ESPADA, Heloisa. Monumentalidade e sombra: o centro cívico de Brasília por Marcel Gautherot. São Paulo: Annablume, 2016, 173.

Como já registrei inúmeras outras vezes, a fotografia brasileira ainda se parece com um imenso iceberg, em permanente movimento, que vai emergindo aos poucos trazendo novos dados e novas conexões, geralmente surpreendentes para os pesquisadores. Nas últimas décadas tivemos acesso a inúmeras pesquisas advindas principalmente da academia que se tornaram relevantes informações para a construção de uma história da fotografia brasileira mais consistente.

De modo geral, o saber panorâmico sempre esteve registrado e propagado. O que vem crescendo agora são as pesquisas mais aprofundadas sobre determinados períodos e autores. Especificamente, vemos um crescente interesse pelo período circunscrito entre as décadas de 1940 e 1970, onde a nossa boa fotografia circulou tanto nos salões do movimento fotoclubista, quanto na imprensa, renovada que foi pelas iniciativas de algumas revistas segmentadas (revistas SenhorMódulo, entre outras) e de grupos editoriais – Diários Associados (revista O Cruzeiro) e editora Abril (revistas RealidadeVeja, entre outras).

Com segurança podemos atestar como moderno as primeiras décadas desse intervalo (1940-1970) que desperta tanto interesse nos pesquisadores mais jovens. Um fotógrafo que atuou nesse período e que merece especial atenção – pela qualidade de sua fotografia e pela sua trajetória – é o francês Marcel Gautherot (Paris, 1910-Rio de Janeiro, 1996). Sua obra, vasta, rica e diversificada é marcada por uma abrangência temática que privilegia a beleza: seja a floresta imponente, as manifestações de cultura popular, a elegância das formas de Niemeyer e Burle Marx.

E é justamente esta última temática que provocou forte interesse em Heloisa Espada, que desenvolveu sua premiada pesquisa (Prêmio Capes de Teses, 2012) centrada na questão Monumentalidade e sombra – o centro cívico de Brasília por Marcel Gautherot, tese de doutorado agora adaptada e publicada pela Annablume com o apoio da Fapesp. Nela, vê-se claramente o interesse pela arquitetura e pela fotografia, centrado na história da arte moderna do país. Mas sua escolha foi exatamente a experiência de Brasília e os registros de Marcel Gautherot. Uma questão muito interessante à medida que as iniciativas são aparentemente distintas, mas relevantes quando nos damos conta da cumplicidade entre os autores – Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Marcel Gautherot.

Não é preciso enfatizar a paixão dos fotógrafos pelas cidades. Desde sua origem a fotografia e os fotógrafos perceberam as cidades e o espaço urbano como um campo fértil e inesgotável de produção e criação de imagens. Com sólida argumentação histórica, Heloisa Espada soube elaborar uma boa análise da conexão entre o centro cívico de Brasília e as escolhas formais de Gautherot.

Sua pesquisa faz um amplo retrospecto que envolve as primeiras ideias de construção de uma capital na região central do país, as manifestações de uma arquitetura moderna brasileira, os processos de trabalho de Gautherot bem como suas primeiras iniciativas no campo da fotografia, desenvolvidas ainda em Paris. Enfim, Heloisa articula um conjunto de dados que mapeia as trajetórias de vários outros artistas que cruzaram seus caminhos num momento em que o país buscava iniciativas criativas e inovadoras em todos os campos de atuação profissional.

Os quatro capítulos são desenvolvidos com consistentes argumentações e denotam não somente uma pesquisa profunda, mas também a capacidade de evidenciar dados que comprovam algumas hipóteses inicialmente previstas e as influências incorporadas por Gautherot desde a sua formação europeia até o deslumbramento pelo nosso país. Claro que esta sua apaixonada experiência de vivenciar a cultura brasileira também é relacionada e muito perceptível em suas imagens. Essa complexa rede de referências estabelecida por ele é condensada ao longo de seu trabalho fotográfico que basicamente busca entender o que é afinal a identidade nacional.

No caso dos registros do centro cívico de Brasília busca-se evidenciar a relação entre a proposição de uma arquitetura moderna e sua representação visual sincronizada esteticamente. Nas fotografias fica claro este compromisso: acentuar a ilusão de profundidade ora pelas perspectivas dissimuladas, ora pelas formas modeladas na relação de luz e sombra, ora pelas formas e pela monumentalidade das construções. É evidente que sua estrutura composicional e sua proposta de fotografia moderna é bem distinta daquela utilizada pelos artistas mais próximos dos movimentos concreto e neoconcreto em plena circulação naquele momento.

Heloisa Espada faz uma boa articulação entre história, política, arquitetura, design, artes e a construção de uma identidade nacional. Traz as referências da criação do SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a partir das ideias de Mário de Andrade; da experiência das revistas ilustradas, revistas de arquitetura e da revista Módulo, em sua primeira fase quando foi dirigida por Oscar Niemeyer; do pintor De Chirico; entre outras ótimas e necessárias conexões para a compreensão da fotografia de Gautherot.

É significativa a referência da participação de Marcel Gautherot como conferencista no Congresso Sohlberg que reuniu jovens comunistas e socialistas. Na ocasião ele apresentou seu “Discours sur l’architecture française”, centrado nas ideias de Le Corbusier. Essa questão tem importância porque nos possibilita entender e refletir sobre a relação entre Gautherot e sua militância política. Não temos informações sobre sua eventual filiação ao partido comunista francês mas seguramente sabemos que, quando chegou ao Rio de Janeiro, ele teve acesso quase imediato a Oscar Niemeyer, Rodrigo Mello Franco de Andrade, Mário Pedrosa, entre outros simpatizantes do Partido Comunista Brasileiro e Partido Socialista Brasileiro, que facilitaram sua relação com um grupo de intelectuais que foram essenciais para ele se estabelecer e desenvolver seu trabalho no Brasil.

De qualquer forma, temos um primoroso trabalho de pesquisa e dados qualitativos sobre o universo de relações estabelecidas por Gautherot que são necessários para a compreensão do seu trabalho realizado no Brasil. Outro dado importante que vai sendo relacionado aos poucos e ao longo dos capítulos é sua metodologia de trabalho e sua relação com a técnica. Parece sem importância, mas é fundamental saber que ele criou estratégias precisas para conseguir o melhor resultado para sua fotografia.

O formato da câmera, o filtro polarizador, a lente grande angular, os ousados enquadramentos frontais, a busca por uma luz modeladora, enfim uma série de dados técnicos sobre os procedimentos que evidenciam seu processo de trabalho, suas escolhas, suas preferências. Informações relevantes para a compreensão daquilo que Heloisa denomina de uma “narrativa visual de cunho épico”. Gautherot, com seus registros precisos e singulares, traduz a exuberância da arquitetura através do desenho momentâneo proporcionado pela luz e sombra do planalto central.

Monumentalidade e sombra – o centro cívico por Marcel Gautherot é um livro que mostra com densidade e muita clareza a parceria entre Niemeyer e Gautherot, bem como a influência de Le Corbusier no trabalho de ambos. Afirma Marcel Gautherot que “fotografia é arquitetura. (…) Uma pessoa que não entende de arquitetura não é capaz de fazer uma boa fotografia”. Por outro lado, para o arquiteto suíço-francês Le Corbusier “arquitetura é invenção”. Tudo isso encontramos nesse trabalho de Heloisa Espada, jovem pesquisadora que vem agregar novos conteúdos e novas leituras sobre o trabalho de um fotógrafo de múltiplas visualidades, mas que no ensaio do centro cívico de Brasília consegue traduzir com eloquência sua paixão pela fotografia e pelo nosso país.

2Pablo Picasso, Paris Soir, 1937

Rubens Fernandes Junior – Diretor e professor da Faculdade de Comunicação e Marketing da Fundação Armando Álvares Penteado, pesquisador e crítico de fotografia. Publicou entre outros Labirinto e Identidades – panorama da fotografia brasileira 1946-1998, Cosac Naify, 2003 e Papéis Efêmros da Fotografia, Tempo d’Imagem, 2015.

ARS (São Paulo) vol.14 no.28 São Paulo July/Dec. 2016

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