Em 2018, comemoraram-se os 200 anos da Aclamação de D. João VI ao trono do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Constituiu-se um fato inédito no processo histórico do Brasil, que, para além de seu caráter simbólico, demonstrou a diferença entre o mundo colonial que começava a ruir e uma nova feição política e econômica que o Reino tomava. Serviu ainda para reforçar a ascendência do Rio de Janeiro sobre o restante do país, assim como o peso político da parte brasileira no interior do império português. Tais questões orientaram as discussões que repensaram tal evento, por meio de um Seminário, realizado pelo IHGB e intitulado A Aclamação de D. João VI no Rio de Janeiro: o Rei e o Reino. Não só se buscou celebrar a data, por meio da discussão proposta por especialistas e por estudiosos do Brasil e de Portugal, mas se pretendeu construir uma memória do acontecimento que trouxesse novas contribuições à historiografia do processo. Investigar práticas políticas e rituais cívicos significa abrir um leque de possibilidades para se debater as relações da História com seu passado, além de vislumbrar as articulações simbólicas do poder, da sociedade e da cultura na formação do Estado Brasileiro e de suas repercussões até os dias atuais.

Por conseguinte, os artigos aqui apresentados compõem um dossiê das reflexões aprofundadas e ampliadas do Seminário. Não se constituem como uma simples comemoração, sem significado para a memória do acontecimento histórico, mas como um balanço dessa memória histórica.

O dossiê é iniciado por texto original de Arno Wehling, que propõe uma análise do horizonte de expectativas no Brasil, entre sua elevação a Reino Unido em 1815 e os acontecimentos que levaram à sua ruptura com Portugal, em 1822, demonstrando ainda o papel da Aclamação de D. João ao longo desse processo. Em seguida, Lucia Guimarães elabora um balanço crítico sobre o reinado americano de D. João VI, procurando identificar suas principais vertentes interpretativas, apontando confrontos e convergências.

Na abordagem da história renovada do político, seguem as contribuições de Lucia Bastos Pereira das Neves e de Maria de Lourdes Viana Lyra. No primeiro trabalho, política e cultura se entrelaçam para se apreender as tensões que se estabeleceram entre as duas partes do Império, desdobramentos da aclamação realizada nas terras do Reino americano. No segundo texto, a autora volta sua atenção para demonstrar o Rei, como defensor do Reino luso, e, depois, como mentor do Reino Unido luso-brasileiro por ele criado. Realça, assim, o alcance da proposta da aclamação do soberano na parte americana do Império como estratégia em defesa da própria unidade da Coroa.

Sem abandonar o viés político, mas acrescido de uma perspectiva da história cultural, cujo principal objetivo é identificar o modo como, em diferentes lugares e momentos, uma determinada realidade social é constituída, pensada, dada a ler, nas palavras de Roger Chartier, encontramos os trabalhos de Ana Carolina Galante Delmas e de Maria Pace Chiavari. No primeiro texto, Ana Carolina volta-se para a prática do oferecimento de dedicatórias impressas em um Brasil do início dos oitocentos. Naquele momento, as dedicatórias representavam práticas de homenagem, tornando-se símbolo das relações políticas, apoiadas na hierarquia social vigente, e das trocas efetuadas em busca por poder e por influência. Demonstra ainda que a época da aclamação de um soberano, algo inédito nas Américas, foi espaço de consagração para tais homenagens. Maria Pace Chiavari propõe uma análise do papel das arquiteturas efêmeras, especialmente, aquelas projetadas pelos franceses, segundo cânones neoclássicos, como um cenário alegórico que contribuiu para colocar em evidência a cidade do Rio de Janeiro, transformada em capital do Reino. A aclamação de D. João VI foi ainda momento fundamental para essa perspectiva, quando o poder soberano soube explorar o festejo real como forma de reforçar o poder da Coroa.

As hierarquias sociais e práticas de condecorações e de mercês também se fizeram presentes por meio de dois artigos: um, de Camila Borges da Silva, sobre as ordens honoríficas e a sociedade, analisando a nobilitação de negociantes na Corte joanina que direcionavam parte de seu capital econômico com o objetivo de galgar um lugar social e de prestígio naquela sociedade de feição do Antigo Regime; o outro, de António Miguel Trigueiros, examina a criação da Real Ordem da Torre e Espada (1808-1834), que foi criada com o objetivo de ser uma Ordem Honorífica e Militar luso-Brasileira, que perdurou mesmo após o processo de independência do Brasil.

Na parte destinada às Comunicações, em que se divulgam trabalhos expostos nas sessões da CEPHAS / IHGB, a sócia emérita Cybelle de Ipanema traz uma curiosa informação sobre João Manso Pereira, personagem que viveu entre o século XVIII e XIX e que fabricou louça afamada com material da Ilha do Governador, pequeno território do município do Rio de Janeiro.

A seção Documentos apresenta a transcrição de um texto manuscrito com a biografia do médico-botânico Joaquim Monteiro Caminhoá. Tal estudo foi localizado na Coleção Claudio Ganns, guardada no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), sem indicação de autoria. Nesse documento, encontra-se uma análise sobre a trajetória do cientista que atuou no Império do Brasil. Ele ainda participou ativamente de diversas instituições e sociedades científicas oitocentistas, bem como publicou inúmeros artigos e livros no campo da medicina e da botânica.

Finalizando esse número, há a resenha de Marize Malta – De volta para o futuro… Outras notícias e outros modos de atualizar a Missão Artística Francesa – sobre o livro de Patricia D. Telles, O Cavaleiro Brito e o Conde da Barca: dois diplomatas portugueses e a missão francesa de 1816, publicado em Portugal em 2017. Fugindo de uma história oficial, segundo a resenhista, a autora busca personagens, entendendo-os como peças de um mosaico de relações, e documentos inéditos que trazem novo olhar não só sobre os conhecimentos de intelectuais e de cientistas europeus, mas também sobre os elementos que propiciaram a negociação para a remessa de artistas e de artífices franceses para o Rio de Janeiro.

Aproveitem!

Lucia Maria Bastos P. Neves – Diretora da Revista.


NEVES, Lucia Maria Bastos P. Carta ao leitor. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, v.180, n.479, p.9-11, jan./abr., 2019. Acesso apenas pelo link original [DR].

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