FIORIN, José Luiz. Figuras de retórica. São Paulo: Contexto, 2014. 205 p. Resenha de: PISTORI, Maria Helena Cruz.  O argumento é o que realça, o que faz brilhar uma ideia. Bakhtiniana – Revista de Estudos do Discurso, v.9 n.1, São Paulo, Jan./July 2014.

Ao datar o Prefácio de sua obra, o professor Fiorin utiliza esta forma pouco usual: “São Paulo, numa brumosa tarde de inverno de 2013”. A referência é ao tempo acinzentado, pouco luminoso e coberto de névoas do inverno. Mas a figura das brumas, que muitas vezes encobrem nosso olhar (e nossa compreensão), com muita propriedade pode ser evocada nesta apresentação de Figuras de retórica. Sim, porque se trata de iluminar, esclarecer e definir conceitos que nem sempre têm sido bem compreendidos, apesar do fascínio que vêm exercendo sobre os estudiosos da linguagem há mais de dois milênios. E já adiantamos aqui: é obra que surge para se tornar referência na área.

Linguista renomado e reconhecido, José Luiz Fiorin professa um interesse pela retórica que não é de hoje. Para um público mais amplo do que o propriamente acadêmico, basta lembrar sua contribuição semanal à revista LÍNGUA Portuguesa desde 2006, na seção que logo passa a levar o nome da disciplina – Retórica. Mas penso que é justamente sua profunda formação de linguista – estudioso de Saussure, Benveniste, Hjelmslev…, ao lado de seu conhecimento da literatura, do grego, do latim, da própria língua portuguesa, que tornam singular sua última publicação: Figuras de retórica.

Não se trata de um catálogo de figuras, avisa o mestre, mas da apresentação de mecanismos de construção de sentido, operações enunciativas de intensificação ou atenuação dos significados presentes no discurso “a serviço da persuasão” (p.10). Mas, ainda que não seja um catálogo, a lista é longa: são apresentadas ao leitor mais de uma centena de figuras (alguns afirmam que a “fúria taxionômica” dos antigos chegou a classificar centenas delas…). E, em sua definição e análise, por muitas vezes o autor recupera o debate que sobre ela travaram os antigos, os clássicos e os contemporâneos: Cícero, Quintiliano, a Retórica a Herênio, Pierre Fontanier, Jakobson, o Grupo µ…

A compreensão de cada uma das figuras e de sua argumentatividade no discurso é precedida dos três capítulos iniciais que dão ao leitor os fundamentos do trabalho, apresentando e analisando com acuidade as relações entre linguística e retórica e levando o leitor a perceber as dimensões tropológicas e argumentativas da linguagem, ambas constituindo sua retoricidade geral. A cada figura é dedicado, ao menos, um capítulo (o funcionamento argumentativo da metáfora, “rainha” das figuras, e da metonímia merecem mais capítulos). O quarto capítulo mostra ao leitor o modo como o autor sistematizou a apresentação das figuras. Na realidade, mesmo se tratando de uma “reorganização de textos que apareceram originalmente na revista LÍNGUA Portuguesa, da Editora Segmento”, conforme informa o autor no Prefácio, esse todo, agora, adquire novos sentidos e, indubitavelmente, maior relevância para os estudiosos da linguagem.

Sabemos que, há mais de dois mil anos, os estudos da retórica são parte da cultura humana. No entanto, ora se constituíram em torno das quatro ou cinco operações de construção do discurso persuasivo que se encontram nos tratados gregos e latinos – inventiodispositioelocutioactio e memoria (nem sempre a memoria estará presente), ora se restringiram a algumas delas, de preferência à elocutio. Mesmo esta última, porém, e seu interesse no estilo, só com Górgias (ca.485 aC-ca.380 aC) passa a integrar a disciplina. De modo sucinto, Fiorin refaz esse percurso da disciplina ao longo dos séculos, indicando os períodos em que se restringiu ao estudo das figuras e, mais recentemente, em que ela foi retomada em sua inteireza, com o foco na argumentação. Mais importante, porém, não é a retomada histórica, mas seu modo de contextualizá-la em relação aos estudos discursivos, pois será sempre este o eixo de toda a obra – o discurso.

Destacamos tal posicionamento principalmente porque a revitalização da retórica no séc. XX foi primeiramente obra de filósofos (ou jusfilósofos), preocupados com os raciocínios que envolviam a ética, a moral e o direito; o marco na área é o conhecido Tratado da argumentação. A nova retórica, de Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca, de 1958. Esse compêndio da argumentação não trata exatamente de processos de linguagem, escapando assim ao escopo da Linguística, mas do que os autores denominaram “técnicas discursivas” de argumentação; só mais tarde passa o Tratado a se constituir fonte de pesquisa para linguistas. O foco de Fiorin, porém, é outro: já quando apresenta motivos para o declínio da retórica, praticamente reduzida ao estudo das figuras entre o séc. XIX e meados do séc. XX, mostra-nos como “novas condições discursivas” alteram nosso modo de vê-la e, sobretudo, como novas concepções de ciência, de objetividade/neutralidade e de modelos de comunicação vão permitir a aproximação da Linguística com a antiga disciplina. Na realidade, destaca que tal aproximação foi possível também por causa da alteração e ampliação do próprio objeto da linguística, de Saussure a Benveniste; agora se trata de uma linguística que vai além da frase, abrangendo o texto, plano de manifestação do discurso, adverte Fiorin. É a partir da consideração de uma “retoricidade geral na linguagem” que o autor propõe que a linguística do discurso deva herdar os ensinamentos da retórica; isto é, defende o aproveitamento de seus estudos na compreensão daquilo que “perturba a gramática da língua e uma pretensa lógica da linguagem”, o campo da retórica (p.23), e não a mera aplicação de uma doutrina fixada na Antiguidade.

O texto vai retomando, então, os primeiros trabalhos na área a aproximar Linguística e Retórica: o “célebre texto de Jakobson intitulado ‘Dois aspectos da linguagem e dois tipos de afasia’ (1963: 43-67)” (p.15), que trata da metáfora e da metonímia como processos simbólicos de construção de sentido em todas as linguagens; a seguir, o trabalho do Grupo µ, de 1974, tentativa de classificação das figuras de um ponto de vista metodológico mais rigoroso. Fiorin também apresenta o modo como o famoso aide-mémoire – A antiga retórica, de Roland Barthes, publicado em 1970 na revista Communications, reaviva o interesse pela retórica entre os linguistas.

No segundo capítulo, ressaltamos o esclarecimento do significado inicial de ornatus, no latim, e a maneira como, segundo o autor, deve ser compreendido na retórica: “bem argumentado”, “bem equipado para exercer sua função”; e do próprio termo argumento, cuja raiz grega argu– significa “fazer brilhar, cintilar”. E aí devemos destacar a posição-chave do autor em relação às figuras de retórica: “não há uma cisão entre argumentação e figuras, pois estas exercem sempre um papel argumentativo” (p.27). Ora, aqui o Prof. Fiorin está dialogando com aqueles que as consideram como “ornamentos”, um embelezamento da linguagem ou uma forma de expressão que se distancia da “natural”. Dialoga ainda com o posicionamento de Perelman e Tyteca que, no Tratado, fazem uma distinção entre figuras argumentativas e figuras de estilo, afirmando que só será argumentativa a figura que acarrete “mudança de perspectiva” ao leitor em relação à nova situação de emprego. Caso isso não ocorra, “a figura será percebida como ornamento, como figura de estilo. Ela poderá suscitar a admiração, mas no plano estético, ou como testemunho da originalidade do orador” (Tratado da argumentação. A nova retórica. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p.192). Outros, como Olivier Reboul, consideram que, ao lado das “figuras de retórica” – persuasivas, existem as não retóricas, como as poéticas, humorísticas (Introdução à retórica. São Paulo: Martins Fontes, p.113). A obra de Fiorin contextualiza o estudo das figuras a partir da retórica antiga mas, no presente, integra-as – todas, aos estudos do discurso, como operações enunciativas criadoras de efeitos de sentido argumentativos.

Como se pode observar, esses primeiros capítulos são essenciais para a compreensão e possível aprofundamento do todo da obra. No terceiro, tomamos contato com autores mais recentes, como Ricouer, Greimas & Courtès, Denis Bertrand, que propõem aparato teórico-metodológico que servirá ao autor para exposição das figuras e suas funções no discurso: avivar ou abrandar determinado sentido. Sem dúvida, a clareza do texto é virtude comum nos textos do professor; e neste, em particular, o aspecto didático – mas não simplificador – é outra de suas qualidades. Dessa forma, conceitos como intensidade-extensão das grandezas linguísticas, aceleração-desaceleração, elasticidade-condensação, entre outros, são compreendidos sobretudo por meio da argumentação pelo exemplo, no que o autor é mestre. Vejamos um pequeno trecho deste terceiro capítulo. Retomando Ricoueur e Benveniste, ele chega à afirmação:

[…] a retórica é a disciplina da impropriedade do sentido. Exemplifiquemos isso. Quando se diz, no capítulo XXXVII de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, que ‘o homem é uma errata pensante’, apreende-se a metáfora, quando se observa que há uma não pertinência em considerar que o homem é uma errata. Afinal, errata se usa para escritos. No entanto, essa predicação impertinente estabelece uma tensão entre identidade (correção de erros, aprimoramento) e diferença (em cada edição/em cada estágio da vida) e, assim, ganha pertinência (p.28-9).

Na classificação das figuras de que vai tratar ao longo da obra, o autor se vale da sistematização dos antigos, dividindo-as conforme ocorram (1) por adjunção ou repetição, aumentando o enunciado; (2) por supressão, diminuindo-o; (3) por transposição de elementos, ou seja, a troca de seu lugar no enunciado; (4) e pela mudança ou troca de elementos. “Na verdade, os tropos realizam um movimento de concentração semântica, que é característica da metáfora, ou um de expansão semântica, que é a propriedade da metonímia” (p.31). Cada figura é definida não apenas formalmente, mas de modo que o leitor realmente possa verificar como o efeito de sentido argumentativo se constrói discursivamente. Para isso, sempre será amplamente exemplificada e contextualizada: nunca apenas a linha onde ela ocorre, mas todo o trecho em que aparece, tornando possível ao leitor recuperar minimamente o contexto.

O farto exemplário é, com certeza, uma das riquezas da obra. Os autores citados recuperam a lusofonia como um todo, no tempo e no espaço, e em diferentes gêneros: brasileiros, portugueses, angolanos… Dos clássicos (Camões, Vieira, Machado…) aos modernos e contemporâneos (João Cabral de Melo Neto, Graciliano Ramos, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, José Paulo Paes, Ondjaki, José Eduardo Agualusa…); de autores de todo o séc. XVIII e XIX (Dom Francisco de Vasconcelos Coutinho, Alencar, Castro Alves, Garret, Eça de Queirós…) àqueles que se dedicaram à canção (Chico Buarque, João Bosco e Aldir Blanc, Paulo Soledade e Marino Pinto…). A lista é imensa. Há também o discurso jornalístico, representado pelo Jornal do Brasil – o exemplo da informação meteorológica no dia posterior à decretação do AI-5 é imperdível, a revista Veja, O Estado de S. Paulo… Sempre encontramos ainda o cuidado de exemplificação em outras linguagens que não a verbal, pois, afirma o mestre, “se a semiótica, que se quer uma teoria geral da significação, pretende voltar à retórica, para herdá-la, é preciso tratar da linguagem em geral” (p.30). E, nesse ponto, lamentamos a falta de ilustrações, pois os exemplos visuais são apenas descritos. Finalmente, a obra apresenta um Índice remissivo, que facilita ao leitor o encontro de qualquer figura pela qual tenha interesse, e uma bibliografia que abrange obras da retórica antiga, clássica e nova, da Linguística, da Semiótica, Pragmática, de Gramática.

Duas questões fecham estes comentários. Primeiramente, uma obra como esta realmente fazia falta em nossas estantes. Hoje encontramos apenas pequenas amostras de figuras em listas breves, ora no fim de algumas gramáticas, ora em obras que tratam da linguagem jurídica, ora em obras que tratam da retórica, ou em livros didáticos. Obras específicas sobre o tema (algumas foram publicadas na década de 80), além de esgotadas, não se propunham a perspectiva discursiva nem a profundidade teórica encontrada nesta Figuras de retórica.

E, para concluir, gostaria de retomar uma afirmação de Fiorin no Prefácio, justamente porque, a meu ver, indica a importância da obra de forma ampla, já que as figuras são apenas parte de todo o complexo retórico que herdamos dos antigos: a “retórica foi uma aventura do espírito humano para, na construção da democracia, em que são essenciais a dissensão e a persuasão, compreender os meios de que se serve o enunciador para realizar sua atividade persuasória” (p.11). A questão é de compreensão: quais sentidos são construídos, quem os constrói, como se constroem, para quem, com que finalidade… E é esta a relevância e “utilidade” da obra: mostrar como compreender a/as linguagem/linguagens que permeiam nossa atividade cotidiana numa sociedade democrática, com a possibilidade (idealista?) de, nas palavras do professor, “tornar os homens mais humanos”.

Maria Helena Cruz Pistori – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brasil; CNPq; [email protected].

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