SUÁREZ, Rafael. Arqueología prehistórica en la localidad arroyo Catalán Chico: investigaciones pasadas, replanteo y avances recientes. [Sdt.]. Resenha de: QUADRADO, Chaiane Alves. Cadernos do LEPAARQ – Textos de Antropologia, Arqueologia e Patrimônio, Pelotas, v. 10, n.20, 2013.

Rafael Suárez é doutor em Ciências Naturais (UNLP, Argentina) e pesquisador do Museu de Arqueologia e Ciências Naturais de Salto, Uruguai. No livro Arqueología prehistórica em la localidade arroyo Catalán Chico, ele propõe uma nova interpretação da tecnologia lítica local – e por consequência, da cultura e vida social dos habitantes pré-históricos – além de buscar uma valorização dos sítios da região que sofrem degradação constante por consequência da atividade mineira sem, ao menos, terem sido reconhecidos como monumento de interesse cultural do país.

Desde 1999, o autor trabalha com os sítios arqueológicos de Catalán Chico, que atualmente são 123, e neste livro ele traz os resultados de todos esses anos de pesquisas e estudos.

No primeiro capítulo, Suárez trata das investigações passadas que aconteceram na região do arroio Catalán Chico, descobertos em 1955, por Antonio Taddei – pesquisador bastante entusiasta da arqueologia – logo atraíram atenção de préhistoriadores da Europa e ambas as Américas. Na época, Taddei trabalhou com 28 sítios, que estudados por diversos autores, tiveram sua indústria lítica (então chamada industria catalanense) classificada como bruta, primitiva e unifacial. A interpretação feita foi que esta seria uma cultura parada no tempo, supostamente iniciada em 10.000 AP e não sofrendo grandes mudanças desde então. Sempre que algum tipo de tecnologia diferenciada foi encontrado, classificou-se como de produção externa ou influência de algum grupo superior, usando sempre referências bastante evolucionistas ou difusionistas que buscavam uma “linha única” de evolução, classificando as sociedades em diferentes etapas entre os “menos desenvolvidos” e os “mais desenvolvidos” – no caso desta região, dos caçadores primitivos (com raros bifaciais) aos caçadores especializados (abundância de bifaciais e pontas de projétil).

O segundo capítulo, ainda abordando as interpretações de outros autores e pesquisadores, traz alguns problemas nas publicações feitas anteriormente sobre a indústria lítica local, como interpretação de origem das técnicas de lascamento utilizadas e idade atribuída aos sítios.

Dentro das interpretações difusionistas, alguns autores trabalharam com uma rota que teria se iniciado na Europa Central e chegado até Catalán Chico, passando pela China e Sibéria. Essa teoria baseia-se nos tipos de ferramentas encontradas em sítios que se localizam nos lugares citados, afirmando que se um mesmo tipo de tecnologia está presente em diversos lugares é porque teve uma origem comum. A grande maioria dos discursos baseava-se em intuições, sem apresentação de justificativas plausíveis. Suárez destaca a perda de objetividade na pesquisa e uma necessidade de comparação com padrões europeus. Numa tentativa de dar interpretações expressamente subjetivas à tecnologia lítica de Catalán Chico, chega-se a compará-la com tecnologias produzidas por espécies como Homo erectus ou Homo neanderthalensis, o que justificaria a classificação primitiva que a indústria lítica recebia.

Existe também uma grande variação nas datações apresentadas por pesquisadores como Taddei, Bórmida, Campá e etc.. Datas que variam de 25.000 AP a 8.000 AP, baseadas em amostras estratigráficas, formações minerais, entre outros métodos contestáveis. O esquema tipológico-cronológico baseado em sofisticação dos materiais encontrados esbarra em diversas problemáticas que os autores não souberam ou não se importaram em explicar.

A ideia de que todos os recursos de sobrevivência, como caça, pesca, moradia, produção de ferramentas e agricultura, estariam limitados a um pequeno raio de mobilidade – esquema apresentado pelos pesquisadores anteriores a Suárez, que consideram os grupos como estáticos, ou seja, um único sítio abrange todas as atividades – não condiz com as evidências materiais encontradas pelo autor, que destaca a possibilidade de sítios diferentes para funções diferentes.

Para Bórmida, as diferentes tecnologias encontradas em Catalán Chico e nos sítios do rio Cuareim explicavam-se porque se tratava de diferentes grupos sociais. Mas o contraste está no fato que em Cuareim a indústria lítica baseia-se em nódulos, enquanto em Catalán, em grandes lascas. Para Rafael Suárez isso não é suficiente para afirmar uma distinção étnica e sim que esteja provavelmente ligado a fontes diferentes de matéria-prima, tanto para produção como para uso como suporte na manufatura.

No terceiro capítulo, o autor trata das investigações atuais, feitas por ele e sua equipe, este consiste basicamente em três pontos referenciais: a) identificação de diferentes afloramentos minerais através de cortes petrográficos nas pedreiras; b) análises de perfis estratigráficos através da geoarqueologia; c) dar ênfase aos processos de redução e lascamento presentes nos sítios, sem a execução de novas escavações na região.

A paisagem do nordeste uruguaio é formada por colinas e montanhas – que chegam até 280msnm (metros acima do nível do mar). O vale do arroio Catalán Chico apresenta depósitos sedimentares, suas nascentes têm três formações basálticas e um banco de arenito silicificado que aflora ao longo do vale. Na desembocadura da sanga de los Tajas aparecem mais afloramentos semelhantes onde o arenito apresenta tonalidades verdes, avermelhadas, marrons e brancas – a diferença de cor se dá pela mistura de diferentes materiais como clorito, hidróxidos de ferro, etc.. Algumas unidades de solo analisadas apresentam terra preta, sem carbonato de cálcio (componente de rochas) e com materiais arqueológicos.

A presença de bifaciais é muito frequente, tendo sido encontrados, muitas vezes, na superfície e datados do Pleistoceno final/médio Holoceno. Há uma grande variedade de tamanho e formas podendo servir a diferentes propósitos. Utilizando materiais encontrados em três sítios de Catalán Chico foi feita uma análise das etapas de fabricação dos bifaciais, são ao todo 369 objetos, 214 inteiros e 155 fragmentados.

Baseado num esquema de cinco etapas, criado por Callahan, Suárez explica as quatro que foram usadas no processo de pesquisa feito por ele: ◊ obtenção da base – início da redução, uma etapa difícil de ser reconhecida nas peças já que muitas vezes é confundida com material não manipulado; ◊ redução inicial – etapa de obtenção de negativos, aproximadamente 29% de todos os bifaciais analisados encontravase nesse estágio; ◊ adelgaçamento primário – retirada de protuberâncias das peças, 50% dos bifaciais inteiros encontrados estavam nessa etapa, podendo ser frutos de fricção com percursor duro ou brando; ◊ adelgaçamento secundário – o momento de acertar as seções transversal e longitudinal das peças, cerca de 21% dos bifaciais inteiros estavam nesta etapa e 43% dos fragmentados.

No capítulo 4, o autor fala sobre investigações atuais que acontecem em outras regiões nas proximidades de Catalán Chico, como as nascentes do rio Arapey Grande. Até algum tempo atrás a atenção sempre foi dada aos afloramentos de arenito silicificado,271 recentemente, estudos mostram uma variedade de matérias-primas como ágata translúcida e calcedônia em sítios de lascamento.

Estes sítios contribuem para o entendimento de organização tecnológica e mobilidade de caçadores coletores. O transporte de longa distância de rochas silicificadas já havia sido reconhecido no século XIX por J.H. Figueira (importante arqueólogo uruguaio). Nas Américas do Sul e Norte, a ágata foi um recurso lítico muito usado para fabricação de artefatos, como citado por diversos pesquisadores como Bird, Núñez, Bamforth, etc.. Taddei, em 1964, chamou atenção para a calcedônia vítrea encontrada nos sítios de Catalán Chico, reconhecida posteriormente por outros pesquisadores como ágata ou calcedônia transparente. Tendo sido encontrado também fontes de opala e arenito silicificado.

Suárez traz um levantamento das matérias-primas encontradas nos demais sítios da região, demonstrando a grande diversidade mineral local. O sítio K87, escavado por arqueólogos estrangeiros, teve seu material perdido, mas baseado nos dados coletados por estes pesquisadores, sabe-se que foi encontrada uma grande variedade de matéria-prima manufaturada, como ágata, arenito, calcedônia e quartzo. Em Pay Paso (rio Cuareim), além dos materiais encontrados em K87, ainda havia opala, basalto e calcário.

Já o sítio Catalán Seco 1 é uma pedreira de ágata, já alterado pela extração mineira. O material arqueológico encontrado nesse, varia entre unifaciais e bifaciais nas etapas iniciais de lascamento.

As evidências de diversas matérias-primas nos sítios oficinas representam uma fácil adaptação e técnica em manufatura de materiais diferentes. A distância entre algumas fontes de minerais e os sítios onde os objetos foram encontrados chega a 170km para o transporte de ágata, e Flegenheimer chega a propor uma distância de 500km para o calcário.

O capítulo 5, que encerra o livro, é focado na interpretação atual dos sítios de Catalán Chico e na evidenciação da necessidade de uma valorização do patrimônio local. Em 2006 um trabalho que incluiu diversos estudiosos e pesquisadores das áreas de arqueologia e geografia, como o próprio Rafael Suárez, tinha por objetivo realizar um levantamento dos sítios arqueológicos da área do arroio Catalán Chico e da Zanga de los Talas, propondo medidas de proteção para os mesmos, mas o projeto não foi concretizado e hoje estes continuam sofrendo alterações.

É claro que Suárez não se opõe totalmente à atividade mineira, uma vez que esta é responsável pelo sustento de centenas de famílias pobres da área, além de prover investimentos ao país e gerar exportações. Sua proposta é que a atividade arqueológica trabalhe junto à extração de minerais, provendo o mínimo possível de impacto e destruição.

As últimas evidências encontradas apontam que os bifaciais encontrados foram manufaturados por diferentes indivíduos/grupos, utilizando técnicas sequenciais diferenciadas formadas por etapas de redução distintas. E não por um grupo primitivo, às vezes influenciado por caçadores mais evoluídos. As novas observações em relação à técnica de lascamento é que ela possui uma regularização na preparação, com retoques invasivos – similares à técnica utilizada em bifaciais do período Paleoíndio na América do Norte.

Em relação à funcionalidade, os sítios são interpretados como oficinas de lascamento – haveria uma divisão por função, onde sítios de pesca, caça e habitação seriam separados num raio maior do que o antes proposto por Taddei e Bórmida, por exemplo.

Em relação ao lascamento, utilizam técnicas e etapas semelhantes às utilizadas em produções de pontas de projétil (lembrando que as sociedades de Catalán Chico eram classificadas como primitivas por não incluírem este material). Apresentam etapas de redução bastante detalhadas, que significam ótimas habilidades técnicas. Os materiais antes classificados como toscos, seriam descartes inacabados, enquanto os que foram totalmente trabalhados foram transportados para outros sítios onde seriam utilizados. As fontes de matérias-primas poderiam ser usadas por diversos grupos que levavam suas ferramentas para outras regiões.273 Enfim, Rafael Suárez traz um grande apanhado de informações que demonstram que há muito ainda a ser revisto e estudado em relação à Catalán Chico, e defende que sem a devida atenção e cuidado com a região, não haverá tempo pra que isso seja feito.

Chaiane Alves Quadrado – Acadêmica do curso Bacharelado em Antropologia com Habilitação em Arqueologia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Brasil.

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