiavel. O livro foi publicado por uma editora carioca de perfil socialista para denegrir a escalada ascensional e estrategista de um Getúlio Vargas “maquiavélico”, conforme o seu prefácio. Em Portugal, a tradução da mesma obra, conhecida como o “Maquiavel fascista”, com prefácio de Mussolini, fazia também a ponte entre a política então vivida, em pleno salazarismo, e as ideias seminais do florentino quinhentista.11

Voltemos, então, aos vários sentidos da palavra “tradução”. Do toscano ou italiano ao português, mas também do político brasileiro contemporâneo, posto como equivalente ao escrito outrora pelo afamado autorno século XVI em relação à prática do poder. Um Maquiavel que falou a outros tempos não poderia, ainda, ter suas ideias e conselhos comparados à atuação de uma personagem coeva, encontrada nos quadros do império ultramarino luso? A correspondência do grande Afonso de Albuquerque, governador da Índia portuguesa no tempo em que era escrito o pequeno livro sobre os principados, mostra o quanto suas preocupações com a conquista e a conservação dos territórios assemelhavam-se aos textos dos DiscorsiIl principe e Dell’arte della guerra, não obstante algumas diferenças em outros tópicos. Albuquerque não leu Maquiavel, mas equivalia-se a suas ideias. Ele seria, portanto, uma sua tradução.

Diante desse mundo apenas superficialmente hostil às ideias de Maquiavel, é aconselhável ler as fontes a contrapelo e desconfiar das banais acusações de maquiavelismo

É possível perceber também Maquiavel e / ou elementos do maquiavelismo mediante a realização de interpretações, como nos casos do governador-geral do Estado do Brasil no anos de 1660, 1ºconde de Óbidos, e do governante de capitania D. Pedro Miguel de Almeida Portugal, então futuro 3ºconde de Assumar, no segundo decênio do Setecentos. Suas ações e escritos apresentam semelhanças com os conselhos proferidos pelo florentino, sobretudo em Il principe. Embora – dados os constrangimentos culturais e políticos já indicados – seja ousado demais atestar cabalmente a leitura feita por esses nobres portugueses dos livros de Maquiavel, seus governos podem ser entendidos como maquiavélicos, pela sobreposição criada na época moderna entre o próprio estereótipo e a sua fonte. Em outras palavras, os elementos de Maquiavel estariam também nesses maquiavelismos que, não obstante, seriam já a sua caricatura.12

Sem dúvida, trata-se de um horizonte complexo de investigação, para o qual são importantes os estudos realizados, de matiz filológico ou quantitativo, bem como a sensibilidade e o bom senso das suas análises. Também é fundamental operar com o termo “maquiaveliano” – surgido na Itália do século XX como uma tentativa de remissão às ideias do afamado autor mais despojada de seus estereótipos- e com os outros vários vocábulos derivados de Maquiavel (“maquiavelista”, “maquiavélico”, “maquiavelizar” etc.), cujo nome já se costuma proferir na forma aportuguesada. Tudo isso evidencia sua importante recepção em países de língua portuguesa.13

O pequeno dossiê integra-se ao conjunto de realizações pertinentes ao projeto Machiavellismo e machiavellismi nella tradizione politica occidentale (secoli XVI-XX), dirigido por Enzo Baldini, da Universidade de Turim, elaborado com o fito de promover a formação de grupos e colóquios no Ocidente em função da efeméride dos 500 anos da escrita de Il principe, redigido entre fins de 1513 e início de 1514. Desde 2007, cursos, oficinas, jornadas de estudos e um colóquio internacional foram organizados na Universidade Federal Fluminense – em parceria com outro evento realizado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa -, para perceber o papel das ideias de Maquiavel nos universos português e brasileiro, do século XVI ao presente.14Ao longo desse tempo, lidamos com várias “traduções” e “traições”: de livros, ideias e representações. Portanto, os artigos de Ângela Barreto Xavier, Luciano Figueiredo, Rodrigo Bentes Monteiro, Vinícius Dantas e Sandra Bagno constituem uma breve mostra das enormes possibilidades de pesquisa que o campo da história das ideias políticas pode, no momento, descortinar.

Companhia das Índias, junho de 2014.

Notas

1. Rphael Bluteau, Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, achitectonico… vols. 8 e 9, Coimbra, Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712-1728, p. 233-234; 261. Disponível em: http: / / www.brasiliana.usp.br / pt-br / dicionario / edicao / 1 . Acesso em: 09 de junho de 2014.

2. Antonio de Moraes Silva, Diccionario da lingua portuguesa: recompilado dos vocabularios impressos ate agora, e nesta segunda edição novamente emendado e muito acrescentado… Lisboa, Tipografia Lacerdina, 1789, p. 793. Disponível em: http: / / www.brasiliana.usp.br / pt-br / dicionario / edicao / 2 . Acesso em: 09 de junho de 2014.

3. Antônio Houaiss; Mauro de Salles Villar; Francisco Manoel de Mello Franco (orgs.), Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Rio de Janeiro, Objetiva, 2004, p. 2.745.

4. Maquiavel, Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio: “Discorsi”, 4. ed., Tradução de Sérgio Bath, Brasília, Editora da UnB, 2000, p. 17.

5. Giuseppe Marcocci, L’invenzione di un impero: politica e cultura nel mondo portoghese (1450-1600), Roma, Carocci, p. 45-88; Giuseppe Marcocci, “Construindo um império à sombra de Maquiavel”, In:Rodrigo Bentes Monteiro; Sandra Bagno (orgs.), Maquiavel no Brasil: dos descobrimentos ao século XXI, Rio de Janeiro, Editora FGV; Faperj, no prelo; Helena Puigdomènech, Maquiavelo en España: presencia de sus obras en los siglos XVI y XVII, Madrid, Fundación Universitaria Española, 1988, p. 81-133.

6. A título de exemplo, o piemontês Giovanni Botero (1544-1617), com especial entrada no mundo ibérico. Luís Reis Torgal; Rafaella Longobardi Ralha (orgs.),João BoteroDa razão de Estado, Tradução de Rafaella Longobardi Ralha, Coimbra, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1992; Enzo Baldini (org.), Botero e la ‘ragion di stato’. Atti del convegno in memoria di Luigi Firpo (Torino 8-10 marzo 1990), Firenze, Leo S. Olschki, 1992.

7. Luís Reis Torgal, Ideologia política e teoria do Estado na Restauração, Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade, 1981-1982, 2 v.

8. David Martín Marcos, Península de recelosPortugal y España, 1668-1715, Madrid, Marcial Pons, 2014.

9. Distinta, por exemplo, da promovida por Martim de Albuquerque, Maquiavel e Portugal: estudos de história das ideias políticas, Lisboa, Aletheia, 2007, com base no anterior A sombra de Maquiavel e a ética tradicional portuguesa: ensaio de história das ideias políticas, Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Instituto Histórico Infante Dom Henrique, 1974.

10. Pablo Badillo O’Farrell; Miguel A. Pastor (orgs.), Tácito y tacitismo en España, Madrid, Anthropos, 2013.

11. Sandra Bagno, “Il principenell’area luso-brasiliana e le sue prime traduzioni in portoghese”, In:Alessandro Campi (org.), Il principe di Niccolò Machiavelli e il suo tempo1513-2013, Roma, Treccani, 2013, p. 219-220.

12. Michel Senellart, Machiavélisme et raison d’Etat. XIIe-XVIIIe siècle, Paris, PUF, 1989.

13. Sandra Bagno, “‘Maquiavélico versus‘maquiaveliano'” na língua e nos dicionários monolíngües brasileiros”, Cadernos de Tradução, vol. 2, n. 22, Florianópolis, 2008, p. 129-150. Disponível em: https: / / periodicos.ufsc.br / index.php / traducao / issue / view / 1121 . Acesso em: 25 de setembro de 2013.

14. Hypermachiavellism. Disponível em: http: / / www.hypermachiavellism.net / . Acesso em: 19 de janeiro de 2014. Como resultados desses empreendimentos, o dossiê de Gustavo Kelly de Almeida; Bento Machado Mota (orgs.), “Maquiavel dissimulado: heterodoxia no mundo ibérico”, 7 Mares. Revista dos pós-graduandos em História Moderna da Universidade Federal Fluminense, vol. 1, n. 1, Niterói, 2012, p. 6-49. Disponível em: http: / / www.historia.uff.br / 7mares / ?cat=6 . Acesso em: 24 de fevereiro de 2014, e o livro de Rodrigo Bentes Monteiro; Sandra Bagno (orgs.), Maquiavel no Brasil: dos descobrimentos ao século XXI, Rio de Janeiro, Paz & Terra; Faperj, no prelo. Essas inciativas também vinculam-se ao projeto coordenado por Ronaldo Vainfas, Linguagens da intolerância: religião, raça e política no mundo ibérico do Antigo Regime (Pronex CNPq / Faperj) e ao dirigido por Ângela Barreto XavierO governo dos outros: imaginários políticos no império português (1496-1961) (Portugal, FCT). Disponível em: <http: / / governodosoutros.wordpress.com>. Acesso em: 10 de junho de 2014.

Rodrigo Bentes Monteiro – Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) – Niterói (RJ) – Brasil. E-mail: [email protected]


MONTEIRO, Rodrigo Bentes. Apresentação. Tempo. Niterói, v.20, out., 2014. Acessar publicação original [DR]

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Barcelona 1714. Jacques Rigaud: crònica de tinta i pólvora – HERNÀNDEZ; RIART (I-DCSGH)

HERNÀNDEZ, F.X.; RIART, F. Barcelona 1714. Jacques Rigaud: crònica de tinta i pólvora. Barcelona: Librooks, 2014. Resenha de: H. PONGILUPP, Mar. Íber – Didáctica de las Ciencias Sociales, Geografía e Historia, n.78, oct., 2014.

El libro que presentamos se centra en los seis grabados que dibujó el artista provenzal Jacques Rigaud en 1732 para dar a conocer cómo se asediaba y asaltaba una ciudad según las técnicas y pautas militares determinadas por el célebre ingeniero francés Sébastien Le Prestre de Vauban. Rigaud se inspiró en uno de los episodios más cruentos de la Guerra de Sucesión española: el asedio de Barcelona, que era el último gran cerco que había conocido la Europa del xviii. Dado que la expugnación de la ciudad fue meticulosamente cartografiada por los ingenieros franceses, pudo disponer de unas fuentes fiables y precisas para desarrollar su proyecto.

Sin embargo, su objetivo no era mostrar el asalto concreto de Barcelona, sino exponer, de manera didáctica, qué pasos debían seguirse para expugnar y rendir una plaza. Este hecho explica por qué los grabados no son del todo fieles a la Barcelona de 1714, pues contienen errores en lo que respecta a su representación histórica. Rigaud dedicó su obra al joven marqués de Montmirail, que, a pesar de su juventud, ejercía como coronel de la guardia suiza del rey de Francia, y se esforzó en plasmar detalladamente la tecnología y los pormenores de los asedios con la intención de que Montmirail pudiera entender qué era lo que debía hacerse para atacar una ciudad fortificada.

Hernàndez y Riart retoman el espíritu pedagógico de Rigaud y nos ofrecen una relectura de los grabados que permite comprender la poliorcética -el arte de atacar y defender una plaza fuerte- del siglo xviii en clave educativa. Uno a uno, los seis grabados son diseccionados por los autores, que, a partir de recuadros y dibujos ampliados, describen qué es lo que está sucediendo, cuáles son los personajes y qué objetivos persiguen las diversas acciones militares. El resultado es un impresionante documento didáctico que, a través del análisis de una fuente casi primaria, nos aproxima a las aplicaciones bélicas de la ingeniería del siglo xviii. Así, Hernàndez y Riart se sirven de los dibujos de Rigaud para ilustrar las distintas fases y dinámicas del asedio: la excavación de las trincheras, los preparativos de los bombardeos, los contraataques, la apertura de las brechas, los problemas del asalto y las medidas de represión.

Pero Rigaud, un grabador extraordinario, también estaba interesado en reflejar los más pequeños detalles de la vida cotidiana alrededor del cerco, de modo que, en sus iconografías, las figuras humanas, que aparecen realizando las más diversas ocupaciones, cobran un especial protagonismo. En este sentido, los autores resaltan cómo Rigaud presenta a los soldados (los vivos y los muertos) y de qué manera evoca la miseria de los hospitales de campaña, la frialdad de los oficiales, el cansancio de los soldados o el terror de los civiles caídos. Como valor añadido cabe destacar que el conjunto de los grabados constituye una fuente de primer orden para documentar las fortificaciones y el asedio que sufrió Barcelona durante el periodo de 1713-1714. De modo que tanto los grabados como los comentarios conforman una herramienta pedagógica de gran utilidad para implementar múltiples actividades en el aula.

Mar H. Pongiluppi

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Competencias profesionales. Herramientas de evaluación: el portafolios, la rúbrica y las pruebas situacionales – DEL POZO FLÓREZ (I-DCSGH)

DEL POZO FLÓREZ, J. Á. Competencias profesionales. Herramientas de evaluación: el portafolios, la rúbrica y las pruebas situacionales. Madrid: Narcea, 2013. Resenha de: CALDERÓN GARRIDO, Diego. Íber – Didáctica de las Ciencias Sociales, Geografía e Historia, n.78, oct., 2014.

al como describe el libro que tenemos entre manos, «el concepto de competencia profesional va tomando fuerza en el mundo de la educación», ya que se ha de procurar un completo desarrollo de las habilidades y destrezas del alumnado de secundaria. En este sentido, y como elemento indispensable en la formación, la evaluación constituye un proceso continuado en el cual los docentes hemos de asegurarnos de ofrecer una retroalimentación en consonancia con las necesidades que la sociedad demandará a nuestro alumnado en un futuro.

José Ángel Del Pozo, experto en formación permanente para el profesorado, nos presenta un manual teórico-práctico que, a través de 140 páginas divididas en cinco capítulos, dirige a cualquier docente hacia la obtención sistemática de evidencias que ayuden a formular un juicio de valor que, en definitiva, oriente a su alumnado en el paso al «mundo adulto».

Se invita al lector a conocer a fondo el concepto de competencia profesional para, después, centrarse en el uso del portafolios, la rúbrica y las pruebas situacionales. Primero, realiza una presentación teórica sobre los elementos que constituyen cada herramienta para, rápidamente, pasar a unas nociones sobre su construcción y mostrar ejemplos sobre las múltiples aplicaciones y posibilidades que ofrecen. Finalmente, el autor describe un caso práctico en el cual se usa una combinación de las tres herramientas de evaluación descritas.

En definitiva, esta obra se postula como un material de referencia para todos los docentes, de la etapa educativa de secundaria y posteriores, interesados en fomentar capacidades tales como la observación, locución, organización, etc., en, y que en ocasiones no sabemos cómo valorar ni evaluar.

Diego Calderón Garrido

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O culto moderno dos monumentos: a sua essência e a sua origem – RIEGL (PL)

A obra intitulada como O culto moderno dos monumentos: a sua essência e a sua origem foi redigida por Alois Riegl, historiador da arte vienense, designado como presidente da Comissão de Monumentos Históricos da Áustria em 1902. Esta produção trata da basicamente do valor da arte em diversas perspectivas. O livro possui 85 páginas e está dividido em capítulos da seguinte forma: 1) Os valores dos monumentos e sua evolução histórica; 2) A relação dos valores de memória com culto dos monumentos; e, 3) A relação dos valores de atualidade com o culto dos monumentos. Leia Mais

Intelectuais e Estado Brasileiro | Escrita da História | 2014-2015

A organização burocrática situa-o, protege-o, melancoliza-o e inspira-o”.1

Foi utilizando essas palavras que Carlos Drummond de Andrade justificou a relação entre os intelectuais e o Estado. Atuar no funcionalismo público, além de ser um resguardo financeiro, na concepção de Drummond, eliminaria os cuidados imediatos e não abriria perspectivas “de ócio absoluto”. Ainda que concordássemos com as assertivas do poeta, já é sabido que o relacionamento entre os homens de ideias e o aparelho estatal foi e continua sendo complexo. Muitos consideram essa relação como cooptação, outros apenas como um jogo de interesses, mas o fato é que ela movimenta pesquisadores do passado e da atualidade.

No âmbito dessas questões, novamente a Revista Escrita da História (REH) se apresenta como sendo um canal de discussões por meio do qual são expostos trabalhos acadêmicos oriundos de análises e pesquisas que têm por objetivo refletir acerca do “fazer científico” da História. O segundo dossiê do periódico tem a intenção de promover o debate a respeito da relação intelectuais e Estado, destacando novas perspectivas sobre o tema que nesta edição tem em comum a atuação dos intelectuais-funcionários na promoção da edição de livros, ou seja, o processo de monumentalização da História e da memória através de suas publicações.

Embora tenham a ação editorial como uma questão comum, os artigos que compõem o Dossiê “Intelectuais e Estado brasileiro” têm suas particularidades. Sendo assim, abrimos nosso segundo número com a ampliação de perspectivas comparativas, pois no artigo de Nuno Medeiros, da Universidade Nova de Lisboa, o autor explicita, para o caso de um exemplo do outro lado do Atlântico, a duplicidade de maneiras pelas quais o governo português atuou quando da publicação de livros durante o regime do Estado Novo. O pesquisador apresenta de que forma a ditadura impôs regras que cercearam a edição de livros e, ao mesmo tempo, incentivou uma “literatura oficial” do próprio Estado.

No âmbito brasileiro, André de Lemos Freixo, professor da Universidade Federal de Ouro Preto, apresenta-nos um artigo realizado a partir dos trabalhos do intelectual José Honório Rodrigues na publicação da coleção “Documentos Históricos” da Biblioteca Nacional entre os anos 1946-1953. A indagação do professor procura abranger a produção de memória dos intelectuais enquanto agentes em instituições de preservação e difusão cultural. Para isso adota as reflexões de Paul Ricœur, Jan e Aleida Assmann e de alguns representantes que considera como uma “terceira onda” de estudos da memória.

Com uma reflexão também sobre a memória, a doutoranda Maria Claudia Cavalcante, da Universidade Federal de Pernambuco, propõe um debate a partir da análise dos livros Presença na política (1958) e Depois da política (1960), ambos de Gilberto Amado. Segundo a autora, por meio dessa leitura é possível discutir as imagens construídas pela literatura memorialística de Gilberto Amado acerca de sua participação política e movimentação intelectual.

Por fim, mas não menos importante, temos o trabalho de Paula Rejane Fernandes, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a respeito da coleção Mossoroense criada por Jerônimo Vingt-un Rosado Maia. Essa coleção tinha a finalidade de promover práticas culturais na cidade de Mossoró e também o propósito de construir uma memória para a cidade e seu lugar de destaque no meio intelectual. Além disso, Fernandes destaca de que maneira as relações entre Rosado Maia e políticos influentes nos anos 1960-70, tais como Ney Braga e Jarbas Passarinho, foram importantes para a publicação dos livros do projeto.

Na seção de artigos livres contamos com a colaboração de vários jovens pesquisadores, membros das mais diversas instituições de ensino do país e com propostas de trabalho inovadoras. Temos os artigos de: Diego Ramos, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro; Nittina Botaro, da Universidade Federal de Juiz de Fora; e Endryws Felipe Souza de Moura, da Universidade Federal de Campina Grande. Além desta seção, nesta edição contamos com uma entrevista inédita oferecida pelo professor Renán Silva, da Universidad de Los Andes (Colômbia), na qual discute os novos desafios enfrentados pelo historiador no século XXI.

E assim concluímos mais um número desejosos de que todos os leitores e leitoras façam excelentes reflexões a partir do material da mais nova edição da REH.

Atenciosamente,

Nota

1 DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos apud MICELI, Sérgio. Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-1945). São Paulo: Difel, 1979, p. 129.


Organizadora

Mariana Rodrigues Tavares


Referências desta apresentação

TAVARES, Mariana Rodrigues. Apresentação. Escrita da História, v.1, n.2, p.10-12, out./mar. 2014-2015. Acessar publicação original [DR]

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História e usos de mídias: pesquisas históricas a partir de diferentes suportes de comunicação / Sobre Ontens / 2014

Caro leitor,

O Dossiê “História e usos de mídias: pesquisas históricas a partir de diferentes suportes de comunicação” é mais um número especial da Revista Sobre Ontens, que busca trabalhar a questão das novas mídias na construção e na escrita histórica. Tão habituado aos documentos textuais, os historiadores devem ter em vista a atualidade da questão: a interação com a internet, as mídias de massa, a velocidade dos sistemas de comunicação e informação, todos esses processos tem levado a um repensar do estudo e da escrita histórica. Esses novos suportes não apenas auxiliam na pesquisa, mas são também, agora, objeto da própria pesquisa histórica: como eles servem de veículo a construção de novas concepções de história, memória e passado? Quais suas contribuições diretas na formação de utopias – ou mesmo, da realidade social e cultural contemporânea? O exame dessas questões é o objetivo desse dossiê.

Numa segunda parte, dispomos também alguns textos escolhidos para compor a edição, bem como uma resenha. O ato de pesquisar, escrever e publicar o trabalho histórico é, antes de tudo, uma peça fundamental na formação do pesquisador, e na difusão mais ampla das descobertas e saberes da área. Nesse mister, a Revista Sobre Ontens vem abrir um espaço para a publicação dos escritos de pesquisadores pioneiros, sempre pensando na construção de uma consciência histórica mais profunda e abrangente.

Por fim, faz parte dos planos deste Periódico transformar o Dossiê em livro, brevemente. Sabemos hoje da capacidade de difusão que um ebook tem, por meio das redes eletrônicas, de atingir milhares de leitores: nada mais coerente, portanto, que esse Dossiê integre, igualmente, uma nova mídia. Agradeço a todos os participantes,

Atenciosamente,

André Bueno – Professor. Comissão Editorial.


BUENO, André. Apresentação. Revista Sobre Ontens. Apucarana, out. 2014. Acessar publicação original [DR]

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Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré | Reza Aslan

Muito se fala sobre Jesus Cristo. Muito se escreve sobre ele. Mas Jesus de Nazaré, o Jesus histórico ainda é muito pouco conhecido. O livro de Reza Aslan procura apresentar não só o judeu da Galileia, executado pelos romanos durante a Páscoa judaica no começo do século I, como também a sociedade em que ele viveu.

Reza Aslan nasceu no Irã, mas sua formação acadêmica foi toda nos EUA. É interessante observar, que logo no início do livro o autor nos fala dessa experiência. Como ele relata nas Notas do Autor, na parte inicial do livro, Aslan nasceu em uma família de muçulmanos, que emigraram do Irã após a revolução sua família acabou por afastar-se do islamismo. Aslan deu mais um passo na integração ao novo país quando se converteu ao cristianismo aos quinze anos num acampamento evangélico para universitários. Parecia-lhe que agora ele estava mais de acordo com a América.

No entanto, com a continuidade de seus estudos acadêmicos, um fosso entre o Jesus que pregavam na Igreja e o Jesus histórico o levou a dar mais uma guinada em sua vida. Acabou rejeitando a sua fé. No entanto suas pesquisas lhe revelaram um Jesus mais real e digno de confiança do que aquele da igreja. Seu livro é uma tentativa de apresentar as demais pessoas esse Jesus de Nazaré.

O livro está dividido em três partes e concluído por um Epílogo. Na parte I (capítulos 1 ao 6), ele descreve a Palestina do tempo de Jesus, com suas tensões entre as classes sociais, entre os grupos religiosos e entre a população local e os invasores romanos. Na parte II (capítulos 7 ao 12), ele vai tratar da vida de Jesus, seus ensinamentos e alguns dos episódios que Aslan considera chaves para entender quem foi e o que pregava Jesus de Nazaré. A parte III (capítulos 13 ao 15) é dedicada a apresentar como a Igreja foi desconstruindo a imagem do Jesus histórico e a substituindo pela de Jesus Cristo, o filho de Deus, modificando sua mensagem estritamente judaica (apresentada na parte II) por uma mensagem mais universal, que transcendesse as fronteiras do judaísmo. Por fim o Epílogo, mostra o que ele considera o desfecho: a transformação do camponês galileu do século I em Deus, com o concílio de Nicéia codificando e tornando ortodoxa uma crença que já era bastante comum na Igreja da época.

O autor acrescentou a obra um mapa da Palestina do século I e uma ilustração descritiva do Templo de Jerusalém, construído durante o reinado de Herodes, o grande. Aslan também fornece dezenas de notas explicativas sobre cada capítulo do livro que valoriza a obra como um recurso para o pesquisador de religiões que desejar aprofundar-se mais sobre o tema do Jesus histórico e a Palestina do primeiro século.

Aslan explica que os evangelhos foram escritos décadas após a morte de Jesus, por volta do ano 70. Fora eles, os escritos mais antigos sobre Jesus são as cartas de Paulo, que também foram escritas algumas décadas depois de sua morte, por um homem que afirma expressamente não ter conhecido Jesus, nem buscado informações sobre ele com aqueles que foram seus discípulos diretos. Foi durante essa ausência de documentos escritos que ele acredita que a imagem que se tinha de Jesus foi radicalmente alterada.

Mas qual então era a imagem que os primeiros discípulos e seguidores tinham de Jesus? Para o autor, Jesus era sim mais um dos legítimos representantes do conturbada Palestina do século I. Uma terra na qual os invasores romanos impunham suas leis e seus impostos e onde era cada vez maior a crítica aos privilégios da rica classe sacerdotal, que em aliança com os invasores governava o país. Por todos os cantos daquela terra homens levantavam-se contra o estado das coisas, muitos deles acreditando serem enviados de Deus para expulsar os romanos e restaurar a pureza do culto a Deus no grande templo de Jerusalém.

Dessa forma, desde a conquista romana até a destruição de Jerusalém e do Templo, os judeus viram levantar-se messias e profetas, alguns mais bem-sucedidos que outros, conduzindo multidões a revolta contra o poder constituído. Mas Jesus ainda era uma figura controvertida. Sua pregação, registrada nos evangelhos muitas vezes se contradiz. Numa hora ele prega a paz e em outra diz ter vindo a terra para trazer a espada. Muito dessa contradição pode ser, segundo o autor, fruto dos evangelhos que mesclavam fatos históricos, com fábulas e mitos sobre Jesus, como se costumava fazer na escrita oriental da época, para dar autoridade e beleza ao texto. Aslan chama a atenção para o fato que os escritores dos evangelhos não teriam como estar familiarizados com a nossa noção de veracidade histórica, de se aterem aos fatos.

Para Aslan, Jesus seria uma adepto da chamada “Quarta filosofia”, assim chamada para diferenciar dos outros grupos: saduceus, fariseus e os essênios. Essa filosofia teria sido fundada por dois líderes rebeldes judeus que assumiram um fervoroso compromisso com a libertação de Israel e sua insistência a não servir a nenhum senhor a não ser Deus. Seriam zelotas, palavra derivada de zelo, que segundo Aslan (pag. 65)

…implicava uma adesão estrita a Torá e à Lei, uma recusa em servir a qualquer mestre estrangeiro – servir a qualquer mestre humano de maneira geral – e uma devoção à soberania de Deus. Ser zeloso ao Senhor era andar nas pegadas ardentes dos profetas e heróis do passado, homens e mulheres que não toleraram ninguém que quisesse se associar a Deus, que não se curvaram a nenhum rei exceto o Rei do Mundo e que lidaram cruelmente com a idolatria e com aqueles que transgrediram a lei de Deus.

Não eram um partido político ou uma associação, faz questão de esclarecer o autor, nem se pode confundir com o partido zelota surgido décadas depois em 66 dc. Era um desejo, uma ideia de piedade, ligado a uma expectativa apocalíptica. Uma crença que se difundia principalmente entre os camponeses e as camadas mais pobres da população de que o reino de Deus estava próximo.

E era este o cerne da pregação de Jesus e de sua atuação. Para exemplificar Aslan utiliza uma conhecida passagem do evangelho, quando em resposta a pergunta de que se era ou não lícito pagar impostos a César, Jesus responde, “devolvei a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” O autor mostra que essa resposta é uma das principais evidencias de que Jesus era um zelota. Nesta afirmação Jesus reivindica a terra que os romanos tomaram porque seu legítimo proprietário é Deus. Seria o bastante para que ele fosse enquadrado como um bandido, o que seria confirmado depois, quando da prisão de Jesus, quando um grupo armado de espadas e clavas é enviado a seu encontro.

Mas o que faria de Jesus diferente de tantos candidatos a messias surgido durante aquela época conturbada. Aslan mostra que sua fama como curandeiro e exorcista o tornou uma figura diferente das demais. Diferente de nosso pensamento racional atual, no tempo de Jesus as pessoas estavam mais abertas ao sobrenatural, ao impacto do maravilhoso em suas vidas, e aquele pregador itinerante judeu respondia a suas expectativas com milagres, e, o que era mais espantoso para a época, nada cobrava por eles. Aqui, Aslan delimita a separação entre o acadêmico, o estudioso de Jesus e o seguidor: a crença nos milagres. Mas ele chama a atenção para o quão estéril é essa discussão, e argumenta que as pessoas que seguiam Jesus acreditavam nesses milagres e em nenhum momento foi posta em dúvida as qualidade de Jesus como milagreiro e exorcista sejam por fontes canônicas ou não. Mesmo os inimigos da Igreja, em suas lutas e debates contra ela colocaram em dúvida a capacidade de Jesus de realizar milagres, preferindo acusa-lo de fazê-lo por meio de magia, afirmando mesmo que ele não passava de um mágico.

Uma outra diferenciação entre Jesus e os demais milagreiros e exorcistas da época era a reivindicação messiânica que Jesus fazia para si mesmo. Seus prodígios, milagres e sinais eram a prova de que o Reino de Deus estava chegando.

Como o Reino de Deus estava próximo de ser estabelecido e ele escolheu 12 apóstolos (representando as 12 tribos de Israel), que estariam a frente de Israel. Nesse reino não haveria espaço para estrangeiros, ou para aqueles que não se submetessem ao Deus de Israel. O Deus sangrento que ordenou aos israelitas não pouparem nem mesmos os animais dos povos que habitavam Canãa, quando da conquista, o Deus coberto em sangue dos inimigos tão presente nas mensagens proféticas de Israel. Aslan acredita que não há evidencias que comprovem que seja outra concepção que Jesus tinha sobre Deus. Nos evangelhos ele se recusa abertamente a atender estrangeiros e quando ordena a seus discípulos para irem pregar sobre o advento do Reino de Deus, os adverte a não entrar em cidades estrangeiras.

Durante seu ministério Jesus prepara-se para a tomada do poder e no livro de Aslan pode-se acompanhar passo a passo essa preparação. No entanto no momento final, ele falha. Em Jerusalém, na Páscoa, a mais importante festa judaica, com a cidade lotada de peregrinos o drama de Jesus se desenrola. Jesus é preso e crucificado como sedicioso. Ele ousara assumir funções régias. Aslan acredita que diferentemente do que é apresentado no evangelho, não houve julgamento. Considerado criminoso político ele foi crucificado para que servisse de exemplo a todos os que também desejassem revoltar-se contra Roma. A história de Jesus poderia ter terminado ali, assim como a de vários aspirantes a messias que vieram antes ou depois dele.

No entanto, os seguidores de Jesus continuaram juntos e sua pregação consistia que ele fora ressuscitado dentre os mortos. Judeus que vivam fora da Palestina, helenizados e desejosos de praticar um judaísmo mais atenuado, começam a converter-se a esse ramo do judaísmo e começam a transformá-lo para que o cristianismo se tornasse mais aceitável fora dos círculos judaicos. Paulo, um judeu converso anos depois da morte de Jesus, foi um dos principais agentes dessa transformação do cristianismo. Eles se desvencilhavam das escrituras do judaísmo e faziam sua crença mais universal, mais cosmopolita.

Aqui entra o que Aslan considera um dos primeiros embates do cristianismo: a luta pela hegemonia entre a posição defendida por Paulo a posição do Conselho Apostólico, sediado em Jerusalém e liderado por Tiago, o irmão de Jesus. Para o autor as cartas de Paulo foram escritas como armas nessa luta que segundo Aslan, Paulo acabou perdendo, conforme descrito nos Atos dos Apóstolos, ao ter que submeter-se aos rituais de purificação que ele deplorava.

No entanto, a vitória de Tiago e do seu cristianismo primitivo e fechado, um ramo do judaísmo, foi provisória. Quando os romanos destroem Jerusalém, os cristãos decidem cortar os laços com o judaísmo e apresentar os judeus como culpados pela morte de Jesus. Buscam então inspiração em Paulo, para transformar o camponês zelota, cujos os seguidores acreditaram ter ressuscitado depois de sua execução em Deus.

Aslan percorre em seu livro boa parte da história da Palestina. Para entender Jesus como um homem de seu tempo, para mostrar que além da figura que é apresentada pela Igreja, há uma figura tão fascinante quanto, que foi esquecida sobre camadas de doutrina elaboradas depois de sua morte. Apresenta um Jesus histórico. Apresenta um Jesus revolucionário. Apresenta um Jesus humano.

Wagner Pires da Silva – Graduando em História pela Universidade Estadual do Ceará – UECE.


ASLAN, Reza. Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré. Trad. Marlene Suano. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. Resenha de: SILVA, Wagner Pires da. Sobre Ontens. Apucarana, p.184-187, out. 2014.

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Esbozo de una Antropologia Filosófica Americana – KUSCH (ER)

KUSCH, Rodolfo. Esbozo de una Antropologia Filosófica Americana. Buenos Aires: Ediciones Castañeda, 1978. Resenha de: MENEZES, Magali Mendes de; VAZ E SILVA, Neusa; DORNELES, Leonardo Castro. Esboço de uma antropologia filosófica americana. Educação & Realidade, Porto Alegre, v.39 n.4 oct./dec., 2014.

A obra intitulada Esboço de uma antropologia filosófica americana apresenta a problemática de pensarmos o(s) sentido(s) do humano desde a realidade latino-americana. Rodolfo Kusch, filósofo argentino, parte do pensamento popular, permeado por sabedorias marginalizadas para mostrar a riqueza e diversidade de um pensamento. A cultura e sua relação profunda com a terra são elementos centrais desta obra.

ara tanto iremos analisar a trajetória seguida pelo pensador nesta obra para mostrar uma reflexão que traz contribuições importantes para pensarmos a educação e sua relação com o pensamento filosófico. Destacamos também a importância de resgatarmos a obra de um filósofo ainda pouco conhecido no Brasil, mas fundamental no debate sobre a interculturalidade e suas implicações no contexto latino-americano.

Günther Rodolfo Kusch nasceu e faleceu em Buenos Aires. Era filho de alemães radicados na Argentina. Graduou-se em filosofia pela Universidade de Buenos Aires em 1948. Atuou no Ministério da Educação de Buenos Aires na área de Psicologia Educacional e orientação profissional.

O propósito do autor na presente obra é organizar uma antropologia tendo como base as experiências do povo, formuladas a partir do silêncio que permeia a fala popular, que nem sempre é visível. Kusch busca pensar à margem da preocupação de uma definição de ser humano, que é própria da história do pensamento filosófico ocidental. Objetiva desconstruir o que já foi dito acerca do homem americano, no entanto, não afirma nem indica nenhum outro tipo de definição acerca do humano. Ou seja, numa perspectiva heideggeriana, o filósofo enfatiza um humano incompleto, um ser não mais metafísico, mas que se constrói na exata medida que se faz. Kusch não tem a pretensão de resolver o problema do homem moderno a partir dos povos campesinos. O que deseja é recolocar o problema desde as origens de nossa sociedade, pois os povos do campo são um exemplo daqueles que romperam a homogeneidade da cultura dominante.

No primeiro capítulo da obra, intitulado Geocultura do Pensamento, Kusch analisa a importância da geocultura, afirmando que o pensar dos grupos humanos está condicionado pelo lugar, ou seja, faz referência a um contexto estruturado mediante a intersecção do geográfico com o cultural. Apresenta uma nova dimensão de cultura tomando-a não só como acervo, mas como atitude. Cultura é, sobretudo, decisão, afirmação existencial de um coletivo. É desse modo, que o autor coloca que todo diálogo de alguma forma é intercultural, implicando processos necessários de negociação com o Outro.

Um diálogo é antes de tudo um problema de interculturalidade. A distância física que separa os interlocutores e as voltas retóricas para entenderem-se, fazem referência a um problema cultural. Entre os interlocutores tende a existir uma diferença de cultivo, não no sentido de grau de culturalização construído por cada um, ou seja, que um seja mais culto que o outro, e sim antes de tudo no estilo cultural, ou melhor, no modo cultural que se encarnou em cada um (Kusch, 1978, p. 13). A cultura encarnada mostra uma existência tecida pela dimensão cultural, pelo cultivo de um cotidiano feito por indivíduos e coletivos.

No segundo capítulo, O mito no pensamento popular, Kusch considera que é no pensamento popular e não no pensamento culto, que estão contidas as linhas gerais de pensar o humano em sua totalidade. Suas reflexões têm como base, entrevistas que realiza com pessoas simples do campo que orientam sua vida a partir da tradição mítica presente em suas culturas. Neste momento, o filósofo expõe sua metodologia de trabalho que consiste em quatro pontos fundamentais: 1) determinar as unidades simbólicas (aqui poderíamos traçar uma relação com as unidades de sentido); 2) a estruturação destas unidades; 3) as linhas de sentido que propiciam uma conexão entre estas unidades; e por último, 4) o contexto simbólico de todo discurso. Kusch salienta que o informante da pesquisa não é visto como um objeto a ser pensado, mas como um sujeito que define o próprio olhar interpretativo (e muitas vezes imperativo) do pesquisador. É assim que Ceferina e Sebastiana, interlocutoras de Kusch nesta obra, surgem não como personagens que emprestam voz a cultura popular, mas como traços fundamentais que nos ajudam a compor este esboço do humano. Esboço é um “[…] conjunto de traços iniciais, provisórios, qualquer trabalho ou obra em estado inicial”1; o humano é, portanto, esta obra inicial, incompleta, que no diálogo com o outro vai se reafirmando. O humano aqui não é um projeto pronto, é este fazer-se constante, amparado por uma terra que dramatiza a existência de cada um de nós.

A questão do humano aparece em sua obra não apenas para formular novas respostas a questão histórica da Filosofia, mas para fazer ressoar um silêncio que perpassa o sentido do humano. O esboço também é feito de silêncios que não são o resultado de um abafamento da voz dos povos, da imposição da mudez, mas resistência, de uma existência que fala pelo simples fato de estar (conceito este extremamente significativo para Kusch), arraigada a um solo que a nutre. Nesta obra acompanhamos o trabalho de um pensador em ler o cotidiano, no desafio de uma hermenêutica que coloca o pesquisador mesmo sob suspeita. Assim, a forma como as pessoas vão lendo a si mesmas, surge no texto em sua transparência, traçando novos sentidos a realidades que parecem já tão pré-determinas. Não há apenas algo a ser revelado na fala de suas interlocutoras, é a própria fala que define o movimento dos olhos de quem a lê. Este é o desafio de um pensador em penetrar estas realidades inventando caminhos poéticos (talvez nada metódicos na visão da academia).

Ao longo de sua narrativa faz-se notar que para Kusch o novo está no popular e no indígena e não no chamado saber culto. Ao buscarmos um pensamento popular percebemos a possibilidade de descobrir um pensamento próprio, americano.

No capítulo terceiro, Mito e Racionalidade, Kusch continua tomando como referencial as entrevistas com representantes das culturas campesinas para analisar o mito e a racionalidade. Para o autor, no pensamento popular há uma religação com o absoluto, uma conjugação, um estar sendo; aspecto este que foi perdido pela cultura ocidental. Para recuperar o mistério de nosso estar temos que recuperar os sentidos de nossos símbolos e nossa relação com o solo, que de certa maneira traduzem a vinculação com o absoluto. Assim o filósofo nos apresenta uma diferença entre o mito narrado (oralidade) e o mito vivido. No mito narrado (objetividade), que se faz verbo, percebemos uma defasagem da palavra, e novamente o autor nos fala de uma palavra que transcende a si mesma, revelando um vazio, que não é ausência de sentido, mas algo que não cabe dentro da palavra. O mito vivido pode ser pensado como ritual, onde não se relata nada, apenas se vive. Desse modo, ele é anterior à palavra, quando esta chega, chega já em atraso. No entanto, estas duas dimensões se complementam. A narrativa também fala de uma realidade que expõe, na visão de Kusch, uma ontologia do contrato social. Ou seja, o que chamamos realidade se sustenta numa visão contratual da inteligência.

Se instrumentaliza uma teoria do conhecimento para determinar a solidez da realidade que, ao final de contas, já estava dada desde sempre por uma estrutura contratual. Uma vasilha servirá sempre para tomar líquidos e nisso estamos todos contratualmente de acordo (Kusch, 1978, p. 53).

No quarto capítulo, Os arquétipos da economia popular, o autor enfatiza que a análise do popular fica em muitos momentos exclusivamente reduzida a uma dimensão econômica. As relações de trocas, de comercio que fazem parte do cenário popular (e são elementos fundamentais para entendermos este contexto) não podem se reduzir ao aspecto econômico, como um meio de sobrevivência diante de uma realidade que se mostra carente. O problema do homem assim seria transferido para um problema de coisas e é isto que se fez no ocidente nestes últimos tempos. Vive-se praticamente em um mundo coisificado, pois o pensamento e nossas preocupações se centram no econômico, convertendo-o em fator determinante de toda e qualquer leitura sobre o meio popular. O autor manifesta a necessidade de não só preocupar-se com a distribuição dos bens, mas adequar o econômico ao humano. Afirma que a ênfase no desenvolvimento é o mal da América Latina e postula que o fracasso em atingir essa meta se deve muito à ansiedade de impor-se uma hegemonia cultural. Propõe alguns caminhos para reflexão, embora não tenha o objetivo de dizer como deve ser a economia, apenas apresenta linhas gerais na esperança de dissolver o econômico no cultural. Conclui o capítulo afirmando que a fome não é só de pão, mas de uma incompletude do humano que dificilmente pode ser saciada.

No quinto capítulo, O arcaico no pensamento, o arcaico é compreendido como aquilo que escapa a determinação, ou melhor, “[… ] aponta a uma determinação que se opõe ao tipo de determinação que exige uma consciência crítica” (Kusch, 1978, p. 74). Afirma que o arcaico aponta para algo que não exige uma consciência crítica, pois é um saber que está no nível do simbólico, ou seja, fora do âmbito da ciência. Enquanto a ciência tenta delimitar o objeto, o símbolo transcende ao determinado. Ao longo do capítulo o autor analisa detalhadamente a estrutura do símbolo e sua consolidação no ritual. É neste momento que podemos perceber as influências do pensamento de Paul Ricoeur na reflexão de Kusch.

O sexto capítulo, O que passa com o estar? Kusch parte de toda a fundamentação abordada nos capítulos anteriores para redimensionar o estar. Inicia contextualizando nossa América, ressaltando a base de nossa cultura assimilada, nossos hábitos de pensamento, em face à cultura que moldou nossa forma de estar no mundo. Movemo-nos entre as perspectivas populares, indígenas e a ocidental, contexto no qual se funda nosso modo de pensar como intelectuais. É dentro deste contexto que nos interrogamos a respeito de nosso estar. Nota-se a exigência colocada pelo autor em buscar a compreensão do que passa com o pensamento em geral, percebendo o humano que o sustenta com vistas a superar o vazio intercultural dentro do qual nos movemos.

Kusch alerta para o fato de que somos marcados pela ocidentalização e em consequência, analisamos a realidade (com suas diferenças) a partir de um ponto de vista já internalizado, que surge como a única referência possível para pensarmos. O racional implica certa coerência e lógica dentro de um modo de pensar. Desse modo, pensar de outras formas significa agir irracionalmente, fora de uma ordem estabelecida que não aceita novas racionalidades. O pensamento popular nos apresenta outro modo de ser e isso nos exige outra postura filosófica e novas metodologias que sejam capazes de reconhecer o saber popular como um pensar legítimo. Dentro de uma lógica ocidental, construímos o saber ancorado na necessidade de definição, devemos sempre responder a pergunta pelo que é. Porém, no pensamento popular, como descreve nosso autor, tudo está, nem tudo é determinável, pois com relação aos deuses, por exemplo, não se pode afirmar isto é. Para recuperar o mistério de nosso estar temos que penetrar nos símbolos e no solo (gravidez de nosso pensar), e assim, recuperar nossa vinculação com o absoluto. Kusch interroga se a necessidade deste resgate se dá por que “[…] esta cultura está enferma de ser e perdeu o mistério de seu estar?” (Kusch, 1978, p. 99). O estar é tema de profunda análise ao longo de todo o capítulo sexto e continuará iluminando o restante da obra.

No sétimo capítulo, O humano na América, Kusch parte de duas interrogações: Como se desenvolve o homem na América? Que é o humano a partir do popular? Segundo ele, falta uma antropologia nova que não reduza o homem a compartimentos, mas que recupere sua essencialidade. Seu propósito é o de assumir o pensamento popular em toda sua profundidade, ou seja, esboçar uma antropologia do homem americano fora do julgamento já formulado pela cultura ocidental. Para tanto, devemos partir do descobrimento do humano desde seu próprio acontecer, regressando à consciência natural; isso implica em um recomeço. Neste capítulo o autor estabelece a distinção entre pensar e filosofar. Afirma que o pensar se refere a uma tomada de consciência, mas que é assistemática, enquanto que a filosofia assume apenas o papel metodológico (com suas regras), e apoio de nossa universalidade.

No oitavo capítulo, A importância do lugar filosófico, Kusch destaca a necessidade de que seja consolidada, no campo da filosofia, uma antropologia. Coloca que a antropologia filosófica consiste na intuição do ser humano como uma referência ao sentido do humano. Enfatiza que a concepção de homem, presente no ocidente, não a exaure. Devemos considerar a circunstância especial de estar na América, partindo não de abstrações já colocadas, mas do concreto ainda não refletido adequadamente. O autor afirma que assumir o lugar filosófico de onde se fala, ou seja, pensar a partir da América não significa apenas considerar o aspecto geográfico, mas vincular a reflexão em torno da circunstância, do dado, que permite a gestação deste pensar. O mistério da verdadeira Sofia, da fé ou da esperança, se dá quando recuperamos a globalidade do pensar, nesse processo perdemos a segurança que a racionalidade proporciona e entramos no terreno do simbólico.
No capítulo nono Fenomenologia da afirmação, o autor parte da afirmação de que o pensamento supõe um ato de concretização. Daí que, pensar os objetos e as coisas mostra-se como possibilidade para atingir a objetividade. Toda afirmativa inclui aquele que afirma. O ato em si de afirmar é de certa maneira afirmar-se, buscar a si próprio. Kusch analisa toda a ambiguidade do ato de afirmar algo e de afirmar-se a si mesmo, uma vez que esse ato carrega a subjetividade que conduz ao mistério. Sua reflexão orienta à suposição de uma alteridade, ou seja, afinal, quem funda o fundamento?

A vida humana transcorre nesse movimento que parte do que não se pode afirmar para o afirmável. Refletir então sobre o viver poderia nos levar a uma vida autêntica. Ao analisar o termo viver, o autor não define o que seja a vida, pois este termo transita entre o estar e o ser, entre uma área do impensável e do pensável. Por trás do conceito de vida há sempre “uma consciência de invalidez ontológica” (Kusch, 1978, p. 124).

No décimo capítulo, Estar-sendo como jogo, o autor centra aí toda a reflexão sobre o saber viver. Em que consiste então o jogo do viver? A fórmula de “estar-sendo” parece ser a chave para significar o viver. O jogo é a possibilidade que busca, indefinidamente, a coincidência feliz que constitui o humano em sua profunda liberdade e, ao mesmo tempo, condenação de não atingir o seu fundamento. Assim, percebe-se que não há diferença entre os humanos, independente de sua cultura e de seu contexto. A diferença está somente no modo de assumir o jogo do viver. A variabilidade das civilizações está justamente neste aspecto. Cada povo ensaia o mesmo jogo para as distintas áreas da objetividade, ou seja, outro modo de dizer isto é. Talvez o homem inverta a fórmula de ser homem e, ao invés de efetivar o estar sendo, caía na armadilha do ser para estar.

No último capítulo, O jogo e a prática do humano na América, o autor ao tentar determinar outro modelo do humano, analisa uma nova perspectiva de ver e tratar as dimensões humanas, como a educação, a cultura, a economia. Dedica vários parágrafos analisando a finalidade concreta da educação e em que ela consiste. O mesmo cuidado dispensa ao sentido da economia aclarando-a através das experiências vivenciadas.

Retoma a questão do humano, porém, nos diz que ao definirmos de uma única maneira o seu sentido, estaremos perdendo mais uma vez algo que para Kusch é fundamental: o humano deve ser pensado na sua relação sempre inacabada com o solo, ou seja, em sua dimensão existencial da cultura. Devemos desse modo, realimentar a transitoriedade do fundante, ganhar a inseguridade para atingir a plenitude do humano e, segundo o autor, a nossa própria missão na América. Isso supõe o campo das possibilidades do estar sendo. Toda reflexão aponta a uma gama do humano, mas também a sua indefinição radical, pois o fundamento nunca se concretiza. Conclui a obra em análise, afirmando que devemos assumir o paradoxo do viver e sua sacralidade.

A obra de Kusch nos desperta a pensarmos a partir de uma postura que se aventura a sair de perspectivas filosóficas determinadas e fechadas do ocidente, superando padrões de pensamento que impedem a invenção de uma América descolonizada e de sujeitos que pensam desde seu contexto.

Nota

1 Houaiss. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. São Paulo: Ed. Objetiva, 2009. p. 1196. verbete Esboço.

Referências

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. São Paulo: Ed. Objetiva, 2009. [ Links ]

KUSCH, Rodolfo. Esbozo de una Antropologia Filosófica Americana. Buenos Aires: Ediciones Castañeda, 1978. [ Links ]

Magali Mendes de Menezes – Doutora em Filosofia, professora/pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, FACED, área de atuação Filosofia da Educação. Presidente da Associação Sul Americana de Filosofia e Teologia Interculturais (ASAFTI). E-mail: [email protected]

Neusa Vaz e Silva – Doutora em filosofia Ibero-americana. Pesquisadora na área de filosofia Intercultural. Autora do livro: Teoria da Cultura de Darcy Ribeiro e a Filosofia Intercultural, Ed. Nova Harmonia. E-mail: [email protected]

Leonardo Castro Dorneles – Mestre em Processo e Manifestações Cultural, graduado em Filosofia. Atua nas áreas de Filosofia e Educação, com ênfase em Interculturalidade. E-mail: [email protected]
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Revista Latino-Americana de História. São Leopoldo, v.3, n.11, 2014.

Mobilidade Social e Formação de Hierarquias

Dossiê

RLAH Editores | PDF

Artigos

Resenhas Críticas

Publicado: 2014-09-14

Boletim Historiar. São Cristóvão, n.4, 2014.

Artigos

Resenhas

Publicado: 2014-09-05

Ensaios de um percurso: estudos e pesquisas de teatro | Esther Priszkulnik

A editora Perspectiva contribui, já há algumas décadas, de forma decisiva para os debates sobre a arte teatral no país. Não é diferente com o livro Ensaios de um percurso: estudos e pesquisas de teatro, lançado em junho de 2013. Nessa obra, a pesquisadora Esther Priszkulnik, falecida em 2009, lança luz e estabelece um diálogo entre três universos teatrais distintos: o da Rússia do início do século XX, o do mundo judaico e o do Brasil dos imigrantes e do modernismo. Baseado em textos apresentados no curso de Pós-graduação do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) e na dissertação de mestrado da autora, defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, o livro é organizado por J. Guinsburg e Luiz Henrique Soares e dividido em três partes: Ensaios, Projeto de uma encenação e O teatro ídiche em São Paulo. Leia Mais

Nova História Política: “novos” e “velhos” caminhos para se fazer história / Boletim Historiar / 2014

Boletim Historiar encerra 2014 com a sensação de dever cumprido. Desde o nosso primeiro número, enfrentamos e vencemos diferentes desafios. Para fechar com chave de ouro, estamos publicando nesta edição nosso primeiro dossiê intitulado Nova História Política: “novos” e “velhos” caminhos para se fazer história, organizado por Natália Abreu Damasceno. O dossiê discute a Nova História Política a partir de trabalhos com abordagens aparentemente mais tradicionais, bem como através de análises mais inovadoras.

O dossiê é composto por cinco artigos. Iniciando temos Angelita Cristina Maquera em A historiografia do movimento operário brasileiro na década de 1980: uma análise política, que procura compreender a historiografia sobre o operariado brasileiro. Em seguida, O nascimento da polícia em Londrina de 1934 a 1955, Ingrid Carolina Ávila analisa a ação do aparato policial na cidade de Londrina por meio da perspectiva de Michel Foucault. O terceiro artigo, de autoria Natália Abreu Damasceno, Pelo poder de “fazer ver” e “fazer crer”: as relações Brasil-Estados Unidos a partir do jornal Última Hora (1951-1954), observa questões das relações internacionais a partir de um periódico impresso fundamental nos estudos do Brasil de meados do século XX.

O dossiê ainda conta com o texto Música, neofascismos e a Nova História Política: Uma análise sobre a presença do Hate Rock no Brasil (1990-2010), de Pedro Carvalho Oliveira, que investiga o fascismo no Brasil através da análise de músicas como ferramentas disseminadoras do discurso de ódio. Por fim, Bruce dos Santos e Letícia Augustin em Wikileaks, Snowden e a Nova História Política analisam os vazamentos de informações dos casos Wikileaks e Snowden.

Para fechar a edição também publicaremos a resenha de Sabrina Fernandes Melo Um quiosque na ponta extrema do Kamchatcka. Assim, desejamos um Feliz Ano Novo e agradecemos a colaboração e apoio de todos.

Os editores


Editores. [Nova História Política: “novos” e “velhos” caminhos para se fazer história]. Boletim Historiar. São Cristóvão, n.6, 2014. Acessar publicação original [DR]

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História da educação indígena e colonialidade – PESOVENTO et al. (RBHE)

PESOVENTO, A; SÁ, N. P.; SILVA, S. J. História da educação indígena e colonialidade. Cuiabá: EdUFMT, 2012. Resenha de: QUINTERO, Sara Evelin Urrea. Revista Brasileira de História da Educação, Maringá, v. 14, n. 3 (36), p. 325-330, set,/dez. 2014.

Los pueblos indígenas, sus saberes, tradiciones, formas de ser, hacer y habitar el mundo han estado silenciados o nombrados desde voces occidentales en la mayor parte de la historia; fenómeno que hapermitido construirla en clave europea, desde sus tiempos y espacios constituyendo como lo señala Lander (2000 apud PESOVENTO 2012) una gran narrativa universal.

En la superación de la visión eurocéntrica/colonizadora de esta narrativa, han venido configurándose nuevos marcos teóricos que permiten una lectura desde otras ópticas, haciendo emerger estúdios tanto de los mecanismos de imposición y colonialismo de las culturas, como de las resistencias de las mismas.

El libro História da educação indígena e colonialidade1 de Adriane Pesovento, Nicanor Palhares Sá y Sandra Jorge da Silva (2012, p. 11), se presenta en esa perspectiva utilizando como “[…] fundamento os conceitos relativos à colonialidade, como defendido por Lander (2005), Castro Gómez (2005), baseado em Quijano (2005)”. Para hacer sobresalir la presencia y la resistencia de los pueblos indígenas en la Provincia de Mato Grosso del siglo XIX.

A través de 7 capítulos los autores discuten el proceso educativo colonizador que supera lo escolar, creando mecanismos de subyugación los cuales incluyen discursos, prácticas e imaginarios; legitimadores del modelo modernizador eurocéntrico, como el único posible y verdadero.

En el primer capítulo titulado ‘Saberes locais e o processo civilizatório pós-colonial’ los autores dilucidan un interés por comprender los saberes indígenas a través del reconocimiento de la marginalización a la cual fueron sometidos. Partiendo del concepto ‘gnosis fronteriza’ de Walter Mignolo (2005 apud PESOVENTO, 2012) se presenta un abordaje al conocimiento desde las ópticas historicamente subalternizadas, más que desde las lógicas colonizadores las cuales han opacado y despreciado los saberes diferentes al proyecto epistemológico occidental. Sin embargo, es reconocida la dificultad del acceso a las fuentes, pues estas, en el caso indígena, son dispersas y escasas, además, el silencio es latente en este asunto; es por ello que la búsqueda por comprender esa historia de la educación, inicia entrelazándola con la perspectiva occidental para hallar en registros (como el realizado por Antonio Pires de Campos) y discursos oficiales indicios o datos que posibiliten ampliar la mirada reconociendo la presencia y el saber indígena. Este primer capítulo se vincula con el segundo ‘Aspectos da educação e colonialidade indígena’ ubicado espacio-temporalmente en la capitanía de Mato Grosso, fundada en el año 1748, teniendo al frente a Don Antônio Rolim de Moura. Los estudios, a través de los escritos de Don Antônio permiten comprender los imaginarios construidos por los colonizadores frente a los indios, escritos que los describen como brutales, salvajes, y sin raciocinio por su desinterés frente a la adquisición de bienes propios (teniendo en cuenta que para los colonizadores lusitanos, la ambición y el deseo de vivir com ‘comodidades’ era símbolo de civilidad). Los autores describen algunas medidas educativas del momento, como la sugerencia de enviar índios para Europa, quienes aprenderían a comportarse civilmente, convirtiéndose a su regreso en maestros de los demás, y la catequización por parte de los Jesuitas (A pesar de esta sugerencia la presencia de la Compañía de Jesús no es muy significativa en Mato Grosso; según los autores lo anterior no implica que no hubiese religiosos en el área, por el contrario es posible encontrarlos aún hoy). En este capítulo se reconocen las intenciones políticas detrás de las educativas, en el marco de um período cruzado por las luchas de dominación y ocupación del território entre españoles y portugueses. Por lo cual, para la capitanía Matogrossense y el Directorio de los Indios era fundamental la utilización de

los indígenas como ‘guardianes de las fronteras’, tornándolos fieles al rey de Portugal.

Para el análisis de los aspectos de la educación, los autores recurren al documento donde se informa sobre la creación de comitivas para la búsqueda de Minas de oro y destrucción de Quilombos, organizado por el señor Luiz de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres.

Las descripciones de este viaje permiten conocer un modelo de educación de las comunidades próximas al Rio do Piolho, en donde moraban indígenas, cerca de viviendas de negros, generando relaciones y trocas culturas. Citando a los autores, es posible afirmar que fue “[…] na confluência de culturas que se dava a educação por meio de trocas apropriações e ressignificações dos diversos elementos próprios de cad povo, tecendo e tramando suas histórias para além dos domínios ocidentais e dos saberes coloniais” (PESOVENTO, 2012, p. 35) configurando una circularidad de significados, que pueden ser pensados como micro resistencias.

Finaliza el segundo capítulo reconociendo la permanencia de la colonialidad en el siglo XIX, a pesar de no existir ya el colonialismo com respecto a Portugal. Tal como lo define Mignolo (2004 apud PESOVENTO, 2012) el proyecto para la modernidad no existe sin colonialidad, por lo cual en Mato Grosso que camina hacia esta debieron ser aniquilados y sustituidos los saberes y tradiciones indígenas considerados como saberes incivilizados. Lo anterior sustenta la necesidad de educar al indígena a través de la Catequesis y el trabajo.

El tercer capítulo ‘Thereza Cristina: de colonia militar a colônia indígena’, presenta no sólo los mecanismos colonizadores, sino las resistencias que el pueblo Bororo-coroado generó frente a los processos educativos colonialistas tanto en manos de los militares como posteriormente de los salesianos. Los autores presentan un estudio de los informes oficiales de la época (presentados desde la dirección de la Colonia, la presidencia de la provincia de Mato Grosso, la dirigencia del Directorio de los indios, entre otros entes gubernamentales) que permiten encontrar en los objetivos de la creación de la Colonia (año 1887) um proyecto modernizador que garantizaría el progreso de la provincia de acuerdo con los imaginarios eurocéntricos, en el cual la integración del indígena como mano de obra, serviría en la explotación de la vasta riqueza natural mato-grossense; integración que se daría en tanto e pueblo indígena estuviese ‘civilizado’.

Bajo un ideal evolutivo los indígenas pasarían de un estado primitivo y bárbaro a uno civilizado y euro-céntricamente ‘adecuado’, proceso del cual el colonizador se sentía responsable, esto justificaba no sólo la fuerza utilizada sino la imposición de una cultura sobre otra. Sin embargo, tal como es señalado en el libro, este proceso de subyugación  subalternización no se dio pacíficamente en la colonia Thereza Christina, a pesar de las prácticas violentas y la vivencia al lado del colonizador ‘civilizado’, el proceso educativo (civilizador) era insuficiente; incluso con la posterior incursión de las misiones catequizadoras salesianas y la educación de los hijos indígenas, que servirían como intérpretes, no se consiguieron los objetivos planteados por las élites de la época.

En la misma línea de análisis, en donde el trabajo se constituye no sólo como el medio educativo sino como el objetivo mismo en el proceso civilizatorio, se presenta el cuarto capítulo ‘O trabalho como possibilidade de educar os indígenas’. A través del estudio de registros históricos (informes y correspondencias oficiales de la época) es realizada una reflexión teórica sobre el trabajo y la educación indígena como conceptos enlazados en la colonización de los pueblos indígenas mato-grossenses. Educación que no se limita al escenario escolar, constituyéndose en un fenómeno que permea discursos y prácticas cotidianas buscando inserir a los indígenas en el mundo occidental a través del trabajo y para este mismo, ya que era reconocida la necesidad de mano de obra en la explotación de la riqueza natural del estado. Sin embargo, los autores encuentran cautelas y silencios en los documentos frente al uso de mano de obra indígena, presentándose como uma recomendación que auxiliaría la ‘civilización’; permitiendo visualizar nuevamente el imaginario colonialista, que ubica a sus autoridades em estatus de héroes, redentores de la provincia, velando por el progreso y el buen curso de Mato Grosso hacia la modernidad.

La cultura tradicional indígena calificada como bárbara, primitiva, perezosa y salvaje, reforzaba la idea de inferioridad con respecto al colonizador, que era dotado por tanto de legitimidad para ‘civilizar’ estos pueblos a través de diversas formas: la fe cristiana, el trabajo, la fuerza e incluso la violencia, como lo relatan los autores en este capítulo.

Dichos procesos civilizadores poseen, además, un claro interés em borrar las huellas de las tradiciones indígenas que estuviesen en contra de las formas eurocéntricas, sin embargo algunas voces pueden ser descubiertas, aún, en registros oficiales, para desentrañar saberes y costumbres de los pueblos indígenas; es así como en el quinto capítulo ‘Imbuére: educação Apiaká’ , los autores recurren al documento Sobre los usos, costumbres y lenguaje de los Apiaccás, y el descubrimiento de las nuevas minas en la provincia de Mato Grosso, publicado por e Instituto Geográfico Brasileiro en el año 1844, para estudiar los mecanismos utilizados en la enseñanza, y el sentido que los Pueblo indígenas daban a la educación. Es importante señalar que la publicación de este documento se da en el marco de la búsqueda por crear uma identidad nacional, con la incorporación de los indígenas a través de su ‘civilización’.

Los autores, reconocen en el documento un proceso educativo que se da en la vida misma de los Apiaká, no se reduce a la idea occidental de control de los procesos de aprendizaje, pues este se genera en la cotidianidad, en la interacción, transmisión y recreación de sus sabere tradicionales, por lo cual describen las diversas prácticas educativas y la importancia de ellas en la permanencia de la cultura a través del tiempo.

La creación de imaginarios sociales se constituye, también, en uma herramienta educativa; es así como en el sexto capítulo ‘Um nome Occidental para un Terena: Alexander Buenose presenta la configuración de una imagen del indígena ‘civilizado’ que comprende su lugar en la jerarquía social y lucha por los intereses colonialistas en Mato Grosso de finales del siglo XIX. De acuerdo a los autores, el estúdio sobre este capitán, altamente influyente debido a su origen indígena y posteriores acciones militares, trasparece los mecanismos de construcción de modelos de comportamiento para los indígenas, que permitirían no sólo la ‘pacificación’ y ‘civilización’ de estos, sino la creación de un ambiente tranquilo para la sociedad no india, en tanto demostraría la capacidad de las élites en transformar los hábitos, costumbres y conductas indígenas.

El capítulo final titulado ‘A educação pós-colonial em O Selvagem’ cierra esta publicación presentando un estudio sobre la historia de la educación indígena a partir del documento O Selvagem de Couto de Magalhães (apud PESOVENTO, 2012) de finales del sigl XIX; el cual representa un registro valioso para la comprensión de la propuesta civilizatoria de este período. Los autores señalan cómo e amplio conocimiento de Magalhães sobre el territorio mato-grossense le permitía hablar con mayor facilidad sobre las características de los pueblos indígenas y por tanto de sus ‘necesidades’ educativas, visión que estaba dada desde un lugar colonialista y occidental, el cual, a través de una racismo epistemológico, negaba los saberes y mecanismos de transmisión y aprendizaje de los indígenas, para imponer las formas eurocéntricas de educación, que a su vez se presentaban como las redentoras de la cultura en el proceso de modernización de Mato Grosso.

Esta publicación consigue, a partir de los anteriores estudios, su propósito de hacer emerger la historia de la educación indígena desde dos ópticas diferentes, tanto la educación para el indígena como herramienta fundamental en los procesos ‘civilizatorios’ y colonizadores, como aquella propia de los pueblos indígenas que hacía resistencia a la imposición eurocéntrica, y velaba por la permanencia de la cultura y saberes locales. Es por ello que el libro Historia da educação indígena e colonialidade se hace relevante y cobra notable importancia para la historia de la educación mato-grossense y brasilera, y para la apertura investigativa hacia nuevos territorios y objetos de pesquisa.

Notas

1Estudio originado de las discusiones e investigaciones realizadas en el Grupo de

Pesquisa en Educación, Historia y Memoria (GEM) de la Universidad Federal de

Mato Grosso.

Sara Evelin Urrea Quintero – Licenciatura em Gestão Educativa pela Universidade de San Buenaventura –USB (2011). Mestranda do Programa de Pós-graduação em Educação na Universidade

Federal de Mato Grosso (PPGE/IE/UFMT) pelo Convênio Organização dos Estados

Americanos (OEA) Grupo COIMBRA. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), integrante do Grupo de Pesquisa História da Educação e Memória (GEM) da UFMT. Email: [email protected]

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Por uma teoria e uma história da escola primária no Brasil: investigações comparadas sobre a escola graduada (1870-1930) – SOUZA et al. (RBHE)

SOUZA, R. F.; SILVA, V. L. G.; SÁ, E. F. Por uma teoria e uma história da escola primária no Brasil: investigações comparadas sobre a escola graduada (1870-1930). Cuiabá: EDUFMT, 2013. Resenha de: SÁ, Jauri dos Santos. Revista Brasileira de História da Educação, Maringá, v. 14, n. 3 (36), p. 319-323, set,/dez. 2014.

Por uma teoria… reúne as reflexões de um grupo de pesquisadores de distintos estados brasileiros que se ocuparam da investigação em perspectiva comparada, com ênfase na escola graduada, no período compreendido entre 1870 e 1930. Às pesquisadoras Rosa Fátima de Souza, Vera Lucia Gaspar da Silva e Elizabeth Figueiredo de Sá coube a difícil tarefa de selecionar e organizar uma amostra desse material, síntese de parte da produção desenvolvida ao abrigo do projeto de pesquisa Por uma teoria e uma história da escola primária no Brasil: investigações comparadas sobre a escola graduada (1870-1930), coordenado por Rosa Fátima de Souza.

O projeto original envolveu 15 estados brasileiros, interligando 27 pesquisadores doutores, organizados em 17 Programas de Pós- Graduação em Educação. Com tamanha pluralidade de experiências, a produção foi organizada em quatro grupos temáticos, que, reunidos neste livro, sistematizam a produção dos GTs, refletindo sobre a difusão da escola nova, a cultura material escolar, as representações sociais sobre os grupos escolares ou a institucionalização da escola graduada nos vários estados do Brasil.

O primeiro texto, ‘A escola modelar da República e  escolarização da infância no Brasil: reflexões sobre uma investigação comparada em âmbito nacional’, de Rosa Fátima de Souza, nos oferece uma análise comparativa sobre o processo de institucionalização das escolas graduadas nos diferentes estados brasileiros participantes da investigação, expondo ao leitor o universo da pesquisa. Ao “[…] inquirir sobre as características fundamentais desse tipo de escola, o modo pelo qual ele foi apropriado e se consolidou no Brasil, as alterações sofridas ao longo do tempo e os fundamentos de sua legitimidade” (SOUZA, 2013, p. 24), a autora nos propõe uma reflexão acerca da compreensão dos problemas educacionais e das soluções consideradas para os mesmos.

O segundo artigo, intitulado ‘Os grupos escolares nas memórias e histórias locais: um estudo comparativo das marcas da escolarização primária’, de autoria de Antonio Carlos Ferreira Pinheiro, Antonio d Pádua Carvalho Lopes, Luciano Mendes de Faria Filho e Fernanda Mendes de Resende, discute a questão do ‘acervo’ histórico educacional, particularmente o mineiro, o piauiense e o paraibano, relacionando, comparativamente, a ‘cultura histórica’ numa perspectiva analítica em torno da ideia da ‘cultura educacional’. O artigo trata da fonte escrita a partir das obras de memória e de história dos municípios, forjadas por ‘historiadores de não ofício’, que, no entanto, “[…] por estarem mais próximos do seu lugar de origem exercem papel relevante junto a sua comunidade” (PINHEIRO et al, 2013, p. 96).

José Carlos de Souza Araujo, Rosa Fátima de Souza e Rubia-Mar Nunes Pinto são os autores do terceiro artigo do livro, ‘A escola primária e o ideário republicanista nas mensagens dos presidentes de estado: investigações comparativas (1893-1918)’, que propõe uma ampla análise a respeito da institucionalização dos grupos escolares no Brasil, examinando o discurso político de diferentes estados da federação em relação à instrução pública. Para tal empreendimento, orientam-se pelas Mensagens dos Presidentes dos Estados, questionando sobre a relevância dessa modalidade de escola, sobre as distintas realizações educacionais ou, ainda, se é possível afirmar a existência de um projeto republicano de educação popular no período. As fontes investigadas pelos autores apontam para um processo não uniforme de organização e instalação dos grupos escolares nos Estados, resultado das particularidades políticoeconômicas e culturais, específicas de cada um deles.

‘O Federalismo republicano e o financiamento da escola primária pública no Brasil’, que constitui o quarto artigo, de autoria de Jorge Nascimento e Lucia Maria Franca Rocha, investiga o financiamento da Educação nos Estados durante a Primeira República. Para isso, utiliza, como fonte, as Mensagens Presidenciais de 11 unidades da federação, centrando a comparação em cinco deles. A primeira constatação apontada foi a de que houve uma diversidade de modelos de escolas implantadas em um mesmo Estado, sendo o dos grupos escolares gestado em São Paulo a principal fonte de inspiração. A partir daí, problematizam a questão do financiamento das escolas públicas, o impacto desse tipo de gasto nos orçamentos estaduais e, sobretudo, nos discursos produzidos no âmbito político. De caráter exploratório, o estudo primeiramente compara números, observando-se, como traço comum, o discurso do crescimento dos gastos com a educação na Mensagens, ainda que nem sempre os dados apresentem proporção uniforme. Não obstante, incorpora também as iniciativas privadas e associativas que abordam o problema do financiamento da educação.

O quinto capítulo, ‘A expansão da escola primária graduada nos Estados na primeira república: a ação dos poderes públicos’, de Alessandra Frota Martinez de Schueler, Elizabeth Figueiredo de Sá e Maria do Amparo Borges Ferro, registra que, apesar da paulatina centralidade adquirida pela escola primária graduada nos distintos estados da federação nas primeiras décadas republicanas, não se observou sua diminuição nas mesmas proporções em relação à hegemonia da escola isolada ou singular.

Em ‘Institucionalização do modelo de escola graduada’, o sexto capítulo do livro, as autoras Elizabeth Miranda Lima e Maria Auxiliadora Barbosa Macedo apresentam uma primeira aproximação comparativa do percurso de institucionalização da escola graduada no Brasil, especialmente referente ao processo de circulação, recepção e apropriação do modelo pedagógico. Tendo como base as pesquisas realizadas nos estados do Mato Grosso, Rio de Janeiro, Acre e Goiás, as autoras identificaram diferentes modelos de oferta e organização da instrução pública, onde predominou “[…] a modalidade de Escola

Primária Elementar e Escola Primária Complementar, distribuídas em áreas rural e urbana” (LIMA; MACEDO, 2013, p. 182). Embora materializada em distintos formatos, foi na monumentalidade e no funcionamento didático-pedagógico dos grupos escolares que  modernidade educacional do período republicano era visível, ainda que a oferta do ensino primário permanecesse, quantitativamente, com as escolas isoladas.

Marta Maria de Araújo é a autora do sétimo artigo do livro, ‘A criança, educação de escola (São Paulo e Nordeste do Brasil, 1890- 1930)’, que examina a institucionalização da escola primária republicana, em São Paulo e nos Estados do Nordeste – Sergipe, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte e Bahia. As fontes investigadas centram-se em decretos, leis, mensagens governamentais, regimentos, relatórios de diretor-geral da instrução pública etc. Os propósitos da autora são de recompor as modalidades de escolas postas e repostas no período, assim como cotejar as similaridades nas suas propriedades gerais e nas suas particularidades e variantes.

O oitavo capítulo, ‘Modernidade metodológica e pedagógica: apropriações do método de ensino intuitivo nas reformas da instruçã pública de Minas Gerais, Santa Catarina e São Paulo (1906-1920): ideias e práticas em movimento’, de Vera Teresa Valdemarin, Gladys Mary Ghizoni Teive e Juliana Cesário Hamdem, registra o movimento de irradiação das ideias pedagógicas difundidas no Brasil ao final do século XIX, tendo o método de ensino intuitivo como o “[…] elemento pedagógico imprescindível para estabelecer diferenciações entre o futuro desejado e a realidade a ser modificada” (VALDEMARIN; TEIVE; HAMDEM, 2013, p. 240). Adotando a lógica comparativa, as autoras analisam a circulação do método intuitivo nos Estados de Minas Gerais,

Santa Catarina e São Paulo, considerando as diferenças como elementos constitutivos. As análises demonstram que o método de ensino intuitivo estabeleceu lugares de irradiação de ideias e práticas, apoio interpretações comuns, contribuindo para pôr em circulação ideias de distintos autores.

Em ‘Cultura material escolar: fontes para a história da escola e da escolarização elementar (MA, SP, PR, SC e RS, 1870-1925)’, nono artigo do livro, os autores César Augusto de Castro, Diana Gonçalves Vidal, Eliane Peres, Gizele de Souza e Vera Lucia Gaspar da Silva examinam algumas fontes indicativas da materialidade da escola primária brasileira. Variando o período eleito para a pesquisa, entre a segunda metade do século XIX até o ano de 1925, os autores definiram cinco tipos de fontes: carta de professor, da escola; documentos administrativos; relatórios; jornais e legislação, documentos com potencial de revelar pistas de determinados objetos escolares.

Buscando favorecer “[…] o entendimento das possíveis táticas de apropriação diversificadas e até discordantes dos múltiplos dispositivos da cultura escolar” (CASTRO et al, 2013, p. 295), os autores desse último artigo tratam de identificar os modos de produção e disseminação de um modelo de escolarização no Brasil, a partir da comparação entre os distintos estados, retratando, por meio da materialidade escolar, os investimentos que mantinham e faziam funcionar as escolas públicas.

O leitor interessado em conhecer as diversas experiências concretizadas nas muitas realidades do país encontrará nessa obra uma rica coletânea de artigos. O livro assume, conforme as palavras das organizadoras1, “[…] o desafio da comparação […]” (SOUZA; SÁ, 2013, p. 15), oferecendo um bom panorama das pesquisas sobre a história da escola primária no Brasil, orientadas por quatro grupos temáticos: representações, práticas, apropriações e materialidades.

Notas

1 Rosa Fátima de Souza é professora da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, no Departamento de Ciências da Educação e Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP/Campus de Araraquara. Vera Lucia Gaspar da Silva é professora do Centro de Ciências Humanas e da Educação (FAEd) e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Coordenadora do Museu da Escola Catarinense entre 2004 e 2008. Elizabeth Figueiredo de Sá é coordenadora do grupo de Pesquisa História da Educação e Memória – GEM-IE-UFMT, pesquisadora na área da História da Educação no Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisa em História da Educação (NIEPHE) da FEUSP. Atua como professora adjunta no Instituto de Educação e no Programa de Pós-Graduação da UFMT

Jauri dos Santos Sá – Arquiteto. Doutor em Arquitetura pela Universidade Politécnica da Catalunha, Barcelona/Espanha. Atualmente desenvolvendo estagio Pós-Doutoral no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Participa do Observatório de Educação – projeto Núcleo em Rede na mesma instituição. Bolsista CNPq. E-mail: [email protected]

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Mulheres, práticas políticas e gênero: História(s), Vivência(s) e Experiência(s) do(s) feminino(s) / História Revista / 2014

A introdução dos estudos de gênero no Brasil encontrou campo fértil na história das mulheres, caracterizada como uma produção de saber interdisciplinar, que ganhou consistência nos anos de 1970. As pesquisas envolveram esforços de historiadoras, sociólogas e antropólogas, feministas que tiveram coragem de dar voz às mulheres, retirá-las do apagamento e do silêncio da História, destacando as “vivências comuns, os trabalhos, as lutas, as sobrevivências e as resistências das mulheres no passado” (PEDRO, 2005, p.85). Nesse avanço das lutas sociais e das críticas feministas, tem vazão a controvérsia em torno da história das mulheres, que parecia sinalizar a exaustão da categoria mulher, vista, muitas vezes, como generalizada e universal. Abria-se, então, o campo para os gender studies ou o estudo das relações de gênero, que ganharam relevância nos Estudos Unidos, no início dos anos 1990 (RAGO, 1998, p.89).

A partir disso, abriu-se um campo de pesquisa interdisciplinar que busca compreender como se constituem o masculino e o feminino cultural e historicamente, na perspectiva das relações de gênero. A introdução dessa categoria iluminou a análise ao incorporar à experiência a dimensão da sexualidade e das identidades construídas, contrapondo-se à tendência de se pensar a identidade sexual como algo biologicamente dado (NICOLSON, 2000, p.9).

Dentre as contribuições do conceito de gênero, destacam-se: a rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como sexo ou diferença sexual; a dimensão relacional entre as mulheres e os homens, indicando que nenhuma compreensão de qualquer um dos dois sexos poderia existir sem um estudo que os tomasse em separado; a ênfase no caráter social e cultural das distinções baseadas no sexo, que contribuiu para desnaturalizar o discurso biológico; a dimensão das relações de poder que perpassa as assimetrias e hierarquias nas relações entre homens e mulheres (SOIHET e COSTA, 2008, p.43). Como Jane Flax (1991, p.226) afirma, a problematização das relações de gênero consiste no mais importante avanço isolado da e na teoria feminista no final do século XX. Definitivamente, inaugura-se um novo paradigma para compreensão da História.

O presente dossiê representa e confirma a importância e a abundância de pesquisas em torno da temática das relações de Gênero na História. As pesquisas pretendem compreender como as vivências e experiências de mulheres e homens questionaram / conformaram / inventaram a profunda desigualdade nas relações de gêneros, e simultaneamente espaços e lugares públicos e privados interditados e repensados. As construções sociais, históricas e culturais em torno dessa rede simbólica é, muitas vezes, composta de silêncios ratificados em discursos que buscam naturalizar a diferença, significados criados politicamente e necessariamente imprecisos (SCOTT, 2012).

Alcileide Cabral do Nascimento e Alexandre Vieira da Silva Melo fazem uma profícua parceria no artigo “Melindrosas em revista: Gênero e sociabilidades do início do século XX (Recife, 1919-1929) ao analisar o corpo feminino e suas ressignificações através da figura da Melindrosa – personagem instigante e amendrontadora da ordem de gênero – na moderna Recife da Primeira República.

Ana Maria Colling e Losandro Tedeschi abordam as questões sobre “Os Direitos Humanos e as questões de Gênero” analisando a desigualdade de gênero como “uma afronta à igualização proposta pelos Direitos Humanos desde a sua fundação no século XVIII”. Violência, direito à cidadania e espaços conquistados por mulheres ultrapassam assim fronteiras políticas para tentarem realizar um espaço de vivências igualitárias e democráticas, que deveriam ser asseguradas às mulheres, mas as disputas de poder das relações de gênero nos mostram que a história é repleta de conflitos e exceções.

Maria Izilda de Santos Matos nos brindou com o trabalho “Maria Prestes Maia: trajetória, luta política e feminista na qual investiga a importância da esposa do prefeito e urbanista Francisco Prestes Maia em meados do século XX – Maria Prestes Maia, imigrante lusa – nas atividades políticas, sociais, sua atuação na Federação das Mulheres no Brasil e como sua influência pode ter tido relevância para o traçado urbano de São Paulo efetivado pelo “Plano Avenidas”.

No artigo “Mulher, casamento e trabalho: um triângulo que não fecha?” de Maria Beatriz Nader embarcamos para outra cidade brasileira: Vitória e suas transformações nas três últimas décadas do século XX. A participação das mulheres nesse desenfreado processo de implantação de grandes indústrias, aumento populacional e econômico, sofre intensas mudanças, pois o mercado de trabalho rompe, ou pelo menos esgarça a tessitura do bordado tradicional do destino feminino de casamento e família.

Gleidiane de Sousa Ferreira aponta que o debate sobre o feminismo não é apenas nacional, mas internacional. Sua contribuição ao apresentar elementos de atuação política do Mujeres creando, grupo de atuação feminista anarquista boliviano desde 1992, é literalmente um espaço de reflexão sobre o que significa pensar as práticas do feminismo nos dias contemporâneos. Seu artigo “Produzir conhecimento sobre si mesmas: uma reflexão histórica sobre práticas feministas autônomas na Bolívia”, aborda as diversas formas de comunicação estabelecidas por essas mulheres, tendo como ponto de partida a noção de “tomar la palabra”: escrita teórica, rádio independente, o jornal alternativo, arte de rua.

“Tomar la palabra!”. É o que queremos e esperamos. Aproveitem os textos sobre práticas políticas e gênero e que destes surjam outras e tantas mais História(s), Vivência(s) e Experiência(s) do(s) feminino(s)!

Referências

FLAX, Jane. Pós-moderno e relações de gênero na teoria feminista. In: BUARQUE DE HOLANDA, Heloísa (Org.). Pós-modernidade e política. Rio de Janeiro: Rocco, 1991. p.217-250.

NICOLSON, Linda. Interpretando o gênero. Estudos Feministas, Florianópolis, v.8, n.2, p.9-41, 2000.

SCOTT, JOAN W. Os usos e abusos do gênero. Tradução: Ana Carolina Eiras Coelho Soares. Projeto História, São Paulo, n. 45, pp. 327-351, Dez. 2012.

SOIHET, Rachel e COSTA, Suely Gomes. Interdisciplinaridade: história das mulheres e estudos de gênero. Gragoatá, Niterói, n.25, p.29-49, 2008.

Alcileide Cabral do Nascimento – Professora Doutora em História da Universidade Federal Rural de Pernambuco; Coordenadora Nacional do Gt de Gênero ANPUH; Coordenadora do Núcleo de Pesquisas e Estudos em Gênero / NUPEGE / UFRPE / CNPq.

Ana Carolina Eiras Coelho Soares – Professora Adjunta do Programa de Pós-Graduação em História e da Faculdade de História da Universidade Federal de Goiás; Coordenadora do GT regional de Gênero – Seção Goiás; Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Gênero / FH-UFG / CNPq.


NASCIMENTO, Alcileide Cabral do; SOARES, Ana Carolina Eiras Coelho. Apresentação. História Revista. Goiânia, v. 19, n. 3, 2014. Acessar publicação original [DR]

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Diálogos paradigmáticos sobre informação para a área da saúde – PINTO; CAMPOS (TES)

PINTO, Virgínia Bentes; CAMPOS, Henry de Holanda (Orgs.). Diálogos paradigmáticos sobre informação para a área da saúde. Fortaleza: Edições UFC, 2013, 444p. Resenha de: CUNHA, Elenice M. Revista Trabalho, Educação e Saúde, Rio de Janeiro, v.12, n.3, set./dez. 2014.

A relevância da área de Informação e Informática em Saúde (IIS) para o alcance dos princípios do SUS e melhoria de sua efetividade é indiscutível. Entretanto, o desenvolvimento da IIS, por sua transdisciplinariedade, depende da contribuição de referenciais de distintas áreas do saber. A obra Diálogos paradigmáticos sobre informação para a área da saúde, organizada por Virgínia Bentes Pinto e Henry de Holanda Campos, veio ao encontro dessa necessidade.

De início, prefácio e apresentação promovem de forma consistente a familiarização com a amplitude e interfaces do objeto ‘informação em saúde’ e com o conjunto dos capítulos e temáticas abordadas. O livro, com mais de quatrocentas páginas e 15 capítulos, abrange tanto questões teórico-metodológicas para abordagem do objeto quanto discussões e definições mais diretamente relacionadas à prática dos serviços, com ênfase em questões relativas aos requisitos das Ciências da Computação.

Pela abrangência da obra, a nossa opção foi por destacar os capítulos iniciais, que tratam de temáticas que supostamente profissionais e pesquisadores da saúde estejam menos familiarizados. O primeiro capítulo apresenta uma proposta de modelo de análise para o objeto ‘informação em saúde’. A análise de domínio, abordagem teórica e metodológica de uso corrente nas Ciências da Informação, teria duas etapas bem demarcadas. A primeira etapa, em que se buscaria entender e descrever o escopo e abrangência do objeto com base na análise de suas premissas ontológicas, epistemológicas e sociais, encontra-se de forma mais detalhada e em uma aproximação com o objeto. Já a segunda etapa da análise, que supostamente permitiria intervir sobre as informações do domínio em questão, não chega a ser discutida. Há apenas a menção de que esta consiste em um “conjunto de metodologias” (p. 35) de uso frequente na Ciência da Informação.

Para os que não estão familiarizados com estudos no campo da Ciência da Informação e com a complexidade do objeto ‘informação em saúde’, a compreensão do capítulo exige dedicação e releituras. Contudo, o esforço é recompensado, posto que conceitos e proposta de análise apresentados lançam luzes sobre a complexidade do objeto e sobre implicações de tê-lo como objeto de pesquisa.

De perspectiva mais geral e abrangente, o segundo capítulo contextualiza a chamada ‘sociedade da informação’ na atualidade, com destaque para características como a interatividade e o compartilhamento, que modificam e ampliam as possibilidades de ‘saber, produzir e atuar’ dos indivíduos. Tais possibilidades, que estariam condicionadas pelo desenvolvimento de tecnologias digitais, juntamente com a sobrecarga de dados, promoveriam impactos na prática da medicina, permitindo, ou exigindo, modificações no padrão de atuação de profissionais e pacientes. A abordagem, em linguagem clara, amplia a compreensão e contribui para superar uma perspectiva tecnicista do objeto ‘informação em saúde’.

O terceiro capítulo, “Informação para o monitoramento de risco em saúde”, de abordagem mais prática, apresenta um panorama do que seria o uso das informações e a aplicação das tecnologias de informação e comunicação (TICs) no Sistema Único de Saúde, sem muitas novidades para aqueles profissionais do setor saúde que já atuam na área, mas provavelmente contribuirá para profissionais da Ciência da Informação e das Ciências da Computação que tenham interesse no tema ‘informação em saúde’.

O quarto capítulo contempla discussão atual, que, no âmbito do setor saúde, precisa ser ampliada e aprofundada: o acesso livre à informação científica. No texto, a autora explicita fatos e situações que têm contribuído, no Brasil, para o movimento em favor do acesso livre à informação, como a abertura política, a crise econômica e o desenvolvimento das TICs; e ainda eventos e discussões, em âmbito nacional e internacional, relevantes para o desenvolvimento da questão. Reforça os repositórios institucionais como projeto que possibilita a implementação da ideia como política de apoio ao desenvolvimento científico e à democratização do acesso ao conhecimento, mostrando potencial para impactar positivamente na atenção à saúde.

O capítulo quinto trata da possibilidade e necessidade da representação indexal para o tratamento informacional do prontuário do paciente. Requer esforço, não para a compreensão do texto, mas para motivar-se à leitura, pois, embora básica na Ciência da Informação, a temática é pouco abordada no setor saúde, e não estamos familiarizados com ela. Contudo, deve-se ter em conta, na leitura e compreensão da obra, que é preciso empenho para desenvolver o objeto ‘informação em saúde’, dadas as interfaces da temática. O texto é elucidativo na medida em que esclarece aos iniciantes a funcionalidade e relevância da representação indexal, que em síntese agiliza a recuperação da informação.

Os capítulos seguintes discutem terminologias e padronização. Um desses capítulos, inicialmente escrito no idioma espanhol, apresenta resultados de trabalho empírico sobre identificação de termos representativos da linguagem médica especializada, por profissionais supostamente envolvidos com a questão, e relata a falta de consenso e outras dificuldades. A certa atura, no entanto, esse capítulo traz trechos em catalão, o que dificulta a compreensão do texto em sua totalidade, posto que é um idioma pouco falado no Brasil.

Arquitetura da informação em meio digital e interoperabilidade dos sistemas também são temas abordados na obra, em uma linguagem clara que possibilita a compreensão mesmo por aqueles ainda não familiarizados.

No último capítulo, os autores explicitam alguns dos dilemas e implicações da informatização dos documentos gerados nas instituições de saúde. Destacam que o prontuário do paciente não é o único documento produzido nessas instituições, pois a maioria dos processos de trabalho administrativos também geraria documentos. Nesse aspecto ressalta a importância do referencial analítico e organizativo da disciplina Gestão de Documentos. Apresenta, de forma sucinta, a legislação e instituições que deveriam nortear o processo de informatização e os possíveis interesses envolvidos.

A superação das limitações da IIS depende menos de iniciativas pontuais internas ao campo específico da saúde e mais de outros referenciais. Visto por uma profissional de saúde que se ocupa da Educação Profissional na área de Informações e Registros em Saúde, pelos temas abordados, a obra assume grande importância.

Por sua abrangência temática e consistência teórica, o livro tem potencial para servir de referência para pesquisas e como subsídio para o ensino.

Elenice M. Cunha – Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: [email protected]

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Depois da utopia: A história oral em seu tempo – SANHIAGO (RTA)

SANHIAGO, Ricardo; BARBOSA, Valéria (Org.) Depois da utopia: A história oral em seu tempo. São Paulo: Letra e Voz, 2013. Resenha de: SCHÜTZ, Karla Simone Willemann. Um campo em (constante) reflexão. Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 6, n.13, p. 240 ‐ 245, set./dez. 2014.

O campo da História oral chegou de maneira efetiva ao Brasil em meados da década de 1970, e desde este momento até a contemporaneidade muitas transformações podem ser visualizadas nele como frutos de recorrentes discussões epistemológicas e metodológicas entre seus adeptos, que buscaram através delas afirmar este campo e combater as críticas oriundas de muitos historiadores céticos em relação à utilização de fontes orais nos trabalhos historiográficos.

Advindo de mais um destes momentos de auto‐reflexão aos quais o campo da História oral se lança, o livro Depois da utopia: A história oral em seu tempo pretende, nas próprias palavras de seus autores, “pesar o que o tempo filtrou” (MAGALHÃES; SANTHIAGO, 2013, p.10). Seus organizadores, juntos, são responsáveis pela fundação, em 2009, do Grupo de Estudo e Pesquisa em História Oral e Memória – Gephom –, situado na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP), responsável pelo desenvolvimento de pesquisas que lançam mão da História oral e que se dedica a pensar questões pertinentes a teoria a metodologia deste campo e seus encontros com a memória.

Ainda vale lembrar que ambos foram orientados em suas teses de doutorado defendidas na USP pelo historiador José Carlos Bom Meihy, nome de destaque dentro da História oral brasileira e um dos idealizadores do livro intitulado (Re)introduzindo a história oral no Brasil, lançado há quase uma década, em 1996, e que tem uma perspectiva que se assemelha muito a que guia Depois da utopia. A publicação da década de 1990 é resultado do I Encontro Regional de História Oral Sudeste/Sul (1995), entendido como um marco importante nos rumos que haviam tomado os pesquisadores da História oral no Brasil. Como está colocado no próprio título da obra, estes percursos se pautaram numa espécie de “reinvenção” daquele campo que havia se instalado em terras brasileiras durante a década de 1970. Naquele momento – a década de 1990 ‐ foram percebidas mudanças na inspiração destas pesquisas, que se desgarraram da exclusividade temática norte‐americana e voltaram‐se para as relações entre memória e História, para os modelos biográficos, para o desenvolvimento de uma história dos “vencidos”, da História do Tempo Presente, e para o caráter transdisciplinar da História oral.

Muitos destes tópicos ainda podem ser encontrados no livro de Magalhães e Santhiago (2013), além de alguns dos autores participantes daquela primeira publicação ‐ inclusive a organizadora Valéria Magalhães, que figura com um artigo escrito em conjunto com outros quatro pesquisadores. Olga Rodrigues de Moraes von Simson e Alice Beatriz da Silva Gordo Lang, sociólogas articulistas de (Re)introduzindo a história oral no Brasil, reaparecem na publicação de 2013 com capítulos que pretendem fazer um balanço do campo e de seus trabalhos desde 1990 até a contemporaneidade. Nesse sentido, vale mencionar que Depois da utopia está organizado em 5 temáticas – Matéria: Memória; O método em seu tempo; Auto‐olhares; As histórias e seus usos; Memória é cultura ‐, e no total conta com 15 artigos que ressaltam a índole transdisciplinar vinculada à História oral e quem vem, nas ultimas décadas, estabelecendo um diálogo profícuo com outros campos das ciências sociais: jornalistas, sociólogos e historiadores brasileiros e estrangeiros, reunidos para pensar a “história oral em seu tempo”.

Como mencionado anteriormente, muitos dos assuntos em voga na década de 1990 ainda estão presentes na obra objeto desta resenha, como é o caso do lugar que ocupa e das formas que assume a memória nas pesquisas que lançam mão da História oral, tópico que toma toda a parte inicial do livro, com destaque para o artigo da italiana Luisa Passerini, nomeado Memória e utopia em um mundo global. Nele, a autora apresenta a relação entre memória e utopia como chave para entender os processos de formação de subjetividades e identidades no mundo contemporâneo marcado pelo trânsito de pessoas, que migram e transitam ao redor do globo em função de motivações tanto econômicas quanto culturais. Passerini caracteriza a memória como algo que se direciona ao passado, enquanto a utopia se direcionaria para o futuro, estando o segredo da relação entre elas no encontro que estas efetuam na dimensão do presente. De maneira geral, a sugestão que Passerini oferece, não só aos oralistas, mas também àqueles que são adeptos da História do Tempo Presente, é ampliar a atenção dedicada às subjetividades presentes na memória, problematizando o papel das utopias individuais não universalizantes no presente. Passerini (2013), acerca destas multiplas temporalidades, assim afirma: “Estou convencida que hoje, além de explorar o passado para olhar para as formas de memórias esquecidas, precisamos também explorar o presente, a fim de encontrar traços do futuro” (p.24).

As outras principais questões que saltam aos olhos nessa publicação de 2013 estão relacionadas sobretudo as temáticas e problemáticas que surgiram no campo desde a primeira “virada” na década de 1990. Dentre elas estão a utilização crescente das chamadas “novas mídias” em trabalhos de História oral; dos testimonios e o cuidado com os usos políticos de entrevistas orais; e da História Pública, que no cenário historiográfico brasileiro dos últimos anos vem sendo tema de inúmeros eventos e publicações.

O papel das “novas mídias”, sobretudo no formato audiovisual – blogs, redes sociais, Youtube ‐ na conjuntura historiográfica atual, aparece pontuado em diversos artigos do livro. Entretanto, dois deles – de autoria de Mônica Rebecca Ferrari Nunes e Ana Maria Mauad ‐ se propõem a discutir com maior detalhamento os limites e possibilidades que se fecham e se abrem tanto em relação a função de mediadoras que estas estabelecem entre a memória e os pesquisadores, quanto no que tange à utilização destas na própria produção da narrativa histórica – tema candente que possibilita aos historiadores lançar novos olhares sobre estes “suportes da memória” e também difundir o conhecimento histórico por meio de diferentes formatos. Vale lembrar ainda que a disseminação da tecnologia audiovisual aparece nesse contexto como fator essencial para entender esse novo horizonte de possibilidades, num cenário muito parecido com aquele que se refere ao momento inicial da História oral e a popularização do gravador de voz portátil: novos suportes fomentam novas discussões.

O segundo tema aqui relevante se refere à noção de testimonio, tema de discussão da historiadora Daphne Patai e termo que remete aos depoimentos cedidos por pessoas consideradas à margem de determinada sociedade e que tenham vivenciado experiências traumáticas de sofrimento. Apesar de seu formato originalmente de “entrevista oral”, os testimonios são divulgados em forma impressa por iniciativa de algum intelectual, normalmente engajado politicamente mais “à esquerda” (de acordo com Patai). Tais depoimentos trazem consigo traços marcantes da ação política. Nesse sentido, Daphne alerta para seus usos por parte dos historiadores e, principalmente, para a transformação destes no próprio discurso histórico, sem que estes tenham passado pela mediação de um historiador, ou problematizados levando‐se em conta seu contexto de produção e difusão. Este tema está intimamente relacionado ao crescimento do espaço que a “testemunha” ganhou nos trabalhos historiográficos e na própria sociedade, a ponto da historiadora Annette Wieviorka caracterizar a segunda metade do século passado como a “era da testemunha”. Como exemplos desse fenômeno aparecem, com destaque, os sobreviventes do holocausto, em contexto europeu, e na América do Sul, as vítimas das ditaduras militares vigentes no século XX. Portanto, a partir do que expõe Patai, pode‐se ponderar acerca do próprio ofício historiador e o imperativo de observar estas falas “à distância”.

A história pública, por sua vez, pode ser considerada um “velho tema novo” que ganha espaço na cena historiográfica brasileira dos últimos anos, mas que, na verdade, já podia ser visualizado em iniciativas que aludem ao próprio momento em que a História oral aqui dava os seus primeiros passos. Ricardo Santhiago dedica um capítulo inteiro à tentativa de traçar em linhas gerais um pouco da trajetória deste campo, buscando pontuar iniciativas de recolhimento de entrevistas orais que escapavam ao circuito universitário, considerado, por excelência, o espaço onde a História oral floresceu no Brasil. Dentre estas iniciativas se destacam o Museu da Imagem e do Som, com várias unidades ao longo do país e que já no início dos anos 1970 se dedicava a constituir um acervo com entrevistas visando à consulta de pesquisadores futuros; e o Museu da Pessoa, fundado no início de 1990 e voltado a coleta de histórias de vida de pessoas dos mais variados segmentos sociais. No atual contexto, onde estas iniciativas são cada vez mais recorrentes, percebe‐se que a discussão sobre o crescimento dos debates acerca da história pública estão interligados a temas como a divulgação do conhecimento histórico produzido academicamente, a história popular e aos usos do passado – debates já, de certa forma, estabelecidos, mas ainda muito pertinentes.

Como nota‐se, o campo da História oral ainda dedica muito espaço ao debate acerca da sua natureza e de seus métodos. O livro (Re) Introduzindo a História Oral no Brasil, da década de 1990, aqui colocado como objeto de comparação, e Depois da utopia, mostram que o caminho percorrido por este campo conservou muitos pontos de debate, mas, naturalmente, ao incorporar novas temáticas, sentiu a necessidade de também problematizar os limites e possibilidades ligados à estes novos métodos e objetos, sendo as “novas mídias”, os testimonios e a história pública apenas alguns deles. Enfim, a auto‐reflexão parece ser característica intrínseca ao campo, que apesar de plenamente estabelecido ‐ dado o números de trabalhos historiográficos que lançam mão das fontes orais atualmente ‐ permanece se “reinventando”.

Referências

MEIHY, José Carlos Sebe Bom (Org.). (Re) Introduzindo a História Oral no Brasil. São Paulo: USP, 1996.

SANHIAGO, Ricardo; BARBOSA, Valéria (Org.) Depois da utopia: A história oral em seu tempo. Letra e Voz: São Paulo: Letra e Voz, 2013.

Karla Simone Willemann Schütz – Mestranda do Programa de Pós‐Graduação em História da Universidade do Estado de Santa Catarina. Brasil. E-mail: [email protected].

Mídia, Religiões e Religiosidades / Revista Brasileira de História das Religiões / 2014

A vigésima edição da Revista Brasileira de História das Religiões conta com um Dossiê sobre Mídia, Religiões e Religiosidades.

Ao pensarmos nas formas de difusão de informações, visões de mundo, representações e ideias religiosas nos séculos XX e XXI, torna-se necessário lidar como outros tipos de suporte, tais como rádio, televisão, computador, cinema e ciberespaço. Torna-se, portanto, um desafio ao historiador refletir sobre os meios de expressão, adotados pelas religiões e religiosidades, intencionalmente ou não, para transmitir uma mensagem, seja por um canal específico ou por meios de comunicação de massa.

O dossiê Mídia, Religiões e Religiosidades, organizado por Eduardo Meinberg de Albuquerque Maranhão Filho, conta com seis contribuições. São elas: “Mediatización televisiva de los rituales religiosos: Las Mañanitas a la Virgen de Guadalupe” de Margarita Zires – que trata sobre o uso dos meios de comunicação e processos rituais no México; “Apocalipsis maya: una creencia posmoderna en la era de la información” de Renée de la Torre e Lizette Campechano – que analisam a importância das indústrias culturais e dos meios de comunicação e seu papel ante as profecias de fim dos tempos de 2012; “A representação do Ritual Romano de Exorcismos no filme O Exorcista (1973)” de Solange Ramos de Andrade e Michel Bossone – dedicados a compreender os meandros entre crenças e cinema com um etudo de caso; “Educação e produção de subjetividades da intolerância: As novas fronteiras da intolerância com a Umbanda” de Sidney Nilton de Oliveira – dedicado a analisar como grupos conservadores e fundamentalistas, em especial os neopentecostais, lidam com a umbanda; “Complexidades da religiosidade afro-brasileira no “terreiro” do ciberespaço” de Cristiana Tramonte – que se volta à análise de outras formas de organização e crença de grupos de religiosidade afro-brasileira; e “Ciberespaços para a crítica: Difusão e imagens da Igreja Universal pelo ciberespaço latino-americano” de Marcelo Tadvald – que analisa aprsença da IURD no espaço virtual.

Agradecemos a colaboração de Eduardo Meinberg de Albuquerque Maranhão Filho na organização do dossiê!

Em diálogo com a temática das Mídias, temos ainda duas comunicações: “Feições político-midiáticas da concorrência cristã brasileira” de André Ricardo de Souza, Giulliano Placeres e Vinicius Manduca e “Tradição oral e novas tecnologias no candomblé da metrópole” de Ivete Miranda Previtalli.

Na Seção “Artigos Livres”, que conta com 6 artigos, temos as contribuições de Eliane Cristina Deckmann Fleck e Mauro Dillmann, Fabio Augusto Scarpim, Beatriz Teixeira Weber e Renan Santos Mattos, Ronaldo de Oliveira Rodrigues, Andreia Martins e Gizele Zanotto.

Por fim, concluímos com as resenhas de Anna Maria Salustiano e Emerson Sena da Silveira, respectivamente sobre as obras Religiões e Religiosidades no (do) Ciberespaço e Religião e Juventude: os novos carismáticos.

Boa leitura!

Vanda Serafim

Gizele Zanotto


SERAFIM, Vanda; ZANOTTO, Gizele. Apresentação. Revista Brasileira de História das Religiões. Maringá, v.7, n.20, set.., 2014. Acessar publicação original [DR]

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Amérique Latine – Political Outlook – OPALC (RTA)

Amérique Latine – Political Outlook (Observatoire politique de l’Amerique latine et des Caraïbes). Paris: Les Études du CERI, n. 198‐199, décembre 2013. Resenha de: SILVA, Daniel Afonso da. Visões Boreais. Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 6, n.13, p. 246 ‐ 252, set./dez. 2014.

Acaba de sair o mais recente Political Outlook sobre a América Latina, do Observatoire politique de l’Amerique latine et des Caraïbes do Centre d’études et de recherchers internationales (CERI), da Sciences Po de Paris. Muito bem informado e formidavelmente apresentado, o relatório procura pôr em evidência os pontos fortes das mais variadas dimensões da vida política e social dos países latino‐americanos durante o ano de 2013. Orientado, coordenado e organizado pelo professor Olivier Dabène, esse Political Outlook vem se impondo como leitura obrigatória aos interessados em América Latina.

Onze textos, distribuídos em três seções, somados a uma esclarecedora introdução, compõem o Outlook. Seu ponto de partida, de não pouca importância, contempla o desaparecimento de Albert Hirschman (1915‐2012), com uma ode ao que foi um dos mais importantes latino‐americanistas de todos os tempos. Na sequência, são apresentados diversos temas e reflexões muitíssimo estimulantes: a presença chinesa na região; a visita do presidente Xi Jinping a Trinidad e Tobago, Costa Rica e México e seu crescente interesse pelo setor petroleiro local; o impacto da morte de Hugo Chaves (1954‐2013) sobre o imaginário venezuelano; o balanço do primeiro ano de Enrique Peña Nieto e o regresso do Partido Revolucionário Institucional à frente do México; a “justiça transicional” na Colômbia; a designação do argentino Jorge Bergoglio à condição de Sua Santidade o Papa; a situação da Guatemala após o julgamento do ditador Efraín Ríos Montt, acusado de assassinar mais de 200 mil pessoas entre 1960 e 1996, junto com o questionamento da possibilidade de alguma reconciliação; a situação, na Colômbia, das FARC, que sugeria avançar sobre o caminho de negociação de paz; a celebração dos 40 anos do 11 de setembro de 1973 no Chile, que depôs do poder e da vida Salvador Allende (1908‐1973); dos 40 anos do golpe de estado no Uruguai – pouco lembrado na região, mas que continua vivo na memória dos uruguaios –; dos 30 anos da iniciativa Contadora para a América Central, que auxiliou na superação do espírito de “década perdida” na região e dos dez anos de governos petistas na presidência do Brasil.

Muitas impressões podem ser registradas, ora para ressaltar momentos inegavelmente ricos ‐ como a feliz lembrança do marcante desaparecimento de Albert Hirschman e de Hugo Chaves ‐, ora para mencionar momentos não tão ricos, com certo menosprezo que recobre praticamente todos os textos, pelo contexto mais global da organização internacional ao longo de 2013, ano que registrou fortes movimentos de superação definitiva da crise financeira de 2008 nos países centrais, avanços e retrocessos nos conflitos do mundo árabe, a aproximação entre americanos e russos na gestão do caso sírio, o acordo prévio com o Irã, entre outros. Toda a América Latina tem a ver, de alguma maneira, com esses movimentos.

Excluída qualquer avaliação, a impressão mais diretamente justa e honesta deve estar no sentido de saudar e reconhecer o imenso esforço de criação e formação de expertise – muito competente, por sinal – sobre essa parte do continente americano. Impressionam a capacidade de síntese e a profundidade de algumas avaliações. Uma delas, demonstrada no estudo de Frédéric Louault sobre o Brasil.

Louault avalia o ano brasileiro de 2013 pelo prisma dos dez anos de PT no poder. Reconhece a densidade do projeto de governo que permite à presidente Dilma Rousseff ter 79% de aprovação popular e seu governo, 63% de opinião positiva. Da mesma forma, põe em questão as qualidades que os protestos de junho de 2013 impõem. Ressalta que milhões de pessoas nas ruas, reivindicando o saneamento da classe política, poderia expressar a vitalidade da democracia. Tendo em conta a sombra do passado ditatorial brasileiro, as vozes das ruas precisariam ser saudadas. Acentua que essa demonstração de insatisfação representaria a fragilidade da democracia brasileira e dos governos petistas que, ao não avançar sobre reformas para a melhoria da vida, especialmente dos segmentos médios, frustram os anseios gerais.

Argumenta que a estabilidade dos indicadores macroeconômicos e sociais (sujeito), apresentados ao longo dos governos do presidente Lula (2003‐2010) e da presidente Dilma (2011‐2014), vai invertendo os sinais.

O entusiasmo dos tempos do presidente Lula dá lugar a inquietações. Daí questionar:

S’agit‐il d’un simple ralentissement conjoncturel ou bien est‐ce la fin d’un cycle économique, l’épuisement d’une formulede développement qui s’est appuyée durant dix ans sur un environnement international favorable aux économies exportatrices d’Amérique Latine (en raison notamment des cours élèves des matières premières)?” (p. 55). (TRADUÇÃO EM NOTA DE RODAPÉ).1

Uma excelente questão, para um excelente problema.

Louault demonstra ser um pouco de cada. Mostra a importância da estratégia do presidente Lula da Silva na diversificação de parceiros comerciais e no estímulo às relações ditas Sul‐Sul. Acentua a importância da China, que em 2009 superou os Estados Unidos como parceiro de exportação‐importação. Mas analisa, neste sentido, o caráter desequilibrado da relação, uma vez que: 85% das exportações brasileiras para a China se compõem de matérias primas (45,5% de minerais, 24,7% de soja e 11% de petróleo). Já as importações chinesas ‐ 97% ‐ são de produtos manufaturados. Depois de 2010, os ventos econômicos foram mudando. Mas ganhos sociais permaneceram. As políticas de distribuição de renda, alocadas no programa Bolsa Família, beneficiaram mais de 10 milhões de famílias de baixa, baixíssima ou nenhuma renda. Isso permitiu não apenas a melhoria dos meios de subsistência, mas também favoreceu a escolarização e vacinação, seguida de acompanhamento médico, de mais de 14 milhões de crianças. Com isso, a real diminuição da desigualdade social referendada pelo coeficiente de Gini passou de 0,59 em 2003 para 0,49 em 2012. Tudo isso, interpreta Louault, explica o sucesso eleitoral do PT. Mesmo que a contemporização com os demais segmentos políticos – “Lula sans cesse a cherché à éviter toute confrontation avec les elites politiques traditionnelles” (p. 61) – tenha sido permanente, o “mensalão” deixa marca profunda na trajetória do partido, sobretudo pela prisão dos principais acusados, entre eles José Dirceu e José Genuíno, líderes históricos do PT.

Não resta dúvida que Frédéric Louault – como, de resto, Olivier Dabène, Gaspard Estrada, Damien Larrouqué, Nordin Lazreg, Delphine Lecombe, Antoine Maillet, Frédéric Massé, Kevin Parthenay, Eduardo Rios, Darío Rodrígues e Constantino Urcuyo‐Fournier, demais colaboradores do Political Outlook 2013 – continua muito bem postado nas discussões gerais de seu objeto de análise. Entretanto, algumas impressões, para além das evidências estampadas nos dados oficiais que sustentam o artigo, podem auxiliar na melhor qualificação e sofisticação da abordagem.

O sucesso eleitoral do presidente Lula e do PT nesses anos vem ganhando uma classificação inapelável: lulismo. Criação do cientista político André Singer, porta‐voz da Presidência da República de 2003 a 2006, a classificação indica elementos tangíveis para se compreender a reeleição do presidente Lula da Silva em 2006. Tem razão Louault ao sugerir que camadas sociais, especialmente localizadas nas Regiões Norte e Nordeste do Brasil, beneficiadas pelos programas de distribuição de renda a partir de 2003, votaram massivamente nele em 2006. Entretanto, vale lembrar que menos de um ano antes da eleição de 2006, o presidente Lula e o PT estavam praticamente em vias de desaparecimento político em função das denúncias do deputado Roberto Jefferson que revelaram o “escândalo do mensalão”. A imprensa e os segmentos políticos de oposição, ato contínuo e sem pudor, envolviam o presidente e seu partido no escândalo. Muitos diziam que era o fim da linha, sobretudo por ser o PT o partido que mais reivindicara, em tempos recentes, os atributos da ética e da não‐corrupção na política. Em meio ao alvoroço, peças centrais do governo – como o ministro fazenda, Antonio Pallocci, e o ministro‐chefe da Casa Civil, José Dirceu – tiveram de deixar os cargos. O presidente Lula e toda equipe político‐partidária ficaram amplamente fragilizados. Muitos simpatizantes históricos deixaram o partido. Os fundadores do PSOL, dissidentes avessos à postura majoritária do PT que conduzira a vitória de Lula da Silva nas eleições de 2002, festejavam. Exaltados da oposição, como o senador Jorge Bornhausen, diziam, alto e bom som, o que diversos outros pensavam, mas não diziam, que era o momento de se livrar dessa “raça”. Outros pediam o imediato impeachment do presidente. Enfim, só a pessoa do presidente Lula pode dimensionar com precisão a intensidade da pressão. E tudo isso ocorria no segundo semestre de 2005. As eleições de 2006 já estavam sendo programadas. A participação do presidente Lula era, para muitos, incerta. Sua vitória, improvável. A compreensão da reversão dessas tenebrosas expectativas ganha muito com o arranjo de André Singer sobre o lulismo, entendido como a base de sustentação eleitoral do PT. Louault acentua o fato da ampliação do número de eleitores de Lula em 2006, mas não avança sobre algumas constatações fundamentais. Desde 1980, a bandeira do PT era de diminuir as desigualdades sociais e melhorar as condições de vida dos menos favorecidos. No entanto, nas quatro primeiras apresentações de Lula ao sufrágio universal (1989, 1994, 1998 e 2002), esses desfavorecidos jamais lhe conferiram o voto. Isso ocorreu porque, enquanto a imprensa e a oposição massacravam o presidente Lula e o PT no âmbito do escândalo do mensalão, o governo ia ampliando os programas sociais. Essa ampliação e manutenção da melhoria da vida de milhões de pessoas, somada ao caráter pedagógico de identificar o presidente Lula como responsável direto, proporcionou uma evidente alteração à sua base eleitoral e à do PT.

Reeleito, Lula foi reconduzido ao poder em janeiro de 2007. Em poucos meses, aparecem os sinais de alerta mundiais sobre a possibilidade de uma crise econômica nos países centrais. Esse assunto – suposto, mas não frontalmente abordado por Louault – vai se mostrando essencial para a compreensão do Brasil atual. O segundo mandato do presidente Lula foi o momento de gestão da crise financeira.

Dotado de inegável tino político, o presidente Lula percebeu que era imperativo administrar as emoções de sua nova base eleitoral, que corria o risco de perder seus benefícios em função do tsunami das finanças que atingia o Brasil. Passou, de início, a responsabilizar os países ricos, afirmando que os países pobres não deveriam ser responsabilizados pela insanidade dos “brancos de olhos azuis”. Na sequência, aumentou políticas de crédito bancário e incentivou os brasileiros dos segmentos médios a consumir. Essas duas medidas, somadas a um sem‐fim de estratégias econômicas anticíclicas, permitiram a efetivação da percepção de suave “marolinha” econômica no Brasil, enquanto o resto do mundo vivia o inferno. Mas essa sagacidade do presidente e de sua inquestionável retórica presidencial, somadas a muitas doses de sorte e esperteza não foram transferidas a Dilma Rousseff, como os votos de credibilidade do povo brasileiro em 2010. Isso ajuda a explicar vários dos episódios de insatisfação vividos no Brasil desde junho de 2013.

Daniel Afonso da Silva – Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo, professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba e chercheur invité do CERI‐Sciences Po de Paris. Brasil [email protected].

Secretaria de Educação Básica. Caderno de Educação Especial – A alfabetização de crianças com deficiência: uma proposta inclusiva – BRASIL (REE)

BRASIL, Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Caderno de Educação Especial – A alfabetização de crianças com deficiência: uma proposta inclusiva. Diretoria de Apoio à Gestão Educacional. Brasília, 2012. Resenha de: OLIVEIRA, Marli dos Santos de; BEZERRA, Giovani Ferreira. (Pro)posições do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa para a Educação Especial: uma proposta inclusiva? Revista Educação Especial, v.27, n.50, Santa Maria, p. 777-780, set./dez., 2014.

O caderno de educação especial A alfabetização de crianças com deficiência: uma proposta inclusiva constitui-se como um dos vários materiais criados pelo Ministério da Educação para auxiliar os docentes em relação às novas exigências do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. Tal pacto se apresenta como um compromisso formal assumido pelo governo federal, estados e municípios, a fim de assegurar que todas as crianças estejam alfabetizadas até os oito anos de idade, ao final do 3º ano do ensino fundamental.

Organizado em seis capítulos, o caderno busca discutir sobre a Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva, sob a ótica de diversos autores/as: Tícia Cassiany Ferro Cavalcante, Ana Gabriela de Souza Leal, Wilma Pastor de Andrade Sousa, Carlos Antonio Fontenele Mourão e Rafaella Asfora. As orientações propostas neste caderno buscam ampliar e potencializar as possibilidades de ensino e orientar a utilização de jogos e brincadeiras em contextos inclusivos de alfabetização. Entretanto, o material se restringe somente à alfabetização de crianças com deficiência de ordem motora, cognitiva e sensorial (visual ou auditiva), não abordando casos de altas habilidades, nem os transtornos globais do desenvolvimento.

O capítulo I, intitulado A pessoa com deficiência motora frente ao processo de alfabetização, apresenta uma breve caracterização do que é a deficiência motora, focalizando as discussões nos alunos com paralisia cerebral. Argumenta-se que esta se coloca como uma das principais causas de deficiência motora presente nas escolas.

Em seguida, descreve que a falta de recursos de acessibilidade e de comunicação das pessoas com deficiência nem sempre está relacionada estritamente à questão financeira, uma vez que o professor pode utilizar sua criatividade para construí-los e/ou realizá-los. Enfatiza, ainda, que a Comunicação Alternativa e Suplementar (CAS) possibilita a erradicação das barreiras de comunicação presentes na escola, ocorrendo de forma eficaz à medida que o professor cria laços com o aluno, conhecendo-o em suas especificidades.

O capítulo II, Pensando a alfabetização da pessoa com deficiência intelectual, discute alguns aspectos históricos da deficiência intelectual, demonstrando que a escola não está adequada para atender as diferenças de crianças sem qualquer deficiência e, sobretudo, para atender (sem segregar) as necessidades das crianças com deficiência.

Em seguida, destaca que a deficiência intelectual não pode ser encarada como uma condição estática, e nem apenas sob a ótica dos impedimentos que a pessoa nessa condição pode ter. Descreve que o trabalho docente, juntamente com o apoio da família, deve estar direcionado para a perspectiva de que a criança aprende em sua interação com o mundo, mediante as oportunidades a ela destinadas, no decorrer de sua trajetória de vida, sendo capaz de se comunicar, se alfabetizar, enfim, de aprender.

Seguindo com as discussões, o capítulo III, Estratégias de ensino na alfabetização da pessoa cega e com baixa visão, inicia discutindo que, durante a história das pessoas com deficiência, no Brasil, a cegueira foi sempre caracterizada pelo impedimento e incapacidade do sujeito. Em seguida, apresenta uma caracterização da deficiência visual, demonstrando que a visão não é a única forma para a locomoção e interação com o mundo, e que as pessoas com deficiência são iguais às demais em relação a suas capacidades produtivas e relacionais, podendo desenvolver ações em várias esferas da sociedade, desde que lhe sejam ofertadas as condições necessárias. Desse ângulo, não basta somente a escola apresentar a escrita braille à criança com deficiência visual, pois esta, sozinha, não garantirá a sua alfabetização, sendo necessário que o professor utilize vários instrumentos que desenvolvam e explorem os demais sentidos.

No capítulo IV, A alfabetização da pessoa surda: desafios e possibilidades, discute- se que a alfabetização da pessoa surda em Língua Portuguesa é encarada como um dos grandes desafios de escolarização desses sujeitos. Ressalta-se que a perda total ou parcial da audição não significa incapacidade cognitiva, sendo que as condições e situações ofertadas à pessoa com surdez influenciam em seu desenvolvimento, bem como em suas relações escolares e sociais. Nesse sentido, para que ocorra a alfabetização da pessoa com deficiência auditiva, é necessário que ela visualize seu professor, intérprete e/ou professor intérprete, estabelecendo uma relação de confiança, sendo-lhe um direito a comunicação e o esclarecimento de todas suas dúvidas. Logo, é necessário que os professores dominem a Língua Portuguesa, bem como a Língua Brasileira de Sinais, para que, primeiramente, a partir desta última, se consiga alfabetizar a pessoa com deficiência auditiva, proporcionando-lhe a comunicação e o aprendizado.

O capítulo V, O Atendimento Educacional Especializado nas Salas de Recursos Multifuncionais, inicia situando o leitor historicamente acerca das muitas conquistas em relação aos direitos das pessoas com deficiência, sendo que o direito à educação e a aprendizagem devem ocorrer em um sistema educacional inclusivo, que disponha de recursos e serviços especializados para que a pessoa com deficiência se desenvolva com igualdade de acesso e permanência às escolas comuns.

Nessa direção, o Atendimento Educacional Especializado (AEE), que acontece em salas de recursos multifuncionais, no contraturno, coloca-se também como um importante direito conquistado a partir da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva de uma Educação Inclusiva, oficializada em 2008. Na sequência, o capítulo apresenta algumas definições sobre o público-alvo do AEE, sobre os materiais disponibilizados nas salas de recursos multifuncionais de tipo I e II, salientando que cabe ao profissional do AEE trabalhar de modo articulado com o professor da escola regular.

Finaliza-se o capítulo com diversas sugestões acerca do trabalho que o profissional especialista deve realizar com os alunos com cegueira, baixa visão, surdez, deficiência física e deficiência intelectual.

Encerrando as discussões do Caderno de Educação Especial, o capítulo VI, Compartilhando, é subdividido em três tópicos e não trata especificamente sobre uma deficiência em particular. Nesta ordem, aborda-se uma sequência didática acerca de um projeto desenvolvido por uma professora com alunos surdos do 1º e 2º anos do ensino fundamental; apresentam-se relatos de experiências de uma professora sobre a inclusão de um aluno com paralisia cerebral, bem como relatos de outra professora sobre a inclusão de uma aluna com Síndrome de Down em uma turma de 1º ano do ensino fundamental; e, por fim, aborda-se o uso de jogos para a alfabetização numa perspectiva inclusiva. Ao término do livro, aparecem, ainda, algumas sugestões de leituras para que o leitor/professor possa refletir mais sobre a Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva.

Percebe-se, todavia, com a leitura do Caderno de Educação Especial, que esse material disponibilizado aos professores alfabetizadores apresenta algumas lacunas.

Primeiramente, no que diz respeito à brevidade das abordagens que compõem o material, visto que as orientações feitas aos professores ocorrem minimamente sobre algumas especificidades dos alunos com deficiência, não havendo nenhum outro material no contexto do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa que contemple a Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva. Além disso, não se discorre sobre as possibilidades de alfabetização dos alunos com altas habilidades e com transtornos globais do desenvolvimento.
Nesse sentido, ao se considerar o objetivo de se alfabetizar todas as crianças, é necessário subsidiar os docentes tanto no que se refere aos materiais diversificados, quanto, sobretudo, em sua formação. De forma análoga, outra questão que merece atenção diz respeito à responsabilidade demasiadamente atribuída ao professor. O Caderno de Educação Especial, em sua totalidade, dirige-se aos professores como sendo os únicos responsáveis por criar materiais e recursos diversos para contribuir no processo de alfabetização das crianças com necessidades educacionais especiais, desconsiderando-se que este trabalho deve ser realizado de modo conjunto, pela instituição escolar e por demais profissionais que apoiem o trabalho pedagógico especializado.

Como apreciação final, pode-se dizer que pensar a alfabetização de todas as crianças da rede regular de ensino exige, de início, uma compreensão de totalidade por parte dos elaboradores desses materiais de formação docente, bem como das políticas educacionais, sobretudo no que tange à Educação Especial na perspectiva de Educação Inclusiva. Afinal, este “Pacto de Alfabetização” deve ser firmado com todas as crianças brasileiras, respeitando-as em suas diferenças e necessidades.

Marli dos Santos de Oliveira – Acadêmica do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS/CPNV), Naviraí, Mato Grosso do Sul, Brasil. E-mail: [email protected][email protected]

Giovani Ferreira Bezerra – Professor na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS/CPNV), Naviraí, Mato Grosso do Sul, Brasil.

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Representações e identidades / Monções / 2014

Saudações a todos os leitores.

Este é o primeiro número da MONÇÕES: revista do curso de História da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – campus de Coxim. A universidade brasileira em tempos recentes vive um processo de franca expansão e interiorização. Este é o resultado dos ventos democráticos que sopram na sociedade brasileira atual. A expansão da UFMS proporcionou o acesso a Universidade Pública ao povo coxinense e de sua região formada por cidades como Pedro Gomes, Rio Verde e Sonora. A Revista Acadêmica de História Monções representa um novo momento do curso de História da UFMS – campus de Coxim. Momento em que o curso de História recomeça um ciclo de produções acadêmicas que o projetará nacionalmente.

O nome da revista faz referência às Monções ou às expedições fluviais, também chamadas de Bandeirantismo Fluvial. Os monçõeiros encontravam em Coxim um importante ponto de parada e reabastecimento para a continuidade da viagem até as margens do rio Cuiabá. A História das monções é caríssima ao Mato Grosso do Sul, pois significa, sobretudo, um elo cultural e histórico entre a região sudeste e Centro Oeste do Brasil. Certamente, não existe nome mais apropriado para uma revista do curso de História da UFMS – campus de Coxim. Este fato confere legitimidade ao nome MONÇÕES que foi escolhido de forma unânime pelo corpo docente da UFMS/CPCX. A Revista Acadêmica de História Monções/História-UFMS segue na esteira do recente “boom” das revistas eletrônicas acadêmicas indexadas e submetidas ao sistema Qualis Capes. Uma política que confere economicidade, agilidade, otimização e ampliação das produções acadêmicas.

O campus da cidade de Coxim sempre priorizou, em seu projeto pedagógico acadêmico, os estudos do Movimento Monçõeiro. Esses estudos possuem como objeto as estórias da comunidade local que se relacionam com essa cultura ribeirinha, assim como os resquícios das monções paulistas. O curso de História também conta com a existência de importante projeto financiado pelo PROEXT intitulado: “monções, patrimônio cultural sul-mato-grossense”. É preciso destacar também a vinculação da Revista Acadêmica de História Monções ao Memorial e Centro de Documentação Regional denominado “Memorial das Monções Henrique Spengler” que recebe turistas, acadêmicos e a comunidade local.

A Revista Acadêmica de História Monções da UFMS/CPCX é uma contribuição para a circulação do trabalho intelectual que precisa sempre de espaços abertos e este é um deles. A profusão do conhecimento através do estabelecimento de veículos editoriais fomenta a pluralidade democrática, afasta as trevas da ignorância (que macula o avanço social) e permite o debate, necessário à consolidação da cultura democrática.

Samuel de Jesus – Professor Doutor. Editor Responsável

JESUS, Samuel de. Apresentação. Monções. Coxim, v.1, n.1, set., 2014. Acessar publicação original [DR]

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Nunca antes na diplomacia…A política externa brasileira em tempos não convencionais | Paulo Roberto de Almeida

Nunca antes um governo mereceu tanto destaque nem foram empreendidos tantos estudos acerca do seu plano de atuação e suas medidas de política externa quanto o governo do Partido dos Trabalhadores no poder central do Brasil. Tal governo, iniciado em 2003 com a posse de Luís Inácio Lula da Silva e que teve plano de continuidade com a eleição de Dilma Rousseff, em 2010, representou e representa uma ruptura diplomática com a linearidade de atuação do Itamaraty. O livro “Nunca antes na diplomacia … A política externa brasileira em tempos não convencionais”, do diplomata e acadêmico Paulo Roberto de Almeida, procura analisar essa transição. Como uma coletâneas de artigos, o livro traça o plano da diplomacia brasileira dando destaque de forma crítica à atuação do governo petista e à chamada era do “Nunca antes”.

Desde o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), a diplomacia brasileira tem passado por mudanças. De fato, a partir de FHC o Brasil inaugura, mais fortemente, a chamada diplomacia presidencial que apresenta ininterrupção com Lula. A figura do presidente, nestes períodos, ganhou destaque e projeção no cenário internacional, mas foi o governo de Luís Inácio que administrou de forma grandiloqüente essa imagem presidencial. Leia Mais

Intelectuais e circulação de ideias na América Latina / Varia História / 2014

O presente dossiê de Varia Historia é dedicado à História Intelectual Latino-Americana, com ênfase na história dos impressos, das ideias e de sua circulação.

A História Intelectual é um campo de estudos que vem crescendo nas universidades e instituições de pesquisa latino-americanas, particularmente a partir dos anos 1980 e 1990, juntamente com os processos de redemocratização em vários países do continente e a necessidade de se repensar o papel dos intelectuais na vida política e social de cada um dos países e na América Latina como um todo.

O importante ensaísta e crítico literário uruguaio Ángel Rama já havia, em seu famoso livro La ciudad letrada, de 1984, indicado alguns caminhos que seriam percorridos pela história intelectual latino-americana nas décadas seguintes, particularmente sobre as vinculações entre os intelectuais e os núcleos urbanos de poder.[1]

Conforme Carlos Altamirano, em sua introdução geral aos dois volumes da Historia de los intelectuales en América Latina, além das ideias, era necessário aprofundar a reflexão sobre a posição dos letrados latino-americanos no “espaço social, suas associações e formas de atividade, instituições e campos da vida intelectual, seus debates e relações entre ‘poder secular’ e ‘poder espiritual'”.[2]

Os estudos na área de História Intelectual, em um sentido amplo, têm como seus objetos de pesquisa e reflexão não apenas a história do pensamento e o debate de ideias e ideologias, mas questões como a constituição de redes e sociabilidades intelectuais; os variados tipos de impressos, sua circulação e articulação com o debate público; as viagens e intercâmbios; as experiências de exílio e deslocamento etc. São estudos que buscam analisar as conexões entre os intelectuais e as diversas instâncias da vida pública, como a política, a diplomacia, os meios de comunicação, as instituições educativas e científicas, as expressões artísticas, associações e movimentos sociais, entre outras.

Na América Latina, as pesquisas nessa área tiveram um incremento muito vigoroso a partir dos anos 1990. A criação do Programa de História Intelectual da Universidad Nacional de Quilmes, na Argentina, em 1994,[3] e a publicação de Prismas – Revista de historia intelectual pela editora da UNQ, desde 1997, são marcos importantes para essa área de estudos. Em vários países latino-americanos – com destaque para Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru e Uruguai – é crescente o número de pesquisadores e trabalhos publicados na área de História Intelectual. Esse aumento teve, como um de seus desdobramentos, a realização do I Congreso de Historia Intelectual de América Latina, em Medellín, Colômbia, em setembro de 2012, e o II Congreso de Historia Intelectual de América Latina, que será realizado em Buenos Aires, em novembro deste ano.

O dossiê que ora apresentamos traz cinco artigos que abordam algumas das temáticas elencadas acima: o debate de ideias e sua circulação entre países e continentes; os periódicos, sua importância e repercussão; as trajetórias e inserção de intelectuais na cena pública.

Abrindo o dossiê, Maria Ligia Coelho Prado analisa os artigos publicados a respeito do México na famosa publicação francesa Revue des Deux Mondes, entre 1840 e 1870. A revista, muito lida pelos intelectuais latino-americanos, expressava, como demonstra a autora, os interesses nacionais e a perspectiva imperial da França. De todos os países latino-americanos abordados pela Revue, o México foi o objeto predileto das reflexões do periódico, no período estudado, em cerca de 30 artigos. Os intelectuais franceses que escreveram na Revue defendiam que seu país deveria ocupar um papel de liderança do “mundo latino”. O México era representado, nesses artigos, como um país “exótico, atrasado, anárquico, vivendo nos tempos de Felipe II”. E, como lembra Prado, durante o governo de Napoleão III, os franceses colocaram em prática esta perspectiva, ao enviar tropas para sustentar a monarquia no México, numa intervenção, afinal, derrotada pelos liberais mexicanos. Sendo assim, o artigo de Ligia Prado traz elementos para uma melhor compreensão de um aspecto pouco salientado da ação francesa na América Latina no século XIX, seu papel imperial, para além do lugar da França – e de Paris, especialmente – como o principal centro intelectual, literário e cultural, para onde convergiam, ou desejavam convergir, os intelectuais latino-americanos.

José Luis Bendicho Beired, em seu artigo Hispanismo e latinismo no debate intelectual ibero-americano, analisa a constituição de vertentes defensoras do hispanismo e do latinismo nos dois lados do Atlântico, entre meados do século XIX e meados do XX. Utilizando-se de revistas e jornais como principais fontes documentais, o autor mostra que, até inícios do século XX, não havia evidente oposição entre essas duas correntes, sendo predominante, inclusive, uma visão de complementaridade. Para intelectuais franceses, assim como para espanhóis, devia-se contrapor, às intervenções norte-americanas sobre a América ao sul do Rio Bravo, a “cultura latina”. E nos países hispano-americanos, principalmente após a intervenção dos Estados Unidos na guerra de independência de Cuba, fortaleceu-se uma afirmação latino-americanista. Após a Primeira Guerra Mundial, entretanto, as distinções entre o latinismo, vinculado às pretensões hegemônicas francesas, e o hispanismo, encabeçado pela Espanha, ficaram mais pronunciadas. O autor faz referências, também, acerca do debate sobre o iberismo, tanto na Espanha como em Portugal. Ao analisar concepções formuladas por intelectuais da península Ibérica e da América Hispânica, além de ações concretas para incrementar os vínculos com os países ibero-americanos, tanto por parte da França como da Espanha, Beired mostra a riqueza dos debates que envolviam, por um lado, filiações e vínculos intelectuais entre hispano-americanos e europeus, e, por outro, afirmações identitárias dos países latino-americanos – que cada vez mais se reconheciam como parte de uma região denominada América Latina –, sem ignorar as alterações que se estabeleceram nos termos do debate em função das significativas mudanças ocorridas na Espanha, a partir da Guerra Civil e da vitória franquista, em outros países europeus e nas Américas, ao longo do período enfocado.

No terceiro artigo do dossiê, Alejandra Mailhe analisa a revista Archivos de psiquiatría, criminología, medicina legal y ciencias afines, dirigida pelo médico e ensaísta argentino de origem italiana José Ingenieros (1877-1925), um dos mais importantes intelectuais latino-americanos de sua geração. A revista Archivos, publicada em Buenos Aires de 1902 a 1913, ocupou um lugar central, como mostra Mailhe, no desenvolvimento da psiquiatria e da criminologia como áreas especializadas do conhecimento, não só na Argentina como em muitos países da América Latina, contribuindo para a formação de uma rede de contatos e de ideias no continente. Entre seus colaboradores, Archivos teve autores latino-americanos e europeus. Entre os primeiros, brasileiros como Evaristo de Moraes, Francisco Franco da Rocha e Raimundo Nina Rodrigues. Conforme esclarece a autora, a revista tinha, como principal objetivo, o “estudo científico dos homens anormais”, especialmente criminosos e dementes, com ênfase em concepções positivistas de começos do século XX, mas com aberturas para outros enfoques. Para o leitor brasileiro, é de especial interesse a abordagem de Mailhe sobre as contribuições de Nina Rodrigues a Archivos e as divergências entre o autor brasileiro e José Ingenieros. O artigo de Mailhe procura mostrar, também, como a revista contribuiu para um processo, ainda que “muito moderado”, de “latino-americanização” dos intelectuais argentinos.

Regina Crespo, no artigo seguinte, intitulado O México de Rodrigo Otávio e de Cyro dos Anjos: entre as atribuições do funcionário e o olhar do escritor, analisa os olhares dos dois intelectuais brasileiros sobre o México, a partir de suas experiências no país setentrional em atividades diplomáticas. Depois de breves considerações sobre autores brasileiros que escreveram sobre o México – como Ronald de Carvalho, Erico Verissimo e Vianna Moog –, Crespo dedica-se à análise dos textos que, sobre o México, escreveram dois outros escritores brasileiros: o jurista Rodrigo Otávio e o escritor e funcionário público Cyro dos Anjos. Otávio esteve no México algumas vezes, entre 1923 e 1926, nas quais atuou em missões diplomáticas. Cyro, por sua vez, viveu na Cidade do México três décadas depois, de 1953 a 1954, atuando como professor da cátedra de Estudos Brasileiros na Universidad Nacional Autónoma de México e, a serviço da Embaixada brasileira, dando palestras sobre o Brasil em várias cidades mexicanas. No caso de Rodrigo Otávio, a principal fonte de Crespo foi seu livro México e Peru, publicado em 1940, além de jornais mexicanos da década de 1920 e da correspondência diplomática. Para analisar a visão de Cyro dos Anjos sobre o país hispano-indígena, a autora também se utilizou, principalmente, da correspondência diplomática, além das cartas entre o romancista de Montes Claros e o conterrâneo mineiro Carlos Drummond de Andrade.

Carlos Cortez Minchillo, no artigo que fecha o dossiê – intitulado A América Latina de Erico Verissimo: vizinhança, fraternidade, fraturas –, aborda a presença da América Latina na obra e trajetória do escritor gaúcho Erico Verissimo, com ênfase no seu relato de viagem México, publicado em 1957, e no romance O senhor embaixador, de 1965. Como sustenta o autor, Verissimo pensou a América Latina tendo os Estados Unidos como contraponto, tanto em razão do contexto da Guerra Fria como da polarização do debate político nos países latino-americanos, particularmente após a vitória, em 1959, da Revolução Cubana. A contraposição entre a América Latina e os Estados Unidos deu-se, também, face à própria vivência pessoal e profissional de Erico nos Estados Unidos, como palestrante e professor visitante em universidades norte-americanas, em 1941 e 1943-1945, e como diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana, de 1953 a 1956 – períodos em que Verissimo ampliou sua sociabilidade intelectual não só com norte-americanos como também com vários hispano-americanos. Se nos anos 1940, no contexto da Segunda Guerra, Erico assumiu a defesa do pan-americanismo, na década seguinte, em plena Guerra Fria, o escritor brasileiro tornou-se cada vez mais crítico da política interna e, principalmente, da política externa dos Estados Unidos, e mais sensível às sociedades latino-americanas, suas culturas, histórias e problemas sociais. Carlos Minchillo mostra, entretanto, as ambiguidades das representações do “povo” latino-americano nessas duas obras de Erico. O artigo busca avaliar, ainda, a recepção das obras de Verissimo entre os anos de 1950 e 1970, assim como as possíveis implicações das posições políticas do autor, um social-democrata crítico tanto dos regimes ditatoriais de direita como dos regimes totalitários do Leste Europeu, naqueles anos polarizados e de intensos debates em torno do compromisso político dos escritores e intelectuais.

Esperamos que este dossiê de Varia Historia contribua com o crescimento do interesse pela História Intelectual Latino-Americana e para incrementar as pesquisas, o intercâmbio e a circulação de ideias entre pesquisadores brasileiros e hispano-americanos.

Notas

1. RAMA, Ángel. La ciudad letrada. Hanover, New Jersey: Ediciones del Norte, 1984. [ Links ] A primeira edição brasileira foi publicada no ano seguinte: A cidade das letras. São Paulo: Brasiliense, 1985. Vale lembrar que Rama teve fortes vínculos com a cultura e a literatura brasileiras, tendo ministrado aulas na Universidade de São Paulo, em 1974, em disciplina sob a responsabilidade de Antonio Candido, e retornado ao Brasil em 1980 e 1983, apenas dois meses antes do acidente aéreo que o vitimou. Cf. AGUIAR, Flávio; VASCONCELOS, Sandra G. T. (orgs.). Ángel Rama: literatura e cultura na América Latina. São Paulo: Edusp, 2001, p. 30-35.     [ Links ] 2. ALTAMIRANO, Carlos (dir.). Historia de los intelectuales en América Latina. Buenos Aires: Katz, 2008, p. 11.     [ Links ] 3. O Programa de História Intelectual esteve sob a direção de Oscar Terán até 2005, Carlos Altamirano até 2009 e, desde então, Adrián Gorelik. Em 2011, foi criado o Centro de História Intelectual da UNQ. Cf. http: / / www.unq.edu.ar / secciones / 243-centro-de-historia-intelectual-chi / . Acesso em: 15 set. 2014.

Kátia Gerab Baggio – Departamento de História. Universidade Federal de Minas Gerais.


BAGGIO, Kátia Gerab. Apresentação. Varia História, Belo Horizonte, v.30, n.54, set. / dez., 2014. Acessar publicação original [DR]

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The Fourth Revolution: The Global Race to Reinvent the State | John Micklethwait e Adrian Wooldridge

John Micklethwait and Adrian Wooldridge are categorical: Democracy is at crisis. Governments are overloaded and bloated. The average share of government spending in thirteen rich countries has climbed from 10% at the beginning of the XX century to around 47% nowadays. People have unreal expectations and contradictory demands. To win elections, politicians act irresponsibly by making false promises or by offering more benefits.  The vicious circle is quite clear. The more responsibilities the state assumes, the worse it performs and the angrier people get. And they react with even more demands. The same mechanism that allows democracy to function is leading it to a collapse. By listening to the general public and trying to cope with their expectation of what should be done, politicians are increasing spending, overstretching regulations and turning opposition ever more radical in the process. The combination of state’s inefficiency, political paralysis and people’s dissatisfaction feeds disbelief. For a political system that bases its legitimacy in representation and trust, that’s a very bad sign.

According to the authors, the Western world is living an apparent paradox. The state is on a mission to give people evermore of what they want. Yet, no one seems happier. America has gotten into a fiscal mess. The debt is rising while the government is stuck with gridlocks. Democracy everywhere faces cynicism. No one trusts politicians anymore. Just 17% of Americans say they trust the federal government and Congress has only 10% of approval rating. By contrast, 85% of the Chinese people approve their government’s decisions. Europe is also in trouble. As predicted by Milton Friedman, the monetary union is leading to political disunion. European Union accounts for 7% of the world’s population and 50% of its social spending. The moderates’ inability to solve problems is making the extremists gain popularity. Besides all, demography is against everybody. The aging of the populations will be an additional weight on overloaded societies. In short, the welfare fantasy is coming to an end and the state is going to start to take things away. Leia Mais

Revolução em Película: uma reflexão sobre a relação Cinema-História e a Guerra Civil Espanhola – QUINSANI (CTP)

QUINSANI, Rafael Hansen. A Revolução em Película: uma reflexão sobre a relação Cinema-História e a Guerra Civil Espanhola. São José dos Pinhas: Estronho, 2014. Resenha de: DOMINGOS, Charles Sidarta Machado. A Guerra contra o esquecimento da Guerra. Cadernos do Tempo Presente, São Cristóvão, n. 17, p. 74-78, set./out. 2014.

Tempo de mudanças substanciais na História da Humanidade, o Século XX foi um período repleto de disputas, sejam elas entre classes sociais, como a Revolução Russa, sejam elas de caráter ideológico, como a Guerra Fria. Se na primeira o socialismo saiu vencedor, ao forjar uma sociedade de modulações totalmente novas, na disputa da Guerra Fria o projeto de formação econômico-social capitalista sobressaiu-se em detrimento da proposta representada pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Esse Século XX foi claramente cortado em sua metade. O conflito de maiores proporções de destruição, morte e terror que ocorreu em todo o desenvolvimento humano foi a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Esse conflito foi tão peculiar, porque único, que foi capaz de alicerçar uma aliança entre a vencedora da Revolução de 1917 e o bastião maior do capitalismo, os Estados Unidos da América (EUA). Uniram-se, a despeito de tudo o que mais acreditavam, pelo objetivo de enfrentar e vencer o Nazismo. Ao impingirem a derrota militar às forças do Eixo permitiram que a História se desenvolvesse como hoje a conhecemos.

Mas a Segunda Guerra Mundial não foi de todo uma novidade na experiência histórica. Trazia, em seu bojo, reminiscências extremamente próximas de um conflito que também se fez militar, que também se fez ideológico e que – como tão bem se reportou o jornalista Herbert Matthews2– dizimou metade de um país. Esse conflito foi a Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

O “maior historiador nato de nosso tempo”,3 Eric Hobsbawm, afirma que “as disputas da década de 1930, travadas dentro dos Estados ou entre eles, eram portanto transnacionais. Em nenhuma parte isso foi mais evidente do que na Guerra Civil Espanhola de 1936-9, que se tornou a expressão exemplar desse confronto global”.4 Estavam em confronto, dentro do território espanhol, as forças que defendiam a República com seu projeto de um Estado laico, com desenvolvimento social, educação pública não confessional e reforma agrária versus o agrupamento de forças que tinha na Igreja Católica e no alto oficialato das Forças Armadas, com seu projeto de conservação social, de apoio aos latifundiários e de manutenção da ordem tradicional. O que conferia esse caráter transnacional e, porque não, de laboratório da Segunda Guerra Mundial, era o apoio dos fascistas, com seus mais de 70 mil soldados italianos e dos mais de 40 mil membros das Brigadas Internacionais, oriundos de 53 países, dentre eles a URSS, os EUA, a França, e inclusive do Brasil.

Mas as novas gerações, principalmente fora da Espanha, mas não só, quase não sabem disso, como atesta Eric Hobsbawm: “Hoje parece pertencer a um passado pré-histórico, mesmo na Espanha”.5 Passados pouco mais de 75 anos do conflito, vivemos “uma era de esquecimento”,6 um tempo no qual a experiência histórica parece estar perdendo o seu valor. Vivemos imersos no presente, reféns do imediatismo em todos os tipos de relações, até mesmo com nossa consciência. E isso representa um perigo, pois, se o passado deixa de ser um ponto de reflexão, o mesmo pode ocorrer ao futuro e, com isso, podemos perder a capacidade de perseguir projetos de vida, sociais ou individuais.

Mesmo em plena era de esquecimento, ainda há possibilidades de lembrança. E uma das mais eficientes se dá pela arte, em especial aquela que é a expressão artística por excelência do Século XX: o Cinema. Ao associá-lo com a História, temos, então, uma poderosa ferramenta de análise. É o que acontece no livro A Revolução em Película,7 do historiador Rafael Hansen Quinsani.

Nessa obra, o autor parte da premissa de que “nossa função [dos historiadores] continua sendo lembrar e tornar inteligível o que muitos (propositalmente ou não) esquecem.8 Quinsani, desse modo, demonstra a mesma preocupação de Judt, quer seja, combater o esquecimento, trazer a História para o centro da vida social. E ele faz isso com muita competência.

O livro está organizado a partir de uma Introdução ao tema, seguido de um capítulo teórico-metodológico intitulado Cinema-História. Na introdução, é realizada uma rápida historicização do Cinema. Em seguida, é evidenciado a forma como serão analisados os filmes elegidos para o estudo, todos relacionados com a Guerra Civil Espanhola. A introdução ainda traz uma importante reconstituição do conflito, a partir de suas bases materiais e ideológicas. No capítulo primeiro, é elaborada uma densa e consistente reflexão teórica-metodológica. A partir das noções de imagem, representação e ideologia, Rafael Hansen Quinsani perscruta o desenvolvimento da História ao longo do Século XX. Para tanto, toma mão de autores consagrados, como Marc Ferro, Roger Chartier e Michel Vovelle.

No capítulo intitulado Primeira Projeção: !Ay, Carmela! Arte, Guerra e o Início do Debate é abordado o filme !Ay, Carmela!, do diretor espanhol Carlos Saura, produzido em 1990. Além do filme, esse capítulo traz outras fontes que foram muito bem trabalhadas pelo autor, como algumas canções da época da Guerra Civil Espanhola e a peça de teatro homônima de autoria de José Sanchis Sinisterra. Essa triangulação de fontes produz um capítulo muito rico em termos de História da Cultura, pois Quinsani realiza, de forma acurada, a crítica externa e interna dos documentos escolhidos, realizando, inclusive, um debate muito interessante sobre a adaptação da literatura para o cinema.

O filme traz o impacto que os soldados italianos do regime fascista de Mussolini causaram na Guerra Civil Espanhola. Realiza uma potente crítica ao fascismo, ao demonstrar como os soldados italianos transformaram uma escola em prisão! E realiza, através da analise do autor, uma síntese da sociedade espanhola do período a partir de seus personagens principais:  Os três personagens acabam compondo um só personagem que, no seu somatório de características, simboliza a Espanha daquele contexto. Carmela é o lado emotivo, sentimental, preocupado com os outros e direta em suas declarações, representa os combatentes e os simpatizantes da República, Paulino está disposto a sobreviver a qualquer custo, maleável a diferentes contextos, propício a se adaptar às exigências nacionalistas, e Gustavette é a jovem geração, silenciada pelas bombas, pelo terror já presente e que se estenderá sob os anos do Franquismo.9 Ainda é realizada pelo autor uma associação entre a personagem Carmela com as distintas representações da República, em especial com uma tela muita estimada por mim, A Liberdade Guiando os Povos, de Delacroix. Embora as batalhas típicas do conflito militarizado não estejam presentes na película, fica muito patente a forma pela qual a vida das pessoas foi modificada durante o conflito. E, mais além, como se deu a relação da cultura sob o regime de Franco.

A Segunda Projeção: Terra e Liberdade, o enfoque estrangeiro: as disputas e conflitos no interior do processo revolucionário, trabalha com o filme Terra e Liberdade, do cineasta britânico Ken Loach. É nessa película, de 1995, que fica mais em evidência o caráter internacional do conflito, “uma versão em miniatura de uma guerra europeia” de acordo com Hobsbawm.X A composição das Brigadas Internacionais, o apoio intensivo de Hitler e Mussolini aos nacionalistas espanhóis, o apoio e os limites estratégicos impostos por Stálin bem como a política de apaziguamento, para não dizer total omissão, do governo de Frente Popular de Léon Blum na França estão presentes nas análises feitas pelo autor.

Assim como no capítulo anterior, neste, Rafael Hansen Quinsani analisa detalhadamente também uma fonte literária, o famoso Lutando na Espanha, de George Orwell – que, assim como Ernest Hemingway participou da Guerra Civil Espanhola. Há uma polêmica, destacada por Quinsani, a respeito de Terra e Liberdade ser ou não baseado no livro de Orwell. Mesmo assim, muitas são as semelhanças entre o livro e o filme, e elas são deslindadas com elegância nesse capítulo.

Neste capítulo há uma excelente análise de História Política, na qual o autor esmiúça as divergências entre os grupos que defendem a República, sejam eles anarquistas, membros do Partido Comunista ou trotskistas vinculados ao Partido Obrero de Unificación Marxista (POUM):  Outra cena que explicita claramente a fragmentação da esquerda e faz uma crítica à centralização e à stalinização é aquela em que David, após deixar as milícias, ingressa no exército e acaba envolvido num combate com anarquistas durante os “eventos de maio de 1937”. No filme todo o contexto e os debates são sintetizados e condensados na cena em que anarquistas e comunistas estão frente a frente nos telhados de prédios vizinhos. Entre tiros esparsos e insultos mútuos, os referenciais históricos de cada grupo se fazem presente: “– Você deveria estar matando fascistas e não outros. –Ei, você, o sócio de Stalin. Em que divisão estava você? – A divisão de Karl Marx. E você é da Terceira Divisão? – Não, seu bastardo. Somos da Divisão de Durruti, o melhor”.XI  Na Terceira Projeção: Libertárias. As milícias, o papel das mulheres e o auge do debate, a obra analisada é o filme Libertárias, do diretor Vicente Aranda, realizado quase simultaneamente ao filme de Ken Loach. O centro da análise empreendida por Quinsani é o protagonismo das mulheres na Guerra Civil Espanhola e no Cinema. Para tanto, o autor realiza uma eficiente síntese abarcando as décadas de 30 a 70 do século passado. Em relação a Guerra Civil, é elaborado um histórico sobre a emancipação feminina a partir da organização Mulheres Livres, fundada no mesmo ano em que o conflito se iniciou. Além disso, a análise remete a representação das mulheres protagonistas do filme:  O mérito do filme de Aranda é fugir da dicotomia puta-miliciana presente no imaginário espanhol e inserir no front de batalhas personagens complexas e dotadas de diferentes visões de vida. Maria representa a mulher pura que aos poucos vai descobrindo elementos que estiveram ausentes em sua vida reclusa. Charo é uma prostituta que decide mudar de vida e é influenciada pelos valores anarquistas. Pilar é uma revolucionária determinada. Floren mistura sua ideologia anarquista com um espiritismo peculiar.XII  Nesse capítulo, ainda são abordados o papel recalcitrante exercido na Espanha “por uma Igreja Católica que rejeitava tudo o que aconteceu no mundo desde Martinho Lutero”XIII e a dimensão do anarquista Buenaventura Durruti, para a Guerra Civil Espanhola.

Na conclusão, o autor compara os três filmes analisados. Para tanto, faz uso da aplicação do seu método histórico-cinematográfico, uma inédita – e sofisticada – classificação elaborada a partir de uma dedicada leitura da obra de Marc Ferro.

A riqueza da análise presente nesse livro demonstra um autor seguro sobre seu objeto de pesquisa. Além da apreciação de elementos cênicos – que muitas vezes passam despercebidos por espectadores menos atentos – passando pelo movimento das câmeras, até chegar a crítica externa das fontes, o que temos em mão é uma aula de História. E o melhor: uma aula ilustrada, pois o livro conta em seus três capítulos de análise, com 119 imagens reproduzidas dos filmes analisados, o que configura como uma das grandes jogadas desse livro, pois quando o autor se reporta a determinada passagem de um dos filmes analisados, na sequencia é possível conferir quase como se estivéssemos no Cinema.

A concepção de História de Quinsani está em consonância com Eric Hobsbawm para quem “o ofício dos historiadores é lembrar o que os outros esquecem”XIV e com Tony Judt, quando adverte à nossa sociedade de que “de todas as nossas ilusões contemporâneas a mais perigosa é a ideia de que vivemos em um tempo sem precedentes”XV. Ao analisar o filme de Ken Loach, o autor foi capaz de ler “que o filme busca educar às novas gerações e alertá-las do perigo do esquecimento”.XVI Pois bem, A Revolução em Película também cumpre esse papel.

Notas

2 MATTHEWS, Herbert. Metade da Espanha morreu: uma reavaliação da Guerra Civil Espanhola. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.

3 JUDT, Tony. Reflexões sobre um Século Esquecido (1901-2000). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 149. Judt também observa que Hobsbawm é o “historiador mais conhecido do mundo”. Idem, p. 137.

4 HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos – O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 157.

5 Idem, p. 161.

6 JUDT, op.cit., p. 13.

7 QUINSANI, Rafael Hansen. A Revolução em Película: uma reflexão sobre a relação Cinema-História e a Guerra Civil Espanhola. São José dos Pinhas: Estronho, 2014.

8 Idem, p. 10. Interpolações minhas.

9 Idem, p. 77.

10 HOBSBAWM, op.cit., p. 162.

11 QUINSANI, op.cit., p. 109.

12 Idem, p. 144.

13 HOBSBAWM, op.cit., p. 158.

14 Idem, p. 13.

15 JUDT, op.cit., p. 32-33.

16 QUINSANI, op.cit., p. 112.

Referências

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos – O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

JUDT, Tony. Reflexões sobre um Século Esquecido (1901-2000). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

MATTHEWS, Herbert. Metade da Espanha morreu: uma reavaliação da Guerra Civil Espanhola. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.

QUINSANI, Rafael Hansen. A Revolução em Película: uma reflexão sobre a relação Cinema-História e a Guerra Civil Espanhola. São José dos Pinhas: Estronho, 2014.

Charles Sidarta Machado Domingos – Doutor em História pela UFRGS. Professor DIII-3 do IFSUL – Câmpus Charqueadas.

Acesso à publicação original

A democracia na América: sentimentos e opiniões. De uma profusão de sentimentos e opiniões que o estado social democrático fez nascer entre os americanos – TOCQUEVILLE (CTP)

TOCQUEVILLE, A. de. A democracia na América: sentimentos e opiniões. De uma profusão de sentimentos e opiniões que o estado social democrático fez nascer entre os americanos. São Paulo: Martins Fontes, 2004. Resenha de: SOUZA, Clotildes Farias de. Associativismo voluntário, uma categoria central no pensamento de  Alexis de Tocqueville. Cadernos do Tempo Presente, São Cristóvão, n. 17, p. 79-82, set./out. 2014.

A noção de associativismo voluntário foi apresentada por Alexis de Tocqueville2 na célebre obra “A Democracia na América”, escrita no ano de 1832, quando o autor retornara à França, depois de nove meses de estadia nos Estados Unidos da América em busca de informações sobre o sistema prisional e sobre a realidade política e cultural daquele país.3 Em que pese a importância da totalidade da obra para compreensão das idéias tocquevilianas sobre a democracia e os princípios de igualdade e liberdade inerentes que determinam o desenvolvimento sócio-político dos países europeus em comparação com os Estados Unidos da América, salienta-se aqui as idéias acerca do associativismo voluntário a partir do segundo volume da clássica obra.

Membro da nobreza francesa, Alexis de Tocqueville nasceu em Paris em 1805 e tinha menos de trinta anos quando escreveu o texto que marcaria a sua trajetória intelectual, ainda profundamente focado nas observações realizadas sobre a vida americana. O primeiro volume da sua principal obra foi publicado em 1835, com o subtítulo “leis e costumes”, contendo muitas impressões e interpretações acerca das diferenças constatadas entre o modelo norte-americano de sociedade e os padrões aristocráticos europeus.4 O segundo volume de “A Democracia na América” é de 1840 e tem como subtítulo “sentimentos e opiniões”; nele o autor reflete mais a própria natureza da democracia como modelo político, tratando do associativismo voluntário especificamente.

O associativismo voluntário ocupa lugar especial no segundo volume do livro que se apresenta dividido em quatro partes. A primeira parte trata da “Influência da democracia no movimento intelectual dos Estados Unidos” e a segunda parte é dedicada ao estudo de “A influência da democracia sobre os sentimentos dos americanos”. A terceira parte do livro aborda a “Influência da democracia sobre os costumes propriamente ditos” e a quarta parte trata “Da influência que as ideias e os sentimentos democráticos exercem sobre a sociedade política”. Encontra-se na segunda parte do livro o tema do associativismo, desenvolvido em quatro capítulos intitulados: 1. Como os americanos combatem o individualismo por meio de instituições livres; 2. Do uso que os americanos fazem da associação na vida civil; 3. Da relação entre as associações e os jornais; 4. Relações entre associações civis e associações políticas. Na quarta parte do livro ainda é encontrado um capítulo diretamente voltado ao tema, intitulado “A igualdade dá naturalmente aos homens o gosto pelas instituições livres”.

O conteúdo do livro evidencia o fato do associativismo voluntário ser uma noção central em Tocqueville, caracterizada como a força da democracia pelas oportunidades políticas que gera para os cidadãos reunidos em torno de um interesse geral. O espírito do associativismo expressa a liberdade política dos americanos que participam efetivamente do processo de elaboração das leis e da sua aplicação, organizados em instituições livres criadas na sociedade civil e voltadas para tomada de decisão sobre as questões banais do cotidiano e as mais relevantes questões da nação. Trata-se de uma tradição, de um hábito ou simplesmente de uma crença capaz de politizar a sociedade civil, tão importante quanto à legislação e mais importante que as condições geográficas favoráveis a democracia norte-americana.

Os americanos de todas as idades, de todas as condições, de todos os espíritos, se unem sem cessar. Não apenas têm associações comerciais e industriais de que todos participam, mas possuem além dessas mil outras: religiosas, morais, graves, fúteis, muito gerais e muito particulares, imensas e minúsculas; os americanos se associam para dar festas, fundar seminários, construir albergues, erguer igrejas, difundir livros, enviar missionários aos antípodas; criam dessa maneira hospitais, prisões, escolas. Enfim, sempre que se trata de pôr em evidência uma verdade ou desenvolver um sentimento com o apoio de um grande exemplo, eles se associam.5

A força das associações voluntárias no dia a dia da vida americana chega a ser uma lei mais extensiva que a do Estado aos olhos tocquevillianos; é a lei do autogoverno que orienta os americanos no sentido da conquista dos próprios objetivos. É a primeira lei da democracia que faz o povo americano sentir a coisa pública como sua e de todos, assim como a defender a igualdade porque assim os homens permanecem ou se tornam civilizados.

Quando os cidadãos são forçados a se ocupar dos negócios públicos, são necessariamente tirados do meio de seus interesses individuais e arrancados, de tempo em tempo, à visão de si mesmos. Quando o público governa, não há homem que não sinta o preço da benemerência pública e que não procure cativá-la, atraindo a estima e a afeição daqueles em meio dos quais tem de viver.6

Do movimento associativista fazem parte as associações políticas com a importante função de ensinar os homens a agirem cooperativamente em vista do bem-comum, gratuitamente, sem comprometimento do patrimônio particular. As associações políticas são instituições que cumprem a função de “[…] grandes escolas gratuitas, onde todos os cidadãos aprendem a teoria geral das associações”.7  Às sociedades políticas impõem-se limites para garantia da paz e do respeito às leis, dado o perigo da liberdade à democracia; ao direito dos cidadãos de se reunirem não pode haver restrições. Não há motivos para temer as sociedades políticas porque ao tempo em que exercem controle são também controladas pela própria sociedade civil que está subordinada a centralização governamental do Estado, ainda que livre da burocratização da administração pública. Em geral, nas associações políticas são renovados os sentimentos e as idéias tão necessários ao desenvolvimento humano; a liberdade e a civilização são garantidas em tais instituições porque a união dos membros que se encontravam separados inibe o individualismo ameaçador imposto pela igualdade de condições.

As instituições livres que os habitantes dos Estados Unidos possuem e os direitos políticos de que fazem tanto uso recordam sem cessar, e de mil maneiras, a cada cidadão, que ele vive em sociedade. Trazem a todo instante seu espírito à idéia de que o dever, tanto quanto o interesse dos homens, é tornarem-se úteis a seus semelhantes e como não vê nenhum motivo particular para odiá-los, já que nunca é nem seu escravo nem seu amo, seu coração se inclina facilmente para a benevolência.8  Justamente na capacidade de congregação reside a força de uma associação porque ali se consegue manter a relação de reciprocidade entre os homens tão necessária à democracia. Ali está o potencial de comunicação entre os membros da sociedade porque há instrumentos que representam as instituições e são criados para o exercício da liberdade de expressão; instrumentos como os jornais, por exemplo, os quais proporcionam a fala de uma só vez a todos aqueles que não se vêem ou se juntam diariamente, transmitindo simultaneamente os sentimentos ou ideais que estariam dispersos em cada individuo.

Acerca do associativismo voluntário de Alexis de Tocqueville resta afirmar que é uma categoria de análise bastante profícua para se pensar a cultura norte-americana e também outras formas de organização social e institucional em contextos históricos variados. É uma noção útil aos estudos comparados de modelos internacionais que foram apropriados pelos brasileiros, inclusive de modelos educacionais cujas representações históricas e culturais requerem observações específicas para reconhecimento e compreensão das analogias e diferenças existentes entre os diferentes fenômenos analisados.

Notas

2 TOCQUEVILLE, A. de. A democracia na América: sentimentos e opiniões. De uma profusão de sentimentos e opiniões que o estado social democrático fez nascer entre os americanos. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

3 BASTOS, M. H. C. ARRIADA, E. A democracia na América, de Alexis de Tocqueville: uma leitura para a história da educação. Revista Educação Unisinos, 11(1), n. 1, p. 5-14, jan.-abr. 2007. Disponível em <http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAmWoAI/a-democracia-na-america-alexis-tocqueville-leitura-a-historia-educacao>. Acesso em: 10 de fevereiro de 2012.

4 BEIRED, J. L. B. Tocqueville, Sarmiento e Alberdi: três visões sobre a democracia nas Américas. Revista História [online], vol.22, n.2, p. 59-78, 2003. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n15/a06n15.pdf. Acesso em: 17 de julho de 2014.

6TOCQUEVILLE, A. de. A democracia na América: sentimentos e opiniões. De uma profusão de sentimentos e opiniões que o estado social democrático fez nascer entre os americanos. São Paulo: Martins Fontes, 2004, p. 131.

6 Idem, p. 124.

7 Idem, p. 143.

8 Idem, p. 129.

Referências

TOCQUEVILLE, A. de. A democracia na América: sentimentos e opiniões. De uma profusão de sentimentos e opiniões que o estado social democrático fez nascer entre os americanos. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

BASTOS, M. H. C. ARRIADA, E. A democracia na América, de Alexis de Tocqueville: uma leitura para a história da educação. Revista Educação Unisinos, 11(1), n. 1, p. 5-14, jan.-abr. 2007.

BEIRED, J. L. B. Tocqueville, Sarmiento e Alberdi: três visões sobre a democracia nas Américas. Revista História [online], vol.22, n.2, p. 59-78, 2003. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n15/a06n15.pdf. Acesso em: 17 de julho de 2014.

Clotildes Farias de Sousa – Mestre em Educação pela Universidade Federal de Sergipe-UFS. Coordenadora Pedagógica do Centro de Educação Superior a Distância – UFS. E-mail: [email protected].

Acesso à publicação original

A novela História do Predestinado Peregrino e de seu irmão Precito (1682): compêndio dos saberes antropológicos e psicológicos dos jesuítas no Brasil Colonial – MASSIMI (HU)

MASSIMI, M. (org.). A novela História do Predestinado Peregrino e de seu irmão Precito (1682): compêndio dos saberes antropológicos e psicológicos dos jesuítas no Brasil Colonial. São Paulo: Edições Loyola, 2012. 298 p. Resenha de: DILLMANN, Mauro. Literatura religiosa e jesuítas no Brasil Colonial. História Unisinos 18(3):645-648, Setembro/Dezembro 2014.

O livro aqui resenhado é uma análise psicológica – mas também histórica – da obra História do Predestinado Peregrino e de seu Irmão Precito escrita pelo padre jesuíta Alexandre de Gusmão2 (1629-1725) e publicada inicialmente em 1682.

Organizado por Marina Massimi, professora titular do Departamento de Psicologia da USP, a obra conta com sete textos, incluindo uma grande introdução escrita pela própria organizadora, quatro textos desta em coautoria com “jovens pesquisadoras” – três alunas do curso de Psicologia da USP, Lidiane Ferreira Panazzolo, Nayara Aparecida Saran e Lívia Tieri Kuga –, com uma mestre em Psicologia pela mesma Universidade – Maira Allucham Gulart Naves Trevisan Vasconcellos – e, por fim, um texto de um pós-doutorando em Cultura Contemporânea na UFRJ – José Eduardo Ferreira Santos.

A literatura investigada é uma novela do padre Gusmão que aborda a peregrinação de dois personagens, um chamado Predestinado e outro chamado Precito, que escolhem diferentes caminhos, percursos de vida, representados, respectivamente, pela viagem do Egito a Jerusalém (o paraíso, a salvação) ou do Egito à Babilônia (o inferno, a condenação), procurando demonstrar metaforicamente que a peregrinação representa o próprio percurso existencial e as escolhas de cada sujeito ao longo da vida.

Esta novela do padre Gusmão – dedicada ao peregrino e missionário Francisco Xavier Apóstolo do Oriente (1506-1552) – se configura, segundo Massimi (2012, p. 52), enquanto um compêndio da visão antropológica e dos saberes psicológicos elaborados pela Companhia de Jesus na América Portuguesa, cujo enredo é a peregrinação como figura alegórica da vida. Os dois personagens, Predestinado e Precito, aspirando à felicidade, iniciam sua peregrinação; o primeiro em direção a Jerusalém, em busca da salvação, segue com sua esposa, a Razão, com a qual tem dois filhos, Reta Intenção e Bom Desejo; o segundo segue em direção à Babilônia, em busca de satisfações materiais, com sua esposa Própria Vontade e seus filhos, Mau Desejo e Torta Intenção. A intenção de Gusmão, segundo Massimi e Panazollo (in Massimi, 2012, p. 203), ao intitular seu livro como a história de um Peregrino, servindo aos propósitos contrarreformistas, era a de recuperar fiéis perdidos, no sentido de atrair leitores, uma vez que alguns anos antes, em 1678, John Bunyan, um autor protestante, publicou O Peregrino.

Podemos incluir o livro de Gusmão, analisado por Massimi e outros, na categoria que chamamos “manuais de devoção”, obras da literatura religiosa moderna destinadas a difundir a doutrina cristã e os modelos de comportamento moral esperados para a vida virtuosa, a boa morte e a salvação da alma. Em um dos textos (O percurso de Predestinado Peregrino: encontros, lugares e imagens edificantes na História de Alexandre de Gusmão) do livro, as autoras, Lidiane Ferreira Panazzolo e Marina Massimi, reconhecem a obra do padre como “uma espécie de manual de conduta provavelmente utilizado nos colégios jesuítas” (p. 204). Na conclusão deste artigo, as autoras destacam que “havia poucos exemplares originais do livro”.

Pude constatar, em um prévio levantamento nos catálogos de arquivos de Portugal e do Brasil, a existência de edições de 1682, 1685 e 1728. Na Biblioteca Nacional de Portugal, constam três exemplares de 1682, formato livreto de mão, como quase todos manuais de devoção do final do século XVII e do século XVIII, com 15 cm, impresso na oficina Miguel Deslandes; quatro exemplares microfilmados da edição de 1685, publicada pela oficina da Universidade de Évora, e um exemplar de 1728, indicando ser de quarta edição, impresso à custa do mercador de livros Domingos Gonçalves na oficina de Felippe de Sousa Villela. Por esta mesma oficina e mesma edição, existem exemplares na Biblioteca Joanina, em Coimbra, e na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, indicando ainda pertencer à Coleção da Real Biblioteca, o que demonstra o sucesso da obra no período e a circularidade da mesma entre a América Portuguesa.3 Além da interessante análise psicológica com enfoque histórico, o livro tem o mérito de apresentar a íntegra da obra analisada, transcrita com português atualizado, facilitando o acesso e a consulta deste documento para outros pesquisadores e interessados em geral. Além disso, as autoras “traduziram” o texto do padre Gusmão em dois interessantes anexos para a compreensão do texto.

Um deles é uma árvore genealógica dos personagens, o outro são dois mapas com descrições, rabiscos, setas e desenhos literalmente feitos de modo manuscrito, esquematizando a peregrinação de cada um dos personagens.

Ainda que uma estratégia didática e criativa das autoras, tal espécie de “mapa conceitual” poderia ter sido feita com melhores recursos gráficos, podendo manter a mesma diagramação do manuscrito, a fim de apresentar ao leitor uma melhor compreensão e leitura analítica.

Na construção da novela, em que Gusmão aborda a prática da peregrinação como a busca de um sentido de vida, as autoras identificam influências de Inácio de Loyola (Exercícios espirituais) e de Antônio Vieira (sermão Undécimo do seu dia). Loyola estaria presente no exemplo do uso pedagógico que fez de imagens para veicular a mensagem cristã e para agir na subjetividade do leitor, especialmente na memória e na imaginação, de modo a facilitar a meditação (Massimi, 2012, p. 24). Já Vieira destacaria o mundo em que se anda, a peregrinação, designando-a como “aquisição de experiência da qual se tira um ensinamento, uma moral”, diferenciando-a do desterro, um simples caminhar sem aprendizagem alguma (Saran e Massimi in Massimi, 2012, p. 222-223).

A obra do padre Gusmão foi entendida como uma “metáfora da existência humana”, imagem muito empregada no período moderno para “comunicar conceitos”, pois as alegorias atuavam como “dispositivos retóricos” (palavras eficazes na ação do dinamismo psíquico dos destinatários) capazes de provocar atividades sensitivas e imaginativas (Massimi, 2012, p. 18, 23, 28). O uso destas alegorias, metáforas e recursos retóricos estaria de acordo com a pretensão do padre de “mover a curiosidade do leitor”, muito comum nas obras devotas do período moderno.

Essa “novela alegórica” estabelece uma relação de diálogo com o leitor, enquanto manual de instrução para ser (re)lido inúmeras vezes, que exemplifica os “requisitos para chegar à salvação” com suas dificuldades e riscos, tornando-se “mais próxima da vivência dos leitores” (Panazzolo e Massimi in Massimi, 2012, p. 207). A eficácia da proposta apresentada pelo padre estaria na disposição do leitor e na importância que o mesmo atribuiria à leitura (passatempo ou proveito), de modo que somente a leitura “para proveito” seria de grande “lição espiritual” (Massimi, 2012, p. 46).

O livro organizado por Massimi é uma contribuição à História do Brasil, especialmente à historiografia do período colonial, por considerar e interpretar a sensibilidade religiosa jesuíta no contexto de expansão da moral tridentina e da retórica dual barroca (paraíso-inferno, salvação-condenação, verdade-mentira, bem-mal), bem como as práticas de leitura dos manuais de devoção e sua circulação pela América Portuguesa, como se percebe, sobretudo, nos elucidativos textos de Marina Massimi (Texto introdutório) e de Nayara Aparecida Saran e Massimi (A peregrinação como percurso anímico: o percurso da Palavra e do Entendimento). No entanto, não há muitas referências ou exploração do contexto colonial em si, sobretudo em relação aos aspectos sociopolíticos, econômicos ou culturais da Colônia, das cidades por onde possivelmente o texto tenha circulado, como Salvador, Rio de Janeiro e Recife. Além disso, é possível dizer que os primeiros textos do item “Leituras da novela à luz da história dos saberes psicológicos e da história da cultura”, destacado no sumário, são construídos com repetição dos argumentos, que podem ser encarados como reforço intencional na análise da obra de Gusmão.

Na análise que empreendem do manual do padre Alexandre de Gusmão, o objetivo parece ser plenamente alcançado, qual seja, o de destacar a pretensão do manual de “evidenciar a importância do cuidado de si” e os “efeitos do descuido”, enfatizando o “conhecimento da pessoa e prática de orientação” do sujeito (Massimi, 2012, p. 34). É nesse sentido que, ao longo de todos os textos, os autores enfatizam a importância atribuída pelo padre Gusmão ao processo do desengano, que implicava o uso consciente da razão, à confiança na razão para atingir um entendimento considerado verdadeiro da realidade e para ordenar a vontade,4 levando ao discernimento. Esse processo de desengano seria facilitado na prática do exame de consciência e nas demais práticas religiosas, como a confissão, já que eram acompanhadas de recursos culturais como imagens sagradas, pinturas, músicas, etc.5 Na novela de Gusmão, “Desengano” seria um personagem que “fixa os olhos na verdade” (Massimi, 2012, p. 42, 48), e o desenganado seria aquele que reconhecesse a enganação do mundo, que conseguisse visualizar as virtudes do céu desvinculando-as das aparências e prazeres imediatos do mundo terreno (Saran e Massimi in Massimi, 2012, p. 230).

No artigo A experiência corporal na História do Predestinado Peregrino e de seu irmão Precito, a relação corpo e alma foi abordada por Lívia Tieri Kuga e Marina Massimi para enfatizar as metáforas do corpo que remetem aos sentimentos dos personagens (coração, olhos, carne, vestimentas/trajes e corpo/alma), baseadas na filosofia clássica e escolástica (Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino), de modo a demonstrar que as escolhas feitas em vida modificam não apenas o espírito, mas também o corpo de cada um. As autoras elaboraram um interessante índice ao final do capítulo, na medida em que referenciaram todas as expressões, metafóricas ou não, em que aparecem as estruturas corporais, como, por exemplo, “coração a ouvir”, “disse em seu coração”, “coração humilde”, etc.

Esse vínculo corpo/alma aparece ao longo dos textos que compõem o livro. Massimi destacou as “dimensões do dinamismo” do sujeito que seriam o corporal, o psíquico e o espiritual. O corporal estava no “gesto físico de peregrinar”, cujo movimento se vinculava aos estudos dos corpos e às teorias médicas acerca dos temperamentos.

O espiritual, o “núcleo temático central da novela”, uma vez que a leitura implicaria “envolvimento” e atitudes espirituais como a devoção – o apelo ao “devoto leitor” – estava no aprendizado de virtudes divinas, como a piedade, a obediência e a perseverança. Por fim, o dinamismo psíquico relacionava-se ao “funcionamento das potências da alma, suas operações, suas doenças e seus remédios”. As potências principais eram o entendimento e a vontade, cujo cultivo era de fundamental importância para o “bem viver” e para identificar as “enfermidades” da alma (Massimi, 2012, p. 34-37).

Massimi destaca que, no século XVIII, foi comum a presença do médico espiritual para a ordenação da vida pessoal dos fiéis, a partir da obra de Cláudio Acquaviva (1543-1615), Normas para a cura das enfermidades do ânimo (1600), que definiu os “vários tipos de doenças espirituais e de remédios para cada doença”; daí, então, o rótulo de medicina da alma muito recorrente na literatura jesuíta.

A atuação jesuíta, aliás, estaria vinculada à medicina do ânimo, à pregação e à pedagogia. Por “medicina da alma” a autora entende “um conhecimento do ser humano e de sua dinâmica psicológica que visa à adaptação deste ao contexto social de inserção” (Massimi, 2012, p. 50).

Marina Massimi assina outro texto com Maira Allucham Goulart Naves Trevisan Vasconcellos, que analisa outra obra que trata de peregrinação. Trata-se do Compêndio narrativo do Peregrino da América, escrito pelo padre Nuno Marques Pereira (1652-1728) e publicado em 1728.6 As autoras indicam a “grande circulação” e as várias reimpressões do manual do padre Pereira, nos anos de 1731, 1752, 1760 e 1765, mas não indicam quaisquer informações sobre os arquivos em que se encontram.7 No entanto, destacam que utilizam a sexta edição, publicada pela Academia Brasileira de Letras em 1939. A novela de  Pereira conta a viagem de um peregrino da Bahia a Minas Gerais no início do século XVIII. O Compêndio teria a finalidade de instruir e divertir o leitor por meio de contos e instruções de “como se deve viver para manter corpo e alma saudáveis e salváveis” (Vasconcelos e Massimi in Massimi, 2012, p. 263). Para persuadir quanto aos preceitos de bem viver, Nuno Pereira buscava seus argumentos na Sagrada Escritura, em São João Crisóstomo e em Santo Agostinho.

Tal como a novela de Gusmão, a peregrinação é tanto o percurso geográfico percorrido pelo personagem principal – o Ancião – quanto o caminho existencial que conduz à eternidade (Vasconcelos e Massimi in Massimi, 2012, p. 267), no qual era oportunizado ao homem o conhecimento de si e o desenvolvimento de virtudes.

Vale uma descrição um pouco mais apurada sobre a obra de Nuno Pereira – embora ocupe apenas um artigo do livro – para demonstrar a proposta do livro, que é a de apresentar os saberes dos jesuítas no Brasil Colonial. Se havia, no Compêndio, uma relação entre o bem viver e o bem morrer, da mesma forma havia doenças do corpo e da alma. A tristeza era um mal que, por exemplo, traria efeito na saúde do corpo, levando muitas vezes à morte súbita (uma má morte). As paixões eram empecilhos ao uso prudente da razão, e a demasiada tristeza levaria a doenças como lepra, sarnas, magreza, etc., cujos remédios variavam entre conversas, cheiros, ar do campo ou do mar e música. Aconselhava-se alimentação moderada, sono adequado, consumo de vinho, exercícios físicos, penitência, paciência, jejuns e disciplina. A salvação ou condenação da alma após a morte era determinada pela conduta na existência mundana (Vasconcelos e Massimi in Massimi, 2012, p. 271-278). O Compêndio, tal como A novela História, recebeu infl uência dos Exercícios espirituais de Inácio de Loyola e se apoiava nos escritos de Tomás de Kempis.8 O último artigo a integrar o livro organizado por Massimi é de José Eduardo Ferreira Santos (Peregrinos e viajantes: o homem em movimento, rumo ao destino, através da cultura popular e da música brasileira), um pequeno texto que, exceto por tratar de um tema em comum – a peregrinação, tomada genericamente como sinônimo de viagem e de romaria – destoa do objetivo geral da obra.

O texto de Santos busca identificar o peregrino/romeiro/ viajante na “cultura brasileira”, especialmente na música popular, o que é feito não sem algum juízo de valor, como ao se referir à canção “A triste partida”, de Luiz Gonzaga, destacando ser “muito famosa” e “belíssima”, que “revela uma das características mais complexas do homem moderno, que é a perda de suas raízes ocasionada pelas difíceis condições sociais” (Santos in Massimi, 2012, p. 288-289).

A obra organizada por Marina Massimi atinge plenamente os objetivos propostos, demonstrando a contribuição de autores da Companhia de Jesus no contexto luso-brasileiro da Idade Moderna para a “criação de formas, de métodos e de justificativas de um tipo de conhecimento da subjetividade e do comportamento humano” que deram origem à psicologia moderna (Massimi, 2012, p. 17).

Mesmo sem seguir uma perspectiva metodológica estritamente histórica, o livro é uma importante refl exão e contribuição à atual historiografia dedicada às práticas de leitura e à circulação, no Brasil, de obras religiosas editadas e publicadas inicialmente em Portugal da época moderna, bem como voltada à análise dos discursos cristãos para instruir a vida devota, para conduzir o fiel no caminho do bem viver, para exemplificar as condutas morais que garantiriam uma boa morte e uma eternidade feliz.

Referências

DAVIS, N.Z. 2001. Histórias de Perdão e seus narradores na França do século XVI. São Paulo, Companhia das Letras, 300 p.

DELUMEAU, J. 1989. Nascimento e afirmação da Reforma. São Paulo, Pioneira, 301 p.

FLECK, E.C.D.; DILLMANN, M. 2013. Os sete pecados capitais e os processos de culpabilização em manuais de devoção do século XVIII. Topoi, 14(27):285-317.

FLECK, E.C.D.; DILLMANN, M. 2012. “A Vossa graça nos nossos sentimentos”: a devoção à Virgem como garantia da salvação das almas em um manual de devoção do século XVIII. Revista Brasileira de História, 32(63):83-118. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-01882012000100005 PERIER, A. 1724. Desengano dos pecadores, necessário a todo o gênero de pessoas, utilíssimo aos missionários e aos pregadores que só desejam a salvação das almas. Roma, Oficina Antônio Rossis na via do Seminário Romano, 439 p.

WITTMANN, R. 1999. Existe uma revolução da leitura no final do século XVIII? In: G. CAVALLO; R. CHARTIER (org.), História da leitura no mundo ocidental. São Paulo, Ática, vol. 2, p. 135-164.

Notas

2 Alexandre de Gusmão nasceu em Lisboa em 1629 (português, embora a autora se refira ao mesmo como “baiano” [p.18]), foi diretor do Colégio do Menino Jesus de Belém em Cachoeira do Campo, próximo a Salvador, na Bahia, local onde viveu e morreu em 1724. Foi autor de inúmeras outras obras sobre a “arte de viver”, como Arte de criar bem os filhos na idade da puerícia [1685]; Escola de Belém, Jesus nascido no Presépio [1678]; Menino Christão [1695]; Maria Rosa de Nazaret nas montanhas de Hebron, a Virgem nossa Senhora na Companhia de Jesus [1715]; Eleição entre o bem e o mal eterno, O corvo e a pomba da Arca de Noé no sentido alegórico e moral [1734] (Massimi, 2012, p. 18).

3 É possível conferir os catálogos on-line em: http://www.bnportugal.pt; http://www.uc.pt/bguc; http://www.bn.br/portal.

4 Considerando que o público leitor (e ouvinte) das obras manuais de devoção era, em grande medida, feminino, é importante considerar a observação feita pela historiadora Natalie Davis para as características atribuídas às mulheres na França do século XVI. Elas eram caracterizadas com o termo “imbecillité”, que designava “a fraqueza mental e de vontade” (Davis, 2001, p. 126). Sobre a difusão maior da leitura entre o público feminino e para as instruções voltadas às mulheres, ver Wittmann, 1999, p. 143; Fleck e Dillmann, 2012, e Eliane Cristina Deckmann Fleck, Mauro Dillmann. “Remédios para amansar a fera”: as regras para o bem viver e as orientações para os mal casados viverem em paz em um manual de devoção do século XVIII (texto inédito).

5 Reflexões sobre o “desengano” parecem ter sido foco comum de muitos jesuítas, principalmente daqueles dedicados à pregação e à conversão. Um exemplo interessante, nesse sentido, é a obra do jesuíta italiano Alexandre Perier, que no final do século XVII atuou no Brasil, publicando em Lisboa, no ano de 1724, um manual que leva no título a palavra “desengano”. Alexandre Perier, Desengano dos pecadores, necessário a todo o gênero de pessoas, utilíssimo aos missionários e aos pregadores que só desejam a salvação das almas. Roma: Oficina Antônio Rossis na via do Seminário Romano, 1724. Uma análise desta obra pode ser conferida em Fleck e Dillmann, 2013.

6 As autoras indicam a influência da obra de Gusmão em Nuno Marques Pereira, mas destacam que teria sido retomada “quase cem anos depois”, quando, na verdade, entre a primeira edição de História do Predestinado Peregrino [1682] de Gusmão, e o Compêndio [1728], de Pereira, não chegou a se passar meio século.

7 No catálogo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, foi possível localizar quatro exemplares, dois de 1760, um de 1767 e um de 1939. Todavia, a obra continuou sendo editada, considerando que no Acervo da Biblioteca da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – São Leopoldo/RS, existe edição de 1988 pela Academia Brasileira de Letras.

8 Tomás de Kempis (1379-1471) era alemão, autor da obra A imitação de Cristo, uma das que conheceu extraordinária difusão no início do período moderno, segundo Delumeau, e que recebeu impressão em diversas línguas, “umas sessenta vezes antes de 1500” (Delumeau, 1989, p. 77).

Mauro Dillmann – Doutor em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Professor Adjunto da Universidade Federal do Rio Grande. Campus São Lourenço do Sul Rua Marechal Floriano Peixoto, 2236, Centro 96170-000, São Lourenço do Sul, RS, Brasil. E-mail: [email protected].

Ética prática – SINGER (C)

SINGER, Peter. Ética prática. Trad. de Jefferson Luiz Camargo. 3. ed. São Paulo: M. Fontes, 2012. Resenha de: LEITE, William Wiltonn. Conjectura, Caxias do Sul, v. 19, n. 3, p. 229-232, set/dez, 2014.

O livro Ética prática está composto de um prefácio, 12 capítulos e um apêndice. Peter Singer, filósofo utilitarista nascido na Austrália, atualmente professor na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, expõe, inicialmente, em seu livro, o que não considera ética e o que pensa ser ética. Em seguida, conduz a uma exposição argumentativa sobre a aplicação prática de determinadas concepções éticas a alguns temas relevantes e polêmicos do momento histórico que vivemos. Singer confronta a ideia de uma singularidade atribuída à vida humana, principalmente quanto a uma interpretação como algo sagrado, que impeça que essa seja examinada em relação a si mesma, à vida dos outros seres vivos com que o homem compartilha esse momento no Planeta e ao próprio meio ambiente como um todo. Analisando várias concepções de condutas éticas, conclui por defender a ideia de um tipo de utilitarismo preferencial, não clássico, por estar baseado no princípio da igualdade na consideração dos interesses dos agentes envolvidos numa específica conduta ética.

Singer começa o Capítulo 1 referindo que os assuntos relacionados à sexualidade ou uma teoria bem-elaborada em um sistema ideal de grande nobreza na teoria, mas inaproveitável na prática ou que a religiosidade, o relativismo, e u subjetivismo não são questões éticas. Leia Mais

eifar, semear: a correspondência de Van Gogh – GODOY (C)

GODOY, Luciana Bertini. Ceifar, semear: a correspondência de Van Gogh. 2. ed. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2009. Resenha de: AFIUNE, Pepita de Souza Conjectura, Caxias do Sul, v. 19, n. 3, p.  224-228, set/dez, 2014.

A autora Luciana Bertini Godoy é graduada em Psicologia pela Universidade de São Paulo, Mestre em Psicologia Social e Doutora em Psicologia Social pela mesma universidade. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia da Arte do Instituto de Psicologia da USP, recebeu apoio da agência financiadora de pesquisas Fapesp.

Atua na área de Psicologia da Arte, realizando vastas pesquisas e desenvolvendo muitos frutos sobre a biografia e obras de Van Gogh. Leia Mais

A religião na sociedade urbana e pluralista – OLIVEIRA (C)

OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. A religião na sociedade urbana e pluralista. São Paulo: Paulus, 2013. Resenha de: KRINDGES, Sandra Maria. Conjectura, Caxias do Sul, v. 19, n. 3, p. 217-223, set/dez, 2014.

A religião na sociedade urbana e pluralista, de Manfredo Araújo de Oliveira, instiga-nos à reflexão acerca do lugar ocupado pelo fenômeno religioso nos tempos hodiernos, caracterizado como elemento imprescindível de análise para a compreensão do fenômeno da globalização. Esse não se reduz a transformações meramente na esfera econômica, mas de amplas e complexas transformações da realidade a partir do progresso tecnológico-científico e de sistemas de comunicação multifacetados, astutos e revolucionários para denominar o que ora se entende por era da informação e do conhecimento. O texto situa o leitor tanto nos aspetos tradicionais e históricos da ciência e da cultura, mas também e fundamentalmente, quanto à presença da religião ante os desafios da cultura contemporânea nesse contexto de modernidade tardia.

O texto divide-se em duas partes, sendo que na primeira o capítulo intitulado: “A religião no contexto sociocultural da modernidade tardia”, é subdivido em dois subcapítulos: o primeiro refere-se ao “Saber científico como determinante na sociedade contemporânea” e o segundo, “A presença da religião no novo contexto societário”. Nessa primeira parte, Oliveira aborda a cientificidade e seu determinismo na sociedade contemporânea e a religião inserida nesse contexto. Discorre a respeito das transformações no campo das ciências e das novas concepções de saber, e da racionalidade concebida como a possibilidade do homem de compreender o ser e a realidade em sua totalidade, a partir da compreensão ontológica do homem e do universo. Passa-se, porém, à era da tecnicização das ciências, caracterizando-se como um saber ou uma racionalidade instrumental. Leia Mais

América como ponto de inflexão e observação de experiências de escrita da História da Educação / Revista Brasileira de História da Educação / 2014

A historiografia da educação no Brasil tem afirmado uma preocupação crescente com a dimensão da circulação cultural. Um traço marcante que tem caracterizado os trabalhos na área se refere à análise dos regimes de referência que presidiram a produção e a disseminação de manuais de História da Educação, responsáveis por (re)ativar importantes circuitos culturais entre o Brasil e outras partes do mundo. Outro aspecto relevante diz respeito à análise da apropriação dos saberes e das representações veiculadas por esses manuais. Nessa linha, pretendemos esquadrinhar experiências de escrita elaboradas nos Estados Unidos, no Brasil e na Argentina – englobando sujeitos e temporalidades distintas – que lograram alcançar significativo sucesso editorial no país. Associado a esse objetivo, almeja-se também apreciar como as Américas comparecem nessas narrativas. A proposta está estruturada em quatro núcleos. O primeiro responde pelo objetivo de aquilatar a extensão e as representações do continente americano e dos Estados Unidos num determinado manual de ensino da História da Educação que circulou no Brasil no último século, com especial atenção para os modelos legitimados e os regimes de referência em que se amparou. Para esse efeito, selecionou-se para análise o textbook A Brief Course in the History of Education, de Paul Monroe, educador estadunidense. O segundo núcleo engloba adicionalmente a investigação acerca da circulação de pessoas, no caso autores de compêndios escolares de História e Filosofia da Educação. A lente procura focar os vínculos institucionais, as redes de sociabilidade, os pertencimentos teóricos e, precipuamente, a operação metodológica posta em prática por Thomas Ransom Giles – filósofo norte-americano estabelecido no Brasil – na escrita de seu livro História da Educação. Ao mesmo passo, trata-se de examinar as imagens de América emanadas e quais relações estabelecem acerca das experiências educativas nos Estados Unidos e no Brasil. O terceiro núcleo, composto por dois artigos, destina-se a analisar as condicionantes associadas à produção e circulação de História da Educação e da Pedagogia, manual escrito pelo pedagogo espanhol radicado na Argentina, Lorenzo Luzuriaga. Título que alcançou um considerável sucesso editorial e de aproveitamento nos cursos de formação de professores tanto no país platino quanto entre nós, essa obra, detentora de uma cosmovisão que bebe em tradições historiográficas ibéricas e sul-americanas, instiga a reflexão sobre o lugar reservado à América Latina nas narrativas que circularam na Argentina e no Brasil e as apropriações realizadas neste último quanto a manuais escolares estrangeiros, recortando para isso, notadamente, as inter-relações entre o mercado editorial, os cursos de formação docente e os dispositivos que estruturaram a disciplina História da Educação no país. Por fim, o dossiê apresenta uma tradução de artigo da historiadora norte-americana Kate Rousmanière, intitulado Historiography of American Education: Pragmatism, consensus, revisionism and new revisionism, o qual aborda os mais significativos temas de pesquisa e tendências apresentadas no periódico estadunidense The History of Education Quarterly, segundo a autora, o veículo que mais bem representa o estado do trabalho atual de história da educação nos Estados Unidos.

Em seu conjunto, portanto, as iniciativas aqui esboçadas lançam a questão de como os referentes europeu e americano aparecem nas diferentes experiências de escrita da História da Educação e como as traduções, a circulação e os usos de tais obras refletem estratégias de legitimação, difusão e apropriação internacional de tal saber.

Roni Cleber Dias de Menezes


MENEZES, Roni Cleber Dias de. Apresentação. Revista Brasileira de História da Educação. Maringá, v. 14, n. 3, set. / dez., 2014. Acessar publicação original [DR]

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Representações, práticas e políticas de escolarização da infância na zona rural / Revista História da Educação / 2014

Os estudos históricos acerca da educação primária, realizados nos últimos anos no Brasil, têm posto em relevo a importância da escola rural no processo de escolarização da infância durante o século 20. Apesar do descaso dos poderes públicos, da ausência de edifícios para escola e moradia dos professores, das condições adversas para o provimento e o trabalho docente, a infrequência contumaz dos alunos, o abandono escolar pelo trabalho na lavoura e a penúria material, a escola rural, localizada nos mais diversos e longínquos rincões do país, foi responsável pela alfabetização e disseminação de códigos culturais e de valores da nacionalidade para milhares de crianças no país.

A expansão do ensino primário rural ocorreu de forma significativa no Brasil no período de 1930 e 1970, quando foram implantadas políticas de escolarização no campo para construção de escolas e melhoria da educação na zona rural, resultado de acordos entre o governo federal e os Estados, com base no Fundo Nacional do Ensino Primário, por intermédio do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos – Inep.

Em meados dos anos 1930, por exemplo, 77,04% da população vivia na zona rural, contra 22,96% na zona urbana [1]. Dos 759.424 alunos matriculados nas 18.420 escolas primárias rurais, 592.869 as frequentavam regularmente. A diferença entre matrícula e frequência correspondia a 167.073 alunos – dados relativos aos anos de 1935 a 1937.[2]

No início dos anos 1950, com uma população ainda predominantemente rural, mais de 70% da população adulta da zona rural não sabia ler nem escrever. Segundo os dados oficiais, dos 51.944.397 habitantes existentes no país, 27.316.826 permaneciam na zona rural e 24.627.570 na zona urbana. Na zona rural 19.763.782 (72%) da população adulta não sabia ler nem escrever e o sabiam apenas 7.556,007 (28%).[3] Com relação ao número de unidades escolares, a expansão foi significativa neste período, pois o número de escolas primárias rurais praticamente dobrou, passando a 55.300 unidades em 1955.[4]

Os textos reunidos neste dossiê compreendem estudos acerca de políticas, práticas e representações da educação rural no Uruguai e no Brasil. Ao problematizar aspectos relevantes como o currículo, a formação de professores, as modalidades de escolas primárias rurais, as políticas para o ensino primário no campo e as representações das autoridades educacionais e dos educadores sobre a educação rural, os textos que compõem o dossiê contribuem para a compreensão da história do ensino rural na América Latina.

No Uruguai, como mostra o estudo Programa único ou diferenciado: especificidade curricular da escola rural uruguaia, prevaleceu, durante quase todo o século 20, um currículo diferenciado para as escolas rurais, definido após várias negociações entre o governo e os professores. No Brasil, a diversidade das experiências regionais de educação rural é uma característica marcante, uma vez que cada governo estadual implantou políticas específicas para o ensino primário rural. Tal diferenciação impele estudos particulares sobre essas realidades regionais. Ao tratar de representações, práticas e políticas de educação rural, os textos põem em questão os limites da ação do governo e dos professores e o embate entre concepções e propostas educacionais.

No caso uruguaio, o autor aborda o fenômeno da especificidade curricular que acompanha as escolas rurais há mais de um século e a ruptura histórica registrada em 2009, quando teve início a aplicação de uma estrutura curricular comum às escolas urbanas e rurais. Limber Santos analisa as circunstâncias históricas da pedagogia rural e, em particular, uma de suas materialidades simbolicamente mais potentes, constituída pelo Programa para Escuelas Rurales, de 1949.

No texto Escola como agência de civilização: projetos formativos e práticas pedagógicas para a educação rural no Brasil (1946-1964), destaca-se o papel de agência de civilização atribuído à escola rural no Brasil, frente ao projeto de expansão dos valores ligados ao espaço urbano e ao concomitante processo de industrialização que se aprofundou na segunda metade do século 20. A investigação apoiou-se em fontes documentais como pesquisas, projetos e propostas referentes ao tema do ensino primário rural, publicados entre o fim da ditadura varguista e o advento do golpe civil-militar de 1964 nas páginas da Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, mantida pelo Inep.

Pelo texto Da roça para a escola: institucionalização e expansão das escolas primárias rurais no Paraná (1930-1960) busca-se, por meio das iniciativas empreendidas pelo governo estadual e sua correspondência com os ditames federais e as tematizações relacionadas à educação rural, compreender o processo de institucionalização e expansão das escolas primárias rurais no Paraná entre as décadas de 30 a 60 do século 20. As fontes documentais que deram suporte à investigação constituem-se em mensagens e relatórios de governadores estaduais e interventores federais no Estado do Paraná, analisados a partir da produção historiográfica sobre o tema.

A situação do ensino primário rural retratada pelos delegados do ensino do Estado de São Paulo é a temática analisada no texto O espírito de horror à vida educativa nos campos: a educação rural paulista nas décadas de 1930 e 1940. Ao explorar os relatórios de 21 delegacias de ensino, referentes ao período de 1933 a 1945, o autor identifica os principais problemas para o desenvolvimento da educação rural, segundo a posição dessas autoridades do ensino público. Dessa maneira, é possível apreender, tanto o modo como os responsáveis pela administração do ensino concebiam a educação rural, quanto a avaliação que faziam dos problemas e as soluções aventadas.

Em As disputas em torno do ensino primário rural (São Paulo, 1931-1947), analisamse as disputas pelo ensino primário rural no Estado de São Paulo, no período entre 1931 e 1947, com destaque para os embates entre defensores da ruralização do ensino e os partidários da escola comum. Examinam-se, também, os avanços e a insuficiência das políticas dos governos paulistas para o ensino rural. A investigação está alicerçada em artigos veiculados na imprensa periódica educacional e nas iniciativas políticas empreendidas pelo poder público.

Além de contribuírem para o preenchimento de lacunas no conhecimento histórico sobre a educação primária, os artigos deste dossiê podem instigar novas investigações e convidam ao debate.

Notas

1. Cf. Anuário Estatístico do Brasil. Rio de Janeiro: Tip. do Departamento de Estatística e Publicidade, 1936.

2. Cf. Brasil. Repertório estatístico do Brasil situação cultural. Rio de Janeiro: IBGE, 1941, ano 5, separata.

3. Cf. Brasil. Anuário estatístico do Brasil: 1952. Rio de Janeiro: IBGE, 1953.

4. Cf. Brasil. Anuário estatístico do Brasil: 1952. Rio de Janeiro: IBGE, 1953

Rosa Fátima de Souza

Virgínia Pereira da Silva de Ávila

Organizadoras do dossiê.

SOUZA, Rosa Fátima de; ÁVILA, Virgínia Pereira da Silva de. Apresentação. Revista História da Educação. Porto Alegre, v. 18, n. 43, maio / ago., 2014. Acessar publicação original [DR]

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A matemática nos anos iniciais escolares em perspectiva histórico-comparativa / Revista História da Educação / 2014

Matemática nos Anos Iniciais escolares em perspectiva histórico-comparativa / Revista História da Educação / 2014, VALENTE Wagner Rodrigues (Org d), Matemática (d), Anos Iniciais do Ensino Fundamental (d), Revista de História da Educação (RHEd) Este dossiê reúne estudos sobre a Matemática no curso primário, no Brasil, em perspectiva histórica. Estão presentes resultados do desenvolvimento do projeto temático intitulado A constituição dos saberes elementares matemáticos: a aritmética, a geometria e o desenho no curso primário em perspectiva histórico-comparativa, 1890-1970, que conta com o apoio do CNPq.

Os programas de pós-graduação da Universidade Federal de São Paulo, da Universidade Federal de Santa Catarina, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, da Universidade Federal de Alagoas, da Universidade Federal de Sergipe, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, da Universidade Severino Sombra, RJ, da Universidade Bandeirante de São Paulo, da Universidade do Vale do Sapucaí, MG, da Universidade Federal do Mato Grosso, da Universidade do Vale dos Sinos, RS, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul integram-se nesta investigação constituindo núcleos locais de desenvolvimento de subprojetos voltados ao tema da constituição histórica dos saberes elementares matemáticos.

O projeto reúne dezessete pesquisadores doutores de dez Estados brasileiros, com o objetivo de analisar a trajetória de constituição dos saberes elementares matemáticos – a Aritmética, a Geometria e o Desenho – presentes no curso primário de diferentes regiões brasileiras, desde o período de criação do modelo grupo escolar até a sua extinção, a partir da criação da escola obrigatória de oito anos. A pesquisa orienta-se pelas seguintes questões: que trajetórias de constituição tiveram a Aritmética, a Geometria e o Desenho para os primeiros anos escolares? Ou, dizendo de outro modo, como foram organizados e reorganizados os saberes elementares matemáticos para estarem presentes na escola graduada? Como o modelo grupo escolar, difundido a partir de São Paulo, constituiu saberes elementares matemáticos em diferentes pontos do Brasil?

Na organização inicial do projeto, percebeu-se que raras são as pesquisas que se referem aos saberes elementares matemáticos presentes nos anos iniciais escolares. Considerando-se este estágio inicial do conhecimento, criou-se a necessidade de avançar-se para a elaboração de um conhecimento glocal, entendido como articulação das produções locais em perspectiva ampliada. Nestes breves termos, justifica-se a promoção de uma pesquisa de âmbito histórico-comparativo, com vistas à produção de conhecimento acerca da constituição dos saberes elementares matemáticos presentes no curso primário brasileiro.

No âmbito deste projeto entende-se que a organização dos saberes elementares matemáticos revela-se em várias instâncias: nas diretrizes curriculares oficiais; nos impressos pedagógicos para professores, como as revistas com orientações didáticas para o ensino; nos relatórios de estágio docente; nos manuais e livros didáticos; nos documentos de elaboração de aulas dos professores; nos materiais dos alunos – cadernos, fichas -; na docimologia escolar – exames, provas e testes de aferição da aprendizagem -, dentre muitos outros documentos ligados ao funcionamento do cotidiano escolar de outros tempos.

As fontes estão sendo coletadas e inventariadas por pesquisadores de diferentes Estados e disponibilizadas num repositório virtual localizado no sítio eletrônico https: / / repositorio.ufsc.br / handle / 123456789 / 1769 , da Universidade Federal de Santa Catarina.

A possibilidade de construir coletivamente um repositório de fontes de pesquisa abre um leque de alternativas de estudos e investigações, na medida em que inaugura um novo processo de produção científica. Permite a cada pesquisador acessar às diferentes fontes ao longo do desenrolar do projeto e, assim, desde o seu início, exercer a ousada tarefa de comparar ensinos de Matemática a partir de seus saberes elementares, em diferentes regiões, num período definido.

Dentre as várias produções já elaboradas, foram selecionados cinco estudos. O primeiro deles aborda a trajetória do ensino de Matemática no curso primário do Rio Grande do Sul, considerando as normativas oficiais para o ensino de Aritmética, com o estudo realizado pela pesquisadora Elisabete Búrigo. O segundo, escrito pelo pesquisador David Antonio da Costa, trata da Aritmética, levando em conta a análise da circulação do modelo pedagógico paulista dos grupos escolares no Estado de Santa Catarina. O terceiro texto refere-se à elaboração dos programas de ensino no Paraná e em São Paulo relativamente, também, à Aritmética escolar, tendo sido elaborado pela professora Neuza Bertoni Pinto. Ainda tratando do ensino de Aritmética, o quarto estudo analisa a produção e circulação das Cartas de Parker, material didático-pedagógico transformado em ícone da moderna pedagogia do ensino de Aritmética. Por fim, a professora Maria Célia Leme da Silva apresenta os resultados da pesquisa sobre a circulação e apropriação de práticas de ensino do Desenho e da Geometria no curso primário.

Wagner Rodrigues Valente – Universidade Federal de São Paulo.


VALENTE, Wagner Rodrigues. Apresentação. Revista História da Educação. Porto Alegre, v. 18 n. 44, set. / dez., 2014. Acessar publicação original [DR]

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O mito da grande classe média: capitalismo e estrutura social – PROCHMANN (TES)

POCHMANN, Marcio. O mito da grande classe média: capitalismo e estrutura social. São Paulo: Boitempo Editorial, 2014. 148p. Resenha de: CASTRO, Ramón Peña. Revista Trabalho, Educação e Saúde, Rio de Janeiro, v.12, n.3, set./dez. 2014.

O redescobrimento das classes sociais representa uma mudança positiva, cada vez mais presente em descrições das novas estruturas sociais dos ‘centros’ e ‘periferias’ do capitalismo globalizado. Repare-se que até recentemente a categoria ‘classe social’ tinha desaparecido do léxico analítico referido à distribuição da riqueza e do poder, ocupando o primeiro plano as problemáticas de gênero, raça, etnia, religião, nacionalidade etc., cuja importância não deve ser subestimada, dada a persistência de odiosas formas de discriminação, desigualdade, violência e criminalidade.

Ao mesmo tempo, não pode ser considerado casual que esse cenário controverso coincida com o declínio das utopias históricas (derrubada do socialismo real e do Estado de bem-estar social, hoje idealizado) concomitante com a expansão da contrarrevolução neoliberal, por um lado, assim como a erosão dos paradigmas culturais através dos quais interpretamos a complexa realidade social, por outro lado.

É, justamente, este cenário controverso o que serve de inspiração para o livro de Marcio Pochmann que passamos a resenhar.

Dividido em quatro partes, cada qual composta de seções que abrangem 15 subtemas, o livro faz jus ao título, pois por sua leitura constatamos que a noção de ‘nova classe média’ não passa de uma construção quimérica do mercado político.

Na primeira parte, intitulada “Classe média em quatro tempos”, o eixo da exposição consiste em um diálogo entre conceituação sucinta das etapas de desenvolvimento histórico do capitalismo e a origem incerta de diferentes usos espaço-temporais do termo ‘classe média’. Concluindo com uma reflexão crítica sobre a extemporaneidade deste termo no Brasil, porque a “adoção”, escreve Pochmann, “de uma medida descontextualizada da base original da sua materialização pode se revestir apenas e simplesmente de um voluntarismo teórico inconsistente com a realidade, salvo interesses ideológicos específicos ou projetos políticos de reconfiguração da redução do papel [social do] Estado” (p. 45).

A partir deste último raciocínio parece pertinente pensar que a utilização descontextualizada do termo classe média, em substituição do termo classe trabalhadora, também serviria para incutir no ânimo dos trabalhadores a ideia de que seu vínculo unitivo não é o trabalho, mas sim o seu ‘novo padrão’ de consumo e o correspondente nível de rendimento, descolado da sua origem: a alienação da força de trabalho pelo capital. Por extensão, tudo isto implica a individualização e destruição das solidariedades de classe e das capacidades de (re)ação coletiva.

A segunda parte do livro, intitulada “Classe média: fatos e interpretação no Brasil”, contém uma argumentada exposição da origem e características do modelo fordista de desenvolvimento e da composição social do capitalismo avançado do segundo pós-guerra. Na sequência, examina as particularidades da industrialização tardia brasileira e sua relação com as condições de subconsumo da classe trabalhadora, derivadas da resistência das classes dominantes a admitir as reformas estruturais (‘civilizatórias’) que foram conquistadas (no período 1945/1975) pela esquerda político-sindical nos países desenvolvidos, sem que isso implicasse reversão da ordem capitalista. Pelo contrário, o atual processo de destruição acelerada do ‘Estado de bem-estar’ demonstra que as conquistas sociais, ligadas a essa denominação otimista (Estado de bem-estar), representam um fenômeno absolutamente excepcional na história do modo de produção capitalista.

Nesta segunda parte do livro, cabe destacar como uma linha de reflexão e debate em aberto a tese de Pochmann sobre “a combinação, na última década, de crescimento econômico brasileiro com distribuição de renda, o que permitiu a retomada da mobilidade social, especialmente aquela associada à base da pirâmide social” (p. 71), incluindo “ascensão dos trabalhadores pobres [no] projeto social desenvolvimentista” (p. 62-70).

Registremos alguns elementos que achamos importantes para compreender o alcance da reflexão de Pochmann sobre a presente trajetória econômica e social do Brasil:

  • Ampliação da base da pirâmide social com forte expansão do emprego, com três quartos dos novos empregos remunerados até l,5 salários mínimos;
  • Quase 40% de queda da pobreza em vinte anos: l988-2008 (p. 67);
  • Aumento de quase 80% do gasto social no PIB, em 25 anos: 13,3% em 1985 para 22,7% em 2010 (p. 66).
  • Incorporação ao ‘mercado de consumo barato’ de quase um quarto dos brasileiros, em que “parcela considerável da classe trabalhadora foi incorporada no consumo de bens duráveis, como TV, fogão, geladeira, aparelho de som, computador, entre outros” (p. 71).

Destacamos a sua própria conclusão: “esse importante movimento social”, escreve Pochmann, “não se converteu, contudo, na constituição de uma nova classe social, tampouco permite que se enquadrem os novos consumidores no segmento de classe média” (p. 71).

A terceira parte, intitulada “Cadeias globais de produção e ciclos de modernização no padrão de consumo brasileiro”, contém análise, assente em numerosos dados estatísticos resumidos em gráficos e tabelas, da dinâmica da economia política de consolidação do capitalismo monopolista transnacional e seus impactos nas estruturas sociais, especificamente no Brasil.

Fazendo um balanço das informações obtidas pela sua consistente exploração bibliográfica e elaboração estatística, Pochmann expõe com singular clareza as três principais razões explicativas da evolução histórica do grau de desigualdade no padrão de bens e serviços civilizados.

A primeira razão explicativa é a globalização como novo paradigma da produção das empresas transnacionais. Assente não apenas nas novas tecnologias, mas sobretudo em políticas neoliberais de liberalização dos mercados e privatização do setor público, assim como na ampliação da base de recursos produtivos, matérias e humanos, como decorrência da restauração do capitalismo na União Soviética, Leste europeu e China, principalmente. Essa enorme expansão geográfica dos mercados significou um aumento de l,5 para 3,9 bilhões do exército de força de trabalho fragmentada em estados competidores. Tudo isso tornou possível a produção massiva de todo tipo de mercadorias de baixo custo e sobre esta base a emergência das sociedades de consumo de baixo custo (low cost).

A segunda razão explicativa é a especificidade da inserção do Brasil na divisão internacional do trabalho, mostrada por meio da sucessão dos ciclos de modernização do padrão de consumo das distintas faixas de renda, ocupação setorial e grau de escolaridade, assim como a alteração sucessiva dos preços relativos. Trata-se de uma análise aprofundada de informação estatística abrangente, apresentada em tabelas e gráficos elucidativos.

A terceira razão explicativa da evolução das desigualdades, num sentido positivo, são as políticas sociais compensatórias, a bancarização de setores de menor renda, incluindo a expansão do crédito para consumo de bens duráveis e novos serviços. Na contraface dessas alterações encontra-se, sem dúvida, a mercantilização da vida e a financerização da sociedade.

Sabendo que a sociedade envolve muitas atividades e relações (de poder, de consciência, culturais, nacionais, sexuais, normativas etc.) que não concernem à Economia Política, o autor concentrou-se na temática da estrutura social, nitidamente transbordada da realidade por força do superdimensionamento fictício quando se fala de uma grande e nova classe média.

A quarta e última parte do livro concentra-se no exame da superação relativa da imobilidade social na primeira década deste século. Após a longa fase de regressão e estagnação da estrutura social das duas décadas anteriores, parece consolidar-se uma onda de novas ocupações e uma incerta política de rendas que visa à curva de distribuição da renda de 40% da população mais pobre. A identificação desses segmentos e o estudo da evolução geral da ocupação e do rendimento mostrariam, segundo Pochmann, sinais significativos da “volta da mobilidade social ascendente, sobretudo, na base da pirâmide social brasileira, que nada tem de nova, tampouco de classe média” (p. 139).

Ramón Peña Castro – Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio,Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: [email protected]

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[MLPDB]

La consagración de la memoria: Una etnografía acerca de la institucionalización del recuerdo sobre los crímenes del terrorismo de Estado en la Argentina – GUGLIELMUCCI (A-RAA)

GUGLIELMUCCI, Ana. La consagración de la memoria: Una etnografía acerca de la institucionalización del recuerdo sobre los crímenes del terrorismo de Estado en la Argentina.* Buenos Aires: Antropofagia, 2013. 398p. Resenha de: ÁLVAREZ, Santiago. Antípoda – Revista de Antropolgía y Arqueología, Bogotá, n.20, set./dez., 2014.

El documentado trabajo de Ana Guglielmucci, La consagración de la memoria, se centra en el proceso de institucionalización del recuerdo. En este sentido, podría inscribirse en el marco de las recientes investigaciones sobre política de la memoria. A la autora le interesa ver cómo la lucha de los organismos de derechos humanos de la sociedad civil por el recuerdo de las víctimas de la última dictadura militar (1976-83) es transformada en memoria institucional del Estado argentino. Este largo, conflictivo y a veces contradictorio proceso es registrado sistemáticamente por esta investigación.

El caso argentino guarda elementos sociales, culturales y políticos específicos que influyen en el cómo y de que manera la confluencia de diversas memorias sociales termina produciendo una particular interpretación estatal. En este sentido, considero esta investigación insustituible para comprender cabalmente el proceso de la memoria en Argentina. Su exhaustividad permite desarrollar necesarias y enriquecedoras comparaciones con otros casos, en especial el de la Shoah (modelo ineludible de políticas de la memoria) y el caso sudafricano, basado en una reconciliación que provendría del reconocimiento de una verdad. Permite, además, analizar comparativa y críticamente el más incipiente proceso colombiano desde una óptica que marque un camino que no puede ni debe ser imitativo sino, por el contrario, que permita visualizar las diversidades y comprender la toma de decisiones políticas en contextos específicos complejos.

En el trabajo de Ana Guglielmucci importan los lugares, los espacios, los paisajes de la memoria. El recuerdo oficial se plasma en monumentos, centros culturales y parques conmemorativos. En particular, antiguos centros de detención clandestina son transformados en epicentros para la conmemoración y la reflexión. Estos exespacios del horror en muchos casos se convierten en archivos, museos y centros culturales. Estos  paisajes de la memoria serían definidos por Tim Edensor como “la organización de objetos específicos en el espacio, el resultado de proyectos a menudo exitosos que buscan materializar la memoria al ensamblarla a formas iconográficas” (Edensor, 1997: 178). Importan aquí, por lo tanto, las dimensiones espaciales del recordar.

Al mismo tiempo, Guglielmucci describe las construcciones de un recuerdo donde se disputan fechas y datos, se reconstruyen desapariciones, torturas, masacres. En este proceso, se introducen conmemoraciones y se organizan rituales. Los organismos de derechos humanos no son, felizmente, presentados aquí como un bloque monolítico, unificado y armonioso sino como grupos con diferencias, en algunos casos profundas, sobre qué se debe recordar y cómo. Este registro es un aporte original en el caso argentino. Pocos trabajos, generalmente tamizados por cierto pudor, se ocupan de las disputas de la memoria en el campo de las organizaciones de derechos humanos. El sentido que debe darse a un hecho polémico, las actividades que deben realizarse en lugares que fueron otrora espacios del horror, son objeto de discusiones y enfrentamientos.

En el primer capítulo, Ana Guglielmucci caracteriza a quienes son los protagonistas del proceso social de la construcción de la memoria: los activistas. Nos explica su trayectoria grupal, la historia de las principales organizaciones sociales bajo cuya protección trabajan, cómo fueron convirtiéndose en expertos en esta área y cómo fueron reconocidos por otros como tales. En este sentido, hace referencia a la teoría de los campos de Bourdieu como espacios sociales de acción, y al reconocimiento, a aquellos que se mueven dentro del campo de la memoria, de una “competencia” específica.

En el segundo capítulo, la autora analiza cuál es la articulación entre estos activistas y los académicos que trabajan la temática de los derechos humanos.

Hace referencia a la importancia del concepto “memoria” para legitimar prácticas de recuerdo y olvido. En este contexto, definir “memoria” pasa a ser central. Ana Guglielmucci describe tres tipos de dominio o competencia específicos: el académico, el político-militante y el técnico profesional. Analiza, “cómo opera el reconocimiento de la competencia de cada uno de estos actores, asignándola a ciertos dominios de actividad que, en un principio, son tomados como propios y la posibilidad o no de que esta competencia sea reconocida en otros considerados como ajenos” (p. 29).

En el tercer capítulo, la autora intenta comprender cómo, al tiempo que la categoría “memoria” fue incorporada y asumida por el Estado, varios militantes de los derechos humanos fueron incorporados a la estructura burocrática de éste. La excepcionalidad que supone ser no sólo un luchador sino también un “trabajador de la memoria” está llena de tensiones identitarias. En definitiva, su posición es ambigua, liminar: son a la vez militantes y empleados estatales. La autora trabaja también aquí sobre el proceso normativo que acompañó esta institucionalización y estatalización de los derechos humanos en Argentina. Ligadas, nos dice Guglielmucci, “a que ciertos hechos del pasado se inscriban como consecuencia del terrorismo de Estado y no de otras maneras posibles, a través de la selección de ciertas denominaciones, recortes temporales y acontecimientos” (p. 30).

El cuarto capítulo hace referencia a “los roles adoptados por los participantes y la marcación de su estatus y la delimitación de los espacios escogidos como los adecuados para desplegar sus representaciones sociales sobre el pasado, de acuerdo a las polémicas presentes y sus expectativas a futuro” (p. 31). Además, y esto lo hace especialmente interesante, este capítulo analiza la transformación de la Escuela de Mecánica de la Armada (ESMA) -el más emblemático centro de detención ilegal, tortura y exterminio de la dictadura- en un Espacio para la Memoria. En este proceso, diversos actores sociales, políticos, funcionarios, representantes de organizaciones no gubernamentales, gremialistas, periodistas, etcétera, luchan, en última instancia, por imponer representaciones sociales acerca de lo que debe ser recordado, y también, no lo soslayemos, sobre lo que debe ser olvidado. Estas disputas, en las que ciertos actores poseen más legitimidad que otros, se dan en el marco de fuertes enfrentamientos y conflictos.

En el quinto capítulo, Guglielmucci describe cómo se identificaron y seleccionaron los excentros clandestinos de detención para ser convertidos en espacios de memoria. Éste es un proceso social que define qué hacer con ellos y en ellos. La autora compara dos de estos centros: el ya citado de la Escuela de Mecánica de la Armada (ESMA) y el llamado “Garage Olimpo” (relativamente menor). La comparación incluye la conformación de los respectivos órganos políticos de gestión encargados de definir qué hacer con ellos.

El capítulo sexto hace hincapié en las diferencias comparativas en la “marcación simbólica” de los espacios ESMA y Olimpo. Aborda la clasificación y sectorización simbólica del espacio. No olvidemos, además, que estos espacios son a su vez prueba material para la justicia, que mantiene aún una importante cantidad de causas abiertas. La memoria se construye a través de la refuncionalización de los espacios de representación, lo que significa su transformación de espacios del horror en espacios culturales de memoria.

La autora concluye expresando la valoración social de la memoria que este proceso de institucionalización supone, y su materialización en espacios específicos. Nos dice: “la manera en que los diferentes actores tendieron a crear y a instaurar una política de monumentos, de objetos y de espacios para preservar y promover la memoria buscó consolidar concepciones comunes sobre lo que se considera la forma legitimada de recordar en el plano colectivo” (p. 344). Considera central en esta particular política de la memoria, la transformación de centros de detención ilegal, tortura y desaparición convertidos en Espacios para la Memoria. Esta decisión política permite, de un modo significativamente poderoso, y podríamos decir también exitoso, construir una interpretación pública de la violencia estatal de la dictadura militar que busca sustentar la convivencia social con base en los valores democráticos y la doctrina de los derechos humanos.

Ana Guglielmucci reconstruye minuciosa y documentadamente, utilizando fuentes etnográficas (especialmente su presencia en el mismo proceso de toma de decisiones que desnuda las discusiones y las disputas), la realización de numerosas entrevistas y la recopilación de una exhaustiva documentación, el proceso de construcción de esta particular política de la memoria. Su utilidad para aquellos que investiguen en este campo o que estén trabajando en procesos similares, que se encuentren en estado de conformación, es más que evidente.

Comentarios

* Guglielmucci, Ana. 2013. La consagración de la memoria: Una etnografía acerca de la institucionalización del recuerdo sobre los crímenes del terrorismo de Estado en la Argentina, Buenos Aires, Antropofagia, 398 pp. ISBN 9871238991, 9789871238996.

Referencia

Edensor, Tim. 1997. National identity and the politics of memory: Remembering Bruce and Wallace in symbolic space. Environment and Planning. D: Society and Space 15 (2): 175-194.         [ Links]

Santiago Álvarez – Ph.D. Antropología Social. London School of Economics and Political Science. Londres, Inglaterra. Universidad Nacional Arturo Jauretche, Buenos Aires, Argentina. Correo electrónico: [email protected]

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Revista Latino-Americana de História. São Leopoldo, v.3, n.10, 2014.

Primavera.

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RLAH Editores | PDF

Expediente

Editorial/Apresentação

Artigos

Publicado: 2014-08-29

Língu@ Nostr@. Vitória da Conquista, v. 2, n.1, 2014.

Apresentação

Artigos – Dossiê

Resenhas

Publicado: 2014-08-05

Outros Tempos. São Luís, v.11 n. 17, 2014.

Dossiê: O Colapso das Ditaduras: Rupturas e Continuidades

Apresentação

Artigos

Dossiê

Estudo de caso

Entrevista

Resenhas

Publicado: 2014-08-02

Tempos fraturados: cultura e sociedade no século XX – HOBSBAWM (HP)

HOBSBAWM, Eric J. Tempos fraturados: cultura e sociedade no século XX.Tradução de Berilo Vargas. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 360 p. Resenha de: KÖLLN, Lucas André Berno. A cultura e a arte como expressões da fratura histórica dos tempos. História & Perspectivas, Uberlândia, v. 27, n. 50, 27 ago. 2014.

Acesso apenas pelo link original

Presença jesuítica nas Américas portuguesa e espanhola / História e Cultura / 2014

A revista História e Cultura, atenta às pesquisas e ao debate acadêmico desenvolvido na História e em áreas afins, traz neste número um dossiê voltado ao estudo da presença jesuítica nas Américas portuguesa e espanhola.

As pesquisas acerca das ações desenvolvidas pelos missionários desta Ordem vêm ganhando destaque crescente entre a pluralidade de temáticas de estudos no Brasil e no exterior. Dessa forma, essas investigações reúnem problemáticas, metodologias, discussões historiográficas e estudos de caso ímpares que demonstram as especificidades dessas áreas de pesquisa. Considerando essas características, o dossiê se apresenta como um espaço de reflexão dos temas que abordam o recorte cronológico e espacial inerente à instalação dos inacianos em zonas distintas dos centros de poder dos impérios português e espanhol.

O tema “Presença jesuítica nas Américas portuguesa e espanhola” determina o fio condutor da abordagem dos trabalhos de pesquisa contemplados neste dossiê. A ideia de presença se apresenta a partir da compreensão da organização dessa Ordem, fundamentada em seus textos fundadores, isto é, os Exercícios Espirituais, propostos por Inácio de Loyola, e as Constituições da Companhia de Jesus. A presença jesuítica em outros espaços, orientada por uma forma específica de ser, se faria presente entre conversos, gentios e infiéis. Desta maneira, este dossiê pretende contribuir para o entendimento das ações propostas por estes religiosos em consonância com os projetos português e espanhol de expansão de seus respectivos domínios coloniais.

Os trabalhos aqui apresentados – artigos que abordam a temática elencada para este número e uma resenha de livro – foram, gentilmente, analisados pela comissão de pareceristas, conforme sua relevância historiográfica e sua pertinência acadêmica. Desta maneira, agradecemos aos professores que se dispuseram a empreender tal tarefa, contribuindo, igualmente, para a realização deste dossiê.

Nosso objetivo não é somente possibilitar o debate intelectual acerca do tema, mas também fortalecer uma rede de pesquisadores preocupados com a produção historiográfica elaborada no Brasil e no exterior. Dessa forma, organizamos este dossiê em duas partes: artigos e resenha.

Os vinte textos que compõem o dossiê abordam uma pluralidade de discussões historiográficas sobre a presença jesuíticas nas Américas portuguesa e espanhola. Passível de percepção, os textos aqui selecionados compreendem a perspectiva de diferentes olhares sobre a chamada história Moderna e a importância dos estudos acerca das práticas desenvolvidas por estes missionários em diferentes áreas, na medida em que concentram intelectuais de diversas tendências acadêmicas em uma mesma obra, incluindo professores e alunos de pós-graduação de universidades brasileiras e estrangeiras. Nossa intenção foi exatamente essa: a de apresentar diferentes percepções e entendimentos de História, mais propriamente no campo dos estudos relativos à Companhia de Jesus e sua presença em dois lócus específicos.

De acordo com nossa proposta, informamos que os trabalhos que compreendem o presente dossiê foram elaborados por professores doutores de diferentes instituições públicas e privadas brasileiras, doutorandos, mestrandos e graduandos vinculados a instituições também nacionais, bem como investigadores ligados a instituições estrangeiras. Nesse sentido, cabe destacarmos que recebemos contribuições de pesquisadores vinculados às seguintes instituições brasileiras, a saber: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS); Universidade de São Paulo (USP); Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ); Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); Universidade de Passo Fundo (UPF); Universidade Federal do Maranhão (UFMA); Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Universidade Federal do Pará (UFPA); Universidade Federal de Uberlândia (UFU); Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP); Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRGN); Instituto Federal de Educação do Maranhão (IFE-MA); Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC); (Universidade Federal do Paraná (UFPR); Universidade São Judas Tadeu (USJT-SP); Universidade Salgado Oliveira (USO-RJ)). Do exterior, recebemos contribuições da Universidade de Sevilha (US-Espanha), Universidade de Évora (EU-Portugal) e da Universidade de Buenos Aires (UBA-Argentina).

Agradecemos em nome de todos os membros do Conselho Editorial o constante apoio do Conselho do Programa de Pós-graduação em História no qual está locada a História e Cultura.

Desejamos a todos uma boa leitura!

Ana Raquel da Cunha Martins Portugal – Professora doutora. Docente do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Campus de Franca. E-mail: [email protected]

Fábio Eduardo Cressoni – Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Campus de Franca. E-mail: [email protected]

Organizadores do dossiê


PORTUGAL, Ana Raquel da Cunha Martins; CRESSONI, Fábio Eduardo. Apresentação. História e Cultura. Franca, v.3, n.2, 2014. Acessar publicação original [DR]

Acessar dossiê

Revista de Economia Política e História Econômica. São Paulo, n.32, ago. 2014.

REPHE 32 – Agosto de 2014

  • Brasil, Argentina e Coréia: uma análise comparativa (1970 – 1990)
  • Francisco Luiz Corsi
  • Agnaldo dos Santos
  • José Marangoni Camargo
  • Indústria Têxtil, Emprego Formal e Diferencial de Gênero na Grande Natal – 1998:2008
  • Luís Abel da Silva FIlho
  • A Industrialização do Brasil nos Anos 1930: uma interpretação Institucionalista
  • Herton Castiglioni Lopes
  • A nova elite financeira no Brasil: Jogos, estratégias e disputas entre os “gerentes-engenheiros” e os acionistas
  • Thais Joi Martins
  • Transamazônica: formação do latifúndio nortista e a eclosão do conflito agrário
  • Junior Ivan Bourscheid
  • Fábio da Rosa Cunha
  • Gustavo Flores Pedroso
  • Apoikia e Colonia: Adam Smith e a reinvenção do colonialismo britânico
  • Roberto Resende Simiqueli
  • A Filosofia Política-Econômica de John Maynard Keynes
  • Jorge Miguel Cardoso Ribeiro de Jesus
  • Mercosul: uma análise de indicadores econômicos durante o período 1990-2004
  • Luciana Aparecida Bastos
  • Tatiana Diair Lourenzi Franco Rosa
  • Badar Alan Iqbal
  • Políticas laborales y salarios durante el primer radicalismo y el primer peronismo (1916-1955)
  • Agustina Vence Conti
  • Eduardo Martin Cuesta

RESENHA: WOLFF, R. e RESNICK, S. Contending Economic Theories: Neoclassical, Keynesian and Marxian. Massachusetts: MIT Press, 2012.

Contending Economic Theories: Neoclassical, Keynesian and Marxian | R. Wolff e S. Resnick

Contending Economic Theories, escrito em sua maior parte pelos professores eméritos de Economia do Massachusetts Institute of Technology Richard Wolff e Stephen Resnick é, na verdade, uma revisão ampliada da discussão desenvolvida em uma obra anterior, de 1987. O livro se apresenta como uma proposta “única e distinta” de comparação entre teorias econômicas. Nesse sentido, um primeiro reparo se mostra necessário, quando os autores vinculam diretamente a microeconomia à economia neoclássica e a macroeconomia ao keynesianismo, deixando em aberto a contribuição do marginalista León Walras à macroeconomia, com sua noção de equilíbrio geral , a qual influenciou não apenas visões agregadas do produto de uma economia, como a elaborada por Wassily Leontief, no início dos anos 1970, mas também a própria concepção das ideias de oferta e demanda agregadas. Leia Mais

Ultramares. Maceió, n.6, v.1, ago./dez., 2014.

APRESENTAÇÃO

DOSSIÊ – ECONOMIA COLONIAL

ARTIGOS

RESENHA

SOBRE OS AUTORES

Economia colonial | Revista Ultramares | 2014

A possibilidade de coordenar e apresentar um dossiê sobre economia em uma revista dedicada aos estudos coloniais é motivo de grande alegria. Nas duas últimas décadas a historiografia relativa à América portuguesa tem passado por transformações extremamente significativas. Em 1990, Ciro Cardoso já saudava os novos rumos historiográficos, ressaltando o que ele denominava de passagem do “esquematismo excessivo à relativa complexidade”1. Referia-se, então, à visão simplificadora do que seria a sociedade escravista brasileira, dividida entre senhores e escravos e caracterizada pelo trinômio latifúndio, monocultura e escravidão. Uma sociedade exteriorizada, sem qualquer dinâmica interna considerável. Naquele momento, as pesquisas que se contrapunham a essa perspectiva buscavam ressaltar a complexidade da sociedade brasileira e de suas dinâmicas internas, diminuindo ou negando a importância dos laços exteriores como elementos explicativos do devir colonial.

Estava-se ainda, no entanto, dentro do que nós poderíamos denominar de paradigma historiográfico da relação metrópole – colônia. Em linhas gerais, boa parte dos debates referia-se ao peso maior ou menor que tais relações possuíam para explicar a história colonial. Não é esse o espaço para retomarmos esse debate, por si só riquíssimo e cheio de consequências. No entanto, e só podemos perceber isso hoje pelo distanciamento que o tempo impõe, esse também era um debate marcado por um esquematismo excessivo. Leia Mais

A Justiça D’Além-mar: lógicas jurídicas feudais em Pernambuco (Século XVIII) | Maria Filomena Coelho

As ideias advindas da Escola dos Annales por muito tempo constrangeram o historiador que se aventurava pelas pesquisas da História política ou administrativa. Atualmente o ponto de vista político na historiografia tornou-se não só de suma importância para a compreensão da realidade das sociedades, mas também mostrou não ter sido o verdadeiro alvo das críticas da escola francesa fundada por Marc Bloch e Lucien Febvre1. Seguindo essa linha de raciocínio, Maria Filomena Coelho em seu trabalho A Justiça D’Além-Mar: Lógicas jurídicas feudais em Pernambuco (Século XVIII), parte do ponto de vista da administração da Justiça e aplicação do Direito na América Portuguesa em busca de vestígios de “lógicas jurídicas feudais” na Capitania de Pernambuco, como o título sugere. Para tal, doutora em História Medieval, do direito e das instituições, Filomena Coelho se fundamentou nos escritos de António Manuel Hespanha, bem como na concepção de um Antigo Regime nos Trópicos1, trazendo-nos um estudo do caso intrigante narrado por Veríssimo Rodrigues Rangel, cônego da Sé de Olinda, entre 1750-54 1.

A execução do testamento do padre Alexandre Ferreira fez de Olinda e Recife palco de um conflito protagonizado por juízes eclesiásticos e do rei, confronto jurisdicional este que durou cinco anos (1749-1753). Antônio Teixeira da Mata, Juiz de fora e Provedor dos defuntos e ausentes, capelas e resíduos, representando a Justiça secular (sua jurisdição e a da Coroa) entrou em choque com o Bispo, Frei Luiz de Santa Tereza e o Vigário geral, Manoel Pires de Carvalho. Maria Filomena Coelho nos descreve o embate ao longo de seu trabalho ressaltando, principalmente, o papel histórico e apologético do manuscrito de Veríssimo Rangel1. Leia Mais

The Idea of Order: The Circular Archetype in Prehistoric Europe | Richard Bradley

Richard Bradley é professor de Arqueologia na Universidade de Reading, especializado em estudos da pré-história europeia, focando em paisagens pré-históricas, organização ritual e social e arte rupestre. Entre seus últimos livros publicados estão The Prehistory of Britain and Ireland (2007) e Image and Audience: Rethinking Prehistoric Art (2009). Sua maior contribuição à área é o livro The Significance of Monuments: On the Shaping of Human Experience in Neolithic and Bronze Age Europe (1998). Neste livro, é lançada a ideia de que a escolha e a predominância de um formato circular para a construção de monumentos na Europa Atlântica durante o Neolítico estaria ligada à cosmovisão comum das populações pré-históricas em contato.

A busca para compreender a escolha do que o autor denomina como “arquétipo circular” [1] é constante em suas publicações, e é ela que pauta todo o livro, afastando-se um pouco da noção de cosmovisão, e observando fatores mais práticos e do cotidiano, como, por exemplo, a influência do ambiente habitado e conhecido na construção de casas e monumentos. Como o próprio autor pontua: este não é um livro sobre um período ou um lugar; é sobre uma ideia (BRADLEY, 2012:3).

As ideias de um padrão circular, assim como seus questionamentos do início do livro, na verdade, costuram toda a obra, por entre seus dez capítulos: por que tantos povos na pré-história europeia construíram monumentos circulares? Por que escolher as casas redondas enquanto outras comunidades as rejeitavam? Por que havia pessoas que habitavam casas retangulares e frequentemente enterravam seus mortos em montículos circulares ou cultuavam seus deuses e ancestrais em templos circulares? (BRADLEY, 2012: 3).

Obviamente, o leitor que procura respostas acabará o livro sobrecarregado, devido à quantidade de detalhes e levemente frustrado: há mais questionamentos do que respostas. É uma recorrência ao longo do livro. As inquietações de Richard Bradley perpassam estudos etnográficos na América e África além de análises comparativas que vão desde o Neolítico à Irlanda Medieval, passando por sítios da Espanha, Portugal, França, Sardenha, Irlanda, Inglaterra e Escandinávia. Lembrando que seu foco de análise é a forma circular e o seu longo período de existência, não negligenciando o tipo de suporte material: seja na construção de casas e monumentos, ou na decoração de objetos (em cerâmica e metal).

Devido à complexidade do assunto em questão e até como uma forma de crítica às duas posições entendidas como antagônicas nos estudos de pré-história, o autor faz um julgamento claro em relação à divisão ainda existente na abordagem dos estudos na área. Os processualistas, que tendem sempre às generalizações e à construção de grandes modelos de análise; e os pós-processualistas, que enfatizam sempre estudos de caso e análises particulares, que acabam por demonstrar que o modelo generalizante se encontra equivocado. Assim, R. Bradley preferiu seguir uma sequência lógica, movendo-se sempre de um questionamento generalizante para os estudos de caso (o particular), não deixando nunca de levantar os pontos de interesse mais amplos e de esquematizar melhor suas exposições ao final dos capítulos da maneira mais didática possível.

O autor, ainda, demonstra sua preocupação com a autocrítica em relação à escolha dos seus métodos de análise, dedicando um espaço nos capítulos para questioná-los antes mesmo que o leitor o faça – como é o caso, por exemplo, do segundo capítulo, no qual ele questiona o uso de dados etnográficos. Este tipo de abordagem só faz com que a obra se torne irritantemente genial, pois mostra o trabalho massivo para a construção do livro, a preocupação com os dados e a erudição do autor, assim como incita o leitor a pensar – uma proliferação de questionamentos ao longo de todo o livro.

Tendo em vista a amplitude espaço-temporal da sua análise, Richard Bradley teve a preocupação de esquematizar, no seu primeiro capítulo, como funciona a organização do seu argumento, partindo da análise de casas circulares e sua distribuição pela Europa, utilizando dados etnográficos e observando artisticamente os estilos curvilíneo e linear, correlacionando-os com escolhas de moradia do mesmo período.

Na segunda parte do livro, é observada a relação entre as moradias (casas e assentamentos) e a construção de monumentos e, na terceira parte, foi analisada a relação e a concomitância das estruturas curvilíneas e retilíneas, não deixando de investigar as circunstâncias em que o modelo circular foi abandonado.

O autor inicia seu livro descrevendo e analisando um sítio na Irlanda, um local conhecido pela possível ocorrência do festival Céltico de Beltane, um lugar antigo para reuniões, associado ao culto Druídico do Fogo e ao trono dos Reis Irlandeses. Hill of Uisneach, um centro sagrado da Irlanda em tempos pagãos, de acordo com o folclore e evidências literárias. Esse sítio está situado em uma colina que domina a paisagem que a cerca, como o centro da mesma. De seu topo, pode-se observar os vários condados irlandeses. Possui mais de 20 monumentos antigos, entre tumbas megalíticas, montículos funerários, aterros e fortificações anelares, com datações que variam entre o Neolítico e a Idade do Bronze no caso das construções, e da Idade do Ferro ao Medievo no caso das (re)utilizações encontradas.

Recentemente, o sítio teve uma tradição inventada [2] : o Fire Festival (Festival do Fogo) que envolve a construção de uma série de prédios de madeira circulares (temporários), com algumas estruturas decoradas com desenhos curvilíneos – uma decisão deliberada dos criadores do evento para refletir a configuração dos monumentos do lugar, que, não por coincidência, é a configuração tradicional em toda Irlanda, desde as tumbas do Neolítico, passando pelos centros reais da Idade do Ferro até os monastérios mais antigos.

Ao adentrar pela análise da construção dos monumentos antigos, o autor expõe um problema: a sequência extensa desses monumentos. Eles possuem uma longa história, e como o autor explicita, não é fácil analisá-los quando muitos pré-historiadores são especialistas em períodos específicos. Torna-se clara sua crítica, talvez um pouco generalista e exagerada, aos pós-processualistas e ao seu alto grau de especialização. Ele entende que o problema deve ser sanado ao se olhar mais largamente, espacialmente e temporalmente – o que, a exemplo deste livro, é fruto de um trabalho árduo que poucos provavelmente têm interesse em fazer.

A partir da análise dos eixos de preferências entre os padrões retilíneos e curvilíneos, fica claro seu posicionamento. Para o autor, a construção da arquitetura curvilínea seria uma escolha; uma alternativa aos modelos lineares “tradicionais”. A noção de escolha deve ser entendida relacionada ao conceito de agência – que engloba outros diversos conceitos e enfoques, tais como ritual, monumentalização, práticas funerárias, apreensão do mundo via sentidos, cadeia operatória, noções de memória, ancestralidade e identidade.

Deve-se considerar no conceito de agência que o corpo é o principal locus físico da experiência e a cultura material é o meio pelo qual se estabelece a comunicação, cria e reproduz o simbólico. É, portanto, um meio para compreender as relações sociais e os mapas cognitivos e, quando aplicado ao coletivo, implica em força para a construção de noções partilhadas do social e do simbólico, por meio da monumentalização e da construção ritual (OWOC, 2005; CUMMINGS, 2003; BAHN & RENFREW, 2005). Deste modo, o autor entende que o contraste entre as formas era significativo, uma vez que elas indicam ideias particulares de ordem, não estando, necessariamente, ligadas somente à questão da funcionalidade, mas com forte carga simbólica.

Assim, as construções seriam a concretização da experiência humana e do pensamento simbólico na cultura material, refletindo os componentes do ambiente construído que cercava as populações. Se faz crucial, entretanto, atentar para o fato que as percepções variam, mesmo entre comunidades que habitam um mesmo espaço: a interpretação de um fenômeno, assim como do ambiente ao seu redor, varia. Seguindo esse raciocínio, a construção dos monumentos seria consequência direta de crenças compartilhadas para a construção e utilização de edificações domésticas: elas teriam influenciado as percepções de mundo das populações pré-históricas [3].

No terceiro capítulo, é analisado o contraste entre as formas curvilíneas e retilíneas na arte. Poderiam, por exemplo, estar ligadas a noções de sagrado e secular, público e privado. A observação vem a partir da reinterpretação da “arte Celta” [4 ]elaborada em metal, da Idade do Ferro. Os objetos desse período que contém temática curvilínea são provenientes de contexto religioso/ritual, mesma característica dos contextos de construção de monumentos circulares no Neolítico e Idade do Bronze.

  1. Bradley afirma sua posição exemplificando uma “continuidade” do padrão curvilíneo com a construção do Catolicismo na Irlanda Medieval e o padrão circular associado à na construção de igrejas e monastérios, assim como da criação da “Irish Cross”. Acredito, entretanto, que seja necessário considerar a possibilidade de ser somente uma continuidade de uma tradição para adaptação local e não, necessariamente, uma escolha deliberada baseada em um simbolismo milenar que tenha sobrevivido sem grandes alterações desde a pré-história.

Um questionamento interessante é feito no capítulo quatro: é necessário levar em consideração a audiência para a qual o monumento foi feito – entendendo que a maioria das pessoas só teria acesso à parte externa dos monumentos e a maioria dos estudos não leva isso em consideração; há uma crítica excessiva à muita atenção prestada ao interior dos monumentos e à pouca ênfase dada ao exterior – formato e direcionamento, que muitas vezes lembram moradias e ocupações domésticas. Neste ponto, se faz necessário abrir uma ressalva, pois a crítica do autor está inserida no contexto de estudos da arqueologia da paisagem e é consequência direta da forma como ele entende e analisa os monumentos. A arqueologia da paisagem é um campo da Arqueologia que estuda a forma como as pessoas do passado moldavam sua paisagem e nela viviam. Assim, ao ter como foco os monumentos e assentamentos que se integram aos traços geográficos e ambientais, é possível buscar entender o âmbito socioeconômico para, consequentemente, chegar-se ao cultural. A paisagem, desse modo, é entendida como uma construção sociocultural. Assim, analisa-se a inter-relação entre os sítios e os espaços físicos que os separam a partir da análise extra-sítio (ver Anshuetz et al 2001; INGOLD, 1993; TILLEY, 1994; BENDER, 1992).

Ao introduzir no capítulo cinco a análise dos monumentos em pedra, trabalhando com noção de intencionalidade e escolha do material [5], leva em consideração a sua durabilidade (ver PEARSON & RAMILSONINA, 1998) e os compara com os monumentos de madeira, deixando explícita a diferenciação do foco de cada tipo de monumento: os de madeira seriam feitos para reuniões entre os vivos, e os de pedra, teriam ligação com os mortos e ancestrais. Além disso, é introduzido o questionamento sobre a datação das marcações feitas em terrenos (trabalhos de terraplanagem e construção de fossos) reconhecidas como henges: alguns deles seriam posteriores aos monumentos (círculos de pedra e madeira) que estão atualmente relacionados (ou assim era entendido).

Dessa forma, a inserção dos henges no contexto dos círculos de pedra, por exemplo, demonstra uma provável mudança no foco ritual desses locais, provavelmente ligados aos ritos de passagem (ver GENNEP, 1909; TURNER, 1969) com inversão de convenções sociais, transformação do estado pessoal e manutenção de forças dentro do círculo. Indo além, alguns desses henges e trabalhos de terraplanagem teriam o intuito de barrar a visão do interior dos monumentos, revelando a necessidade de uma audiência fechada, caracterizando uma hierarquia social, onde muitos construíam, mas poucos tinham acesso direto (seja visual, seja físico) ao centro do ritual [6] – e, por que não, da paisagem ritualizada.

Um dos exemplos usados pelo autor é o caso de Stonehenge, provavelmente o círculo de pedra mais conhecido, localizado na Inglaterra. Sua fama vem do fato de ser uma construção massiva em monólitos, que chama a atenção como centro de um microcosmo do mundo e dominando a paisagem que o cerca. A comoção maior surgiu no século XVIII com os antiquários [7], como John Aubey e William Stukley, que interpretaram o monumento erroneamente e acabaram criando uma tradição na qual ele seria construção feita pela população celta, voltado para atividades rituais: um templo dos druidas, popularmente conhecidos como “sacerdotes celtas” [8].

Os antiquários foram percussores/fomentadores de um movimento conhecido como Celtomania, intrinsecamente ligada ao Celtismo, conhecido como a invenção de uma “tradição” celta a partir dos antiquários do século XVIII, que influenciou fortemente os movimentos nacionalistas na Europa e desencadeou o fenômeno da Celtomania, no século XIX. Ligada ao imaginário popular, ao mítico, ao fantástico, baseou-se no Celtismo e nas lendas medievais. Atualmente, existe uma cultura pop com distorções ainda maiores, com ampliação das imagens criadas e com uma forte idealização mítica. Como consequência, foi criada uma alegoria do que teria sido a sociedade celta, com implicações políticas e identitárias fortes e que até hoje influencia religiosidades neopagãs – que (re)interpretam e (re)utilizam monumentos pré-históricos como sendo representantes de uma crença milenar e ancestral.

Apesar de sua importância indiscutível ao longo de séculos, Richard Bradley oferece muito pouco espaço para analisar Stonehenge. Com monólitos massivos moldados e cuidadosamente conectados, como peças de carpintaria, fazendo a ocorrência incomum para o tipo de círculo de pedras, o autor traz uma nova ideia, de que Stonehenge teria sido concebido como uma cópia de um edifício de madeira doméstico, mas infelizmente deixa o leitor perdido, no meio do questionamento, sem desenvolver mais sua teoria e sem proporcionar maiores detalhes.

Na penúltima parte do livro, que engloba os capítulos sete, oito e nove, o autor trabalha com a análise da existência das construções em formas retilíneas e retangulares em concomitância com as circulares. Seja por justaposição ou interação dessas estruturas, examina o motivo de a construção circular ter sido afetada à medida que a construção retangular fica mais proeminente. Essa análise se dá pelo estudo de caso em diferentes espacialidades no mesmo recorte temporal: Idade do Ferro na Sicília e nas Ilhas Britânicas, além da cultura dos Castros na Península Ibérica; e por meio de estudos etnográficos utilizando exemplos africanos.

No último capítulo, o autor faz um apanhado geral das ideias expostas em seu trabalho, traçando um elo comum entre os casos analisados: a experiência de viver em casas redondas seria uma ideia particular nas comunidades da pré-história europeia e seu formato seria uma escolha importante, uma vez que os monumentos circulares não foram substituídos por monumentos retilíneos e, quando a forma circular foi suprimida das casas, teria provavelmente ocorrido por pressão política; e teria sido direcionada, então, para a construção de templos. Apesar de possuírem um layout mais prático, as casas retangulares não foram completamente adotadas por comunidades sedentárias.

A escolha do autor pelo estudo e ênfase nas moradias e construções domésticas, (as casas), pode não ficar muito clara para o leitor até o final do livro. Ele parte sempre das casas como unidade principal de análise, mesmo para casos comparativos. Isto se deve ao fato que, para ele, é possível enxergar nos monumentos uma tentativa de utilizar o “protótipo” doméstico em escala aumentada. Como já exposto, esse modelo original doméstico influenciaria toda a visão de mundo e as escolhas simbólicas e rituais das populações, fazendo com que fosse massivamente reinterpretado ao longo do tempo, por diversas comunidades.

Após esta afirmação, permanece o questionamento: não seria simplificar em demasia o motivo e o poder de escolha de uma população a partir única e exclusivamente da influência do padrão de construção que a moradia possuía? Como é mostrado no próprio livro, as escolhas dos tipos de moradia são influenciadas também pela relação do homem no ambiente e na paisagem que o cerca. Se levarmos em consideração os estudos de paisagem, é possível percebê-la como dinâmica: o ambiente influencia a ação humana, as casas influenciam os monumentos, os monumentos influenciam as casas … e vice-versa.

Sendo assim, não seria mais lógico considerar a paisagem, na qual as casas e os monumentos estão inseridos, como uma plataforma interativa para a experiência humana, constantemente recriada por meio de construções físicas, metafísicas e simbólicas que alterariam continuamente o relacionamento e a percepção daqueles que nela se engajavam, criando a percepção humana de estar no mundo (TILLEY, 1994; INGOLD, 1993) e, isso sim, influenciar no padrão de construção das casas e monumentos?

Essa exposição só vem demonstrar o uso diferenciado do espaço na Europa, que tem a ver com o ambiente, a paisagem, a economia e o assentamento das populações – o que levou a reiterar uma das poucas conclusões do livro: há um padrão para as construções e uma dualidade – já exposta por Cunliffe (2008) – entre dois eixos da Europa. A arquitetura curvilínea é mais comum nas áreas conectadas pelo mar: oeste do Mediterrâneo e a costa do Atlântico, com poucos exemplos na França. Essas áreas eram extremamente conectadas durante o Neolítico e a Idade do Bronze e depois por contatos transoceânicos na Idade do Ferro e no Período Romano (CUNLIFFE, 2001). Sua caracterização não concretiza um dado que as comunidades ali presentes possuíam, reconheciam e partilhavam de uma origem comum, mas evidencia as trocas de longas distância. Já a arquitetura retilínea é mais comum no eixo da Europa continental, central e norte, enfatizada pelos contatos por terra, exemplificando uma diferença na forma de conceber e lidar com o mundo: na terra, contatos em redes, caminhos e trilhas; enquanto no eixo marítimo a paisagem é mais aberta, com o contato diferenciado entre o indivíduo, o horizonte e o céu – o que, certamente, influenciou na forma de construir, idealizar e habitar das populações.

The Idea of Order: The Circular Archetype in Prehistoric Europe é uma obra extensa, extremamente detalhada e descritiva, exigindo atenção e dedicação total do leitor, de preferência, com uma leitura lenta, atentando sempre para as correlações e os questionamentos que seguem encadeados ao longo dos nove capítulos e que são amarrados no capítulo final do livro. Ao finalizá-lo, o leitor dificilmente irá concluir, devido à enxurrada de questionamentos explicitados ao longo do texto, se existiu (ou não) um padrão circular presente no inconsciente coletivo e partilhado pelas populações préhistóricas através de gerações ou ainda se a ideia particular de ordem que sintetizaria a concepção circular do espaço seria fruto de uma consciência comum às populações préhistóricas da faixa Atlântica. O máximo que se poderá concluir é, como o próprio autor expõe: que não é possível afirmar, mas é válido fazer a pergunta.

Notas

1. Vale à pena salientar que para R. Bradley, a noção de arquétipo ultrapassa o significado basilar ligado a: padrão, modelo ou até paradigma. No curso de suas obras, o autor vai indicando que sua escolha se aproxima mais do conceito Junguiano de arquétipo, que seria um modelo de construção circular presente no (in)consciente coletivo das populações pré-históricas da faixa atlântica.

2. Sobre tradição inventada ver HOBSBAWM & RANGER, 1992.

3. Para o estudo mais aprofundado sobre a vida doméstica e sua influência, ver BRADLEY, 2005.

4. Tradicionalmente conhecido como arte do período La Tène (ver CUNLIFFE, 1997). 5 Relacionamento entre sujeito e objeto ver HODDER, 1995.

6. Entende-se como ritual atos que não fazem parte de atividades cotidianas e, em alguns casos, não domésticas que se comunicam através de mídia distinta para criar uma noção de tempo diferenciada: a fusão do passado no presente, com intuito de manter a ordem social (BELL, 1992).

7. Antiquarismo: movimento do século XVIII/XIX, anterior à arqueologia, composto por estudiosos, curiosos e colecionadores que tinham interesse nas relíquias do passado (Cf Trigger, 2004).

8. Para maiores informações, ver CUNLIFFE, 2010.

Referências

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BRADLEY, R. Rock art and the Prehistory of Atlantic Europe. London: Routledge, 1997.

____________. The Significance of Monuments: On the shaping of Human Experience in Neolithic and Bronze Age Europe. London: Routledge, 1998.

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____________. Prehistoric Britain and Ireland. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

____________. Image and Audience – Rethinking prehistoric Art. Oxford: Oxford University Press, 2009.

CUMMINGS, V. Building from Memory, Remembering the past at Neolithic monuments. In WILLIANS, H. (ed.). Western Europe in Archaeologies of Remembrance: Death and Memory in Past Societies. New York: Plenum Publishes, 2003, pp.24-29.

CUNLIFFE, B. The Ancient Celts. Oxford: Oxford University Press, 1997.

CUNLIFFE, B. (ed.). The Oxford Illustrated Prehistory of Europe. Oxford: Oxford University Press, 2001.

__________. The Celts: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press, 2003.

__________. Europe Between the Oceans: themes and variations: 9000 BC to AD 1000. Yale: Yale University Press, 2008.

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HOBSBAWM, E.; RANGER, T. (ed.). The Invention of Tradition. Cambridge: Cambridge University Press, 1992.

HODDER, Ian. Theory and Practice in Archaeology (Material Cultures). London: Routledge, 1995.

INGOLD, T. The Temporality of the Landscape. World Archaeology, 25 (2), 1993, pp. 152-174.

LEERSSEN, Joep. Celticism. In: BROWN, T. (ed.) Celticism. Editions Rodopi: Amsterdam, 1996, pp. 3-19.

OWOC, Mary-Ann. From the Ground Up: Agency, Practice, and Community in the Southwestern British Bronze Age. Journal of Archeological Method and Theory, 12 (4), 2005, pp. 257-281.

PEARSON, P.; RAMILSONINA. Stonehenge for the ancestors. The Stones pass on the message. Antiquity, 72, 1998, pp.308–26.

TILLEY, C. A Phenomenology of Landscape – places, paths and monuments. Oxford: Oxford University Press, 2006.

RENFREW, A. C.; BAHN, P. Archaeology: The Key Concepts. London: Routledge, 2005.

TRIGGER, B. História do Pensamento Arqueológico, São Paulo: Odysseus, 2004.

Ana Carolina Moliterno Lopes de Oliveira – Mestranda em História Social na Universidade Federal Fluminense (UFF) NEREIDA/UFF. E-mail: [email protected]


BRADLEY, RICHARD. The Idea of Order: The Circular Archetype in Prehistoric Europe. Oxford. Oxford University Press, 2012. Versão e-book. Resenha de: OLIVEIRA, Ana Carolina Moliterno Lopes de. Brathair – Revista de Estudos Celtas e Germânicos. São Luís, v.14, n.2, p. 129-138, 2014. Acessar publicação original [DR]

O comercio tardoantigo no Noroeste Peninsular: unha análise da Gallaecia Sueva e Visigoda a través do rexistro arqueolóxico | Adolfo Fernández Fernández

La Antigüedad Tardía es, a nivel general, una de las épocas menos estudiadas, sobre todo en lo que atañe a Hispania y especialmente a la zona del Noroeste. La obra que aquí reseñamos, titulada O comercio tardoantigo no Noroeste Peninsular: unha análise da Gallaecia Sueva e Visigoda a través do rexistro arqueolóxico [1] , viene a suplir, en cierta medida, un vacío que existía en uno de los campos menos estudiados y a los que menor atención se le había prestado, el comercio, focalizando su atención en una zona (la Gallaecia) y una época (siglos IV-VII) marcados por la irrupción en la Península Ibérica de diversos grupos bárbaros, destacando sobre todos ellos el grupo Suevo, que suplantó al Imperio Romano como dominador del Noroeste de Hispania desde comienzos del siglo V. Es por tanto una obra fundamental que permite contextualizar los pocos datos y la poca información que sobre la irrupción de este pueblo bárbaro tenemos y sobre las consecuencias intrínsecas que su instalación sobre el territorio hispano noroccidental supuso.

La obra, de Adolfo Fernández Fernández, surge como resultado de su tesis de doctorado, titulada El Comercio Tardoantiguo (ss. IV-VII) en el Noroeste peninsular a través del Registro Arqueológico de la Ría de Vigo, leída en el año 2011 en la Universidad de Vigo. Arqueólogo-ceramólogo especialista en economía y comercio de época romana, el propio autor indica en las páginas iniciales de su libro, escrito en gallego, de poco menos de 300, que este estudio surge de la ausencia de artículos y estudios científicos referidos al comercio en el Noroeste hispano desde la publicación de la obra de Naveiro López, El comercio antiguo en el NW peninsular, publicada en 1991. Debido al boom económico y urbanístico que vivió España (y en cierta medida también Portugal) las excavaciones arqueológicas, y por tanto nuevos materiales susceptibles de ser estudiados, han salido a la luz, y es por ello que el autor puso sus ojos en ofrecer a la comunidad científica este estudio tan interesante.

El libro se divide en cuatro apartados diferentes de desigual tamaño, más allá de una pequeña introducción donde nos deja entrever brevemente en el origen de sus investigaciones y su libro.

El primero de estos apartados se titula Os xacementos arqueolóxicos de Vigo: a base principal do estudo [2], en el cual Adolfo Fernández nos hace un recorrido por los diferentes yacimientos arqueológicos de los que provienen la mayor parte de los materiales que van a ser estudiados en el grueso de su obra. Todos ellos se encuentran en el núcleo urbano de Vigo (Pontevedra, España), excepto uno que está fuera, y aparecen englobados por el autor en tres categorías diferentes, basándose para ello en los diferentes grados de estudio de su material arqueológico: yacimientos con estratigrafía (Villa de Toralla, Unidad de Actuación Rosalía de Castro I, Marqués de Valladares y la Unidad de Actuación Rosalía de Castro II), yacimientos sin datos estratigráficos (Hospital nº 5, parcela 14, parcela 23, colector da rúa Colón y Areal 6-8) y yacimientos con materiales tardíos parcialmente estudiados (Parcela 13, túnel del Areal y Rosalía nº 5).

El segundo de estos apartados se titula Unha breve aproximación ás relación comerciais do Noroeste con anterioridade á Antigüidade Tardía. (Séc. V/VI a.C. – Séc. III d.C.) [3]. Al igual que el anterior, estamos ante un capítulo que podemos denominar introductorio, en tanto en cuanto su función no es otra que la de contextualizar los dos siguientes apartados, que conforman el grueso de la obra. Dado que, como bien indica el título, esta obra tiene como marco cronológico la Antigüedad Tardía, el autor consideró necesario este capítulo para establecer un marco de partida, de referencia, para poder entrever las rupturas o las continuidades de los sistemas mercantiles y comerciales en el Noroeste con la época anterior, de ser el caso.

Tras estos dos apartados, entramos de lleno en su estudio, con un tercer apartado de poco más de 120 páginas, el de mayor tamaño del libro con diferencia, titulado As relacións do noroeste e as rutas de comercio durante a Antigüidade Tardía. (Sécs. IV – VII.) [4] . Dado su volumen y su importancia, el autor lo ha dividido en cinco capítulos, abordando en cada uno de ellos las características del sistema comercial del Noroeste hispano a lo largo de diferentes periodos de tiempo, caracterizados cada uno de ellos por peculiaridades propias. Estas fases del sistema comercial del Noroeste abarcan desde el siglo IV hasta el VII, analizados siguiendo un orden cronológico.

Una de las claves más interesantes de este libro radica en el estudio de los sistemas comerciales en la época de llegada de los pueblos bárbaros a Hispania, y especialmente en la época del asentamiento de los Suevos en la zona estudiada, el Noroeste. Por tanto, las conclusiones que de este trabajo se extraigan serán indispensables para conocer mejor las relaciones de este nuevo poder bárbaro con los poderes locales galaicorromanos, y para desmentir o afirmar la tan manida cuestión de si este grupo bárbaro arrasó violenta y cruentamente estos lugares.

En las últimas décadas se ha venido aseverando por parte de historiadores y arqueólogos, a través de una actitud más crítica hacia las fuentes y de mayores estudios arqueológicos sobre esta época, la actitud más o menos pacífica, o por lo menos no destructiva, de los grupos bárbaros en su llegada y asentamiento en el Noroeste. Este estudio por tanto se convertirá en un argumento más para reafirmar este “pacifismo” de los grupos bárbaros, o al contrario, para mostrar cierto rupturismo consecuencia de su llegada.

Del mismo modo, este estudio cronológico, con sus rupturas o sus continuidades, nos ofrece importante información sobre épocas para las cuales no tenemos apenas información en en la Gallaecia, como por ejemplo el último tercio del siglo V, donde a partir del fin de la Crónica de Hidacio de Chaves no tenemos información alguna. Así pues, a través de este estudio podemos acercarnos mínimamente a esta época para comprobar si, en un sentido general, se producen continuidades con la época anterior o si por el contrario existe alguna ruptura importante que nos esté dando cuenta de algún suceso que motivó ese cambio, pero que no conocemos por ninguna fuente escrita.

Por otra parte, es también interesante el análisis del siglo VI, donde a través del estudio del autor se confirman cambios producidos por el nuevo panorama político del momento, como es el avance militar bizantino en Italia y el sur de Hispania, que provocan que los materiales provenientes del Mediterráneo oriental sean superiores a los productos tradicionales venidos del Norte de África. Asimismo, se constata una ruptura en esta época del comercio entre el Noroeste y las Islas Británicas, un hecho que a priori se desconocía y que el autor concluye producto de la peste de esta época.

Finalmente, como último capítulo de este apartado, el autor, en unas siete páginas finaliza el apartado haciendo referencia a la segunda mitad del siglo VII, en una especie de epílogo del mismo donde nos dice que, a pesar de no haber contextos arqueológicos para esta época en Vigo o en el Noroeste, se puede apreciar a nivel general en Occidente un repliegue sobre sí mismo debido al avance de los árabes por el Mediterráneo Oriental y Norteafricano, que puede suponer una verdadera ruptura en el sistema comercial heredado de época romana.

Llegamos así al último apartado del libro, titulado As mercadorías e os protagonistas do comercio [5] , en donde el autor pretende mostrar la información no desde una óptica cronológica como en el capítulo anterior, sino desde un punto de vista que podemos denominar como temático, estudiando así por ejemplo las mercancías por un lado, los protagonistas del comercio por otro, etc.

En general, este apartado es dividido por el autor en tres capítulos. El primero dedicado las mercancías exportadas e importadas en Vigo en particular y en el Noroeste en general, donde el autor contextualiza todos los materiales hallados en las excavaciones, afirmando que estos no serían el objeto principal del comercio, sino al contrario. La cerámica, el maíz, etc., serían mercancías de valor secundario que acompañarían a otras mercancías de lujo, más lucrativas, que serían el verdadero motor del comercio a larga distancia, mercancías que obviamente no se suelen encontrar en la mayoría de yacimientos arqueológicos, como serían joyas, textiles, perfumes, o incluso metales. En este sentido, el autor concluye que el verdadero motor que llevaría a los comerciantes a llegar hasta el Noroeste sería el alumbre. Por su parte, del Noroeste se llevarían probablemente metales como estaño o incluso plomo, y también probablemente madera.

El segundo capítulo de este cuarto y último apartado hace referencia a los protagonistas de los intercambios, es decir, aquellas personas que eran los promotores del comercio en el Noroeste. Adolfo Fernández hace un buen análisis incidiendo no sólo en los encargados del comercio de larga distancia, que estaría dominado por mercaderes extranjeros (griegos, judíos, sirios) sino también hace referencia a la importancia de los comerciantes locales de los emporios de distribución del Noroeste, dominados por galaicorromanos o suevos, encargándose estos de la captación de los productos orientados a la exportación y también de la redistribución de los productos mediterráneos hacia el resto del mundo atlántico.

Finalmente, termina este apartado, y también su obra, con un tercer capítulo titulado O porto de Vigo durante a Antigüidade Tardía: Un emporio atlántico [6], donde en unas nueve páginas concluye reafirmando la importancia del puerto de Vigo durante esta época, con un momento de especial esplendor durante el siglo VI y primera mitad del VII. Este puerto sería el último puerto en el que se detendrían los comerciantes de larga distancia, y funcionaría como lugar de redistribución de las mercancías para todo el Noroeste Peninsular.

La obra culmina con una extensa bibliografía sobre la temática del libro, que abarca poco menos de cuarenta hojas, lo que se puede considerar un gran acierto para quien esté interesado en indagar más aún sobre esta temática.

En definitiva, estamos delante de una obra de gran importancia que viene a llenar un hueco existente, una laguna en el conocimiento sobre la Antigüedad Tardía del Noroeste Peninsular y que no solo es importante desde el punto de vista de que se amplía el conocimiento de los sistemas comerciales en la Época Antigua, sino que es un argumento más para contextualizar un lugar y una época marcada, sin lugar a dudas, por cambios políticos en la zona de gran calado, como fue sobre todo la llegada del grupo bárbaro suevo a la Gallaecia.

O comercio tardoantigo no Noroeste Peninsular viene, en definitiva, a ser un argumento a favor de los nuevos planteamientos que sugieren que la llegada y el asentamiento de los Suevos en el Noroeste no fue en absoluto un momento de caos y destrucción por su parte sino que, al contrario, supusieron la continuidad de los sistemas económicos y comerciales heredados de la Antigüedad, con las obvias variaciones y fluctuaciones propias de un mundo en constante cambio, pero que no tienen que ver con una acción directa y premeditada por parte de los grupos bárbaros.

Notas

1. Dado que la obra está escrita en gallego, traduciremos al castellano, en notas a pié de página, los títulos, apartados y capítulos que en la obra vienen en este idioma, para que el lector los entienda sin dificultad. El título de la obra, en castellano, El comercio tardoantiguo en el Noroeste Peninsular: un análisis de la Gallaecia Sueva y Visigoda a través del registro arqueológico.

2. En castellano, Los yacimientos arqueológicos de Vigo: la base principal del estudio.

3. En castellano, Una breve aproximación a las relaciones comerciales del Noroeste con anterioridad a la Antigüedad Tardía. (Séc. V/VI a.C. – Séc. III d.C.).

4. En castellano, Las relaciones del Noroeste y las rutas de comercio durante la Antigüedad Tardía. (Sécs. IV – VII.).

5. En castellano, Las mercancías y los protagonistas del comercio.

6. En castellano, El puerto de Vigo durante la Antigüedad Tardía: Un emporio atlántico.

Benito Márquez Castro – Doctorando del Programa de Doctorado Historia, Territorio y Recursos Patrimoniales de la Universidad de Vigo Diputación de Pontevedra. E-mail: [email protected]


FERNÁNDEZ FERNÁNDEZ, Adolfo. O comercio tardoantigo no Noroeste Peninsular: unha análise da Gallaecia Sueva e Visigoda a través do rexistro arqueolóxico. Noia: Toxosoutos, 2013. Resenha de: CASTRO, Benito Márquez. Brathair – Revista de Estudos Celtas e Germânicos. São Luís, v.14, n.2, p. 129-138, 2014. Acessar publicação original [DR]

Oficina do Historiador. Porto Alegre, v.7, n.1, 2014 / v.11, n.2, 2018.

Oficina do Historiador. Porto Alegre, v.7, n.1, 2014.

Oficina do Historiador. Porto Alegre, v.7, n.2, 2014.

Identidades e representações: pensamentos e práticas históricas.

Publicado: 2014-12-04

Oficina do Historiador. Porto Alegre, v.8, n.1, 2015.

A Grande Guerra (1914-1918)

Publicado: 2015-07-03

Oficina do Historiador. Porto Alegre, v.8, n.2, 2015.

História da Ciência

Publicado: 2015-11-25

Oficina do Historiador. Porto Alegre, v.9, n.1, 2016.

Radicalismos Políticos

Publicado: 2016-06-29

Oficina do Historiador. Porto Alegre, v.9, n.2, 2016.

Corporativismo

Publicado: 2016-12-21

Oficina do Historiador. Porto Alegre, v.10, n.1, 2017.

História e Gênero

Publicado: 2018-01-11

Oficina do Historiador. Porto Alegre, v.10, n.2, 2017.

O Governo Vargas e os 80 anos de Estado Novo

Oficina do Historiador. Porto Alegre, v.11, n.1, 2018.

Publicado: 2018-07-29

Oficina do Historiador. Porto Alegre, v.11, n.2, 2018.

Publicado: 2018-12-18

Boletim Historiar. São Cristóvão, n.3, 2014.

Artigos

Resenhas

Publicado: 2014-07-03

Revista de Ensino de Geografia. Uberlândia, v. 5, n. 9, jul./dez. 2014.

APRESENTAÇÃO

Editoria

ARTIGOS

RELATOS DE EXPERIÊNCIA E PRÁTICA

RESENHA

El aprendizaje basado en problemas. Un enfoque investigativo – BARELL (A-RDH)

BARELL, John. El aprendizaje basado en problemas. Un enfoque investigativo. Sn.: Editorial Manantial, 1999. Resenha de: SILVA, David Aceituno. El aprendizaje basado en problemas y la enseñanza de la historia: una oportunidad para el estudiante, un desafío para el professor. Andamio – Revista de Didáctica de la Historia, Valparaíso, v.1, n.1, jul., p.133-136, 2014.

Cada semana los docentes se ven enfrentados a un gran reto, entusiasmar a sus estudiantes a aprender diversos contenidos de Historia, Ciencias Sociales y Geografía. Parece una tarea fácil pero desde el primer momento queda patente que el interés por conocer algún hecho acontecido hace varios lustros es más bien escaso, esto hace que la tarea de generar aprendizajes más profundos, como buscar las explicaciones o comprender los procesos que se “esconden” detrás de los datos y las fuentes, sea casi una batalla aún más ardua.

Es evidente que no existen recetas ideales para hacer que los estudiantes hagan un “salto cualitativo” en sus aprendizajes, pero de vez en cuando surgen propuestas lo suficientemente flexibles y bien diseñadas como para que el docente pueda recogerlas e incorporarlas a su “cinturón de herramientas”. Leia Mais

Hannah Arendt e a modernidade: política, economia e a disputa por uma fronteira – CORREIA (RFA)

CORREIA, Adriano. Hannah Arendt e a modernidade: política, economia e a disputa por uma fronteira. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014. Resenha de: MELLEGARI, Iara Lúcia. Revista de Filosofia Aurora, Curitiba, v.26, n.39, p.917-924, jul./dez, 2014.

Hannah Arendt é uma importante e polêmica pensadora política contemporânea. Sua obra pode ser compreendida como uma resposta ao que ela considerou o problema mais crucial do seu tempo, o fenômeno totalitário. Esse evento, sem precedentes históricos, teria ocasionado, segundo ela, uma ruptura com a tradição filosófica, uma vez que colocou em questão os critérios morais e políticos tradicionais para opor-lhe “antídotos eficazes” (DUARTE, 2000, p.25). Arendt constatou, nesse evento, a instauração de uma nova forma de governo e dominação, baseado na organização burocrática de massas, no terror e na ideologia, que demandava uma extrema dificuldade de compreensão, em razão da lógica de paradoxos contida em sua estrutura. Movida pelo sentimento de compreender o que teria possibilitado a ocorrência de tal fenômeno, era preciso repensar toda a tradição no sentido de encontrar os recursos teóricos que permitissem sugerir algumas alternativas políticas à catástrofe totalitária.

Contudo, à diferença da maioria dos filósofos, ela não se preocupou em elaborar um sistema teórico rígido, inflexível. Sua teoria política, como um todo, defende a importância da diversidade de opiniões e procura evitar a repressão do livre intercâmbio das ideias, comum em governos totalitários. Por isso, ao enfatizar a importância de perspectivas novas e diferentes que surgem continuamente no mundo, sua teoria é um constante esforço em entender a multifacetada natureza da vida política.

Mencione-se, ainda, que distintamente de renomados filósofos de seu tempo, que usavam uma linguagem tipicamente filosófica, Arendt era uma escritora de linguagem clara que, com frequência, escrevia para o público em geral, não se restringindo aos leitores do mundo acadêmico, tornando, assim, muitas de suas ideias apreciáveis pelos recém-chegados ao seu pensamento. Entretanto, por ser uma escritora extremamente fértil, que tratou de diversos temas, é quase impossível a compreensão rápida da visão do seu pensamento (FRY, 2009, p.11) Nesse sentido, Adriano Correia propicia com seu livro, Hannah Arendt e a Modernidade: política, economia e a disputa por uma fronteira, um importante instrumento de auxílio para a compreensão da teoria política de Arendt, passando, assim, a fazer parte do elenco daqueles autores cujas obras tornam-se leitura indispensável para quem deseja conhecer e, sobretudo, entender o pensamento arendtiano.

O livro que ele nos apresenta, composto de oito capítulos, em suas duzentas páginas, trata com muita propriedade de temas fundamentais da teoria política de Hannah Arendt. Com erudição e muito fiel ao espírito arendtiano, examina questões como o liberalismo e a prevalência do econômico; a biopolítica; a diluição da distinção entre a esfera pública e a esfera privada com a consequente ascensão do social; o conceito de poder; as análises das Revoluções Modernas sob o prisma da liberdade política, tão cara a Arendt; os sistemas de conselhos; entre outros. Mas o foco principal do livro são os temas da alienação e perda do mundo, e a vitória do animal laborans, reflexões centrais de Arendt em sua obra A Condição Humana. Preocupada com a desestabilização do mundo e com o progressivo desinteresse do homem moderno pela ação política, ela propõe, em A Condição Humana, “refletir sobre o que estamos fazendo” (ARENDT, 2008, p.13). A hipótese geral de Correia é que o movimento final dessa obra de Arendt, notadamente no que concerne ao que ela denomina a “vitória do animal laborans”, conserva seu vigor para uma critica do presente, e que certos fenômenos, a exemplo da prevalência do consumo cada vez mais intenso na definição das formas de vida, fazem parte do movimento de alienação do mundo (CORREIA, 2014, p.XXX).

Na era moderna, ocorre o que Arendt entende por alienação de mundo, na medida em que a tecnologia, o progresso científico e a introspecção, conjugados com o primado do trabalho, acarretarão a perda do senso comum. A alienação acontece em duplo sentido: tanto no do abandono da Terra, desencadeado a partir da invenção do telescópio, que impulsionou a conquista do espaço e descobertas para além dos limites da Terra, quanto no da alienação do homem para o interior de si mesmo, iniciada por Descartes, que teria aberto o caminho para uma relação intrínseca entre certeza e introspecção, sendo levada a cabo pela Reforma Protestante “na sua alienação em direção a um mundo interior, coroando a desterritorialização com a universalização do indivíduo humano enquanto ser racional” (CORREIA, 2014, p.46). Arendt chama a atenção para o fato de que, nesse cenário moderno, a ação humana não ocorrerá mais no campo político, mas no âmbito técnico-científico e na crescente esfera social, ditada pelas necessidades privadas. Correia perpassa, com acuidade, o percurso arendtiano que conduzirá à perda de mundo e à vitória do animal laborans, que vão se operar, na visão de Arendt, na articulação entre a condição humana, o surgimento da sociedade e a prevalência de uma mentalidade atrelada ao mero viver por meio do trabalho e do consumo (CORREIA, 2014, p.71).

Animal laborans é a expressão utilizada por Arendt para designar a condição humana, cujas atividades correspondem ao processo biológico do corpo humano, no qual o crescimento espontâneo, o metabolismo e eventual declínio têm a ver com as necessidades do processo vital. Tal atividade, presa ao ciclo da natureza, não humaniza, não singulariza nem transcende a necessidade natural de sobrevivência, de modo que o homem nessa condição não passa do animal humano. Distintamente, a condição humana do trabalho, correspondente à atividade do homo faber, relaciona-se à fabricação, ao artifício humano que constrói coisas que servem de uso para os homens, traduzindo, por sua vez, a capacidade propriamente humana de edificação de mundo. Corresponde, assim, à condição humana da mundanidade, na qual é possível reconhecer vidas individuais e não apenas a vida da espécie (CORREIA, 2014, p.87). Nessa atividade, bem observa Adriano, não se trata mais de sintonizar o ritmo da existência ao ritmo da natureza, como naquela do animal laborans, mas de dispor da natureza para extrair dela material para a edificação do mundo. O homo faber, portanto, já vive uma vida humana, mesmo que não na plenitude de suas potencialidades, uma vez que esta somente será alcançada no mundo politicamente organizado, no qual a aparição das singularidades, por meio da ação e do discurso, promove o intercâmbio das diferentes perspectivas que constituem o sentido do mundo (CORREIA, 2014, p.88). A ação é, pois, para Arendt, a única atividade política por excelência, uma vez que ela é exercida diretamente entre os homens, sem a mediação das coisas ou da matéria. Ela corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que homens — e não o homem — habitam o mundo. Dessa forma, a pluralidade é a condição específica de toda a vida política (ARENDT, 2008, p.15).

Entretanto, o moderno movimento em direção à desqualificação da vida contemplativa, na passagem da ordem do Ser para a do Conhecer, associada à inversão de posições entre a ação e a fabricação, resultará na vitória do animal laborans sobre o homo faber. Ditado pelo progresso e impelido pelo avanço da tecnologia em um mundo capitalista em ascensão, o engenho do homo faber será canalizado para o ciclo produtivo, no qual a exigência do desejo de consumo e de produção se ampliará com uma velocidade ímpar, fazendo com que a condição do homo faber, de sujeito do processo de produção, transforme-se em instrumento desse processo. O animal laborans, na medida em que incorpora a engenhosidade do homo faber, vê ampliado o horizonte de suas necessidades e carências, bem como o da sua produtividade, por intermédio da divisão do trabalho e da mecanização. Com a emancipação do trabalho proporcionada pelo homo faber, o animal laborans, transfigurado pelo uso da técnica, vai promover constantemente “o crescimento artificial do natural”. Nesse movimento, labor e consumo voltados para a sobrevivência e satisfação seguirão um ao outro em um processo contínuo e serão apenas dois estágios do ciclo incessante da vida biológica. Assim, os ideais de permanência, estabilidade e durabilidade do homo faber serão vencidos pelo ideal de abundância, que o animal laborans compreende como felicidade (CORREIA, 2014, p.97). Correia elucida como o conceito de processo foi devastador para uma atividade que extrai o seu sentido da relação meios-fim. A diluição da fronteira entre uso e consumo e a consequente ilimitabilidade de um consumo desatrelado das necessidades vitais imediatas, em um “modo de vida” artificialmente natural, promove a desertificação do mundo do homo faber de modo análogo ao do terror, no âmbito da dominação totalitária, com o mundo comum do homem de ação (CORREIA, 2014, p.103).

Na concepção de Arendt, o princípio da utilidade que prevalecia nos primórdios da modernidade, cuja condição de meio servia para a produção de coisas no mundo, foi substituído pelo princípio da felicidade, representado pela priorização da produção e consumo. A redução do espaço público pela conquista de interesses dessa natureza e o desaparecimento das atividades propriamente políticas da ação e do discurso abriram caminho para dominações totalitárias, que são a ausência de política. A promoção de uma vida radicalmente antipolítica — aquela do trabalhador consumidor — fomentou essa dominação. Por essa razão, Arendt é contra e nunca acreditou no liberalismo. Ao defender a liberdade em seu sentido negativo — como não impedimento — o liberalismo separa a liberdade da política, concepção que se opõe ao conceito de liberdade defendido por Arendt, que pensa a liberdade como um fenômeno eminentemente político, representado pela ação livre dos indivíduos no espaço público.

A vitória do animal laborans, segundo Arendt, está relacionada à promoção do trabalho decorrente do advento social, quando o antigo abismo entre o restrito domínio do lar e o elevado domínio político foi progressivamente preenchido por uma “organização pública do processo vital”. Com a diluição da divisão entre a esfera privada e a pública, as questões sociais e interesses privados adquirem relevância pública, ou seja, o privado e o público dissolvem-se no coletivo, no qual não se espera por ação, mas por comportamentos, uma vez que se impõem “inúmeras e variadas regras, todas elas tendentes a ‘normalizar’ os seus membros, a fazê-los comportarem-se, de modo a excluir a ação espontânea ou a façanha extraordinária” (ARENDT apud CORREIA,. 2014, p.89). Nessa perspectiva, a vitória do animal laborans, não coincide com “classe social” alguma, mas com uma “mentalidade”, ou ainda, na indicação de Correia, com um paradoxal “modo de vida” extraído das condições do mero viver. Por isso, para compreender a relação entre economia e política na era moderna, é preciso atentar para esse outro sentido da expressão animal laborans como “modo de vida”, assim como no do produto de uma sociedade atomizada.

A ascensão do social e a prevalência do econômico no espaço público têm como resultado a redução da ação política livre, que passa a ter como foco a administração de questões oriundas da esfera privada. Isso destoa da concepção de política de Arendt, pois para ela uma ação genuinamente política não envolve questões de natureza social ou econômica, uma vez que estas estariam restritas aos assuntos do âmbito privado. E aqui surge uma questão polêmica na teoria de Arendt, que Adriano Correia enfrenta com muita honestidade: a dificuldade da filósofa “na compreensão dos vínculos estreitos entre economia e política no âmbito do capitalismo” (CORREIA, 2014, p.100). Apesar de reconhecer nas questões sociais as necessidades dos mais pobres, Arendt não deixa claro qual o mecanismo ou o procedimento pelos quais essas questões seriam admitidas no domínio político sem provocar a sua ruína ou se converter em uma usurpação do espaço público por interesses privados. De forma coesa, Adriano promove um diálogo com os críticos de Arendt, visando elucidar tais problemas.

Nesse contexto, a política se transforma em biopolítica, uma vez que suas atividades voltam-se exclusivamente ao gerenciamento de questões relativas à sobrevivência da vida em suas necessidades biológicas e de consumo. Tema que Correia aborda sob a ótica das teorias de Arendt, Foucault e Agamben, traçando as proximidades e distâncias entre esses autores. Nesse sentido, lembra as reflexões de Michael Foucault ao apontar o processo por meio do qual, nos limiares da Idade Moderna, a vida natural começa a ser incluída nos mecanismos e nos cálculos do poder estatal, e a política se transforma em biopolítica:

por milênios o homem permaneceu o que era para Aristóteles: um animal vivente e, além disso, capaz de existência política; o homem moderno é um animal em cuja política está em questão a sua vida de ser vivente (AGAMBEN, 2004, p.11).

Para Foucault, a sociedade civil torna-se o correlativo da tecnologia liberal de governo, pois na medida em que o soberano, pautado pela tese liberal de que o Estado deve manter distância da economia, ele não pode governar o homo economicus. Por essa razão, a governabilidade só pode ser garantida no campo da sociedade civil. As conclusões de Correia sugerem que Foucault e Arendt, ainda que por caminhos argumentativos distintos, julgam que a modernidade pode ser compreendida politicamente como o primeiro período na história em que o mero estar vivo assume relevância política e é alvo da gestão estatal.

Em sua parte final, após tratar do conceito de poder em que articula um diálogo com a concepção de Arendt e Habermas, o livro trata de questões como a liberdade política, direitos humanos e o sistema de conselhos, capaz de proporcionar a participação de todos os cidadãos na vida política. A questão da liberdade, aqui tratada, está inserida no contexto das Revoluções Modernas, principalmente a americana e a francesa, as quais Arendt analisa destacando suas diferenças, seus aspectos comuns positivos e seus fracassos. Tomando como ponto de partida a afirmação “a tradição revolucionária e seu tesouro perdido”, feita por Arendt em Sobre a revolução, bem como sua concepção de que a liberdade política só pode significar a efetiva participação no governo, Adriano Correia vai reconstruir o pano de fundo dessas convicções, examinando, sobretudo, os vínculos entre liberdade, engajamento e participação (CORREIA, 2014, p.175). Como um ponto comum entre as revoluções, cita que em ambas a ideia central da revolução é a de fundação da liberdade, isto é, a “fundação de um corpo político que garante o espaço onde a liberdade pode aparecer” (ARENDT apud CORREIA, 2014, p.179). Um de seus fracassos, contudo, estaria relacionado à sua incapacidade de converter em forma de governo a experiência do sistema de conselhos, vale dizer, “um novo espaço público para a liberdade que se constituía e se organizava durante o curso da própria revolução” (CORREIA, 2014, p.206). Esse novo tipo de organização política permitiria eventualmente a todos os cidadãos participar ativamente do governo.

A despeito de todas as razões e dificuldades, que segundo Arendt impediram a efetivação plena do espírito revolucionário, ela nunca duvidou da capacidade de resistência à opressão. Nesse sentido, Correia observa que “os movimentos recentes em várias partes do mundo em grande medida reverberam a convicção arendtiana de que a paixão pela liberdade e pela felicidade públicas pode ainda inspirar o engajamento político para além das demandas estritamente econômicas e sociais, ainda que frequentemente provenham delas” (CORREIA, 2014, p.195). As análises e interpretações efetuadas por Adriano Correia trazem à luz e revelam a atualidade do pensamento de Arendt, e reavivam a promessa de que a liberdade pode ser restituída como uma experiência política e se afirmar em oposição à prevalência de uma vida que não almeja sair do estrito âmbito da satisfação das necessidades.

Referências

AGAMBEN, G. Homo sacer I: o poder soberano e a vida nua. Tradução de H. Burigo. Belo Horizonte: UFMG, 2004.

ARENDT, H. A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

CORREIA, A. Hannah Arendt e a modernidade: política, economia e a disputa por uma fronteira. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014.

DUARTE, A. O Pensamento à sombra da ruptura: política e filosofia em Hannah Arendt. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

FRY, K. A. Compreender Hannah Arendt. Tradução de Paulo Ferreira Valério. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.

Iara Lúcia Mellegari – Doutoranda em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Curitiba, PR – Brasil. E-mail: [email protected]

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La Educación Patrimonial en la Escuela y el Museo. Investigación y experiencias – EDIPATRI (I-DCSGH)

EDIPATRI (Educación e Interpretación del Patrimonio). La Educación Patrimonial en la Escuela y el Museo. Investigación y experiencias. Huelva: Servicio de Publicaciones de la Universidad de Huelva, 2013. Resenha de: CALAF MASACHS, Roser. Íber – Didáctica de las Ciencias Sociales, Geografía e Historia, n.77, jul., 2014.

Tenemos la ocasión de comentar un libro que es el resultado de investigaciones realizadas al amparo de EDIPATRI (Educación e Interpretación del Patrimonio), grupo de investigación ubicado en el Departamento de Didáctica de las Ciencias y Filosofía, y con sede en la Facultad de Ciencias de la Educación de la Universidad de Huelva.

Se publican los resultados del proyecto I+D+i «El patrimonio y su enseñanza: análisis de recursos y materiales para una propuesta integrada de educación patrimonial», y, en particular, la opinión del profesorado de educación primaria y educación secundaria obligatoria de centros de enseñanza de Huelva capital y provincia, así como la de gestores de museos histórico-artísticos, museos de ciencias y de parques nacionales. Aportaciones que se realizaron con motivo de unas jornadas de reflexión realizadas entre los días 19 y 20 de octubre de 2011 en el Departamento de Didáctica de las Ciencias y Filosofía de la Universidad de Huelva.

El trabajo que protagoniza el libro se deriva de otros dos proyectos de I+D que mencionamos en líneas sucesivas. En el bloque I se presentan los fundamentos teóricos y metodológicos de la línea de investigación EDIPATRI y su recorrido en los últimos quince años, destacando el rasgo que lo caracteriza: «El tratamiento del patrimonio desde una perspectiva multidisciplinaria y holística, capaz de integrar todos los tipos de patrimonios, conectar la educación formal con la comunicación patrimonial en contextos no formales e informales, así como dar sentido y reforzar ciertos aspectos identitarios de las sociedades».

En el bloque II se proponen los resultados de investigación más relevantes de los proyectos I+D «La enseñanza y difusión del patrimonio desde las instituciones educativas y los centros de interpretación»: «Concepciones sobre el patrimonio desde una perspectiva holística» y «La imagen de Andalucía trasmitida por los museos andaluces: análisis conceptual y didáctico». Ambos proyectos, junto con el que ha dado lugar a esta publicación, son complementarios, con objetos de estudios que confluyen en una misma línea: conocer la complejidad y las características de los diferentes elementos que intervienen en los procesos de educación patrimonial, detectando los obstáculos que impiden su desarrollo deseable, y estableciendo los criterios y parámetros necesarios para superarlos. De esta forma, se sintetizan los resultados de los proyectos de I+D «La enseñanza y difusión del patrimonio desde las instituciones educativas y los centros de interpretación». «Concepciones sobre el patrimonio desde una perspectiva holística» (dirigido por Jesús Estepa) y «La imagen de Andalucía transmitida por los museos andaluces: análisis conceptual y didáctico» (dirigido por José M.ª Cuenca). Los resultados manifiestan algunas dificultades epistemológicas, metodológicas y teleológicas que, fundamentalmente, derivan de los desequilibrios formativos en relación con el patrimonio. Así, de los colectivos que intervienen en el estudio, los maestros, que cuentan con una formación didáctica superior al resto pero inferior en lo que respecta a cuestiones sociales e históricas, muestran problemas relacionados con la epistemología y la conceptualización del patrimonio. En cambio, los profesores de secundaria (sobre todo del área de geografía e historia) y los gestores, con más peso disciplinario en su formación, muestran un mayor dominio conceptual, pero manifiestan notables carencias metodológicas para desarrollar acciones educativas eficaces a partir del patrimonio. Todo ello acaba generando dificultades que impiden captar y comprender la finalidad del patrimonio. Un problema que es mucho más acusado en el caso de los gestores, en tanto que son los principales responsables de las instituciones y programas relacionados con el patrimonio.

En el bloque III de este volumen, capítulos 7 al 11, se recoge la visión de más de 25 participantes (maestros, profesorado de ciencias sociales, geografía e historia, ciencias de la naturaleza y física y química, así como de gestores del patrimonio). También se recogen ideas en relación con la educación patrimonial que ofrecen los libros de texto y los materiales didácticos de espacios patrimoniales. Sus aportaciones como usuarios, en el caso del profesorado, o como diseñadores de materiales didácticos, en lo que se refiere a los gestores patrimoniales, complementan y matizan el análisis realizado en el proyecto de investigación mencionado en relación con el patrimonio en los libros de texto y materiales didácticos de los museos y centros de interpretación del patrimonio. Además, se ha obtenido información adicional que ha enriquecido nuestro conocimiento sobre la enseñanza y el aprendizaje del patrimonio, sus dificultades y sus obstáculos, pero también sobre las propuestas y las experiencias que el profesorado y los gestores promueven para intentar superar tales limitaciones.

El Bloque IV reúne 5 trabajos que presentan otros tantos proyectos de tesis doctorales en curso relativos a la educación patrimonial en contextos formales, no formales e informales, dirigidos por miembros del equipo de investigación de EDIPATRI y realizados mayoritariamente por colaboradores de los proyectos de investigación desarrollados desde el 2003 hasta la actualidad. Asimismo, en el último capítulo de este bloque de contenidos se presenta una síntesis de la tesis leída en 2012 en el seno de EDIPATRI. Su autora (Myriam Martín Cáceres bajo la dirección de José M.ª Cuenca) plantea la importancia del museo como comunicador, desarrollando una investigación cualitativa de gran precisión metodológica.

En el Bloque V, capítulos 18 a 24, se recogen las experiencias didácticas en relación con el patrimonio que han desarrollado algunos de los participantes (profesorado y gestores) en estas Jornadas, lo que nos permite acercarnos al conocimiento de la práctica de la enseñanza y comunicación didáctica del patrimonio en la escuela y los museos.

Finalmente, el último capítulo del libro pretende ser síntesis y conclusión de lo tratado en el mismo, planteando las líneas de investigación actuales y las nuevas perspectivas en la investigación en educación patrimonial. Tras estas conclusiones se presenta un anexo fotográfico y bibliográfico.

Hay que agradecer el trabajo de compilación que ha hecho Jesús Estepa, dado el esfuerzo de publicación que ha significado el libro en estos tiempos de crisis. Y sólo me resta felicitar a EDIPATRI por el trabajo realizado.

Roser Calaf Masachs

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¿Qué hacemos con la educación? – MORENO (I-DCSGH)

MORENO, A. (coord.) ¿Qué hacemos con la educación? Barcelona: Akal, 2012. Resenha de: RAMADA PRIETO, Lucas. Íber – Didáctica de las Ciencias Sociales, Geografía e Historia, n.77, jul., 2014.

No parecen correr buenos tiempos para la escuela pública. En un contexto socioeconómico de obvias dificultades como el que venimos arrastrando durante hace ya varios años, la inversión en una educación universal, gratuita y de calidad carece de la «confianza» necesaria de aquellos encargados de administrar los recursos con los que dar forma a nuestro estado de bienestar. El clamor dentro del gremio docente es más que notable, y la «marea verde» es el símbolo evidente del malestar generalizado a lo largo de todo el Estado español por las recientes (y no tan recientes) políticas adoptadas desde los gobiernos y que están dejando nuestro sistema público educativo en una precariedad más que preocupante para el futuro de la sociedad española.

El contexto actual es especialmente relevante a la hora de hablar de Qué hacemos con la educación, el breve libro coordinado por Agustín Moreno, profesor y representante de la mencionada «marea verde», y coescrito junto a Enrique J. Díez, profesor de Pedagogía en la Universidad de León, José Luis Pazos, presidente de la Federación de la Comunidad de Madrid de Asociaciones de Padres y Madres del AlumnadoGiner de los Ríos, y Miguel Recio, catedrático de Filosofía con una larga trayectoria en la Administración educativa y en la formación docente. El libro, perteneciente a la colección «Qué hacemos» de la editorial Akal y en total consonancia con la línea adoptada en el resto de los títulos de dicha colección, pretende buscar la reflexión política, desde una perspectiva divulgativa aunque sobradamente documentada y justificada, sobre el estado actual de la escuela pública. El verde de su portada y la tipografía amarilla y blanca que da vida al título completo de la obra: Qué hacemos para que los recortes y reformas no acaben con un pilar tan básico de nuestra vida como la educaciónmarcan una más que evidente tendencia en el análisis de la pirámide administrativa del sistema educativo estatal, lo que no mancha, ni mucho menos, la seriedad en su exposición y lo riguroso en las interpretaciones vertidas sobre la liberalización de la educación europea.

La obra está organizada en diez breves capítulos, que a pesar de la falta de una estructura palpable en su discurrir permiten fluir bastante bien al lector por cada uno de los temas que aborda, relativos todos ellos al binomio escuela – Administración pública, dejando una para nada desdeñable sensación de profundidad al acabar las 64 páginas de que se compone.

El primero de todos ellos, a modo de introducción y marcando la clara perspectiva social adoptada por el libro, ofrece una interpretación sobre el marco legislativo que supone la LOMCE para la educación española y las peligrosas consecuencias que tiene, no solo para la escuela pública, sino también para toda nuestra sociedad, el proceso de tecnocratización liberal que recoge la ya conocida ley Wert. La lectura que ofrecen los autores es clara: se está utilizando la precariedad económica para cambiar la escuela partiendo de máximas segregadoras.

En el segundo, y como apoyo histórico del posicionamiento adoptado, se ofrece una mínima pero eficiente síntesis de la importancia de la universalización educativa para cualquier sociedad (usando además grandes nombres de la historia pedagógica, como Freire o Giner de los Ríos) y se defiende una perspectiva humanizadora de dicha universalización educativa alejada de las medidas elitistas y mercantilizadoras que según los autores están apoderándose de las políticas educativas mundiales.

Uno de los ejemplos utilizados para alertar sobre el peligro de la actual deriva política, y sobre el que pivotan el tercer y cuarto capítulo, es la disyuntiva entre la idea de una escuela inclusiva y equitativa, más extendida entre los miembros activos del universo educativo preocupados por la función socializadora del colectivo, y la de la excelencia académica, es decir, la búsqueda y recompensa de la supuesta élite educativa y que abandera los currículos educativos neoliberales dominantes en gran parte de la Europa contemporánea. Esta diferencia de paradigma explica, para los autores, el diseño de los nuevos currículos dentro de la LOMCE, que busca cribar desde los primeros cursos a los alumnos «capaces» para separarlos de aquellos que no lo son. El análisis de los nuevos itinerarios escolares diseñados en la ley WERT, así como la reflexión sobre problemáticas ya de largo recorrido en nuestro contexto, como la política de repetición de cursos o la delegación formativa en clases particulares que no todo el mundo puede permitirse, sirven como ejemplo de la tesis defendida en el libro en torno a la voluntad elitista de la Administración pública actual.

La cuestión de la competitividad en el sistema educativo y cómo esta condiciona el desarrollo normal de la actividad diaria de los docentes y de los centros en los que trabajan es el eje de los capítulos quinto y sexto del libro. En el primero de ellos, la discusión gira en torno al poder autónomo de las escuelas e institutos y a cómo el programa liberal prioriza esta autonomía en su vertiente económica y administrativa y no en cuestiones puramente educativas, como podría ser la interrelación de la escuela con su entorno inmediato, haciendo así que la labor de los directores y directoras de escuela se asemeje a la de un gestor preocupado por la rentabilidad de sus trabajadores. De la misma manera, en el siguiente capítulo se refleja cómo la utilización tecnocrática de pruebas de evaluación externa como PISA o la creación de clasificaciones a lo largo del territorio estatal encona toda la actuación del profesorado, abocado a la mejora de resultados en competencias excesivamente puntuales que muchas veces son irrelevantes para el colectivo discente.

En el séptimo capítulo se reflexiona sobre cómo los recortes en la formación permanente del profesorado pueden afectar a la calidad del sistema educativo; además, se lleva a debate la cuestión de la «carrera docente» y las posibles consecuencias que puede tener esta jerarquización vertical de los maestros y maestras (de nuevo basada en la competitividad). Y si preocupa la formación permanente del profesorado en activo, también preocupa la formación inicial de los futuros docentes españoles, que no parece estar a la altura de otros países referentes en materia educativa, no ya a nivel competencial, sino simplemente en el número de horas de formación que se requieren para poder ejercer en el sistema educativo público estatal.

Pero es que la educación superior no es ajena a la oleada neoliberal que recorre Europa, y la mercantilización del conocimiento está pasando factura a aquellas carreras que no parecen tener una salida comercial evidente. Esto, junto con los ridículos valores de inversión pública y privada en educación en España, es el tema de discusión del octavo y noveno capítulo, donde se dibuja un panorama realmente crítico para aquellas áreas del conocimiento ajenas a las esponsorizaciones privadas y poco «rentables» a nivel capitalista y se recuerda como, de la misma manera, el desmantelamiento de la escuela pública perjudica sin lugar a duda a aquellos sectores de la sociedad carentes de medios, profundizando aún más la brecha que una educación universalmente justa y equitativa pretende reducir.

El último capítulo, recogiendo todo lo dicho anteriormente, propone un dodecálogo en defensa de una «educación pública digna y de calidad porque la escuela es el lugar de encuentro de la comunidad educativa, con multitud de voces e intereses, un lugar de plasmación de pensamientos, de ideas y de sueños»…

En definitiva, un libro más que interesante para tener una visión completa sobre el camino que marca la nueva Ley Orgánica para la Mejora de la Calidad Educativa en relación con nuestra cruda realidad socioeconómica y dentro del marco europeo que nos rodea. Echamos de menos, quizás, una mínima mirada interior hacia las responsabilidades (e irresponsabilidades) actuales de los actores educativos en el difícil contexto presente y que dotase de una rotundidad casi final el discurso crítico que coherentemente desarrollan los autores de la presente obra. Aun así, el regusto de serena y madura crítica que deja Qué hacemos con la educación es más que interesante, haciendo esta lectura recomendable, no solo para los miembros activos del universo escolar que quieran profundizar en el conocimiento de las políticas educativas, sino también para cualquier persona involucrada en ese ideal que nos gusta llamar «la sociedad que educa».

Lucas Ramada Prieto

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Instituições e ensino de História / Revista Eletrônica História em Reflexão / 2014

Em 2014, diversos eventos e periódicos direcionaram seus trabalhos aos 50 anos do golpe de Estado de 1964, a Revolução Redentora para os defensores do golpe. Para este número, os editores da Revista Eletrônica História em Reflexão acharam por bem dedicar o dossiê a trabalhos que versassem sobre a temática Instituições e ensino de História, ainda não contemplada pela Revista com um dossiê.

Os trabalhos publicados na área do ensino de História, grosso modo, parecem ter dois objetivos principais: a produção de um conhecimento para contribuir com o enriquecimento teórico-metodológico da formação do professor e, consequentemente, refletir nas aulas de História das escolas brasileiras com um enfoque crítico-propositivo; um conhecimento retrospectivo sobre as formas e funções do conhecimento histórico praticadas pelas instituições de ensino, com um enfoque analítico sobre uma memória, que a própria História institucionalizada ajudou a produzir. Esses dois tipos de trabalhos fizeram-se presentes nos artigos do dossiê Instituições e ensino de História.

A quantidade de dissertações na área de ensino defendidas no âmbito do Programa de Pós-Graduação em História da UFGD é ainda relativamente pequena. Apesar dessa pouca expressividade, as preocupações voltadas ao ensino da história são crescentes nos debates entre professores e pesquisadores. Algumas dissertações e teses que abordaram o ensino em uma perspectiva histórica foram desenvolvidos também nos Programa de Pós-Graduação em Educação da UFGD e da UFMS.

Para este número da Revista, foi recebida uma quantidade expressiva de trabalhos na temática de ensino de História. Os artigos foram encaminhados para pareceristas da área, de diversas regiões do Brasil, e o resultado das avaliações surpreenderam. A grande maioria dos trabalhos foi reprovada, indicando um nível de exigência, maturação e profissionalização da área do ensino de História. Uma exigência comum dos pareceristas foi a necessidade de se contemplar a bibliografia existente sobre o assunto tratado para, a partir daí, ponderar a contribuição do conhecimento produzido.

Em agosto de 2014, durante o XVI Encontro Estadual da ANPUH / MS, realizado em Aquidauana, foi gratificante observarmos a riqueza da produção historiográfica desenvolvida no estado, bem como o alentado intercâmbio que as diversas Instituições de Ensino Superior locais vêm estabelecendo com os diversos programas institucionais, regionais, nacionais e sul-americanos, voltados para a pesquisa e o ensino de história. E, nesse sentido, ganha relevância o avanço no estudo de temas e segmentos sociais definidores de identidades locais, por meio de recortes regionais específicos que, em geral, estão ausentes ou são secundarizados pela historiografia “brasileira”, centrada no eixo São Paulo-Rio de Janeiro.

Essa situação representa, ao mesmo tempo, estímulo e maior responsabilidade para os veículos de divulgação dos trabalhos acadêmicos produzidos, seja no âmbito dos programas acadêmicos ou individualmente, por profissionais, sobretudo da área de História, vinculados à pesquisa e ensino.

O presente número da Revista Eletrônica História em Reflexão assume, mais uma vez, a responsabilidade de dar ao público parte dessa produção. O conjunto de artigos selecionados, contemplando o trabalho de docentes e discentes de pós-graduação (mestrandos e doutorandos) e egressos da graduação, repercute, pelo menos em parte, o atual momento historiográfico vivenciado, sobretudo, no estado de Mato Grosso do Sul.

Os artigos aprovados para o dossiê iniciam-se com a contribuição de José Carlos Ziliani e Rosemeire de Lourdes Monteiro Ziliani, A relação educação e trabalho no sul de Mato Grosso nas formulações de Melo e Silva, que apresenta o resultado de uma pesquisa concluída na interface história e educação. O texto apresenta uma análise sobre a conformação do sujeito para o trabalho moderno, na fronteira sul de Mato Grosso, na primeira metade do século passado, conforme as produções do jurista Melo e Silva. Como operadores de análise, utilizaram-se os conceitos de “processos de subjetivação” e de “dispositivo de escolarização”, inscritos na perspectiva pós-estruturalista. Ao criticar os hábitos, valores e práticas sociais do homem local, os textos tornam visíveis as tecnologias de dominação e as do eu colocadas em jogo. A solução apontada nos textos volta-se à instituição de escolas primárias e pré-vocacionais, onde as crianças, desde a mais tenra idade, seriam compostas e disciplinadas para se fixarem ao aparelho de produção moderno.

O trabalho de Jorge Luiz Veloso da Silva Filho e Ricardo de Aguiar Pacheco, Museu do Mamulengo na sala de aula: proposição de jogos educativos como recurso didático no ensino de História, tem como objetivo a proposição de jogos educativos que utilizam o acervo do Museu do Mamulengo (localizado na cidade de Olinda-PE) como recurso didático para o ensino de História. Para a pesquisa de campo e confecção dos jogos, foram utilizados referenciais teóricos ligados ao ensino de História, ao campo do Patrimônio e da Museologia. No campo da Pedagogia, buscaram-se referências sobre o uso de jogos no meio escolar, além de informações obtidas junto ao setor educativo do Museu e a professores que visitavam a instituição. Neste estudo, concluiu-se que a proposição dos jogos é uma forma de aproximar a instituição escolar do Museu do Mamulengo, pois, quando utilizados nas aulas de História, constituem um instrumento para preparar a visitação e potencializar a experiência pedagógica que ocorre no museu.

O debate sobre a diversidade étnico-racial e o ensino de História foi contemplado no trabalho Reeducação das relações raciais e Ensino de História: reflexões teórico-metodológicas sobre processos de formação docente em lugar de fronteiras, de autoria de Lourival dos Santos e Maria Aparecida Lima dos Santos. A discussão realizada aborda o campo de pesquisas sobre o ensino de História como lugar de fronteira, no qual são articulados instrumentais teóricos da educação e da história, e as questões apontadas pelas investigações em educação étnico-racial que consideram centralmente a incorporação de saberes distintos em currículos adequados às realidades locais. Diante da tarefa de formar professores de História, apresentam-se reflexões tecidas e os saberes construídos no encontro de referenciais de ambos os campos de pesquisa. Conclui-se que a problemática da reeducação étnico-racial pode ser um caminho frutífero para se equacionar o distanciamento entre os eventos do passado e questões do presente, princípio fundamental para a História como disciplina escolar e central para o desenvolvimento do pensamento histórico.

Tiago Alinor Hoissa Benfica apresenta um fragmento de sua pesquisa de doutorado, com o título Elevar a educação: a gestação do campo histórico na Universidade pública em Aquidauana (década de 1970). O texto trata da implantação do campo histórico em Aquidauana na Universidade pública, que ocorreu junto às atividades do curso de Estudos Sociais, a partir da ativação do CPA, unidade da UEMT, no período em que houve a primeira grande expansão do ensino superior em Mato Grosso como parte de um conjunto de obras modernizadoras e, no âmbito nacional, as políticas públicas educacionais do contexto da Lei 5.692 / 71. Os Centros Pedagógicos da UEMT tinham o papel de garantir a existência de um quadro de professores formados dentro da legislação da época. Nesse contexto, o artigo aborda as forças e estratégias utilizadas na criação do CPA, a arregimentação de professores, os avanços e recuos do campo histórico em Aquidauana, tendo em vista o papel iniciativa dos agentes do campo e a relação de dependência do campo histórico com a Instituição.

A seção dos artigos livres inicia-se com o trabalho de Giuslane Francisca da Silva e Sérgio da Silva Machado Júnior, ao abordar O discurso em Michel Foucault, por meio do qual são apresentados e discutidos alguns princípios que envolvem a concepção de discurso em Michel Foucault. Tendo em vista ser o discurso um acontecimento histórico, esboça-se como se dá sua construção dentro desse contexto, sobretudo atrelado às relações de poder que permeiam a sociedade. Considerando que, para Foucault, a produção do discurso não se dá de maneira aleatória, os autores se propõem a refletir sobre a produção discursiva enfatizando os mecanismos que atuam como procedimentos de controle dessa construção, considerando que não são todos os sujeitos que possuem acesso a sua produção.

João Pedro Ribeiro Pereira e Jérri Roberto Marin propuseram-se a analisar os discursos, a militância de José Octávio Guizzo e as suas propostas para a construção da identidade sul-mato-grossense no artigo José Octávio Guizzo e a construção da identidade sul mato-grossense. Guizzo foi um ativista cultural e um político de considerável notoriedade em Mato Grosso e em Mato Grosso do Sul durante as décadas entre 1960 e 1980, sendo o primeiro presidente da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. O conjunto de sua obra revela a preocupação em criar uma identidade para o novo estado a partir da eleição de elementos comuns que singularizariam a região. Como intelectual, preocupou-se em pesquisar os aspectos culturais, sobretudo a música, o folclore e o cinema. Neste sentido, o objetivo é desconstruir e desmantelar os seus discursos, promovendo o estabelecimento de uma nova forma de dizer e de ver o regional.

Um dos temas mais latentes neste ano entre os historiadores, a ditadura militar, está presente no artigo de Luiz Carlos Pais, Retorno ao golpe militar de 1964 e o caso dos presos políticos de São Sebastião do Paraíso (MG). Este artigo propõe um retorno ao Golpe Militar de 1964 ao tomar como referência o caso da prisão de um grupo de 15 cidadãos de São Sebastião do Paraíso, tradicional polo da cafeicultura do Sudoeste de Minas. O grupo foi transportado em condições desumanas para presídios de Belo Horizonte, distante 500 quilômetros da cidade em que moravam com suas famílias e onde eram conhecidos como trabalhadores honrados. Alguns dos presos haviam pertencido ao então extinto partido comunista, outros eram trabalhistas, socialistas ou simpatizantes dos discursos reformistas do Presidente João Goulart. Os fatos históricos foram produzidos a partir de depoimentos recolhidos, cópias de processos obtidos nos arquivos do Fórum da cidade, jornais da época, documentos disponíveis no acervo do extinto Departamento de Ordem Política e Social de Minas Gerais. Constatou-se que entre os motivos das referidas prisões estão a trajetória de resistência trabalhista, iniciada ainda na Era Vargas, quando houve a fundação de uma federação sindical trabalhista que assustou as velhas oligarquias da cidade, a fundação do comitê local do partido comunista, em 1946, a militância em favor do Movimento da Paz Mundial, em 1952, finalizando com a implacável ação de militares agentes da repressão política que agiram em favor das elites locais.

Roberto Mauro da Silva Fernandes trata das Adstrigências e frinchas entre comerciantes brasileiros e bolivianos numa zona de fronteira: os liames e as desconexões acerca do Estado e do território em Corumbá / MS, com o objetivo de analisar as interações espaciais decorrentes das territorialidades estabelecidas entre os comerciantes bolivianos e brasileiros em Corumbá / MS, que juntamente com Ladário / MS (Brasil) e Puerto Quijarro e Puerto Suarez (Bolívia), compõem a Zona de Fronteira Bolívia / Brasil, no estado de Mato Grosso do Sul. Especificamente, buscamse as relações conflituosas inerentes ao uso de um território dotado de flexibilidades que ultrapassam os “limites” do Estado-nação e as normas jurídicas que estabelecem as “marcas” estatais. Para obtenção do que se propõe a discutir, utiliza-se levantamento bibliográfico sobre áreas de fronteira e realiza-se um trabalho de campo que consistiu em entrevistar aqueles que estão diretamente envolvidos nas atividades de comércio.

Por último, esta edição traz a contribuição de um dos fundadores da Revista Eletrônica História em Reflexão, Leandro Baller. Trata-se da tradução da entrevista feita com Ramón Fogel, denominada Breves perspectivas histórico-sociais nas relações entre Brasil e Paraguai. A entrevista foi produzida no mês de dezembro de 2006 em Assunção-PY, no momento em que Leandro realizava trabalho de campo para a pesquisa em nível de mestrado que desempenhava junto à UFGD.

Com a edição de mais esse volume, a REHR, cumprindo sua precípua tarefa de divulgação acadêmica, espera fomentar, mais e mais, o diálogo entre pesquisadores e demais interessados no conhecimento histórico.

Joana Neves

Tiago Alinor Hoissa Benfica

São Paulo-Aquidauana, janeiro de 2015.


BENFICA, Tiago Alinor Hoissa; NEVES, Joana. Apresentação. Revista Eletrônica História em Reflexão. Dourados, v. 8, n. 16, jul. / dez., 2014. Acessar publicação original [DR]

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Ensino de história e história da educação: caminhos de pesquisa (Parte II) / História e Diversidade / 2014

O dossiê temático “Ensino de história e história da educação: caminhos de pesquisa” (Parte II) apresenta textos que compõem uma diversidade de investigações relativas ao ensino de história e da história da educação. Essas pesquisas são marcadas pela multiplicidade de perspectivas que estruturam a historicidade dos processos educativos no Brasil. Assim como o dossiê “Ensino de história e história da educação: caminhos de pesquisa” (1), o presente é uma continuação organizada por artigos de investigadores de diferentes regiões do país, em momentos distintos da formação acadêmica: são professores doutores, pós-graduandos, professores da educação básica e estudantes de graduação.

Em “Inventariando caminhos de pesquisa: a imprensa periódica como fonte para a escrita da historia da educação de / em Mato Grosso”, Adriana Aparecida Pinto investigou periódicos em circulação em Mato Grosso, (São Luiz de Cáceres, Corumbá e Cuiabá), entre os anos de 1880 a 1910, cujo levantamento, mapeamento, catalogação e análise orientaram-se a partir da abordagem teórico metodológica da História Cultural.

O artigo “A Guerra do Paraguai nas edições do livro didático História do Brasil, de Nelson Piletti”, de autoria de André Mendes Salles, buscou compreender como este autor de manuais didáticos incorporou ou não novas interpretações historiográficas quando abordava as causas desse conflito.

Por seu turno, André Wagner Rodrigues, no ensaio intitulado “O ensino de história em busca de novas referências: considerações sobre o pensamento de Edgar Morin” reflete sobre os resultados de uma pesquisa bibliográfica que objetiva investigar possíveis contribuições do pensamento transdisciplinar de Edgar Morin para as ciências históricas a partir de análises de problemas sociais, políticos, econômicos, culturais, ecológicos, éticos e estéticos que irrompem na vida prática contemporânea.

André Luis Ramos Soares, Andrielli Matos da Rosa, Carolina Bevilacqua Vedoin e Thaise Vanise Corrêa, no artigo “Dinamicidade no ensino formal: resgate histórico através de maquetes”, buscam trabalhar a história através de maquetes como Navio Negreiro, Casa Grande & Senzala e O Cortiço, cada uma representando conceitos referentes ao processo histórico que constituiu a cultura afro-brasileira.

Analisar comparativamente as versões sobre a Guerra do Paraguai presentes nos livros didáticos produzidos durante duas ditaduras é o horizonte do texto “Usos políticos da memória: a história da Guerra do Paraguai nos manuais didáticos durante o regime militar no Brasil e Stroessner no Paraguai”, de Bruna Reis Afonso.

Em “O ensino de história em Mato Grosso: Uma análise das Orientações Curriculares”, Carlos Edinei de Oliveira propõe uma reflexão teórica sobre a interface entre o currículo formal e o currículo real que acontece nas escolas públicas de Mato Grosso.

Já o artigo “Grupos escolares e escolas reunidas: similaridades e diferenças em Mato Grosso (1910-1940)”, de autoria de Elton Castro Rodrigues dos Santos, aborda por meio de fontes documentais como relatórios de presidentes do estado, inspetores de ensino e diretores da instrução pública, disponíveis nos principais acervos de Mato Grosso, expressam as diferenças e semelhanças entre os grupos escolares e escolas reunidas, como modalidades educacionais destinadas na instrução primária neste estado.

“Escola, ensino e historia local: Lei Municipal 283 / 09 na cidade de João Câmara– RN” é o título do ensaio de Iranilson Pereira de Melo, que investiga a perspectiva memorialista presente na disciplina Cultura do Rio Grande do Norte.

Em “Aportes teórico-metodológicos para a seleção de edificações urbanas como fontes históricas primárias: uma proposta pedagógica para a pesquisa em história”, Ivan Ducatti discute como o patrimônio histórico urbano pode ser abordado não apenas pelo seu caráter estético e cultural, mas como resultados de obras humanas, trabalhos concretos, em um conjunto de relações sociais passíveis de serem analisadas pelo historiador.

Por sua vez, José Antonio Gabriel Neto apresenta um balanço da produção acadêmica a partir principais temáticas tratadas sobre o ensino de história nos encontros da Associação Nacional de História (ANPUH) no estado do Ceará, em “Pesquisando sobre ensino de história: a produção historiográfica no Ceará (2006-2012)”.

A autora Josiane Alves da Silveira, em “História da formação de professoras que atuaram no ensino superior da cidade do Rio Grande / RS a partir da década de 1960”, indica importância da História Oral, como apoio teórico-metodológico, e de temas como a memória nas atuais pesquisas em História da Educação.

“Anúncios e educação no jornal A União da Paraíba (1900 – 1930)” é o título do artigo de Kalyne Barbosa Arruda. A autora propõe uma análise investigativa sobre os anúncios que tratam de questões relativas à educação, tendo sido um recurso de divulgação e consolidação das identidades escolares, em que os professores eram apresentados como um elemento de qualidade, constatando, muitas vezes, o sucesso de instituições educacionais e profissionais.

Já Mairon Escorsi Valério, Marciano Bonatti, Vinicius Fruscalso Maciel de Oliveira e Waleska Walesca Beatriz Miola Freitas, no texto intitulado “Projetos Interdisciplinares: espetáculo, resignação e aparência”, questionam o papel dos projetos interdisciplinares nas escolas públicas ao perceberem que necessitam de um repensar dos temas que são repetidamente trabalhados de forma conservadora como uma política de reparo de danos educacionais.

Por sua vez, Marineide de Oliveira da Silva, em “A expansão das escolas isoladas no Estado de Mato Grosso (1910 – 1930)”, analisa a criação e expansão das escolas isoladas mato-grossenses, considerando a legislação educacional oficial da época, as peculiaridades do Estado, bem como a relevância dessa instituição para o cenário educacional mato-grossense.

Em “A disciplina Prática Pedagógica no curso de Pedagogia da UFPR: perspectiva histórica (1980-2010)”, Sandra Guimarães Sagatio, Leilah Santiago Bufrem e Maria Auxiliadora Moreira dos Santos Schmidt propõem, por meio da análise documental das resoluções relativas à estrutura curricular do referido curso, entender como as disciplinas escolares representam determinações históricas e sociais.

Por fim, o artigo “A educação da infância paraense a partir dos discursos de propagandas de colégios do início do século XX”, de Welington da Costa Pinheiro e Laura Maria da Silva Araújo Alves, procura desenvolver algumas reflexões sobre os discursos materializados em propagandas de colégios procurando evidenciar a história da educação da infância no Estado do Pará, deste recorte temporal.

Esse segundo volume do dossiê “Ensino de história e história da educação: caminhos de pesquisa” é resultado da alta quantidade e qualidade de artigos encaminhados pelos colaboradores de diferentes partes do país, respondendo a chama da de artigos iniciada em meados de 2013. Agradecemos a generosidade e o empenho dos autores no envio dos textos para o dossiê. É uma satisfação tê-los conosco nessa empreitada.

Bom proveito!

Alexandra Lima da Silva– Professora doutora (UFMT.)

Marcelo Fronza – Professor doutor (UFMT).

Renilson Rosa Ribeiro – Professor doutor (UFMT).

Os organizadores


SILVA, Alexandra Lima da; FRONZA, Marcelo; RIBEIRO, Renilson Rosa. Apresentação. História e Diversidade. Cáceres, v.5, n.2, 2014. Acessar publicação original [DR]

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Plato and Pythagoreanism – HORKY (RA)

HORKY, P. S. Plato and Pythagoreanism. Oxford University Press1, 2013. Resenha de: WEINMAN, Michael. Revista Archai, Brasília, n.13, p. 165-169, jul., 2014.

Philip S. Horky’s Plato and Pythagoreanism is both deeply insightful and actually pleasant to read. According to the way it presents itself, his work is meant chiefly to offer two things. First, he means to defend a c ontroversial thesis that offers a perspective on the role mathematics played in the development of Plato’s philosophy that differs meaningfully from the commonly accepted view of this matter. Second, he means to do so through a comprehensive analysis of the earliest philosophical, historical, and literary evidence concerning Pythagoreanism.

It is clear that in both respects, it is a great succ ess. My aim here is to point out some of the ways in which it succeeds. The majority of what follows is my best shot at a simple excursus through many of the central claims of the work—though, for reasons that will emerge, I focus on the first, second, and sixth of his chapters because this seems to me to  allow me to do the best job I can of doing some  justice to his central, and as he notes, controversial thesis on “the role mathematics played in the development of Plato’s philosophy,”without getting too lost in the very learned and very interesting thickets of his “comprehensive analysis”of all the relevant sources. Also, if we are honest, what discussion of Pythagoreanism wants to get caught up in chapters  numbered 3, 4, 5? 2

The central feature in Horky’s account is what he (and obviously not only he) calls “mathematical”Pythagoreanism; the “obviously not only he”modifier is a reference to the tradition—dating back to Aristotle—to divide Pythagoreans between the acousmatic and the mathematical, the ones  who hear (only) certain things, and the one who attend to a certain kind of technical knowledge that relates to the features of numbers, and especially to small whole-number ratios. Fair enough. What  is novel—and challenging—in Horky’s picture is,  first, the precise way in which he characterizes what makes the mathematical Pythagoreans the  mathematical Pythagoreans, and, second, the way in which he attempts to establish his view that “Plato inherits mathematical Pythagorean method only to transform it into a powerful philosophical argument concerning the essential relationships between the cosmos and the human being.”

My version of the “big picture”of Horky’s  argument comes fairly into focus just from the titles of the three chapters on which I focus; namely: (1) Aristotle on Mathematical Pythagoreanism in the  4th Century BCE; (2) Hippasus of Metapontum and Mathematical Pythagoreanism; (3) [ch.6] The Method of the Gods: Mathematical Pythagoreanism and Discovery. As we can see from this, the first thing we need to do, in order to take in Horky’s main claim, is to achieve the proper (i.e., critical) understanding of Aristotle’s version of what is meant by the category “mathematical Pythagoreanism”; in so doing, Horky will work closely with the findings of Burkert, Huffman, and most recently Cornelli, in order to  expound on the grounds of Aristotle’s distinction between the two kinds of Pythagoreans and also  point toward what Aristotle might not have entirely grasped about them. Chiefly relevant in this is the proper understanding of the role of Hippasus, to  which Horky devotes chapter 2, and through whom he wants to bring out his own understanding of mathematical Pythagoreanism. The following chapters then show how this mathematical Pythagoreanism both manifests itself in Plato’s philosophy, and is put to work (appropriated) by Plato in order to discover and bring to light something that transcends the level of perspicacity that figures like Hippasus, Empedocles, Philolaus, and Archytas had achieved. This last part of the story is not re-capitulated here, but I believe my summary of how the findings of the first two “legs”of the race are deployed in the final longer leg will all same convey the sense of how Horky’s two main goals are met in this book.

So, first, Aristotle and mathematical Pythagoreanism. Here, Horky basically wants us to believe a few things, none of which requires us to deviate very far from what seems to me a consensus about the subject matter of this chapter that has emerged over the past generation and a half. Namely, we are to begin with a more or less trusting belief in the evidence Aristotle provides for a distinction between mathematical and acousmatic Pythagoreans. Namely, these are distinguished by their methodology: mathematical Pythagoreans employ mathematical  sciences to explain the “reason why”they hold their philosophical position, whereas acousmatic’s “appeal to basic, empirically derived fact (3).”Further, Aristotle says, we should hold that the demonstrations of mathematical Pythagoreans represent an  innovation over “facts”of acousmatic Pythagoreans. Philolaus’ fragments provide further evidence in  analysing these claims regarding mathematical  Pythagoreans and Aristotle. All the same, Horky, here in a manner similar to Cornelli (2013), wants to investigate a different tradition than the one  set down by Aristotle and not just take Aristotle’s definitions of acousmatics and mathematicians for granted. In Horky’s (2013: 5) words: “Indeed, the primary criterion for distinguishing acousmatic from mathematical Pythagoreans, as I will show, is each group’s pragmateia (πραγματεία), a term that  must be further contextualized in order to make  sense of precisely how Aristotle draws the line (5).

“What do we find when (in the context of “Aristotle and mathematical Pythagoreanism”) we deepen our account through a careful consideration of pragma ? Perhaps most importantly, Horky’s conclusion that Iamblichus is referring to Pythagoreans in general in his fragment on the question ‘what  is to be done’, rather than mathematical/acousmatic factions. Horky also provides three reasons for why he thinks Iamblichus’ passage applies to  Pythagoreans in general: because he does not use a conjunction to separate the groups here (where he has previously); the two groups shared religious precepts; the passage is repeated later to apply to all Pythagoreans. This matters because it shows  that whatever divides these two groups it cannot simply be (as Burkert had it) that the mathematical Pythagoreans were the scientists/theorists and the acousmatic were practical/political. For Horky, the complaint recorded by Iamblichus actually presents Aristotle’s criticism of “the activities of the mathematical Pythagorean Archytas of Tarentum (32).” What we primarily take home from this version  of “mathematical Pythagoreanism”through the  eyes of Aristotle, according to Horky, is that the for Aristotle, the fundamental difference between acousmatics and mathematical Pythagoreans was  how the latter used demonstrative argumentation. Additionally, we should bear in mind how the  mathematical Pythagoreans would also establish  similarities between number and perceptibles, as  well as an ontological order that was closely related to the social order of the polis. (This view of politics is discussed further, especially in chapters 3-5, not discussed in detail here.)

The crucial role of Hippasus in bringing  us from mathematical Pythagoreanism as we encounter it through Aristotle and the mathematical Pythagoreanism that motivated Plato emanates  from Hippasus’s importance for Horky’s continuing enquiry into the  pragmateia of the mathematical  Pythagoreans. Understanding Hippasus (or at least what middle-Platonists attributed to him, as we  cannot always hope to disentangle the two) helps us to see “how metaphysics could have been brought to bear on religion and politics in the mathematical Pythagorean pragmateia (38).”In trying to figure out the genuine place of Hippasus (and Philolaus and Archytas) in this development, Horky discusses two sets of sources for his enquiry: the Platonists of the early academy (following Plato’s death in  347 BCE) and Aristotle’s associates at the Lyceum, Theophrastus and Aristoxenus. Theophrastus is  listed as an especially important source for two  reasons: firstly, because his knowledge of Pythagoreans was informed by Platonic teachers and not  Aristotle’s skewed vision, and secondly because his “doxographical”works also reveal important differences with Aristotle. Aristoxenus, meanwhile, is also important because the fragments that survive of his work on Pythagoreanism reveal a deep engagement with the tradition.

Horky is interested in comparing Aristoxenus’ idea of “aiming at the divine”and Aristotle’s idea of ordering the universe according to what is more honourable, using Wehrli, F23 in this analysis. Horky (2013: 46) concludes his analysis of the fragment by saying: “this fragment evidences Aristoxenus’s interest to explain a Pythagorean  axiology of the  “honorable”by appeal to strategies of assimilation between numbers and things.”This conclusion, he asserts, is important for two reasons, what is says about the “first principles”themselves, and how these first principles are both ontological and a principle of military and household rule. For Horky, the principle that the ἀρχή is a “most honorable”thing”is originally a product of Platonic thought and was systematized in Aristotle; it is drawn from sources in mathematical Pythagoreanism, but is original to Plato. Horky provides a long list of places in the dialogues where “honourable”appears, including the Timaeus, to show that Plato was aware of and using this concept. He then argues that the combination of what is “better”with what is “honourable”is a recurring topos in Aristotle’s writing and that this raises the view that arguments that involve the  metaphysics of the honourable, and attributed to the Pythagoreans by Aristoxenus, may in fact be  Aristotealian in origin. He concludes this section with a discussion of how there is no reference to axiological uses of the honourable in genuine fragments of mathematical Pythagoreans like Philolaus and Archytas, and how this fact complicates his  interpretation.

The remainder of this chapter surveys the  many, conflicting views put forth about Hippasus—both those of the specialists of the past two generations, and those of the tradition, from the Academy and Lyceum through the Hellenic and  medieval periods—concluding with Xenocrates of  Chalcedon, whose doctrines bare striking resemblance to those of Hippasus. Horky’s goal is to show  that the Early Platonists wrote about Hippasus and assimilated Hippasus’ doctrine to Pythagorean ideals. Horky’s (2013: 77) specific suggestion is that Xenocrates might have considered the “Forms”as “paradigms,”which would not be a major innovation since “a strong association of these concepts follows almost naturally from a reading of Plato’s Timaeus, and more important, it might have already been circulating in the Early Academy after Plato’s death.”On this basis, Horky returns to a discussion of Aristotle’s views of the Pythagoreans, where he concludes that Aristotle is the source of the claim that Hippasus is a natural philosopher  as well as  the source of the claim that Hippasus was the progenitor of the ‘mathematical’ school within Pythagoreanism. Aristoxenus, Horky believes, takes over from Aristotle the focus on what is “honourable”in Pythagoreanism and that the doctrine ascribed to Hippasus, that he believed that “Soul-number is the first paradigm of the making of the world,”is owed to Speusippus’s or possibly Xenocrates’s writings on the Pythagoreans, in an attempt to align Hippasus’s supposed ancient doctrine with their own (which, subsequently, has been derived in various fashions from Plato’s Timaeus).

“Which brings us, again leaving to the side for the moment a treasure of threads worth retracing that are found in chapters three through five— and let me point specifically among them Horky’s treatment of the two classes, “what is”(τί ἔστι), “what is to the greatest degree”(τί μάλιστα), as “forming the background for Plato’s dialectical response to Pythagoreanism,”discussed at length in chapters 4 and 5—to the question Horky tries to answer in chapter 6: how did Plato advance beyond mathematical Pythagoreanism? His answer involves Plato’s use of what Horky (2013: 201) calls Plato’s “first-discoverer myths”(of Prometheus, Palamedes, and Theuth), which are used by Plato to explore the methods of inquiry of the mathematical Pythagoreans, and which “allow him to attack the positions of his contemporary intellectual competitors without naming them (201).”Horky distinguishes between two periods in Plato’s dialogues utilizing the “first-discoverer”myths, and naturally we will focus on the second, later period which includes the Timaeus. (The early period, not further discussed here,  deals with problems of mathematics and writing,  as relevant to the pursuance of the Good.) Horky (2013: 202) believes that with the later-period  “first-discoverer”myths, “Plato demonstrates a reevaluation of what empirical science—especially that employed by the mathematical Pythagoreans in their approaches to harmonic theory—could offer to his own approaches to cosmogony, metaphysics, and dialectic.”Horky will try to answer his question by means of showing what the proper interpretation of the “first-discoverer”tradition teaches us about Plato’s critical response to the Pythagoreans. He  does so by interpreting the place of the figures of Palamedes, Prometheus, and Theuth in the Protagoras, Republic, and Phaedrus.

Horky proceeds by addressing the “heurematographical topos “in these dialogues. Horky adopts the term “heuromatography”from Zhmud (2006)  and it means: “the surviving written treatments  of various “elements of culture as discoveries  (εὑρήματα)”made by certain “first discoverers (πρῶτοι εὑρεταί),”whether divine or human.” Though of immense interest, I pass over the discussion of Protagoras and Phaedrus, to conclude with Horky’s presentation of, as his subject heading has it, “mathematical pythagoreans and the musical  dialectics in the Timaeus and Philebus.

“With respect to Philebus, Horky (2013: 252) works with  the basic binary opposition between  quantity and quality in the intervals with regard to ‘number,’ introduced at 17c11-e3, finding that it is “difficult to know for sure whether Plato intended pitch height or depth to be numerically quantifiable, if indeed this is the right way to read this passage.”Horky’s claim is that the Timeaus offers a ‘third way’ between two interpretive responses here. Namely, that the number of notes is in fact limited quantitively because it is shown to repeat (252). Horky (2013: 254) this way: “It is pretty clear that Plato’s description of the generation of a complex entity such as “health”or “music”that is made up of a factor that limits the unlimited in the Philebus is coordinate with other late presentations of the cosmic generation of entities marked by the qualities of being concordant and symmetrical, especially what is found in Plato’s  Timaeus.”Horky (2013:  255) here cites what he calls the “dialectical tenor”of Timaeus’s description (at 80b2-8, translation is Horky’s following Barker 1989) of συμφωνίαι in which slower sounds “catch up [to swifter sounds] they do not disturb their motion by imparting a different one…[but]…by attaching [to one another] in a similarity [ ὁμοιότητα προσάψαντες ], they are blended together into a single effect, derived from the high and the low [ μίαν ἐξ ὀξείας καὶ βαρείας συνεκεράσαντο πάθην ]. Hence they  provide pleasure to people of poor understanding, and delight to those of good understanding, because of the imitation of the divine harmonia that comes into being in mortal movements.”

For Horky (2013: 256), and following Barker, “the Demiurge’s activity of division is based on the classification of means and proportions advanced by Archytas in Fragment 2.189. It remains only a speculation, but we can nevertheless see Hippasus of Metapontum hiding in the background of  Archytas’s classification, informing both Archytas’s approaches to music theory and Plato’s approaches to generation of the world-soul.”This then manifests in the spatiotemporal “pause”, by which Horky (2013: 256) means “the assimilation of one thing to another that had previously been different, or alternatively to the placing of things in opposition in a relationship of concordance (256).”This pause occurs in dialectical relationships as well as physics and metaphysics, which Horky relates to Plato’s theorizing about the “monochord”. Here Horky (2013: 258) makes fascinating use of Mitchell Miller’s claim that Plato is thinking of the so-called ‘Dorian mode’ (when in  Tim 35b4-36b6  the Demiurge dividing  universe with Pythagorean ratios) in order to show that if a two-octave stretch of string were divided in such a way the seven-notes of the octave would be repeated once, there would thus be a repeating order in the continuum. For Horky (2013: 258), Plato could thus describe this as a limit on the unlimited continuum: “Plato might describe this activity as bringing a limit based in “due measure”to bear on what is otherwise unlimited, the continuum that  lacks proper measurement and is thereby neither  “commensurate”nor “concordant”without it.  Dialectic, cosmology, and metaphysics are thus  understood in Plato’s Timaeus and Philebus to conform to the rules of mathematics, both harmonic and calculative, and are understood to be informed by empirical observation. (258)”

Here—in this final conclusion about dialectic, cosmology and metaphysics are seen as  both  the  result of a calculative and harmonic and informed by empirical observation—we see the singular value of both Horky’s “controversial thesis”about Plato as an inheritor and extender of the tradition of mathematical Pythagoreanism and his “comprehensive analysis”of the all the sources for that tradition, both antedating and postdating Plato. In its comprehensiveness and its precision, this concluding  claim seems to me emblematic of the success of  Horky’s work, and why it will be a standard text for those interested in Plato and in Pythagoreanism, and especially for those of us interested in their  interconnection.

Notas

  1. While this discussion of Horky’s book appears under my signature, I want to flag clearly and loudly that it owes a real debt to my research assistant, Lindsay Parkhowell.
  2. In the interest of full disclosure, I should report that when this was presented at the “Recent Books on Pythagoreanism”book celebration at the State Library of Berlin on Monday 21 October 2013, Philip Horky greatly objected to this, and insisted that in his view it is precisely the chapters not presented here that are to him the most important. I leave it to his readers—who will be many—to decide for themselves.

Michael Weinman – Bard College, Berlin.

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Pythagoras and the Early Pythagoreans – ZHMUD (RA)

ZHMUD, L. Pythagoras and the Early Pythagoreans. Oxford: Oxford University Press, 2012. Resenha de: MCKIRAHAN, Richard. Revista Archai, Brasília, n.13, p. 161-164, jul., 2014.

With an unsurpassed command of primary materials and meticulous scholarship Professor Zhmud gives us a thorough treatment of Pythagoreanism through the fifth century, occasionally ranging into the Pythagoreans of the fourth century as well. He presents a careful treatment of the source material on Pythagoras’ life and activities, and takes up  the rarely discussed problem of who are to count as Pythagoreans. He proceeds to discuss all things (allegedly) Pythagorean, including  metempsychosis  and vegetarianism, politics and the nature of  Pythagorean ‘societies’,  mathematici  and  acusmatici, number theory and numerology, geometry and harmonics, cosmology and astronomy, (surprisingly) medicine and the life sciences, and he concludes by examining Pythagorean views on the soul and the doctrine that all is number.

I have the honor to say a few things about Professor Zhmud’s recent book Pythagoras and the Early Pythagoreans. This is a major revision and  expansion of his 1997 book Wissenschaft, Philosophie und Religion im frühen Pythagoreismus, a book described by one reviewer as the most important  contribution to Pythagorean studies in the previous thirty years. The magnitude of that assessment can be recognized when we bear in mind that that thirty-year period saw the publication of Burkert’s Lore and Science in Ancient Pythagoreanism, which is widely considered the foundation of modern Pythagorean studies. My assessment of Pythagoras and the Early Pythagoreans is that it is even better than Professor Zhmud’s previous book.

There is wide agreement that later (that is, Neopythagorean and Neoplatonic) sources contain far more information than the early sources from the 6th-5th century BCE and that much of this later information is fabricated. Recent treatments of Pythagoreanism present early material, admit that it is too scanty to yield a full picture of Pythagoras and his followers, and then proceed to supplement it by selective use of the later material. Professor Zhmud perforce follows this method, but modifies it in two important ways. First, he is more consistent in rejecting later information that does not have a pedigree going back to the fourth century. This methodological approach considerably reduces what can be safely asserted about Pythagoras and the  early Pythagoreans. Second, he infers the interests and activities of Pythagoras from those reliably attributed to his followers, a move that expands what can be assigned to their leader. These twin procedures lead to some surprising conclusions that challenge widely held beliefs. Consider the following examples.

  • Pythagoras was not a shaman or a wonder-worker.
  • Stories of his travels to Egypt and other lands are probably spurious.
  • His success in Croton was probably not instantaneous but attained gradually, over a period of many years.
  • No single trait marks all known early Pythagoreans (except that they presumably belonged to Pythagorean societies): some pursued mathematics, others natural philosophy, others medicine, and still others athletics.
  • Pythagorean societies were not religious groups or cults.
  • The Pythagorean way of life did not include observing a strict code of conduct that regulated every aspect of their life.
  • The Pythagoreans were not a secret society; their views were known to outsiders.
  • The early Pythagoreans did not attribute their own discoveries to Pythagoras.
  • The distinction between mathematikoi and akousmatikoi was a much later fabrication.
  • It is likely that Pythagoras discovered the Pythagorean theorem, the theory of even and odd numbers and the arithmetic, geometric and harmonic means.
  • Pythagoras was first to use deductive proofs in number theory.
  • Early Pythagoreans and possibly Pythagoras himself made use of experiments to verify their physical theories. • The tetraktys  and the ideas associated with it were unknown to early Pythagoreans.
  • *Very little is known of Pythagorean contibutions to astronomy prior to Philolaus.
  • Pythagoras invented the quadrivium.
  • Alcmaeon was a Pythagorean.
  • Alcmaeon alone taught that the soul is immortal, a theory that has no connection with metempsychosis. It is doubtful that any Pythagoreans believed soul to be a  harmonia.

These conclusions radically undermine traditional interpretations of early Pythagoreanism. They are founded on close readings of the relevant textual evidence and cannot be overlooked.

The remainder of this review will focus on  the Familienähnlichkeit that Professor Zhmud finds among the early Pythagoreans, and his conclusions about Pythagoras’ mathematical activity, but first a brief remark on Professor Zhmud’s view that for Pythagoras metempsychosis was a religious doctrine (e.g., p.20). I question the appropriateness of the word “religious”to describe  metempsychosis. Orphism, from which Pythagoras borrowed the  doctrine, was a religion of sorts, but metempsychosis  does not by itself need to have any religious  implications. Professor Zhmud is right to insist  that Pythagorean communities were not religious θιασοί (144) and that there is no evidence of any special cults or distinctive private worship among the Pythagoreans (144). And for one who believes in metempsychosis the idea that a pure life is the ticket to a better next reincarnation may be no different in kind than the idea that a good diet is the ticket to better health in this life.

Unable to find any single common characteristic that applies to all known ancient Pythagoreans from the end of the sixth century to the middle of the fourth, Professor Zhmud applies Wittgenstein’s conception of family resemblance as a solution to the problem of Pythagorean identity (111). For  Wittgenstein, the the way in which family members resemble each other is not through one specific trait but depends on a variety of traits. The members of a family do not all possess any single trait, but they all resemble each other in that each of them possesses at least one of the traits and each trait shows up in more than one member of the family. Thus, we have some Pythagoreans (Hippasus, Theodorus,  Philolaus and Archytas) who pursued mathematics, others (Hippasus, Alcmaeon, Philolaus, Menestor  and Hippon) who pursued natural philosophy, others (Democedes, Alcmaeon and Iccus) who worked in medicine, and still others (Milo, Astylus and Iccus) who engaged in athletics (111).Crucially, some  Pythagoreans engaged in more than one of these pursuits: Hippasus and Philolaus in mathematics and natural philosophy, Alcmaeon and Hippon in natural philosophy and medicine, and Iccus in medicine and athletics. Hence the family resemblance.

But some of this is pretty thin. Was Hippon a Pythagorean? We have only Iamblichus’ word for it. Likewise for Iccus, Asylus, Theodorus and Menestor. And Iamblichus is a suspect source. (Even accepting Professor Zhmud’s view that Iamblichus’ catalogue  goes back to Aristoxenus (111ff.) the early Pythagoreans under discussion lived long before Aristoxenus, plenty long enough for the catalogue to have grown to include notable South Italian figures from earlier times who were not Pythagoreans. If these men are excluded then we have a much smaller list: only Hippasus, Philolaus and Archytas for mathematics, of whom only Hippasus was early; only Hippasus, Philolaus and Alcmaeon for natural philosophy; only Democedes and Alcmaeon for medicine; only Milon for athletics (which removes the pursuit of athletics from the list of family traits ascribable to early Pythagoreanism  on the basis of the activities ascribed to known early Pythagoreans). But even of these, Democedes’ identity as a Pythagorean may not be assured simply because he had Milon as a father in law, and Alcmaeon’s  claim to be a Pythagorean is disputed. In fact an  important passage in Aristotle seems to tell against it (Metaph 986b1). If we reject these men too, then there are no early Pythagoreans left who pursued  medicine, leaving only mathematics and natural  philosophy (each represented solely by Hippasus).

Milon presents a different problem as well.  Granted that that great athlete was a Pythagorean, we may ask whether his athletic prowess had anything to do with his Pythagoreanism. Perhaps he was just an athlete who was also a Pythagorean. A possible point of comparison is the Belleville Church Golf League in rural Illinois, consisting of teams from seven local churches (with names like Pres 1 and Pres 2, representing the local Presbyterian church). Do the golfers see participating in this athletic activity as part of their Christianity? Can we detect a family resemblance between golfers and Christians? This question may sound trivial and even frivolous, but it invites a more serious question: is it possible  that the mathematical, scientific, and (for the sake of argument) medical activities characteristic of  some known early Pythagoreans were not part of  their Pythagoreanism? How can we possibly know?

Here is an opposite-minded alternative view. As long as the Pythagorean societies existed membership was the determining feature (146ff.) During that period various kinds of activities (athletics,  mathematics, etc.) were pursued by various Pythagoreans, but not as a requirement of membership. (And we must keep in mind that during the period in question these activities were pursued in the  Greek world by men who were not Pythagoreans.) After the upheavals in the mid-fifth century and the subsequent scattering of the survivors, some  continued to call themselves Pythagoreans and  continued to pursue the same activities as before; if they had followers who did the same, they could be called Pythagoreans too, but their Pythagoreanism could not have been the same as the pre-diaspora Pythagoreanism.

If neither of these approaches can be accepted without methodological reservations, the best hope for unity might seem to rest in the figure of Pythagoras himself. If he introduced the famous  Pythagorean way of life, if he founded the first Pythagorean ἑταιρία, if he also pursued mathematical and scientific activities (for which there is no early evidence), perhaps these are the keys to who is a Pythagorean. But how about medicine and athletics, Professor Zhmud’s other two pillars of Pythagorean identity? Did Pythagoras engage in these activities as well? Are we comfortable with the idea that since Milon was an athlete, Pythagoras was too? Further since so little is reliably attested to Pythagoras, if we define his activities taking his followers’ pursuits as guides to Pythagoras’s own and then say that engaging in those activities makes one a Pythagorean, we have an intolerable circularity.

Finally, regarding Pythagoras’ contributions to mathematics: as Professor Zhmud says (256), in the century and a half passed between Thales (the founder of Greek geometry) and Hippocrates (the author of the first Elements of geometry) a lot of progress was made in mathematics. Professor Zhmud gives evidence that the association of Pythagoras with the famous theorem is attested as far back as the late fourth century (257), although elsewhere he is less than certain that this is the theorem to which source is referring (267). We need to bear in mind that even this date is a century and a half after Pythagoras’s death. Again, it is a better pedigree than Iamblichus, but in my mind it still leaves a good deal of uncertainty.

Professor Zhmud credits Pythagoras with the following achievements:

  • Proving the Pythagorean theorem, probably by the use of the arithmetical theory of proportions (256, 271)
  • Discoveriing the ratios of the harmonic intervals (258-9)
  • Discovering the arithmetic, geometric and harmonic means (271)
  • Adding arithmetic and harmonics to astronomy and geometry (subjects already pursued in Ionia) to form the quadrivium (271)
  • Inventing number theory including the five basic theorems about even and odd numbers, which he proved on the basis of definitions of unit, number, and even and odd numbers that we find in Aristoxenus and Euclid (272-73)
  • The use of indirect proof (273)

Here Professor Zhmud carries to extremes his practice of ascribing to Pythagoras the pursuits of his followers. Not only is Pythagoras not said by any early source to have engaged in mathematical pursuits, the only early Pythagorean we know of who did so was Hippasus (275). Professor Zhmud says that the Pythagoreans achieved too much in mathematics in the fifth century for Hippasus alone to have done it (275), and he points out that the discoveries he attributes to Pythagoras are not complex and “correspond fully with the stage mathêmata had reached before Hippasus”(268). Still, it seems to me to be optimistic in the extreme to attribute all of them to Pythagoras. It is safer to limit ourselves to the thought that Pythagoras encouraged others to be active in these areas rather than supposing that he engaged in them himself — a line of interpretation floated by Professor Zhmud himself (141).

Here is another story that seems to me equally plausible. Pythagoras discovered the numerical ratios of the concordant musical intervals or alternatively, he saw the potential of a discovery was made by  someone else (I think of Lasus of Hermione as a  possibility); there is no good evidence that the discovery was due to Pythagoras. He was struck by the thought that numbers could account for something apparently as different from numbers as music, and in a breathtaking generalization paralleled only by other Presocratic thinkers, declared (without more evidence) that number was fundamental to reality. Some of his followers (Hippasus among them)  took up the project of exploring numbers. Among  other things they identified and defined species of numbers (including even and odd) and discovered  (and proved, more likely by pebble diagrams than  by indirect proofs based on definitions) elementary results such as that the sum of two odd numbers is an even number. They also identified properties of ratios of numbers such as those concerned with the three means mentioned above. In this way we have an account of the origin of the Pythagorean tradition of mathematics — and one that accounts for the silence of our sources on Pythagoras’s contribution to it.

These brief discussions of Pythagorean identity and Pythagorean mathematics are not intended to disprove Professor Zhmud’s carefully worked out conclusions, but rather to illustrate the kind of  work that needs to be done in order to to maintain contrary views. I want to conclude by saying that my already considerable admiration for Professor Zhmud has been raised to new heights. I regard his book as a landmark whose arguments and theses cannot be disregarded by anyone who wants to form an  accurate picture of Pythagoras and the Pythagorean tradition. I say with confidence that it will remain a standard reference for the foreseeable future.

Richard McKirahan – Pomona College, Los Angeles.

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In Search of Pythagoreanism. Pythagoreanism as an Historiographical Category – CORNELLI (RA)

CORNELLI, G. In Search of Pythagoreanism. Pythagoreanism as an Historiographical  Category. Berlin: “Studia Praesocratica”4, De Gruyter, 2013. Resenha de: STAVRU, Alessandro. Revista Archai, Brasília, n.13, p. 171-173, jul., 2014.

This book is the English version of a work  which appeared two years ago in Portuguese.1 Its structure and general aim are clearly outlined 2. I will give a brief sketch of them before moving to more general issues. The volume consists of four chapters. The first two have a methodological character, and deal with the history of modern scholarship on  Pythagoreanism and Pythagoreanism as an historiographical category respectively. Chapters three and four have a more specific character, being focused on two fundamental doctrines of Pythagoreanism such as metempsychosis and arithmology. The interplay between these different aspects, that is on the one hand methodology, on the other the discussion  of sources, is a main feature of the book. Equally noteworthy are the range of ancient and modern materials examined, the variety of scholarly approaches surveyed, and the original insights provided on  different topics.

The author’s main claim is that Pythagoreanism cannot be understood by the conventional  means of scientific investigation. Pythagoreanism is a phenomenon sui generis; it requires therefore a methodology which must also be sui generis. First of all, it is a phenomenon which is not limited in time, as Pythagorean tradition never died3 Secondly, it is a multi-faceted phenomenon which cannot be studied without taking into account its complexity and its contradictions. Last but not least, even the definition of “Pythagoreanism”is a problem: every scholar has more or less his own view of what is “Pythagorean”and what is not, of what belongs  to the tradition going back to Pythagoras and his immediate followers and what has been added to it later.

As the author puts it, the uniqueness of  Pythagoreanism depends on the fact that this phenomenon is both diachronic and synchronic. It is diachronic because it can be understood only if one deals with the different strata of its tradition. Every stage of Pythagoreanism is a construction (or even a re-construction) whose reliability depends both on the trustfulness of the elements which constitute it and the soundness of the methodological criteria applied. Since the times of August Boeckh, 4 scholars have been analyzing these elements trying to sort out doxographical trees of succession which would enable to grasp fragments of lost texts of Pythagoreanism. This task has been accomplished by studying late authors such as Porphyry and Iamblichus, whose accounts turned out to rely on earlier texts such as those of Aristotle and his followers. But  however successful (or unsuccessful) these studies have been, 5 other problems arose from them. The data made available by Quellenforschung showed that Pythagoreanism had always been a multifaceted as well as an extremely controversial movement, and that reconstructing its tradition from Neoplatonism up Aristotle and Plato could not help in explaining its inconsistencies. On the contrary, the more “original”testimonies emerged from Hellenistic and Roman literature the more it became evident that Pythagoreanism was characterized by two apparently incompatible strands of knowledge, i.e. the “mystical”one of acousmata and metempsychosis and  the “scientific”one of cosmology and mathematics.

Cornelli gives full account of the interpretations which led to this impasse. His scrutiny of  Pythagorean scholarship is both exhaustive and  stimulating. The different hermeneutic approaches to Pythagorean literature make clear that a purely diachronic approach to the historical development of tradition is not sufficient to grasp its uniqueness. Cornelli suggests therefore to combine this approach with another one, which he calls «synchronic ». As he puts it, «to synchronically understand Pythagoreanism is to recognize its place within the categories ordinarily used to describe ancient philosophy»,  namely: «“pre-Socratic”, “school”, “science”, “religion”, “politics”, or even “philosophy”» (54). But as none of these standard categories is multifaceted enough to apply to Pythagoreanism, an adjustment in methodology becomes necessary. A truly  synchronic understanding of Pythagoreanism must be multidisciplinary, in order to overcome «the  dichotomies between science and magic, writing  and orality, Ionians and Italics, to which historiography usually appeals”(55). Such an approach had already been attempted by Walter Burkert, who in his seminal book of 1972 pointed out the necessity to have a treatment of Pythagoreanism as «many- sided as possible».6 Cornelli follows this path, but goes further. He claims that if Pythagorean wisdom is polymathy, as Heracleitus puts it (fr. 22 B 40 and 129 DK), the study of it must suit its nature, and thus turn into a « methodological polymathy » (54). This leads Cornelli to claim that  Pythagoreanism itself must be considerated as an historiographical category. It does not fall under the “conventional”categories of Presocratic philosophy such as religion, politics and science, but encompasses them all.

Cornelli’s aim is ambitious: he maintains that one has to understand Pythagoreanism not through already existing categories, but as a category on its own. This « will permit Pythagoreanism to emerge from the mists of its complex history » (54), and in turn enable to get a better understanding of other categories of ancient philosophy. Such a methodology may even be of great impact outside the field of Pythagoreanism, as it will likely have consequences also for the study of the pre-Socratics in general.7

One may wonder whether such an holistic approach, which aims at eliminating barriers between disciplines, is altogether possible, given the ultra- specialized character of contemporary scholarship. Another problem concerns the subjects of research which characterize Pythagoreanism. These appear to be fundamentally heterogeneous: on the one  hand science, on the other religion: can we cope with such diverse topics using one single approach? Cornelli’s book leaves many questions open: only  time will tell if its ideas will be able to convert into reality. One thing is certain: a holistic approach to Pythagoreanism may be difficult if not altogether impossible to attain. But even more so, there is no doubt that such an approach represents a highly  wished desideratum in scholarship, where compartmentalization of the different facets of Pythagorean knowledge has become more and more increasing, thus making it difficult to study the context of their origins, development, and interdependency.

But  Pythagoreanism is not only an historiographical category. Cornelli goes further this categorization, and tackles key-issues linked to it, namely the definition of Pythagoreanism and the criterion for being Pythagorean.8 To answer these questions, he focuses on three distinct strands of Pythagorean tradition,  namely: way of life as attested in the akousmata and symbola, immortality and transmigration of the soul, and numerology. Cornelli’s idea is that all of these  forms of knowledge, though different, go back to  “Proto-pythagoreanism”, 9 that is to the most ancient stage of this philosophical movement, and that they remained a distinct feature of Pythagoreanism also in later ages. In two distinct chapters he deals in detail with these topics (chapter 3, on metempsychosis;  chapter 4, on numbers), which showcase how varied and multifaceted Pythagoreanism is. Here we learn, among other things, that Pythagoreanism appears to be « both mystical and scientific, because on the one hand, the theory of metempsych ō sis does not respond only to a soteriological mystique, but also becomes an explanatory element of a reality that is irreducibly interconnected, as well as being the foundation of  epistemology in the practice of anám n ē s is» (192).

One might think that in Cornelli’s view the definition of Pythagorean identity is a complex one, similar to that of Pythagoreanism as an historiographical category. But this is not the case, as for Cornelli the criterion for being Pythagorean is « membership in a community and a shared bíos consisting primarily in observing Pythagorean  akoúsmata and symbola, rather than the acceptance of certain philosophical and scientific theories » (82). This means that if on one hand there is no contradiction between the acousmatic and the  mathematical Pythagoreanism, on the other there is no doubt that the acousmatic moment is decisive: not science but way of life and belonging to a Pythagorean koinonia 10 is the ultimate criterion for identifying a Pythagorean.11

So we see: the concern of an historiographical Pythagoreanism which encompasses the contrasts and differences of tradition does not impede the  author to provide the distinctive feature of what is specifically Pythagorean and what is not. A major achievement of the book lies in the productivity of this ambivalence: very different figures of tradition like Philolaus and Apollonius turn out to be similar as soon as their adherence to a special lifestyle and a community comes to the fore. We can therefore conclude that Cornelli’s Pythagoreanism is not just a “historiographical category”, as it has to do not with the doctrines, but with the lives of its protagonists. It is a category  in flesh and blood, which cannot  be separated from the charismatic manners and  attitudes of the representatives of Pythagoreanism in its different historical stages.

Notas

  1. G. Cornelli, O pitagorismo como categoria historiográfica, “Classica Digitalia Brasil”, CECH- Universidade de Coimbra/Annablume, Coimbra/São Paulo 2011. In the same year the author organized a conference on Pythagorean tradition in Brasilia, the proceedings of which have appeared recently (On Pythagoreanism, eds. G. Cornelli, C. Macris, R. McKirahan, de Gruyter, Berlin 2013).
  2. See the reviews of the Portuguese version of Cornelli’s book: Francesc Casadesús Bordoy, Archai 7 (2011), 159-162 and Manuela Dal Borgo, Digressus 12 (2012), 64-71.
  3. 53: «Rather, the proposed methodology aims to understand how, through the intertwining of diachronic and synchronic dimensions, the category of “Pythagoreanism”survived the expected dilution of a multifaceted movement, a movement that is not only radically and extensively diverse in its authors and subjects, but that additionally spans over a thousand years of the history of Western thought. In fact, the unique challenge of this project among to the problems associated with the history of pre-Socratic philosophy lies in the fact that Pythagoreanism has properly never died».
  4. A. Boeckh, Philolaos des Pythagoreers Lehren nebst den Bruchstücken seines Werkes, Vossische Buchhandlung, Berlin 1819.
  5. Seminal Quellenforschung in Pythagoreanism has been done since the last decades of 1800. See E. Zeller, E. Rohde, Die Quellen des Iamblichus in seiner Biographie des Pythagoras, Rheinisches Museum für Philologie 26 (1871), 554-576; J. Mewaldt, De Aristoxeni Pythagoricis sententiis et Vita Pythagorica, Dissertation Berlin 1904; W. Bertermann, De Iamblichi vitae Pythagoricae fontibus, Dissertation Königsberg 1913; A. Delatte, Études sur la littérature pythagoricienne, Slatkine & Fils, Paris 1915, Essai sur la politique pythagoricienne, Slatkine & Fils, Paris 1922, La vie de Pythagore de Diogène Laërce, Lamertin, Bruxelles 1922; H. Jäger, Die Quellen des Porphyrios in seiner Pythagoras-Biographie, Dissertation Zürich 1919; I. Lévy, Recherches sur les sources de la legend de Pythagore, Leroux, Paris 1927; A.-J. Festugière, Sur la ‘Vita Pythagorica’ de Jamblique, Revue des études grecques 50 (1937), 470-484; K. von Fritz, Pythagorean Politics in Southern Italy. An Analysis of the Sources, Columbia University Press, New York 1940 and ‘Pythagoras’, RE 47, 1963, 171-203; W. Burkert, Lore and Science in Ancient Pythagoreanism, Cambridge University Press, Cambridge 1972, esp. 53-83 and 97-109. The achievements reached by these scholars have been recently doubted by Leonid Zhmud, who claims that «attempts to reconstruct authentic Pythagorean texts from the fifth and fourth centuries brought to no result», and that «perhaps because of the absence of palpable success in this area of Quellenforschung, in recent decades very few scholars have ventured far into it» (Pythagoras and the Early Pythagoreans, Oxford University Press, Oxford 2012, 9-10). Despite Zhmud’s skepticism, many scholars do nowadays still believe that later authors (such as Iamblichus) use sources going back to texts of the 5th and 4th centuries (such as Aristotle’s works on Pythagoreanism). A recent work going in this direction is P.S. Horky, Plato and Pythagoreanism, Oxford University Press, Oxford 2013, esp. 85-88.
  6. W. Burkert, Lore and Science, 12: «Most studies of Pythagoreanism have dealt with only one restricted aspect; even Zeller confined himself to the development of philosophical concepts, left mathematics aside, and bracketed out religious and ethical questions; and later works have been even more specialized, whether in the philosophical area, in that of mathematical, astronomical, and musical problems, or that of religion». This approach has been severely criticized by Leonid Zhmud, who thinks that Pythagoreanism can be studied only by sorting out single issues «which may prove amenable to solution» (L. Zhmud, Pythagoras, 12; on this issue see also Zhmud’s latest paper On the Fallacy of the Holistic Approach to Pythagoreanism, held in Berlin on October 20, 2013 at the workshop “Pythagorean Harmonics from Philolaus to Leibniz”).
  7. Thanks to its complexity, Cornelli’s Pythagoreanism turns out to be a paradigmatic hermeneutic category which forces to overcome the traditional boundaries that characterize the study of ancient thought and culture: «In the case of Pythagoreanism, it will be necessary to overcome the rigid dichotomies of a historiography too accustomed to distinguish, for example, between sciene and magic, writing and orality, Ionian and Italian. None of these alone seems to capture the complexity of Pythagorean social organization and doctrine» (55).
  8. In Cornelli’s view, the criteria which are commonly used for defining “what is Pythagorean”are not sufficient: «The criteria commonly used to classify someone as a Pythagorean did not seem to stand up to our methodological test: because one cannot think of the Pythagorean school as something doctrinally homogeneous. Further, neither geographical criteria nor doxographical trees of succession serve as adequate ways to define the category» (84).
  9. The term “Proto-Pythagoreanism”is not new in scholarship: see, e.g., G. de Santillana & H. von Dechend, Hamlet’s Mill. An Essay on Myth and the Frame of Time, Gambit, Boston 1969. New is the systematical use of it Cornelli makes in his book (5-6, 42-44, 49, 51, 60-61, 73, 84-85, 87, 91, 94, 97-99, 119, 126, 132, 134, 135, 137, 144, 145, 147, 185, 188, 190, 192, 194).
  10. The issue of Pythagorean koinonia  is debated at pages 67-77 of the  volume. To define the specific character of Pythagorean “clubs”Cornelli opts for the neutral term koinonia, thus rejecting other definitions such as “sect”(Rohde, Burkert, Riedweg) and “church”(Toynbee, Jaeger). On this and related issues see also G. Cornelli, Sulla vita filosofica in comune: koinonía e philía pitagoriche, in: S. Giombini & F. Marcacci (eds.), Il quinto secolo. Studi di filosofia antica in onore di Livio Rossetti, Aguaplano, Perugia 2010, 415-436.
  11. In Cornelli’s view, these two aspects are linked: «However, the possibility of adherence to a particular way of life implies, at least in its inaugural pre-Socratic times, the actual existence of a community that is structured around that same way of life» (59). Bruno Centrone (Review of Zhmud, Wissenschaft, Philosophie und Religion im frühen Pythagoreismus, Elenchos  20 (1999), 441) and Carl Huffman (Two Problems in Pythagoreanism, in P. Curd & D.W. Graham (eds.), The Oxford Handbook to Presocratic Philosophy, Oxford University Press, Oxford 2008, 301) have similar claims, but they do not connect these two aspects.

Alessandro Stavru – Freie Universität, Berlin.

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