MELO JR., Orison Marden Bandeira de. Literatura e racismo: uma análise intercultural. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2013. 111 p. [Coleção Étnico-racial]. Resenha de: SANTOS, Rubens Pereira. Bakhtiniana – Revista de Estudos do Discurso, v.10 n.1 São Paulo Jan./Apr. 2015.

Literatura e racismo: uma análise intercultural, de Orison Marden Bandeira Jr., é um livro atraente. Resultado de uma pesquisa de mestrado, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o autor transita pelos mais variados setores da cultura: filosofia, história, antropologia, literatura, e realiza uma rigorosa análise de duas obras escritas no século XIX: O mulato (1881), de Aluísio Azevedo e The house behind the cedars (1900), do escritor americano Charles Chesnutt. Ambas são ambientadas na década de 1870 e a proposta do autor, para a análise literária, foi a de utilizar-se dos estudos bakhtinianos na intenção de apontar a existência de um discurso marcadamente racista, em especial, na fala do narrador. Como apoio para suas argumentações, Orison investiga obras anteriores, comprovando a presença de ecos de um discurso preconceituoso em relação ao negro e também ao mulato. Dos autores brasileiros, o autor demonstra que em Memórias de um sargento de milícias (1854), de Manuel Antônio de Almeida, As vítimas algozes: quadros da escravidão (1869), de Joaquim Manuel de Macedo, O tronco do ipê (1871), de José de Alencar, A escrava Isaura (1875), de Bernardo Guimarães e Iaiá Garcia (1871), de Machado de Assis, há muitas situações em que o discurso empregado pelo narrador resvala para o preconceito. A mesma comprovação é feita no romance americano A Cabana do Pai Tomás (1852), da escritora Harriet B. Stowe. Publicado em 2013, pela Editora Universitária (UFPE), o livro faz parte de uma coleção comemorativa aos dez anos da lei 10639/2003, projeto da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal de Pernambuco.

Composto por uma breve Introdução, dez capítulos e as Considerações Finais, o autor envereda por questões da mais alta importância para os estudos literários: ancorado em Bakhtin, Volochínov, Fiorin, dentre outros, estabelece as bases para a sua análise, explorando narrativas que, potencialmente, apontam para a existência do discurso racista. No capítulo 1, encontram-se os pressupostos da pesquisa. O título, bastante significativo, indica o que vai ser discutido: “Uma análise literária intercultural a partir dos conceitos de palavra, enunciado, dialogismo e compreensão” (MELO Jr., 2013, p.17). O método utilizado pelo autor é claramente bakhtiniano, baseado na Análise Dialógica do Discurso. Apoia-se, inicialmente, em estudiosos da temática, como Beth Brait (Análise e teoria do discurso), José Luiz Fiorin (Introdução ao pensamento de Bakhtin), para depois ir à fonte com Volochínov (Marxismo e filosofia da linguagem) e Os gêneros do discurso, de Bakhtin. Todos os autores têm a mesma visão sobre o texto literário e sobre a conceituação da palavra [“signo ideológico por excelência, possuindo duas dimensões: a dimensão semiótica (materialidade) e a dimensão ideológica (metalinguagem)” (MELO Jr., 2013, p.18)].

Municiado pela concepção de linguagem de Mikhail Bakhtin (o enunciado e/ou a palavra é perpassada pelo diálogo do outro), Orison trabalha o capítulo 2, apresentando teóricos do racismo que defendiam a inferioridade da raça negra, como o zoólogo suíço Agassiz. Em Voyage au Brésil (1867), escrito em parceria com a mulher, ele relata o encontro que teve com uma “população inferior”, composta por negros, mulatos e índios. Vejamos, por exemplo, o que diz o suíço a respeito das suas ideias sobre os negros, quando fala sobre a educação da mulher no Brasil: “[…] é a consequência do contato incessante com os criados pretos e mais ainda com os negrinhos que existem sempre em quantidade nas casas. Que baixeza habitual e os vícios dos pretos sejam ou não efeitos da escravidão, o certo é que existem” (AGASSIZ; AGASSIZ, 2000, p.26)1.

As ideias raciais de Agassiz encontraram espaço nos Estados Unidos e também no Brasil. Sílvio Romero, em História da literatura brasileira, concordou com a doutrina de superioridade da raça branca, creditando ao português o galardão, por ser o principal agente da cultura brasileira. Romero falava do “embranquecimento” da população brasileira, vaticínio que não prosperou. Na esteira do teórico brasileiro há nomes importantíssimos da “intelligentsia” nacional, como o abolicionista Joaquim Nabuco e Nina Rodrigues. Interessante é o caso de Nabuco, por ser um veemente abolicionista: estranha-se sua posição sobre a superioridade da raça branca, chegando a afirmar que o negro exercia uma influência negativa em relação ao branco.

No capítulo 3, o autor discute essas teorias racistas e os possíveis ecos do discurso racial em obras brasileiras. Memórias de um sargento de milíciasAs vítimas algozes: quadros da escravidão, O tronco do ipêA escrava Isaura e Iaiá Garcia foram os romances selecionados para rápidas análises. Em todas elas o narrador utiliza palavras ou frases que determinam a existência de preconceito racial. De fato, o leitor verificará que, mesmo naquelas obras que tenham o cunho de defender o negro, há referências a um discurso racialista. Macedo, em As vítimas algozes, por exemplo, coloca na voz do narrador a necessidade da abolição da escravatura porque “os escravos são perniciosos ao convívio dos brancos, seus senhores” (MELO Jr., 2013, p.34), assegurando que “nunca em parte alguma do mundo houve senhores mais humanos e complacentes que no Brasil” (MACEDO, 1991, p.62)2. Na obra macediana, o escravo é descrito como “imoral”, “ignóbil”, “perverso”, “violento”. Ressalte-se que o leitor terá ao final do capítulo um resumo do que foi exposto. Por exemplo, em Memórias de um sargento de milícias encontramos o estereótipo do “escravo desprezível”, em As vítimas algozes encontram-se os estereótipos do “escravo demônio”, do “escravo desprezível” e do “escravo imoral”. Em A escrava Isaura e Iaiá Garcia destaque para o estereótipo do “escravo nobre”.

O capítulo 4 traz ao leitor uma análise d’O mulato. O autor faz uma breve introdução sobre a recepção da obra em São Luiz do Maranhão. Raimundo Menezes, em sua biografia sobre Aluízio, diz que a repercussão não foi boa, pois os moradores da cidade viam nos personagens do romance uma crítica a si mesmos. Apesar de o romance apresentar uma crítica feroz ao preconceito, denunciando os maltratos sofridos pelos negros escravos, explicitando a perversidade dos senhores, há momentos em que, contraditoriamente, o leitor encontra ao longo da narrativa “descrições preconceituosas de personagens negras secundárias” (MELO Jr., 2013, p.45). Como exemplo, pode-se citar a descrição que o narrador faz sobre os negros fugidos: “escravos fugidos com suas mulheres e seus filhos, formando uma grande família de malfeitores” (AZEVEDO, 1992, p.48)3, ou essa outra caracterização sobre a falta de asseio dos escravos: “à insuficiente claridade de uma lanterna suja, o sinal gorduroso das mãos dos escravos” (AZEVEDO, 1992, p.132)4. São sinais evidentes do discurso racista, e o narrador “deixou várias marcas subjacentes deste preconceito na sua fala, através de palavras e frases de cunho preconceituoso […]” (MELO Jr., 2013, p.50). Para o autor, existe “uma representação estereotipada do elemento negro na narrativa e há a descrição do herói afrodescendente com características de heróis brancos” (MELO Jr., 2013, p.50). Um outro ponto a destacar no capítulo é uma comparação que o narrador faz sobre Benedito, uma criança escrava “um pretinho seco, retinto, muito levado dos diabos… (…) atravessou a sala com uma agilidade de macaco” (AZEVEDO, 1992, p.63)5. Citando Bakhtin, que em Questões de literatura e de estética (2002) afirma que “uma linguagem particular no romance representa sempre um ponto de vista particular sobre o mundo, que aspira a uma significação social” (MELO Jr., 2013, p.135)6, Orison reafirma, com muita propriedade, que o “símile do escravo com o macaco não pode passar despercebido, já que essa linguagem encontra uma significação particular no mundo científico do século XIX” (MELO Jr., 2013, p.49). Nos dias atuais esta relação adquiriu foros de realidade, em função dos atos de preconceito perpetrados por uma minoria racista em todo o mundo.

Do capítulo 5 ao capítulo 8, o foco é o romance de Charles Chesnutt The house behind the cedars. Diferentemente do que acontecia no Brasil, nos Estados Unidos havia leis que definiam se o cidadão era negro ou branco. Se ele tivesse 1/8 de sangue negro era considerado negro, lei criada em 1705, na Virgínia, e já no século XIX (entre 1830 e 1840, houve um arrochamento da lei com a criação da regra one-drop (uma gota). A regra determinava que pessoas, mesmo que não tivessem quaisquer traços negroides – mas se tivessem apenas uma gota de sangue negro, estavam proibidas de se casarem com pessoas brancas. Isso está explícito no romance de Chesnutt, quando o juiz Straight declara que “uma gota de sangue negro torna todo o homem negro” (CHESNUTT, 1993, p.113)7. O autor realiza o mesmo procedimento que fez com O Mulato: antes de analisar The house behind the cedars, buscou elementos de preconceito racial no romance A cabana do Pai Tomás, de Harriet B. Stowe. Tomás, o protagonista, é descrito como um homem conformado com o seu destino, nega-se – inclusive – a fugir para não deixar o seu senhor em má situação. Mudando de senhor, mantinha-se fiel como um cão. Apesar do grande sucesso alcançado pelo romance que era visto como antiescravista, estudiosos afirmam o contrário: a narrativa apresenta uma visão romântica do escravo, o protagonista é o estereótipo do “escravo fiel”, humilde, resignado, cuja passividade é comparada à do burro de carga. A discussão sobre a color line (linha de cor) é esclarecedora para a compreensão do romance chesnuttiano. Algumas regras segregacionistas foram estabelecidas e todos deviam obedecê-las, por exemplo, “o homem negro não podia cumprimentar um homem branco com aperto de mãos; os negros não podiam mostrar afeição entre si em público; os negros sempre eram apresentados aos brancos, nunca o inverso” (PILGRIM, 2000)8.

O capítulo 8 apresenta a análise dos elementos discursivos em The house behind the cedars. O contexto social era de segregação racial, portanto a fala do narrador vai por esse caminho. A casa atrás dos cedros constituía-se no ambiente segregado, negros e mulatos viviam afastados da pequena cidade de Patesville, na Carolina do Norte. A heroína é Rena, filha de Mis’ Molly Walden, “uma afrodescendente livre, filha de pais livres e legalmente casados” (MELO Jr., 2013, p.52). O pai de Rena era um homem branco e rico, apesar de sua ascendência negra sua tez não denunciava isto, podia passar-se por branca, desde que saísse da “casa atrás dos cedros”, da cidade e do estado. Se quisesse pertencer ao “mundo dos brancos” teria que ultrapassar a linha de cor. Foi para Clarence (Carolina do Sul), acompanhando o irmão, e para anular de vez a sua origem mudou até de nome, passando a chamar-se Rowena Warwick. Rena apaixonou-se por um amigo de seu irmão, George, e estavam prestes a marcar a data do casamento. Mas um imprevisto mudou completamente a vida de Rena. Tendo que voltar à cidade natal em virtude da doença da mãe, a sua origem foi descoberta, por acaso, pelo noivo. George viu-a sair de um consultório e soube pelo médico que ela era mestiça. Apesar de manter segredo sobre a situação de Rena e de seu irmão, recusou-se a casar com ela. Rena, abatida e triste, voltou a casa atrás dos cedros e lá morreu. Franz Fanon, em Pele negra máscaras brancas, dizia que a mulher negra tinha um objetivo: “tornar-se branca; a mestiça, por outro lado, não queria apenas tornar-se mais branca; queria não voltar a escurecer” (MELO Jr., 2013, p.75). Rena sentia-se superior aos outros afrodescendentes porque era “embranquecida”, mas para os brancos ela era inferior. Assim como fez em O mulato, o autor coloca um quadro com as palavras e frases encontradas na fala do narrador nas descrições de personagens, semelhantes às dos estereótipos, pontuados por Brookshaw: “escravo fiel” (fidelidade, devoção, senhor, fiel, fatalismo passivo), “escravo nobre” (superiores em sangue, qualidade superior, autoridade natural, movimentos graciosos, elegância discreta). Rena incorpora o estereótipo do “escravo nobre”, mas também foi objeto de adoração do negro, por ter a pele “embranquecida” é superior aos demais afrodescendentes.

Por fim, os capítulos 9 e 10. Neles, o leitor encontrará os traços comuns entre os dois romances (capítulo 9) e as especificidades de cada romance (capítulo 10). Após um rápido olhar sobre a literatura comparada, o autor enumera os traços comuns encontrados: as cidades escolhidas (pequenas, pobres, cheias de preconceito); eventos históricos (Guerra Franco-Prussiana, O mulato e pouco depois da Guerra Civil, The house behind the cedars); narrador onisciente; palavras preconceituosas nas falas do narrador; protagonistas embranquecidos; a morte (incapacidade do mestiço em sobreviver à lei da selva) e conflito de relacionamento.

Os traços individuais de cada romance são dois, de acordo com o autor: ângulo de visão e consciência ou não da ascendência negra. A primeira é bastante nítida, porque em O mulato a narrativa é sobre o mundo dos brancos, com a introdução do elemento afrodescendente; já no romance chesnuttiano a narrativa é sobre o mundo dos negros, no qual um elemento afrodescendente insere-se no mundo dos brancos. A segunda diferença também é clara, pois Raimundo desconhecia totalmente a sua condição até o momento da revelação, enquanto Rena tinha plena consciência de sua situação desde a infância. O capítulo termina com uma afirmação de Orison, com a qual concordamos inteiramente: a de que se pode chegar à conclusão de que os romances apresentam dois elementos fundamentais para a pesquisa. Estes elementos são o verbal (palavra) de cunho preconceituoso e o elemento discursivo, representado na fala de seus narradores. A escolha de “heróis embranquecidos” se deu num momento em que a comunidade científica branca de ambos os países clamava pelo “embranquecimento de sua raça como solução para a presença do elemento negro, considerado inferior na sua sociedade” (MELO Jr., 2013, p.97).

A contradição apresentada pelo narrador em ambos os romances (o combate ao preconceito com o uso de palavras e frases preconceituosas) corrobora a concepção bakhtiniana a respeito do discurso dialógico. Como bem diz Fiorin, citado na página 20, “todo discurso é inevitavelmente ocupado, atravessado, pelo discurso alheio”. Foi o que o autor constatou nas análises feitas. Com a publicação do livro, a Editora Universitária (UFPE) revela a preocupação que os acadêmicos pernambucanos têm com os problemas étnico-raciais brasileiros. A obra é um ótimo exemplo do empenho na divulgação dessas questões, que são de grande utilidade para nossas reflexões. Espera-se que o excelente trabalho de Orison Marden Bandeira tenha continuidade, pois a presente edição é uma boa mostra do compromisso do autor com as questões que afligem a sociedade brasileira.

1AGASSIZ, L.; AGASSIZ, E. C. Viagem ao Brasil. Trad. Edgar Süssekind de Mendonça. Brasília: Conselho Editorial, 2000. [Coleção O Brasil Visto por Estrangeiros]

2MACEDO, J. M. As vítimas algozes: quadros da escravidão. 3.ed. São Paulo: Scipione, 1991.

3AZEVEDO, A. O mulato. 11.ed. São Paulo: Ática, 1992. [Série Bom Livro]

4Ver nota de rodapé 3.

5Ver nota de rodapé 3.

6BAKHTIN, M. O discurso no romance. In: BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Trad. Aurora Fornoni Bernadini et al. 5 ed. São Paulo: Hucitec: Annablume, 2002. p.71-210.

7CHESNUTT, C. W. The House behind the Cedars. New York: Penguin Classics, 1993.

8PILGRIM, D. What was Jim Crow? Big Rapids, MI, Jim Crow Museum of Racist Memorabilia, 2000. Disponível em <http://www.ferris.edu/htmls/news/jimcrow/what.htm>. Acesso em: 18 maio 2013.

Rubens Pereira dos Santos – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquista Filho” – UNESP, Assis, SP, Brasil; [email protected].

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