GIACOIA JÚNIOR, Oswaldo. Heidegger urgente: introdução a um novo pensar. São Paulo: Três Estrelas, 2013. Resenha de: PROVINCIATTO, Luís Gabriel. Conjectura, Caxias do Sul, v. 21, n. 1, p. 232-237, jan/abr, 2016.

Já há no Brasil uma imensidão de obras, quer originais em português, quer oriundas de traduções de outros idiomas, que se propõem a comentar, introduzir, explicar ou compreender o pensamento de Martin Heidegger (1889-1796). A obra de Oswaldo Giacoia Junior, publicada em 2013, encontra-se nessa lista e conta com algumas peculiaridades que dão a ela um destaque diante das outras. Isso não sem justificativa: há elementos que somente um bom leitor, intérprete e escritor conseguiria captar diante dos volumosos números das Obras completas (Gesamtausgabe) do filósofo alemão; uma leitura atenta e refinada e, sobretudo, um olhar filosófico, estão presentes nesse pequeno ensaio que leva como subtítulo “introdução a um novo pensar”. Desse modo, a presente obra de Giacoia conduz não somente a uma introdução ao pensamento de Heidegger, mas a um pensar filosofante com Heidegger.

Para um bom entendimento daquilo que aqui se propõe, é muito interessante apresentar a estrutura da referida obra: Introdução; O pensador do fim da metafísica; O primeiro Heidegger; A viravolta e a história da verdade do Ser; Como ler Heidegger; Conclusão. As divisões da obra, com certeza, possuem uma lógica baseada na estrutura do pensamento de Heidegger, o que, de fato, deve ser considerado. Porém, mudanças no trajeto de leitura serão propostas com o presente trabalho, bem como a intersecção de textos do próprio Heidegger para que, assim, o “pensar com Heidegger” ganhe maior clareza e, ao final do texto, tenha-se reais condições para construir um “novo pensar”, singular e autêntico. Deve- se destacar ainda que o foco maior do presente trabalho recai sobre a penúltima parte da obra acima referida, pelo fato de ela mostrar a grande erudição do autor.

A Introdução, intitulada “Por que é urgente pensar com Heidegger”, “toma o leitor pela mão” e, antes de propor uma caminhada, realiza alguns alertas àqueles que ainda não estão iniciados no pensamento de Martin Heidegger. O primeiro desses alertas é a possibilidade de dividir o modo de pensar do filósofo alemão em duas partes: a primeira delas pode ser caracterizada como uma fenomenologia ontológica da existência ou, de acordo com o autor, uma “analítica da finitude”; a segunda fase vai se concentrar no pensamento pós-metafísico, ou seja, na reflexão acerca da essência do próprio homem, bem como com a temática da linguagem e, posteriormente, discussões a respeito da técnica. Outro alerta, este presente nas entrelinhas do texto, é a impossibilidade de separar o primeiro Heidegger do segundo, ou vice-versa. Ou seja, Giacoia mostra a continuidade e o amadurecimento do pensamento de Heidegger a partir do próprio trajeto filosófico percorrido pelo filósofo alemão.

Depois de lida a Introdução seria muito conveniente ao leitor realizar um salto e partir para a penúltima parte da obra, Como ler Heidegger, uma vez que esse texto ainda possui um caráter introdutório para aqueles que não estão habituados a ler o filósofo alemão. Seguir a maneira de leitura aqui proposta trará maior facilidade de entendimento dos conceitos que posteriormente aparecerão. Arrisca-se a dizer que o que torna a obra de Giacoia singular diante de tantas outras são os passos indicados para uma boa leitura e, além disso, para um pensamento filosófico. Nesse sentido, abaixo seguem as cinco considerações deixadas pelo autor nessa penúltima parte da obra, as quais contribuem para uma iniciação em Heidegger.

A primeira delas é a necessidade de ler os textos do próprio Heidegger e, se possível, em língua alemã. Essa indicação denota uma maturidade muito grande do autor, pois garante a incapacidade de, em poucas páginas, fazer compreender todo um percurso filosófico. Isso mostra a necessidade de ir além da leitura de Heidegger urgente, o que não torna a obra menos qualificada nem o autor menos capaz. Pelo contrário! Adiante, é necessário começar a ler Heidegger a partir de alguma obra, então que seja Ser e tempo (1927), mas não sem justificativas, embora estas não apareçam claramente no texto de Giacoia Junior (mas antes um alerta: como se propõe uma inversão na estrutura de leitura, não será levado em consideração o fato de um capítulo do ensaio ser dedicado a apresentar os principais conceitos desse primeiro momento do pensamento de Heidegger). Justifica-se ler primeiramente essa volumosa e complexa obra pela razão de ela já resultar de longo processo de maturação, isto é, em Ser e tempo, já se encontra uma linguagem tipicamente heideggeriana, e isso implica em algumas significações próprias que o autor dá a determinados termos da filosofia alemã, bem como a cunhagem de termos que fundamentam essa primeira etapa do pensamento heideggeriano. A isso se junta um método rigoroso: a fenomenologia, e entendida segundo os moldes da via de pensamento de Heidegger, ou seja, sendo identificada com a ontologia, ou ainda, com a própria filosofia. Uma terceira justificativa é a possibilidade de, a partir da leitura de Ser e tempo, compreender a virada no pensamento do filósofo alemão e, além disso, conseguir ler os textos anteriores à original obra de 1927 como um percurso filosófico e a construção de um arcabouço conceitual.

O terceiro ponto destacado por Giacoia é a necessidade de ler os textos de Heidegger de maneira autônoma, ou seja, a interpretação, a confrontação, os questionamentos que surgem a partir da leitura não devem restringir-se aos comentadores, aos pontos por eles levantados e abordados. A sustentação para tal afirmação se encontra no fato de o próprio Heidegger ser um “mestre do pensamento”, isto é, “ao nos ensinar a pensar por nossa própria conta e risco, nos concita ao exercício da responsabilidade pessoal e intransferível no plano de nossos pensamentos e opiniões”. (GIACONIA JUNIOR, 2013, p. 108-109). Contudo, isso não permite qualquer intepretação do conteúdo filosófico dos textos de Heidegger. Essa é uma preocupação apontada por Giacoia que, mais uma vez, consegue, de maneira perspicaz, chamar a atenção para a importância da leitura de outros grandes autores da história da filosofia que contribuíram para a formação filosófica de Heidegger.

Esta é justamente a quarta consideração: a confrontação com outros grandes expoentes da filosofia que estão presentes nos textos de Heidegger (Aristóteles, Kant e Nietzsche, só para citar alguns) auxilia no amadurecimento de uma via de pensamento particular, bem fundamentada e capaz de pensar filosoficamente. Dessa maneira, Giacoia dá abertura para uma conferência proferida por Heidegger em 1955, “Que é isto – a filosofia?”, na qual, de maneira resumidíssima, o alemão afirma que só é possível fazer filosofia filosofando e não recolhendo uma imensidão de conteúdos históricos que representam somente uma fórmula geral.

A última consideração mostra a necessidade de produzir algum resultado, ou seja, sempre o leitor pode (e deve, de acordo com Giacoia) acrescentar alguma contribuição ao texto de Heidegger. É, nesse momento, que a leitura e a compreensão ganham maior sentido, pois são “postas para fora”. É com a escrita que se expõe. A escrita demonstra a presença do autor, lembrando que a temática da presença é fundamental em Ser e tempo. A produção garante àquele que leu a certeza de que não está numa posição de subserviência, na qual há a necessidade de concordar com tudo o que é dito. O próprio Heidegger garante a possibilidade de dar uma resposta a seu modo de pensar, uma vez que, de acordo com a conferência “Que é isto – a filosofia?”, “a resposta não é uma afirmação que replica, a resposta é muito mais a correspondência, que corresponde ao ser do ente”. Desse modo, ler Heidegger é, ao mesmo tempo, perguntar e responder com Heidegger e, além disso, se rebelar e questionar um modo de pensar, pois, dessa forma, o próprio pensamento está se liberando e produzindo de maneira autônoma e singular.

É somente com a leitura desse trecho intitulado Como ler Heidegger que se compreende o título e o subtítulo da obra de Giacoia. A urgência de Heidegger não se reduz somente ao ambiente acadêmico-filosófico, se volta ao âmbito dos questionamentos humanos, dado que, como se viu, pensar com e partir de Heidegger implica lançar-se a um modo de pensar livre, estando seguro das afirmações, pois elas não são sem fundamento. Introduzir a um novo pensar é uma tarefa arrojada e difícil que somente aqueles que se colocam à disposição para empreender tal tarefa são capazes de realizá-la com êxito.

A leitura dessa penúltima parte, porém, não amputa a necessidade de retornar a ler os demais trechos do livro, uma vez que completam essa introdução proposta por Giacoia. Por mais que esse não seja o objetivo deste trabalho, as outras três partes da obra Heidegger urgente serão sequencialmente apresentadas nos próximos três parágrafos.

O capítulo denominado O pensador do fim da metafísica traz como grande preocupação traçar um pequeno trajeto biográfico e uma contextualização do cenário filosófico no qual Heidegger se formou e que influenciou na publicação de Ser e tempo. O trajeto biográfico mostra o contato direto com Edmund Husserl (1859-1938) e como se dá a formação de um método próprio, o fenomenológico. Adiante, Giacoia propõe uma breve reflexão acerca do envolvimento político de Heidegger, dando destaque para o Discurso da reitoria, de 1933, bem como à famosa entrevista concedida pelo filósofo à revista Der Spiegel em 1966. Por outro lado, o contexto filosófico visa às principais vertentes que se somaram à publicação da obra de 1927. Nesse sentido, três correntes filosóficas e seus respectivos expoentes são apresentados: a filosofia existencial conta com a grande influência de Nicolai Hartmann (1882- 1950), no sentido de apontar uma leitura que o primeiro realiza da ontologia tradicional, tendo como principal foco Aristóteles. Max Scheler (1874-1928), dentro da filosofia dos valores, traz a preocupação com a experiência vivida, bem como com os valores éticos e morais. Por fim, Wilhelm Dilthey (1833-1911) ganha destaque no que tange à “experiência vivida”, a pouco apontada. E, por fim, outra corrente decisiva é a fenomenológica, na qual Husserl aparece como principal expoente.

Interessante é mencionar que Giacoia se ocupa, nesse momento, em chamar a atenção às características do método fenomenológico e não à diferença entre a fenomenologia de Husserl e a de Heidegger. Isso deve ficar claro. Tanto é que a exposição do método fenomenológico se dá a partir de termos que Husserl elabora, tais como: redução eidética; consciência pura; intuição categorial.

Destarte, o tópico O primeiro Heidegger tem como centralidade introduzir o leitor à estrutura de Ser e tempo, com seus principais conceitos, a divisão pretendida por Heidegger, a não realização de uma das partes da obra e os posteriores desdobramentos da obra no pensamento do filósofo alemão. Giacoia determina como chave de leitura desse momento da obra de Heidegger a seguinte frase: “superação da metafísica”. Pode-se dizer mais, superação da metafísica clássica que se debruçou somente na análise do ente e se esqueceu do ser. Esta será a grande contribuição trazida por Heidegger para a filosofia: a proposição de uma ontologia fundamental. A apresentação dos principais conceitos do tratado de 1927 se divide em sete tópicos (“Ontologia fundamental”, “Ser-o-aí”, “Predeterminações ontológicas do ser-o-aí”, “Aberturas existenciais do ser-o-aí”, “Modos de ser-no-mundo”, “Cura e preocupação” e “O ser-para-a-morte”) que fogem dos objetivos deste trabalho e, por isso, não serão aqui pormenorizados.

Adiante, o capítulo que aborda a temática viragem no pensamento de Heidegger mostra a preocupação inicial de Giacoia em distinguir um momento de outro: “a principal modificação consiste em que o ser-o-aí passa a ser tematizado não no horizonte transcendental de sua própria finitude, mas tendo como referência a temporalidade própria do Ser” (GIACOIA JUNIOR, 2013, p. 85). Também não está na preocupação desse trabalho avaliar os méritos e deméritos da divisão entre um primeiro e segundo Heidegger. O fato é que, didaticamente, Giacoia torna o seu raciocínio mais claro ao estabelecer esta divisão e ela vai se fundamentar em dois temas: a essência da técnica e a tarefa do pensamento no fim da metafísica. A isso se soma uma chave de leitura presente no conjunto desse capítulo: o termo Ereignis. Esse é o termo que direciona ao entendimento do segundo Heidegger; ele é traduzido pelo próprio Giacoia, por “acontecimento-apropriador”. À Ereignis também se ligará a temporalidade, porém, uma temporalidade que transcende a própria existência do ser: trata-se de uma temporaneidade, daí a necessidade de “pensar a história da verdade do Ser”, frase que resume essa etapa do pensamento heideggeriano.

A partir disso, o autor encaminha os momentos conclusivos da obra, e a esse momento se soma o capítulo Como ler Heidegger. A própria conclusão leva um título: Em busca de um pensamento por vir e, nela, Giacoia apresenta alguns desdobramentos da filosofia de Heidegger dentro da própria vertente filosófica, ou seja, como outros autores se utilizaram dos escritos heideggerianos para desenvolver seu pensamento.

O mais interessante é que, dentre os autores apresentados, alguns não concordam com a linha de raciocínio deixada pelo filósofo alemão, o que mostra uma erudição muito grande da parte de Giacoia Junior, pois isso entra totalmente em consonância com o que foi apresentado em momentos anteriores, ou seja, é preciso ler Heidegger, questionar, discordar, pensar de maneira autônoma.

Por fim, a apreciação de Heidegger urgente: introdução a um novo pensar conduz seu leitor, de maneira brilhante, por um caminho que, muitas vezes, não é fácil de ser percorrido, mas que deixa a certeza de que nunca se está caminhando sozinho. A introdução a um novo pensar passa por esse caminho, mas não se limita a ele, e isso fica muito bem explícito neste ensaio.

Luís Gabriel Provinciatto – Graduado (2014) em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Atualmente, mestrando em Ciências da Religião pela mesma instituição com bolsa de fomento CAPES. E-mail: [email protected]

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