PARANHOS, Adalberto. Os desafinados: sambas e bambas no “Estado Novo”. Prefácio de Maria Izilda S. Matos São Paulo: Intermeios; CNPq; Fapemig, 2015. 202p. Resenha de: MORAIS, Bruno Vinícios Leite de. Nobres vagabundos: a malandragem entre a adesão e a resistência ao trabalhismo durante o Estado Novo. Revista História Hoje, v. 6, nº 11, p. 315-319 – 2017.

Dei um pulo na cidade.

Iaiá, minha preta, se eu sei não iria.

Só vi sacanagem, só vi covardia.

Não sei como pode alguém lá viver.

Quando vi o salário Que o pobre operário Sustenta a família Fiquei assustado, Iaiá, minha filha, Montei no cavalo e voltei pra você.

Quando eu contar, Iaiá Serginho Meriti/Beto Sem Braço A prática docente e a de pesquisa acadêmica encontram, entre muitas proximidades, a comum dificuldade em agregar elementos, documentos e fontes que permitam oferecer uma leitura do passado capaz de estimular interpretações de experiências e expectativas de sujeitos geralmente esquecidos, silenciados na memória oficial e no relato historiográfico predominante. O objetivo de narrar uma “história de baixo para cima”, embora estimule o fazer historiográfico desde a primeira metade do século XX, ainda exige muito esforço, criatividade e perspicácia para que se identifique o eco de vozes então abafadas pelo discurso hegemônico. O esforço em captar a repercussão das palavras de grupos dissonantes em um contexto autoritário e comumente identificado como onipotente, o Estado Novo Varguista, é o que move o historiador Adalberto Paranhos nesta nova obra, produção cara a iniciados nos estudos do período e, por sua linguagem acessível, também a demais interessados.

Obra para ser lida e escutada, enriquece o material disponível para pesquisadores e docentes. Reprodução integral da tese de doutorado em História Social defendida na PUC-SP em 2005 – “praticamente sem tirar nem pôr”, confessa o historiador (p.21) –, a obra constitui um novo olhar sobre o contexto e tema que o autor pesquisou no mestrado em Ciências Políticas, trabalho publicado sob o título de O roubo da fala: origens da ideologia do trabalhismo no Brasil pela Boitempo Editorial, em 1999.

Esse caminho de formação levou-o a analisar, no doutorado, discursos que não estavam afinados com a ideologia trabalhista propagada durante o primeiro governo Vargas – e, especialmente, na ditadura do Estado Novo – conforme expresso no título do livro. Para encontrar essas vozes dissonantes, abafadas na interpretação recorrente, Paranhos treinou seus ouvidos para identificar os indícios espalhados pelo rico universo dos fonogramas, evidenciando a atenção do historiador ao ensinamento do linguista Luiz Tatit, em seu O século da canção, de que “o canto sempre foi uma dimensão potencializada da fala” (Cotia: Ateliê Editorial, 2004, p.41).

O uso da música popular como fonte e objeto da historiografia brasileira no estudo da Era Vargas, conforme pontua o autor já na introdução do livro, remete ao ano de 1980. Quando Paranhos defendeu sua tese, em 2005, portanto, o campo organizava-se havia 25 anos. No atual contexto de publicação do trabalho, sob a forma do livro em análise nesta resenha, podemos dizer que a atenção à canção já está longe de seus primeiros passos, encontrando certa maturidade interpretativa. Contudo, o historiador identificou nessa produção acadêmica a interpretação corriqueira de uma irrestrita adesão ao discurso trabalhista do regime após a imposição do Estado Novo, em 1937, por parte dos compositores populares – focada nos sambistas cariocas. A celebração da malandragem e do estilo de vida “vadio”, temas caros à tradição sambista que chegava aos rádios e lojas de discos de até então, estaria soterrada pelo onipotente poder do Estado. O samba se tornaria, assim, caixa de ressonância do discurso estatal, por força da real adesão ou do rolo compressor do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).

Desconfiado de todo discurso social homogeneizante, como de praxe entre profissionais da pesquisa histórica, Paranhos buscou no sugestivo acervo de canções registradas em disco a persistência da malandragem e da ojeriza ao trabalho no período de vigência do DIP, entre 1939 e 1945. A intenção do autor e sua premissa básica estão nítidas em toda a redação do livro. Podemos resgatar, como síntese de seu argumento, a última frase do capítulo final: “Nesse jogo de poderes e contrapoderes, nenhuma vontade se impôs de modo absoluto, e os próprios vencedores tiveram que fazer concessões e amargar algumas derrotas, aqui ou ali” (p.137). Ou seja, o Estado operava com força sedutora e repressiva, em sua política cultural, no entanto, os populares encontravam ou forçavam brechas de expressão.

Uma vista geral e panorâmica da obra identifica três capítulos bem demarcados. No primeiro, há um balanço crítico e teórico da historiografia sobre o Estado Novo e das correntes de interpretação sobre a ação do Estado, bem como da atuação popular, as quais o autor ora corrobora, ora contesta.

Conforme sua interpretação, permitindo um caminhar mais atento pela estrada que explicita “o cerco do silêncio” imposto por um Estado autoritário, é possível encontrar nas margens, nas esquinas, “vozes do coro” que destoam da partitura. Opondo-se à concepção da possibilidade real de um estado totalitário, Paranhos enfatiza a existência de conflitos e contradições, inserindo um debate introdutório na temática sobre hegemonia e dominação ideológica. Se a sua orientação teórica demonstra que nenhuma dominação ou hegemonia é total, a leitura dos cânones da historiografia sobre o período de atuação do DIP apresenta um Estado onipotente e uma voz operária a ele consonante ou por ele eclipsada. Essa discussão teórica, como é amplamente perceptível, embora breve, fornece estímulos úteis a leitores interessados na relação entre sociedade e Estado para outros contextos autoritários.

Orientados pela exposição do estado da arte, somos apresentados, no segundo capítulo, ao cenário que possibilitou a afirmação social do samba como símbolo nacional brasileiro, em meio à reelaboração da identidade nacional no contexto político pós-1930. Partindo dos debates estéticos entre as vertentes de samba em disputa nos primórdios da indústria fonográfica carioca e sua configuração como veículo de brasilidade, embrenhamo-nos nas relações do samba com o Estado, entre cooptação e resistência. O argumento é simples – e não menos importante por isso: a oposição à malandragem, ou, ao menos, a incerteza quanto a ela, presente em alguns sambas, não é criação do Estado Novo, sendo identificada desde os anos 1920. Algo que qualquer ouvinte das gravações do período, se minimamente atento, sabe muito bem, mas, por vezes, algumas obras sobre o período esquecem-se de mencionar.

Traçado esse caminho, no terceiro e último capítulo do livro/tese é que enfim encontramos o desenvolvimento da argumentação prometida, expondo ou juntando nos fragmentos disponíveis, indícios da persistência da malandragem e a oposição ao trabalho regular, pelo “eco de antigas palavras” veiculadas em canções. A ausência de documentação oficial do DIP, disponível para consulta, foi compensada pelo autor na ênfase sobre o documento canção registrado no fonograma, em metodologia de análise que concedia igual importância à leitura da letra e à escuta do registro; ou seja, a performance registrada em disco por vezes indiciava uma mensagem diferente, ou mesmo oposta, em canção que, à primeira vista, vangloriava o trabalho. A consolidada orientação disciplinar de fazer novas perguntas a um documento anteriormente trabalhado é aplicada às canções.

A obra de Paranhos demonstra uma oposição à retórica da ideologia trabalhista varguista não por uma natureza de concepção política stricto sensu, de indivíduos contrapostos ao modelo de Estado vigente e inseridos em uma disputa por uma concepção alternativa. Não é o “poder de Estado” que está em questão, mas os meandros do universo cotidiano. A contraposição entre malandragem e trabalho regular era própria ao universo malandro e não apenas pela ação repressiva das forças policiais e do Estado, mas principalmente pelas relações amorosas. O que as canções documentam são diversos personagens, homens e mulheres, que transitam entre a “orgia” e o “batente” por amores ou desamores, antes e depois da ascensão de Vargas e do golpe político do Estado Novo.

Além das promessas do amor e das incertezas quanto ao futuro na malandragem – a (pouca) renda obtida pela trapaça, jogos de azar etc. – a direcionar o candidato a ex-malandro rumo à regeneração, a sofrida realidade do trabalhador formal o espantava rumo à orgia. Más condições de trabalho, longas pouco dinheiro também, mas de forma menos desgastante – “ganha-se pouco, mas é divertido”, diriam Wilson Baptista e Cyro de Souza, em 1941 –, o ritmo de vida do trabalhador o tornasse um otário. Como dito, não era explicitamente de política que as canções falavam, mas de experiência vivida, o sofrido cotidiano de uma ampla parcela da população, expressa em cena pública na fala dos sambistas.

O curto livro aqui resenhado – os três capítulos contabilizam 113 páginas – serve como uma porta de entrada, um convite a um novo olhar sobre o período, atento ao cotidiano e às margens de manobra da população pobre carioca.

Na vigência do Estado Novo e, particularmente, do DIP, a apologia à malandragem e a contestação aos princípios ideológicos oficiais, na forma escancarada expressa até então, eram soterrados. Porém, ainda aparecem por outras maneiras, à espera de serem descortinadas pelo faro apurado do historiador.

Bruno Vinícius Leite de Morais – Graduado e mestre em História e Culturas Políticas pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Belo Horizonte, MG, Brasil. bruno_ [email protected].

 

ALEKSIÉVITCH, Svetlana. As últimas testemunhas: crianças na Segunda Guerra Mundial. Tradução do russo: Cecília Rosas. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. 313 p. Resenha de: OTTO, Claricia; FLÔR, Dalânea Cristina. A escuta como forma de testemunhar o sofrimento vivido por crianças na Segunda Guerra Mundial. Revista História Hoje, v. 8, nº 16, p. 256-259 – 2019.

No livro As últimas testemunhas, Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2015, apresenta uma centena de relatos de adultos que vivenciaram a Segunda Guerra Mundial durante a infância. Com apenas duas pequenas citações “Em lugar de prefácio…”, o restante do livro é todo marcado pelas vozes dos entrevistados, e as conclusões da leitura ficam a cargo de cada leitor.

Os relatos, coletados entre os anos de 1978 e 2004 e somente traduzidos para o português em 2018, trazem o modo como cada adulto, na época criança, viu, sentiu e viveu a guerra. Tratava-se, na maioria, de crianças de 2 a 14 anos, com exceção de algumas que nasceram a partir de 1941, e de um garoto que nasceu no ano em que o conflito acabou (1945), mas que parece ter vivido a guerra tão intensamente quanto os demais, quando afirma: “Nasci em 1945, mas lembro da guerra. Conheço a guerra”, nos remetendo ao conceito de “acontecimento vivido por tabela” (Pollak, 1992).

Ao iniciar a leitura, fica-se buscando uma apresentação, uma contextualização do que virá, mas a interferência explícita da autora se restringe às citações tomadas como prefácio; à apresentação de cada entrevistado informando seu nome, a idade que tinha quando a Alemanha invadiu a União Soviética, em 1941, e a profissão que exercia na época em que Svetlana o entrevistou; e por fim, à seleção da parte do relato a ser apresentada. No mais, Svetlana dá voz aos entrevistados. São vozes que chocam, assustam, emocionam, indignam, provocam compaixão, deixam atônito o leitor.

Entre pausas, choro, verbalização do quanto é insuportável relembrar e afirmação de que pelo mal que lembrar faz preferem não recordar, relembraram e contaram, o que faz pensar que a autora, cuja prática com esse tipo de trabalho é reconhecida, deve ter conseguido construir uma relação de confiança e ou demonstrar a importância de suas histórias serem contadas, e assim conseguiu se colocar, verdadeiramente, na posição de escuta (Pollak, 1989).

Com certeza, apesar do sofrimento que poderia lhes causar a rememoração daquelas vivências, perceberam na autora uma possibilidade de escuta de suas vozes, de suas vivências, e como resultado o leitor veio a conhecer suas histórias.

Para uma compreensão mais ampla e completa da realidade, é necessário que as “memórias subterrâneas” (Pollak, 1989) sejam trazidas à tona, e essa parece ser uma das principais contribuições de Svetlana, que entrevista pessoas comuns, com diferentes formações, que ocupam ou ocuparam postos de trabalho diversos e que tiveram experiências pós-guerra também diversas.

As experiências, ainda que do mesmo “evento” e que, de certa forma, compõem uma memória coletiva, são experiências individuais e, portanto, relatadas de forma particular por cada um dos entrevistados, e trazem vozes que destoam da história oficial.

Para além de toda a dor, fome, medo e sofrimento, chama atenção a percepção que algumas crianças de mais idade tinham do seu papel na guerra, segundo o relato dos entrevistados. Algumas delas faziam questão de ir para o front, lutar junto aos adultos. Ainda que por vezes fossem rejeitadas, pela idade e por seu tamanho, algumas não desistiam e, por fim, acabavam sendo aceitas e participando efetivamente junto aos soldados. Outras atuavam como auxiliares de profissionais de saúde nos postos e hospitais para tratamento de feridos de guerra. Percebe-se que havia nelas uma “formação nacionalista” do que seria “ser cidadão da nação”, e esse sentimento parece ter sido tão fortemente construído em algumas delas que, ao relatar, verbalizam ou deixam entender que, na época, não sentiram medo, não tiveram dúvida de seu dever de participar da guerra. Parece ter havido, naquela época, para aqueles sujeitos ainda com tão pouca idade, um “enquadramento de memória” (Pollak, 1989) em que o dever de cada sujeito estava acima do risco de morte eminente.

Ao pensar na infância como um período em que os sujeitos deveriam ser cuidados e protegidos por adultos, mereciam ter tempo para brincar, estudar e vivenciar momentos de lazer entre seus pares, pensar uma infância vivida na guerra, com crianças assumindo papel de adulto de modo aparentemente naturalizado, é certamente chocante para quem imagina, à distância, os fatos.

No geral, os relatos demonstram que todas as crianças, com “consciência nacionalista” ou não, viveram situações que ninguém, independentemente de idade, deveria viver. Elas viram as mais diversas crueldades. Viram seus pais serem fuzilados e jogados em valas, crianças serem queimadas ou fuziladas, adultos serem enterrados vivos, avós mortos, pessoas caídas cheias de marcas de tiros, comunidades inteiras sendo queimadas. Elas caminhavam entre mortos, entre tantas outras brutalidades. Eram crianças pequenas que foram afastadas de seus pais, que foram deixadas sozinhas ou, por vezes, tiveram de cuidar de seus irmãos, ainda menores, sem ter o que comer e beber, sem saber o que fazer, para onde ir e a quem recorrer. Sentiam tanta fome que a vegetação por onde passavam era devastada e dividida entre os sobreviventes como o único alimento. Na falta absoluta de comida, a água com cheiro do couro da cinta velha fervida virava sopa, e terra com leite derramado virava produto caro entre as terras vendidas como alimento. O medo era tanto que houve quem tenha ficado sem voz por mais de ano, ou quem tenha esquecido o próprio nome e a própria história. Foi um período em que os orfanatos passaram a ser a casa de muitas crianças, e poucos foram os que reencontraram os pais.

O cenário é o mesmo para todos os entrevistados, de modo que poderíamos falar de uma “memória coletiva” (Halbwachs, 2006), mas observa-se, pela variedade dos relatos e, principalmente, pelo sentido dado por cada um, que não há uma coesão, pelo menos não para todos. Há, aparentemente, dois grupos: aqueles que se percebiam como combatentes, que consideravam ter um dever a cumprir, faziam questão de cumpri-lo e se sentiam cidadãos ao ter sucesso, e aqueles que se viam como crianças que eram, perdendo seus portos seguros, sentindo medo, fome e dor. Todos seguiram uma trajetória infinita em busca de se reconstituir dentro de suas redes restritas de contato, ao longo de toda a vida. E suas lembranças, por serem opostas à memória nacional e provocarem desconforto, dor ou constrangimentos, ou ainda por buscarem preservar “os seus” de sofrimento, são marcadas pelos “não ditos”, por silêncios e por ressentimentos (Pollak, 1989).

É preciso entender que quem fala nesses relatos não são as crianças em si, que vivenciaram a guerra, mas os adultos que naquela época eram crianças e que hoje dão sentido àquele vivido com base em sua experiência da época e em sua trajetória de vida.

A leitura de As últimas testemunhas apresenta um período histórico-social extremamente dramático e cruel, que causou muito sofrimento e deixou marcas definitivas em muitas pessoas, mas esse quadro confirma, ao mesmo tempo, que memória, mesmo que seja influenciada, ao longo do tempo e por diversas formas, pelo meio social, continua sendo “um ato e uma arte pessoal de lembrar os acontecimentos” (Portelli, 1997), e somente ouvindo essas pessoas é possível ir montando o “mosaico” que é a história.

É preciso continuar ouvindo as memórias subterrâneas, como faz Svetlana, de modo a trazer à tona e manter viva a história que a história oficial gostaria de esquecer.

Referências

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução: Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro, 2006.

POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos históricos, Rio de Janeiro, v.5, n. 10, p. 200-212, 1992.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.

PORTELLI, Alessandro. Tentando aprender um pouquinho: algumas reflexões sobre a ética na história oral. Projeto História, São Paulo, n. 15, p. 13-49, abr. 1997.

Dalânea Cristina Flôr –  * Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, SC, Brasil. [email protected]

Claricia Otto – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, SC, Brasil. [email protected]

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