Há quinhentos anos aparecia um certo livrinho de ouro que discorria sobre a melhor forma de governo. Ainda que o tema não fosse lá uma novidade e a obra tivesse um tom de galhofa, a Utopia, de Thomas Morus, teve grande fortuna nos anos seguintes, sendo reeditada e traduzida para muitas línguas. Tantos foram os que a imitaram que surgiu um novo gênero literário de grande fortuna ao longo dos séculos. Ademais, projetos políticos e sociais os mais variados se inspiraram em Morus e em outros utopistas, tentando promover transformações no mundo para fazer dele um lugar melhor. Enfim, trata-se de um clássico, e como tal, ainda é lido, relido, debatido e gera controvérsias.

Muitos usam a palavra cunhada por Morus, geralmente com o sentido de um sonho bom, mas impossível. Trata-se de um senso comum, distante da acepção original, carregada de ambiguidades típicas das brincadeiras eruditas dos humanistas. Afinal, a Utopia significava não-lugar ou bom-lugar? Era apenas uma ficção crítica ou um projeto político-social? Estava carregada de otimismo ou de pessimismo? Essas são algumas das questões que animam os estudiosos que se dedicam a compreender o fenômeno da utopia, desde aqueles interessados em compreender as origens da modernidade até os que se preocupam com o destino do mundo atual.

Como celebração pelo quinto centenário da publicação da Utopia, pareceu oportuno organizar um dossiê com artigos sobre o tema. Os textos aqui reunidos foram apresentados em dois eventos internacionais realizados no ano de 2015: o Congreso Internacional Imaginarios utópicos: pasado, presente y futuro, ocorrido na Univesidad Autónoma de Madrid, Espanha, reuniu especialistas de diversas partes do mundo e ensejou a inauguração da Red trasatlántica de estudios de las utopías; o Seminário Internacional de Estudos Utópicos, promovido pelo grupo U-topos e pela rede recémcriada, teve lugar no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas e proporcionou debates variados e profundos, com destaque para a divulgação de diversas pesquisas ali realizadas.

Os artigos desse dossiê abrangem um amplo espaço de tempo, do Renascimento à literatura pós-colonial, tendo como eixo o tema da utopia. Ana Cláudia Romano Ribeiro aborda questões relativas à tradução do livro II da Utopia para o português brasileiro por ela realizada e que em breve virá a lume. Será a primeira tradução direta do latim lançada no Brasil e o artigo serve como aperitivo para os que esperam a publicação. Helvio Moraes trata de outra utopia clássica, a Nova Atlândida, de Francis Bacon, destacando o tema da religião e suas relações com a ciência. Júlia Ciasca Brandão nos apresenta Bacchusia, a terra do carnaval, uma utopia redigida em alemão por Andreas Hörl von Wattersdorf em que todos os prazeres e vícios são levados ao extremo, tendo como resultado o caos – justamente o contrário da obra de Morus. Já Renata Altenfelder Garcia Gallo discute o tema da utopia no pensamento de Georg Lukács, refletindo sobre a categoria de utopia e a dimensão do plano utópico na arte. Por fim, Fernanda Vilar analisa obras de Mia Couto, J. M. Coetzee e Sony Labou Tansi, mostrando a utopia como um espaço de resistência aos sofrimentos e a distopia como um recurso de exacerbação da crítica social.

A diversidade dos temas desse dossiê atesta a ampla fortuna da utopia e a sua importância no pensamento ocidental. A literatura utópica ressoa em muitas partes e permite refletir sobre a condição humana, ou seja, sobre a história. É uma intersecção bastante relevante, pois se a vida concreta inspira a construção de obras literárias, essas mesmas obras, quando lidas, permitem um retorno para a história, seja através da crítica social, seja através de sonhos e projetos de renovação do mundo em que se vive. O sonho pode ser tratado como uma categoria universal e o desejo de viver bem é uma característica humana. Ora, sem reivindicar universalidade, as utopias são uma forma de manifestar esse desejo, sempre ligadas à história, a um tempo e um lugar específicos, com problemas que precisam ser resolvidos. Não é panaceia, mas permite caminhar rumo a um mundo mais equânime. Desejamos uma ótima leitura a todos!

Geraldo Witeze JR – Organizador do Dossiê “História e Utopia”


PASSOS, Aruanã Antonio dos; WITEZE JR. História e Utopia. Revista Expedições, Morrinhos, v.7, n.1, 2016. Acessar publicação original. [DR].

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