LOSURDO, Domenico. Um mundo sem guerras: a ideia de paz, das promessas do passado às tragédias do presente. São Paulo: Ed. Unesp, 2018. 434p. Tradução de Ivan Esperança Rocha. Resenha de: VIEIRA, Fernando Mattiolli. Revista Brasileira de História. São Paulo, v.40, no.83, JAN./ABR. 2020.

O ano de 2019 certamente não será recordado pela ocorrência de grandes avanços em favor da paz mundial. Na África, a Líbia não conseguiu superar a instabilidade política instaurada com a derrubada de Muammar Kadhafi, em 2011, e a disputa pelo poder transformou-se em uma extensa guerra civil desde então. Naquele mesmo ano, no Oriente Médio, a Síria de Bashar Al-Assad foi arrastada para um conflito envolvendo agentes internos e externos, e até este momento o país devastado se defronta com o enfrentamento de grupos antagônicos que impedem a pacificação do país. No sul da Ásia, Índia e Paquistão, mais uma vez, despertam a tensão mundial com a possibilidade de um conflito nuclear após bombardeios e ataques aéreos mútuos, na Caxemira, no início de 2019. Esses e vários outros conflitos, que de formas diferentes marcam a ausência de paz entre povos, se inserem na continuidade dos acontecimentos que foram apontados pelo historiador e filósofo italiano Domenico Losurdo em sua obra Um mundo sem guerras: a ideia de paz, das promessas do passado às tragédias do presente (1ª ed. italiana, 2016). Esse foi um de seus últimos trabalhos, disponível agora em português pela editora da Unesp, traduzido pelo professor Ivan Esperança Rocha (Unesp-Assis).

O livro é um trabalho de História Política sobre o Ocidente que considera cinco momentos históricos inter-relacionados: a Revolução Francesa, o período de atuação da Santa Aliança, o desenvolvimento do comércio mundial e das sociedades industriais do século XIX, a Revolução Russa e, por fim, o período da hegemonia norte-americana, desde a Primeira Guerra Mundial até os acontecimentos após a Guerra Fria. Alguns dos temas mais importantes que perpassam toda a profícua produção bibliográfica de Losurdo, como a crítica ao liberalismo e ao colonialismo, o nacionalismo e os processos revolucionários, são desenvolvidos em sua relação com as propostas de paz apresentadas nesses cinco momentos.1

Do início ao fim do livro, filósofos, historiadores, políticos e jornalistas são colocados em diálogo contínuo a fim de se identificar quando e como foram construídas determinadas tradições de paz ao longo do tempo. Os discursos são retirados de qualquer isolamento histórico, sendo confrontados diacrônica e sincronicamente. As propostas de paz defendidas são contextualizadas e aproximadas a acontecimentos históricos contemporâneos – esse é o fato que, para Losurdo, determina a credibilidade do discurso dos pensadores. O método se torna o grande mérito do autor: identificar a origem de tradições que, na maior parte dos casos, eram sobretudo retóricas e levavam os Estados a se convencerem de um destino imperialista. Por exemplo, as perspectivas de paz perpétua do filósofo e economista John Stuart Mill, do presidente norte-americano Thomas Woodrow Wilson e do filósofo Jürgen Habermas, cada uma a seu tempo, refletem o apoio a um processo civilizador de Estado que incluía a submissão do outro e a pacificação pela guerra. Daí o resultado de uma equação histórica sobre as propostas de paz: é preciso fazer uma clara distinção entre autênticos projetos de paz duradoura e ambições mal camufladas de despotismo mundial (p. 49).

Para chegar às suas conclusões, Losurdo mantém a tradição política que define a guerra como algo mais amplo do que um conflito entre exércitos de Estados. A famosa “fórmula” do militar-burocrata prussiano Carl von Clausewitz, “A guerra é a continuação da política por outros meios” (Clausewitz, 1979, p. 65), perpassa toda a obra de Losurdo como um paradigma necessário para ampliar o conceito de guerra. Ela também é econômica, comercial, psicológica, “clandestina”. As formas de um Estado capitalista e democrático apresentá-la ao longo dos últimos dois séculos é puramente contraditória à noção de civilidade desenvolvida por/para ele mesmo. Por isso, a guerra é necessariamente refletida e executada “por outros meios”, de forma dissimulada; afinal, a selvageria de um conflito armado é um costume decadente que só pode ser atribuído ao outro: ao povo guerreiro, arcaico, estranho aos costumes ocidentais. A guerra, realizada pelo Ocidente sob a égide da paz, se transmuta em “operação de segurança”, em “intervenção”, em “manutenção da paz” (Crettiez, 2011, p. 68-69).

O autor não se esquiva de questões bastante sensíveis, próprias do aprofundamento do tema. A meu ver, a principal delas – cara a diversos pensadores – é: seria justa a intervenção em um Estado que viola os direitos humanos de sua própria população ou de um Estado mais fraco? O cenário político internacional exige, em muitas situações, respostas rápidas e enérgicas que, se não forem tomadas a tempo, podem resultar em grandes catástrofes, como vimos recentemente no Oriente Médio, com os avanços do Estado Islâmico contra os curdos e não convertidos, ou em Mianmar, com o massacre da população rohingya, ambos por questões religiosas e étnicas. Situações como essas são facilmente cooptadas por países imperialistas que legitimam suas ações de guerra com amplo apoio dos espectadores internacionais. Losurdo não questiona a validade de uma guerra de proteção e, nesse sentido, reconhece a importância de uma instituição mundial como a ONU. Seu foco, contudo, são os protagonistas que assumem a “responsabilidade de proteger”. Para ele, as “ações humanitárias” não devem ser orquestradas por apenas um país e seus aliados, pois a decisão e a execução devem encontrar legitimidade apenas se não forem exercidas de maneira unilateral (p. 384).

Mais de um ano após a morte de Losurdo (28 jun. 2018), não há mudanças no quadro internacional. Para ele, o último marco político-econômico global foi o fim da Guerra Fria – o que para Francis Fukuyama representou o “fim da história” e, para Habermas, uma nova “ordem cosmopolita”, “supranacional”. Desde aquele momento, Losurdo se mostrou cético para com mudanças em favor da paz – sua desconfiança foi plenamente coerente com o que o cenário mundial apresentou até este momento. Com o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos assumem o papel de “xerife internacional”, atuando sob um princípio que o filósofo Michael Walzer (2003) chamou de “guerra justa”, uma ação hedionda recoberta por uma concepção moral que justifica atos belicosos. Isso foi visto com a guerra high tech no Iraque, com o embargo econômico à Venezuela e com os impasses comerciais com a China – que para alguns representa a iminência de uma nova “Guerra Fria”. Nada aponta para um cenário mais positivo em favor da paz em curto prazo, tendo em vista a retomada da política America First pela atual gestão presidencial naquele país.

Diante das propostas históricas de paz consideradas, Losurdo procura dar resposta a uma questão que possivelmente aguçou nossa escatologia, por questões religiosas ou políticas, em algum momento da vida: haverá algum dia um mundo sem guerras? Para o autor, as experiências do passado, exitosas ou não, não devem ser desprezadas. As revoluções inglesas e a Revolução Americana originaram apenas uma pax imperium, instituindo a dominação sobre outros povos e o colonialismo, utilizando-se de inúmeras guerras para a manutenção e ampliação de seu poderio. Alguns modelos propostos na Revolução Francesa e na Revolução de Outubro, entretanto, apresentaram novos paradigmas que deveriam ser aproveitados, como o desprezo pela escravidão, a aversão ao colonialismo, a defesa da autonomia dos povos e a aproximação deles pela égide da paz. Por isso, Losurdo conclui que há caminhos que podem ser trilhados na direção da paz perpétua, ainda que eles sejam “incertos e problemáticos” e sujeitos a uma “longuíssima duração” (p. 397).

Para que Um mundo sem guerras seja bem entendido, o próprio autor deve ser inserido em uma tradição: uma tradição marxista, de crítica ao conservadorismo e ao liberalismo, considerados por ele como entraves para as propostas reais e universais de paz perpétua. E um confronto com essas tradições é, deveras, inevitável. No horizonte desse embate, para Losurdo, deveria haver o fim do próprio sistema capitalista, a diminuição gradual do Estado e a estruturação de uma comunidade mundial. Seu ativismo político e sua filiação ao Partido Comunista Italiano podem ser percebidos de maneira bastante coerente e sutil, mas o tom erudito da obra, o profundo embasamento histórico e a lucidez de suas conclusões eliminam qualquer possibilidade de apologia às convicções do autor. Pelo contrário, apresentam-se como um convite à reflexão para o leitor interessado em saber das principais propostas de paz já apresentadas no Ocidente e preocupado com as possibilidades do porvir.

Referências

ARON, Raymond. Paz e guerra entre as nações. Brasília: Ed. UnB, 2002. [ Links ]

CLAUSEWITZ, Carl von. Da guerra. São Paulo: Martins Fontes, 1979. [ Links ]

CRETTIEZ, Xavier. As formas de violência. São Paulo: Loyola, 2011. [ Links ]

LOSURDO, Domenico. Contra-História do Liberalismo. São Paulo: Ideias & Letras, 2006a. [ Links ]

LOSURDO, Domenico. Liberalismo: entre civilização e barbárie. São Paulo: Anita Garibaldi, 2006b. [ Links ]

WALZER, Michael. Guerras justas e injustas: uma argumentação moral com exemplos históricos. São Paulo: Martins Fontes, 2003. [ Links ]

1As principais obras de Losurdo foram traduzidas para o português. A crítica ao liberalismo é o fio condutor em todas elas, sendo esse tema mais explorado em Liberalismo: entre civilização e barbárie (LOSURDO, 2006b) e, principalmente, em Contra-História do Liberalismo (LOSURDO, 2006a).

Fernando Mattiolli Vieira. Universidade de Pernambuco (UPE), Petrolina, PE, Brasil. E-mail: [email protected]

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