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Retrato de Ben Bernanke /en.wikipedia.org

BERNANKE S et al Apagando o incêndio Crise financeira

BERNANKE, Bem S.; GEITHNER, F. Timothy; PAULSON JÚNIOR, Henry M. Apagando o incêndio – A crise financeira e suas lições. Sdt. Todavia, 2020. Resenha de: CUCOLO, Eduardo. Bombeiros’ de 2008 viam, antes da pandemia, arsenal anticrise dos EUA queimado. Folha de São Paulo – Ilustrada. 10.jul.2020.

No momento em que o mundo está diante da maior recessão econômica desde o pós-guerra, diversos governos têm recorrido ao receituário criado a partir da crise de 2008 e 2009, batizada nos EUA de a Grande Recessão, para evitar que a atual pandemia leve o mundo a uma nova Grande Depressão.

A forma como três gestores da maior economia do planeta lidaram com a última grande crise econômica é o tema do livro “Apagando o Incêndio – A Crise Financeira e suas Lições” (“Firefighting”, em inglês), lançado no Brasil nesta semana pela editora Todavia.

A obra traz o relato do então presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), Ben Bernanke, do secretário do Tesouro do governo George W. Bush Henry Paulson e de Timothy Geithner, presidente do Fed de Nova York na época da crise e sucessor de Paulson, na gestão Barack Obama.

O livro foi lançado nos EUA em abril do ano passado, quando a economia mundial dava sinais de desaceleração, mas estava longe da profunda recessão provocada pela pandemia do novo coronavírus.

Curiosamente, os autores afirmam que o país estava, em 2019, em uma posição de desvantagem em relação ao arsenal disponível para reanimar a economia no caso de uma nova crise. “Felizmente, antes da crise [de 2008], o arsenal keynesiano dos Estados Unidos estava razoavelmente bem abastecido. O Fed tinha muito espaço para reduzir as taxas de juros e buscar outras políticas monetárias expansionistas, enquanto o restante do governo tinha espaço orçamentário para empreender políticas fiscais expansionistas, como reduções de impostos e aumento de gastos.”

“Hoje, o arsenal keynesiano parece muito mais restrito, o que poderia ser uma desvantagem significativa numa crise séria”, afirmam.

Com a proposta de falar para o público leigo, a publicação faz um histórico de uma crise que, segundo os autores, foi inicialmente mais intensa que a Grande Depressão dos anos 1930, mas que foi debelada a partir do momento em que o governo dos EUA conseguiu deter o pânico e estabilizar o sistema financeiro.

Os três evitam o discurso de que foram os responsáveis por salvar o mundo do caos, ao destacarem frequentemente a importância de políticos democratas e republicanos terem se unido para “apoiar intervenções tremendamente impopulares, mas fundamentais”, como estatizar empresas quebradas e resgatar todo o sistema financeiro.

Dizem ainda que a reação à crise ficou marcada como uma ação para ajudar Wall Street no imaginário dos americanos, mas que “a única maneira de conter o dano econômico de um incêndio financeiro é apagá-lo, embora seja quase impossível fazer isso sem ajudar algumas das pessoas que o provocaram”. A opção, segundo os três, seria deixar que o país seguisse para uma longa recessão.

O livro é divido em cinco partes, seguindo a cronologia da crise, a começar pela raiz dos problemas: os novos produtos financeiros que ajudaram a aumentar os estragos causados pelo fim do boom do imobiliário nos EUA.

Para eles, tratou-se de um pânico financeiro clássico, uma corrida ao sistema financeiro desencadeada por uma crise de confiança nas hipotecas, alimentada pelo boom de crédito. Problemas que só puderam florescer graças à falta de regulação e a uma inovação —a securitização, mecanismo usado por Wall Street para fatiar e picar hipotecas a fim de transformá-las em produtos financeiros complexos que se tornaram onipresentes nas finanças modernas.

Os capítulos seguem as datas que marcam quatro períodos da crise: 9 de agosto de 2007, quando o BNP Paribas, maior banco da França, anunciou o congelamento dos saques de três fundos que detinham títulos garantidos por hipotecas subprime americanas; o colapso do Bear Stearns, em 14 de março de 2008; a quebra do Lehman Brothers, em 15 de setembro do mesmo ano (que os autores classificam como “O Inferno”); e a aprovação do programa que permitiu ao governo dos EUA comprar “ativos problemáticos” e iniciar o combate à crise. A recessão no país terminou em junho de 2009.

Em apenas um mês, a partir de setembro de 2008, ocorreram ainda a estatização das gigantes de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac, o colapso da corretora Merrill Lynch e o resgate da seguradora AIG para evitar uma falência ainda maior que a do Lehman.

Após uma rejeição inicial, que derrubou ainda mais os mercados, o Congresso americano aprovou um pacote de US$ 700 bilhões em apoio ao sistema financeiro. Isso tudo durante o período final de uma campanha presidencial.

“Ajudamos a formular a reação americana e internacional a uma conflagração que sufocou o crédito mundial, devastou as finanças globais e mergulhou a economia americana na recessão mais danosa desde as filas do pão e os cortiços dos anos 1930.”

O livro traz um anexo que explica a crise em gráficos e mostra em números como se deu a reação. Reação que garantiu mais de uma década de bonança à maior economia mundial. Nesse período, no entanto, os EUA não se preocuparam em restaurar o poder de fogo fiscal e monetário que poderia ajudar a enfrentar outra recessão.

Proféticos, os autores dizem que, “quando a próxima crise ou até mesmo uma recessão comum ocorrer, os formuladores de políticas terão muito mais dificuldade, tanto do ponto de vista político quanto econômico, para repetir a reação vigorosa de uma década atrás”.

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