STRECK, D. R.; REDIN, E.; ZITKOSKI, J. (Org.). Dicionário Paulo Freire. 4. ed. rev. e ampl. Belo Horizonte: Autêntica, 2018. Resenha de: ROSA, Carolina Schenatto da; SANTOS, Débora Caroline dos. Conjectura, Caxias do Sul, v. 24, 2019.

Paulo Freire foi, sem dúvidas, um grande reinventor de palavras e um alargador de significados. Grande pesquisador do povo brasileiro e de suas formas de comunicação, esse sujeito, à frente de seu tempo, se apropriou das palavras atribuindo-lhes sentidos singulares e profundos, cujos estudo e reinvenção são necessários ainda hoje. No prefácio do livro Pedagogia da tolerância, Lisete Arelaro diz que “Paulo Freire tem um estilo único: é um irresistível contador de estórias e ‘causos’”. (ARELARO, 2018, p. 12). Também é um irresistível transformador de conceitos, pois escolhia com cuidado as palavras, trabalhava os sentidos, sua origem e, de forma autêntica e profundamente comprometida, conferia-lhes um significado particular.

Cleoni Fernandes, no verbete Gente/Gentificação diz que o autor foi “um inventor de sentidos produzidos com outras palavras” (2018, p. 235); foi um semeador e um cultivador de palavras com o dom de pronunciar novas realidades, como destacam os organizadores do Dicionário Paulo Freire, no início da apresentação da primeira edição.

Em 2018, ano em que comemoramos o cinquentenário da publicação de Pedagogia do oprimido e o vigésimo aniversário do “Fórum de Estudos: Leituras de Paulo Freire” – evento que serviu de berço à elaboração da obra que aqui resenhamos, é lançada a 4ª edição, revista e ampliada, do Dicionário Paulo Freire, organizado pelos pesquisadores Danilo Streck, Euclides Redin e Jaime Zitkoski. Dez anos após o lançamento da 1ª edição, que veio a público em 2008 com 182 verbetes, escritos por 75 colaboradores, é possível constatar a necessidade e a potencialidade desse trabalho, que, além de traduzido para o inglês e para o espanhol, agora é ampliado pela segunda vez.

Essa obra já foi resenhada na 1ª e na 2ª edições, entretanto, consideramos que, por se tratar de um material tão rico, construído de forma coletiva a partir da mobilização de estudiosos da obra de Freire nos níveis nacional e internacional, a qual possibilita tantas leituras e que se encontra em constante revisão, este trabalho se justifica. As palavras de Freire ganharam o mundo, e, em sua obra, foram ressignificadas, para que possamos reaprendê-las. Compreendemos que este é o propósito do dicionário: re-prender Freire e suas concepções de mundo a partir dos conceitos que desenvolveu e aprimorou em sua obra. Para encarar esse desafio permanente, o grupo de trabalho aumentou: a nova edição conta com 276 conceitos escritos por “130 autores e autoras que colaboraram com seus escritos e reflexões em torno da grande fecundidade do pensamento freiriano na atualidade”. (STRECK; REDIN; ZITKOSKI, 2018, p. 13).

Por meio dessa diversidade de autores, a obra permite múltiplos diálogos com diferentes perspectivas em torno do pensamento de Freire, e, cada edição, explicita, nos novos verbetes, as possibilidades de reinvenção e de aprofundamento da leitura e interpretação da obra desse autor. Um exemplo dessas possibilidades de reinterpretação são os verbetes Juventude, Marcha, Intervenção no mundo, Educação permanente e Educação de Jovens e Adultos (EJA) – uma pequena parte das 47 novas entradas que compõem a 4ª edição.

O verbete juventude, escrito por Lúcio Jorge Hammes é, em primazia, contextualizado histórica e socialmente, cujo autor evidencia sua forte influência nos pressupostos teóricos de Freire. A juventude e seus movimentos sociais indicam mudanças a serem realizadas em diversos campos sociais e políticos, principalmente na universidade. Assim, em contraposição às desigualdades difundidas na sociedade, essa juventude rebela-se em prol dos oprimidos, desde a redemocratização do Brasil até os dias atuais. Ainda, ao encerrar sua reflexão, Hammes apresenta um dos escritos de Freire ressaltando a carência encontrada na formação de jovens crítico-reflexivos que atuam sobre a própria realidade.

Expandindo as discussões acerca da necessidade de transformar a própria realidade, Alves e Arenhaldt apresentam a ideia de marcha, que se correlaciona com as concepções de Freire sobre as lutas sociais resultantes das desigualdades e da opressão. Nessa perspectiva, os autores compreendem marcha como sendo um ato coletivo, que se constrói à medida que se materializa na sociedade, principalmente, na busca por mudanças sociais. Além disso, os autores salientam diversas manifestações de Freire em seus escritos e falas, nas quais ele convoca os sujeitos sociais a marchar, ou seja, a se tornarem atuantes nessas lutas que se qualificam como uma utopia necessária.

Tal utopia (necessária para transformar o mundo) encontra-se presente, também, na noção de intervenção no mundo, verbete escrito por Fernanda dos Santos Paulo e Levi Nauter de Mira. Os autores realizam, aqui, uma referenciação de múltiplos escritos de Freire nos quais a concepção de intervenção no mundo é discutida. Iniciam com Pedagogia da autonomia: saberes necessários a prática educativa, na qual Freire intitula um dos capítulos com a compreensão de que educar é uma forma de intervenção no mundo, estabelecendo-a como uma das principais exigências atribuídas ao docente.

Após, os autores exprimem outra ideia de intervenção no mundo articulada ao homem como um ser naturalmente operante de tal processo social. Conforme Paulo e Mira, em livros como Política e Educação e Dialogando com a própria história, Freire afirma que a ação intervir no mundo deve estar associada ao ato de transformá-lo criticamente para buscar uma sociedade democrática. Os autores finalizam esclarecendo que intervenção no mundo é uma prática de educação libertadora.

É debatendo os sentidos da educação libertadora que Ana Maria Saul e Alexandre Saul apresentam a perspectiva de educação permanente. A discussão apresentada pelos autores parte da noção de consciência do inacabamento, uma das ideias centrais da teoria freireana. Para eles, essa consciência configura-se como uma prática de educação permanente que está em constante discordância das lógicas mercantis, bem como em constante defesa dos princípios que irão favorecer o desenvolvimento das classes dominadas.

Os autores discutem, ainda baseados em Freire, a formação permanente dos docentes, valorizando a práxis como um dos processos indispensáveis à efetivação dessa formação contínua.

A noção de consciência do inacabamento dialoga, também, com o verbete Educação de Jovens e Adultos (EJA), escrito por Sérgio Haddad e apresentado pelo autor como um dos fios condutores que substancia todo o processo histórico que ampara a teoria freiriana. Muitas vivências de Paulo Freire são relatadas com o objetivo de alavancar a importância da EJA para o desenvolvimento de países ditos emergentes. Com esses relatos, podemos compreender, profundamente, a posição de Freire em relação ao respeito aos educandos e à indispensabilidade da educação popular e libertadora. Ainda: o autor convida-nos a refletir sobre os reflexos da colonialidade na propagação das desigualdades sociais, em especial, no que se refere aos índices de analfabetismo entre pessoas jovens e adultas, apresentando a EJA como uma das propostas para reverter dita situação.

Escolhemos esses verbetes para ilustrar as articulações existentes tanto dentro da própria obra de Freire quanto entre seus escritos e a atualidade brasileira. O estudo comprometido e aprofundado desse autor, mundialmente reconhecido, permite estabelecer novas relações, transitar entre distintas áreas do saber e reler múltiplas realidades. E é justamente isto que o dicionário convida a fazer: Paulo Freire para, a partir daí, estudar sua obra e reler nossa realidade. As mais de 500 páginas desse compêndio não trazem simplificações da obra do autor, tampouco se apresentam como um fim em si mesmas. Pelo contrário, reafirmamos que o propósito dessa obra é convidar os leitores e do aprofundamento, ao estudo dos livros de Paulo Freire.

Compreendemos o dicionário como uma forma de democratizar, valorizar e divulgar a pluriversalidade da obra do autor e em estudo não de simplificá-la. Por isso, a indicamos a todos: pesquisadores, estudantes de graduação e pós-graduação, professores da Educação Básica e da Superior e demais interessados em conhecer os escritos de Paulo Freire. Ele pode ser utilizado tanto para dar os primeiros passos na leitura desse autor quanto para o aprofundamento da mesma: é um redescobrir o legado de Freire por meio da interpretação de mais de uma centena de pesquisadores e profundamente comprometidos com o estudo e com a reinvenção desse estudioso. Tal qual Ana Maria Araújo Freire escreve na dedicatória de Pedagogia dos sonhos possíveis, este livro é indicado “a todas e a todos que se permitem, como Paulo, sonhar”.

Referências

ARELARO, L. Prefácio. In: FREIRE, P. Pedagogia da tolerância. 6. ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Paz e Terra, 2018. p. 11-12.

FERNANDES, C. Gente/Gentificação. In: STRECK, D. R.; REDIN, E.; ZITKOSKI, J. (Org.). Dicionário Paulo Freire. 4. ed. rev. e amp. Belo Horizonte: Autêntica, 2018. p. 234-235.

STRECK, D. R.; REDIN, E.; ZITKOSKI, J. Apresentação à quarta edição revista e ampliada. In: STRECK, D. R.; REDIN, E.; ZITKOSKI, J. (Org.). Dicionário Paulo Freire. 4. ed. rev. e amp. Belo Horizonte: Autêntica, 2018. p. 13-14. Submetido em 14 de novembro de 2018.

Carolina Schenatto da Rosa – Doutoranda em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Email: [email protected] [http://orcid.org/0000-0001-5021-3782]

Débora Caroline dos Santos – Graduanda em Pedagogia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Bolsista de Iniciação Científica Pibic/CNPq no Programa de Pós-Graduação em Educação. Integrante do grupo de pesquisa “Mediações Pedagógicas e Cidadania”. E-mail: [email protected] [http://orcid.org/0000-0002-8053-4648]

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