ALMEIDA Edmilson Pereira / http.revista

PEREIRA, Edimilson de Almeida. “Poesia+”. Sdt. Editora 34, 284p. Resenha de: RIBEIRO NETO, Amador. Voz de Edimilson de Almeida Pereira é tão política quanto poética. Folha de São Paulo – Ilustrada, 22.jun.2020.

“Poesia +”, de Edimilson de Almeida Pereira, reúne quase duas centenas de poemas escritos entre 1985 e 2019. O livro está dividido em três partes –”Esse Corpo”, “Poesia +”, “Inéditos”.

Pereira lida com temas afro-brasileiros, ameríndios, indígenas, sem desprezar os internacionais e questões formais da poesia. Tudo com garra e desembaraço. O resultado é satisfatório a ponto de o leitor não se dar conta de que se trata de poesia “engagée”, social, social-formal, ou o nome que se queira dar a seu trabalho.

Normalmente um livro traz bons, médios e maus poemas. Não é o caso. Seu livro é muito bom do início ao fim. Fato raro nos melhores poetas brasileiros. Em especial, nos contemporâneos.

Já o compararam aqui e ali a Drummond e Murilo Mendes em influência, diálogo, referência. Lembra, sim. Lá longe. Distante. Não importa. O que fica é o timbre forte de uma poesia marcante na cena atual da poesia brasileira. Uma poesia de dicção própria.

No poema “Blake”, o corte das imagens cruas e o desfecho súbito impressionam pela síntese e concisão. “Não se toca o fundo com cordas de segurança./ Ninguém, meu caro, admite a queda./ Somente o corpo despido de religião e poesia/ prova essa intempérie.” Nada se perde. Cada palavra, cada sílaba vem carregada de informação semântica, sonora e intertextual.

O prefaciador Roberto Zular considera Exu a linha que atravessa os poemas do livro. Do ponto de vista cultural, de fato é isso mesmo. Exu ordena e embaralha, abre caminhos e trança outros. O mesmo faz o poeta tecendo e entremeando os poemas numa malha de links de leituras. Abre, mistura, confunde roteiros de leitura para que o leitor se perca. E mais se ilumine.

Mas o fino tratamento com a linguagem é outro viés que vaza o livro de ponta a ponta. E isso se destaca porque o livro trama com excepcional qualidade, como vimos, tema e forma. Na história da poesia brasileira, pós-Semana de 22, os dois aspectos normalmente são dicotomizados. Edmilson de Almeida Pereira se safa dessas determinações unívocas.

A voz de sua obra é plural sócio-político-cultural sem perder as filigranas da poeticidade. Não se escraviza a um discurso dogmático. Nem a uma forma fixa. Nem de vanguarda. É livre tal como a liberdade que propaga contra toda forma de repressão sofrida pelos negros, indígenas, pobres, oprimidos. Uma poesia desimpedida dos cânones. Por isso mesmo encanta pela novidade leve que traz.

É uma poesia de invenção. Mas sem o peso da construção das formas e das ideias. O poeta percebeu novos modos de habitar a linguagem poética. E aí fez sua morada. E aí reside sua marca. Ao discorrer sobre a “mão do Estado” que “vasculha o interior das roupas, mas desejaria alcançar o corpo” o poema diz “a mão que precisa ser cortada vinga-se em estados de exceção”, para depois concluir, “considera-se absolvida a mão do Estado. Se estivesse/ absorta na generosidade do corpo, talvez não o/ matasse,/ a suicida”.

Ao se valer da cultura popular, da sua dicção, bem como da linguagem culta sem melindres, rompe ao modo do modernismo brasileiro as fronteiras entre erudito e popular. E continua uma feliz tradição que soube se dar bem em Drummond, Cabral, Murilo, Bandeira e vários contemporâneos.

O título desta antologia com o sinal gráfico de mais não somente sinaliza o anexo dos poemas inéditos, mas aponta para a excelência da qualidade dos poemas. Também por isso ele é feliz, “Poesia +”.

“O coração navega./ De amores esperados nenhum/ancorou. O campo/ parece outro (de quando?)./ Mas, ei que a perda/ gera seu reparo: o amor/ atravessa a noite/ encarcerado na grimpa./ O coração campeia./ Oceano.”

A amplitude da cultura, da linguagem, enfim, da vida, grifa a poesia de Edimilson Pereira de Almeida.

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