MORTARI, Luigina. Filosofia do cuidado. Tradução de Dilson Daldoce Junior. São Paulo: Paulus, 2018. Resenha de: PROVINCIATTO, Gabriel Luís. Conjectura, Caxias do Sul, v. 24, p. 196-201, 2019.

Filosofia do cuidado é o segundo título da coleção Mundo da vida, inaugurada com a obra: Edmund Husserl: pensar Deus, crer em Deus (2016), da filósofa italiana Angela Ales Bello. A obra aqui apresentada caracteriza-se, sobretudo, pela abordagem de um tema específico, já exposto no título: o cuidado. Luigina Mortari, na verdade, já dedicou outras obras a essa temática, entre elas: A prática de cuidar (La pratica dell’aver cura) (2006), Cuidar de si mesmo (Aver cura di sé) (2009), Cuidar da vida da mente (Aver cura della vita della mente) (2013) e, mais recentemente, Filosofia do cuidado (Filosofia della cura) (2015). O principal ponto da obra (agora traduzida ao português) é o enfoque ético dado pela autora à dimensão filosófica do cuidado. A dimensão ética, porém, não é colocada de chofre como algo simplesmente dado ou como um pressuposto necessário a um mínimo entendimento da obra. Uma das intenções de Mortari é justificar por que o cuidado tem uma estreita ligação com a ética e, para tanto, propõe-se a construir um caminho ao longo da obra.

A estrutura da obra ajuda a compreender três aspectos cruciais: o ponto de partida teórico, a metodologia utilizada e os resultados alcançados. Há quatro capítulos: “Razões ontológicas do cuidado”, “A essência de um bom cuidado”, “O núcleo ético do cuidado” e “O concretizar-se da essência do cuidado”. O primeiro esclarece o ponto de partida teórico: aí a autora já sinaliza à relação entre ontologia e ética, bem como à importância da abordagem fenomenológica desse tema. Nesse sentido, uma ontologia do cuidado é devidamente justificada a partir de Ser e tempo (1927), de Martin Heidegger (1889-1976), à qual se somam outros dois pensadores fundamentais à continuidade do texto: Edith Stein (1891-1942) e Emmanuel Lévinas (1906-1995). O segundo capítulo, por sua vez, dá conta da questão metodológica, justificando o uso da fenomenologia como guia da pesquisa; novamente a autora se aproxima de Heidegger e traz também algumas contribuições de Husserl. Não se trata, porém, de uma mescla entre concepções distintas do que seja a fenomenologia, mas de mostrar sua relevância como método. A correlação eminente entre os dois primeiros capítulos vem à tona no terceiro: nele, de fato, a autora mostra como se desdobra essa relação entre ontologia e ética, como a fenomenologia está presente na adequada abordagem prática do cuidado e como a dimensão do cuidado é eticamente relevante ao estar em estreita sintonia com o paradigma filosófico da busca ideal do bem e de sua concretização. O quarto capítulo, muito próximo dos resultados apresentados no terceiro, mostra algumas diretrizes fundamentais à realização cotidiana do cuidado, tendo como perspectiva o paradigma ético do bem. Lá ainda são retomadas as perspectivas iniciais às quais se somam as concretizações possíveis de uma ética do cuidado.

O Capítulo 1 traz, inicialmente, uma pergunta: Por que a dimensão do cuidado é tão importante? Há, aí, uma afirmação subjacente: o cuidado é importante. Trata-se, na verdade, de algo fundamental (essencial) para o ser humano, mas que, por estar onticamente “mais próximo”, pode permanecer ontologicamente distante. Esse é o pressuposto primeiro de Mortari. O objetivo inicial da obra é mostrar essa relevância ontológica do cuidado e, nesse sentido, o primeiro capítulo tem a “necessidade de traçar uma analítica do cuidado”. (MORTARI, 2018, p. 10). A princípio, dois autores serão fundamentais: Heidegger e Stein. A principal contribuição de Heidegger provém da obra Ser e tempo: a analítica existencial aí conduzida pelo filósofo alemão tem o cuidado (Sorge) como o modo de ser do ser-aí.

A dimensão fundamental do cuidado é, no contexto de Ser e tempo, temporal, ou seja, só é possível falar de cuidado se se compreende o ser-aí como um ser de possibilidades: um poder-ser-possível. Dessa maneira, o ser-aí nunca é plenamente realizado, pois lhe é fundamental o poder-ser-possível. Aqui se compreende a importância do pensamento de Stein e de sua obra Ser finito e ser eterno (1950): a condição humana é marcada, principalmente, pela debilidade de ser, isto é, por nunca possuir o próprio ser em definitivo.

Esses dois pontos acompanharão o restante da argumentação de Mortari. Deve-se fazer notar, ainda no primeiro capítulo, a presença sutil de outro pensador: Lévinas, que, diga-se de passagem, será uma figura decisiva para se compreender os Capítulos 3 e 4. No entanto, a importância de Lévinas, no primeiro capítulo, está no direcionamento dado por ele à figura do outro. Mortari, na verdade, utiliza Lévinas para estabelecer um recorte teórico na abordagem feita por Heidegger. Note-se: Heidegger entende o cuidado a partir da condição existencial do ser-aí como ser-junto às coisas e como ser-com aos outros. Há, portanto, dois modos de relação: a estabelecida com as coisas e a com os outros; a primeira é denominada de ocupação (Besorgen), e a segunda, de solicitude (Fürsorge). Quando vista pela dimensão do cuidado, essa condição do ser-aí remete a um quem-cuida, para algo-cuidado e para um quem-recebe-cuidado. Esse caráter relacional é, tal qual o cuidado, essencial para o ser-aí, de modo que “para o ser humano, viver é sempre con-viver”. (MORTARI, 2018, p. 37). Há, aí, uma consequência anunciada: ninguém é capaz de realizar sozinho o projeto de existir. O outro passa a ser uma figura decisiva. Desse modo, a atenção de Mortari se dirige ao cuidado como solicitude, sobretudo. Isso estabelece um recorte preciso na ontologia heideggeriana.

A analítica do cuidado aqui proposta, então, tem seu fundamento ontológico muito bem-definido. E mais: trazendo esse caráter relacional do ser-aí com o outro, aponta ao fundamento de uma ética do cuidado não somente no sentido reflexivo do termo, mas, sobretudo, no caráter prático da ação de quem-cuida e de quem-recebe-cuidado. Esse é o horizonte paradigmático (MORTARI, 2018, p. 74-76) no qual se funda a proposta dessa obra. Agora se nota a importância da fenomenologia: ela não serve somente para fornecer uma descrição das práticas de cuidado, mas conduz “a pesquisa a identificar o que é, em si, o cuidado”. (MORTARI, 2018, p. 77).

O Capítulo 2 se ocupa justamente do método fenomenológico. Husserl e Heidegger são a base do que é apresentado, contribuindo, singularmente, para a justificativa da escolha metodológica da autora. Dois pontos devem ser destacados: primeiro, a fenomenologia permite uma descrição do fenômeno em sua concretude, não o desvirtuando de sua realidade contextual, tampouco o compreendendo por um viés solipsista, mas sempre relacional; além disso, o cuidado pode se concretizar de diferentes maneiras, donde uma atenção é necessária para uma compreensão do que seja a essência do cuidado. A contribuição de Heidegger está aí: pensar o cuidado a partir de uma situação hermenêutica concreta e relacional; segundo, a fenomenologia permite, também, uma conceituação geral da essência do  cuidado, não determinada previamente por um juízo de valor, mas que parta do cuidado devidamente concretizado. Justamente por se concretizar de diferentes maneiras, a essência do cuidado pode ser dimensionada enquanto é singular, regional e universal, viabilizando pesquisas posteriores tanto teóricas quanto empíricas. Esta é a contribuição decisiva de Husserl: pensar a essência em diferentes níveis, permitindo, assim, uma definição teórica.

Desse modo, Mortari não elimina a necessidade do caráter prático, nem a do teórico. Isso lhe permite definir o cuidado da seguinte maneira: Pode-se afirmar que a essência do cuidado consiste em ser uma prática que acontece em relação, que se atualiza segundo uma duração temporal variável, movida pelo interesse pelo outro e orientada a promover o seu bem-estar-aí, e que, por isso, se ocupa de algo que é essencial para o outro. (2018, p. 91).

Tal definição traz uma meta explícita: promover o bem-estar-aí do outro. Aqui se percebe a problemática ética intrínseca ao cuidado: o caráter relacional se concretiza sempre entre quem-cuida e quem-recebe-cuidado, o que exige tanto deliberação quanto responsabilidade. Disso decorre a impossibilidade de se criar um critério estável à ação do cuidado: ela é sempre contextual, o que implica uma necessária decisão. Qual é o critério para isso? O bem-estar do outro. Desse modo, o cuidado está intimamente vinculado à procura do bem. Para Mortari, não é possível pensar numa ontologia sem implicação ética. A prática do cuidado é, por excelência, ético-ontológica.

Essa dimensão ética é trabalhada com maior precisão no Capítulo 3. Dada a importância do conceito de bem, a autora inclui duas referências fundamentais para ajudar a compreendê-lo: Platão e Aristóteles. Ambos a acompanharão até o final da obra.

O Capítulo 3, após um primeiro momento expositivo ainda sobre a relação entre ontologia e ética, foca sua atenção em quatro aspectos essenciais ao cuidado como a promoção do bem-estar-aí do outro: responsabilidade, generosidade, respeito e coragem. O sentir-se responsável pelo outro (MORTARI, 2018, p. 135-151) traz dois pontos decisivos: primeiro, o rompimento com a autorreferencialidade não como uma anulação do si mesmo, mas como uma ação realizada e decidida a partir da condição limitada de cada um. Nesse sentido, quem-cuida é capaz de responder à necessidade de quem recebe-cuidado se se compreende também como alguém que precisa de cuidado, pois seu ser não é pleno. Segundo, a necessária abertura para “sentir a qualidade de sentir do outro” (MORTARI, 2018, p. 144), não para eliminar o outro, pondo-se plenamente em seu lugar, mas a partir de um “raciocínio do coração” que pensa a realidade do outro na condição que é a sua. Esse senso de responsabilidade, portanto, impede que tanto o si mesmo se elimine quanto que elimine o outro. Aqui se percebe à importância de Lévinas, a quem também são feitas algumas considerações críticas no sentido de apontar a importância de um ato consciente da ação de cuidado, pois cuidar é doar tempo e, uma vez que ser é tempo, doar tempo é um ato de generosidade, de se doar ao outro. A ideia de uma ação doadora (MORTARI, 2018, p. 167-185) não se pauta pela lógica da retribuição, tampouco se deixa limitar pela normatividade da lei. Esse ponto torna a ética do cuidado diversa do imperativo categórico kantiano, pois esse é valorativo e regulamentador, e aquela é situacional, embora esteja vinculada à ideia geral de bem. A ética do cuidado, portanto, é realista-idealista. O caráter situacional vincula a generosidade ao respeito: esse leva em consideração o indivíduo enquanto tal, pondo-o acima da normatização. Aproximar-se do outro com reverência (MORTARI, 2018, p. 185-198) previne que a relação de cuidado se transforme numa relação de violência, uma vez que quem-cuida está numa situação de poder ante quem-recebe-cuidado. No limite, o respeito impede a submissão do outro ao meu modo de agir e pensar. Fala-se, diante disso, de uma justa medida da relação: ela acontece quando a autonomia de ambas as partes é preservada e, em alguns casos, estimulada. Isso permite à autora falar de coragem, vista como a capacidade necessária de deixar o outro ser em sua autonomia. A coragem aqui significa o rompimento com uma cultura hedonista e narcisista.

O Capítulo 4 está intimamente vinculado ao terceiro, pois toma esses aspectos essenciais da ética do cuidado – responsabilidade, generosidade, respeito e coragem – e apresenta algumas maneiras de concretizá-los: prestar atenção, escutar, estar presente, compreender, sentir com o outro. Deve-se notar ainda outro aspecto: a retomada dos pontos iniciais da obra, ou seja, Mortari volta a dialogar, sobretudo, com Heidegger, Stein e Lévinas a partir dos resultados por ela conquistados. Desse modo, traz o compreender, o falar e o escutar não somente como aspectos ontológicos do ser-aí, mas como compromissos éticos com o outro nos quais se concretiza o cuidado. Fala de uma relação com o outro não como intrusiva, mas como empatia e compaixão; nesses termos, concorda e comenta a tese de Stein sobre a empatia, presente na obra O problema da empatia (1917). Fala também de um “ser presente numa proximidade distante” (MORTARI, 2018, p. 244-249), ou seja, de um estar presente discretamente, não eliminando a barreira instransponível que há entre o si mesmo e o outro, tampouco vendo nela a impossibilidade de uma relação.

A prática do cuidado é, por excelência, a prática da transcendência, de acordo com Mortari, pois vai em direção daquilo que é totalmente outro e, nesse sentido, diverso do si mesmo. Isso exige duas atitudes que, a princípio, parecem antagônicas: delicadeza e firmeza. Agir com delicadeza é aproximar-se do outro sem a intenção de dominá-lo e “agir com firmeza significa dizer não às exigências do outro quando é necessário” (MORTARI, 2018, p. 252) com a intenção de incentivar a autonomia que lhe é própria.

“Conservar-se na responsabilidade do cuidado é, portanto, difícil: porque não se tem controle sobre a ação; porque, nem sempre, se pode ser perdoado; e porque pode acontecer que não seja encontrado reconhecimento”. (MORTARI, 2018, p. 256). A obra conclui apontando ao risco e à necessidade do cuidado e, além disso, ao fato de que não se trata de construir teorias a serem impostas perigosamente sobre a realidade, pois a vida não se encerra em um sistema.

Por fim, Filosofia do cuidado é uma obra que traz contribuições singulares não somente à Filosofia. Justamente por lidar com uma abordagem prático teórica e se servir de exemplos concretos, Mortari sinaliza na direção de áreas como da Educação, da Enfermagem e da Psicologia que estão diariamente em contato com o outro e vivem essa relação entre quem-cuida e quem-recebe-cuidado de diferentes maneiras e em diferentes situações.

Essa obra, da qual se recomenda a leitura, pode ajudar a melhor compreender a importância de uma justa relação com o outro, visando seu bem-estar-aí, sem, no entanto, eliminar o si mesmo, peça fundamental para que a relação aconteça.

Luís Gabriel Provinciatto – Doutorando em Ciência da Religião – área de concentração: Filosofia da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) com bolsa de financiamento Capes e período sanduíche na Universidade de Évora – Portugal. Mestre em Ciências da Religião. E-mail: [email protected]

Acessar publicação original

 

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.