JORDÃO, Carlos Eduardo; MACHADO JR., Rubens; VEDDA, Miguel (Orgs.). Walter Benjamin: Experiência histórica e imagens dialéticas. São Paulo: Editora Unesp, 2015. 472 p. Resenha de: REBELLO, Hélio; MIOTO, Júlio César. História v.36  Franca  2017.

No já extenso leque da difusão da obra de Walter Benjamin nas edições brasileiras, e de seus comentadores, especialmente os brasileiros, o livro que temos em mãos, de fato contribui para a assimilação cultural da obra. Por se tratar de uma coletânea, com 472 páginas contendo 34 artigos distribuídos em cinco seções, o livro oferece, além de diversidade temática, uma gama de perspectivas vindas de pesquisas realizadas em diversos países. A coletânea é sistematização de textos apresentados, em grande parte, em um evento que ocorreu na cidade de Buenos Aires, no ano de 2010, sobre a questão da memória, embora não esteja muito claro, na apresentação, quais foram os textos escritos nesse contexto. Traz textos mais domésticos de pós-graduandos, gente de iniciação científica, em treinamento, e textos de receptores consagrados.

Os artigos têm vários níveis de elaboração, mas esse fato não denota uma correspondência exata com a graduação acadêmica de cada um dos colaboradores. Alguns dos autores são consagrados como pesquisadores da obra de Benjamin no Brasil; outros, como por exemplo Edmurt Wizisla, diretor do Arquivo-Benjamin em Berlim, cujo texto mostra forte proximidade filológica com os manuscritos, dão a conhecer, entre nós brasileiros, um trabalho já consolidado. A mesma proximidade com os manuscritos tem o professor Bolle, que trabalha no Brasil há anos, dedicando-se ao projeto da obra das Passagens. Nesse sentido, há textos absolutamente originais, por conta do trabalho filológico experiente, e, por outro lado, textos com tratamento mais conhecido, mas não menos sério, dedicados a temas já bastante estudados.

Diante dessa diversidade, o leitor pode se beneficiar com uma leitura integral desta coletânea, graças ao caráter de peça acabada dos artigos. Naturalmente, este aproveitamento dependerá do grau de conhecimento do leitor com relação aos estudos benjaminianos. Com efeito, o leitor a ser beneficiado pela leitura da coletânea pode ser classificado em três amplos estratos, não necessariamente autoexcludentes: aquele que procura aprofundar-se no pensamento do Autor; o que procura conhecer novos temas da obra benjaminiana, que é extensíssima; e, por fim, aquele que visa reconhecer novos olhares sobre temas mais conhecidos.

Como a tônica da coletânea é sua bem-vinda heterogeneidade temática, autoral e de estilo, é interessante fornecer uma amostra concreta dos graus de aproveitamento da coletânea, o que propomos, com o intuito destacar as virtualidades do texto e sem respeitar a apresentação linear da coletânea.

O tema recorrente do fetiche da mercadoria é tratado em artigos centrais bem iluminadores, com ênfase na compreensão do modo capitalista de produção que lhe é correspondente, a fim de dar destaque aos registros históricos do século XIX feitos por Benjamin, os quais poderiam passar despercebidos para o leitor atual. Identificar esse e outros núcleos temáticos depende da percepção histórico-crítica, mesmo da inspiração, da compreensão das estruturas históricas baseadas no modo de produção e dos fatos históricos a partir dos quais a crônica é feita.

O método benjaminiano de citação é tratado, muitas vezes, conectado a essa percepção histórico-crítica. Por exemplo, em um dos últimos textos desta coletânea – textos que serão descritos individualmente adiante – fica claro o que seria “imagem dialética”, seu efeito desalienante e como ela está relacionada com a citação. Segundo tal autor, Oehler discorre sobre uma “quase identidade” entre a montagem de citações e a imagem dialética. Essa identificação tem um espírito bem exato, o leitor pode ser esclarecido por meio dela quanto ao “agora de cognoscibilidade” tematizado nas Passagens e em Sobre conceito de história. Da mesma forma, pode intuir sobre o que é o fragmento e a sua relação com a verdade para Benjamin, tema do autor desde a obra filosófica anterior. Sem nos estender sobre a tendência ao fragmentar na obra de Benjamin, o importante é a noção da humanidade redimida, que torna o passado inteiramente citável.

Essa amostra acerca de dois núcleos da coletânea, ou seja, as referências históricas de Benjamin e o método de citação benjaminiano, evidencia uma virtude do livro em apreço, embora tais núcleos sejam restritos e limitados a alguns artigos, eles têm um efeito irradiador sobre o conjunto.

De forma diversa desse reforço de questões irradiadoras da obra do Autor, foco da coletânea, alguns dos temas fogem à pesquisa benjaminiana mais estrita. Isso se deve ao que podemos chamar da assimilação cultural já concretizada, de modo que os conceitos de Benjamin, reconfigurados, servem a usos não habituais. Essa constatação se aplica mais aos últimos textos da coletânea, que são sobre cinema.

Há, ainda, o que podemos chamar de temas benjaminianos sobredeterminados, em razão de sua recorrência. Mas, mesmo nestes casos, a maior parte dos artigos apresenta algo novo ao leitor que se situa na fronteira entre o interessado e o especialista em Benjamin. Por exemplo, a imagem biográfica de um Walter Benjamin isolado se desfaz quando fica muito claro nos artigos centrais o reconhecimento que Benjamin teve dos seus pares, como ele compunha uma intelectualidade que recepcionava o que se produzia por pares numa Europa em que havia a oportunidade histórica do socialismo (veja a esse respeito os artigos sobre Benjamin e Adorno, Benjamin e Bloch, Benjamin e Lukács). Sobre Benjamin e Lukács, os artigos tratam do tema do conto de fadas, do problema da situação do romance, do tema da morte do narrador, que exigiam uma política. Estes artigos, por si só, mostram a inserção de Benjamin no debate internacional de comunistas na Europa. Igualmente, a crítica da noção de progresso na história de Ernst Bloch e de Benjamin é observada por um artigo – Bloch, com sua noção de “matéria da história”, determinou questões de filosofia da história, em uma peculiar física relativista da história. No artigo, o pensamento histórico de Ernst Bloch é relacionado aos conceitos de Benjamin, de modo que a rica interlocução dos dois autores é recuperada.

Essa amostragem procura dar ao leitor uma visão das virtualidades da coletânea, visto que uma apreciação dos 34 artigos seria excessiva para este espaço. No entanto, há um interesse informativo em se apresentar uma descrição sumária desses artigos distribuídos em cinco seções.

A primeira seção do livro se denomina “Das imagens da memória ao fetiche e suas fantasmagorias”, com seis artigos. O livro se abre com o texto de Gagnebin, que vê no Brasil um trauma da memória. Ela discute os conceitos de memória em Benjamin, a crítica ao historicismo, em relação aos traumas nacionais, evidenciando que, no Brasil, falta uma política da memória. O segundo artigo é, justamente, do diretor do Arquivo-Benjamin, Wizisla, que comenta o método de Benjamin associado às suas estratégias de publicação de um ensaio, “Um Instituto alemão de pesquisa livre” sobre o Instituto de Frankfurt. O terceiro é de um professor de Constança, Stiegler, cujo tema é o artigo “A pequena história da fotografia” e outros textos de Benjamin conexos. O quarto artigo é de Alambert, professor da USP, sobre a forma mercadoria da arte. O quinto artigo é de Grespan, também professor da USP, o qual vê em Benjamin um crítico do fetiche da mercadoria, faz uma análise instigante da visão de Benjamin acerca do modo capitalista no século XIX – sistema que é ainda o vigente, com isso destacando-se atualidade do texto de Benjamin (as considerações tecidas por Grespan atualizam a crítica de caráter marxista de Benjamin). O sexto artigo é de um pós-graduando da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Assis-SP, Dias Durães, sobre as Exposições Universais. As fantasmagorias (ou imagens) do século XIX são mostradas a partir da obra das Passagens, e se intui bem a opressão rente aos fetiches, o que também havia sido notado por Grespan, como pulsão de morte, pulsão para o inorgânico.

A segunda seção – “Passagens, Teoria da História e Revolução” – contém sete artigos. O primeiro artigo desta seção, ou seja, o sétimo da coletânea, é de autoria de Löwy, benjaminiano que dispensa apresentação e trata do tema do enfrentamento de classes em Paris no século XIX (barricadas, Haussmanização, Comuna de 1871). O oitavo artigo é de Bolle, já referido, e tem por brilhante tese que a categoria do hipertexto explica o plano da obra das Passagens. O artigo de Olgária Matos é sobre os interiores, as passagens e os pórticos, sobre a vontade de que a cidade fosse uma extensão confortável da vida privada, onirismo de uma sociedade que se sonha sem classes, que é a falsa representação que a sociedade burguesa capitalista faz de si mesma, expressão de sua falsa consciência. O décimo artigo, de Zimmer, professor em Girona, Espanha, compara as críticas ao progresso de Bloch e de Benjamin. O texto do organizador Jordão Machado compara muitos momentos da obra benjaminiana para associar montagem literária e tempo messiânico, levando o leitor a observar o contexto da inflação alemã pelos olhos de Benjamin. O décimo segundo artigo é de Chicote, de Buenos Aires, que compara os estilos de Benjamin e de Lukács, assim como observa a importância de História e Consciência de Classe para o marxismo ocidental. O décimo terceiro artigo é de uma professora da Universidade Federal do ABC (UFABC), Pisani, que procura comparar o Marcuse tardio a Benjamin.

A terceira seção se intitula “Literatura, Música e Surrealismo” e traz seis artigos. O décimo quarto artigo, primeiro desta seção, tematiza algo muito interessante, a política de conto de fadas na Hungria, sob ordens de Lukács, e as diferenças entre Benjamin e Lukács quanto à função desse tipo de literatura para a infância em uma política socialista; o texto é de Gángó, um húngaro da Universidade de Budapeste. Tema semelhante ao do próximo artigo, de Vedda, de Buenos Aires, também organizador da coletânea, este mais focado em Benjamin, porém. Koval, também de Buenos Aires, trata da Teoria do Romance de Lukács e de sua recepção indireta por Benjamin. O décimo sétimo artigo, de dois professores de Buenos Aires, Orlante e Salinas, trata da clássica leitura de Benjamin da obra de Kafka. No sentido do significado brechtiano e benjaminiano da política da arte, o professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Bastos, defende a obra musical engajada de Eisler, colaborador de Brecht no teatro épico, em artigo brilhante, no qual ele discute a oposição entre a lógica imanente do material musical e o uso no teatro da música de vanguarda. O décimo nono artigo é de dois estudantes da Unesp de Assis, Azevedo e Franco, sobre o instantâneo do surrealismo na inteligência europeia segundo Benjamin.

O vigésimo artigo, que inicia a quarta seção da coletânea denominada “Melancolia, Brinquedo, Freud e Leituras”, com oito artigos, vem assinado por um docente da Universidade de Hildesheim, Alemanha, Tohlen, que trata da “negatividade” da arte considerada na teoria estética do ponto de vista da história natural em Adorno e em Benjamin, mostrando a influência de Benjamin em Adorno. Maria Rita Kehl é a próxima autora, e faz considerações sobre a depressão e melancolia nos diagnósticos contemporâneos, comparando o conceito de melancolia de Benjamin com a designação do diagnóstico de um tipo de mania por Freud. O artigo de número vinte e dois é do psicanalista Dionísio, professor na Unesp de Assis, que fala da pertinência do conceito de Benjamin de inconsciente ótico e da natureza do olhar e da escuta psicanalítica. O vigésimo terceiro artigo é de uma professora da Universidade de Buenos Aires, Castel, sobre a recepção de Freud por Benjamin, em um estudo detalhado das listas de leitura de Benjamin, assim como da apropriação de conceitos expressos da psicanálise, e também da crítica de Benjamin a Jung. O vigésimo quarto artigo, de outra professora de Buenos Aires, Belforte, trata da profunda questão da ética erótica no comentário e na crítica de Walter Benjamin ao romance As Afinidades Eletivas, de Goethe, em um artigo clássico da juventude de Benjamin, depois ela também escreve sobre a paixão de Benjamin por uma militante comunista e sobre como isso representou uma conversão existencial para Benjamin, manifesta no teor dos textos a partir de 1927. O vigésimo quinto artigo é sobre o modelo de reminiscência em Benjamin, da sua própria infância e sobre sua concepção do brinquedo e do brincar. O vigésimo sexto texto da coletânea é de um pós-doutorando da USP, Gonçalves, que tece consistente e ousada crítica à apropriação de Haroldo de Campos do conceito de tradução em Benjamin. O vigésimo sétimo é de autoria de três professoras de Faculdades de Educação do Estado de São Paulo, Barbosa (Unesp), Catani (USP) e Moraes (USP). Em um dos artigos mais longos, as autoras tecem um balanço, inclusive quantitativo – porém mais do ponto de vista do modo de apropriação -, da recepção e dos usos dos textos de Benjamin nas publicações sobre ensino e educação no Brasil.

O artigo de número vinte e oito, que inicia a quinta e última seção (composta por sete artigos) intitulada “Cinema, Alegorias e Imagens Urbanas”, escrito pelo consagrado crítico e professor de cinema da USP, Ismail Xavier, realiza leitura marcante acerca das alegorias do filme Metropolis, de Fritz Lang, um filme sempre clássico. É bem uma interpretação imanente do universo diegético de Metropolis, e, ao final do artigo, que é um dos mais longos da coletânea, a alegoria langiana é comparada à benjaminiana. Machado Jr., mais um organizador do livro, escreve o vigésimo nono artigo, sobre a experiência, mesmo marginal, de um tipo de cinema feito na década de 1970, no Brasil, que utilizava o Super-8 como instrumento audiovisual básico. É um tipo de cinema difícil de conhecer pela experiência marginal mesma que ele constituiu, mas no artigo há referências a filmes e a autores, assim como uma descrição da experiência, feita a partir de referenciais benjaminianos. O trigésimo artigo compara as visões de Benjamin e Kracauer sobre a situação do cinema na década de 1930 e sobre o que é próprio à sua natureza. O doutorando da Unesp, Sinaque Bez, autor do artigo, pretendeu realizar uma descrição breve, exemplar e histórica do cinema do terceiro mundo, observando as potencialidades descritas por estes autores na década de 1930. Uchôa, autor do trigésimo primeiro artigo, faz uma discussão entre Benjamin e Kracauer, do mesmo modo, mas com outro objetivo, trata-se da questão do ator no mundo de hoje. Zannato, no trigésimo segundo artigo, mostra as tensões políticas envolvidas nas tentativas de Paulo Emílio de exibir filmes soviéticos, na década de 1950, além de detalhar o trabalho deste cineasta, crítico, intelectual do desenvolvimento etc., ao longo de sua vida; o texto tem belo teor biográfico-histórico. O trigésimo terceiro artigo, de Almeida Leonel, já foi referido e trata da montagem, ou melhor, do conceito que tinha Chris Marker, cineasta francês, da montagem. O autor envolve o “agora de cognoscibilidade” à inteligibilidade histórica politizada que o seu cinema oferece, especialmente quanto aos eventos de 1968, na França. O último artigo é de uma docente da PUC-SP, Ana Amélia da Silva, sobre o filme-ensaio de Godard, Histoire (s) du cinema (1988-1998). Ela lança mão dos textos de Walter Benjamin para constituir um referencial filosófico e histórico que ajude a explicar o filme-ensaio, atendo-se às referências internas dele, mas com instrumental teórico dos frankfurtianos.

Realizado este cômputo, podemos dizer que, do ponto de vista do conjunto, o livro dividido em cinco seções possui delimitação mais ou menos artificial, visto que, para cada seção, pelo menos um artigo não apresenta clara vinculação com a unidade temática ou supomos poder se situar em outra seção. No entanto, essa incongruência chega a ser compreensível em uma coletânea tematicamente diversa, cujo conteúdo de cada artigo necessariamente extravasa os limites previstos em virtude da própria difusão conceitual da obra de Benjamin. Particularmente, a última seção, que é integrada por sete artigos sobre cinema, faz um uso mais livre dos textos de Benjamin.

Para uma história da recepção mundial da obra de Benjamin, o livro estaria inevitavelmente inserido no turbilhão de publicações da era do paper, mesmo que muitos dos seus autores, os quais fazem a pesquisa desde antes da era da internet e estão bem vivos, representem a recepção histórica nos diversos países e cederam texto à coletânea. Há, no conjunto, sobredeterminantes, quer dizer, reiteração temática, mas, pelo menos informativamente e formativamente, nenhum dos artigos deixa de valer a leitura. Não é o caso de que seriam os mais jovens recém-chegados simplesmente repetidores e de que os eruditos e exegetas mais experientes trariam a última palavra. Em suma, o livro-coletânea sintetiza o estado dinâmico e intenso dos estudos benjaminianos e ainda os promove e impulsiona. Além disso, como a maior parte dos autores é composta de brasileiros e brasileiras de diversas gerações, podemos reconhecer a edição como uma prova de que a recepção brasileira dos textos de Benjamin, iniciada mesmo antes de sua tradução para o português (PRESSLER, 2006), mantém uma tradição que permite aos acadêmicos benjaminianos brasileiros figurarem como interlocutores de seus congêneres estrangeiros, haja vista a comunidade multilíngue que o livro-coletânea em apreço reúne.

Referências

PRESSLER, G. K. Benjamin, Brasil: A recepção de Walter Benjamin, de 1960 a 2005: um estudo sobre a formação da intelectualidade brasileira. São Paulo: Annablume, 2006. [ Links ]

Hélio Rebello CARDOSO JUNIOR. Professor Doutor – Prof. Adjunto de Filosofia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Av. Dom Antônio, 2100 – Parque Universitário, Assis – SP, 19806-900.

Júlio César Mioto – Professor Mestre – Mestrado em Filosofia. Universidade Estadual de Londrina, UEL, Brasil. Rodovia Celso Garcia Cid, Km 380, s/n – Campus Universitário, Londrina – PR, 86057-970.

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