DÍAZ-ANDREU, Margarita. Arqueologia: crítica e humanista. São Paulo: Fonte Editorial, 2019. Resenha de: BÉLO, Tais Pagoto. Cadernos do LEPAARQ– Textos de Antropologia, Arqueologia e Patrimônio, v. XVI, n. 32, jul./dez., 2019.

A obra “Arqueologia: crítica e humanista” tem como autora a prestigiada professora Margarita Díaz-Andreu, pes- quisadora do ICREA, catedrática de Arqueologia da Universidade de Barcelona, além de ter sido professora da Universidade de Durham (1996 – 2011), com várias obras publicadas por editoras conceituadas, como Oxford U. P. e Cambridge U. P. O livro em questão foi elaborado como fruto de sua estadia no Brasil, durante o ano de 2013, com apoio da FAPESP, a convite de Pedro P. A. Funari, professor titular da Unicamp, o qual já almejava sua vinda desde 1999. O livro é resultado das aulas dadas aos alunos da Unicamp, os quais, de forma empolgada e dedicada, decidiram traduzi-las.

A publicação se inicia com um texto introdutório elaborado pelo Prof. Funari, intitulado “Uma Arqueologia crítica e Humanista,” no qual descreve os arcabouços acadêmicos para o surgimento do Laboratório de Arqueologia Pública Paulo Duarte, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). O professor comenta que o surgimento da própria Universidade foi resultado de um movimento contra um regime de força, acolhendo cientistas notáveis que foram perseguidos, motivo pelo qual a instituição acabou se destacando, por ser voltada à sociedade e à diversidade. Esse fato refletiu em sua Arqueologia, a qual amparou Paulo Duarte (1899 – 1984), arqueólogo libertário, que teve como objetivo a popularização do conhecimento e abriu as portas para Niède Guidon.

Em sequência, a Apresentação do livro foi delineada por Cláudio U. Carlan, Professor Doutor da Universidade Fe- deral de Alfenas (UNIFAL), com um texto chamado “Arqueologia ontem e hoje”. Nele, comenta sobre a importância que a autora teve em criticar, de forma veemente, os bastidores político-ideológicos do início da disciplina arqueológica, durante o Imperialismo e o Colonialismo europeu.

Continuando a leitura, no Prefácio, de Lúcio M. Ferreira, Professor Doutor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), que tem como título “As diferentes vozes da História da Arqueologia”, comenta-se uma diversidade de temas que a obra abarca, desde etnicidade até nacionalismo, imperialismo, colonialismo, gênero e turismo. Houve uma preocupação em comentar o ponto de vista da autora, o qual é catalogado em três razões de importância: a desnaturalização de categorias arqueológicas; a disciplina gestou o eu e o outro, sem considerar valores consubstanciais nas análises; e as primeiras ideias levam a se pensar as práticas do presente e o redirecionamento do futuro.

A obra possui seis capítulos e inicia com a “História da Arqueologia: cinco perspectivas diferentes”, que foi basea- do no “The Oxford Companion of Archaeology”, evidenciando cinco vozes que sobressaltam eixos comuns das relações da História, da Arqueologia e do mundo contemporâneo. A leitura das vozes demonstra uma resistência através de críticas à dis- ciplina. A primeira voz argumenta contra as Arqueologias Americana e Britânica, as quais se fecham e apenas homenageiam seus próprios estudiosos, com o uso de um olhar nacionalista, imperialista e colonialista. A segunda voz critica a tentativa da existência da história silenciada, ou seja, aquela que acredita apenas no protagonismo da Europa e da América do Norte, mas que foi ampliada pela institucionalização de museus, sociedades científicas, legislação e até pelo patrimônio turístico. A terceira voz aborda o nacionalismo, o qual a autora menciona que foi crucial à origem da disciplina, permitindo sua institucio nalização e profissionalização do saber. A quarta voz diz respeito ao Imperialismo, que levou à busca de monumentos antigos e civilizações para além da Europa e América do Norte. A quinta voz demonstra os usos ideológicos da Arqueologia de forma positiva e negativa e como a política se beneficiou disso.

No segundo capítulo, intitulado “Gênero e arqueologia: uma nova síntese”, Díaz-Andreu, ao criticar a pequena di- mensão desse tipo de estudo na Espanha, também acaba abordando “gênero” e “sexo”, evidenciando um olhar multidimensio- nal e diversificado, além de deixar claro que a identidade social é determinada cultural e historicamente. Além disso, a autora faz um aparato cronológico em relação ao “gênero”, da psicanálise, passando pela Antropologia, até chegar na Arqueologia, com os trabalhos revolucionários de Gero & Spector (1983) e de Conkey e Spector (1984). Critica a lentidão da Arqueologia em adotar o conceito de “gênero”, comparada à Antropologia, e culpa a demora do Pós-Processualismo em se impor, uma vez que, para ela, “gênero” é Pós-Processual. Diferencia a Arqueologia de Gênero da Arqueologia Feminista, em que, em seu ponto de vista, a primeira trata de todos os gêneros, enquanto a segunda é centrada nas mulheres. Seguindo as críticas da década de 1980, comenta que a amostragem masculina na Arqueologia sempre apareceu de forma mais positiva, além de que, quando as mulheres eram incluídas, eram mencionadas de modo secundário. Critica a interpretação binária do uso do espaço, que pode trazer efeitos às relações de gênero; recrimina a explicação pré-concebida ou pré-fixada para sepultamentos, como se existissem objetos que seriam “certos” para homens e outros para mulheres. Além disso, menciona o ponto de vista da Arque- ologia tradicional, do século XIX, com suposições evolucionistas, que demonstrava que a hierarquia de gênero é algo natural do ser humano. Contudo, para a professora, a Arqueologia de Gênero contribui de forma profunda para o enriquecimento do estudo da própria Arqueologia, de maneira a propor um novo viés.

A estudiosa inicia o terceiro capítulo, nomeado “Gênero e Antiguidade: propostas da tradição anglo-americana”, comentando sobre José R. Mélida, catedrático de Arqueologia, da Universidade de Madrid, e seu texto sobre “As mulheres da Antiguidade no banheiro” (1894). Ela o utiliza para evidenciar que as categorias de homem e mulher são interpretadas de maneira diferente de acordo com o tempo, com atributos provindos do meio social, da localização geográfica e da identidade étnica. A autora teve como intuito demonstrar a contribuição dos estudos de gênero à Antiguidade, debruçou-se em autores(as) de origem inglesa, incluiu a interdisciplinaridade e, além de tratar da cultura material, também apresenta dados das fontes tex- tuais. Ao citar S. Dixon, salienta que os textos antigos foram escritos por homens, com mulheres invisíveis ou minimizadas, e que, além desse fato, a maioria dessas fontes trata a mulher como o “outro”. Critica a não inserção de Classistas em obras gerais sobre gênero e coloca um senso cronológico ao estudo, iniciando com a famosa obra de S. Pomeroy (1975) e com os estudos sobre as mulheres em campo, desenvolvidos por L. Allason-Jones (1989), marcando a década de 1970 como o período em que o termo “gênero” apareceu na Antropologia, e na década seguinte, o mesmo termo apareceu na Arqueologia Pré-His- tórica, através do artigo de Conkey e Spector (1982), além do uso do termo “sexo” por M. Wyke (1997) e M. Skinner (2005). Em 1990, com o crescente interesse acerca do “gênero” na Antiguidade, L. Zamati (1994) acaba criticando a Arqueologia Clássica por não ter entusiasmo sobre o assunto, e Revell (2010) denuncia que todos os estudiosos deveriam refletir a respeito do “gênero”, a fim de não ser tratado como uma subdisciplina. Cita S. Spencer-Wood e P. Allison (2011) denunciando o an- drocentrismo atual, o que faz com que o estudo da mulher na Antiguidade seja deveras importante. Pontua que a questão do gênero na Antiguidade precisou de termos específicos para práticas sexuais diversas à interpretação de Pompeia e Herculano, por exemplo, além de casos de hermafroditas, bissexuais, eunucos e outras diversidades. Por fim, evidencia alguns estudos de caso para demonstrar as dificuldades e diferentes pontos de vista dos estudos de gênero na Antiguidade, correlatando o assunto com identidades étnicas e status.

O quarto capítulo sai das questões de gênero e abre o assunto a respeito de “Identidade étnica e Arqueologia”, iniciando-se com o debate do começo do século XX acerca de “povos” e “nações,” termos substituídos por “culturas arqueo- lógicas”. Para a autora, a etnicidade está ligada à autoimagem de uma pessoa ou à imagem produzida por outros, resultantes da identificação com um ou mais grupos, considerando a identidade como algo multidimensional, já que cada indivíduo é associado a vários grupos que poderiam ser classificados dentro da definição de etnicidade. Compreende que cada indivíduo é ativo em relação às suas identidades étnicas e às negociações diárias, fazendo com que uma ou várias delas se manifestem, sendo que as etnias possuem fluxo contínuo e podem desaparecer. Discute o termo “comunidades,” o qual foi introduzido na última década para fazer referência ao coletivo social que divide um espaço geográfico, e define grupos como indivíduos que se mantêm unidos por viverem juntos na mesma povoação e através de práticas de afiliação, apontando que nem toda identi- dade de um grupo está presa pelos laços étnicos. A estudiosa não deixa de expor a origem dessa discussão, que se iniciou na virada do século XIX para o XX, dentro do Histórico-Culturalismo, protagonizada por G. Kossina com o uso do termo “cul- tura”, momento na Arqueologia em que as mudanças na cultura material eram vistas como resultado de invasões ou substitui- ções de grupos étnicos, além de haver uma obsessão pela busca da origem dos povos. Denuncia o Processualismo, com seus métodos de análise de registros e formação de sítios, método hipotético-dedutivo e por ter uma visão fixa do comportamento humano. Entretanto, salienta que, na Antropologia dos anos 1970, F. Barth propôs que a identidade não fosse objetificada, deixando de lado a cultura material, porém, mais tarde, Cohen (1978) considera a fluidez da etnicidade como elemento signi- ficativo das relações sociais. Nenhum deles chegou à conclusão de que a identidade étnica é multidimensional e que múltiplas identificações étnicas coexistem na mesma pessoa, além de que o termo “identidade étnica” não era aplicável para sociedades pré-capitalistas por autores como Eriksen (1993). Dentre essas classificações, Díaz-Andreu demonstra as tentativas dentro do senso de divisão nacionalista de como classificar o “outro.” Finaliza seu artigo citando os trabalhos de I. Hodder (1982), ao evidenciar como a cultura material pode ser ativa na criação de relações sociais, enfatizando seus significados, e como a inte- ração cultural depende de estratégias e intenções dos grupos. Conclui citando obras e autores significantes nessa área, assim como Shennan (1989) e Jones (1997).

O quinto capítulo, às luzes das questões do turismo e da ética, é resultado da organização de um número da Inter- national Journal of Historical Archaeology, feito pela professora espanhola sobre uma sessão que ocorreu no Theoretical Ar- chaeology Group (TAG), na Universidade de Durham, em 2009, o qual teve o intuito de discutir questões teóricas referentes ao turismo arqueológico e incluiu temas como: a mudança do papel da arqueologia turística cultural, memória, monumentos, museus e éticas, assuntos que despertaram considerações sobre a administração do patrimônio, turismo arqueológico, cons- trução de identidades, transformação de sítios e museus em mercadorias, conservação, autenticidade, turismo de massa, patrimônio como atividade estatal institucionalizada, identidades regionais e locais e o uso da arqueologia como vetor para a descolonização do discurso histórico. Inicia o texto pelo turismo arqueológico e como ele deve ser transformado por arqueó- logos com o intuito de ser utilizado como uma economia de mercado e, assim, consumido (commodification). Entretanto, essa atividade levantou pontos éticos que levaram a casos tensos, os quais deram origem a órgãos como o CRM (Cultural Resource Management) e a acordos como a Carta de Veneza. Consequentemente, isso deu origem a publicações, durante a década de 1970, relacionadas ao modo como os vestígios poderiam ser mais bem percebidos e tratados, assim como restos mortais e comunidades vivas e suas relações com o passado. São comentados alguns atos que muitas vezes envolveram a devolução de bens culturais apropriados antes por museus internacionais, abrangendo também o tráfico ilícito de objetos. Esses problemas levaram a UNESCO, em 1970, a aprovar a “Convenção sobre os Instrumentos de Proibição e Prevenção da Importação”. Já o ano de 1980 é colocado como o início dos debates acerca das responsabilidades éticas na Sociedade de Arqueologia Ame- ricana e no Congresso Mundial de Arqueologia, surgindo os códigos de ética em 1990. A autora menciona que o turismo foi fundamental para o patrimônio cultural, delineando que seu início se deu mais facilmente em países com monumentalidades e que, na América Latina, somente ocorreu depois do apoio ao indigenismo. Atualmente, os arqueólogos estão muito ativos no turismo como promotores, tendo iniciativas comunitárias, assim como o advento de museus locais, obtendo uma legisla- ção própria e sofrendo consequências econômicas pela globalização. Além disso, contam com órgãos supranacionais, como a UNESCO, que cuidam do patrimônio comum da humanidade. Dessa forma, demonstra que, por mais que a Arqueologia já tenha servido para sustentar o passado das “nações”, hoje ela legitima a existência de grupos presentes.

A estudiosa finaliza a obra apresentando outro capítulo sobre o turismo, denominado “Turismo e Arqueologia: um olhar histórico para uma relação silenciada”, no qual é descrita toda a desenvoltura histórica e mercantilista dessa área. Ela o inicia salientando que o turismo arqueológico começou através do nacionalismo do século XIX, do surgimento dos museus, do interesse por monumentos históricos e remanescentes do passado, além de ter sido um movimento aristocrático, mas que deixou de ser com o aparecimento da classe média. Discute a base que une o Turismo e a Arqueologia e como a relação entre os dois temas mudou ao longo do tempo, levando, consequentemente, a uma transformação mercantilista. Explica que durante o século XIX foram as exposições universais que popularizaram o passado da nação. Menciona, ainda, que os meios de trans- porte, tanto aqueles a vapor quanto os automotivos, facilitaram o turismo arqueológico, adicionando o transporte aéreo para o surgimento do turismo em massa, o que aumentou também o risco ao patrimônio, além do risco aos negócios da Arqueologia. A implicação do teor da obra destina-se a qualquer estudioso da Arqueologia, uma vez que essa é uma leitura densa e dinâmica, a qual não hesita em repreender os vários parâmetros que a disciplina já seguiu e as vaidades que ainda enclaustram o mundo dos embates acadêmicos, revelando uma resistência crítica que eclode em um novo olhar, que finaliza no esforço co- munitário. Passado, presente, memória, grupos, nações, povos são colocados como uma multiplicidade de ideias que a autora

explicita e faz o leitor clamar por um uso mais holístico de uma área tão criativa, lucrativa e ao mesmo tempo tão polêmica. A exclusividade dessa leitura se faz pela ousada manifestação da autora em evidenciar de forma contundente aspec-

tos da Arqueologia que a tornaram cúmplice de políticas nacionais e que, de outro modo, ainda perpetuam um preconceito acadêmico baseado em um passado imperialista. Nesse contexto, a estudiosa expõe, por suas informações, novos vieses da Arqueologia, uma vez que essa área se mostra liberta das amarras políticas e ideológicas do passado para também servir como poder para grupos minoritários atuais.

Tais Pagoto Bélo – institucio-a Pós-doutoranda do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE/USP), Brasil. Apoio financeiro da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil.

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