OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. A religião na sociedade urbana e pluralista. São Paulo: Paulus, 2013. Resenha de: KRINDGES, Sandra Maria. Conjectura, Caxias do Sul, v. 19, n. 3, p. 217-223, set/dez, 2014.

A religião na sociedade urbana e pluralista, de Manfredo Araújo de Oliveira, instiga-nos à reflexão acerca do lugar ocupado pelo fenômeno religioso nos tempos hodiernos, caracterizado como elemento imprescindível de análise para a compreensão do fenômeno da globalização. Esse não se reduz a transformações meramente na esfera econômica, mas de amplas e complexas transformações da realidade a partir do progresso tecnológico-científico e de sistemas de comunicação multifacetados, astutos e revolucionários para denominar o que ora se entende por era da informação e do conhecimento. O texto situa o leitor tanto nos aspetos tradicionais e históricos da ciência e da cultura, mas também e fundamentalmente, quanto à presença da religião ante os desafios da cultura contemporânea nesse contexto de modernidade tardia.

O texto divide-se em duas partes, sendo que na primeira o capítulo intitulado: “A religião no contexto sociocultural da modernidade tardia”, é subdivido em dois subcapítulos: o primeiro refere-se ao “Saber científico como determinante na sociedade contemporânea” e o segundo, “A presença da religião no novo contexto societário”. Nessa primeira parte, Oliveira aborda a cientificidade e seu determinismo na sociedade contemporânea e a religião inserida nesse contexto. Discorre a respeito das transformações no campo das ciências e das novas concepções de saber, e da racionalidade concebida como a possibilidade do homem de compreender o ser e a realidade em sua totalidade, a partir da compreensão ontológica do homem e do universo. Passa-se, porém, à era da tecnicização das ciências, caracterizando-se como um saber ou uma racionalidade instrumental.

Há uma nova ontologia na compreensão da realidade a serviço não mais da compreensão do lugar dos entes, das coisas ou dos fenômenos na ordem cósmica do universo, mas da subjetivação. A subjetividade passa a ser entendida como objeto para a determinação de sentido da realidade, a partir da intencionalidade humana de imposição e controle sobre o mundo e sobre a natureza.

O autor se utiliza da concepção de diversos comentadores das áreas da ciência, da filosofia e da religião para descrever as profundas transformações e mudanças de paradigmas nas ciências. O entendimento da racionalidade e as concepções metafísicas das leis da natureza ao arcabouço lógico-científico das ciências modernas demarcam tais transformações. Há contribuições importantes para com o atual estágio, dentre elas o pensamento analítico de Aristóteles à argumentação kantiana para o entendimento, cujas leis, a priori, precedem todo conhecimento empírico da natureza; as pretensões de Newton de uma teoria para formular as leis gerais do universo; as leis da física e a reconsideração acerca dos conceitos de matéria; a física quântica e as interconexões entre realidades interdependentes das ciências da vida e a grande descoberta da biologia molecular até a universalidade do código genético.

Essas e outras contribuições favoreceram a compreensão do universo em sua totalidade, em uma vasta rede de inter-relações entre todos os sistemas e caracterizaram as mudanças de uma concepção estático-determinística da realidade para uma compreensão processual e contigencial da realidade. O universo, portanto, como algo em curso, inacabado e em evolução, passa a ter nova imagem do cosmos, da matéria, da vida e da mente numa interconexão permanente. De uma concepção isolacionista de mundo, de linguagem matematicamente quantificada para um entendimento integrado de todos os seres vivos e para o saber das ciências modernas, cuja intenção está em intervir na natureza, a fim de contemplar fins estabelecidos pelo próprio homem, que a nova concepção de realidade concentra-se na subjetividade, vista como princípio e razão desta última. A mediação da técnica, pois, à sistemática exploração da natureza, a  fim de reduzi-la à matéria-prima de satisfação das carências humanas caracteriza as novas concepções de mundo. E à filosofia cabe a tarefa de articulação das grandes sínteses para construir o entendimento do universo em sua totalidade, através da superação de dualismos e da tematização de princípios.

A religião, nesse cenário da modernidade tardia, redefiniu seu papel e o lugar que ocupa na sociedade, porém o que se dava outrora na ordem das representações religiosas sofre novas articulações sociais e subjetivas e, com isso, o conteúdo das crenças religiosas é profundamente afetado. Entrementes, nesse processo transitório, está a consciência do papel da religião para o debate e o enfrentamento das grandes questões da humanidade, bem como a necessária consideração do ser em sua totalidade para o “tratamento das questões radicais do sentido da vida”. (p. 106). É dada à religião uma concepção da ética que lhe permite tomar posições podendo auxiliar a vida humana, levando as pessoas a uma maior conscientização diante de suas responsabilidades e em frente das transformações no mundo, discriminações, absolutizações em torno da liberdade humana, etc.

Oliveira demarca, ainda, os desafios dos novos movimentos religiosos às igrejas cristãs e argumenta em torno da necessidade de compreender a espiritualidade ou a situação espiritual em nossos dias, para que seja possível compreender o fenômeno religioso hodierno. E, nesse sentido, refere aspectos históricos e culturais que permeiam hoje a religiosidade, especialmente no Brasil, desde os multiculturalismos e subjetivismos às características do neopentecostalismo, a vivência religiosa dos católicos, o Cristianismo, a renovação carismática.

Na segunda parte do texto, o capítulo intitulado “Consideração filosófica e teológica da religião” é subdividido em seis subcapítulos: “Dialética e auto-organização: desafio a repensar a questão de Deus”; “O lugar sistemático da religião numa reflexão filosófica”; “Razão e fé”; “Teologia e ciências”; “Hegel e o Cristianismo”; “A religião e o futuro da vida numa civilização tecnológico-produtivista” e “O caminhar no Brasil contemporâneo das comunidades dos discípulos e discípulas de Jesus”. Nessa segunda parte, Oliveira situa a religião como um lugar sistemático e adentra nas nuanças e nos desafios contemporâneos inerentes à religião, a partir de uma releitura dos aspectos históricos e atuais na compreensão do homem e na visão do universo, dos conceitos de fé e razão à compreensão da reviravolta epistemológica na ruptura com a racionalidade, até então vigente, para uma racionalidade instrumental, característica da cultura que permeia a modernidade tardia. A cultura que a permeia está envolta numa característica fundamental das ciências modernas – a tecnosfera – que, sendo um produto da técnica moderna, substitui e ameaça a biosfera.

Referentemente à concepção de homem e universo, de natureza da realidade e do papel da ciência, há também uma nova imagem de mundo, de cosmos, da matéria e da vida. Mas o conceito de mundo não está adequadamente coerente devido a uma visão fragmentada, em virtude de dualismos fundamentais entre natureza e espírito, mundo físico e mundo vivo, mundo natural e mundo humano, e no mundo da mente consciente e intencional há especificamente dois dualismos que se sobrepõem: o físico-biológico e o natural-humano.

É a partir dessa nova consciência de mundo que as formas analíticas de construção de conhecimento são questionadas, sendo que o universo é tido como único, complexo, diversificado e dinâmico devendo haver uma interconexão permanente de todos esses elementos. E, em torno desses aspectos, o autor apresenta discussões e questionamentos filosóficos, dado que a vida humana hoje está determinada pela técnica e em todos os âmbitos da vida sob fortes e irreversíveis influências nas instituições e nos valores, nos modos de pensamento e nas ações.

O contexto da modernidade tardia (como uma autocrítica radical da modernidade) tem implicações radicais nos níveis das estruturas sociais, da economia, das ciências, da religião, da cultura que se fragmenta num pluralismo cultural e nas relações sociais através de um processo de individualização estruturalmente provocado e culturalmente apoiado. A razão, sendo a grande referência da modernidade, revela-se como uma ilusão através do reinado pleno de uma razão instrumental que deseja dominar a natureza e os seres humanos. Oliveira segue a crítica tomando-a por uma razão perversa que, identificada com o controle técnico, gera estupidez nas diferentes dimensões da vida, reduzindo o homem a uma função na história e para além de uma consciência autônoma.

Da segunda parte do livro de Oliveira quer-se destacar que o autor referirá o fenômeno religioso como um importante aspecto para auxiliar na compreensão do ser humano no contexto histórico-social, porque todas as formas de discurso humano tornam-se objeto da filosofia, e essa se ocupa do ser em sua totalidade e em cada um de seus campos. E, em sendo a religião uma atividade humana, é no próprio homem que ela encontra sua explicação filosófica, e a atividade da filosofia como uma ciência universal, ocupa-se das estruturas universais e do universo do discurso. Assim, enquanto é estrutura de linguagem e está linguisticamente articulado, o ser humano, a partir de seu agir, e na relação de seu ser e de seu agir, tem, na sua corporalidade, uma mediação essencial no contato com os outros seres. Seus atos, portanto, também demonstrarão a sua singularidade, que, a partir da antropologia do século XX, revela uma posição excêntrica do ser humano e que diz respeito à sua capacidade de se distanciar da realidade, de seu mundo, e de si mesmo. Mas a sua constitutividade ontológica, de um ser espiritual, é que torna o ser humano interpretável à filosofia e, por conseguinte, para a compreensão filosófica da religião. E, pelo fato de o ser humano ser pessoal, espiritual, dotado de inteligência, de vontade e liberdade, capaz de conhecer e amar, ele se torna questão central da religião e inseparável da questão central da filosofia; um ser em sua totalidade e na relação com os entes e que só pode manifestar-se a partir da história humana. Argumenta, portanto, o autor, que o fenômeno religioso deve ser compreendido a partir da constitutividade estrutural do ser humano, e a questão de Deus, sendo central à filosofia, não seria apenas uma questão religiosa, mas precedente às religiões.

Dos temas subsequentes quer-se destacar o lugar da religião nas ciências, na filosofia e na vida contemporânea e alguns aspectos que implicam a relação entre razão e fé. E embora não haja, inicialmente, incompatibilidade e tampouco concorrência entre essas últimas, por outro lado, perpassam, na atualidade, por uma racionalidade fragmentada. A razão una e universal de diferentes esferas do real e articuladora do sentido unitário, é tida como uma realidade do passado, e as tentativas de retorno a ele são tidas como retrocesso ante um patamar de criticidade já atingido pela humanidade. Nesse sentido, o autor refere haver hoje um relativismo de todas as posições e, nesse sentido, novamente quanto ao papel da filosofia, apresenta a crítica e o risco de ela se tornar uma “conversa agradável”, mas incapaz de iluminar a vida humana diante de tais pressupostos de fragmentação da razão.

Em face da dimensão científica da atualidade e da necessidade de diferentes diálogos entre as áreas para compreender o ser humano de hoje, à teologia cabe a contribuição no sentido de que também se situa no nível do pensamento integrativo, no horizonte das ações livres do Absoluto na história. E enquanto é um discurso humano é também uma atividade de articulação teórica da inteligibilidade nos conteúdos da fé e na comunicação do homem com Deus e de Deus com a humanidade. Isso significa dizer que sua fala sobre Deus, como Criador do mundo e do ser humano, também se relaciona à compreensão global do ser humano e do mundo. Assim, e subsequentemente, aspectos da racionalidade e da liberdade serão abordados como fundamentais para uma significação humana da religião, sobretudo a partir das concepções de Hegel acerca do Cristianismo, da razão autoconsciente e da autoconsciência de liberdade para uma autodeterminação do homem sobre si mesmo e em unidade com Deus.

Finaliza-se destacando, da parte final do texto de Oliveira, a religião no cenário tecnológico de hoje e as considerações que tece acerca das ciências modernas. Essas se tornaram indispensáveis em todas as esferas da vida e na crença inabalável do homem na validade e utilidade dos conhecimentos científicos. A técnica, por sua vez, é elemento constituinte da vida das pessoas. E nesse novo projeto civilizatório, que diz respeito à ética e à religião, os problemas de proporções gigantescas, sobretudo nas áreas das biotecnologias, se configuram centrais para o futuro da vida humana. À ética já não cabe uma atuação a partir das éticas do passado, mas antes uma ética de responsabilidade global, uma macroética de solidariedade e de princípios normativos.

À religião, pois, enquanto é fenômeno da vida humana, cabe pensar a característica fundamental do ser humano como um ser espiritual e a sua coextensionalidade com o universo, como um ser total para compreender a religiosidade e a espiritualidade do ser humano hodierno. Por conseguinte, a consideração imprescindível daquilo que constitui a religião, entendida como atividade específica na vida humana, suas pretensões teóricas e práticas. E, no Brasil, mais especificamente, e a partir da leitura da realidade atual do desenvolvimento e de práticas sociais que visam torná-lo uma nação visível no cenário mundial, a ideia de democracia perpassa a construção de uma sociedade de homens livres, iguais. Nele se busca respeitar as diversidades culturais, étnicas e religiosas. A religião, o cristão e mesmo a Igreja devem ser partícipes nesse processo de um projeto humanitário comum. A esse respeito, Oliveira retoma, no final desse texto, entre outros aspectos, o contexto humano da evangelização hoje e as perspectivas de uma nova evangelização no Brasil, situando o papel da Igreja nesse contexto pós-moderno.

A leitura e o estudo do livro A religião na sociedade urbana e pluralista, de Manfredo Araújo de Oliveira, torna-se, pois, no cenário atual da sociedade urbana e pluralista, de grande valor e de contribuição indispensável para a análise e o aprofundamento do respectivo tema.

Sandra Maria Krindges –  Mestranda em Filosofia pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade de Caxias do Sul. E-mail: [email protected]

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