RÜSEN, Jörn. Teoria da História: uma teoria da história como ciência. Tradução de Estevão C. de Rezende Martins. Curitiba: Ed. UFPR, 2015. 324p. Resenha de: FERREIRA, Clayton José; ALMEIDA, Helena Azevedo Paulo de. Fundamentos do conhecimento histórico: novas contribuições de Rüsen à teoria da história. Revista História Hoje, v. 5, nº 9, p. 252-256 – 2016.

Importante autor na área da teoria da história e da didática histórica, Jörn Rüsen, professor emérito da Universidade de Witten/Herdecke na Alemanha, procura, neste livro, retomar e somar novas perspectivas e reflexões à teoria da história estabelecida em sua obra, especialmente na trilogia publicada no Brasil com os títulos Razão histórica (2001), Reconstrução do passado (2007) e História viva (2007). Segundo Rüsen, a história é parte do cotidiano social e individual, em sua formatação tanto científica quanto não científica. Procurar alguma realização por meio do pensamento histórico é um esforço antropológico, uma constante humana – o saber histórico auxilia na relação com as dimensões do tempo, buscando explicar, compreender e planejar. Os seres humanos vivem no tempo e o pensamento histórico se relaciona com a administração da experiência temporal: sempre há carências de orientação. A partir destas noções o autor procura fundamentar e articular a importância do conhecimento histórico científico, especializado e profissional, na perspectiva existencial do ser humano frente a outros saberes, históricos ou não.

O Capítulo 1 de Teoria da História dedica-se a uma reflexão sobre “do que se trata tal teoria”, compreendida como “retroflexão do pensamento histórico sobre si mesmo”, uma metateoria, ou ainda, a teoria a respeito da interpretação das experiências temporais humanas. Segundo Rüsen, é importante que o conhecimento especializado consiga produzir enunciados sobre a própria condição de produção do seu saber, ou seja, de refletir sobre seus fundamentos teóricos. A razão desse esforço se encontra na capacidade de sofisticação do conhecimento e de fortalecimento de sua epistemologia. A teoria esclarece reflexões e questões que surgem no exterior da disciplina, feitas para ela, por outras disciplinas ou a partir de problemas específicos de sua temporalidade.

Nesse sentido, o conhecimento reflexivo da teoria da história possuiria três instâncias: disciplinar (especificidade do conhecimento histórico científico profissional frente a outras reflexões sobre o passado), interdisciplinar (articulação do saber histórico científico com outras disciplinas científicas e o tratamento do mesmo objeto ou, ainda, de campos similares) e transdisciplinar (relação entre o pensamento histórico e a vida prática humana). Essas três dimensões ultrapassam a história como uma disciplina especializada e científica.

Desse modo, compreende-se que não há apenas a história científica – as formas de saber da história são mais antigas que sua formatação como ciência. No entanto, a história científica pode oferecer à condição existencial (antropológica) um conhecimento altamente sofisticado para as necessidades de orientação cultural na vida cotidiana. Surge aqui a questão sobre o que é a pretensão científica da história.

No Capítulo 2 discute a questão “o que é história”. O saber histórico é evocado cotidianamente por um esforço particular dos homens em busca por orientação. O tempo é contingente, constante, e se impõe a despeito das culturas.

É no cotidiano enfrentamento das atribulações do tempo que “entender o passado”, “explicar o presente” e “planejar o futuro” colocam-se como uma constante antropológica, um fenômeno existencial. A perturbação desse tempo exige do homem que o explique e o insira em interpretações e narrativas para procurar orientação, encontrar sentidos. O “eu” humano engrandece com as experiências temporais ao tentar dar ordenação a tais perturbações.

No interior do embate entre o tempo da natureza (externo, perturbador, a despeito do homem) e o tempo humano (interno), que busca interpretar, dar sentido e conduzir a sua existência, surge a história como esforço para conferir sentido. O sentido histórico busca relacionar a mudança temporal do mundo e do homem em um sistema interpretativo. Sentido é aquilo que sustenta a ação cultural do homem, possibilitando a orientação e tornando o sofrimento suportável. A partir deste, são produzidas narrativas. Existem muitas formas narrativas as quais procuram ser orientadoras, tais como o mito, a arte ou a religião, no entanto, a histórica está, de forma intrínseca, no mundo real, e não em um mundo ideal – refere-se ao mundo real no passado.

O Capítulo 3 é dedicado à questão da história como ciência. Abordar a pretensão da história em tornar-se ciência mediante paralelos com os modelos rigorosos das ciências naturais pode comprometer o entendimento do seu caráter científico. A história possui outros componentes estéticos, não científicos, o que produz, em um primeiro momento, certa contestação de seus critérios de cientificidade. A ciência se distingue de outras diretrizes de produção do conhecimento por se realizar por meio de procedimentos específicos (pesquisa, métodos, critérios regulados e aceitos universalmente) que buscam conferir garantia de validade ao seu saber. As experiências do passado são entendidas mediante pesquisas criteriosas e bem fundamentadas, procurando conferir validez. Essas características diferenciam a ciência da arte, do mito, da religião e do saber ideológico. Trata-se, portanto, de uma questão de método.

Todo saber procura reivindicar para si a verdade, no entanto, o conhecimento histórico científico está fundamentado em critérios metódicos, a saber, de “verificabilidade empírica e coerência teórica”, os quais procuram conferir a maior plausibilidade possível.

O que é a história no horizonte da história científica é a preocupação que norteia o Capítulo 4. Para refletir sobre esse ponto, Rüsen tematiza a respeito da noção de sentido. As filosofias da história foram criticadas pela história especializada por não se adequarem aos critérios de cientificidade. No entanto, não é possível abandonar a compreensão de que o conhecimento histórico pressupõe a reflexão concatenada sobre as experiências no passado. A partir disso, a ciência da história apenas pode ser compreendida pelos seus três aspectos – o material, o formal e o funcional. No interior desses aspectos, a história é uma concepção de um sentido específico, neste caso, um sentido No Capítulo 5 Rüsen desenvolve de maneira rápida, porém de forma densa, a tematização da aptidão do pensamento histórico na ciência. A discussão sobre a cientificidade da história, sabemos, não é recente, e o autor retoma essa questão com base no método histórico como regulação do processo cognitivo. Assim, da crítica à representação, a história se apresenta a partir da narrativa, assunto a que o autor se dedica no capítulo seguinte.

No Capítulo 6 o historiador apresenta uma proposta de tipologia narrativa a partir de quatro tipos de constituição histórica de sentido. Diferenciando de Droysen, Nietzsche e Hayden White, o autor propõe maneiras de não restringir a caracterização do pensamento histórico moderno a partir de suas formas de apresentação, mas buscando tratar do pensamento histórico em si. Assim seguem as apresentações dos quatro tipos de narrativa da história: 1) o modo tradicional, que sustenta o formato de eternidade intratemporal como significância duradoura; 2) a constituição exemplar de sentido, que documenta as regularidades da vida e orienta o agir, para além de um determinado tempo; 3) a constituição genética de sentido, em que temporaliza a mudança; 4) e a constituição crítica de sentido, que em posição especial, funciona a partir da negação das demais tipologias, “da força modificadora do não”, como aponta o próprio autor. Essa proposta é pensada com base na premissa de que nenhuma dessas formas se apresenta de maneira isolada ou pura. Todos os tipos dialogam entre si, assim como podem ser encontrados em tempos diversos, o que colabora para colocar em dúvida a unilateralidade como princípio metódico do pensamento histórico.

O Capítulo 7 desenvolve uma discussão a respeito da relação entre memória e história, partindo para a presença da consciência histórica na cultura histórica. Nesse sentido, o autor apresenta cinco dimensões da cultura histórica, a saber: 1) cognitiva; 2) estética; 3) política 4); moral, que por sua vez nos leva ao discurso de responsabilidade histórica; 5) e religiosa. Tais dimensões, marcadas por tendências de instrumentalização e esforços de compensação, “determinam a dinâmica interna de uma rede complexa de relações”, como demonstra no decorrer do capítulo, encontrando assimetrias e relações de subordinação na cultura histórica. Rüsen apresenta ainda a tarefa da ciência da história, na cultura histórica de seu tempo, como orientação e crítica.

Já no Capítulo 8, finalizando seu trabalho, o autor se dedica ao ensinar e aprender a história por meio da didática da história. Tal didática é compreendida como a cultura histórica, uma determinada historicidade, enquanto a consciência histórica se traduz no “meio do ensino e da aprendizagem histórica”. Rüsen trabalha a utilização das cinco dimensões da cultura histórica (apresentadas no capítulo anterior, como mencionado) e sua relação com a prática didática, como fatores da própria aprendizagem histórica, que, para o autor, ressalta outro problema caro à cognição: a aquisição de competência para aprender a história de “modo correto”. Assim a competência histórica está diretamente relacionada à competência narrativa. Tal debate tem grande importância para a constituição de uma identidade histórica que, para Rüsen, se baseia na relação de um sujeito para consigo mesmo e seus pares.

Portanto, a cognição do conhecimento histórico (didática histórica) se encontra em uma relação de intimidade com sua teoria da história, apontando para as possibilidades de orientação humana em suas adversidades ontologicamente associadas às experiências passadas. O livro Teoria da história retoma e atualiza problemas debatidos por Rüsen desde a década de 1980. Suas novas compreensões enriquecem profundamente as questões a respeito dos fundamentos da história e da história enquanto ciência.

Clayton José Ferreira –Doutorando e Mestre em História, Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Mariana, MG, Brasil. E-mail: [email protected]

Helena Azevedo Paulo de Almeida – Mestranda em História, Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Mariana, MG, Brasil. E-mail: [email protected].

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