VIANNA, Marielle de Souza. Práticas de leitura e religiosidade em Dom Quixote. Caxias do Sul: Educs. Resenha de: BOMBASSARO, Luiz Carlos. Conjectura, Caxias do Sul, v. 20, n. 3, p. 225-230, set/dez, 2015.

Para quem deseja estudar e compreender as significativas e complexas relações entre literatura, leitura e religiosidade, está à disposição um belo e instigante livro: Práticas de leitura e religiosidade em Dom Quixote, de Marielle de Souza Vianna, publicado pela Editora da Universidade de Caxias do Sul (Educs). Nesse livro, a autora mostra como o entrelaçamento de leitura e religiosidade constitui um dos temas centrais daquele que é considerado um dos romances fundadores da literatura moderna: Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. Numa investigação meticulosa, que associa reconstrução histórica do contexto sociocultural e análise textual da obra cervantina, Vianna destaca a importância que a leitura e a religiosidade adquirem na estruturação dessa obra-prima, romance que marcou a transformação radical da literatura ocidental. O resultado é uma defesa inconteste do valor e do sentido da leitura e um convite para revisitar a fascinante, multifacetada e desafiadora obra de Cervantes.

A paixão pela leitura e pelo seu ensino é declaradamente o motivo que deu origem ao livro. Vianna a toma como pressuposto de seu trabalho que, além de ser uma produção simbólica marcante da nossa cultura, a leitura é antes um modo específico de interpretação da realidade e uma forma de vida. A leitura vem entendida, assim, como “um processo dinâmico constituído por múltiplas dimensões que envolvem o modo de ser, de perceber e de agir do ser humano no mundo”. (p. 12). Dessa  hipótese de trabalho, o leitor encontrará provas incontestáveis já nas primeiras páginas do livro, quando a autora indica quatro dimensões básicas da leitura: uma ontológica, uma estética, uma gnosiológico-hermenêutica e outra ética. A prática de leitura configura, assim, o modo de ser, de conhecer e de agir. Por isso, Vianna descreve o ato de ler como “uma relação existencial, um processo de descoberta e de construção de si mesmo e do mundo”. (p. 9). A prática de leitura é uma forma de vida e de convivência.

Uma questão que orienta e perpassa o livro de Vianna é a busca pelo sentido do humano. No entender da autora, no romance de Cervantes “está presente um conjunto de questões existenciais que possibilitam a reflexão sobre a compreensão do humano, tanto em sua miséria quanto em sua grandeza”. (p. 11). Para a autora, o Quixote representa aquele “grande leitor” que “vive dilacerado entre o que ele imagina ser um passado de glória e um tempo que ele considera marcado pela perda de referenciais e pela decadência moral”. (p. 11). A figura do Quixote é retratada a partir das suas fraquezas e grandezas existenciais num cenário em que a própria leitura se torna uma experiência vital.

Como afirma Vianna, em Dom Quixote, a tessitura que une leitura e religiosidade constitui o horizonte interpretativo no qual emerge um questionamento radical da condição humana. A trama cervantina sobre o drama humano é constantemente perpassada pela reflexão sobre o ato de ler e o significado de leitura, associada à pergunta pelo sentido do humano e à experiência da religiosidade. (p. 10).

O livro está dividido em quatro capítulos. No primeiro, “Dom Quixote e as múltiplas dimensões da leitura”, a autora projeta a estrutura e desenha o pano de fundo sobre o qual será posteriormente desdobrada a análise do problema da leitura e da religiosidade na obra de Cervantes.

Vianna mostra aqui não somente que “toda a trama do drama do cavaleiro andante se passa em torno da leitura”, mas especialmente que é a religiosidade o fio condutor que perpassa toda a construção de Dom Quixote de La Mancha. (p. 19). Por isso, ao estudo meticuloso do texto cervantino e dos seus mais renomados intérpretes, ela indica com propriedade os referenciais teóricos que sustentam sua própria perspectiva de interpretação: por um lado, as reflexões histórico-culturais sobre a leitura desenvolvidas especialmente por Roger Chartier e Alberto Manguel e, por outro, as bases filosófico-hermenêuticas que associam leitura, literatura e religiosidade expostas por Hans-Georg Gadamer e Vilém Flusser. Disso deriva uma importante consideração sobre as múltiplas dimensões da leitura, bem como uma reconstrução cuidadosa do universo das leituras sobre o tema da religiosidade realizadas por Cervantes, um universo que permite fazer do romance um hipertexto capaz de fazer referência e conter textos religiosos, filosóficos e literários que constituem a biblioteca do cavaleiro andante. É desse universo de leituras que nascem tanto o modo quixotesco de compreender o mundo quanto os princípios éticos que irão orientar sua ação.

No segundo capítulo, “Dom Quixote e a mancha das origens: literatura e religiosidade”, a autora faz uma descrição acurada do contexto histórico-intelectual – com especial destaque para os cenários sociocultural e religioso – nos quais teve origem a obra de Cervantes.

Aqui adquirem importância não somente os aspectos biográficos do autor, mas especialmente a influência que o fenômeno religioso teve na construção e elaboração daquele que viria a ser um dos livros mais significativos da literatura universal. Além de ser muito bem-informado sobre o percurso pessoal de Cervantes, o leitor é esclarecido sobre os elementos que constituem uma ambiguidade fundamental entre vida e literatura que se esconde daquele que imagina ser “a mancha” simplesmente um topônimo que indica o lugar onde se passa a história do engenhoso fidalgo. Graças à investigação cuidadosa dos trabalhos mais recentes de intepretação da obra cervantina, como é o caso de Jean Canavaggio, Fernando Torres Antoñanzas, dentre outros, Vianna pode lançar luz sobre as consequências que os encontros culturais e os conflitos religiosos ocorridos também na Península Ibérica tiveram sobre a obra magistral de Cervantes. De modo especial, a autora destaca o embate das concepções cristãs – tanto as defendidas pelo Catolicismo romano quanto as propostas pela tradição humanista (Erasmo) e pela Reforma (Lutero) – com as concepções judaicas e muçulmanas. O Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo fazem da Espanha de Cervantes um ponto de encontro histórico e, não raro, de desencontro ideológico, cujas consequências se fazem sentir no espírito e na letra do romance. Por isso, a tese sobre o modo como o cenário das disputas religiosas da época impregna a obra de Cervantes ganha força na medida em que, como bem mostra Vianna, a tematização da religiosidade em Dom Quixote  de La Mancha constitui o pano de fundo sobre o qual é projetado e tem origem a figura do Quixote e de seus companheiros. Desse caldo cultural deriva a ideia de que as possíveis origens judaicas da família de Cervantes também sirvam de justificativa que marcam criador e criatura, autor e obra. Por isso, em Cervantes a “mancha” das origens pode referir-se à “questão judaica”, ultrapassando, assim, as fronteiras geográficas nas quais acontecem as façanhas do cavaleiro andante, para constituir a base de uma crítica radical às concepções religiosas e às consequências exacerbadas de sua política no Renascimento.

No terceiro capítulo, Vianna investiga e aprofunda as relações entre religiosidade, oralidade e leitura pública em Dom Quixote de La Mancha. Personagens centrais da narrativa de Cervantes sobre a vida do Cavaleiro da Triste Figura, Sancho Pança e o cura são apresentados como representantes de mundos diversos que se encontram. Nas palavras da própria autora: “Enquanto Sancho é visto como o representante da tradição oral e da religiosidade popular que nela se inscreve, o cura representa a erudição religiosa que se mostra na leitura pública.” (p.

127). É importante notar que nesse capítulo oralidade e religiosidade parecem guardar uma relação simbiótica. O fiel escudeiro não sabe ler, mas é nele que se espelha a força da religiosidade constituída na oralidade e na prática da sabedoria popular. A experiência religiosa de Sancho pode guardar uma ingenuidade profunda em relação à visão de mundo encarnada pelo saber letrado do cura, mas há nele uma fé autêntica, não mediatizada pelo saber sistematizado da teologia oficial. E outra, é ressaltado o valor da leitura, na medida em que Sancho também se mostra um fiel ouvinte. Mas em Sancho essa valorização da prática de leitura está, de certo modo, vinculada à leitura da prática. Não lhe interessa a leitura como exercício da simples erudição. Contra as posições do cura, representante do saber institucionalizado e praticante da leitura pública, Sancho está mais próximo do saber vivo e encarnado. Como destaca Vianna, no início da jornada basta ao fiel escudeiro saber que a vida não poderia ser somente interpretada a partir dos livros e de que já haveria o bastante em orientar o seu viver, de acordo com aquilo que estava inscrito na sabedoria da oralidade, que, por sua vez, era a fonte da qual emanavam os princípios da vida cristã inscritos nos textos sagrados. (p. 143).

No entanto, uma mudança radical se realiza quando ele encontra o Quixote, quando ouve o cura, quando passa a conviver com a cultura letrada, quando começa a distinguir formas diversas de interpretação e de compreensão do mundo no qual está inserido. A outra perspectiva discutida por Vianna é a que se refere ao cura como praticante de uma religiosidade que se vincula à leitura dos textos sagrados. Como acentua a autora, “enquanto guardião do conhecimento sagrado, ele [o cura] sentia-se impelido a compartilhar com o próximo sua experiência leitora de mundo e partilhava com Quixote suas interpretações dos textos, da vida e de Deus”. (p. 165). Ganha força aqui a ideia de existência de um conflito de interpretações no interior da obra de Cervantes. Embora a leitura dos romances de cavalaria possa aproximar o cura de Quixote, de Sancho e de todos os demais personagens do romance – leituras que o cura geralmente fazia também fora do âmbito eclesial – o importante é salientar que os próprios textos sagrados passavam a constituir a base da leitura pública. Nesse sentido, é desnecessário referir aqui o poder persuasivo das leituras públicas e dos sermões que os pregadores faziam com a esperança de difundir a mensagem religiosa. Importa perceber, no entanto, como o argumento da autora em favor do valor e do sentido da leitura pública realizada pelo cura, pode conduzir a uma aproximação do saber popular de Sancho do mundo do saber letrado, encurtando a distância interpretativa e criando um mundo comum. Religiosidade, oralidade e leitura pública constituem um importante núcleo hermenêutico para compreender a questão da prática de leitura na obra de Cervantes.

Após discutir as relações entre religiosidade, oralidade e leitura pública, o interesse primordial da autora, no quarto e último capítulo, volta-se à análise das relações entre religiosidade e leitura silenciosa.

Quixote, em sua biblioteca, é, sem dúvida, a imagem que mais impressiona aqui, pois, nesse espaço vital do engenhoso fidalgo, parece estar figurado o processo de constituição de sua própria identidade. Ali está “o refúgio onde o fidalgo podia encontrar-se com seus sonhos e com sua verdade”. (p. 202).

Mirando-se nos exemplos daqueles grandes homens do passado, o Quixote faz da leitura silenciosa o momento de descoberta de si mesmo e do mundo. Na prática de leitura silenciosa, Quixote experimenta uma transformação radical que lhe permite ultrapassar as fronteiras do mundo fechado do saber medieval e reconfigurar seu próprio mundo. A leitura silenciosa, vista como espaço da liberdade, abre-lhe novos horizontes interpretativos e possibilita a criação de outros mundos. Evidentemente, essa experiência de transformação não é unidimensional, pois cria tensões e dilemas que ele mesmo terá de enfrentar. Considerando o exercício de práticas de leitura e religiosidade, no alvorecer do mundo moderno, o Quixote terá de encontrar o equilíbrio entre a vida ativa e a vida contemplativa. E, no entender de Vianna, será na leitura silenciosa que o Quixote, além de encontrar “a base de justificação de seus ideais éticos” (p. 210), encontrará “o alimento para sua alma” (p. 214). Sobre essa base, o Cavaleiro da Triste Figura estará agora em condições de “imprimir sentido à sua existência” e procurar “viver o que lera” (p. 221), revelando as virtudes da leitura. Novamente, ao destacar o movimento do Quixote entre a vida contemplativa e a vida ativa, a escritora destaca a dimensão do saber encarnado, do saber capaz de transformar a realidade. Diante de suas reflexões, pode-se mesmo ser levado a afirmar que, na prática de leitura, se realiza um processo de encarnação do saber, que, no caso de Quixote, acaba por conduzi-lo à descoberta da própria finitude.

O percurso investigativo realizado pela autora somente poderia levar a uma conclusão: considerando as relações entre as práticas de leitura e de religiosidade, “Quixote é uma figura de muitas faces, vivendo entre mundos completamente distintos, a medievalidade e a modernidade nascente”, e desempenhando “ora o papel de um cético crítico da cultura, ora o de um sonhador esperançoso pela construção de um mundo melhor, onde possam reinar a liberdade, a justiça e a paz”. (p. 237). Por isso, no final, o leitor verá que o livro de Marielle de Souza Vianna é, ao mesmo tempo, um elogio à leitura, um convite à (re)leitura de Dom Quixote e um alento para quem educa em tempos difíceis. Além de nos reapresentar a bela obra de Cervantes, seu mérito está em oferecer um livro imprescindível não somente àqueles que se interessam pela fascinante aventura do Cavaleiro da Triste Figura e do seu Fiel Escudeiro, mas também a todos aqueles que fazem da prática de leitura e do seu ensino a razão da própria vida.

Luiz Carlos Bombassaro –  Professor de Filosofia na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail: [email protected]

Acessar publicação original

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.