FRYE, Herman Northrop. A imaginação educada.  Tradução de Adriel Teixeira, Bruno Geraidini e Cristiano Gomes. [Sn]: 2017. Resenha de: SILVA, André Luiz Silveira da; KARLO-GOMES, Geam.  Revista Memorare, Tubarão, v. 7, n. 1, jan./jun. 2020, p. 239-242.

Educar ou não a imaginação? Essa é uma das principais questões suscitadas por Herman Northrop Frye, crítico literário canadense de Quebéc, em A imaginação educada, obra que recebeu sua primeira tradução em português em 2017 por Adriel Teixeira, Bruno Geraidini e Cristiano Gomes.

Em seis capítulos, resultantes da transcrição de seis palestras originárias de um programa de rádio canadense na década de 1960, A imaginação educada se torna fortuna crítica para pensar o papel da literatura e da imaginação. Em seu escopo, desenvolve-se o olhar para a importância, papel, função e lugar da literatura e da imaginação na sociedade e na formação do ser humano crítico. E aponta ainda caminhos para uma educação da imaginação e formação crítica do leitor em tempos de popularização da educação.

Por meio de referências, metáforas e paráfrases, o autor busca construir sua tese: o mito e as imagens literárias dão forma, desde sua gênese, a todas as estruturas construídas por meio de palavras.

Para isso, Frye recorre sempre às grandes obras de consagrados poetas e romancistas e enfatiza a relevância do domínio da língua materna para a efetiva interação e troca de saberes. Tal pensamento se aproxima da tópica da pedagogia do imaginário, onde a imaginação mitológica é concebida como cosmos e a natureza se homo symbolicus estar no mundo num registro de demiurgia e de canto […] onde se perfila, se manifesta, se ultrapassa e se lê a nossa i Por meio dessa perspectiva, Frye desenvolve um método crítico de análise de obras literárias que se assemelha a uma investigação comparada destas produções; a ponto de revelar narrativas inspiradas na Bíblia e em obras clássicas ocidentais. Para ele, essas narrativas remontam o imaginário muito sua, tão absurda e impossível quanto a magia primitiva que ela p.69). Por isso, esse crítico se engaja em defesa do estudo da literatura, do ato de ler, falar e escrever, bem como, da educação da imaginação como forma de autoproteção do indivíduo e resistência às ltura de massa; educação que servirá para manutenção do homem na sociedade livre e que pode se tornar base para (re) formular as críticas frente às relações sociais e reações emocionais.

Nos primeiros capítulos, o autor nos apresenta a função social da literatura, defendendo que ela serve para mediar o mundo não humano e a nossa necessidade de humanizá-lo: dar nome às coisas, intelecto e emoção, na relação entre o mundo em que vivemos e o mundo que desejamos viver. Ela surge então como meio de expressão para os sentimentos que não conseguimos demonstrar somente dá uma experiência que nos estende verticalmente até as grandes alturas e as grandes profundezas do que a mente humana é capaz de conceber; até aquilo que corresponde aos conceitos religiosos de Céu Em capítulo posterior, o autor ainda distingue ciência e arte, explicando que a primeira surge do mundo, na maneira como ela se manifesta, enquanto a segunda se constitui de um mundo que queremos ter e explicar. A ciência cria uma construção mental por meio de um esquema que nos possibilita interpretar a experiência vivida. Já a arte, parte do mundo que construímos e não do mundo que vemos, seguindo da imaginação à experiência comum, buscando se construir tão verossímil quanto possível. Nesse ponto, o autor trata da relação sujeito-objeto-conhecimento e o papel da imaginação nessa construção, fundamental para relação e assimilação dos objetos socioculturais, palavras, sentimentos, esquemas e valores a eles atribuídos.

Em trechos de outra palestra, Frye comenta que há três linguagens que se interseccionam: a linguagem da conversa corriqueira, a linguagem do senso prático e a linguagem da imaginação. Ele ressalta que, por mais primitiva que seja a cultura, há nela uma linguagem, uma literatura. Para defender isso, o autor referenda constantemente o papel da imaginação como parte da tessitura essencial do ser humano. Para esse crítico, a imaginação não conseguiria operar em um mundo totalmente prático, pois haveria a necessidade de elaboração das imagens e sentimentos. Nesse sentido, uma maneira de expressá-los é a literatura tecida com a imaginação. Daí a necessidade e o parte, somos também parte do que conhecemos. O desejo de voar produziu o avião, mas não entramos afirmação conduz a seguinte reflexão: por meio da literatura, nós podemos apreender e criar, capacidades intrínsecas às nossas narrativas conscientes e inconscientes.

No todo, as percepções de Frye, diretas ou nas entrelinhas, são perspicazes. Como crítico literário, ressalta que o escritor imita muito a literatura a qual teve contato. Por isso, na criação poética, na imagística, o escritor absorve um aglomerado de mitos, o folclore e narrativas bíblicas, por meio de uma nova indumentária; podendo se manifestar em meio a diversos gêneros: tragédia, comédia, sátira, romance, entre muitos outros gêneros.

No que se refere ao tópico educacional constituinte do título da obra, o autor questiona o imortalizadas por escritores, comenta Frye. No decorrer dessas incursões, ele conceitua imaginário, ficção, mito e discorda da visão distorcida que se propaga quanto ao conceito de irrealidade (como sinônimo de mentira), provido do senso comum. Segundo Frye, o escritor usa uma imagem ou objeto do mundo ao seu redor e o transforma em símbolo, assumindo influência no contexto social. É nesse panorama em que a formação de uma mente imaginativa bem treinada se torna essencial para não – estabelecidas a serviços sociais de manutenção de um status quo.

No aparato para uma educação da imaginação, Frye defende que o incentivo à leitura da bíblia e as mitologias clássicas gregas deve ocorrer ainda na infância. Esse conjunto abarca praticamente todo o universo mítico e constructos sociais que ultrapassaram gerações e que são recontados sempre de novas maneiras. Nisso, o autor prossegue sugerindo uma estruturação de leituras e alerta que nada pode ser imperativo ou impositivo, apenas direcionado, respeitando os gostos e intenções de crianças e jovens.

Sobre a humana. E ressalta a habilidade que deve ter o professor com a formação literária ampla para conduzir todo esse direcionamento. Essa dimensão também nos aproxima ainda mais de uma pedagogia do imaginário. Nesse sentido, como afirma Teixeira, é por meio da metáfora que o ser humano adentra – p. 224).

Nos últimos capítulos surgem diversos questionamentos sobre a sociedade e a cultura. Para isso, Frye alerta o leitor com relação às traduções e a provável perda dos reais sentidos e significados das palavras. Ele acredita que a leitura na língua original e o estudo de outros idiomas são extremamente benéficos aos escritores, consumidores e críticos, pois, por meio deles, entramos em contato com outras estruturas gramaticais, construções e associações imagéticas das culturas escolhidas. O que também pode conduzir para uma nova forma de construção e reconstrução do conhecimento, que deverá extrapolar a visão fragmentada disciplinar do conhecimento.

No conjunto, A imaginação Educada não responde a todas as questões que se propõe, mas busca despertar o leitor para muitas indagações sobre a imaginação por meio da literatura. Ainda que concebida décadas atrás e voltada ao público de língua franco-anglófona, a obra ultrapassa tempo e espaço e se faz atual suscitando questionamentos sobre nossa condição de seres sociais, responsáveis por construir o conhecimento a ser perpetuado. Propositalmente, Frye nos alerta para a crítica do mundo, a fim de que nos posicionemos com liberdade de pensamentos; e que essa formação contribua para a er humano.

Referências

DUBORGEL, Bruno. Imaginário e Pedagogia. Brasil: Instituto Piaget, 1995.

FRYE, Northrop. A imaginação educada. Trad. Adriel Teixeira, Bruno Geraidini e Cristiano Gomes. Campinas, SP: Vide Edtorial, 2017.

TEIXEIRA, Maria Cecília Sanchez. Pedagogia do imaginário e função imaginante: redefinindo o sentido da educação. Olhar de professor, Ponta Grossa, v. 9, n.2, p. 215-227, 2006. Disponível:http://www.revistas2.uepg.br/index.php/olhardeprofessor/article/view/1461. Acesso em 19. maio. 2019.

Notas

1 O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Brasil (CAPES) Código de Financiamento 001.

André Luiz Silveira da Silva – Graduado em Geografia. Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, Brasil. Graduação em andamento em Pedagogia. Universidade de Pernambuco, UPE, Brasil. E-mail: [email protected]

Geam Karlo-Gomes – Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (UEPB). Professor do Programa de Pós- Graduação em Formação de Professores e Práticas Interdisciplinares (PPGFPPI), da Universidade de Pernambuco. Líder do ITESI – Grupo de Pesquisa Itinerários Interdisciplinares em Estudos Sobre o Imaginário. E-mail: [email protected]

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