MORITZ, Karl Philipp. Viagem de um alemão à Itália. Tradução, introdução e notas de Oliver Tolle. São Paulo: Humanitas – Imprensa Oficial, 2008. Resenha de: NASCIMENTO, Luís F. S. Uma Itália em alemão. Cadernos de Filosofia Alemã, São Paulo, n.14, Jun./Dez., 2009.

Publicado entre os anos de 1792 e 1793, a Viagem de um alemão à Itália de Karl Philipp Moritz ganhou recentemente uma bela versão em português, feita por Oliver Tolle. Se não informa tudo, o título deste volume diz algo importante acerca de seu conteúdo e do modo como ele é apresentado: estamos diante da obra de alguém que, desde o início, assume a posição de um estrangeiro. Sabemos que Moritz não é o primeiro nem o último que se encanta por esse lugar : Shaftesbury, Winckelmann, Herder, Goethe1, Nietzsche e tantos outros, a lista de artistas, eruditos e literatos “estrangeiros” que viveram, escreveram ou refletiram sobre a Itália parece infinita. Por que, podemos sempre nos perguntar? Qual é o motivo desse encanto? O que tem o solo italiano que tanto fascina e faz com que os habitantes de outros países se interessem por ele? Sua beleza, ou antes, a beleza que ele nos permite vislumbrar, respondemos de pronto. Se é assim, então em que medida a visão da beleza da Itália que Moritz pretende nos apresentar já pressupõe o fato de ela ser contemplada por um olhar estrangeiro? Escrito em uma forma que lembra a do diário, o livro é composto de várias notas que por vezes registram a data em que foram compostas.

Na expressão do tradutor da edição brasileira, são fragmentos organizados por rubricas, tais como Pérsio, Os arabescos na loggia de Rafael, Alegoria, Michelangelo etc. Em uma dessas partes de seu livro, denominada O belo é uma língua mais elevada, Moritz nos diz o seguinte:

Onde a harmonia do todo recebeu um nome, ali foi desvelado o belo; o nome podia ser Apolo, Júpiter ou Minerva; o belo podia elevar-se suavemente na coluna coríntia ou causar a impressão de resistir, com força rochosa, à pressão do alto na coluna dórica; ele podia se revelar na constituição delicada dos membros da beleza feminina mais elevada ou no peito e nas costas de um Hércules. (p.160, destaques nossos)

Todas as vezes em que uma certa variedade de elementos se apresenta como sendo uma unidade, onde quer que se ofereça “nos objetos mais diversos um ponto de vista principal para o todo” (p.187), há aí o que Moritz chama de belo. A beleza pode se manifestar de modos distintos e ganhar vários nomes: Apolo, Júpiter, Minerva ou Hércules são exemplos desses lugares ou momentos nos quais a beleza “se desvela”, como dizia Moritz no trecho acima citado. Cada um deles pode ser dito belo na medida em que são totalidades nas quais as partes formam um único e mesmo todo – uma “multiplicidade na unidade” (p. 10). Pois bem, se é verdade que o nome Itália é ele mesmo uma totalidade que unifica um certo número de elementos diversos, se podemos conferir ao solo italiano o atributo belo, então é lícito perguntar: como pensar a multiplicidade que esse nome (Itália) encerra? O que nos levaria a uma segunda indagação: qual seria o “ponto de vista” que possibilitaria a visão da união das partes que formam esse todo?

Com relação à primeira questão, podemos dizer que de um modo geral o livro de Moritz nos apresenta três “Itálias” que se complementam e formam uma só: a antiga, a renascentista e a do final do século XVIII. Por todo o seu texto vemos aproximações e diferenças entre um passado longínquo, um outro mais recente e o presente. Se em alguns momentos Moritz afirma não haver da Antiguidade “mais nenhum vestígio” (p. 103), em outros nos lembra que a Roma antiga vive em provérbios repetidos por italianos setecentistas, tais como “ ‘Il Romano non é vinto, se non é sepolto’, ‘o romano só é sobrepujado pelo túmulo’” (p. 194) ou quando as mulheres dessa cidade dizem: “ ‘Io sono Romana!’” e, assim, “tal como as antigas romanas, elas conservam a sua cabeça erguida” (p. 219). Muitas coisas mudaram na Itália ao longo dos séculos, mas essa mudança que brota de suas ruínas continua a expressar, a partir de diferentes nomes, a mesma unidade: Marcial, Rafael, Michelangelo, Ticiano, assim como a descrição das cidades, ruas e costumes de outrora e de hoje podem ser vistos como diferentes imagens ou partes de uma mesma beleza chamada Itália.

Entender essa dinâmica que liga em um todo elementos distintos e, sob certos aspectos, opostos, é condição sem a qual não se pode compreender o que torna esse país belo:

Das ruínas brotou a figueira selvagem e, por meio do seu crescimento ininterrupto, ela separa uns dos outros os encaixas mais firmes.

Mas mesmo com esse crescimento a vista das ruínas é pictórica e bela – e constitui o mais encantador contraste ver b rotar o verde mais jovem das pedras modernas e das fendas da muralha caída, lançando suas sombras sobre esses restos veneráveis da Antiguidade; e o pintor de paisagens encontra aqui sempre uma colheita rica, pois vê unificado na natureza aquilo que a imaginação mais viva não poderia reunir de modo tão romântico. (p. 137, grifo nosso).

A questão agora é: o que é preciso para que se chegue a esse olhar ? O que temos de fazer para ascender a essa posição capaz de ver a mais harmônica das combinações em um conjunto tão díspar de elementos, tal como uma paisagem que reúne antiguidade e modernidade, arte, imaginação e natureza? Um trecho no qual Moritz comenta a beleza do trabalho de Ticiano é bastante esclarecedor a esse respeito:

Para considerar, contudo, uma pintura de Ticiano em sua beleza, o olho deve primeiro se acostumar a ser inteiramente olho, a se comportar com passividade, a não espreitar e não investigar demasiadamente, mas permitir que a impressão do todo atua gradualmente sobre si, a fim de que se procure o belo, que está aqui imediatamente diante dos olhos, não muito longe da fantasia ou mesmo do pensamento./ Para cada obra autêntica deve-se despertar primeiro uma espécie de sentido mais alto, e certamente é falso afirmar que é uma prova do belo autêntico agradar tanto à massa ignara quanto ao especialista, mostrando o seu efeito logo ao primeiro olhar. (p.35, grifo nosso)

Há algo de paradoxal no trecho acima e que, por sua vez, mostra a complexa atividade do modo como Moritz pensa a contemplação da beleza. Se, desde o primeiro momento, a totalidade do objeto belo está dada diante dos olhos, isso não exclui um trabalho ou atividade que busca acomodar o olhar àquilo que ele julga. Nesse sentido, a tarefa é a de procurar ou desvendar o que já é evidente, o que significa aprofundar-se no conhecimento das relações que fazem do belo uma evidência. Em outras palavras: o olho não deve passar a ver outra coisa quando investiga o objeto que tomou como belo, ele apenas o vê melhor à medida que se acostuma a se r olho e se acomoda ou se familiariza à beleza que contempla:

O colorido de Ticiano não surpreende propriamente, mas exerce muito mais uma atração suave – e apenas quando contemplado com maior demora descobre-se a riqueza e a diversidade infinita no simples. (p. 35, grifo nosso)

Talvez encontremos aqui o ponto de vista pelo qual seria possível desvendar alguns dos infinitos elementos que tornam a Itália tão simples e interessante quanto bela aos olhos de um Moritz: trata-se daquela visão que identifica na beleza de seu objeto uma atração suave que não a surpreende por completo, mas que ainda assim a fascina, pois sabe que há ali segredos a serem desvendados e, nesse sentido, alguma estranheza capaz de manter sua atenção. Daí a importância de se ater às diferenças e às diversidades: elas confirmam e enriquecem a unidade. É curioso notar como em alguns momentos dessa obra a multiplicidade de aspectos a partir dos quais Moritz apresenta a sua Itália acaba por compreender a Alemanha. Ao comparar provérbios italianos com ditos alemães, quando estabelece relações entre os modos de pensar e falar dos dois povos, o autor põe lado a lado o olho e o seu objeto: nesse instante, o seu ponto de vista estrangeiro e a paisagem italiana que ele admira são elementos complementares. Por certo, as estranhezas e as diferenças entre esses dois pólos persistem, mas já temos aqui alguma unidade, o suficiente para que se possa descrever, julgar ou apresentar ( darstellen ) uma Itália em alemão.

Nota

1 Vale lembrar, como faz o tradutor da versão brasileira, que Moritz conheceu Goethe e Herder na Itália

Luís F. S. Nascimento – Professor do Departamento de Filosofia da UFSCar.

Acessar publicação original

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.