HUGH-JONES, Christine. Desde el río de leche: processos espacio-temporales en la Amazonia noroccidental. Bogotá: Fundación Universidad Central, 2011. 380 p.  Resenha de: POLESE, Nathalia Cunha. Do Rio de Leite: processos espaciais e temporais do Noroeste Amazônico. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 1, p. 282-288, jan./jun. 2014.

Esta obra de Christine Hugh-Jones (publicada originalmente em 1979) propõe que adentremos no universo indígena para refletir acerca dos acontecimentos diários da comunidade étnica Barasana, conhecida também por Pira-Paraná, por sua localização no percurso do rio Pira-Paraná, na região denominada Vaupés. Esta comunidade é formada majoritariamente pelas etnias Makus e Tucano, cujas línguas são Barasana e Tukano-oriental, que constituem o objeto central da pesquisa. Em seu trabalho, a autora menciona também outros grupos, situados no decorrer no rio, que falam outras línguas e têm contato direto com os Barasana. Estes grupos indígenas estão sempre em contato, circulando entre as comunidades. A autora procurou adentrar neste universo a partir de um trabalho etnográfico, realizado no período de setembro de 1968 a dezembro de 1970, buscando compreender aspectos fundamentais da cultura e da vida cotidiana dos Barasana, descrevendo especificidades próprias e muitas riquezas, por meio do convívio com esse povo indígena.

A etnografia foi organizada em oito partes e vários apêndices2. Após introduzir seu objeto de estudo, Hugh-Jones apresenta a comunidade e analisa como ocorreu a influência dos brancos e as trocas que são realizados entre aldeias. Na segunda parte da etnografia, a autora mostra como a estrutura social está organizada, as hierarquias que são respeitadas, a divisão da maloca e quem são os residentes. Na terceira parte do trabalho, a análise se volta para as funções especializadas e sua relação com a organização da comunidade. Na parte quatro, as considerações da autora recaem sobre o sistema de parentesco, a categoria de geração e as práticas e preferências matrimoniais. Aspectos relacionados aos ciclos de vida, às diferenças de gênero, aos rituais para a vida e para a morte da sociedade Pirá-Paraná são apresentados na quinta parte da etnografia. A seguir, Hugh-Jones se detém na organização da produção e do consumo na subsistência da comunidade, analisando a divisão do trabalho entre homem e mulher. Na parte sete, a autora demonstra como os indígenas interpretam as propriedades de cada alimento. Finalizando, na última parte do trabalho, faz um panorama dos espaços temporais: horizontal e vertical, a partir da visão dos indígenas. Um trabalho desafiador e complexo, onde a realidade da comunidade Barasana é apresentada em suas múltiplas facetas.

2 Grupos que fazem parte da comunidade estudada, algumas tabelas que comparam os termos utilizados no estudo, índice de figuras da estrutura social: das viagens da anaconda, classificação dos grupos exogâmicos, a maloca e os arredores, relação entre organização hierárquica e concêntrica, figuras relacionadas ao parentesco, metáforas da vida humana (mortal e imortal dos indígenas – ritos), formas de tratamento do alimento, diferentes diagramas; índice de mapas com a região dos Vaupés e o percurso do rio Pira-paraná.

A comunidade Pira Paraná está localizada no Noroeste da Amazônia e se encontra em território Colombiano, fazendo divisa com o Brasil. Geologicamente, a área faz parte das Guianas. A temperatura oscila de 25ºC a 35ºC durante todo o ano, exceto durante o inverno que a temperatura atinge os 10ºC.

Hugh-Jones fez sua pesquisa etnográfica juntamente com seu esposo, sendo que ambos trataram de assuntos divergentes. A pesquisadora percebeu que a economia dos Vaupés está marcadamente dividida pela diferença de sexo/gênero e esta foi mais uma razão para que cada um dos pesquisadores detivesse em um tema diferente. O casal permaneceu a maior parte do tempo com uma comunidade Barasana, porém, realizaram várias visitas a outros povos, juntamente com seus anfitriões, ou por conta própria.

Demonstra que parentesco, matrimônio, ciclo de vida, política, economia e religião, estão ideologicamente integrados e são correlacionados com o comportamento concreto e real, fazendo parte da estrutura social. A sociedade Pira Paraná opta por ciclos repetitivos, mas dinâmicos, cujo sistema de classificação dos grupos de descendência, do cosmos, do ciclo de vida é criado por grupos dos indivíduos e por seres ancestrais.

A etnografia também abarca discussões de aspectos centrais da cultura e da vida cotidiana da comunidade, tais como o conjunto de instruções sociais; análise do modelo de estrutura do grupo de descendência Pira Paraná; os processos de reprodução da comunidade local; as estruturas relacionadas ao grupo de descendência, alguns aspectos do matrimônio e do parentesco; os rituais do ciclo de vida; os processos de produção e consumo, os conceitos de espaço e tempo através do mundo real e ancestral.

Os indígenas estudados pela autora tiveram contato com a população branca em meados do século XVIII, processo que se intensificou a partir de 1968, com o estabelecimento da primeira missão católica na região. Desde então, iniciaram-se as catequizações, os estudos culturais realizados por antropólogos e outros estudiosos, e esses povos passaram a comercializar suas riquezas, iniciando o processo de “aculturação”, afirma Hugh-Jones.

Para este povo, o que conecta e constrói o “mundo presente” é o que ocorreu no passado, através de seus ancestrais. Tais fatos são relatados através dos mitos, dos cânticos rituais, e do xamanismo. Este cosmos e o misticismo controlam a vida social deste povo, e proporciona o marco moral de como a sociedade deve se portar e comportar. Vida e morte estão alternando fases de um grande ciclo. Os mortos estão sempre chamando os vivos para se encontrar; já os vivos estão sempre a pedir que os mortos deem assistência aos eventos rituais. As almas que vivem também se instalam nos recém-nascidos. Em termos espaciais, esta alternância de vida e morte é representada por um imenso rio circular que flui acima e abaixo do solo.

Existem muitas teorias e mitos indígenas relacionadas à natureza precisa das anacondas ancestrais e o “nascimento” dos clãs. Geralmente, se reconhece que os clãs estão representados pelo corpo da anaconda, de tal forma que a cabeça e a língua correspondem ao primogênito – chefe e, por isso, a ordem descendente hierárquica nomeia a cauda para o servente.

O casamento é realizado entre a comunidade, mantendo vínculo cultural com seus distintos que são os grupos Yukuna, Tanimula, Letuama e Matapi. A grande maioria dos matrimônios acontece com esposos que tem línguas paternas diferentes e algumas vezes há quatro ou cinco grupos linguísticos representados em uma mesma maloca. Tanto os homens como as mulheres falam a língua do seu grupo de descendência e utilizam outra língua em algumas circunstâncias. O casamento ideal ocorre quando há a troca de dois homens com irmãs congênitas em uma única geração. De acordo com a estrutura familiar ideal as crianças devem nascer intercaladas de forma que haja unidades de troca: pares de irmãos, formado por um irmão mais velho e uma irmã que nasceu depois. Em última análise, há três resultados possíveis: condução de uma sequência de trocas que pode ser “mais ou menos violenta”, o estabelecimento de um casamento unilateral ou que não há casamento.

Ao falar dos grupos exogâmicos, a autora afirma que eles são agrupamentos de clãs organizados hierarquicamente. Esta estrutura toma como modelo a sequência do nascimento de um grupo de irmãos do mesmo pai. Este princípio de ordem de nascimento, denominada “hierarquia”, se encontra em todos os níveis de organização do interior da unidade exogâmica, de tal maneira que cada indivíduo, cada subunidade, em cada clã, ocupa uma posição única em ordem composta por unidades similares. Entre os clãs de um grupo exogâmico há um “primogênito”, segundo, terceiro, etc.

Na organização espacial da aldeia, a maloca é o núcleo da comunidade e do grupo de descendência e o restante da população é composta por esposas dos membros do grupo. O grupo dos indígenas Vaupés visita constantemente a outras comunidades e não é fácil saber quem os indígenas identificam como membros e residentes temporais, ou visitantes a largo prazo. Se forem do mesmo clã seu status como forasteiro no grupo local de descendência deriva-se aos que tem parentes agnáticos e que estão por perto.

As funções especializadas são organizadas através da hierarquia, por ordem de nascimento dos fundadores de clãs que possuem estes papéis. Elas também podem organizar de modo concêntrico de acordo com os três domínios em que são distribuídos. Enquanto a oposição entre os papéis de extremidades – líder/servo – é clara na natureza dos papéis, a ordenação dos papéis xamã/intermediário, guerreiro, dançarino/cantor requer explicação. Houve duas hipóteses para explicar a ordem das cinco funções. A primeira é perceber a série de papéis como análoga às cinco fases da vida de um homem, a geração de um grupo de descendência; a segunda considera o número de papéis como uma forma de ligar o desempenho dos grupos exogâmicos internos para a comunicação de modelos com grupos externos, exemplifica Hugh-Jones.

No seu estudo, a etnógrafa retomou aspectos fundamentais oriundas das questões de gênero, descrevendo sutilmente os aspectos mais relevantes. Para o universo feminino, o sangue menstrual é chamado de fluído corporal da mulher „Ruhu oko’: o uso geral de “fluidos corporais”, termo que define a existência de outros tecidos moles e os componentes fluidos corporais. Pensa-se que o parto da mãe priva a energia vital (katise) deixando-a “gorda”, depois “magra”, associando a pele “ao osso”. Também, a energia vital da mulher é renovada várias vezes, acumulada pela perda de sangue menstrual (energia vital implica perda de sangue pós-parto menstrual). Também é evidente a existência física do cordão umbilical e da placenta. O cordão é ritualmente vinculado aos sistemas do rio, da terra e da planta cultivada: o contexto do vínculo não deixa qualquer dúvida de que é considerado como uma fonte de nutrição da mãe para o feto.

Os instrumentos utilizados no ritual de iniciação “He” (destinado somente aos homens) são trazidos do rio, onde foram guardados debaixo de água ao anoitecer. Os iniciados não são admitidos para a cerimônia até a noite do dia seguinte. A primeira noite, os homens jovens permanecem no pátio com os instrumentos ao mesmo tempo em que os anciãos cantam para a preparação do ritual. Embora o ritual aconteça em uma ocasião social, em comparação com a menstruação, ambos têm a ver com as mudanças fisiológicas do indivíduo e as mudanças na alma. A diferença reside no fato de que, para o sexo masculino, as mudanças fisiológicas e da alma acompanham uma alteração no estado social, enquanto nas mulheres não acontece dessa maneira. A menina chega à menarca, não muda sua rotina, seu lugar para dormir, não aprende habilidades especiais, não deixa o domínio do universo feminino realizando suas atividades diariamente e não entra na hierarquia social.

Por fim, a autora esclarece que estes modelos são reconhecidos pelos nativos, conscientes ou em um nível mais profundo (a repetição de atitudes e ações ocorre de maneira natural, de forma inconsciente, passada de maneira hierárquica), tanto na mitologia e em suas declarações sobre o comportamento ideal e a natureza do seu sistema social.

A partir desta obra, percebemos a riqueza e as especificidades da cultura Pira-Paraná, comunidade que vive no Noroeste Amazônico. Com o olhar diferenciado, e pautado nos mínimos detalhes, a autora conseguiu perceber as singularidades da sociedade Pirá-Paraná, com destaque para as diferenças existentes entre os sexos e a diversidade de acontecimentos relacionados ao gênero. Mostrou que para conhecer uma comunidade, é preciso estar verdadeiramente convivendo e vivenciando o dia a dia, para assim identificar as minúcias, as riquezas e particularidades da vida de cada povo indígena.

Referências

HUGH-JONES, Christine. Desde el río de leche: processos espacio-temporales en la Amazonia noroccidental. Bogotá: Fundación Universidad Central, 2011.

Nathalia Cunha Polese – Pedagoga, mestranda do Programa de Pós-graduação em Educação na Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG. E-mail: [email protected] .

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