FERNANDES, Paulo Roberto Chaves (Org). Feliz Lusitânia: Forte do Presépio, Casa das Onze Janelas, Casario da rua Padre Champagnat. Belém: Secult, 2006. 504p. Resenha de: FUNARI, Pedro Paulo A. Revista de Arqueología Histórica Argentina y Latinoamericana, n.1, p.211-214, 2007.

A secretaria de cultura do estado do Pará, Brasil, com o apoio do Instituto Brasileiro de Patrimônio Histórico (IPHAN) acabam de publicar um volume de referência, sobre os trabalhos arqueológicos no centro antigo de Belém. Trata-se de uma obra com amplo material iconográfico, que traz capítulos detalhados e monográficos, e que está destinada desde sua publicação a tornar-se um documento aere perennius.

A história do sítio arqueológico histórico é fascinante. Em plena Amazônia, a região foi habitada durante muitos séculos por indígenas, com destaque para as populações que produziram as cerâmicas marajoaras e tapajônicas. A chegada dos portugueses no início do século XVII está relacionada à União Ibérica, que havia colocado Portugal sob o controle espanhol por muitas décadas, entre 1580 e 1640. A administração colonial portuguesa continuou em Lisboa, independente das diretorias espanholas, de modo que as colônias portuguesas na América, África e Ásia se mantiveram à parte. Neste contexto, em 1616 os portugueses constroem um forte no baixo Amazonas representando um claro desafio aos limites de Tordesilhas y ao domínio espanhol. O local foi denominado de maneira significativa de Feliz Lusitânia, como se fosse uma reafirmação da independência portuguesa.

As primeiras construções foram o forte, a Capela de São João Batista (1622) e o Convento Carmelita (1626), seguidos por outras edificações erguidas depois da independência portuguesa, como o Convento de Nossa Senhora das Mercês, a Igreja de Santa Lucia, entre outros. Desde o início, a presença religiosa foi decisiva, em particular com os jesuítas e suas missões. A presença da população indígena foi importante, desde a fundação até os dias de hoje. As pesquisas de Arqueologia Histórica ficaram sob a responsabilidade de Fernando Luiz Tavares Marques, do Museu Paranaense Emilio Goeldi. Foram consultados documentos do arquivo como mapas, plantas de edifícios, bem como uma ampla documentação iconográfica.

Tudo isso permitiu a proposta de estratégias de campo detalhadas e bem documentadas para as prospecções e escavações.

Marques estudou em detalhes as mudanças que ocorreram no Forte do Castelo, desde sua origem como fortificação militar no início do século XVII. A construção sofreu mudanças, sempre sob controle e uso militar, até sua recente transformação em museu. A pesquisa da cultura material encontrada foi particularmente estimulante. Foram encontrados materiais cerâmicos importados, como o Ironstone, mas a maioria do material cerâmico, assim como os cachimbos, apresentam ornamentos de origem indígena. Muitos artefatos de pedra e de osso também atestam a grande importância do elemento indígena no centro do mesmo assentamento colonial português. O caráter militar do assentamento se reflete na cultura material associada a armas. Outro aspecto ressaltado pelos pesquisadores está relacionado à presença de materiais religiosos, igualmente de origem mista, com características católicas e indígenas.

Estes resultados não surpreendem e podem estar relacionados de modo geral às principais discussões epistemológicas atuais na Arqueologia Histórica e, de modo particular, a questões na arqueologia latino-americana.

Em publicações recentes, as pesquisas sobre o período colonial ressaltam em diferentes contextos o caráter mestiço, ao mesmo tempo ibérico e indígena, dos assentamentos coloniais. Esta mestiçagem teve características específicas em cada lugar. No nordeste do Brasil ou no Caribe, a mistura entre ibérico e africanos está complementada pelas culturas indígenas.

Em outros locais, como na Amazônia e em partes do sul do Brasil, especialmente São Paulo, a mistura predominante é entre indígenas e portugueses, com uma presença africana marginal nos primeiros séculos.

A cerâmica dominante em Belém colonial é, portanto, de estilo indígena. Este caráter mestiço aparece em todo seu esplendor na religiosidade. Os artefatos religiosos encontrados são indígenas, como os que ainda são usados em Belém, e também católicos, mas já interpretados à maneira dos indígenas, trazendo as figuras dos santos com traços nativos.

Outro aspecto que convém ressaltar é a especificidade da colonização portuguesa diante do modelo espanhol. Enquanto as cidades hispânicas seguiam modelos e organizações centrais de origem renascentista, os assentamentos portugueses se mantinham fiéis aos padrões medievais. Isso fica claro no caso do centro antigo da Feliz Lusitânia, onde suas ruelas e morros são dominados por igrejas. A expansão gradual da cidade, sempre de forma irregular, segundo o modelo português medieval, continuou a produzir alguns espaços e uma cultura material muito particular e dominada pela convivência indígena, como se pode observar no predomínio das redes até os dias de hoje. Neste contexto, as soluções museológicas propostas pelos pesquisadores locais foram as mais felizes, ao estabelecer uma continuidade entre os assentamentos indígenas pré-históricos e a cidade colonial. O estudo das cerâmicas de tradições indígenas realizado por Dense Pahl Schaan e associados mostra bem a importância dessa estratégia.

Em termos epistemológicos, várias questões devem ser destacadas. Em primeiro lugar, os modelos importados, que procuram explicar tudo a partir da importação das interpretações comuns no mundo anglo-saxão, são substituídos por olhares mais locais e específicos. Em segundo lugar, mas não menos importante, está a busca por uma Arqueologia Pública, integrada aos grupos sociais ativos e interessados em nossos dias. Assim, a mescla cultural e a importância das tradições e cultura indígenas correspondem ao reconhecimento crescente do valor dessas grandes populações, tomadas não como grupos ilhados, mas sim como parte constitutiva da população. No presente e no passado, os indígenas e europeus, neste caso portugueses, formam parte de culturas locais híbridas.

O caráter fluido e híbrido dessas culturas heterogêneas está destacado tanto nas pesquisas sobre o material arqueológico, como nas práticas educativas derivadas. A publicação original consiste de documentos de consulta não somente para os interessados na cultura material colonial do norte do Brasil, mas também pode servir como elemento de comparação para pesquisadores de outros lugares do continente americano ou de lugares ainda mais distantes.

Pedro Paulo A Funari – Professor titular da Universidade Estadual de Campinas, Brasil. Foi Secretário do World Archaeological Congress, Senior South American Representative no WAC. Atualmente, é pesquisador-associado da Illinois State University (EUA), Universidat de Barcelona (Espanha), além de atuar como professor em universidades latino-americanas: Universidade de São Paulo, UNPBA, UNCatamarca, entre outras. Defensor da Arqueologia Pública, tem atuado em diversos projetos e ações por uma Arqueologia engajada.

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