LEMÕES, Tiago. A família, a rua e os afetos: uma etnografia da construção de vínculos entre homens e mulheres em situação de rua. São Paulo: Novas Edições Acadêmicas, 2013. 257 p.  Resenha de: CLAUDINO, Livio. Além do utilitarismo: a rua como espaço de continuidades e afetividades. Tessituras, Pelotas, v.3, n.1, p.338-344, jan./jun. 2015.

Uma etnografia da construção de vínculos entre homens e mulheres em situação de rua, nos é apresentada pelo antropólogo Tiago Lemões como um convite à desconstrução de estereótipos e categorias sociais fixas. A partir de um mergulho denso e uma análise apurada das dinâmicas relacionais entre sujeitos em situação de rua e os diferentes personagens que com eles interagem no espaço público da região central de Pelotas (RS), o autor potencializa a derrocada de certos olhares preconcebidos direcionados às pessoas em situação de rua e que não permitem perceber a multiplicidade das formas de construção de vínculos e a complexidade das relações tecidas por linhas de afetos, reciprocidades e subjetividades que envolvem a vida nas ruas. A sutileza e perspicácia etnográfica atenta aos detalhes e ambiguidades das relações entre os grupos estudados é o que impulsiona a análise do autor rumo a uma postura radical: para além de meros excluídos da sociedade, desvinculados e desfiliados de redes relacionais fundamentais, os sujeitos em situação de rua são compreendidos por Lemões justamente a partir da inventividade e agência que empreendem nos processos de manutenção, constituição e continuidade de tecidos relacionais baseados em afetos, reciprocidades e desigualdades. Por razões como estas que o estudo foi indicado, em 2013, ao prêmio brasileiro de obras científicas da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais.

No primeiro capítulo, delineia-se a problemática e o recorte metodológico adotado, definindo-se os principais conceitos e noções analíticas mobilizadas e retomadas ao longo das experiências etnográficas descritas na obra. Ainda aqui, o autor expõe as principais definições construídas em torno da noção de exclusão social, esboçando diferenças e aproximações entre o contexto social brasileiro e francês – sobretudo porque é na França que tal noção é gestada e reelaborada por cientistas sociais. A exposição do debate em torno da exclusão dá lugar, pouco a pouco, a outra via analítica, a qual o autor defende ao longo de toda a obra: a vida nas ruas se sustenta, sobretudo, a partir das redes relacionais que vinculam os sujeitos uns aos outros e reiteram a dimensão política das pessoas que fazem do espaço público um lugar de existência possível. É a partir de tal inferência que Lemões apreende a itinerância e a circulação “como expressões de resistência e de agência política frente às práticas normalizadoras de governo” (2013, p. 23), aproximando-se de uma abordagem assentada na teoria do dom de Marcel Mauss (1974), retomada por Alain Caillé (2002) – o que marca definitivamente a análise etnográfica. Certamente, esse encaminhamento foi decisivo para a ruptura que Lemões realizou com as abordagens convencionais utilizadas para estudar essas populações, já que o possibilitou perceber continuidades de relações e redes de reciprocidade onde geralmente se vêem rupturas e individualidade, sobretudo em abordagens estimuladas pela noção de exclusão.

Doravante, Lemões problematiza as estratégias formais de pesquisa: o porte de gravador, questionários e perguntas diretas não lhes foram úteis. Para acessar retalhos biográficos e adentrar à dinâmica de relações dos sujeitos de pesquisa, o antropólogo precisou partilhar “um pouco de si”, dividindo seus problemas, anseios, mas também participando dos circuitos de trocas e reciprocidades de objetos, comida, bebidas e outros bens. Assim, de fato – e somente assim, valendo-se de um circuito de relações constituídas mais intensamente com alguns interlocutores – o autor assegurou o envolvimento e a constituição de relações que tornaram o exercício etnográfico possível. Além da observação realizada em alguns pontos “estratégicos”, o autor acompanhou os movimentos de seus interlocutores pelos locais de transitoriedade e permanências na cidade, mergulhando nos movimentos de relativa fixidez e de circulação animada pelas relações firmadas com distintos grupos no espaço público.

O segundo capítulo é dedicado a descrever os vínculos mantidos, fraturados e rompidos entre as pessoas em situação de rua e seus familiares. A partir da leitura de outras etnografias e de fragmentos biográficos de seus interlocutores, Lemões evidencia que o drama familiar está presente nas narrativas: tanto as continuidades, fraturas e rupturas revelam a permanência temporal, espacial e afetiva das relações familiares. Os intensos fluxos das crianças das vilas populares entre o “bairro e a rua”, nas casas de parentes ou nas instituições de acolhimento, serviram para o autor caracterizar e interpretar a “circulação” como parte da vida dos interlocutores muito antes do efetivo “ingresso na rua”. Ao invés de entendê-la como simplesmente o resultado de famílias desestruturadas que produzem sujeitos de rua, como é recorrentemente reiterado, o autor preocupa-se em compreender e demonstrar que a circulação faz parte das dinâmicas e lógicas que tornam o nomandismo constitutivo de um “saber viver”, um aprender a “virar-se”.

É nesse momento que o autor percebe que a noção de viração (GREGORI, 2000) é muito importante para compreender a constituição de vínculos com diferentes personagens nos espaços públicos, pois, “virar-se” é empreender “um processo comunicativo com uma ampla rede de valores e significados, os quais servem como mediação na interação que travam com alguns setores da sociedade” (LEMÕES, 2013, p. 44). Considerando que os sujeitos em situação de rua sofrem cotidianamente inúmeros processos de violência física e simbólica, com forte naturalização de representações negativas, é por meio dessas estratégias comunicativas que as redes de relações são constituídas, em diferentes formas inventivas de discursos e ações performáticas.

Nessa perspectiva, o antropólogo argumenta que algumas formas específicas de ver e conceber os espaços públicos são funcionais à formulação dos discursos estigmatizantes que categorizam a rua como um “não-lugar” ou espaço da vagabundagem, do crime e da mendicância. É no contexto dessa trama social que a circulação e a viração são utilizadas para a conformação de territórios de sobrevivência, tecidos por meio de relações de afeto e reciprocidade, envolvendo inúmeras negociações para o uso dos espaços e dos recursos disponíveis na rua. Todos esses processos e relações abrangem diversos atores e instituições, como guardas municipais, donos de veículos, transeuntes, doadores de alimentos vinculados a instituições religiosas e empresários locais2. Ao fazer uma descrição de como ocorrem essas relações em torno da busca por recursos, que funcionam com lógicas singulares dependendo dos atores, Lemões revela uma ampla rede de reciprocidade e laços sociais que se formam, superando as relações impessoais e interesses econômicos que comumente se lhes atribui.

Seja na informalidade da prestação de serviços, como a de guardar carros, ajudar nas montagens de barracas de comerciantes, ou no relacionamento com as instituições doadoras de alimentos e roupas, o etnógrafo identifica que há a constituição de relações que ultrapassam a simples troca de valores monetários. O compartilhamento de pontos e dos recursos oriundos de guardar carros entre pares de rua; a doação de comida, roupas ou presentes de final de ano por parte de alguns empresários; agentes doadores que além de doar comida estabelecem uma relação de reconhecimento e afetividade pessoalizada com os receptores da ajuda, demonstram a constituição de laços sociais que se sobrepõem às simples prestações de serviços ou ações de caridade. Dessa forma,

o vínculo é tecido a partir da dívida, ou seja, não é o imediatismo que baliza a reciprocidade, mas a continuidade da circulação da dádiva entre os partícipes, delineando uma perspectiva do dom que permite pensar, numa só vez, o estabelecimento do laço e da hierarquia existente nestes vínculos (LEMÕES, 2013, p. 170).

Porém, como explica o autor, as relações assimétricas de poder que decorrem dessas interações implicam reconhecer que quando se fala em dádiva, nesses casos, há unilateralidade que gera superioridade de quem dá sobre quem recebe, apesar do vínculo social instituído.

Tendo demonstrado os vínculos sociofamiliares e aqueles constituídos nos espaços públicos, principalmente em torno das interações travadas com diferentes grupos caritativos, o último capítulo é dedicado a apresentar a constituição de vínculos afetivos entre os pares em situação de rua, atentando para a dinâmica relacional interna e externa aos grupos de rua. Partindo de outras etnografias que problematizam as dinâmicas de agrupamentos e formações de parentescos em situação de rua, Lemões identifica os códigos de ética, as regras de comportamento e algumas relações de ajuda que são fundamentais para a vida nas ruas. O autor se interessa, sobretudo, pelas nomeações familiares: “pais”, “mães”, “irmãos”, “tios” e “padrinhos” de rua, termos esses que indicam a intensidade e o nível de aprofundamento dos vínculos firmados, permeados pelo compartilhamento de recursos materiais, afetivos e experiências, levando-o a ponderar que a compreensão do fenômeno “da população em situação de rua passa pelo entendimento dos valores atrelados à família” (2013, p. 191).

Entre as regras de comportamento, o autor destaca a “moralidade da partilha” como estratégia fundamental para a circulação e distribuição de bens entre os pares de rua, servindo para a “construção positiva da pessoa” que partilha. Nesse regramento, o roubo entre os iguais é como uma expressão máxima dessa moral, pois assegura a igualdade, reprimindo as manifestações de ostentação e forçando a partilha, não sendo motivo para a ruptura das relações. Por outro lado, a “caguetagem” (delação) é a conduta que provoca maior desvalorização da pessoa, que passa a ser vista como traidora do grupo, sendo motivo suficiente para o rompimento dos laços afetivos, podendo levar à exclusão do “cagueta” do grupo, como forma de proteção coletiva. São esses códigos que evidenciam ao etnógrafo os regramentos que orientam sociabilidades em torno da ajuda e proteção, invalidando as argumentações corriqueiras de que “na rua é cada um por si”.

Por fim, é a partir do mergulho etnográfico atento às relações familiares e suas especificidades, às estratégias de constituição e manutenção de vínculos com diferentes personagens e às normas e moralidades internas aos grupos, que Lemões retoma suas argumentações ao final da obra, quais sejam: (i) apesar do aparente rompimento, predominam as dinâmicas de continuidade das relações familiares; (ii) há a constituição de mecanismos relacionais inter-pares e com outros atores sociais que formam um importante itinerário que assegura a provisão material e afetiva, apesar das forças repressivas que tentam apagá-los dos espaços públicos e os estigmatizam; (iii) e, que existem códigos de sociabilidades assentados na ajuda e proteção, no compartilhamento de bens e nos vínculos afetivos entre pares. Essa obra instiga o leitor a repensar sobre os valores negativos que se atribui aos homens e mulheres em situação de rua como solitários, isolados e egoístas, convidando a “limpar a lente da evitação e dos pensamentos redutores”, a fim de se reconhecer e partilhar outros territórios existenciais possíveis.

Nota 

2 As experiências apresentadas ocorrem entre guardadores de carros e os donos dos veículos e três instituições doadoras de alimentos (O rango das sete; A comunidade Fonte Nova e a Igreja Mover de Deus).

Referências

CAILLÉ, Alain. Antropologia do dom: o terceiro paradigma. Petrópolis: Vozes, 2002.

GREGORI, Maria Filomena. Viração: experiências de meninos nas ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

LEMÕES, Tiago. A família, a rua e os afetos: uma etnografia da construção de vínculos entre homens e mulheres em situação de rua. São Paulo: Novas Edições Acadêmicas, 2013.

MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Edusp, 1974. v. 2.

Livio Sergio Dias Claudino – Doutorando em Desenvolvimento Rural (UFRGS) e mestre em Agriculturas Amazônicas (UFPA). Possui interesse na área de Antropologia Econômica e tem realizado incursões etnográficas sobre as relações entre imagens e discursos no processo de formação de instituições sociais no setor da produção agropecuária. E-mail: [email protected]

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