HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 9. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2004. Resenha de: POLETTO, Júlia; KREUTZ, Lúcio. Conjectura, Caxias do Sul, v. 19, n. 2, p. 199-203, maio/ago, 2014.

É indiscutível a satisfação que, como pesquisadores, sentimos ao ler um livro que amplia as compreensões sobre determinado assunto. Mais do que apenas ler, é encontrar e explorar esses escritos, os quais nos auxiliam na “desconstrução” de conceitos e na reconstrução do conhecimento, ampliando assim nossas lentes sobre o assunto pesquisado.

Assim acontece em A identidade cultural na pós-modernidade, livro escrito por Stuart Hall e editado pela DP&A. Stuart Hall (1932-2014) foi um jamaicano que viveu e trabalhou na Inglaterra, transitando constantemente entre culturas diferentes em seu próprio processo identitário. Esta experiência o motivou e inspirou para as reflexões que construiu acerca da identidade, dentro da perspectiva dos estudos culturais. O autor faleceu recentemente (fevereiro de 2014) e deixou para os pesquisadores um primoroso legado científico, sendo alguns de seus escritos mais importantes: Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais; Raça, cultura e comunicações: olhando para trás e para frente dos estudos culturais; Centralidade da Cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo e Da diáspora: identidade e mediações culturais. Da mesma forma, a obra A identidade cultural na pósmodernidade elaborada por Stuart Hall contribui para esse arsenal de produções que discutem cultura e identidade.

O livro tem como propósito apresentar algumas questões de identidade cultural, contemplando os conceitos de sujeito e identidade do período da modernidade até a pós-modernidade. Analisa a possível existência de uma crise de identidade, investigando os caminhos percorridos por essa crise e propondo novos olhares para a temática da identidade.

O primeiro capítulo, intitulado “A identidade em questão”, introduz a temática do livro, de forma clara e coerente. Inicia sinalizando as concepções de identidade que permeiam o sujeito desde o Iluminismo.

A partir de seus estudos, Stuart Hall distingue três concepções de identidade do ser humano: o sujeito do Iluminismo, que é o indivíduo centrado e dotado de capacidades de razão; o sujeito sociológico, presente no mundo moderno e que não é independente, uma vez que se forma pela relação que estabelece com os outros; e o sujeito pós-moderno, o qual não possui uma identidade fixa, promovendo assim esse debate em torno da crise de identidade.

Tendo em vista a distinção apresentada dessas concepções de identidade, o autor aponta a mudança ocorrida na modernidade tardia, a qual está intrinsecamente vinculada à questão da identidade do sujeito.

Baseado na compreensão de diferentes autores, Stuart Hall contextualiza seu entendimento de sociedade moderna e das sociedades da modernidade tardia. A relação entre essas sociedades e a questão da identidade construída pelo autor torna-se interessante e provocativa, uma vez que pontua as descontinuidades da sociedade moderna e as diferentes posições de sujeito que o indivíduo carrega consigo na modernidade tardia, ocasionando essa crise de identidade.

A partir dessas provocações e desses tensionamentos, Stuart Hall elabora o segundo capítulo do livro, “Nascimento e morte do sujeito moderno”, abordando a forma como o sujeito entra na modernidade e de como se “despede” desse período. Caracteriza o sujeito do início da modernidade como individualista, trazendo consigo resquícios de outros períodos, como o Humanismo renascentista, em que o homem era o centro do universo, e o Iluminismo, momento em que o foco encontra-se no homem racional e científico. Contudo, ao passo que a sociedade moderna se torna mais complexa, coletiva e social, em função das transformações em nível econômico e político, o ser humano também modifica sua identidade, passando a ser visto mais como um ser “definido” no interior dessas novas estruturas de sociedade. Dessa forma, originou-se o sujeito sociológico, que estabelece sua identidade por meio das relações que constrói, sendo esse o sujeito central do tempo moderno.

O descentramento do sujeito sociológico ocorre, segundo o autor, em virtude de cinco avanços das ciências humanas realizados na modernidade tardia, ocasionando, assim, o “falecimento” do sujeito da época moderna. Bem-elaborados e fundamentados por Hall, os cincos avanços e, por que não dizer, “motivos” do descentramento do sujeito foram: as tradições do pensamento marxista, que trouxeram à tona diferentes interpretações do trabalho de Marx e suscitaram contradições e questionamentos sobre a posição do sujeito na sociedade; a descoberta do inconsciente por Freud, que defende a identidade como algo móvel, formada por processos conscientes e inconscientes do sujeito; o trabalho do linguista Ferdinand de Saussure, que afirma que não somos os autores das afirmações que fazemos, uma vez que toda afirmação carrega ecos dos nossos significados e de muitos outros, pois o que dizemos tem um “antes” e um “depois”; o estudo e trabalho do poder disciplinar realizado por Michel Foucault, que propunha manter os sujeitos, com seus modos de ser e agir, em estrito controle e disciplina, sendo este o produto das instituições coletivas da modernidade tardia; e o quinto e último avanço apresenta o feminismo, assim como os movimentos que emergiram e marcaram os anos 60, os quais buscavam salientar a identidade social de cada grupo. Especialmente o feminismo, que mais do que questionar a posição da mulher na sociedade, proporcionou críticas e reflexões em torno das identidades sexuais e de gênero.

A partir desses cinco tópicos minuciosamente analisados por Hall, compreende-se a efetiva descentralização do sujeito e da sua identidade no período moderno e na modernidade tardia. Após essa interessante análise das mudanças nos conceitos de sujeito e identidade, Stuart Hall nos desafia a pensar sobre a identidade cultural nacional e seus deslocamentos ocasionados pela globalização.

Essa reflexão permeia os capítulos 3, 4 e 5 do livro e remonta um cenário crítico em torno da noção de identidade nacional que temos e que, na verdade, construímos e “representamos”. Para o autor, o inglês, por exemplo, tem suas características nacionais porque criamos um emaranhado de representações em torno dessa identidade nacional, definindo padrões, símbolos, língua, modos de pensar e de agir, compondo uma cultura específica. Entretanto, essa identidade nacional do inglês não é única e exclusiva.

Partindo desse exemplo, Stuart Hall critica esses modos de perceber as identidades culturais nacionais, que, muitas vezes, soam como formas naturais e neutras. Sua crítica acerca de uma identidade nacional unificada torna-se muito coerente, ao passo que fundamenta sua análise nas diferenças existentes em uma mesma nação, como o gênero e a etnia.

Além disso, afirma que, em virtude da globalização, diversos deslocamentos ocorreram no interior dessas identidades culturais nacionais, promovendo o foco para identidades locais e regionais, assim como um hibridismo das culturas originado pela migração dos povos.

Para encerrar o livro, no 6º capítulo, Hall amplia a compreensão de hibridismo, sinalizando que as identidades culturais são híbridas, ou seja, movidas por mudanças, encontros e desencontros. Dessa forma, reforça seu entendimento em torno da identidade, alegando que não é possível afirmar que temos uma “identidade”, mas que somos compostos por uma identificação, passível de mudança e transformação.

Ao longo de todo o livro, o autor discute a questão da identidade, questionando sobre o que, efetivamente, consiste a dita crise de identidade e afirmando a urgente necessidade de repensarmos o nosso entendimento de identidade, visto que as sociedades foram, ao longo do tempo, marcadas por transformações, que influenciaram as maneiras de compreender os sujeitos e sua cultura. Mais do que falar em identidade, Stuart Hall sugere uma nova maneira de trabalharmos com a temática, percebendo que toda identidade é móvel e pode ser redirecionada, indicando a possibilidade de utilizarmos o termo identificação ou a expressão processo identitário para compreender de maneira mais significativa as representações que formam (e transformam) as culturas, os sujeitos e os espaços.

Não é apenas uma mudança na nomenclatura. Ao analisarmos os escritos de Stuart Hall, identificamos a honestidade intelectual do autor ao adotar identificação para sinalizar e compreender as identidades culturais, uma vez que defende que nenhuma identidade é fixa ou imóvel, e que não somos capazes de encontrar verdades absolutas sobre as identidades. Dessa forma, evidencia que somos constituídos por representações, sendo essencial compreendermos o mundo por esse olhar, em que as mudanças acontecem, as culturas se misturam e as certezas são inconstantes.

Ao percorrermos os escritos de cada página, percebemos que a leitura desse livro promove uma desconstrução de nossas crenças em torno daquilo que entendemos por identidade, desafiando-nos a pensar em processos identitários, os quais estão em constante modificação e são compostos por diferentes olhares, em distintos tempos e espaços. Não é apenas um livro que aponta conceitos sobre a temática. Ao contrário: chegou em boa-hora, para desmitificar, desconstruir e propor uma reflexão sobre a categoria identidade, lançando voos mais altos para aqueles que ousam pesquisar os processos identitários e as culturas.

Júlia Poletto – Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade de Caxias do Sul (UCS). E-mail: [email protected]

Lúcio Kreutz – Doutor em Educação pela PUC/SP. Professor no PPGEdu da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Caxias do Sul – RS – Brasil. E-mail: [email protected]

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