Resenhando | UNIFAL | 2020

Resenhando Resenhando

A Revista Resenhando (2020-) da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL/MG) surgiu em decorrência da produção de resenhas advindas de um projeto anterior – Resenhando – , idealizado e promovido pelo grupo PET – Conexões de Saberes – Letras da instituição.

Tem como foco publicações de resenhas, originais e inéditas, escritas, majoritariamente, pelo público da graduação e da pós-graduação, não havendo restrições em relação às áreas do saber com as quais a língua(gem), nas suas mais variadas instâncias, possa dialogar.

No geral, apresentam-se produções escritas do gênero Resenha em temáticas que envolvem: Teoria e Crítica Literária; Literaturas; Linguística; Tradução; Estudos de Tradução; Ensino de Línguas e Literatura; História e Estudos de Gênero.

Objetiva-se, nesse contexto, ampliar a visibilidade dos estudos nos campos das Letras ou de áreas correlatas, promovendo uma difusão de saberes que, posteriormente, possa servir como referência a futuras pesquisas, dentre outras contribuições.

Para tanto, não há discriminação quanto à data de publicação das obras resenhadas, desde que estejam relacionadas ao escopo da revista.

Serão aceitas resenhas que estejam dentro da linha editorial e das regras e normas para publicação desta revista, que receberá, pela editoria, publicações de resenhas em fluxo contínuo.

A Revista Resenhando publica dois volumes a cada ano, podendo, eventualmente, publicar dossiês ou números especiais adicionais.

ISSN 2675-7036

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A conquista da opinião pública: como o discurso manipula as escolhas políticas – CHARAUDEAU (A-RL)

CHARAUDEAU, P.. A conquista da opinião pública: como o discurso manipula as escolhas políticas. Corrêa, Angela M. S.. São Paulo: Contexto, 2016. 192p. Resenha de: SPARAS,  Marcelo, IKEDA, Sumiko Nishitani; A manipulação do discurso político. Alfa, Revista de Linguística, São José Rio Preto, v.63 n.3, São Paulo Sept./Dec. 2019.

A obra A conquista da opinião pública: como o discurso manipula as escolhas políticas apresenta, em 192 páginas, além da Introdução, três capítulos, assim, intitulados: “O que é a opinião pública?”, “A manipulação da opinião pública” e, finalmente, “Crise da opinião, crise da democracia: os sintomas de uma crise política da pós-modernidade”.

(1) “O que é a opinião pública?” divide-se em (a) “Um pré-requisito: como se constrói a identidade coletiva”, (b) “Da opinião coletiva à opinião pública”, (c) “A fabricação da opinião pública”, (d) “Uma confusão a evitar: a opinião não é o eleitorado” e (e) “A consciência cidadã: O difícil paradoxo”.

(2) “A manipulação da opinião pública” abrange: (a) “A manipulação no mundo político”, (b) “A manipulação no mundo midiático” e (c) “Conclusão”.

(3) A “Crise da opinião, crise da democracia: os sintomas de uma crise política da pós-modernidade”, trata dos seguintes assuntos: (a) “A questão da soberania num regime democrático”, (b) “A questão do contrapoder”, (c) “As razões de uma crise política da pós-modernidade” e (d) “Entre democracia de opinião e democracia participativa”.

A maneira como o autor explica conceitos complexos que cercam a construção da opinião pública, por meio de uma linguagem acessível, mesmo aos iniciantes ao assunto, acrescida de exemplos (na maioria, franceses) do mundo atual é que proporcionam uma leitura fluente e de fácil compreensão.

Por outro lado, para os pesquisadores – tanto da análise do discurso como de outras áreas como sociologia, política e comunicação – o livro vem mostrar e esclarecer os conteúdos implícitos que jazem nas subjacências do texto, fatos que contribuem no processo persuasivo do discurso.

O primeiro capítulo – “O que é a opinião pública?” – relata a construção da identidade coletiva, que se constitui no que Rimbaud (2009) resumiu em Eu é o outro, ou seja, só existo porque existe um outro diferente de mim. O grupo se constrói segundo fatores sociais (e.g., posição que ocupamos e papéis que desempenhamos) e culturais (e.g., conjunto de práticas de vida dos membros do grupo; representações que fazem do mundo).

A identidade coletiva é frágil e deve ser constantemente defendida (processo de diferenciação). Nesse processo de construção, há grupo que se isola e grupo que domina outro (tentativa de assimilação). A assimilação (ou integração) pode ser verificada, por exemplo, no caso da imigração vista pelo país de acolhida, que a exigirá em troca da permissão de entrada.

Uma opinião é um julgamento pessoal ou coletivo, uma avaliação, que um indivíduo faz sobre os seres ou os acontecimentos do mundo, e é, por conseguinte, subjetiva e relativa. O mesmo não acontece com os saberes de crença, que contemplam explicações objetivas.

No momento da enunciação, não há palavra coletiva (um coro, por exemplo, para proferir a mesma palavra), mas um indivíduo que a pronuncia e que pretende que sua opinião seja compartilhada. Uma vez compartilhada, a opinião poderia ser considerada verdadeira. A opinião coletiva não é, pois, a soma de opiniões individuais, assim como a identidade de um grupo não é a soma das identidades individuais.

A opinião pública necessita de motivos: acontecimentos que se apresentam a ela e ao grupo que a sustenta (políticos, pesquisas de opinião, mídias), e emerge por reação de indivíduos em situação que eles julgam insustentáveis. Assim, para que a opinião pública se manifeste, é necessário que surja um acontecimento suscetível de tocar muitos indivíduos. Um acontecimento que cause problemas e que não esteja resolvido. Charaudeau alerta para a confusão a se evitar: opinião com eleitorado. Ele trata de vários acontecimentos que abalaram a opinião pública francesa e finaliza o capítulo com o difícil paradoxo que cerca a consciência cidadã. Para ele, é preciso distinguir pertencimento e sentimento identitário: pertence-se a um grupo por nossa identidade social de idade, sexo, meio familiar, etc. O sentimento identitário procede de uma idealização; ele se constrói subjetivamente em referência a um grupo no qual desejamos nos reconhecer, ao qual nos ligamos por intermédio de crenças. A consciência cidadã é “um condensado do querer estar juntos e do querer viver juntos e é de ordem simbólica.” (CHARAUDEAU, 2016, p.63).

No segundo capítulo – “A manipulação da opinião pública” – o autor trata da manipulação da opinião pública no mundo político que pode ser feita por meio de manipulação do discurso se utilizando da sedução. Para tanto, Charaudeau assevera que um líder carismático tende a manipular a opinião pública com mais desenvoltura e especifica alguns tipos de carisma, como por exemplo, o carisma messiânico, que, segundo Max Weber, está relacionado com o dom da graça. Para Weber (2003), ao contrário de boa parte da corrente de especialistas no assunto, o mérito não deve ser dado ao tipo de carisma em si, mas à sua dominação e seus efeitos. Numa linha de raciocínio mais sociológica e histórica, Weber vê a dominação carismática como a essência para se compreender esses fenômenos sem necessariamente se deter na substância, ou elemento, que faz de uma figura um líder, em contraponto a seus prosélitos. Embora Weber foque prioritariamente no indivíduo carismático, a relação deste com o coletivo chamava também sua atenção, uma vez que somente a partir do reconhecimento do seguidor, e mesmo da comunidade em que ele vive, a existência do carisma é formada. O referido dom da graça não é necessariamente de ordem divina; pode ser uma força interior. No caso do ator político, Charaudeau cita Cristo como exemplo de alguém que possuía o dever kantiano do tipo faça o que deves, além de figuras menos relacionadas à religião, como é o caso do general Charles De Gaulle que, segundo o autor, era dotado de uma grandiosidade tal, que possuía a missão de salvar a França.

Há, na opinião do autor, outros líderes carismáticos como os que exploraram as raízes fundadoras de um povo, apelando para a revolta, como fez Hugo Chaves em seus discursos ao se referir a Simon Bolívar e às árvores das três raízes2.

Um outro tipo de carisma, a que se refere Charaudeau, é o carisma cesarista, que está relacionado com o ethos de potência que pode ser expresso através de diferentes figuras. Elas aparentemente são figuras de virilidade exacerbada, podendo até ser expressas por aventuras sexuais como era o caso do ex-presidente norte americano John Fitzgerald Kennedy e do ex-presidente italiano Sílvio Berlusconi. Há também figuras de energia, que se manifestam por hiperatividade como acontecia com Fidel Castro e Che Guevara. Entretanto, existe um ethos menos relacionado à potência, porém mais relacionado à coragem, como pode se observar no discurso do ex-presidente argentino Juan Domingos Perón sobre o Peronismo. Charaudeau deixa claro que o carisma político é de outra natureza em relação aos outros tipos de carisma, pois parece haver duas forças antagônicas que permeiam essa relação: de um lado, há o poder – um lugar indeterminado – mas com força de dominação; do outro, um povo – uma entidade global um tanto amorfa – sem limites definíveis, mas um suposto lugar de contrapoder.

Esse mesmo capítulo, iniciado pelo subcapítulo “A manipulação do mundo político”, traz outros subcapítulos sobre manipulação da opinião pública intitulados: “A manipulação do discurso de sedução dramatização”, “A manipulação pela exaltação de valores”, “O discurso populista como reciclagem dos discursos extremistas”, “O discurso como fator de embaralhamento das oposições políticas”, “A manipulação no mundo midiático”.

Em a “A manipulação do mundo político”, Charaudeau, faz um apanhado sobre política e sobre atores políticos. Ele trata da ideia de que a palavra política circula num espaço público e está sujeita às suas restrições, ou seja, nesse espaço as trocas ocorrem não entre indivíduos, mas entre entidades ou instâncias coletivas, que se definem por meio de estatutos e de papeis sociais. É nesse espaço político que existem as duas instâncias mencionadas pelo autor, que são as instâncias política e cidadã.

A seguir, encontramos uma subseção sobre a manipulação pelas pesquisas de opinião, que se subdivide em: “A pesquisa da opinião pública que é um discurso”, “Diferentes tipos de pesquisa de opinião”, “Um espelho deformante da sociedade”, “Análise de uma pesquisa de opinião que causa complexidade”, “Um bom exemplo de manipulação” e “As pesquisas formatam a opinião pública”, seguida de uma conclusão sobre a manipulação.

Em “A manipulação do discurso de dramatização”, o autor defende que o discurso político, longe de ser uma verdade absoluta, procura interpelar o outro por meio de apelos aos sentimentos e fazendo encenações, como num palco teatral no qual se apresentam dramas e tragédias a fim de manipular a opinião pública. Esse discurso pode despertar um movimento de protesto, como alguma injustiça causando indignação, e um estado de angústia na opinião pública. Há episódios na história em que esse discurso justificava, por exemplo, intervenções militares em países estrangeiros onde se estigmatizavam os inimigos absolutos como Saddam Hussein, Slobodan Milošević e Osama Bin Laden.

Já em “A manipulação pela exaltação de valores”, tem-se uma questão subjetiva a ser pensada que seria a noção ou o significado do termo valores. Todos os políticos declaram defender valores de suas nações, a democracia, a república, etc. Entretanto, a questão é que determinados valores podem ser julgados pela utilidade e bom funcionamento da vida social em determinada época e, esses mesmos valores, podem ser tidos como valores que são obstáculos para o desempenho da economia e, até mesmo, do bem estar social, como ironiza Luís Fernando Veríssimo em seu texto Silogismo, publicado no jornal O Globo:

[…] A nossa estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade financeira internacional se devem à tenacidade com que homens honrados e capazes, resistindo a apelos emocionais, mantêm uma política econômica solidamente fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade da sua população não for3.

Neste mesmo bloco, em “O discurso populista como reciclagem dos discursos extremistas”, Charaudeau lida com as matrizes ideológicas francesas tanto de direita como de esquerda para, na sequência, tratar do discurso populista como sendo uma reciclagem dos discursos extremistas. O discurso populista consistente com a tradição dominante na ciência política comparativa, define o populismo como uma forma de política baseada no “aviltamento moral de elites e uma veneração concomitante das pessoas comuns” (KRIESI, 2004, p.362, tradução nossa)4. Segundo o autor, o populismo é denunciado como uma antecâmera do totalitarismo. Ele apregoa a vitimização de um povo, exaltação de determinados valores desse povo e a satanização dos culpados feita por meio da figura do bode expiatório. O discurso populista como fator de embaralhamento das oposições políticas traz exemplos da história ocorridos tanto na Europa como nos países latino-americanos, africanos ou do Leste. Para o autor, o discurso populista tem origem histórica na extrema direita, porém pode se alinhar, para fins estratégicos, ao discurso da extrema esquerda.

Nessa linha de pensamento, o populismo de esquerda almeja um Estado forte, sem economia de mercado, mas a serviço do povo para o qual deve redistribuir a riqueza. Do mesmo modo, o populismo da direita defende as classes menos favorecidas, mas sem a intervenção estatal. No caso da França, essas classes são representadas por uma população do interior agrário acrescida de uma pequena burguesia de comerciantes e artesões. Já o populismo de esquerda luta pelo conjunto de integrantes da classe dita popular como operários, proletários e os ilegais. Como inimigos, os populistas de direita têm não só o establishment, mas uma hipotética aliança socialista comunista. Os inimigos, no caso dos populistas de esquerda, seriam as forças ditas reacionárias, chamadas em outras épocas de fascistas.

A seção intitulada “A manipulação no mundo midiático” essa parte apresenta uma subdivisão que trata de uma característica do discurso que vai desde a superdramatização da informação à peopolização do político. A estratégia que os políticos usam para alcançar eleitores indecisos, por meio de argumentação não política, contribui não apenas para a personificação, mas também para a predominância da propaganda televisiva. Além disso, “a publicidade negativa ao atacar o oponente direciona a atenção do eleitor à característica pessoal dos candidatos com mais intenção de votos” (ANSOLABEHERE; IYENGAR, 1995, p.258, tradução nossa)5. Como consequência, as personalidades com maior intenção de votos se tornam o principal motivo de votos, em detrimento dos programas políticos ou dos temas de campanha, tendo como um efeito colateral duvidoso a celebrização da política, ou seja, a peopolização. Segundo o autor, a peopolização se distingue do populismo por ter uma característica no discurso que fala da vida privada dos famosos como celebridades, ídolos do cinema, esporte, arte, etc. Este é o apanágio das revistas de fofocas. Esse fenômeno é uma faca de dois gumes, pois dessacraliza o(a) político(a) pela aproximação com o eleitor(a), tirando-o(a) de seu pedestal, porém ressacralizá-lo(a) “pelo fato de introduzir humanidade numa função que, por definição, é desumanizada” (CHARAUDEAU, 2016, p.124).

Sob o título “A manipulação pelas pesquisas de opinião”, Charaudeau analisa a pesquisa de opinião afirmando que esta é na realidade um discurso, pois, para ele, uma pesquisa é um ato de linguagem que traz em seu bojo um conjunto de perguntas e respostas. Desse modo, a pesquisa de opinião pode induzir uma resposta, pois, de maneira geral, toda pergunta impõe um esquema de fala no qual é inserido aquele que é perguntado. Outrossim, pode-se pensar no interrogador como alguém que quer saber algo com determinado objetivo.

O autor faz um apanhado geral dos vários tipos de pesquisa e argumenta que elas podem ser um espelho deformante da sociedade (palavras do autor), pois alimentam a dramaturgia eleitoral, ou seja, permitem que comentaristas políticos, com suas próprias ideologias, comentem os resultados das pesquisas dentro de seus próprios vieses. Assim as pesquisas podem manipular a opinião pública, uma vez que constituem, por sua vez, atos de formatação de um pensamento do qual não se sabe o que representam.

Em conclusão, o autor vê, nas pesquisas de opinião, a falta de limite entre estratégias legítimas de persuasão ou a amostragem de um cenário por meio das pesquisas e a intenção de manipulação das mentes.

Por fim, no terceiro capítulo – Crise de opinião, crise da democracia: os sintomas de uma crise política da pós-modernidade – o autor aborda os fenômenos muito discutidos nos dias de hoje que são as crises de opinião e da democracia. Nos regimes monárquicos, devido ao poder supostamente ter uma origem divina, a voz que representa um povo adquire sua soberania por um regime absoluto de crenças; no entanto, num regime democrático, “a voz vem de baixo, ou seja, da opinião pública” (CHARAUDEAU, 2016, p. 152) e isso, nem sempre, se traduz por um alinhamento entre a opinião pública e o(s) representante(s) dessa opinião. Se tomarmos como exemplo uma, dentre várias instâncias que ocorreram na política brasileira, podemos citar o caso do julgamento pela Câmara dos Deputados de Brasília, que isentou o atual Presidente da República Michel Temer de ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) apesar de a grande maioria dos brasileiros, fato revelado por algumas pesquisas de opinião, ser a favor da autorização para que o STF pudesse decidir se abriria ou não um processo criminal contra o mandatário.

Em seguida, pode-se ler sobre as possíveis noções relacionadas a essas crises da democracia e do poder como o contrapoder, que advém da opinião pública na forma de alguma reivindicação, serem ignoradas. Segundo Charaudeau, uma democracia plena sem um contrapoder inexiste. O grande princípio democrático é o da delegação provisória do poder de um povo a um representante, que em teoria vai representá-lo em decisões vitais que afetarão de modo contundente a vida desse mesmo povo. O contrapoder tem, nesse caso, um papel importante na regulação da soberania de um representante para que a política de um país não seja feita apenas em nome de uma maioria ou uma minoria ativa sem nenhuma justificativa.

No livro em referência, Charaudeau amplia essas ideias aqui discutidas e circunstancia sua análise acerca da construção da opinião pública. Ele constrói uma atividade discursiva sobre como se pode manipular as pesquisas de opinião. A obra tenta detalhar como ocorrem os discursos manipuladores, levando em conta os processos de construção identitária individual e coletiva trazidos à tona por sentimentos, valores, teatro político e o carisma.

Vale ressaltar a importância social da leitura do livro tanto para quem quer pensar sobre estratagemas utilizados para a conquista da opinião pública como para a compreensão de estratégias discursivas existentes no atual momento histórico. Em regimes democráticos, são os políticos que representam a voz do povo, mas para que cheguem ao poder, eles precisam usar o discurso para conquistar os cidadãos. E é por meio da palavra que se seduz, que se persuade, que se manipula e que se regula a vida social e política

Referências

ANSOLABEHERE, S; YIENGAR, S. Going Negative: How Attack Ads Shrink and Polarize the Electorate. Michigan: Free Press, 1995. [ Links ]

KRIESI, H. The populist challenge. West European Politics. Abingdon, v. 37, p. 361-378, 2004. [ Links ]

RIMBAUD, A. Correspondência. Tradução de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Topbooks, 2009. [ Links ]

VERISSIMO, L. F. Silogismo. O Globo, Rio de Janeiro, 24 mar. 2000. [ Links ]

WEBER, M. Le savant e le politique. Paris: La Découverte/Poche, 2003. [ Links ]

2 Alusão às figuras históricas Simón Bolívar, Simón Rodriguez e o general Ezequiel Zamora.

3 VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000, citado pelos autores.

4 No original: “[…] moral debasement of elites and the concomitant veneration of ordinary people” (KRIESI, 2004, p. 362).

5 No original: “[…] negative publicity in attacking opponents directs the attention of voters to the personal characteristics of the candidates with the most votes” (ANSOLABEHERE; IYENGAR, 1995, p.258).

Marcelo SAPARAS – Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Faculdade de Comunicação, Artes e Letras. Dourados – MS – Brasil. [email protected]

Sumiko Nishitani Ikeda – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes. São Paulo – SP – Brasil. Departamento de Linguística. [email protected]

Para conhecer semântica – MENDES et. al. (A-RL)

MENDES Luciana Sanchez www gepex org e1594229169432 Semântica
Luciana Sanchez Mendes / www.gepex.org

Para conhecer Semântica GOMES e MENDES SemânticaGOMES, Angela.; MENDES, L.. Para conhecer semântica. São Paulo: Contexto, 2018. 208p. Resenha de: PESSOTO, Ana Lúcia. O incentivo à prática científica por meio da análise semântica do português brasileiro. Alfa – Revista de Linguística, São José Rio Preto, v.63 n.3 São Paulo, Sept./Dec. 2019. Angela Gomes, Luciana Sanges Mendes

Ainda que a inauguração da Semântica Formal no Brasil remonte à década de 1970 (BORGES NETO; MULLER; PIRES DE OLIVEIRA, 2012), foi a partir dos anos 2000 que a bibliografia de interesse, antes restrita à pós-graduação, passou a ganhar volumes de introdução voltados a estudantes de graduação em Letras, na intenção de preparar e conquistar futuros pesquisadores semanticistas (ILARI, 2001PIRES DE OLIVEIRA, 2001CANÇADO, 2012FERRAREZI JUNIOR; BASSO, 2013). Neste cenário, Para Conhecer Semântica (Editora Contexto, 2018), escrito pelas linguistas Ana Paula Quadros Gomes (UFRJ) e Luciana Sanchez Mendes (UFF), toma lugar na bibliografia introdutória sobre Semântica Formal produzida em Português. A partir de propostas internacionalmente reconhecidas que buscam formular explicações de aplicação universal, as autoras analisam fenômenos do Português Brasileiro (PB), com exemplos atuais e linguagem jovial. O livro não só traz conceitos teóricos fundamentais para a área, como também reflete em sua organização desenvolvimentos importantes na pesquisa em Semântica nos últimos anos, como o tratamento das estruturas nominais e das expressões modificadoras, para o que a pesquisa das próprias autoras vem contribuindo com destaque.

Assim como o pioneiro Semântica Formal: uma breve introdução, de Roberta Pires de Oliveira (2001), o atual Para conhecer Semântica é um manual introdutório de Semântica Formal. Não aborda outras perspectivas de Semântica, como é o caso do também referenciado Manual de Semântica: noções básicas e exercícios, de Márcia Cançado (2012), e de Semântica, Semânticas: uma introdução, de Ferrarezi Jr. e Basso (2013). O diferencial de Para conhecer Semântica está na sua organização e, principalmente, na atualidade dos dados discutidos e das abordagens escolhidas, o que aparece na seleção dos fenômenos enfocados e no modo como são tratados. Parte-se de análises clássicas, de conhecimento obrigatório para qualquer semanticista, e chega-se à apresentação dos desenvolvimentos recentes na área, em que o conhecimento é atualizado constantemente e reformulações se tornam necessárias para dar conta dos dados empíricos.

O objetivo das autoras com Para conhecer Semântica é apresentar a Semântica como uma ciência formal, que busca explicações gerais, econômicas e lógicas, a partir de hipóteses que podem ser confirmadas ou falseadas pelos dados. Desse modo, a Semântica visa a descrever uma parte fundamental do conhecimento linguístico humano, qual seja, “[…] como qualquer falante nativo produz sentenças com significado e compreende sentenças formadas na sua língua.” (p.9). As autoras, então, promovem o pensamento científico usando, como objeto de investigação, o significado linguístico.

O livro é organizado em 4 capítulos que contemplam, nas palavras das autoras, “as três maiores fatias de uma língua natural”, que são o sintagma nominal, o sintagma verbal e a modificação. Cada parte é introduzida com os objetivos do capítulo e encerrada com indicações de leituras complementares e exercícios, seguindo o formato da coleção Para conhecer, da Editora Contexto. O primeiro capítulo introduz o campo da Semântica, seu objeto, e delimita a discussão do livro ao significado no nível da sentença. O objetivo é determinar as condições de verdade da proposição expressa pela sentença a partir do significado de suas partes, definindo-se, assim, a perspectiva vericondicional e composicional da Semântica assumida no livro. São analisados, então, fenômenos clássicos na investigação do significado, de interesse para qualquer perspectiva Semântica, como a ambiguidade, a anomalia, a pressuposição e, sob o inteligente rótulo de nexos lógicos, as relações de acarretamentocontradiçãosinonímia e verdade contingente. Esses fenômenos evidenciam uma parte fundamental do nosso conhecimento semântico, que é a capacidade de relacionar significados e deduzir uma proposição a partir de outra. Por exemplo, como sabemos que, se a proposição ‘João viajou ontem’ é verdadeira, necessariamente ‘João viajou’ também será, mas o contrário não acontece? Dizemos, então, que ‘João viajou ontem’ acarreta que ‘João viajou’, mas ‘João viajou’ não acarreta que João tenha viajado ontem (pode ter sido em qualquer momento no passado). Ademais, como sabemos que, para que ‘Dom Casmurro parou de confiar na Capitu’ faça sentido, é preciso que ‘Dom Casmurro confiava na Capitu’ seja verdade? As autoras mostram como essas operações, que realizamos intuitivamente, relacionam-se e ampliam nosso conhecimento de mundo, e apresentam os mecanismos e estratégias sintático-semânticas que engatilham tais operações, introduzindo o ferramental matemático básico para formalizar a explicação.

As duas últimas seções da primeira parte tratam do Sentido e da Referência de uma expressão, da predicação e da composicionalidade, noções herdadas da Filosofia a partir dos trabalhos de Frege (1978) e que são pressupostos teóricos sobre os quais se assenta a Semântica Formal. Tais noções foram um salto na compreensão sobre como relacionamos termos da língua com as ‘coisas do mundo’, e como calculamos a verdade de uma proposição, em uma época em que o significado de um termo era entendido como o seu referente. Por exemplo, como falamos sobre o que não existe, como ‘Pégaso’ e ‘Papai Noel’? E qual seria o referente de abstratos, como ‘amor’, ‘cansaço’, ‘liberdade’? Frege propôs que a relação entre o termo e sua referência não era direta, mas mediada pelo sentido, o pensamento expresso pelo termo. Interpretamos termos que nomeiam objetos inexistentes ou abstratos pois conhecemos seu sentido, e saber mais de um sentido para a mesma referência é saber mais sobre o mundo.

Já o valor de verdade da proposição era ainda calculado de forma aristotélica, como composto de um particular e uma categoria. Assim, ‘Bob Dylan é mortal’ seria verdadeira se o particular ‘Bob Dylan’ pertencesse à categoria ‘mortal’. Para Frege, essa maneira de analisar o significado não contemplava sentenças transitivas como ‘Bob Dylan escreveu Blowing in the Wind’. O que seria o particular e o que seria a categoria nesta sentença mais complexa? A saída fregeana foi tratar verbos como predicados – expressões insaturadas, mas com sentido – e seus complementos como argumentos – expressões saturadas que geram a expressão saturada chamada sentença quando compostas com o predicado. Formalmente, os predicados passaram a ser vistos como relações entre conjuntos. O predicado ‘escrever’ é uma função que toma dois argumentos: ‘Bob Dylan’ do conjunto dos escritores, e ‘Blowing in the Wind’ do conjunto das coisas escritas, e retorna a sentença ‘Bob Dylan escreveu Blowing in the Wind’ a qual expressa uma proposição que podemos, então, avaliar como verdadeira ou falsa. A solução trazida com a predicação e a composicionalidade foi desafiada por sentenças como ‘Maria pensa que Bob Dylan vem ao Brasil’, em que saber a referência da proposição encaixada não contribui para calcular o valor de verdade da proposição toda. Se ‘Bob Dylan vem ao Brasil’ for falsa, não decorre que ‘Maria pensa que Bob Dylan vem ao Brasil’ seja também falsa, pois Maria pode pensar algo que não é verdade. Anos mais tarde, essa observação de Frege culminou no conceito de intensionalidade, em que o significado é ainda calculado composicionalmente, mas não conforme a sua extensão (ou referência), e sim conforme o seu sentido, sua intensão. Retoma-se essa questão no capítulo 3, dedicado à análise do sintagma verbal. Com essa introdução sobre conceitos-chave da Semântica Formal, Gomes e Mendes ilustram um fator fundamental do fazer científico, que é confrontar os dados empíricos com as previsões teóricas, para então reformular hipóteses e refinar a teoria de modo que explique cada vez melhor os dados.

O segundo capítulo trata do sintagma nominal (SN), tema de grande destaque nas pesquisas em Semântica nos últimos anos por contribuir, entre outras questões, para a compreensão das diferenças entre PB e Português Europeu (PE). O capítulo apresenta os tipos de SN, discutindo as diferenças entre nome nu e sintagma determinante, tanto na posição de sujeito como na posição de complemento; entre nomes massivos e nomes contáveis; e sintagma definido e indefinido. As autoras analisam tais fenômenos mostrando como dados de PB desafiam descrições tradicionais, e introduzem ferramentas formais de análise, como noções de atomicidade e cumulatividade, pluralidade e conjuntística. Nesse capítulo, as autoras analisam, por exemplo, dados como ‘Comprei revista domingo’ e ‘Comprei uma revista domingo’, e mostram que ambas são aceitas no PB, porém com intepretações diferentes, enquanto no PE apenas a segunda sentença é bem aceita, e a primeira é anômala. Analisam também diferença entre nominais que denotam objetos contáveis, como ‘maçã’, e objetos massivos, como ‘areia’, apontando a relevância de se descrever as características semânticas de cada tipo para então podermos explicar porquê podemos dizer com naturalidade ‘Duas maçãs caíram no chão’, mas não ‘Duas areias caíram no chão’. Relacionado a esses fenômenos são tratados, no mesmo capítulo, a semântica do plural, da definitude e dos quantificadores generalizados e sua interações de escopo entre si e outros operadores.

O sintagma verbal é tema do Capítulo 3, onde se discorre sobre seleção argumental e papéis temáticos; a expressão do tempo e do aspecto; e a expressão do modo e da modalidade. São tratadas a natureza impessoal de alguns verbos, a expressão da existencialidade, e a possibilidade de um dos argumentos selecionados pelo verbo ser uma expressão que denota, não um indivíduo ou um conjunto de indivíduos, mas um evento. Esses temas evidenciam a relação entre a natureza do verbo e como ele seleciona seus argumentos, o que é visto a partir da noção de papeis temáticos, hierarquia temática e alternância verbal. O ferramental teórico introduzido por Gomes e Mendes para o tratamento das questões de tempo e aspecto são as propostas de Reichenbach (2011) e Vendler (1957) e, para a modalidade, assume-se a proposta standard de Kratzer (2012), clássicos utilizados para a explicação de como somos capazes de falar sobre situações que não são o aqui e o agora. Entram nesse leque a expressão do passado, do futuro, de situações inferidas, possíveis, necessárias ou hipotéticas, que requerem considerar estados de coisas alternativos. Neste capítulo, entra em cena de modo mais proeminente uma noção cara à análise semântica no nível sentencial, e que figura como uma reformulação importante da teoria semântica para dar conta de dados empíricos que, a princípio, desafiaram a teoria. Esta noção é o contexto.

A visão relativa de tempo, de Reichenbach (2011), busca desfazer a trivialidade de sentenças como ‘João tomou banho’. Essa sentença só é adequada se estiver sendo avaliada em algum tempo relevante, que de alguma forma se relacione com o tempo atual, pois é trivialmente esperado que João tenha tomado banho alguma vez no passado. O fenômeno é conhecido também por ter sido tratado por Partee (2004) no seu famoso exemplo ‘I didn’t turn off the stove’ (‘Eu não desliguei o fogão’), onde a autora, sob a ótica de tempo dêitico e relativo, propõe analisar o tempo como análogo a um pronome, cujo valor é fornecido pelo contexto. Quanto ao aspecto, além do aspecto gramatical expresso pela morfologia, as autoras tratam do aspecto lexical mostrando como os verbos podem ser classificados semanticamente conforme as classes acionais, assim como são classificados sintaticamente conforme sua transitividade. Seguindo Vendler (1957) as autoras mostram como uma classificação semântica contribui não só para a categorização dos verbos, como também para explicar fenômenos como a distribuição de certos adjuntos e a validade de argumentos. Por exemplo, por que podemos dizer ‘João correu por duas horas’, mas não ‘*João correu em duas horas’? Ou então, por que ‘João estava correndo’ acarreta que ‘João correu’, mas ‘João estava atravessando a rua’ não acarreta ‘João atravessou a rua’?

Ao final do Capítulo 3 as autoras apresentam o modo como uma marca sentencial que indica a expressão da modalidade. Traça-se o limite entre modalidade como uma atitude do falante, e a acepção formal, em que a modalidade é estritamente a expressão da possibilidade e da necessidade. Em outras palavras, diferenciam a visão subjetiva da visão proposicional de modalidade. Seguindo a visão proposicional, as autoras analisam sentenças modais no PB conforme a perspectiva formal standard, de Kratzer (2012), em que modais são operadores sobre conjuntos de mundos possíveis, estes restritos por informações contextuais que determinam a interpretação do modal na sentença. Uma sentença como ‘João pode nadar’ expressa “vários tipos” de possibilidade: João pode nadar porque lhe foi permitido; João pode nadar porque tem habilidade; João pode nadar pois, baseado no que se sabe, ‘pode ser que ele nade’. Cada sentido é uma proposição diferente, pois expressa um pensamento diferente. O que define a interpretação adequada são proposições fornecidas pelo contexto, formalizadas como conjuntos de mundos possíveis. Nessas bases, na interpretação ‘João pode nadar porque lhe é permitido’, o auxiliar ‘pode’ é um quantificador existencial sobre o conjunto de mundos em que João atende as permissões que lhes são concedidas.

Na análise da modalidade, as autoras retomam a noção de intensionalidade e de nexos entre sentenças ao mostrarem que uma sentença como ‘João pode nadar’ especula sobre a possibilidade de o evento de João nadar ser confirmado, mas não o garante como fato, evidência de que uma análise composicional extencional não é suficiente. A proposição modal, sendo verdadeira, não garante a verdade da proposição encaixada, tanto que mesmo que João nunca nade, a proposição modal continua podendo ser verdadeira. Para que a análise composicional seja possível é preciso recorrer não à referência da proposição encaixada – sua extensão, seu valor de verdade – mas ao seu sentido – sua intensão, o pensamento que expressa –, formulada como um conjunto de mundos possíveis.

No quarto e último capítulo, o contexto também é ingrediente fundamental na análise da terceira grande fatia da língua natural, a modificação, onde são tratados adjetivos, advérbios e intensificadores. Destaca-se a abordagem dos adjetivos e os desafios que trazem a uma análise composicional unificadora, devido à variedade de leituras que recebem conforme a posição em que aparecem. Adjetivos que podem aparecer tanto em uma posição atributiva canônica como também antes do nome, variando sua leitura entre intersectiva e intensional, trazem esse desafio. Por exemplo, um adjetivo como ‘pobre’ tem uma leitura intersectiva em posição atributiva canônica– ‘O menino pobre fugiu’ – e em posição predicativa – ‘O menino é pobre’; mas uma leitura intensional em ‘O pobre menino fugiu’. Para este problema, as autoras mostram como a observação dos adjetivos de grau como ‘alto’ em ‘João é alto’, e da interação desse tipo de adjetivo com intensificadores, como ‘muito’, e com construção comparativas, traz à analise dos adjetivos a ferramenta da dependência contextual. Com o contexto, podemos explicar como podemos dizer que João, com 1,80m, é um homem alto para um jóquei, mas baixo para um jogador de basquete; ou, ainda, como podemos dizer que João é bom, profissionalmente falando, a partir da informação de que João é um bom médico. Mostra-se, assim, um tratamento unificado: essa classe de adjetivos é intersectiva quando levamos em conta a informação fornecida pelo contexto.

Gomes e Mendes encerram o último capítulo com os advérbios, tradicionalmente definidos como expressões que modificam um verbo, um adjetivo ou outro advérbio, mas que compõe uma categoria bastante diversificada. Há os que modificam eventos – como em ‘Maria cozinha bem’ –; que indicam modo, tempo e lugar – ‘João chegou em casa às 5h’ – ou modificam a proposição inteira – ‘Infelizmente, o produto se esgotou’. Alguns intensificam – ‘Maria cozinha muito bem’ – , outros quantificam – ‘Maria sempre/às vezes/nunca cozinha bem’ – e outros são modais – ‘Maria possivelmente cozinha’. Alguns operam nas condições de verdade, como em ‘Maria cozinha bem’ (ou seja, ela não cozinha mal). Já outros expressam atos de fala, como em ‘Sinceramente, pra mim é melhor estar sem Neymar no time’ (p.181), e não interferem nas condições de verdade. As autoras, portanto, tratam os advérbios e adjetivos conforme tipo de operação que realizam na sentença, mostrando que vão além de expressar qualidades. Admitem que é um fenômeno linguístico – se não o mais – difícil de formular teoricamente, devido à riqueza do léxico envolvido, à diversidade de operações que realizam e sua forte dependência do contexto.

A atualidade dos exemplos usados para análise é destaque de Para conhecer semântica, alguns deles extraídos de memes conhecidos nas redes sociais, o que revigora a análise até mesmo para quem já está familiarizado com os temas. Por exemplo, a famigerada sentença “O bêbado bateu na velha de bengala”, tradicionalmente usada como exemplo para a análise da ambiguidade estrutural, é substituída pela lúdica “Seu cachorro corre atrás das pessoas de bicicleta”, contextualizada em um diálogo ao que o dono do cachorro responde “Mentira, meu cachorro não tem bicicleta”. O arranjo traz o elemento cativante da surpresa ao evidenciar a interpretação inesperada, porém, possível, dada a estrutura da sentença. Toda a introdução às formalizações é apresentada com ilustrações, bem como conceitos chave aparecem em quadros de destaque.

Com uma escrita acessível e espirituosa, as autoras partem de análises tradicionais para as reformulações teóricas que se fizeram necessárias quando os estudiosos enfrentam dados que desafiaram a teoria. Um ingrediente importante dessas reformulações apontado pelas autoras, e que lança bases para a reinterpretação do campo, é a formalização da contribuição contextual na semântica. Superficialmente definida como a área que estuda o significado fora de contexto (a Pragmática se encarregaria de considerar o contexto na análise), a Semântica Formal apresenta sim ferramentas para formalizar a contribuição do contexto na interpretação, sem o qual, como bem mostrado ao longo do livro, sentenças corriqueiras como ‘João pode correr amanhã’ (tem permissão? Tem capacidade física? Ou pode ser que ele corra?), ou ‘João é alto’ (muito alto comparado a quem?), não poderiam ser plenamente interpretadas.

A intenção expressa pelas autoras nas considerações finais em conquistar o leitor iniciante para a análise semântica é cumprida ao longo do livro. Apresentam-se os fenômenos quase que informalmente e introduzem-se lentamente aspectos da formalização lógica, mas por meio de uma ferramenta poderosa, que é a análise de dados da língua acessível à intuição de qualquer falante. Sendo assim, o conteúdo do livro, na maneira como os fenômenos e análises dos dados são apresentados, tem a função de levar o leitor a perceber que ele tem em si um linguista em potencial, em princípio, por possuir a ferramenta essencial para qualquer análise linguística: a sua intuição de falante.

A contribuição das autoras se encerra com uma rica lista de referências bibliográficas, que reúne desde textos seminais sobre os fenômenos abordados, até as produções mais recentes em que se basearam as análises apresentadas no livro, tanto de pesquisadoras e pesquisadores nacionais quanto estrangeiros. Dessa forma, Para conhecer Semântica toma lugar entre a bibliografia essencial para todo iniciante interessado em Semântica, bem como um potencial guia para educadores na área.

Referências

BORGES NETO, J.; MULLER, A. L.; PIRES DE OLIVEIRA, R. A semântica formal das línguas naturais: histórias e desafios. Revista de Estudos da Linguagem, Belo Horizonte, v.20, n.1, p.119-148, jan./jun. 2012. [ Links ]

CANÇADO, M. Manual de semântica: noções básicas e exercícios. São Paulo: Contexto, 2012. [ Links ]

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VENDLER, Z. Verbs and times. The Philosophical Review, Ithaca, v.66, n.2, p.143-160, 1957. [ Links ]

Ana Lúcia Pessotto – Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Faculdade de Letras. Rio de Janeiro – RJ – Brasil. [email protected]

Fonologia – Fonologias: uma introdução – HORA et. al. (A-RL)

HORA, Dermeval da; MATZENAUER, Carmen (Org). Fonologia, fonologias: uma introdução [ Phonology, Phonologies: An Introduction] São Paulo: Contexto, 2017. Resenha de: CANGEMI, Ana Carolina. Um passo a passo para estudos linguísticos em teorias fonológicas. Alfa – Revista de Linguística, São José Rio Preto, v.63, n.1, São Paulo, Jan./Mar. 2019.

Fonologia, fonologias: uma introdução (2017) [ Phonology, Phonologies: An Introduction , edited by Dermeval da Hora and Carmen Lúcia Matzenauer, comprises studies on Phonological Theories. The work is dedicated to Gisela Collischonn (in memoriam), admirable phonologist, who so prematurely left us. In the Introduction the editors promise to take the reader to the “world of sounds”, understood both as the substance of human languages as well as a unit of their respective grammar. The eleven chapters that make up the book are structured around six questions 1:

  1. What is _ _ _ _ _ _ _ _ Phonology 2 ?
  2. What does _ _ _ _ _ _ _ _ Phonology study?
  3. How to analyze linguistic phenomena using _ _ _ _ _ _ _ _ Phonology?
  4. Could you give me an example?
  5. What are the main research lines?
  6. What should I read to know more?

In the first chapter, Fonologia Estruturalista [ Structuralist Phonology ], by Juliene Pedrosa and Rubens Lucena, the Saussurean concept of langue is seen as a foundation for later formalizations of phonological theories. Specifically, regarding Structuralist Phonology, the authors introduce the founding theorists and the fundamental aspects of the study of a language. When analyzing phenomena of the language, the authorsrefer especially to Brazilian linguist Joaquim Mattoso Camara Jr. and, consequently, bring as examples phenomena involving consonant and vowel sounds of Portuguese.

The second chapter, Fonologia Gerativa [ Generative Phonology ], by Seung Hwa Lee, starts with a presentation of the main theoretical assumptions of Generative Phonology (a branch of Generative Grammar). In it, the author discusses topics such as 1) the major theorists in the field of Generative Phonology, 2) the definition of what it is and 3) the scope of its study. The author emphasizes the main objective of the theory (to make explicit the linguistic knowledge/faculty of the speaker-listener of each language) as well as its product (the construction of a phonological grammar of a language that could describe the phonological knowledge of the speaker-listener of that language in terms of the system of rules). In order to exemplify a linguistic phenomenon in the light of the theory, Lee discusses the idea and the rules involving a conspiracy process, by using the sound alternations of Portuguese archiphoneme / S /. Finally, there is a systematic elaboration on Generative Phonology. Therefore, the chapter is a valuable contribution towards the description and explanation of the phonological knowledge of the speaker/listener.

The third chapter, Teoria dos Traços [ Distinctive Features Theory ], was produced in partnership between Carmen Lúcia Matzenauer and Ana Ruth Moresco Miranda. The authors initially provide a historical overview of theory and subsequently (in a very objective and clear way) familiarize the reader with the minimum units forming the internal structure of segments as well as the two approaches to features: i) attributes of segments, and ii) autosegments. It should be emphasized that such perspectives are originally linked to different theoretical models, the first referring to the Classical Generative Model, the second to the Autosegmental Model. By fulfilling data produced by Brazilian children, the authors offer examples that illustrate the dynamics of the phonological grammar of Brazilian Portuguese. It is finally stressed that distinctive features have an important descriptive and explanatory power. Hence the importance of theoretical knowledge for the advancement of studies of the phonological component of linguistic systems. Carefully written and reader-friendly, this chapter harmonizes the transition from linear to nonlinear models, 3 which will be fully approached in the five chapters following it.

The fourth chapter, by Dermeval da Hora and Ana Vogeley, introduces Fonologia Autossegmental [ Autosegmental Phonology ]. This nonlinear approach provides the basics for a multidimensional understanding of phonological processes. The way the reader can benefit from the descriptions, with multi-layered arrangements of phonological representations with respect to the suprasegmental aspects, for example, is remarkable. Thus, the authors devote a part of the chapter to prosodic phenomena. Although Autosegmental Phonology is considered a theory and not just a descriptive model, it is important to understand its mode of representation (tree diagrams), the conditions under which phonological rules and processes are established, and the principles of its functioning. The authors, then, assign another part of the chapter also to these topics. Finally, the coordination of the components of the articulatory apparatus during the production of sounds in speech is dealt with using data extracted from Portuguese.

The fifth chapter, Teoria Lexical [ Lexical Theory ], written by Leda Bisol, addresses phonological theory concerning words as regards to two types of components, i) the lexical component and ii) the postlexical component. This theory, which is grounded on generative models of analysis, integrates phonology and morphology in the lexical component. Therefore, prosodic entities, the syllable, enunciation, the processes of word formation and the elements of a word are examined in a singular way. The author also highlights the key aspects of lexical theory, the ordering of rules and their effect on the serial model. Finally, there is a cyclical analysis of a Portuguese word composed by a root and a thematic vowel.

The sixth chapter, Fonologia Métrica [ Metrical Phonology ], by José Magalhães and Elisa Battisti, is aimed at the organization and formalization of relations of prominence (ranging from the smallest, such as the syllable, to larger ones, such as clauses) in the phonological domain). Although Metrical Phonology studies the system of relative prominence of a language as a whole or in terms of its accentual pattern, some theoretical assumptions, objects and processes of investigation are given special attention. For example, the formation of a structure with binary components by means of relative prominence hierarchically organized is one of the issues of application of the theory. In order to exemplify the models of analysis described in the chapter, the authors work with Latin, Portuguese and other natural languages.

The seventh chapter, Fonologia Prosódica [ Prosodic Phonology ], by Luciani Tenani, highlights the interface between Phonology and other components of grammar. The author points out that Prosodic Phonology stands as a formal theory about prosodic structures, which can be defined by the identification of information on the syntactic or morphological qualities which are relevant to characterize the domains of application of phonological rules. After showing that there can be no necessary isomorphism among the constituents, the author calls attention to the plurality of proposals for prosodic hierarchies. Regardless of the various proposals, it is possible to adopt a set of procedures for analysis in the light of Prosodic Phonology. By using data drawn from Portuguese, the author exemplifies such procedures and reflects especially on accentual shock in the language.

The eighth chapter, written by Ubiratã Kickhöfel Alves, deals with Teoria da Sílaba [ The Syllable Theory ]. The chapter begins with a discussion of the challenge of characterizing the syllable. The author extends the difficulty to the representational level, to the formal mechanisms of analysis of the syllabication process in a language as well as to universal constraints on syllabication. Specifically, in relation to the representational structure in Syllable Theory, three sets of proposals are presented for its characterization: i) the autosegmental structure, ii) the tree-diagram structure and iii) the moraic structure. Linguistic phenomena can be analysed by adopting more than one approach. Some analyses may be carried out, for example, taking a rule-based approach, or a syllabic-model approach or a constraint-based approach. It should be emphasized that, in addition to the different approaches, it is necessary to consider the distribution segments into the syllable, following universal principles of syllabification. A set of principles is presented in the chapter. Finally, the author points out that studies that look into the syllabic structure of the system are still an inexhaustible source of investigation. This chapter also marks the end of the section on non-linear theories in the book, which now turn to the model created in the 1990s: Teoria da Otim(al)idade. [ Optim(al)ity Theory ].

In the ninth chapter, entitled Teoria da Otimidade [ Optimality Theory ], by Luiz Carlos Schwindt and Gisela Collischonn, the theory that had a major impact especially on phonological studies is introduced. According to the authors, this theory can be considered a development of the Generative Theory, in terms of formal descriptions and the search for universals. However, a methodological differentiation can be noticed when it is compared to the generative models that preceded it. From the beginning of the chapter, the authors fulfil examples to initially elucidate the theory. The first example is within the scope of the syllabic structure of Portuguese. As the analysis of the syllabic structure is prioritized in this chapter, the essential properties of the phonological model are highlighted. It is important to emphasize that the task of the Optimality Theory is to promote the mapping of linguistic forms which have been effectively realized together with their underlying forms. Undoubtedly, the theory brings advances to phonological analysis, but there are problems, too. At the end of the chapter, the authors reflect on some of these problems.

The tenth chapter, Teoria de Exemplares [ Exemplar Theory ], written by Thaïs Cristófaro Silva and Christina Abreu Gomes, introduces a representational model formulated, a priori , for the study of visual perception and categorization in the realm of Psychology. According to the authors, three aspects are within the scope of Exemplar Theory: i) phonetic detail, ii) the effects of frequency on mental representations, and iii) emergence and grammatical management of abstract representations. Experimental methodologies are grounded on the expectation of presenting empirical evidence so as to corroborate tendencies of generalization in abstract grammatical representations. In the context of the phenomenological analysis there is the examination of the effects of frequency and lexical similarity by means of research into the corpora of the language under study.

The eleventh and last chapter, Fonologia de Laboratório [ Laboratory Phonology ], by Eleonora Cavalcante Albano, addresses a methodological position which can be applicable to any phonological theory. It is considered that the association between Phonetics and Phonology should be sufficiently clear to support experimental hypotheses. The method, which was developed at LabPhon Association4 , is intended for the scientific study of the elements of a spoken or signed language as well as of its organization, grammatical function and role in communication. According to the author, in this respect, the method shares the same objects of traditional Phonology (in terms of its system and phonic processes), but in a more particular way. Thus, phonetic detail plays an essential part in shedding new light on the the nature of phonic contrasts, for example.

Fonologia, Fonologias: uma Introdução (2017) fulfills its promise to offer the theoretical tools for the reflection on the phonological components of languages (especially Portuguese), as it describes the main phonological theories. Moreover, the book stands as a broad and dense study that allows for the understanding of phonological theories and methods, fostering debates and further developments. With the contribution of renowned Brazilian scholars and researchers, the book is reader-friendly from beginning to end, objectively offering more than the answers to the six questions around which its chapters are organised. Theoretical frameworks, issues and results are gathered together in this useful work, which certainly leads the reader to the “world of sounds.”

References

CHOMSKY, N. The sound pattern of English. New York : Holt, Rinehart and Winston, 1968. [ Links ]

GOLDSMITH, J. (ed.) Phonological theory: the essential readings. Malden: Blackwell Publishers, 1999. [ Links ]

HORA, D.; MATZENAUER, C. Fonologia, fonologias: uma introdução. São Paulo: Contexto, 2017. [ Links ]

NESPOR, M.; VOGEL, I. Prosodic Phonology. Dordrecht: Foris Publications, 2007. Obra original de 1986. [ Links ]

SELKIRK, E. Phonology and syntax. Cambridge, Mass.: MIT Press, 1984. [ Links ]

1Also including notes and references pertaining to each chapter.

2The underscored blank spaces preceding “Phonology” indicate the type of Phonology dealt with in the chapters, for example, Generative Phonology, Lexical Phonology, Prosodic Phonology, and so forth.

3The theoretical models of linguistic phonology are commonly divided into two groups: i) linear models ( CHOMSKY, 1968 ) and ii) nonlinear models ( SELKIRK, 1984 ; NESPOR;VOGEL, 2007 ; GOLDSMITH, 1999 ). Linear models regard speech as a linear combination of segments or distinctive features, that is, there is a one-to-one relationship between the segments and the matrices of feature values. Nonlinear models understand the phonology of a language as an organization in layers (tiers). In this model, the one-to-one relationship is reviewed. Features can extrapolate (or not) a segment and they can also be linked to more than one unit, function alone or in association with them.

4From https://www.labphon.org/ . Access on: 27 Feb. 2018

Ana Carolina Cangemi Universidade Estadual Paulista, (Unesp), Faculdade Ciências e Letras, Araraquara – São Paulo – Brasil. Professora do Departamento de Linguística. [email protected]

Análise de Discurso Crítica: um método de pesquisa qualitativa – MAGALHÃES et. al. (A-RL)

MAGALHÃES, I.; MARTINS, A. R.; RESENDE, V. de M.. Análise de Discurso Crítica: um método de pesquisa qualitativa. Brasília: Ed. da UnB, 2017. 259p. Resenha de: OTTONI, Maria Aparecida. Análise de discurso crítica e Etnografia. Alfa – Revista de Linguística, São José Rio Preto, v.12 n.2 São Paulo May/Aug. 2018.

Há quase vinte anos, Izabel Magalhães vem defendendo uma proposta de pesquisa etnográfico-discursiva, segundo a qual a Análise de Discurso Crítica e a etnografia, em uma relação de complementaridade, são articuladas para a análise das práticas sociais. Contudo, ainda não havia sido publicada no Brasil uma obra centrada nesse tipo de pesquisa e o livro Análise de Discurso Crítica: um método de pesquisa qualitativa vem oportunamente preencher essa lacuna, o que o torna singular e de suma relevância.

Nesse sentido, a obra tem um enfoque que a distingue de todas as outras relacionadas à Análise de Discurso Crítica (ADC) publicadas no Brasil: a ADC como um método de pesquisa qualitativa e sua relação transdisciplinar com a etnografia. Ela traz uma contribuição ímpar, especialmente a estudantes e pesquisadores de diversas áreas do conhecimento interessados na análise das práticas sociais de que os textos são parte, o que demanda uma pesquisa de campo.

Considerando que toda prática social é constituída de elementos: atividade produtiva; meios de produção; relações sociais; identidades sociais; valores culturais; consciência; e semiose (FAIRCLOUGH, 2012), para compreender o seu funcionamento e as relações do discurso/semiose com os outros elementos da prática social, é necessária uma abordagem que vá além da análise textual do discurso e que não se paute apenas no aspecto discursivo das práticas. É preciso, como defendem Magalhães, Martins e Resende, realizar pesquisa etnográfica para o estudo do discurso como um dos elementos das práticas, ou seja, adotar uma abordagem etnográfico-discursiva. Isso implica não perder de vista o papel do discurso na compreensão dos momentos da prática nem a relação dialética entre eles.

Tendo em vista esse enfoque, o livro é constituído de nove capítulos, organizados em três partes, cada uma composta de três capítulos: Um método de pesquisa qualitativa para a crítica social (parte 1); Análise de Discurso Crítica e etnografia (parte 2); Um método de análise textual (parte 3), além da introdução e da conclusão.

Na introdução, os autores expõem o objetivo principal da obra e descrevem como ela está organizada. No primeiro capítulo, Pesquisa qualitativa, crítica social e Análise de Discurso Crítica, fazem uma apresentação geral da ADC, situando-a na tradição da pesquisa qualitativa e a relacionando à crítica social. Eles destacam a existência de diferentes abordagens em ADC, as concepções de discurso e de texto e a importância do conceito de texto para o estudo dos processos sociais contemporâneos, uma vez que os textos são artefatos para esse estudo e “causam efeitos – isto é, eles causam mudanças” (FAIRCLOUGH, 2003, p.8).

No segundo capítulo, ADC – teoria e método na luta social, Magalhães, Martins e Resende enfatizam o papel da ADC na luta social. Primeiramente, retomam algumas considerações gerais sobre essa teoria e método, dando especial atenção para os conceitos de discurso, interdiscursividade, intertextualidade, poder e ideologia e para o lugar do discurso na modernidade posterior e na mudança social. Na sequência, elencam alguns procedimentos metodológicos que consideram básicos na seleção do foco de investigação em ADC e no processo de análise, reforçando, com isso, a relação da ADC com a pesquisa etnográfica. A apresentação desses passos a serem seguidos no desenvolvimento de uma pesquisa etnográfico-discursiva constitui uma contribuição importante do capítulo, pela orientação clara e útil que fornece a estudantes e pesquisadores, iniciantes ou não nos estudos do discurso.

Em Textos e seus efeitos sociais como foco para a crítica social, último capítulo da primeira parte, os autores concentram o olhar em um aspecto já mencionado em capítulo anterior – os efeitos sociais dos textos. Eles descortinam como esses efeitos podem ser usados em pesquisas voltadas para a crítica social, a partir da análise de reportagens publicadas em jornal sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes em Brasília e de entrevista com uma das educadoras do projeto GirAÇÃO, do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua do Distrito Federal, o qual foi afetado de forma direta pelas reportagens. No capítulo, o exame da intertextualidade e da polifonia em uma das reportagens constitui uma referência a outros pesquisadores sobre como organizar e tecer uma análise com base nessas duas categorias. A abordagem da entrevista revela os efeitos das reportagens na atuação do projeto mencionado e como a análise textual sozinha não consegue elucidar o “envolvimento de textos na construção de significado e o efeito causal de textos” (p.91). Sem dúvida, é uma mostra da produtividade de uma pesquisa etnográfico-discursiva.

A segunda parte do livro, denominada Análise de Discurso Crítica e etnografia, é constituída dos capítulos quatro, cinco e seis. Dois deles – o quarto e o sexto – são muito próximos tanto em relação ao título quanto ao objetivo. No capítulo quatro, Análise de Discurso Crítica e Etnografia – uma relação complementar, e, no capítulo 6, Etnografia e Análise de Discurso Crítica, os autores advogam a complementaridade entre etnografia e ADC. Julgando por esse propósito comum dos dois capítulos e pela semelhança dos títulos, a reunião deles em um só poderia representar uma escolha produtiva e resultar em uma abordagem mais ampla e aprofundada da relação complementar a favor da qual argumentam os autores.

No capítulo 4, Magalhães, Martins e Resende tratam sobre os tipos de notas de campo, apresentam exemplos de notas conceituais, recomendam a complementaridade entre ADC e etnografia como uma forma de validação da pesquisa e dedicam uma seção à exposição sobre a metodologia etnográfico-discursiva. Tendo em conta o fato de que é uma obra escrita por três pesquisadores, é necessário eliminar as marcas de autoria individual de capítulos, como a primeira pessoa do singular, na página 120 deste capítulo, em que se tem “Existe uma série de fatos que, a meu ver, são verdadeiros”.

No capítulo 6, ressaltam a importância da coerência entre ontologia e epistemologia e evidenciam “[…] que há inconsistência entre a perspectiva ontológica da ADC e sua tradição de análise documental.” (p.155), uma vez que essa tradição não permite a construção de conhecimentos sobre todos os componentes ontológicos do mundo social inter-relacionados, conforme a concepção adotada pela ADC faircloughiana. Nessa direção, o paradigma etnográfico articulado ao método para análise textual da ADC é indicado como um caminho adequado. Entretanto, os autores alertam para o fato de que apenas as abordagens etnográficas “que preveem um engajamento com o contexto de pesquisa e com os participantes” (p.156) são coerentes com a ADC. Tal alerta é fundamental, especialmente para os principiantes nesse tipo de pesquisa. Ainda no capítulo seis, Magalhães, Martins e Resende explicam como se pode construir um planejamento de pesquisa articulando ADC e etnografia, o que inclui uma relação entre reflexões e decisões de caráter ontológico, epistemológico e metodológico. Explanam que essas decisões “[…] dão-se num eixo de sucessividade, isto é, as decisões ontológicas são prévias às epistemológicas […], que são prévias às metodológicas.” (p.161) e que pode haver inúmeras possibilidades de paradigmas epistemológicos para uma versão ontológica, o que significa que não há um só caminho a ser seguido. Posteriormente, os autores discutem sobre a geração e coleta de dados etnográficos e sobre os métodos usados para esse fim. Também no capítulo seis são oferecidas várias indicações de leitura sobre todos os aspectos nele contemplados, o que pode auxiliar os leitores no aprofundamento dos conhecimentos sobre a pesquisa etnográfico-discursiva. É um capítulo com valor inestimável na obra, pelo seu conteúdo, organização e pertinência.

O capítulo cinco, Mudança social – prática e discurso, que igualmente integra a parte dois, parece destoar do foco desta parte, o que é perceptível por meio da comparação dos títulos das seções que o compõem com os das que constituem os outros dois capítulos da segunda parte – o quatro e o seis –, uma vez que não há referência alguma à etnografia. Observa-se que o capítulo cinco tem proximidade com o segundo do livro, pois nele os autores voltam a tratar da modernidade tardia ou posterior (os autores usam um termo no capítulo dois e outro no capítulo cinco) e da mudança social e, assim como no segundo capítulo, tecem considerações sobre os conceitos de prática social e de prática discursiva, estabelecendo uma distinção entre eles. A discussão sobre os dois conceitos é de grande interesse a todos os analistas do discurso e é tecida de modo a tornar mais claras as relações entre eles e a produtividade do trabalho com ambos em ADC. Entretanto, considerando-se o foco da primeira e da segunda parte do livro e o dos capítulos dois e cinco, o enquadramento destes não se mostrou o mais adequado. Uma inversão na ordem dos dois poderia contribuir para maior harmonia e fluidez do texto.

Quanto à terceira parte do livro, seu título – Um método de análise textual – anuncia que seu foco não é o diálogo da ADC com a etnografia, mas, sim, a ADC como um método de análise textual. Seguindo esse foco, nos capítulos que constituem tal parte são apresentadas análises de reportagens, de um relatório sucinto de uma reunião e de uma notícia. Ela é iniciada pelo capítulo 7, ADC e minorias – representação e peso político na esfera pública. Ao discorrerem sobre a ADC e minorias, os autores jogam luz a um caminho de diálogo e de possibilidades e apontam cinco frentes de lutas: “[…] o conhecimento e acompanhamento da situação social; a descoberta e preservação da identidade social; a luta por direitos e por mais democracia; a luta por espaço na esfera pública; e o empenho pela representação positiva na mídia.” (p.178). Além de explicarem cada uma, eles demonstram como a ADC pode ser útil na efetivação dessas frentes e analisam quatro reportagens publicadas em jornal, que tratam da situação das comunidades quilombolas na área rural de Alcântara no Maranhão. A análise contempla as dimensões do texto, da prática discursiva e da prática social.

No capítulo oito, Análise de Discurso Crítica: conceitos-chave para uma crítica explanatória com base no discurso, os autores relevam a interdisciplinaridade como uma das características comuns a todas as abordagens vinculadas à ADC. Como uma teoria preocupada com o funcionamento social da linguagem, a ADC não pode desconsiderar teorias do funcionamento da sociedade, o que significa um estabelecimento necessário de articulação entre a ADC e estas teorias. Magalhães, Martins e Resende também sublinham, como um dos aspectos centrais da ADC, a abordagem da relação de constituição mútua entre linguagem e sociedade e focalizam os conceitos de discurso, gênero e texto. Eles acreditam que a distinção entre esses conceitos tem sido uma das principais dificuldades dos estudantes na compreensão do modelo teórico-metodológico da ADC e que a confusão entre eles tem implicações teóricas que comprometem o trabalho empírico. Para ilustrar as distinções entre os termos, os autores apresentam um texto, Relatório sucinto da reunião, e o analisam de modo a esclarecer a concepção de discurso, de gênero e de texto e a auxiliar outros pesquisadores no desenvolvimento de seus estudos e análises.

O capítulo 9, intitulado Identidades e discursos de gênero, encerra a terceira parte do livro. Nele, os autores se propõem “examinar algumas contribuições dos estudos críticos do discurso” (p.213). Cabe destacar que é a primeira vez que Magalhães, Martins e Resende fazem referência a Estudos Críticos do Discurso (ECD) e que o fazem sem qualquer explicação acerca da relação desses estudos com a ADC e de modo que se constrói uma representação de que a ADC e os ECD são sinônimos, pois dão continuidade ao texto tratando da ADC sem voltar a mencionar os ECD, o que é um problema neste capítulo. Partindo da concepção de que as práticas incluem discursos, letramentos e identidades femininas e de que a notícia de jornal é um produto de práticas socioculturais, os autores analisam uma notícia de jornal sobre um crime contra uma mulher com o intuito de investigar a construção textual de identidades de gênero. Para isso, observam as escolhas lexicais, as relações intertextuais, os discursos articulados na notícia, as identidades de gênero construídas e os letramentos. Os autores destacam os resultados da análise, mas reafirmam que ela deve ser complementada pela pesquisa de natureza etnográfica, o que é coerente com o enfoque da obra. Cabe neste capítulo uma correção na figura 9.1 da p.230, em que o termo “interdiscursividade” está indevidamente repetido. A segunda ocorrência do termo deve ser substituída por intertextualidade, em conformidade com a análise desenvolvida no capítulo.

É inegável a contribuição desta terceira parte da obra. Todavia, considerando que há no Brasil várias publicações com exemplos de análises pautadas na ADC como método de análise textual, seria mais profícuo e apropriado ao enfoque da obra se a terceira parte fosse constituída de capítulos que trouxessem exemplos de pesquisas, com detalhamento de resultados, nas quais a relação de complementaridade entre ADC e etnografia tivesse sido estabelecida.

No tocante à conclusão, os autores fazem uma retomada de algumas bases nas quais se sustenta a ADC, mostrando em qual capítulo da obra elas foram contempladas, e chamam a atenção dos leitores para o fato de que a ADC, como teoria e método, está em construção e sujeita a reformulações, o que implica que tem limitações. Além disso, salientam que a relação complementar entre ADC e etnografia é muito benéfica para os dois campos, pois a ADC ganha com ela no que toca à validade e à consistência analítica e a etnografia ganha com a articulação com métodos para análise de textos e de interações desenvolvidos por analistas de discursos. Desse modo, a leitura deste livro é indispensável a estudantes, profissionais e pesquisadores interessados na análise das práticas sociais e não apenas na análise de sua representação no discurso, o que requer a realização de uma pesquisa etnográfico-discursiva. Ele constitui um convite e um incentivo ao desenvolvimento desse tipo de pesquisa.

Referências

FAIRCLOUGH, N. Análise Crítica do Discurso como Método em Pesquisa Social Científica. Tradução de Iran Ferreira de Melo. Linha d’Água, São Paulo, v.25, n.2, p.307-329, 2012. [ Links ]

FAIRCLOUGH, N. Analysing discourse: textual analysis for social research. Londres and New York: Routledge, 2003. 270 p. [ Links ]

Maria Aparecida Resende OTTONI – Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Instituto de Letras e Linguística, Uberlândia, Minas Gerais, Brasil. [email protected]

Dialogismo: teoria e(m) prática – BRAIT; MAGALHÃES (A-RL)

BRAIT, B .; MAGALHÃES, A. S. (org.). Dialogismo: teoria e (m) prática. São Paulo: Terracota, 2014. Série ADD, 322p. Resenha de: MARCHEZAN, Renata Coelho. Dialogismo em dezessete capítulos. Alfa – Revista de Linguística, São José Rio Preto, v.60 n.3, São Paulo set./ dez. 2016.

[…] De acordo com Bakhtin, […] o diálogo pode ser entendido como um modo que denota como a linguagem funciona, bem como um ponto de vista que estabelece um objeto de estudo. (BRAIT; MAGALHÃES, 2014).

Dialogismo: teoria e (in) prática, organizada por Beth Brait e Anderson Salvaterra Magalhães 1 , apresenta trabalhos de pesquisa sobre discurso, no marco bakhtiniano. Em seu prefácio, Carlos Alberto Faraco destaca sua importância e escreve sobre a contribuição de Beth Brait para a discussão das idéias do Círculo Bakhtin em vários momentos no Brasil. Além disso, ele aponta suas pesquisas mais recentes sobre o enunciado verbo-visual dentro de uma perspectiva dialógica 2 . Anderson Salvaterra Magalhães, orientado por Brait em seu doutorado, tem uma reputação reconhecida na mesma linha de pensamento.

Retiradas do texto introdutório de Brait e Magalhães, as palavras da epígrafe definem a teoria adotada e expõem a metodologia que norteia os capítulos. Ao reconhecer a natureza dialógica da linguagem, o pesquisador assume o papel de interlocutor em relação ao objeto de estudo. Assim, como os organizadores nos lembram, o objeto de estudo não é apenas caracterizado como cognoscível, mas também como cognoscitivo. Aí reside o desafio dos dezesseis capítulos que compõem o livro: a produção de conhecimento como resultado de uma interlocução teoricamente qualificada.

A coerência e a unidade do livro são reveladas nos títulos das partes em que estão organizados. Todos eles começam com a palavra “dialogismo” e são fundamentais para questionamentos específicos, centrais no Círculo de Bakhtin: dialogismo na produção do conhecimento, dialogismo na vida e dialogismo na arte. Seguindo essa organização, na primeira parte – Dialogismo: produção brasileira de conhecimento -, podemos encontrar três capítulos que tratam do gênero do discurso e outro que trata da tradução. No último, Sheila Vieira de Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova América, que estudam os trabalhos do Círculo Bakhtin e que traduziram três deles 3diretamente do russo para o português, exponha a relação desse conhecimento ao examinar a experiência de traduzir dentro do conceito bakhtiniano de enunciado. No caso analisado, é transmitido e recebido na esfera científica. Segundo os autores, o enunciado traduzido pressupõe tensão conceitual e estilística entre ser fiel ao texto original em russo e sua recepção em português; a relação com outros textos, que não são traduzidos diretamente do russo e estão disponíveis em português; e, o papel do contexto sócio-histórico e intelectual em que o texto original em russo foi produzido. Assim, o capítulo permite compor uma abordagem dialógica da obra traduzida, além de aprofundar a reflexão teórica,

Em um dos três capítulos já mencionados, que considera o conceito de gênero discursivo, Adail Sobral retoma suas reflexões anteriores e reforça uma proposta ampla e detalhada que permite que o conceito seja examinado. Antes de dar esse resultado, ele se preocupa com a distinção entre gêneros discursivos e textuais e, nesse sentido, desenvolve os conceitos de discurso e texto. O discurso é caracterizado como a articulação entre a materialidade definidora de texto e a situação de enunciação, entendida como posições sócio-históricas. Sobral destaca a “ênfase excessiva” do aspecto formal do gênero, lembrando que a abordagem dialógica a esse conceito pressupõe uma visão ideológica do mundo.

Uma preocupação semelhante com os procedimentos teóricos e metodológicos ao examinar os gêneros discursivos pode ser encontrada no capítulo de Anselmo Pereira de Lima, que, tendo esse objetivo em mente, tenta examinar um corpus muito original ,que exigia registros audiovisuais: eventos educacionais realizados em um centro de educação profissional com um professor, vários alunos e um assistente. A dinâmica de sua interação, a repetição e a recreação das atividades são o núcleo da análise realizada. Na pesquisa teórica em que se baseia seu estudo, Lima, assim como Sobral, sente a necessidade de distinguir texto e discurso. Baseado em LS Vygotsky, Lima define discurso como “processo”, cujo “produto” é o texto. Segundo esse entendimento, analisar o discurso exige a observação dos “aspectos mais importantes que constituem a história de seu desenvolvimento”. É uma análise explicativa da gênese do fenômeno, e não uma descrição de sua manifestação.

O estudo de Rodolfo Vianna também elege, como foco principal, o conceito de gênero discursivo para analisar o gênero jornalístico informativo. Como ele está interessado nas macro-características que são relativamente estáveis ​​no gênero, e não em seus detalhes e elementos variáveis, Vianna organiza sua reflexão em torno da polarização entre o gênero jornalístico informativo e opinativo. Nesse percurso, e levando em consideração a história constitucional e as transformações da esfera jornalística, analisa como o gênero é composto, tendo como referência principal o Guia de Estilo 4 do jornal Folha de São Paulo . Através do corpu analisados, Vianna registra a importância do efeito da objetividade, o posicionamento ideológico do veículo de comunicação e o funcionamento da esfera de atividade na construção do gênero jornalístico informativo. Todos os itens acima configuram um critério de objetividade relativo.

A segunda parte do livro – Dialogismo na vida – compreende sete capítulos dedicados a vários objetos. A reflexão de Anderson Salvaterra Magalhães, cujos objetivos estão relacionados ao processo de objetivação no jornalismo e aos atuais desafios da imprensa, permite uma interlocução produtiva com o capítulo de Vianna. Em vez de polarizar, Magalhães prefere examinar a articulação dos processos de objetivação e subjetivação na atividade jornalística. O desenvolvimento das análises do corpus, artigos premiados do jornal O Dia do Rio de Janeiro e as conclusões são norteadas pela inclusão de um componente ético. Na linha de Bakhtinian, Magalhães vê a objetificação como um exercício intersubjetivo, regido pela responsabilidade ética.

O estudo de Beth Brait e Bruna Lopes-Dugnani examina a linguagem das ruas. Analisa as manifestações de junho de 2013 no Brasil – momento de interlocução especial, que não poderia ser deixada de fora da perspectiva bakhtiniana – com o objetivo de compreender os discursos que expressam reivindicações, bem como os sujeitos que os enunciam e suas formas de enunciação. Baseada principalmente no conceito de enunciado verbo-visual, desenvolvido anteriormente por Brait, a análise concentra-se principalmente em dois tipos de enunciado, o pôster e a máscara, arma e escudo, que compreendem o jogo de contar, ao mesmo tempo, seriedade e seriedade. brincalhão. A reflexão descreve a multidão, encontrando “versões do mesmo”, vozes coletivas e reiterações de discurso. Desse modo, ele descobre a “gênese do discurso”, incorporando discursos consolidados do local de trabalho, de violência e até de nacionalismo. O artigo também apresenta outra perspectiva e, olhando atentamente para os participantes, é capaz de identificar, entre os traços coletivos, individuais, principalmente na caligrafia e nos gestos.

Ainda focada em enunciados verbo-visuais, Miriam Bauab Puzzo seleciona três capas da Revista Veja que apresentam o ex-presidente Lula, em diferentes momentos históricos. Ela os analisa admiravelmente, caracterizando a interlocução jornalística e histórica sendo promovida; descrever sua forma arquitetônica, constituída na articulação da linguagem verbal e visual; e examinando seu tom avaliativo que muda de acordo com o momento histórico.

Baseado no pensamento bakhtiniano e colocado em um diálogo teórico com a retórica e a nova retórica, o capítulo de Maria Helena Cruz Pistori examina a repercussão de um crime ocorrido em 1997 e seu julgamento nas páginas dos jornais Folha de São Paulo e Correio Brasiliense . No estudo desse objeto, que visa captar a relação entre discursos jurídicos e jornalísticos, são revelados os valores, especificidades e coerções dessas esferas. As caracterizações não são atemporais; eles não representam a esfera jurídica e jornalística de nenhum período, pois lidam com a imprensa e o sistema jurídico contemporâneos. O corpus perspicaz A análise leva à seguinte conclusão: “[…] independência e autonomia do sistema jurídico, próximas à liberdade de expressão da imprensa […] não são valores contraditórios democráticos, mas estão mutuamente abertos à influência em diferentes níveis em nosso mercado liberal economia.”

Numa proposta original, Vinícius Nascimento recorre ao dialogismo para avaliar sua contribuição para a formação de tradutores / intérpretes de língua de sinais e português. Com esse objetivo, ele explora conceitos pertinentes do arcabouço bakhtiniano para estabelecer as bases para a interlocução entre tradutores / intérpretes e surdos, podendo extrair uma proposta para a formação desses profissionais.

Ainda na segunda parte do livro, dois capítulos examinam os livros didáticos. Cláudia Garcia Cavalcante e Regina Braz Rocha escrevem sobre a prática de texto para alunos 5 de CA Faraco e C. Tezza e aulas de redação 6por B. Brait, JLCA Negrini e NRP Lourenço, respectivamente. O primeiro artigo enfoca a interação entre autor e aluno / leitor promovida pelo livro didático e como ele orienta as atividades na sala de aula. As análises, principalmente na seção Prática do Texto, identificam os pontos de vista enunciativos do autor e os dados aos alunos / leitores, além de qualificar a relação estabelecida entre eles. O segundo artigo aborda a gramática e a alfabetização verbo-visual, e nos faz pensar: “Que contribuições o ensino de gramática oferece para desenvolver a alfabetização verbo-visual aos alunos do ensino médio?”. O artigo examina o livro selecionado e prova como ele responde concretamente a essa pergunta, examinando as atividades propostas que tratam de enunciados verbo-visuais.

Na terceira e última parte do livro – Dialogismo na arte -, a literatura não pode ser deixada de fora, mas há capítulos que exploram uma exposição de arte, Jorge Amado e Universal 7 ,e textos publicitários de uma peça de teatro. Adriana Pucci Penteado de Faria e Silva apresenta uma análise sensível da exposição de arte, adequada ao objeto artístico, e é meritória ao mostrar como abordar um objeto múltiplo, fundamentada em uma teoria que foi originalmente concebida para analisar textos verbais. Familiarizada com a obra de Jorge Amado, a pesquisadora, sem perder seu rigor, parece percorrer a exposição, ouvindo e possibilitando ouvir a voz da autora, que às vezes é o narrador, e a das personagens, possibilitando ver o que ela vê. Ela também é conduzida pela voz do curador, suas enunciações que, segundo a análise, refletem e refratam a poética de Amado.

Jean Carlos Gonçalves leva o teatro à terceira parte do livro. Numa ampla reflexão sobre o teatro, que leva em conta não apenas o espetáculo, mas também as fases da peça escrita, construção e recepção cênica, ensaios, conversas com o público, críticas especializadas etc., Gonçalves examina dois enunciados verbo-visuais selecionados que anunciam o espetáculo Black Circus 8 . Ele analisa e contextualiza o espetáculo, a empresa e caracteriza seu estatuto de marketing de maneira dialógica, sua forma de convite , que ecoa Picasso, o universo circense e os símbolos teatrais.

Elaine Hernandez de Souza nos traz fábulas e faz uma análise cuidadosa, com uma metodologia explícita, das diferenças encontradas em The Ant e the Grasshopper por Aesop, La Fontaine e Lobato; levando em conta as ilustrações, ela também descreve a relação não convergente entre o texto verbal e os desenhos. Souza, portanto, considera as enunciações verbo-visuais das fábulas e caracteriza as relações dialógicas estabelecidas entre as fábulas, entre a materialidade linguística e imaginária, entre cada fábula e seu contexto sócio-histórico, bem como entre a vida cotidiana e a arte encontradas nos textos.

Os dois últimos capítulos analisam Barren Lives 9 e The Devil to Pay in the Backlands 10 . Maria Celina Novaes Marinho coloca Vidas estéreis em foco dialógico e caracteriza a articulação de vozes, que constrói a arquitetura do texto. Marinho reconhece os personagens como “seres que falam, não apenas sendo mencionados pelo autor”. Ela sinaliza grupos de identidade que são definidos em sua luta um contra o outro e examina a representação das diferentes vozes, formas de citação, tons agradecidos, a relação entre o mundo interno e o externo. Lá encontramos uma teoria precisa, análise fina e equilíbrio entre os dois.

No último capítulo, Sandra Mara Moraes Lima quer ouvir a voz materna, que ecoa em O diabo a pagar no sertão.Ela afirma que seu objetivo não é analisar todo o trabalho, mas pretende “promover uma reflexão sobre a linguagem e o homem, seu ser / fazer no mundo”. Primeiramente, procura o papel do discurso da mãe na aquisição e construção da linguagem infantil na teoria de Bakhtin; então, a autora se dedica ao reconhecimento, nas palavras de Riobaldo, da ressonância da voz da mãe, uma voz que ele tem sempre “reverenciado”. Seguindo esse caminho, e aceitando a proposição da analogia que considera o trabalho de Guimarães Rosa “um retrato do Brasil”, o capítulo examina como esse texto literário refrata o papel das mulheres na sociedade, bem como o papel das mestiças na construção da identidade do país .

Dialogismo: teoria e (in) prática é um estudo amplo e denso que permite a compreensão das idéias de Bakhtin, a promoção de seu debate e desenvolvimento. Como tentamos mostrar, o livro insiste principalmente em um ou outro conceito, sobre o qual mais é escrito, trazendo luz à sua atualidade e produtividade. Ao mostrar a contribuição das idéias de Bakhtin que operam nos domínios atuais dos estudos do discurso, o livro orienta o leitor a reconhecer a articulação de vozes que preside e esclarece os mais variados corpora analisados. Assim, são coletadas contribuições teóricas e resultados de análises, além de questionamentos metodológicos e aplicações educacionais.

Referências

BAKHTIN, MM Questões de estilística no ensino da língua . Tradução de posfácio e notas de Sheila Camargo Grillo; Ekaterina Vólkava Américo; apresentação de Beth Brait; organização e notas de edição russa Serguei Botcharov e Liudmila Gogotichvíli. São Paulo: 34, 2013. [  Links  ]

BRAIT, B. Olhar e ler: verbo-visualidade em perspectiva dialógica. Bakhtiniana , São Paulo, v.8, n.2, p. 43-66, jul./dez. 2013. [  Links  ]

LIMA, AP de. Procedimentos teóricos-metodológicos de estudo de gêneros do discurso: atividade e oralidade em foco. In: BRAIT, B .; MAGALHÃES, AS (Org.). Dialogismo : teoria e (m) prática. São Paulo: Terracota, 2014. p. 37-53. (Série ADD). [  Links  ]

MEDVIÉDEV, PN O método formal nos estudos literários : introdução crítica a uma poética sociológica. Tradução de Ekaterina Vólkava Américo e Sheila Camargo Grillo. São Paulo: Contexto, 2012. [  Links  ]

VOLOCHÍNOV, VN Marxismo e filosofia da linguagem : problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução de Ekaterina Vólkava Américo e Sheila Camargo Grillo. São Paulo: 34, [20–]. No prelo. [  Links  ]

1 resenha de BRAIT, B .; MAGALHÃES, AS (Org.) Dialogismo : teoria e (in) prática. São Paulo: Terracota, 2014. (Série ADD). 322p.

Brait (2013) se destaca, cuja importância também pode ser vista no livro revisado aqui.

3 Especificamente: Medviédev (2012) , Bakhtin (2013) ; Volochínov ([20–]) .

4 Título original em português: Manual de redação.

5 Título original em português: Prática de texto para estudantes.

6 Título original em português: Aulas de redação.

7 Título original em português: Jorge Amado e Universal.

8 Título original em português: Circo Negro.

9 Título original em português: Vidas Secas.

10 Título original em português: Grande Sertão: Veredas.

Renata Coelho MARCHEZAN – UNESP – Universidade Estadual de São Paulo “Júlio de Mesquita Filho”. Faculdade de Ciências e Letras. Araraquara – SP – Brasil.14800-901 – [email protected]

Linguagem e discurso : modos de organização – CHARAUDEAU (A-RL)

CHARAUDEAU, Patrick. Linguagem e discurso : modos de organização. São Paulo: Contexto, 2014. 256p. Alfa – Revista de Linguística, São José Rio Preto, v.60 n.3 São Paulo set./ dez. 2016.

Organizado por Aparecida Lino Paulikonis e Ida Lucia Machado, o livro “Linguagem e fala: esquemas organizacionais”, de Patrick Charaudeau, publicado pela Contexto, é o resultado de um esforço conjunto do Círculo Interdisciplinar de Análise do Discurso (ICDA, Rio), de a Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FURJ) e o DAC (Centro de Análise de Discurso) da Universidade Federal de Minas Gerais (FUMG), Faculdade de Artes, no Brasil, e o Center d`Analyse Du Discours ( CAD), de Paris XIII, na França. Durante anos, os laboratórios mencionados mantiveram contato com o CAD, por meio de convênio entre CAPES / COFECUB, e essas parcerias trouxeram contribuições interessantes para a pesquisa. No entanto, apesar desses relacionamentos importantes, os pesquisadores perceberam que uma parte importante dos estudos de Patrick Charaudeau ainda não estava ao alcance do público brasileiro. Uma vez evidente essa lacuna, e reconhecida a importância do trabalho de Charaudeau, pesquisadores do contexto brasileiro reuniram-se em torno de alguns de seus escritos, especialmente aqueles que refletem as linhas gerais de sua Teoria Semiolinguística, traduzindo e adaptando-os ao idioma português, o que resultou em este livro.

Os organizadores apontam para a noção de “adaptação” e mencionam que é possível que muitos pesquisadores que já estudaram a Teoria Semiolinguística reconheçam algumas passagens de trabalhos publicados desse autor. No entanto, sob a supervisão do próprio autor, essa equipe organizou uma mistura de vários escritos, transformando esse trabalho em novo material, em comparação com uma tradução simples. Nessa perspectiva, muitos conceitos foram revisados ​​ou remodelados nesta edição, várias tabelas foram revisadas e apresentadas novamente, de acordo com o estado atual da teoria, várias outras reformulações ganharam tons contemporâneos e os exemplos foram trazidos à realidade do contexto brasileiro. O trabalho é justificado por várias razões. O linguista que o inspirou sempre expôs conceitos inovadores sobre Análise do Discurso, entre os quais a “Lei da Língua” e os papéis atribuídos aos diferentes sujeitos participantes, sujeitos fitossociais e aqueles que trabalham com a linguagem, internos e externos a essa Lei; a importância atribuída ao sentido explícito e implícito, sempre considerando as circunstâncias do discurso que determinam tal ato; os contratos que os regem, os diferentes procedimentos discursivos pelos quais o discurso pode ser organizado e de ordem expositiva, descritiva, narrativa e argumentativa (CHARAUDEAU, 2014, p.10). O livro segue duas das principais linhas de pensamento de Patrick Charaudeau. O primeiro apresenta uma reflexão sobre o discurso, os protagonistas do ato da linguagem e sua relação com o sentido discursivo; o segundo destaca princípios básicos que se referem à organização discursiva de diferentes atos de comunicação que enfrentamos como sujeitos falantes durante nossas vidas. Vale ressaltar que, em determinados momentos, os organizadores questionam a forma como os esquemas de organização da fala são abordados pelos livros didáticos e o ensino da língua portuguesa nas escolas (CHARAUDEAU, 2014, p.107). Com o objetivo de entender melhor esta questão, os professores apresentam uma definição e uma função atribuída a eles, todas devidamente explicadas através de exemplos de textos jornalísticos, literários e da internet, além de livros didáticos. questionar a maneira como os esquemas de organização da fala são abordados pelos livros didáticos e pelo ensino da língua portuguesa nas escolas (CHARAUDEAU, 2014, p.107). Com o objetivo de entender melhor esta questão, os professores apresentam uma definição e uma função atribuída a eles, todas devidamente explicadas através de exemplos de textos jornalísticos, literários e da internet, além de livros didáticos. questionar a maneira como os esquemas de organização da fala são abordados pelos livros didáticos e pelo ensino da língua portuguesa nas escolas (CHARAUDEAU, 2014, p.107). Com o objetivo de entender melhor esta questão, os professores apresentam uma definição e uma função atribuída a eles, todas devidamente explicadas através de exemplos de textos jornalísticos, literários e da internet, além de livros didáticos.

O trabalho visa: 1) mostrar a visão de Charaudeau sobre a Lei da Língua. É um fenômeno rico e complexo da comunicação, atividade que ocorre no teatro da vida individual de cada um e cuja colocação em cena resulta de vários componentes lingüísticos e situacionais; 2) divulgar ao público brasileiro noções consistentes e claras analítico-discursivas, excelentes ferramentas teóricas que podem ser aplicadas na análise de diferentes “corpora” vinculados a esse tema tão fluido e fascinante que é o Discurso (CHARAUDEAU, 2014, p. 10) Em seu prefácio, traduzido por Angela MS Correa, o próprio Patrick Charaudeau afirma que o livro é um trabalho de adaptação desse grupo de pesquisa brasileiro a partir de algumas de suas anotações e espera que o material permita a todos os pesquisadores e professores, bem como todos os amantes da linguagem , analisar as especificidades dos discursos que circulam na sociedade brasileira, pois é verdade, segundo ele, que todo discurso é um testemunho das especificidades culturais de cada país. Ao fazer tal afirmação, o autor mostra a importância do trabalho para todos os pesquisadores brasileiros que dedicam parte de seu tempo ao estudo da análise de linguagem e discurso. Essa posição atende aos objetivos propostos pelos pesquisadores de três laboratórios que não mediram esforços para criar oportunidades, através da publicação deste livro, de disseminar as idéias de Charaudeau no contexto brasileiro. “Uma problemática semiolinguística no estudo da fala” é o título da primeira parte do livro, com foco no tratamento de problemas na análise do discurso. No inicio, Ao se aproximarem dos limites do território da Análise do Discurso, os organizadores apontam que propõem realizar um primeiro caminho, chamado por eles de “campo da linguagem”, deixando claro que tal exploração não será de natureza não histórica e não exegética . O texto traz algumas reflexões sobre o que certas teorias linguísticas e semióticas propõem como atitudes diante da linguagem, destacando, entre as conclusões, que o processo de comunicação não é resultado de uma única intenção, uma vez que é necessário considerar não apenas o que poderia ser declarado intenções do emissor, mas também o que diz que o idioma age sobre a relação particular que vincula o emissor e o destinatário. A idéia é que um determinado ato de linguagem pressuponha que nos perguntemos sobre ele, sobre as diferentes leituras que é provável que ele sugira, o que nos leva a considerá-lo como um objeto duplo, constituído por um explícito (o que é expresso) e um implícito (lugar de múltiplos sentidos que dependem das condições de comunicação) (CHARAUDEAU, 2014, p.17). Como resultado, o texto traz a afirmação de que uma Análise Semiolinguística do Discurso é semiótica ao examinar um objeto que só se constitui através da intertextualidade. O último depende dos assuntos da língua, buscando extrair dela um possível significante. O texto também afirma que uma análise do discurso semiolinguística é lingüística, devido ao fato de o instrumento utilizado para interrogar o sujeito ser construído a partir de um conceito estrutural de fatos do trabalho desenvolvido por quem trabalha com a linguagem. Em outras palavras, essas diferentes atitudes em relação à linguagem apresentadas por Charaudeau se referem a diferentes maneiras de ver os objetos,

O texto chama a atenção para o fato de levar o leitor a pensar em certas questões, que resumem os objetivos da proposta semiolinguística. Esses questionamentos referem-se a conceitos de signos, comunicação e competência linguística e funcionarão, a partir de agora, como eixos em torno dos quais outras seções do livro serão desenvolvidas. Como resultado, no primeiro semestre, é possível ver a ênfase na questão da dupla dimensão, explícita e implícita, do fenômeno da linguagem. De maneira bastante didática, a partir de definições e exemplos por meio de equações e diagramas, os organizadores lideram a discussão sobre o Núcleo Metadiscursivo. A relação dialógica do ato de fala, enquanto produção e interpretação, é evidenciada, por exemplo, pela explicação de contratos e estratégias de fala. As situações de comunicação são apresentadas em detalhes e os assuntos da linguagem são definidos: destinatário, intérprete, locutor e comunicante. O ato de linguagem como ato inter-enunciativo implica o suposto conhecimento que circula entre os protagonistas da linguagem; o sujeito, produtor do ato de linguagem e o interlocutor, sujeito desse ato. A questão da produção e recepção, em relação à linguagem como encenação, é um ponto central do trabalho.

Terminando a primeira parte do livro, os pesquisadores afirmam que, para analisar um ato de linguagem, é importante considerar não apenas a intenção do sujeito que se comunica, mas também quem o texto induz a falar ou que assuntos o texto induz a conversa, que, de uma perspectiva semiolinguística, dá origem a possíveis ações interpretativas.

A segunda parte do livro trata da organização do discurso e é dividida em princípios de organização do discurso, modo de organização da enunciação, modo de organização descritivo, modo de organização narrativa e argumentativa. Esses cinco textos são divididos em vários tópicos muito didáticos, apresentando exemplos ilustrativos, o que facilita a compreensão da leitura. Ao enfocar os princípios de organização da fala, os organizadores enfatizam que o livro é uma adaptação da última “Gramática do Significado e Expressão”, produzida por Patrick Charaudeau em 1992, direcionada aos leitores brasileiros e cujo conteúdo é o verdadeiro fundamento da linguagem: o discurso (CHARAUDEAU, 2014, p.67). Como o foco está na comunicação, o texto descreve que comunicar é agir e, portanto,

Finalmente, o livro concentra-se em encenações discursivas e gêneros a partir de reflexões envolvendo o assunto comunicação, textos e gêneros. Como a pesquisa nesse campo da análise de discurso ainda não é conclusiva, os organizadores apresentam uma tabela com algumas correspondências entre modos de discurso e gêneros.

Em relação ao modo de organização da enunciação, os editores, de maneira emblemática, retornam o foco aos protagonistas, aos seres da fala, internos à linguagem. O texto descreve que enunciar é organizar as categorias da linguagem e distinguir as três funções do modo de enunciação: estabelecer uma relação de influência entre o falante e o ouvinte (comportamento ALOCUTIVO), revelar os pontos de vista do falante (comportamento ELOCUTIVO) e retornar à fala de um terceiro personagem (comportamento DELOCUTIVO) (CHARAUDEAU, 2014, p.82).

Posteriormente, o trabalho explica os procedimentos dessa construção enunciativa, classificados como lingüísticos e discursivos. Para ilustrar, são apresentados alguns procedimentos do primeiro item: interpelação, liminar, autorização, sugestão, apreciação, possibilidade, proclamação, declaração, promessa. Os procedimentos discursivos são descritos em diferentes modos de organização da fala, ao longo do trabalho, considerando que provêm dos efeitos do conhecimento, realidade / ficção, confidencialidade e gênero (cenário descritivo), a fim de envolver o leitor nos modos, estatutos e pontos de intervenção visão do narrador (cenário da história) na posição diferente do sujeito argumentativo e valores atribuídos aos argumentos (cenário argumentativo). Depois de mostrar uma imagem ilustrativa dos procedimentos enunciativos de construção, descrevendo a relação entre comportamentos enunciativos e as especificações enunciativas, bem como as categorias de linguagem correspondentes, cada uma dessas categorias de linguagem é discutida em detalhes. Numa abordagem criativa e crítica, os organizadores discutem, finalmente, os modos de organização descritivo, narrativo e argumentativo, questionando a metodologia com a qual esses modos de organização são abordados nos exercícios escolares. Com o objetivo de esclarecer essas abordagens errôneas, é possível implicar, nesses três textos finais, a tarefa de definir esses modos e suas funções. Os exemplos ilustrativos de diferentes fontes, como artigos de jornal, livros didáticos, textos literários e textos da internet foram explorados com eficiência, o que pode levar os professores a pensar sobre as abordagens linguísticas a serem usadas nas aulas.

Também se destacou a equipe responsável pelo trabalho de tradução, constituído por Angela Maria da Silva Correa (ICDA-RIO), Emília Mendes (NAD-FUMG), Lilian Manes de Oliveira (ICDA-RIO), Lucia Helena Martins Gouvêa (ICDA). -RIO), Marco Barbosa Venicio (ICDA-RIO), Norma Cristina Guimarães Braga (ICDA-RIO) e Rosane Santos Mauro Monnerat (ICDA-RIO). A dedicação desses profissionais possibilitou, através de um competente trabalho de tradução, a circulação das idéias de Charaudeau no contexto brasileiro.

É um trabalho cheio de méritos, dentre os quais merecem destaque os exemplos ilustrativos e a maneira didática de definir os termos. A linguagem e a fala podem ser caracterizadas como instrumentos para analisar adequadamente as especificações dos discursos que circulam na sociedade brasileira.

Além de contribuir para o enriquecimento das discussões sobre Análise do Discurso, este livro divulga as idéias de Patrick Charaudeau. Nesse sentido, este livro não se destina apenas a estudiosos da linguística, mas também a todos aqueles que desejam entender melhor o processo de comunicação. Em suas 256 páginas, o trabalho pode atingir a meta que se estabeleceu e esclarecer as anotações de Charaudeau, tornando-se, portanto, relevante também para iniciantes nas teorias da análise de discurso, especialmente na Teoria Semiolinguística.

Antonio Escandiel de SOUZA – UNICRUZ – Universidade de Cruz Alta. Cruz Alta – RS – Brasil. 98005-000 – [email protected]

LaborHistórico | UFRJ | 2015

LaborHistorico LaborHistórico

LaborHistórico é uma revista quadrimestral on-line dos Programas de Pós-graduação em Letras Vernáculas (PPGLEV) e Letras Neolatinas (PPGLEN), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil. Tem como foco estudos desenvolvidos a partir de fontes escritas nos quais se destaque o labor do pesquisador diante de seu material de trabalho.

Nessa temática, são bem-vindas contribuições de distintas áreas do saber, como Filologia (Crítica Textual), Linguística (sobretudo Linguística Histórica), Literatura, História e Paleografia.

Além da publicação de artigos, agrupados eventualmente em dossiês temáticos, a estrutura da revista prevê seções dedicadas a resenhas, traduções de textos clássicos e publiçação de fontes primárias.

A revista aceita contribuições em português, galego, espanhol, italiano, francês ou inglês.

Periodicidade quadrimestral

Acesso livre

ISSN 2359-6910

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Muerte y vitalidad de las lenguas indígenas y las presiones sobre sus hablantes – TERBORG; GARCÍA LANDA (A-RL)

TERBORG, R.; GARCÍA LANDA, L. (Org.). Muerte y vitalidad de las lenguas indígenas y las presiones sobre sus hablantes. México: UNAM: CELE, 2011. 285p. Resenha de: KERSCH, Doritea Frank. Morte e vitalidade das línguas indígenas e as pressões sobre seus falantes. Alfa – Revista de Linguística, São José Rio Preto, v.57 n.2 São Paulo  2013.

Si no respiras,
no existe el aire.

Si no caminas,
no existe la tierra.

Si no hablas,
no existe el mundo.1

No documento Vitalidad y peligro de desaparición de las lenguas, a UNESCO (2003) deixa claro que a diversidade linguística integra o patrimônio da humanidade, já que cada língua traz embutida a sabedoria cultural de um povo. Logo, o desaparecimento de uma língua implica uma perda irrecuperável para a humanidade. Segundo o documento, embora ainda existam em torno de 6.000 línguas faladas, muitas estão ameaçadas e correm o perigo de desaparecer. Há, inclusive, idiomas com milhares de falantes que já não são ensinados às crianças. Além disso, pelo menos metade dessas línguas ainda existentes estão perdendo falantes. Calcula-se que 90% de todas as línguas poderiam ser substituídas por outras dominantes até o final deste século. Nesse sentido, é imperiosa a sua documentação, a adoção de novas políticas e a produção de novos materiais para que se reforce a sua vitalidade. Paradoxalmente, em torno de 97% da população mundial fala cerca de 4% das línguas do mundo, enquanto os outros 96% de línguas minoritárias são faladas por 3% da população (BERNARD, 1996 apud UNESCO, 2003).

Segundo Trujillo Tamez e Terborg (2009), o México é um dos oito países que concentram a metade das línguas que se falam no mundo: são 364 variantes pertencentes a 68 agrupamentos de 11 famílias linguísticas (INALI, 2008 apud TRUJILLO TAMEZ; TERBORG, 2009). Dessas 364 línguas, apenas 10% são ensinadas na escola e 50 delas correm o risco de desaparecer. Assim, é mais do que urgente divulgar os resultados das pesquisas relacionadas a essas línguas, de modo que eles ajudem a construir as políticas linguísticas do México e dos países alinhados à concepção da UNESCO de que não é importante somente preservar a biodiversidade, mas também é preciso lançar nosso olhar sobre a ecologia linguística, já que o mundo é constituído por pessoas, que, por sua vez, se constituem na e pela linguagem. Ou, como afirma o documento da UNESCO (2003, p.2): “[…] la extinción de una lengua significa la pérdida irrecuperable de saberes únicos, culturales, históricos y ecológicos. Cada lengua es una expresión irremplazable de la experiencia humana del mundo.2

O livro Muerte y vitalidad de las lenguas indígenas y las presiones sobre sus hablantes vem divulgar as contribuições de um grupo de pesquisadores da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) para a comunidade. Apresenta trabalhos decorrentes do projeto “La vitalidad de las lenguas indígenas de México: um estudio em três contextos”, coordenado por Laura García Landa e Roland Terborg (2011), e acha-se vinculado à linha de pesquisa “Política y planificación del lenguage”, do Departamento de Linguística Aplicada, do Centro de Ensino de Línguas Estrangeiras (CELE) da UNAM. O conteúdo do livro faz parte de um conjunto de resultados das pesquisas realizadas pelos autores, no âmbito da referida linha de pesquisa, na última década. A obra traz importantes contribuições para o conhecimento necessário ao desenvolvimento de uma política linguística adequada à manutenção das línguas vernáculas no México. Os organizadores, Roland Terborg e Laura García Landa (2011), apresentam um modelo denominado ecologia das pressões, que mostra como as atitudes, necessidades, valores, crenças e ideologias exercem pressão, influindo na manutenção ou substituição de uma língua. Esse modelo é usado para explicar os dados de cada um dos estudos apresentados no livro.

Os três contextos considerados por Terborg e García Landa (2011) para a divisão das comunidades em estudo foram o suburbano (muito próximo a cidades ou mesmo pertencentes a algum bairro), o rural de fácil acesso (quando se trata de comunidades ligadas por rodovias asfaltadas) e o rural de difícil acesso (sem ligação com boas rodovias). Essa divisão permitiu identificar o grau de isolamento das comunidades e as necessidades de seus falantes, o que implica diferentes tipos de pressão para manter ou substituir a língua indígena pelo espanhol.

Nos estudos desenvolvidos e apresentados nessa obra, os autores consideraram os nove fatores do documento da UNESCO (2003) como fundamentais para avaliar a vitalidade das línguas minoritárias: a transmissão da língua de uma geração à outra; o número absoluto de falantes; a proporção de falantes no conjunto da população; as mudanças na utilização da língua; a resposta a novos âmbitos e mídias; a disponibilidade de materiais para o ensino e aprendizagem da língua; as atitudes e políticas do governo e instituições em relação à língua; as atitudes dos falantes em relação à língua que falam; e o tipo e qualidade da documentação linguística existente sobre a língua. Para a investigação cujos resultados são apresentados no livro, os pesquisadores se utilizaram principalmente do critério “proporção de falantes no conjunto da população”. Todos os trabalhos compilados no livro, além de terem o foco na máxima facilidade compartilhada (cujo conceito se acha adiante neste texto) como pressão para usar ou não a língua indígena, também levaram em conta, para a avaliação da vitalidade da língua estudada, a transmissão da língua de uma geração a outra, as atitudes dos falantes em relação à própria língua, e o uso da língua nos diferentes domínios.

O livro acha-se dividido em dez capítulos. No primeiro e no último, Terborg e García Landa (2011) discutem as bases teóricas e os conceitos-chave em que os oito estudos apresentados se apoiam. Cada um dos capítulos de 2 a 9, portanto, dá conta da análise da vitalidade/substituição (language shift) de línguas indígenas faladas em oito regiões do México: mixe em San Juan Bosco Chuxnaban e em San Lucas Camotlán; p’urhépecha em Santa Fe de la Laguna; totonaca em Mecapalapa, Pantepec, Puebla; otomí, em Santiago Mexquititlán, Querétaro e em San Cristóbal Huichochitlán do estado do México; náhuatl em Xoxocotla, Morelos; e matlazinca no estado do México. Além da descrição do estado atual da língua na comunidade em estudo, analisam a pressão causada pela máxima facilidad compartida (MFC), considerada uma das mais decisivas na mudança e manutenção da língua autóctone, como será detalhado na sequência.

No primeiro capítulo, “Las presiones que causan el desplazamento-mantenimiento de las lenguas indígenas. La presentación de un modelo y su aplicación3, Terborg e García Landa apresentam o modelo da ecologia das pressões, as quais atuam tanto favorável quanto contrariamente à língua indígena, como mostram os estudos apresentados no livro. Ao fazer menção à ecologia, os autores partem do princípio de uma ecologia em movimento, considerada resultado de um processo dinâmico, em que determinadas forças entram em ação. Assim, uma ecologia estável é afetada quando aumentam as pressões sobre uma parte dos falantes em uma situação de contato. Quando essas pressões entram em conflito, emerge o poder de uma sobre a outra, deixando essa última em desvantagem. A pressão, portanto, nem sempre é equilibrada, e, nesse caso, na interação, vai pesar mais sobre um dos interlocutores.

A cada interação, que é compartilhada entre indivíduos, ocorre uma negociação de sentido. Se há mais de um sistema à disposição dos falantes, a conversação chega a um equilíbrio do sistema (ou dos sistemas, no caso da mescla linguística), levando-os a optarem por aquele que exigir a menor atenção deles, ou seja, chegam a uma facilidade que lhes permite desenvolver a conversação sem esforço. A máxima facilidade compartilhada, portanto, é a variedade linguística que compartilham duas ou mais pessoas em determinadas situações, tratando de temas específicos. O conceito da facilidade compartilhada não se limita ao conhecimento da língua, mas compreende todo o conhecimento sobre o mundo e baseia-se na história comum dos indivíduos envolvidos, sempre e quando esse é compartilhado e automatizado. A facilidade compartilhada e os interesses dos indivíduos (compostos pelas crenças, valores, ideologias e necessidades) originam as pressões.

Nos capítulos 2 e 3, Isela Trujillo Tamez ocupa-se da língua mixe falada duas comunidades: Chuxnaban e San Lucas Camotlán. Em “La vitalidad de la lengua mixe de San Juan Bosco Chuxnaban4, faz uma descrição da língua, das regiões em que o mixe é falado, da forma de vida da população que o fala, traçando o perfil sociolinguístico de seus falantes. Seu recorte, no capítulo dois, é, como registra o título, San Juan Bosco Chuxnaban, uma comunidade rural de difícil acesso, condição que favoreceu a manutenção da língua. Hoje, 20% da população de Chuxnaban ainda é monolíngue, característica mais presente entre as mulheres adultas. Segundo a autora, já não são muitas as comunidades com isolamento geográfico associado às características socioeconômicas (produção de café para o mercado externo, seu principal produto, sempre foi negociado por um intermediário, o que não exerceu pressão para que usassem mais o espanhol). Essas características contribuem para a vitalidade do mixe nessa comunidade. Para o estudo desenvolvido, a autora considerou as variáveis: conhecimento do espanhol pelos falantes, o uso da língua na família nos diferentes grupos etários, o papel da mulher na transmissão da língua, e o uso da língua em diferentes domínios – família, assembleia comunitária, igreja e escola.

Os dados da autora mostram que, embora o mixe em tenha uma vitalidade importante em Chuxnaban, observa-se um avanço do bilinguismo, que ainda pode ser caracterizado como receptivo ou pouco desenvolvido. Além disso, a comunidade ainda não registra monolíngues em espanhol. Ao olhar para os quatro domínios acima, Trujillo Tamez percebe que, na família e na assembleia comunitária, o mixe se sobrepõe ao espanhol, enquanto na igreja e na escola, as duas línguas têm o mesmo nível de funcionalidade – na igreja apresenta-se uma situação bilíngue e, na escola, se promove o uso predominante do espanhol, o que pode ter impactos importantes para o futuro do mixe.

Já no terceiro capítulo, “Situación sociolinguística del mixe en San Lucas Camotlán5, Trujillo caracteriza a comunidade em estudo, a qual, desde 2002, passou a ser servida por uma rodovia. Para identificar as pressões vividas em relação à língua indígena, o levantamento sociolinguístico considerou as seguintes variáveis: o grau de bilinguismo, a transmissão intergeracional, o uso da língua nos diferentes domínios, as atitudes em relação à língua, a educação, a economia e a migração, e a participação governamental. Os falantes vivem diferentes pressões em situações de substituição-manutenção linguística, o que implica usos diferentes da língua. De igual maneira, as pressões são percebidas de forma diferente pelos falantes da comunidade. Em algumas famílias, por exemplo, que dependem do trabalho migratório para garantir suas necessidades, o espanhol passa a ser importante; em outras, em que o trabalho agrícola é a fonte de subsistência, predomina o uso do mixe.

Em San Lucas Caamotlán, a MFC se desenvolve em mixe, ainda que o grau de bilinguismo surpreenda, em função do isolamento em que a comunidade vivia até 2002. A autora conclui seu artigo afirmando que as pressões que mais favorecem o mixe provêm do grau de bilinguismo, do uso e transmissão da língua e o uso em diferentes domínios; já o espanhol é favorecido pelos meios de comunicação, participação governamental e educação. Nessa comunidade, as pressões decorrentes das atitudes e da situação econômica e da migração são individuais e familiares.

Gabriel Rico Lemus, em “Resistencia y mantenimiento de la lengua p’urhépecha en Santa Fe de la Laguna, Michoacán6, afirma que, com a urbanização e expansão das redes de comunicação no México, comunidades indígenas isoladas são cada vez mais raras. Ainda que não se possam negar esses serviços às comunidades, isso aumentará as pressões para aprender o espanhol e pode levar à substituição da língua indígena (como mostra Trujillo Tamez, em relação ao mixe). Chama a atenção, entretanto, no caso do p’urhépecha em Santa Fe de la Laguna, que, apesar da convivência com os hispanofalantes, conserva-se o uso da língua indígena, que continua sendo transmitida às crianças.

O autor acredita que o bilinguismo em Santa Fe de la Laguna se deve às funções sociais específicas que cada língua tem na comunidade, o que está diretamente relacionado à facilidade compartilhada, às necessidades, às crenças, às atitudes e à ideologia. A forma como a comunidade está organizada e o perfil socioeconômico ajudam na manutenção da língua indígena. Até a década de setenta, somente os homens saíam da comunidade para vender o artesanato produzido; hoje, entretanto, também as mulheres auxiliam na comercialização dos produtos, o que as pressiona em relação à aquisição do espanhol. Assim, somente as idosas e crianças bem pequenas têm conhecimento limitado de espanhol. Entretanto, há vários domínios na própria comunidade em que a máxima facilidade compartilhada pressiona em relação à língua local, em função das atitudes e crenças em relação à língua e aos valores que os falantes atribuem a ela.

No capítulo seguinte, Lourdes Neri, em “El desplazamiento de la lengua totonaca en la comunidad de Mecapalapa, Panteepc, Puebla7, uma comunidade rural de fácil acesso, mostra que a estrutura hierárquica totonaca não se manteve ali. Além disso, tem-se observado uma diminuição da população, em função da migração, em especial de jovens, que vão em busca de melhores condições de trabalho e de vida fora do município. Essas mudanças na comunidade afetaram também o comportamento linguístico. A autora desenvolve seu estudo em três eixos: os dados sociodemográficos, o conhecimento e uso do totonaca, e o conhecimento e uso do espanhol. Os dados levantados mostram que o totonaca, nessa comunidade, está em perigo, já que a língua já não está mais sendo transmitida às gerações mais jovens. O espanhol passa a ocupar o lugar do totonaca em todos os grupos etários. Os indivíduos com idade entre 5 e 20 anos desconhecem a língua, o que significa que não a transmitirão às gerações que os sucederem.

No próximo capítulo, Vera Bermeo analisa “La vitalidad del otomí en Santiago Mexquititlán, Querétaro8. Nessa comunidade, também as mulheres têm um papel importante na manutenção da língua. A porcentagem de homens que sabem pouco otomí é maior que o de mulheres, cuja maioria fala o otomí. Isso está relacionado às atividades domésticas com que se ocupam. Nesse grupo, observa-se um número grande de jovens usando o espanhol para comunicar-se, inclusive no âmbito familiar. Além disso, o espanhol vem ocupando cada vez mais espaços que eram próprios do otomí. Como os jovens não usam mais a língua indígena, fica comprometida sua transmissão às gerações seguintes. Do mesmo modo como mostra o estudo de Neri em relação ao totonaca (capítulo 5), a falta de emprego leva à migração, o que implica o enfraquecimento do otomí, afetando a percepção que os falantes têm de sua língua. Consequentemente, a vitalidade da língua fica ameaçada.

O otomí também é objeto de estudo de Roland Terborg, no artigo “La situación de otomí de San Cristóbal Huichochitlán del estado de México9. A diferença entre as duas comunidades é que Santiago Mexquititlán é rural de fácil acesso, enquanto San Cristóbal Huichochitlán é suburbana. Na comunidade estudada por Terborg, observam-se mudanças no gosto das mulheres: somente as mais velhas ainda se vestem à maneira tradicional. O mesmo ocorre nas casas, que se assemelham às de outras comunidades rurais. Essas mudanças podem ser observadas também na língua, que vai cedendo sua vitalidade ao espanhol. Os dados de Terborg mostram uma mudança em curso, em todos os níveis, inclusive nos domínios mais privados. A MFC nas interações entre os mais jovens favorece o espanhol. Como os jovens, na sua maioria, são apenas bilíngues receptivos, prevê-se que sejam incapazes de transmitir o otomí a seus filhos. Terborg conclui dizendo que ainda se observa alguma força no otomí, sendo necessária uma planificação linguística que apoie a língua. Caso contrário, ela está fadada a desaparecer.

O náhuatl é outra língua cuja vitalidade é estudada. Laura García Landa e Brenda Cantú Bolán, no artigo “La vitalidad de la lengua náhuatl de Morelos: el caso de la comunidad Xoxocotla10, observam que no náhuatl de Xoxocotla há grande influência do espanhol, provavelmente em função de sua localização (próximo a uma rodovia e rodeada de povoados onde só se fala esse idioma), e em função do fluxo migratório. Os dados das autoras mostram um maior grau de bilinguismo entre os adultos (ainda que entre adolescentes e idosos ele também seja encontrado). O grau desse bilinguismo, entretanto, em muitos casos, se limita à compreensão e produção de algumas palavras e frases. O maior número de monolíngues náhuatl é encontrado entre adultos e idosos. Aparentemente, poucas crianças falam o náhuatl. O espanhol predomina em todos os domínios, seguido por um uso limitado das duas línguas nos privados. Assim, a pressão pelo uso do espanhol em todos os domínios é forte.

A última língua em estudo é o matlazinca. Virna Velázquez, em “El desplazamiento del matlazinca en el estado de México“, analisa as pressões que sentem os falantes para usar ou abandonar sua língua. O matlazinca já foi a língua majoritária no estado do México. Primeiramente, perdeu espaço para o náhuatl e hoje se acha reduzida a uma única comunidade. A autora identificou um grau significativo de mudança linguística, que está relacionada às atitudes: os mais jovens não se percebem como bons falantes, enquanto os de mais idade ainda se veem dessa forma. Assim, como as crenças estão ligadas a um ideal de pureza linguística, quando os mais jovens vão falar com os mais idosos, a MFC os pressiona a usar o espanhol e não a língua indígena. A autora termina seu estudo lembrando que, historicamente, ao menos a partir dos anos cinquenta do século passado, o matlazinca tem tido poucos falantes, o que a deixa em dúvida se essa língua se perderá ou não. Velázquez acredita que, se forem estabelecidas pressões a favor do matlazinca por meio da implementação de estratégias vinculadas a essas pressões, será possível deter a mudança. Essas estratégias incluiriam, por exemplo, promoção de um maior uso e transmissão da língua e inclusão de benefícios tangíveis para os membros da comunidade.

Após a apresentação dos oito estudos, Terborg e García Landa “amarram” os capítulos do livro com o artigo “La máxima facilidad compartida como presión determinante11. Os capítulos anteriores mostram diferentes pressões exercidas sobre os falantes para manter ou abandonar a língua minoritária. Para os autores, a MFC se refere a) ao conhecimento individual; b) ao uso do código entre bilíngues e monolíngues determinados, ou seja, o conjunto de participantes de uma conversa; e c) à seleção da língua de acordo com o tema, os espaços e aos domínios. A partir dos questionários aplicados em todos os estudos, em que os falantes avaliavam se falavam bem ou pouco, se só entendiam, mas não falavam ou ainda se não falavam nem entendiam (tanto a língua indígena quanto o espanhol), os autores propõem um cálculo para identificar a vitalidade (ou mudança) da língua indígena e, nesse sentido, analisar o desenvolvimento das pressões que favorecem a MFC e, consequentemente, que língua ela favorece nos diferentes grupos etários.

Os autores mostram que cada mudança econômica ou ambiental pode desencadear uma mudança na língua indígena, fazendo o espanhol sobrepor-se a ela. Nesse sentido, para Terborg e García Landa, as comunidades carecem de estímulo a pressões favoráveis originadas pela MFC para o uso das línguas indígenas. Faz-se necessário, pois, a proposição de políticas linguísticas para a manutenção dessas línguas, a partir dos estudos de cada uma das comunidades em que essas línguas são faladas.

Os estudos apresentados pelo livro Muerte y vitalidad de las lenguas indígenas y las presiones sobre sus hablantes (TERBORG; GARCIA LANDA, 2011) trazem importantes contribuições para a compreensão da realidade multilíngue, não só do México, como também do Brasil, onde, historicamente, as minorias linguísticas têm sido silenciadas.

Pelo modelo proposto por Terborg e García Landa – a ecologia das pressões – é possível ver como as ideologias e as atitudes em relação às línguas dão origem às pressões sobre os falantes para manter ou substituir as línguas, e como se regulariza a ação comunicativa humana nos níveis individual e coletivo, o que é muito bem explicitado pelos estudos apresentados no livro. Esse modelo, se aplicado ao estudo de outros contextos multilíngues, pode trazer à luz as pressões em conflito nessas comunidades, desvelando as relações de poder implicadas.

Os resultados apresentados pelos autores serão importante instrumento para o desenho de políticas linguísticas para cada uma dessas comunidades e chamam a atenção para a necessidade de políticas locais para a preservação da cultura e da história de tantas comunidades brasileiras (indígenas, quilombolas, de imigração, de fronteira) que não foram descritas ou são simplesmente ignoradas. Retomando a paráfrase da epígrafe, não custa lembrar que a sobrevivência das línguas está ligada à sobrevivência dos seus falantes, que precisam de identidades fortes e atitudes positivas em relação a si e à língua que falam, para que se interessem em transmiti-la às gerações seguintes, uma das condições para a vitalidade de uma língua.

Referências

TERBORG, R.; GARCÍA LANDA, L. (Org.). Muerte y vitalidad de las lenguas indígenas y las presiones sobre sus hablantes. México: UNAM: CELE, 2011, 285 p.

TRUJILLO TAMEZ, I.; TERBORG, R. Un análisis de las presiones que causan el desplazamiento o mantenimiento de una lengua indígena de México: el caso de la lengua mixe de Oaxaca. Cuadernos Interculturales, Valparaiso, n.12, p.127-140, 2009. Disponível em: <http://redalyc.uaemex.mx/src/inicio/ArtPdfRed.jsp?iCve=55211259007>. Acesso em: 10 fev. 2012.         [ Links ]

UNESCO. Vitalidad y peligro de desaparición de las lenguas. Paris, 2003. Disponível em: <http://www.unesco.org/new/fileadmin/MULTIMEDIA/HQ/CLT/pdf/LVE_Spanish_EDITED%20FOR%20PUBLICATION.pdf>. Acesso em: 08 fev. 2012.         [ Links ]

 

1  Paráfrase, constante no documento da UNESCO (2013), das palavras de um idoso navajo, enunciada por Akira Yamamoto no programa veiculado em 24 de maio de 1992 na Millennium Series da PBS-TV Tribal Wisdom and the Modern World, apresentado por David Maybury-Lewis.
2 “[…] a extinção de uma língua significa a perda irrecuperável de saberes únicos, culturais, históricos e ecológicos. Cada língua é uma expressão insubstituível da experiência humana do mundo.”
3 “As pressões que causam a substituição-manutenção das línguas indígenas. A apresentação de um modelo e sua aplicação.”
4 “A vitalidade da língua mixe de San Juan Bosco Chuxnaban.”
5 “Situação sociolinguística do mixe em San Lucas Camotlán.”
6 “Resistência e manutenção da língua p’urhépecha em Santa Fe de la Laguna, Michoacán”.
7 “A mudança da língua totonaca na comunidade de Mecapalapa, Panteepc, Puebla”.
8 “A vitalidade do otomí em Santiago Mexquititlán, Querétaro”.
9 “A situação do otomí de San Cristóbal Huichochitlán do estado de México”.
10 “A vitalidade da língua náhuatl de Morelos: o caso da comunidade Xoxocotla.”
11 “A máxima facilidade compartilhada como pressão determinante.”

Dorotea Frank Kersch – UNISINOS – Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Centro de Ciências da Comunicação. São Leopoldo – RS – Brasil. 93022-340 – [email protected]

Memorare

Memorare Revista de Linguagem e Cultura e1605943046221

A revista Memorare (2013) do Programa de Pós-graduação em Ciências da Linguagem, é uma publicação semestral aberta a colaboradores do Brasil e do exterior interessados em propostas vinculadas às temáticas Linguagem, Cultura e Identidade.

Periodicidade semestral.

Esta revista oferece acesso livre imediato ao seu conteúdo, seguindo o princípio de que disponibilizar gratuitamente o conhecimento científico ao público proporciona maior democratização mundial do conhecimento.

[email protected] [email protected] | UESB 2013

Lingu@ Nostr@ Língu@ Nostr@ | UESB 2013

[email protected] [email protected] (2013-) tem como escopo a publicação de artigos inéditos provenientes de estudos que, de alguma forma, estejam na interface entre Gramática e Linguística, preferencialmente aplicados ao ensino da Língua Portuguesa como língua materna. A revista, de periodicidade semestral, aceita submissões em português, espanhol e inglês.

ISSN 2317-2320

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The language, society and power reader – MOONEY (A-RL)

MOONEY, A. et al. (Org.). The language, society and power reader. London: Routledge, 2011. 374p. Resenha de: FLANNERY, Mércia Regina Santana Linguagem, sociedade e poder: coletânea de artigos. Alfa – Revista de Linguística, São José Rio Preto, v.56, n.1, 2012.

A coletânea de textos em The language, society and power reader abrange um variado número de artigos originais assinados por importantes e influentes estudiosos da linguística contemporânea, além de incluir trabalhos mais recentes de outros pesquisadores. Trata-se de um livro indispensável para estudantes da disciplina, interessados em acompanhar o rápido passo com que a linguística moderna tem se desenvolvido e observar aplicações da disciplina em diferentes áreas do conhecimento, refletindo a influência da linguagem em esferas distintas da experiência humana.

O livro destina-se primariamente àqueles que estão iniciando o estudo na área de linguística, mas constitui referência importante para quaisquer estudiosos da ciência da linguagem. É um material que pode facilitar a organização de cursos na área de Sociolinguística e Linguística Aplicada. A estruturação do livro em dez seções reflete a abrangência de seus textos componentes: cada seção é iniciada com um comentário sobre os artigos, no qual os autores apontam para termos importantes e noções fundamentais a serem observados nos capítulos sequenciais. Há também, nessa seção introdutória, sugestões adicionais de leitura sobre o tema e de filmes ou documentários que ilustram os pontos expressos nos artigos.

Na primeira seção, intitulada “Language and Power”, há artigos de Deborah Cameron e Norman Fairclough. O primeiro,“Preface to verbal hygiene”, é parte do importante trabalho de Cameron1 sobre a noção de higiene verbal, no qual a autora discute opiniões sobre usos linguísticos por “leigos” e linguistas. Ao discutir as diferenças no modo como esses dois grupos percebem a linguagem, a autora comenta que “[t]he overriding concern with value is the most significant characteristic that separates lay discourse on language from the expert discourse of linguists.” (MOONEY et al., 2011, p.13). Cameron argumenta em favor de um engajamento por parte daqueles que se importam com os usos linguísticos, sejam estudiosos da linguagem ou observadores preocupados com os rumos que o uso de uma língua assumem com o passar do tempo. Como a autora mostra, grande parte das crenças sobre os usos linguísticos por não especialistas baseia-se em noções de certo e errado e são, via de regra, resultantes de preconceito e ignorância. Por isso, Cameron propõe que, antes de se aceitarem ideias sobre a linguagem e seus usos como “profound and insdispensable truths”, deve-se dedicar à verificação da lógica por trás destas.

O artigo de Fairclough,2 “Global capitalism and critical awareness of language”, propõe um entendimento crítico da linguagem como ferramenta fundamental de uma educação linguística. Para o autor, o entendimento de discursos largamente aceitos em uma determinada comunidade pode ser vital para a compreensão da realidade e para se exercer efetivamente a cidadania. O autor ilustra a importância dessa compreensão ao comentar sobre o discurso de “flexible accumulation”, de acordo com o qual, nas sociedades modernas, as mudanças no modo de produção e daquilo que se produz resultam em uma mudança nas formas de trabalho e na redução de determinadas posições. De acordo com o autor, esse discurso ideologicamente carregado e sua aceitação reduzem a força reivindicativa dos trabalhadores.

A metáfora da flexibilidade, de acordo com Fairclough, penetra várias esferas da vida diária, incluindo a linguagem política e a mensagem dos chamados “gurus profissionais”, que escrevem livros de conselho. Esse exemplo ilustra de que forma novas realidades discursivas são influenciadas ou modificadas, à medida que novos conhecimentos e práticas econômicas são postos em prática. A preocupação do autor, porém, não é em termos do valor absoluto de verdade desses discursos, mas em termos de “ganhos epistêmicos”, ou de como e se a compreensão da existência dessa forma de mediar a realidade pode melhorar a forma como os indivíduos administram suas vidas. Isso leva ao próximo ponto de importância na discussão de Fairclough, o fato de que se vive, hoje, em sociedades cada vez mais textualmente mediadas e nas quais há mais e mais uma influência direta dos modos de percepção e representação da realidade nos modos de viver. Para Fairclough, “[a]s everyday lives become more pervasively textually mediated, people’s lives are increasingly shaped by representations which are produced elsewhere.” (MOONEY et al., 2011, p.21). A fluidez com que os discursos se contaminam e se espalham e o impacto de noções discursivas sobre as diferenças que marcam as sociedades modernas são também dignos de atenção em uma educação linguística que vise a formar indivíduos capazes de refletir sobre o perigo de se absorverem certos modelos, particularmente os que motivam o preconceito e a discriminação. Dessa forma, o artigo de Fairclough contribui à coletânea com a perspectiva de que um entendimento crítico das formas como o discurso pode: 1) mediar a realidade, 2) influenciar a forma como se entende o mundo e 3) salientar como, possivelmente, ações e modos de viver devem ser parte da contribuição de uma educação que vise a formar indivíduos para a vida.

Na segunda seção da coletânea – “Language and thought” – há dois artigos importantes para os estudos linguísticos contemporâneos. No primeiro, “The great eskimo vocabulary hoax”, Geoffrey Pullum3 aborda “a falácia do vocabulário esquimó”, traçando o início da abrangente, mas, de acordo com o autor, falsa noção de que, em esquimó, há uma multiplicidade de expressões para designar o referente “neve”. De acordo com Pullum, “the myth of the multiple words for snow is based on almost nothing at all” (MOONEY et al., 2011, p.34). O autor traça o início do mal-entendido a um comentário de Franz Boas (1911) sobre como o inglês emprega variantes de uma mesma raiz (morfologia derivacional) para expressar diferentes noções, ao passo que ideias comparáveis em esquimó são expressas com o emprego de diferentes raízes. Em seguida, Whorf comenta o texto de Boas (1911), desenvolvendo a mesma ideia, mas extraindo-a do contexto original e, assim, atribuindo um sentido significativamente distinto do trabalho do antropólogo alemão. Pullum descreve posteriores apropriações e desenvolvimentos da noção de que há um número infinito de expressões para designar o referente “neve”, concluindo com o seguinte comentário: “The tragedy is not that so many people got the facts wildly wrong; it is that in the mentally lazy and anti-intellectual world we live in today, hardly anyone cares enough to think about trying to determine what the facts are.” (MOONEY et al., 2011, p.38). Para o autor, então, o artigo não é necessariamente uma tentativa de provar que estão errados os que repetem a bem difundida informação sobre o vocabulário esquimó, mas é uma chamada à atenção para que se busquem os fatos e a origem das informações.

A mesma seção inclui também um capítulo de Benjamin Whorf,4 “The relation of habitual thought and behavior to language”. Começando com uma citação de Sapir, de quem Whorf havia sido estudante, o capítulo traça a conexão entre linguagem e atividades culturais e pessoais. Whorf, que se formou em química e trabalhou como inspetor de uma companhia de seguros contra incêndio, extrai exemplos desta sua ocupação para ilustrar a relação entre linguagem e o exercício de atividades no dia a dia. O autor mostra, por exemplo, como o fato de indivíduos compreenderem a noção de “vazio” motivava alguns a lançarem uma ponta de cigarro em conteúdos nos quais elementos flamáveis haviam sido depositados anteriormente. Nesse caso, a consequência da ação das pessoas – um incêndio – requeria que se entendesse de que forma a compreensão do sentido de “vazio” havia motivado uma atitude perigosa. Whorf supre mais dois exemplos sobre como “as pessoas agem de forma a refletir o modo de se falar a respeito de determinadas situações”5: o autor contrasta a percepção da realidade tal como expressa através da língua Hopi e do que classifica como “Standard Average European” 6. (MOONEY et al., 2011, p.47). De acordo com os exemplos dados, a realidade percebida e transmitida através da linguagem influencia a forma como agem diferentes indivíduos, organizados em grupos socioculturais distintos. A conclusão de Whorf – pode-se apontar uma conexão entre normas culturais e modelos linguísticos, mas não uma correlação – é ainda um dos princípios mais importantes nas atuais considerações e estudos na Sociolinguística moderna.

Na terceira seção, “Language and politics”, três artigos discutem aplicações do estudo linguístico no âmbito do discurso político em países de três continentes: Estados Unidos, Tunísia, Holanda, Inglaterra e Suécia. O primeiro artigo, de Geoffrey Nunberg, “Media: label whores”, comenta a noção de que se costuma atribuir a etiqueta “conservador” no caso dos comentaristas e jornalistas que adotam, claramente, posições à direita no eixo político americano. Entretanto, como o autor comenta, os chamados profissionais de jornalismo “liberais” são a tendência e, assim, prescindem de títulos. A curta discussão de Nunberg aponta para o fato de as tentativas de se atribuírem rótulos funcionarem mesmo para assegurar “que o escritor e a publicação estejam confortavelmente no centro” (MOONEY et al., 2011, p.71).

O artigo de NaÏma Boussara-Omar7 –“Learning the ‘linguistic habitus’ of a politician: a presidential authoritative voice in the making” – é uma análise de duas versões do discurso de posse do então presidente tunisiano Ben Ali. A primeira versão do discurso, anterior às correções, é analisada com vistas a se encontrarem as marcas que indicam uma voz incompatível com a posição de presidente e a busca de um papel de maior autoridade. Para Boussara-Omar, o processo de correções à primeira versão do discurso de Ben Ali revela uma nova autoridade discursiva e presidencial em desenvolvimento (MOONEY et al., 2011, p.74). A análise dessas duas versões auxilia na compreensão de como se lança mão de “capital linguístico” para a construção de posições de autoridade. Deve-se essa possibilidade ao potencial indexicalizador do signo linguístico e ao contexto de uso dos atores sociais.

O artigo de Anne-Marie Simon-Vanedbergen et al8 compreende uma análise das pressuposições nas declarações de políticos ingleses, holandeses e suecos. Esse estudo visa à exposição das ideologias subjacentes às declarações dos políticos que auxiliam na manipulação do público. O poder das pressuposições enquanto recurso linguístico jaz no seu caráter persuasivo, criando a impressão de que se pode tomar a informação pressuposta como garantida. Esse recurso é poderoso no discurso político também porque, à medida em que se tentam estabelecer posições em comum e solidariedade, dificulta-se a contestação das ideias. De acordo com os autores, uma pressuposição “tem um enorme potencial manipulador”, lançando-se ao público uma informação que se pode reconhecer falsa, mas que talvez não possa ser discutida e provada como tal. Um dos contextos em que esta possibilidade pode ser verificada é no âmbito da discussão política mediada pela televisão.

Na quarta seção, “Language and the media”, três artigos discutem a relação entre linguagem e representação através dos meios de comunicação. O primeiro artigo, “Rache and ethnicity in the media”, de Anthea Irwin,9 apresenta uma consideração crítica da cobertura em um jornal escocês de um caso de rapto/saída voluntária de uma jovem de origem paquistanesa da Escócia para o Paquistão. A autora apresenta uma consideração detalhada das identidades atribuídas aos protagonistas do episódio e de como estas se modificam a cada dia, à medida que os eventos se desenvolvem. Sobressai-se, nos textos jornalísticos analisados, uma visão preconceituosa do “outro”, no caso, a família de origem paquistanesa, expressa sobretudo através de contrastes implícitos, que opõem o elemento nacional ao estrangeiro. Esse artigo traz uma importante contribuição ao conjunto de textos neste livro por apresentar análise de textos escritos, jornalísticos, tendo em vista a tendência de focalizar a fala e o estudo de manifestações linguísticas orais.

O artigo seguinte, “Those naughty teenage girls: Japanese Kogals, slang, and media assessment”, de Laura Miller,10 expõe a análise de como a mídia japonesa apresenta ao público opiniões sobre o estilo deste grupo, as kogals. A primeira parte do artigo apresenta as tipologias do modelo feminino na sociedade japonesa, discutindo como as kogals contradizem os modelos normalmente aceitos por ferirem o padrão de feminilidade aceitável. As chamadas kogals aderem a uma estética particular, que inclui um modo de vestir-se e de expressar-se que quebra as regras e redefine “female-centered coolness” (MOONEY et al., 2011, p.121). O grupo também se apropria de uma forma particular de expressar-se linguisticamente, o que inclui a modificação do signo escrito, principalmente através de mensagens de texto e do uso de formas tipicamente presentes no discurso masculino, tal como os honoríficos. As referências às kogals na mídia japonesa fazem-nas parecer “insípidas” e “insensatas”. Entretanto, de acordo com Miller, tais retratações não são o verdadeiro foco da mídia, mas refletem tendências mais arraigadas na sociedade japonesa, que limitam a autonomia feminina e promovem a manutenção de modelos de consumo e de comportamento mais tradicionais.

O terceiro artigo da seção intitula-se “Authenticating talk: building public identities in audience participation broadcasting” e é da autoria de Joanna Thornborrow.11 Trata-se de uma consideração sobre como os ouvintes-participantes de programas de rádio que telefonam para expressar suas opiniões constroem suas identidades de forma a legitimar sua contribuição para a transmissão. A autora considera participações de ouvintes a um programa de notícias que conta também com a colaboração da figura de um especialista. Como modelo de participação deste tipo de interação, a transmissão radiofônica em questão conta com o papel de um locutor, que atribui o direito ao turno a cada participante e, assim, organiza a interação. Tais programas estruturam-se na expressão de pontos de vista sobre um determinado tópico e, de certa forma, permitem o estabelecimento do âmbito participativo de cada colaborador, sobressaindo-se os papéis de especialista e colaborador leigo – o ouvinte. Mesmo assim, de acordo com a discussão de Thornborrow, os colaboradores-ouvintes-leigos fazem mais do que dar uma opinião: por suprirem informações sobre si mesmos e salientarem aspectos de sua identidade, eles garantem a relevância da sua participação pública naquele momento (MOONEY et al., 2011, p.133). Esse artigo faz uma aplicação dos princípios da análise da conversa, especificamente no que tange à atribuição de direito ao turno e às categorias relevantes para se fazê-lo.

Na quinta seção, “Language and gender”, três artigos discutem como a linguagem pode ser analisada com vistas a compreender relações de identidade e gênero. O primeiro artigo, “Linguistic sexism and feminist linguistic activism”, de Anne Pauwels,12 considera os passos que têm sido dados para eliminar uma linguagem sexista e promover maior inclusão feminina, ou mesmo o amplo uso de uma linguagem mais neutra. A autora comenta a trajetória de algumas destas modificações à luz das propostas feministas e como consequências destas. A sequência que tem início com o planejamento das mudanças, sua implementação e efetiva adoção é discutida, à medida que Pauwels trata especificamente sobre os tipos de mudanças que podem ser esperadas, os potenciais benefícios resultantes e passos que podem ser dados em direção a uma linguagem mais igualitária. A autora conclui com uma perspectiva otimista sobre a medidas tomadas, afirmando que iniciativas no sentido de expor a ideologia linguística nas comunidades de fala podem contribuir para “desafiar a hegemonia de sentidos promovidas por grupos e culturas dominantes”, tais como a masculina13 (MOONEY et al., 2011, p.160).

O artigo de Mary Talbot,14 “‘I wish you’d stop interrupting me’: interruptions and asymetries in speaker-rights in equal encounters”, considera a relação entre dominância masculina e interrupções. Como ponto de partida, o artigo apresenta a definição do que se pode considerar interrupção e fala simultânea. A autora critica o estudo de West e Zimmerman sobre a preponderância de interrupções de falantes masculinos ao turno de interlocutores femininos. Além disso, Talbot aponta as falhas do primeiro estudo, destacando que uma alternativa adequada para o estudo deste fenômeno seria considerar as relações de poder travadas no âmbito das interações linguísticas. Desta forma, seria a posição relativa de cada participante, no âmbito da interação, e não o seu sexo, o que exerceria um efeito significativo sobre o número e tipos de interrupções (MOONEY et al., 2011, p.167).

O segundo artigo de Deborah Cameron na coletânea, “Performing gender identity: young men’s talk and the construction of heterosexual masculinity”, apresenta uma leitura alternativa de uma conversa anteriormente analisada por um dos alunos da autora. Na primeira versão, o aluno de Cameron apresenta a conversa como protótipo dos tópicos sobre os quais homens jovens falam entre si, incluindo esportes, mulheres e bebidas. Entretanto a minuciosa análise apresentada por Cameron contém uma versão completamente distinta da que o seu aluno realizou, contrastando com esta por revelar que homens jovens também falam sobre tópicos que não são tipicamente associados com seu grupo. A análise de Cameron é relevante por ressaltar que a compreensão de fenômenos linguísticos no âmbito interacional precisa ser alcançada através do estudo do contexto imediato. Além disso, como a autora mostra, apesar de a Sociolinguística defender a noção de que indivíduos são definidos pela forma como falam, uma abordagem pós-modernista considera que esta definição se estrutura, precisamente, em função do conteúdo, mas também dos recursos linguísticos empregados para transmiti-lo (MOONEY et al., 2011, p.180). Esta abordagem para os estudos da linguagem permite observar que os atores sociais também agem de modo a “engajar-se em atos de transgressão, subversão, e resistência”15 (MOONEY et al., 2011, p.181). No caso dos dados analisados, Cameron revela que os homens conversam informalmente, construindo cooperação, simultaneamente à ação de falar sobre outros – o que corresponde à definição de “fofoca”, “gênero” frequentemente atribuído a falantes femininos. O artigo de Cameron contribui com a perspectiva de que, estudos sobre as relações entre linguagem e gênero podem ser mais adequadamente conduzidos se são evitadas categorias, ou noções, estabelecidas a priori, tais como as de que há tópicos sobre os quais indivíduos do gênero masculino ou feminino tratam, ou gêneros textuais que são mais comumente produzidos por um ou outro grupo.

Na sexta seção, “Language and ethnicity”, dois artigos discutem as relações de poder construídas no âmbito do uso linguístico em seus limites com relações étnicas. O primeiro artigo, Racist discourse, de Teun van Dijk,16 faz uma adequada introdução ao estudo do discurso racista, apresentando dos tipos: 1) aquele dirigido a um grupo etnicamente diferente e 2) aquele sobre um grupo etnicamente diferente. O primeiro tipo é discriminatório nos modos em que o grupo dominante interage com o grupo minoritário, ao passo que, o segundo tipo de discurso racista pode ser mais sutil na construção de linguagem que se refira ao grupo minoritário. Considerando que, atualmente, em muitas culturas o discurso discriminatório é politicamente incorreto, as formas linguísticas discriminatórias podem assumir feições mais sutis e indiretas. Para o autor, as estratégias de tal discurso podem ser variadas, figurando em vários níveis da atividade linguística, sejam estes o universo sintático, semântico, pragmático, o estilo, as figuras de retórica, ou ainda os elementos visuais e os sons ((MOONEY et al., 2011, p.200). A característica mais importante do discurso racista é, porém, a construção da oposição nós X eles, os outros. O autor faz também sugestões importantes de leitura para se desenvolver estudos desta natureza, com textos que compreendem a análise do discurso racista em países europeus e no Canadá.

O próximo artigo da coletânea é “Legal recognition of cultural differences in communication: the case of Robin Kina”, de Diana Eades,17 compreendendo uma detalhada consideração de um caso judicial no qual o conhecimento de uma comunidade linguística foi fundamental em informar a decisão legal envolvendo uma prisioneira australiana aborígene. O artigo de Eades recapitula a trajetória de Robyn Kina, uma mulher presa por ter assassinado o companheiro em legítima defesa, e de como o tipo de conselho legal que ela recebeu afetou negativamente seu julgamento. Eades, especialista em Inglês Aborígene – um dialeto que difere sistematicamente do Inglês Australiano Padrão (MOONEY et al., 2011, p.205) -, é chamada para oferecer seu parecer à corte sobre os modos específicos de comunicação que marcam as diferenças entres estes dois modelos linguísticos. De acordo com Eades, falantes da comunidade linguística em questão possuem modos particulares de se expressar, caracterizados por significativas diferenças gramaticais e pragmáticas. O desconhecimento dessas peculiaridades nas circunstâncias de interação entre falantes de inglês aborígene e falantes de inglês australiano padrão pode gerar mal entendidos, cujas consequências podem afetar negativa e injustamente os membros do grupo minoritário. Eades discute as formas como uma situação de interação entre advogado e aborígene poderiam ser desfavoráveis para a coleta de informações que poderiam potencialmente auxiliar na construção da defesa. Por exemplo, como Eades mostra, o modo de procurar informações na comunidade aborígene envolve períodos longos de silêncio e a ausência de perguntas diretas que possam ser interpretadas como uma violação à privacidade dos indivíduos (MOONEY et al., 2011, p.208). Eades, então, contrasta o depoimento de Robyn Kina aos seus advogados e a um canal de televisão. No primeiro caso, as interações foram realizadas observando-se um modelo mais formal, típico do encontro advogado-réu, diferindo das entrevistas cedidas a um canal de televisão e para as quais os produtores e jornalistas envolvidos prepararam-se, primeiro, visitando Kina e tentando fazê-la sentir-se confortável, antes de iniciar a coleta de informações e a gravação da entrevista. Os dois modelos de entrevista renderam resultados significativamente diferentes, na medida em que, nas interações com os advogados, Kina mostrou-se reticente, mas mais à vontade, ao ponto de voluntariar várias narrativas, no segundo caso, as interações com os jornalistas. Esse estudo apresenta os resultados da aplicação prática dos princípios da Sociolinguística, mostrando de que formas o (des)conhecimento dos modos de comunicar de uma comunidade linguística pode ter consequências cujas repercussões podem afetar decisões de largo alcance, tais como as judiciais.

Na sétima seção, “Language and age”, encontram-se dois artigos que relacionam linguagem e grupo etário: o primeiro, a linguagem de idosos e, o segundo, de adolescentes. O artigo de Sinfree Makoni e Karen Grainger,18 “Comparative gerontolinguistics: characterizing discourses in caring institutions in South Africa and the United Kingdon”, apresenta os resultados de uma análise qualitativa da interação entre pacientes de instituições de cuidado a idosos e seus funcionários. Makoni e Grainger discutem como os empregados usam discurso controlador no exercício das atividades cotidianas em asilos, no lidar com os idosos. As formas que esta linguagem assume incluem expressões de carinho, discurso infatilizante e discurso lúdico. Entretanto, como os autores argumentam, estas formas discursivas visam a manter a posição dos funcionários, enquanto estes desempenham atividades e solicitam a cooperação dos idosos. Trata-se de uma estratégia para alcançar o equilíbrio entre os requerimentos de eficiência e de demonstrar preocupação com os pacientes (MOONEY et al., 2011, p.235). A comparação entre culturas, i.e., Reino Unido e África do Sul, permite concluir que a linguagem empregada pelos funcionários dos asilos é orientada para o cumprimento de tarefas, comprometendo a integridade pessoal dos residentes, e que, por esta razão, a maior parte da expressão verbal nas interações analisadas visa ao objetivo de concluir um serviço.

O artigo de Penelope Eckert,19 “Adolescent language”, inicia com uma consideração das dinâmicas envolvidas nas atitudes linguísticas. A autora justifica sua análise da linguagem adolescente com uma pertinente observação de que se costuma apontar em outros a presença ou ausência de determinadas marcas que caracterizam um sotaque, esquecendo-se de que todos os falantes possuem um. Esta tendência de atribuir valores à fala de determinados grupos é parte do que constitui poder na sociedade – a habilidade de definir o que é “normal” (MOONEY et al., 2011, p.238). Eckert define alguns níveis linguísticos sobre os quais se detém, à medida que explica a razão para marcarem-se as diferenças em um determinado grupo de falantes. Como exemplo, a autora analisa características fonético-fonológicas na expressão de grupos de jovens em uma escola de nível médio, no norte da Califórnia. Os resultados do estudo de Eckert demonstram de que formas jocks – classe média, voltados para a cultura acadêmica – e burnouts – voltados para o ingresso no mercado de trabalho – usam traços linguísticos que contribuem para construir suas identidades, de modo a refletir sua “orientação para a instituição globalizante da escola e para a área urbana local”20 (MOONEY et al., 2011, p.243). Alguns dos traços analisados pela autora foram a dupla negação, o alteamento do núcleo vocálico no grupo /ay/, e o fechamento da vogal média baixa /ε/.

Na oitava seção, “Language and social class”, há três artigos que discutem as relações entre o desempenho linguístico e classe social. O primeiro, “Mobility, meritocracy and dialect levelling: the fading (and phasing) out of received pronunciation”, é de autoria de Paul Kerswill,21 que discute o apagamento das diferenças dialetais no inglês britânico, cujas causas são: 1) econômicas – perda de economias e comunidades agrícolas, conduzindo um maior contingente populacional a migrar em direção aos centros urbanos; 2) maior contato interdialetal – contato mais intenso entre indivíduos falantes de dialetos diferentes; 3) as consequentes modificações nas redes de contatos sociais proporcionada pela distância da família imediata. De acordo com Kerswill, este contexto tem proporcionado a nivelação dialetal com padronização (MOONEY et al., 2011, p.258). A variante resultante das modificações é um dialeto de características intermediárias entre a variante de prestígio e a não padrão, ou “Estuary English” (MOONEY et al., 2011, p.259). O surgimento dessa variedade e sua divulgação através dos meios de comunicação tem trazido à tona conflitantes opiniões e atitudes que perpassam vários estágios da sociedade inglesa. O autor também comenta a natureza e as vantagens das mudanças dialetais, particularmente as que estão relacionadas a noções de classe social.

O segundo artigo da seção, de William Labov,22 constitui material essencial para estudantes interessados no desenvolvimento da Sociolinguística moderna como subdisciplina da Linguística e, em particular, nos estudos do autor sobre variação. “Academic ignorance and black intelligence” foi um artigo originalmente publicado na revista Atlantic, no número de dezembro de 1971, no qual Labov discutia a controvérsia sobre a razão pela qual crianças de escolas urbanas mostram um baixo desempenho escolar.23 (MOONEY et al., 2011, p.266). O hoje clássico artigo de Labov aponta razões intrínsecas ao modo de comunicar de indivíduos provenientes de diferentes classes sociais e a falta de conhecimento destes modos particulares de usar a linguagem como responsáveis por criar a errônea interpretação para o insucesso de crianças negras nas escolas americanas. Ao exemplificar com excertos de interações em situações de entrevistas sociolinguísticas nas quais os falantes compartilhavam do conhecimento dialetal dos informantes, Labov deixa claro que a interpretação da suposta deficiência cognitiva nas escolas americanas, há quatro décadas, baseava-se em uma premissa equivocada, que enxergava a inabilidade de produzir estilos e tipos textuais como reflexo de deficiências de ordem que escapavam ao âmbito social. O argumento de Labov e a sua demonstração detalhada da habilidade de crianças negras, habitantes de “guetos”, de produzir linguagem rica em expressões e imagens iluminou o caminho para outras abordagens que explicassem as diferenças e a interação entre aqueles que não partilhavam do conhecimento para reconhecê-las. O artigo de Labov tem quarenta anos, mas a discussão nele ensejada é ainda corrente e relevante para se explicarem e entenderem as naturezas das diferenças na produção e recepção de falares e escreveres distintos.

O próximo artigo, de Michael Gos,24 “Overcoming social class markers: preparing working class students for college”, oferece uma terceira perspectiva sobre as relações de poder na linguagem vistas como consequência ou no âmbito de classes sociais. O argumento de Gos é que estudantes universitários provenientes das classes trabalhadoras, menos privilegiadas, deparam-se com uma tarefa desafiadora ao ingressarem no sistema educacional universitário. Para o autor, parte desse desafio reside na incongruência entre o tipo de produção linguística, oral e escrita, que se espera desses estudantes e o tipo de material linguístico que tais estudantes produzem no seu dia a dia, como parte de sua realidade. De acordo com o autor, preparar estudantes do ensino médio para esse novo estágio educacional requer um trabalho que antecipe as dificuldades e combata a formação de hábitos contraproducentes. Dessa forma, Gos aponta dois pontos importantes: 1) de acordo com o autor, estudantes provenientes da classe média, no caso dos Estados Unidos, por exemplo, estão mais acostumados a pensar criticamente, pois a estrutura familiar a que têm acesso assim o favorece; por outro lado, estudantes de classes sociais desprivilegiadas estão mais acostumados a memorizar material, o que representa grande dificuldade ao tentarem avançar a um outro modelo para reter informações de maneira crítica; 2) o autor também discute como indivíduos geralmente são julgados com base na forma como falam e como isso também se aplica no caso de estudantes universitários provenientes de classes trabalhadoras. O autor então aponta para a necessidade de que o trabalho de preparação para a universidade também inclua uma formação linguística aplicada aos novos contextos de fala no ambiente acadêmico, universitário. Tal preparação deve começar desde o ensino médio de modo a se proporcionar uma transição menos “traumática” (MOONEY et al., 2011, p.287).

Na nona seção, “Language and identity”, há três artigos que discutem as relações entre língua, poder e identidade. O primeiro, “The meaning of style”, de Penelope Eckert,25 é uma consideração das formas como a linguagem pode ser usada de modo a permitir criar-se uma noção da identidade dos falantes. A autora inicia com uma breve discussão do trabalho de Labov em Martha’s Vineyard, mostrando como já, naquele trabalho, o autor revelara métodos para chegar a conhecer-se mais sobre um individuo, suas intenções e características sociais por meio da forma como se fala. A variação fonológica, tal como discutida por Labov e empregada posteriormente por Eckert no seu estudo sobre comunidades de falantes jovens – jocks and burnouts -, é um dos indicadores característicos de falantes de uma determinada comunidade de práticas. A propriedade linguística de poder associar significados não só ao que se diz, mas também à forma específica empregada pelos falantes de uma dada língua para fazê-lo aponta para seu valor indexicalizador. Como Eckert discute, a linguagem faz parte de um sistema semiótico que inclui o modo de vestir-se, a preferência musical, as atividades e posições assumidas (MOONEY et al., 2011, p.301). A noção de estilo, então, é apropriada ao se tentar compreender como falantes de qualquer língua podem, dadas as circunstâncias, empregar modos de falar característicos, sejam estes marcados por traços fonológicos ou lexicais, com o objetivo de projetar ideias de si, ou mesmo posições ideológicas.

No segundo artigo da seção, “The man with the baseball bat”, John Olsson26 discute traços característicos de um dialeto inglês, mostrando como esses foram úteis em um caso policial referente a uma ameaça feita por telefone. O artigo é mais um exemplo no volume de como a linguística pode ser posta em serviço de outras áreas do conhecimento humano, com um fim de caráter mais prático – descobrir a proveniência de uma ameaça e apontar os responsáveis. O artigo descreve brevemente os resultados do estudo de Olsson e como sua análise serviu para incriminar, no caso, justamente, o suspeito.

O terceiro artigo do volume é a contribuição de uma pesquisadora brasileira, Audrei Gesser,27 intitulado “Hearing people in the land of the deaf: an ethnographic account”. Gesser registra sua pesquisa etnográfica em Gallaudet University, Washignton, DC – uma instituição de ensino superior para estudantes que possuem deficiência auditiva. As observações de Gesser destacam a importância de usar a linguagem de sinais no contexto de interações na universidade, ao passo que a atitude geral para com os que não a empregam é de que ouvir é percebido “como se fosse uma grave falha”28 ( MOONEY et al., 2011, p.317).

Na décima seção, “Standard Englishes”, há três artigos em que se aborda o uso do idioma inglês em três contextos distintos. No primeiro, “Asias’s Englishes and world Englishes: interview with Braj B. Kachru”, Jacqueline Lam Kam-Mei2929 Cf. LAM KAM-MEI, 29 apresenta as principais ideias de uma entrevista com o professor creditado com o primeiro uso do termo “World English”. Um dos pontos de interesse na entrevista é a discussão de como o idioma inglês tem se multiplicado em um universo de contatos que a rede socioeconômica cria. Além disso, como o autor mostra, a expansão do uso deste idioma tem gerado, na Ásia, por exemplo, maior produção linguística em uma variedade de gêneros discursivos, trazendo à tona a necessidade de outras explicações para fenômenos relativos à língua na região. Por exemplo, Kachru afirma: “English is an Asian language if we make a distinction between GENETIC NATIVENESS of a language and its FUNCTIONAL NATIVENESS.” (MOONEY et al., 2011, p.334, grifo do autor). Trata-se de uma reflexão sobre o papel que uma língua tão difundida como o inglês pode vir a ter em comunidades tão distantes, cultural e geograficamente, dos países com os quais se está acostumado a associá-la. Dadas as variedades no uso de línguas, motivadas pela necessidade de contato profissional, reflexões como a de Kachru podem render sugestões relevantes para a abordagem do estudo de contato linguístico e das resultantes variedades.

No segundo artigo da seção, “English as official state language in Ohio: economy trumps ideology”, Betsy Evans30 apresenta uma discussão sobre o debate político travado no estado americano de Ohio face à apresentação de uma lei (HB 553) que requeria a aceitação do inglês como língua oficial do estado. Apesar dos argumentos em favor de defender-se a unidade estatal e nacional ao se proporem tais leis, no caso de Ohio, na mesma época em que os políticos estaduais a apresentaram, especulava-se que uma montadora japonesa instalar-se-ia no estado. A autora conclui que o resultado negativo da proposta de lei evidencia e apoia a noção de que as “forças de mercado” podem ter influência nas políticas linguísticas (MOONEY et al., 2011, p.343).

O último artigo da seção e do livro, “English as a lingua franca: interpretations and attitudes”, de Jennifer Jenkins,31 discute como falantes de inglês provenientes de diversas culturas linguísticas empregam esse idioma para comunicar-se. Essa discussão apresenta alguns pontos sobre as negociações travadas pelos falantes de inglês como língua franca, incluindo a aceitação de formas não conformes à língua padrão, considerando a maior ênfase neste tipo de contatos na comunicação e não na precisão. Os pontos de interesse neste artigo convergem para a conclusão de que, dados os contatos travados por indivíduos falantes de inglês de diferentes regiões, a tendência é desenvolverem-se formas que, em processo de evolução, apresentem características distantes da variedade padrão, isto é, “erros sistemáticos”, mas que são aceitáveis por serem eficazes em viabilizar a comunicação. Os intensos entrelaces proporcionados por um mundo cada vez mais “conectado” tornam esse tipo de estudo bastante relevante, pois, no futuro, potencialmente, serão outras as línguas de contato entre diferentes povos.

A seleção das seções do livro é pertinente e os artigos bons exemplos da aplicação da ciência linguística. Um dos aspectos em que o livro talvez pudesse ter feito uma melhor contribuição é na organização das seções. Tendo em vista que o público alvo são estudantes iniciantes da Línguística, talvez a progressão dos artigos pudesse seguir uma ordem mais lógica do ponto de vista do desenvolvimento da própria disciplina e das suas abordagens. Assim, artigos seminais, tais como os de Labov (Linguagem e classe social) e Whorf (Linguagem e pensamento) talvez pudessem anteceder os artigos mais recentes. Apesar de o livro fazer uma boa contribuição por acrescentar sugestões de leituras adicionais e de filmes, é possível que mais pudesse ter sido dito sobre a relevância de se incluírem não apenas artigos de linguistas reconhecidos internacionalmente, mas também de novos profissionais da disciplina. Além disso, existem trabalhos importantes, cujas abordagens exemplificam a intersecção entre linguagem, poder e sociedade, que não foram incluídos na coletânea. Um exemplo dessa ausência são os trabalhos do grupo de sociolinguistas interacionais, tais como Tannen (1986, 1996) e Schiffrin (1996, 2000). Trata-se de artigos relevantes para qualquer consideração que combine a inclusão de traços externos à linguagem e seu impacto para uma interação, e que representam bem esta subdisciplina linguística. Dado que é tão grande a variedade de abordagens ao estudo da linguagem, apresentar a justificativa para a inclusão dos artigos e a ausência de reconhecidos teóricos linguistas contemporâneos seria uma adequada adição ao importante volume.

Referências

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1 Cf. CAMERON, 1995.
2 Cf. FAIRCLOUGH, 1999.
3 Cf. PULLUM, 1991.
4 CF. WHORF, 1956.
5 No original:“as people act about situations in ways which are like the ways they talk about them”.
6 Todas as traduções aqui apresentadas foram preparadas pela autora da resenha.
7 Cf. BOUSSOFARA-OMAR, 2006.
8 Cf. SIMON-VANDBERGEN; WHITE; AIJMER, 1999.
9 Cf. IRWIN, 2008.
10 Cf. MILLER, 2011.
11 Cf. THORNBORROW, 2001.
12 Cf. PAWLES, 2003.
13 No original, “[T]hese linguistic initiative and actions, many of which have been undertaken at the grassroots level, have made a major contribution to exposing ideologization of linguistic meanings to the speech community at large and to challenging the hegemony of the meanings promoted and authorized by the dominant group or culture, in this case, men.”
14 Cf. TALBOT, 1992.
15 No original,“engage in acts of transgression, subversion and resistance”
16 Cf. VAN DICK, 2004.
17 Cf. EADES, 2008.
18 Cf. MAKONI; GRAINGER, 2002.
19 Cf. ECKERT, 2004.
20 No original: “The linguistic style of the jocks and burnouts reflect their orientation to the globalizing institution of the school, on the one hand, and to the local urban area on the other”.
21 Cf. KERSWILL, 2001.
22 Cf. LABOV, 1971.
23 No original:“the controversy over why children in the inner-city schools show such low educational achievement”.
24 Cf. GOS, 1995.
25 Cf. ECKERT, 2003.
26 Cf. OLSSON, 2009.
27 Cf. GESSER, 2007.
28 No original:“as if it were a sin”.
29 Cf. LAM KAM-MEI, 2008.
30 Cf. EVANS, 2010.
31 Cf. JENKINS, 2009.

Mércia Regina Santana Flannery – University of Pennsylvania. Romance Languages Department. 521 Williams Hall, 255 S 36th Street, Philadelphia, PA – EUA. 19104 – [email protected]

Handbook of South American Archaeology – SILVERMAN; ISBELL (C-RAC)

HANKS Michele direita e SILVERMAN Helaine esquerda 2014 www.youtube.com
Michele Hanks (direita) e SILVERMAN Helaine Silverman (esquerda) em 2014. www.youtube.com.

SILVERMAN H S Handbook of South American ArchaeologySILVERMAN, Helaine Silverman; ISBELL, William H. (Ed.) Handbook of South American Archaeology. New York: Springer, New York, 2008, pp. 1191. Resenha de: MEGGERS, Betty J. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.43 n.1, p.147-157, jun. 2011.

The Handbook of South American Archaeology is a landmark not only because of its continental coverage, but because it is the first multi-authored volume in English since the 7-volume Handbook edited by Julian Steward and published by the Smithsonian Institution more than half a century ago. Two other multi-authored overviews have been published in the interim, but both are in Spanish and consequently have received minimal attention from US archeologists. All the authors in Prehistoria Sudamericana: Nuevas Perspectivas (Meggers 1992) are natives of the countries they discuss and continental coverage is even, all countries represented by one or two Chapters except for Brazil, which is represented by six. All except five of the 26 Chapters in Formativo Sudamericano: una Revaluación (Ledergerber-Crespo 1999) are SouthAmericans and national coverage is also relatively even, ranging from three to five Chapters for most countries.

In this Handbook, more than half of the authors are foreign and the geographical coverage is uneven. Although some parts of the continent provide a general overview of regional cultural development, specifically northern Chile (Chapter 48), South American pampas and campos (Chapter 14), the Guianas (Chapter 16), and Venezuela (Chapter 23), most Chapters focus on part of the local sequence, among them early occupations in the Southern Cone (Chapter 4), on the north coast of Chile (Chapter 3), and in the Peruvian highlands (Chapter 9); preceramic coastal adaptations in Peru (Chapter 10) and southern Brazil (Chapter18); the Formative period on the coast of Ecuador (Chapters 5, 24) and in the Titicaca Basin (Chapter 28); chiefdoms in Brazil (Chapter 19), Colombia (Chapters 21, 22), and highland Ecuador (Chapter 27); regional polities in Ecuador (Chapters 25, 26) and south coastal Peru (Chapter 29), and states and empires in the central Andes (Chapters 31, 36, 39, 40). Cultural development in the Amazon basin is discussed in Chapters 11, 12, 20, 33, 46, 47. Earthworks are described in lowland Bolivia (Chapter 11), on the coast of the Guianas (Chapters 13, 16, 17), and in eastern lowland Ecuador (Chapter 15). Three Chapters provide overviews of plant domestication (Chapter 7), animal domestication (Chapter 8), and the peopling of the continent (Chapter 2). Other specialized topics include the khipu (Chapter 41), ancestor images (Chapter 51), and trophy heads and human sacrifice in the Andes (Chapter 52).

Although the emphasis varies, the temporal and spatial distributions of settlements, artifacts, subsistence, burials, ritual features, and other cultural remains are described and interpreted in most of the chapters, often in the context of the impact of environmental fluctuations. Treatment is typically even-handed and objective, changes in interpretation as a result of new evidence are often described, and when experts disagree, the relative merits of their views are assessed. Interpretations of the social significance of architectural features, settlement pattern, site density, luxury goods, and other archeological remains are limited to general categories (elite, commoners, specialists). No effort is made to identify linguistic affiliations except in Amazonia. The existence of Chapters describing comparable levels of social complexity in different regions, such as the emergence of chiefdoms in the highlands of Colombia, Ecuador, and Peru, makes it possible to evaluate the impact of environmental differences on cultural adaptation.

The astute reader will notice a significant contrast between the content and interpretations in the Chapters on the Formative Period of coastal Ecuador and on Amazonia and those on the rest of the continent. In part, this reflects the fact that archeological evidence is limited primarily to pottery, both regions being characterized by warm humid climates in which stone is rare and perishable materials, including most artifacts, architectural features, human skeletal remains, and subsistence remains rarely survive. However, the discussions of these two regions also suffer from another deficiency; namely, the abandonment of traditional theoretical approaches for interpreting the archaeological record.Also, in contrast to the other chapters, these authors do not discuss the substantial evidence that disagrees with their views although it is unfamiliar to most archaeologists. Consequently, I appreciate the opportunity to explain the implications of their approach both for reconstructing prehistoric cultural development in the tropical lowlands and for the future of archaeology as a scientific discipline.

Criteria for Evaluating Cultural Similarities

Like biologists, who use genetic criteria to distinguish common ancestry from evolutionary convergence and independent development to explain morphological similarities in plants and animals in widely separated regions (such as columnar cacti in the southwestern US and northwestern Argentina), and geologists who use chemical composition to differentiate similar appearing rocks and minerals, archaeologists have traditionally used details of decoration on pottery to distinguish diffusion from independent invention. Pottery is ideal for this purpose because it can be decorated using an essentially unlimited number of techniques and motifs without affecting the utility of the vessel, making independent duplication of identical decoration unlikely. Several Chapters in this Handbook use differences in pottery to identify the origins of contemporary populations, but this criterion is ignored by James Zeidler (Chapter 24) in interpreting the origins of the Valdivia and Machalilla ceramic traditions on the coast of Ecuador and by Eduardo Neves (Chapter 20) in reconstructing the origin of pottery in Amazonia. Another widely accepted theoretical position involves identifying intrinsic environmental limitations and intermittent climatic fluctuations and estimating their impact on cultural complexity. Contrary to Sandweiss and Richardson (Chapter 6), who state that “understanding climatic change and natural disasters is critical to reconstructing cultural trajectories in the Andes” (p. 101), the authors of the Chapters on Amazonia (especially Chapters 11, 12, 33, 46, and 47) argue that “disturbance caused by human activities is a key factor in shaping biodiversity and environmental health” (p. 158). The consequences of ignoring these traditional approaches become evident when the evidence is examined.

The Origin of New World Pottery

The archeology of coastal Ecuador was essentially unknown prior to the 1950’s when Emilio Estrada began his fieldwork. He identified three Formative ceramic traditions, which he named Valdivia, Machalilla, and Chorrera. His definitions of Valdivia and Machalilla were expanded by subsequent fieldwork by Meggers and Evans and detailed descriptions were published in 1965 in Volume I of the Smithsonian Contributions to Anthropology. Although he had no archaeological training, Estrada recognized that the diagnostic decoration of the three traditions was distinct, implying different antecedents, and searched the literature for similar complexes in the Andes and Mesoamerica without finding any significant resemblances. Being brainwashed by graduate training, we did not think of looking outside the Americas, but Estrada had no such inhibitions and wrote us one day that Valdivia decoration looked to him a lot like Jomon. We were able to get funding to go to Japan in 1963 and traveled from Tokyo to southern Kyushu armed with photographs of Valdivia sherds to compare with pottery from Early and Middle Jomon sites. The closest resemblances we found were concentrated in collections from Ataka, Sobata, and Izumi on the west coast of Kyushu dating from the Early Middle Jomon Period.

Valdivia pottery appears about 6,000 BP on the coast of Ecuador with no local antecedents and the decoration is diverse in technique and motif from the beginning. The Meggers, Evans & Estrada 1965 Smithsonian monograph contains 26 plates that illustrate the same range of variation in technique and motif in broad-line incised, zoned incised, zoned punctuate, pseudo corrugated, multiple drag-and-jab, shell combed bands, overall shell scraped, finger grooved, excised, rocker stamped, drag-and-jab punctuate, and cord impressed decoration from Valdivia and Jomon sites. A photograph of a distinctive early technique consisting of a row of finger-tip impressions on the interior of the shoulder producing a low boss on the exterior, which we did not encounter during our visit to Kyushu, was sent to us recently by a Japanese colleague. In spite of the diversity and identity of the duplications between Valdivia and Jomon decoration, Zeidler asserts that “technological convergence or parallelism would seem to be a more parsimonious explanation for the beginnings ofValdivia pottery than transpacific diffusion from the Jomon culture” and that “early trade… may have spread the idea of pottery making from antecedent ceramic complexes in the Amazon basin” (p .462). In accord with his acceptance of an Amazonian origin for Valdivia pottery, Zeidler considers that “Lathrap has persuasively argued that Valdivia represents a tropical forest culture pattern… whose ultimate origins are linked to early population dispersals from the Amazon basin” (p. 462). He does not specify what these similarities are and the absence of evidence for sedentary communities earlier than Valdivia anywhere in the eastern lowlands, as well as the absence of any similarity between the environments of the two regions, make this theory unpersuasive.

These alternatives not only dismiss the significance of the duplication of multiple arbitrary features of abstract decoration for inferring cultural relationship, but fail to recognize the magnitude and diversity of other evidence supporting the Jomon origin of Valdivia pottery. Pottery was invented in Japan at least 14,000 years ago and by 6,000 BP had diversified into regional styles that differ more from one another than Kyushu Jomon does from Valdivia. A few years ago, another ceramic complex contemporary with Valdivia was discovered at San Jacinto on the north coast of Colombia that has decoration resembling the Jomon Flame Style on the west coast of Honshu, famous for its elaborate castellated rims decorated with zigzag appliqué, cord impression, and modeling. Like Zeidler, Augusto Oyuela-Caycedo (Chapter 22) denies a transpacific introduction in spite of the absence of local antecedents, the unique character of the decoration, and the contemporaneity of the Jomon and Colombian ceramic complexes (see Meggers 2005).

Since watercraft was available in Japan from at least the Paleolithic and its use for deep-sea fishing is documented by faunal remains in shell middens, why is there no earlier evidence of transpacific voyages? Given the antipathy of archaeologists to the possibility, it is likely that clues have been ignored, but the timing of the Valdivia-San Jacinto introductions can be explained by the catastrophic eruption of Kikai volcano off southern Japan about 6,300 BP, which deposited 40 cm of ash on Kyushu and lesser amounts as far north as central Honshu, causing landslides and slope erosion, decimating the population, and covering the land and the ocean with pumice. The impact of the eruption on the Jomon population is reflected in the density of one habitation site per 100 km² on Kyushu versus one site per 10 km² on the northern island of Hokkaido and one site per km² on Honshu during the Middle Jomon Period.Any fishing boats at sea would have been trapped in the pumice and swept north by the Black Current across the Pacific and down the west coast of the Americas as far as Ecuador. There, survivors would have encountered people living much as they did in Japan, but lacking pottery.

The ceramic evidence for prehistoric transpacific immigrants from Japan is also supported by epidemiological and genetic similarities between Japanese and prehistoric Andean populations that could not have evolved independently or been introduced across the Bering Strait. Among them is the human T-cell leukemia virus HTLV-1, which is transmitted between adult males and females by sexual contact and between nursing mothers and infants. The highest occurrence of carriers today is in Japan, where it reaches 6% in Kyushu; in the Americas, it is restricted to the Andean area. Jomon influence may also be reflected in the sudden adoption of permanent settlement during the Valdivia period on the coast of Ecuador and other intangible innovations, but the assumption of the independent invention of pottery discourages investigation (Raymond, Chapter 5).

In contrast to Zeidler’s denial of any relationship between the identical decoration of Jomon and Valdivia pottery, he accepts the “convincing arguments that the Machalilla ceramic style evolved directly out of the Late and Terminal Valdivia ceramic style” (p. 466), in spite of the absence of any shared characteristics. Machalilla pottery is decorated by double-line incision, embellished or nicked shoulder, black-on-white painting, fine zoned hachure, incised or punctated and red zoned, and narrow or wide red bands, none of which occur in Valdivia. Vessel shapes are also different, including bowls with angular shoulders and jars with stirrup spouts. He does not specify what “convincing arguments” favor local development and the overlap between the initial Machalilla and terminal Valdivia dates leave no space for such a drastic transformation. Nor does he mention the similarities noticed by other archaeologists between Machalilla and several highland Ecuadorian complexes.

A similar discrepancy exists in the acceptance by Zeidler and other authors of the Handbook (Neves, Oliver, Rostain, Isbell) of the pottery from the Taperinha shell midden on the middle Amazon as the earliest in the Americas, in spite of the lack of association between the pottery and the radiocarbon dates (Roosevelt et al. 1991) and the absence of any similarity between Valdivia decoration and that on the three sherds from Taperinha. The lower half of the deposit consists of amorphous shell and is separated from the upper half by a clearly defined sterile layer that implies long-term abandonment of the site. The upper half consists of irregular overlapping strata. All of the dates are from the lower half and most of the pottery is from the upper half. The few sherds encountered below the sterile layer can be attributed to intrusion via pits dug by iguanas or armadillos that frequent the mound. The eleven AMS dates obtained from below the sterile layer extend from 7,090 ± 80 to 6,300 ± 90 BP, making them a millennium earlier than the initial Valdivia and San Jacinto dates and compatible with their preceramic context.

Assuming that Taperinha pottery is earlier than Valdivia and San Jacinto, Roosevelt argues that it could not be derived from them, but she does not consider the possibility that it might be affiliated with a later complex. In fact, the decoration on the only three sherds she has illustrated, consisting of “feathered” incision, zoned parallel lines, and double-line incision, is diagnostic of the Barlovento Phase on the north coast of Colombia, which extended from about 3,600 to 2,800 BP. The most reasonable interpretation of the archaeological evidence is the migration of a few families from a Barlovento site to the central Amazon and their settlement on the abandoned shell midden of Taperinha. The absence of any other sites with similar pottery along the Amazon testifies to their failure to introduce pottery making to the indigenous population.

Whereas accepting an association between the pottery and the radiocarbon dates from Taperinha is a dead end, identification of its Colombian origin raises the question of what motivated the immigrants to leave their homeland. The ceramic sequence on the Caribbean coast of Colombia is the best documented in South America as a result of detailed investigations and publications by Gerardo Reichel-Dolmatoff (1985) and Carlos Angulo Valdez (1981) and the chronology of change in decoration is well defined. The history of climatic fluctuations is also well documented and indicates that parts of the region suffered episodes of drought during this period that affected traditional subsistence resources and stimulated dispersal to adjacent regions (Sanoja and Vargas 2007). The appearance of Barlovento-related pottery on the middle Amazon adds important evidence to the reconstruction of this event.

Amazonia: Anthropogenic Landscape or Counterfeit Paradise?

Although the unique environment of theAmazonian Basin and its limitations for the development of permanent settlements and intensive agriculture have been documented by geologists, paleoecologists, climatologists, botanists, and other natural scientists for decades, Erickson insists that “Rather than adapt to or be limited by the Amazonian environment, humans created, transformed, and managed cultural or anthropogenic (human-made) landscapes that suited their purposes ” (Chapter 11, p. 158) and that “archaeologists have demonstrated that much of Amazonia was occupied by dense populations of urbanized societies practicing intensive agriculture that significantly contributed to creating the environment that is appreciated today” (p. 161). He contrasts this approach, which he calls “historical ecology,” with cultural ecology, which he claims “treats the environment as a static, fixed, often limited resource to which humans adapt” (p. 165) and identifies me as “the main spokesperson” of the latter approach (p. 162).

The goal of historical ecology is to “carefully document and analyze the evidence within its temporal and spatial context for insights into original logic, design, engineering, and intentionality of human actions” (p. 159). The principal authorities he cites, in addition to anonymous “scholars” and “archaeologists,” are William Denevan, a geographer; William Balée, an ethnobotanist; Peter Stahl, a faunal specialist, and Donald Lathrap, an archaeologist who did his doctoral research 50 years ago on the Ucayali. Erickson’s own Amazonian experience is limited to the Llanos de Mojos in eastern Bolivia. The only Amazonian archaeologists mentioned are Eduardo Neves, Michael Heckenberger, and Anna Roosevelt.

Defining “Amazonia”. Amazonia is defined by geographers and ecologists as the portion of tropical lowland South America below 1,500 meters elevation, where the average difference in annual temperature does not exceed 5ºF, rain falls on 130 or more days of the year, and relative humidity normally exceeds 80%. Typical vegetation consists of rainforest, with small enclaves of savanna where soil conditions inhibit plant growth.

Erickson expands the definition to encompass “the entire region drained by the Amazon River and its tributaries” (p. 158). This allows him to cite any kind of archaeological evidence up to the highland headwaters of all the tributaries to support his contention thatAmazonia is a “domesticated landscape,” regardless of the characteristics of the soil, climate, elevation, topography or vegetation. The principal evidence he provides for the creation, transformation and management of domesticated, engineered, humanized landscapes is the existence of anthropogenic forests, large permanent settlements, earthworks, and Amazonian dark earth (ADE).

Anthropogenic Forests. According to Erickson, “Countering the view of Amazonian forests as pristine and natural, historical ecologists show that these forests are, to a large degree, the cultural products of human activity” (p. 175). He contends that “Rather than adapt or respond to the environment, Amazonian people created, transformed, and managed those very environments in which they lived and thrived through their culture” (p. 165); “The long-term strategy of forest management was to cull non-economic species and replace them with economic species” (p. 175); “Much of what was originally misinterpreted as natural change due to climate fluctuations is now considered anthropogenic” (p. 175) “Many game animals ofAmazonia would have a difficult time surviving without a cultural and historical landscape of human gardens, fields, orchards, and agroforestry” (p. 176). “Through the domestication of landscape, native people shaped the landscape as they wanted it and made it work for them” (p. 177).

Whereas Erickson provides neither examples nor references to support these interpretations, botanists, ecologists, and climatologists have published hundreds of articles and dozens of books linking past and present changes in the composition of rainforest vegetation to climatic fluctuations and identifying environmental factors responsible for contemporary biodiversity. For example, an inventory of patches of secondary forest visible on Landsat images across the Brazilian Amazon indicates that they are similar in origin to recent blowdowns confirmed north of Manaus, rather than remnants of cultivated fields (Nelson et al. 1994). Analysis of pollen cores in the rainforest of French Guiana where no archaeological sites have been encountered indicates that “the tropical rain forest, thought to have remained stable since the last glacial event, has in fact undergone deep modifications” (Charles-Dominique et al. 1998:296). After reviewing the paleoecological record, Bush and Silman (2007:457) conclude that “we see no evidence suggesting that large areas at a distance from rivers or in the less seasonal parts of Amazonia were substantially altered by human activity”. According to Piperno and Becker (1996:202, 207), analysis of phytoliths and macroscopic charcoal from soils near Manaus indicates that “closed forest has existed in the area since at least 4,600 yr BP. Vegetational changes and fires appear to be the result of climatic drying that may have affected large areas of the Amazon Basin over the past 5,000 to 7,000 years. Thus, it appears that this one sector of Amazonian terra firme forest was never significantly altered by humans”. Identification of fossil pollen in two sediment cores in eastern lowland Ecuador also implies the persistence of moist tropical rain forest throughout the Holocene and provides no evidence for human impacts or land use (Weng et al. 2002). Finally, cores from lake districts in eastern Peru and eastern Brazil do not support the contention that all of Amazonia is a built landscape (Bush and Silman 2007).

Large Permanent Settlements. Erickson states that “Archaeologists [unidentified] have demonstrated that much ofAmazonia was occupied by dense populations of urbanized societies practicing intensive agriculture that significantly contributed to creating the environment that is appreciated today” (p. 161). Although he asserts that “Traditional communities had large, open, clean plazas and streets along which houses were arranged in linear, grid, radial, or ring patterns” (p. 166), he mentions only Santarem and the Sangay site in eastern Ecuador, neither of which has this configuration. Based on the description of a modern Bari communal house in eastern Colombia that was constructed using 750,000 fronds from 125,000 palms, he estimates that a pre-Columbian population of 6.8 million forAmazonia would have required 1,360,000 communal houses “in a single moment,” which would have had to be replaced every 10 years. Huge additional amounts of wood would have been needed for cooking fires, palisades, watercraft, and artifacts. Even though admitting that “A community’s permanent transformation of the environment for these basic needs and infrastructure is staggering,” he asserts that “these communities were stable, long-lived, and sustainable despite this impact” (p. 166-167). He [Erickson] gives no archaeological example and the modern caboclo house and associated clearing he illustrates (Figure 11.2) bear no resemblance to traditional indigenous dwellings.

None of the other proponents of the existence of large permanent settlements has supported their interpretation by archaeological evidence. No systematic excavation has ever been done in Santarem to identify dwellings or features that might reveal how much of the area was simultaneously occupied and the estimate of a population of 100,000 is based on the dimensions of the terra preta. The only well documented investigations are on Marajó, beginning with Evans and Meggers in 19481949, followed by Roosevelt and Schaan (Chapter 19). Although Roosevelt has estimated a population of one million for the island, Schaan has reduced this substantially based on her evidence that the maximum population of the Camutins, the largest group of habitation mounds, would have been only about 2,000 (p. 347). A decade of survey and excavation on the left bank of the lower Solimões has identified several periods of occupation, but the size and permanence of each settlement are not clear (Neves, Chapter 12).

Extensive survey along the principal tributaries of the Amazon during the past 30 years by Brazilian archaeologists, which the historical ecologists do not cite, produces a very different picture of prehistoric settlement behavior. Beginning before 2,000 BP, when pottery making became sufficiently widely distributed for detecting habitation sites, the subsistence and semi-permanent settlement behavior characteristic of surviving indigenous tropical forest communities had been adopted. (see below for discussion).

Earthworks. According to Erickson, “Many Amazonian cultures were impressive mound builders” (p.168), citing constructions on the Llanos de Mojos in Bolivia, the Llanos del Orinoco in Venezuela, Marajó, Sangay in eastern Ecuador, and the Guayas Basin, none of which is rainforest and the last of which is not in Amazonia. Although he asserts that raised fields constitute the “most impressive example of landscape engineering at a regional scale,” he mentions only those in lowland Bolivia (p. 171). He also contends that “all Amazonian societies use elaborate networks of paths and trails and roads between settlements, gardens, fields, rivers, resource locations, and neighbors” and that “Some advanced Amazonian societies built impressive formal roads, causeways, and canals of monumental scale” (p. 173), but the only examples he describes are on the Llanos de Mojos.

With the exception of Marajó and the Açutuba region in the central Amazon, all the earthworks are outside the limits of Amazonia as traditionally defined. Roads, causeways, and canals are limited to the Mojos. Raised fields are also in marginal locations, among them the coast of the Guianas. Paths in the forest quickly disappear if not used regularly. Evidence that the construction of mounds, causeways, ridged fields, and other kinds of earthworks does not require a large organized labor force is provided by Erickson’s own experience. When he revisited a village on the Llanos de Mojos after several years, he found a new causeway 12 feet wide, 3 feet high, and half a mile long that had been constructed by members of the small local community in a week.

Amazonian Dark Earth (ADE). The most sensational recent discovery is the existence of patches of fertile black soil in many parts of the lowlands.According to Erickson, “Scholars believe that these soils were created specifically for permanent farming” (p. 171) and “are capable of continuous, high yields and are associated with dense populations, large permanent settlements, and complex society” (p. 163). “ADE was probably used for settlement, house gardens, and permanent fields rather than slash-and-burn agriculture, the common practice today”; “ADE is an excellent example of landscape domestication below the ground” (p. 171). Since it is assumed that slash-and-burn agriculture “depends on metal axes and machetes to efficiently clear primary forest. [and] These tools were unavailable until after 1492, Pre-Columbian farmers, using digging sticks and stone axes probably continuously cultivated fields and practiced agroforestry rather than clear primary forest” (p. 163). The allegation that slash-and-burn agriculture would have been unproductive prior to the acquisition of metal axes is invalidated by its global distribution during millennia prior to the invention of metallurgy and survival in remote regions today.

Furthermore, the assumption that Amazon Dark Earth was created intentionally and would have solved the problem of intensive agricultural production for large sedentary populations is not supported either by observation of current practices or by archaeological evidence.

Agronomic, pedological, and ethnographic research on the productivity of food plants on ADE has been conducted by Laura German (2003) among caboclos along the Rio Negro and Rio Urubú in Central Amazonia. Comparison of the yields of bitter manioc, pineapple and star nut palm with those of 10 other New World crops and 10 Old World crops on ADE and on local soil revealed higher yields for the three Amazonian crops on the natural soil. She asserts that “linkages between intentional agricultural intensification and Black Earth formation, and between Black Earth and an increase in human carrying capacity, have been insufficiently established” and concludes that “Observations on the degradation caused by continuous cultivation clearly show that in the absence of ongoing cultural amendments, the carrying capacity of these [black earth] environments would not be significantly greater than that of adjacent sites” and that “the suggestion that these richer pockets of soil made possible the transition to a more sedentary life style is as yet untenable” (German 2003:327, 313).

With regard to slash-and-burn agriculture, Weischet and Caviedes, the authors of the leading synthesis, The Persisting Ecological Constraints of Tropical Agriculture (1993) specify that “a differentiation should be made… between natural conditions that are unalterable and those that can be compensated for by man” (1993:41) and conclude that “On the basis of ecological reasoning it can be proven that this particular mode of rotating food crop and forest or bush fallow [i.e shifting cultivation] is a specialized adaptation to the environmental conditions of the tropics which not even modern agrotechnology has been able to replace” (1993:275). They also state that the “unveiling of certain persistent myths about tropical fertility […], by now widely known and dismissed” and explaining “how these myths could be perpetuated and fundamental laws that govern the tropical environments ignored for so long ” are crucial for sustainable exploitation of Amazonia (1993:281). Unfortunately, the Chapters by Erickson and others in this Handbook indicate that these myths have gained rather than lost their credibility among anthropologists.

The Unique Environment of Amazonia

Amazonia differs from all other tropical forest environments in combining great geological antiquity with abundant rainfall and constantly warm temperature. The Brazilian and Guayana shields preserve some of the most ancient terrestrial landscapes on the planet, which millions of years of chemical and physical weathering and erosion have reduced to inert granite and white sand. Whereas in temperate regions more than half of the organic carbon, some 90 percent of the nitrogen, and the most important minerals are contained in the soil where they remain available to the vegetation, in Amazonia most of the nutrients and all of the calcium are stored in the biomass. According to Weischet and Caviedes, “This is an ecologically decisive difference with far-reaching consequences” (1993:62). “The part of the forest above ground works like a filter system in that the nutrients supplied by the rain are used several times before they arrive at the soil surface… Only with the decomposition of the different members of the subcycles does a certain portion of the nutritional elements finally reach the soil surface. Here, a substantial nutrient loss is essentially prevented by another agent known as the mycorrhizas” (1993:130). The interspersed distribution of plants of the same species with different nutrient requirements and the rapid disintegration and uptake of litter rescue nutrients that reach the soil so successfully that “as long as the forest is undisturbed, no net loss of macronutrients through outwash occurs as proven by the fact that (1) the autochthonous black-and clear-water streams of the tropical lowland forests may best be likened to slightly contaminated distilled water, and, (2) the waters of small creeks in virgin forest areas contain even less macronutrients than rain-water” (1993:276).

In addition to infertile soil, Amazonia is characterized by the absence of a dormant season, which makes the vegetation continuously susceptible to decimation from pathogens. Their dispersal is minimized by the heterogeneous distribution of wild plants of the same species in the forest, which is replicated by the interdigitation of crops in indigenous fields. Only palms have the ability to maintain large uniform stands.

Archaeological Evidence of Population Density

Whereas no systematic stratigraphic excavations have been undertaken in habitation sites in any of the regions identified by Erickson as “occupied by dense populations of urbanized societies practicing intensive agriculture” (p. 161), archaeological surveys along the principal tributaries of the Amazon and ethnographic evidence demonstrate that patches of ADE are the product of intermittent occupation of habitation sites during hundreds of years, and were never cultivated prehistorically.

Archaeological survey conducted along a 240 km sector of the Rio Jamarí, a tributary of the upper Madeira in southwestern Brazil, identified 121 sites representing 16 preceramic occupations, 16 lithic workshops, 89 ceramic sites, 8 campsites with pottery, and 2 Neobrazilian sites. All the ceramic sites are terra preta (ADE). Unselected surface collections of pottery were made at 42 sites, and one to nine stratigraphic excavations in 10 cm levels were made at 22 sites. Classification and seriation identified five ceramic phases representing the same pottery tradition and permitted construction of a relative chronology that is complemented by 137 radiocarbon dates. The initial ceramic phase, the only one distributed throughout the region, was introduced ca 2,400 BP. By about 1,500 BP, it had differentiated into two phases that occupied contiguous territories characterized by differences in aquatic resources. Each of these was replaced by a later phase of the same tradition about 700 BP (Meggers and Miller 2006).

Comparison of the locations of the ceramic sites with their phase affiliations shows that only 6 were occupied during three successive phases. Seventeen were occupied during two phases and 26 were occupied intermittently during a single phase. All the phases were divided into two moieties distinguished by minor differences in the presence or relative frequency of a rare pottery type and most sites were occupied and reoccupied by the same moiety. When reoccupied by a different moiety or a different phase, the new house was adjacent to rather than on top of the earlier refuse, increasing the surface dimensions of the site. Although there is no visible stratigraphic evidence of the abandonment and reoccupation implied by the discontinuities in the seriated sequences, they are supported by large differences in the radiocarbon dates from successive levels in the same excavation. At RO-PV-35, for example, dates from consecutive 10 cm levels in four excavations distributed across the site are in chronological order but differ by 1500, 900, and 120 years and dates from the same depth in different excavations also differ by hundreds of years. Similar discrepancies between the dates from consecutive 10 cm levels have been identified at 14 other sites, contrary to what would be expected if these sites had been continuously occupied.

The number of sites allocated to each phase and their distribution within the territory provide other clues to settlement behavior. For example, the 14 sites occupied during the Jamarí Phase, which lasted ca 800 years, are widely separated giving the impression that the territory was under populated. A different interpretation is suggested by comparison with the settlement behavior of a modern Yuqui community in eastern Bolivia. Their territory is divided into a nuclear area about 10 km in diameter, where the village is located and most of the hunting is performed, and a peripheral ring about 5 km wide, which is hunted infrequently and serves as a source of replacement for game removed from the nuclear area. This allocation provided sustainable subsistence for a population of ± 100 during 22 years, but is now being compromised by the intrusion of colonists from the adjacent region into the peripheral area. Projecting the diameter of the nuclear area around the locations of the sites of the Jamarí Phase reveals that the boundaries of all but four overlap, and that three more would also overlap if the surrounding ring were included, supporting the interpretation of intermittent occupation based on the seriated sequences.

Another independent estimate of sustainable population density has been provided by biologists concerned with the growing impact of commercial hunting on the survival of preferred species of mammals. Combining age of reproduction, number of progeny, longevity, impact of other predators, and natural death rate for each species permitted estimating the maximum number of individuals per km² that could be eliminated sustainably. Converting the result into biomass and dividing the total by the nutritional requirement of a human consumer produced estimates between 0.2 and 1.0 persons per km² for sustainable hunting. The similarity between these estimates and those ranging between 0.2 and 1.5 per km² provided by ethnographers for the population densities of 12 contemporary indigenous Amazonian communities that maintain their traditional behavior is unlikely to be coincidental.

Historical Ecology Versus Environmental “Determinism”

Cultural ecologists, erroneously labeled “environmental determinists,” assume that humans, like all other biological organisms, are subject to natural selection and evolutionary drift, but that unlike other animals these affect not only their biological features but also their cultural behavior. Among the impediments to applying evolutionary theory to the interpretation of archaeological remains, especially pottery, is the absence of a standard classification. In contrast to other categories of phenomena (rocks, stars, plants, animals, soils, etc.), where evidence is ignored unless it conforms to the recognized definitions, every archeologist is free to select whatever criteria he or she prefers and interpret them at will, making comparison possible only at a very general level of similarity. The opportunity to change this situation was provided in Brazil in 1964 by the creation of the Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas (PRONAPA) on the coast, followed in 1976 by the Programa Nacional de PesquisasArqueológicas na Bacia Amazônica (PRONAPABA). The participants in these programs adopted standard criteria for collecting, classifying, describing, and interpreting pottery that permitted identifying endogamous communities and the temporal and spatial distributions of their constituent sites.

When the PRONAPA began, we accepted the traditional view that although the samples from surface collections and stratigraphic levels were unselected, they were not random and thus irregularities in the trends in seriated sequences were attributable to sampling error rather than to differences in behavior. As the number of seriated sequences composed of levels from excavations in multiple habitation sites increased, comparison showed that the principal undecorated types, which normally accounted for 90% or more of each sample, usually displayed consistent trends of increasing or decreasing relative frequency, whereas one or more of the decorated types often exhibited minor fluctuations throughout the seriation. On the possibility that these might have cultural significance, the levels were separated into two seriations based on the difference in relative frequency. Comparison of the locations of the sites included in each sub-seriation showed that the majority were different and when they were the same, the portion of the site occupied was different. Since the differences in relative frequency were minor (typically ± 5%), they would not have been apparent to the potters, making the most obvious explanation the impact of evolutionary drift on the products of women isolated by matrilocal residence.

The impact of evolutionary drift on cultural behavior not subject to adaptive constraints has frequently been reported by ethnologists, including minor differences in the relative frequency of the decoration on pottery made for domestic use by women in different communities and by those in the same community isolated by matrilocal residence. For example, among the Shipibo, intensive interaction among women in the same and little between those in different houses ensures that girls learn from their mothers, creating a different micro-style in each community. Among the Bororo, the village is divided among two moieties that exhibit slight differences in decoration and vessel shape. Among traditional potters in Guatemala, where the household is also the unit of production and girls learn from the oldest relative, each local group has a distinctive style. An experiment conducted decades ago, in which a sequence of potters was told to copy the preceding vessel, demonstrated minor unconscious modifications.

Other interpretations based on archaeological evidence and confirmed ethnographically include matrilocal residence, endogamous communities, permanent territorial boundaries, reoccupation of sites by the original community or moiety, avoidance of earlier sites by later communities both for settlement and cultivation, and low population density.

The assumption that ADE is the product of permanent residence is invalidated by the archaeological evidence for abandonment and reoccupation of all but the smallest habitation sites wherever systematic survey has been conducted along the tributaries of the Amazon. The avoidance of previously occupied locations by subsequent occupants of the region detected by the seriations is explained by the ethnographic evidence that prehistoric sites are neither cultivated nor reoccupied by traditional indigenous communities today because they are recognized as cemeteries and the spirits of the deceased are respected.

The existence of detailed reconstructions of settlement behavior along the principal tributaries of the Amazon since about 2,000 BC makes it possible to evaluate the credibility of the prehistoric population density and social complexity inferred by the historical ecologists not only with the archeological record, but also with independent climatic and ethnographic evidence. In the case of the Jamarí sequence, for example, comparison of the durations of the five ceramic phases with the radiocarbon dates indicates that the replacements occurred ca 1,500, and 700 BP. Examination of other well dated sequences across the lowlands shows additional discontinuities on the Llanos de Mojos and the lower Orinoco ca. 1,000 BP. The coincidence between the timing of these replacements and the impact of mega-Niño events implies that the associated episodes of aridity depleted subsistence resources sufficiently to force people to abandon their villages and revert to hunting and gathering until conditions returned to normal. Whereas the relatively brief durations of the mega-Niño events limit their identification in Amazonian pollen cores, the reduced intensity of the 1,000 BP event in Amazonia is clearly documented archaeologically by the absence of discontinuities in the tropical forest sequences.

Although minor El Niño droughts leave no archaeological imprint, the climatic record indicates that they occur at intervals of about seven years between the catastrophic events. Observations of the impact of a brief El Niño episode in 1983 on the rainforest of Barro Colorado Island in Panama indicate that their consequences can be dramatic. Thirty-three out of 37 moisture-demanding species of plants declined significantly and the abundance of small shrubs fell by 35% during the following 13 years. “The failure of many plants to flower or fruit during an abnormal weather cycle [… ] in 1970-1971 and the resultant famine and death among frugivores testify to the subsistence stress longer episodes would have inflicted on humans”. The description of the impact of the 19721973 drought on a Yanomami community in southern Venezuela is equally dramatic. Fires set to prepare new gardens spread to adjacent clearings, destroying the producing crops. Adjacent vegetation remained nonflammable, however, and the population reverted to hunting and gathering until normal rainfall returned. “Working harder than normal, they remained constantly hungry but survived” (Meggers 2007a:135, 143).

Similar brief El Niño droughts would have impacted Amazonia between major events in the past and would have stimulated the adaptive behavior among indigenous communities documented by ethnologists. Children learn at an early age to identify all wild plants from a leaf, seed, or branch, as well as their uses and the animals that pollinate or feed on them. Adults continuously search for new edible plants. They avoid some edible tubers until those usually consumed fail and possess detailed knowledge of ecological relationships among flora and fauna. Short-term and permanent taboos against consumption of deer and tapir are widespread, although they are the largest terrestrial mammals. The likelihood that caymans were tabooed at least in the lower Tapajós region is suggested by their critical role in the aquatic food chain (Fitkau 1970). It seems likely that prehistoric communities reverted to hunting and gathering, like the Yanomami, during these episodes and enhanced their knowledge of the biota and their chances for survival. The discontinuities in the archaeological record indicate that this knowledge and the cultural measures that promote sustainable exploitation of the environment were insufficient to overcome the detrimental impact of mega-Niño droughts.

Erickson’s assertion that “archaeologists have demonstrated that much of Amazonia was occupied by dense populations of urbanized societies practicing intensive agriculture that significantly contributed to creating the environment that is appreciated today” (p. 161) is being discredited not only by the archaeological evidence, but also by the increased abundance and variety of paleoclimatic evidence. For example, numerous pollen cores have produced detailed records of intermittent droughts along the Brazilian coastal strip, which correlate with human abandonment of vast areas during the Mid-Holocene there, as well as in the Guianas and Eastern Colombia (Meggers 2007b). Geological, ecological, palynological, and climatological investigations in French Guiana pro-vide a detailed reconstruction of environmental change during the past 8000 years and a marine core from the Cariaco Basin off the coast of Venezuela documents four episodes of severe drought between AD 760 and 910. Analysis of lake sediments in the Carajás region of northeastern Brazil indicates that the major cause of perturbations in the tropical forest during the Holocene was climate change that modified the water balance. The RAINFOR network of 136 permanent plots in old growth forest throughout the Amazon created 25 years ago provides daily records of temperature and rainfall that may reveal local fluctuations that will be helpful in interpreting archaeological evidence (Phillips et al. 2009). Paleoclimatologists concerned with reconstructing paleoenvironmental climatic changes in eastern Brazil during the Holocene have recently suggested that “humans might be regarded as good paleoenvironmental markers for the Holocene. In this light, we propose that archaeological data should be better explored, and regarded as a valuable basis for paleoenvironmental inferences” (Araujo et al. 2005/2006:28).

Taking advantage of these kinds of opportunities for collaboration requires that archeologists adopt standard criteria for collecting, classifying, and interpreting their data. The territorial distributions of the ceramic traditions identified by the PRONAPA on the coastal strip more than forty years ago have been expanded by more recent investigators, but their failure to classify the pottery and apply quantitative analysis and seriation has prevented the kinds of social and settlement interpretations obtained from the survey of the Jamarí and other rivers in Amazonia.Although the ceramic traditions recognized in Amazonia decades ago are criticized by several authors in the Handbook, they have not supplied the archaeological evidence necessary to suggest alternatives. Hopefully, this will change.

The Founder Effect and Evolutionary Drift

Pottery is ideal for tracing cultural contact because it can be decorated in an essentially infinite number of techniques and motifs without affecting the function of the vessel. Some similarities, such as depiction of the same birds or animals, can be attributed to independent invention, and a few duplications in a long series of abstract elements can be dismissed as accidental. Multiple independent duplications of the same combinations of techniques and abstract motifs, such as those between Jomon and Valdivia, are unknown.

The evidence that the decoration on pottery is subject to unconscious evolutionary drift, that each endogamous community develops a distinctive ceramic configuration, that members of a community will possess a slightly different proportion of the diagnostic traits, and that dispersal of a segment of the ancestral population is consequently subject to the founder effect makes it possible to demonstrate that the initial ceramic complexes in lowland SouthAmerica are derived from Valdivia-San Jacinto antecedents. The earliest offshoot identified thus far is the Monagrillo Phase, decorated with incisions ending in a punctation, small excised zones, a band of short vertical incisions, parallel incised lines, and zoned punctuate, which appeared in adjacent Panama ca 4,500 BP (Meggers 1997). The second dispersal, represented by the Waira-jirca Phase in the north highlands of Peru beginning ca 3,800 BP, exhibits a different set of the ancestral traits, including undulating and double-line incisions, rings with a central punctate, bands containing closely spaced vertical lines, and equilateral crosses. The Ananatuba Phase, which appeared at the mouth of the Amazon about 3,400 BP, contains some of the same diagnostic traits as the Waira-jica Phase, including the ring with a central punctation, undulating incisions, and the equilateral cross, as well as parallel lines and feathered incisions. The decoration of the Barrancas Phase that arrived on the lower Orinoco ca. 2,900 BP consists of small excised zones, rings with a central punctation, incisions terminating in a punctation, miniature biomorphic adornos, and small vertical handles adjacent to the rim. It is noteworthy that several of the same ancestral techniques occur in most of the regions, whereas others do not. The differences are exactly what can be predicted based on the founder effect and evolutionary drift.

The Future of Scientific Archaeology

The most notable contrast in this volume is between the theoretical perspectives of the US authors working in Ecuador and Amazonia and those working in other parts of the continent. Denial of the existence of adaptive constraints on cultural development, the impact of evolutionary drift, and the importance of cultural diffusion distorts their interpretations of the archaeological record. It also prevents archaeology from making a significant contribution to the reconstruction of climatic and environmental change in the tropical lowlands since the beginning of the Holocene, and especially during the past four millennia.

The contrast between the detailed reconstruction of settlement and social behavior along the Jamarí in southwestern Amazonia based on applying evolutionary theory to the interpretation of the archaeological evidence, especially the characteristics of the pottery, and the vague temporal and spatial correlations among habitation sites occupied during the early Formative Period on the coast of Ecuador is striking. The Jamarí data permit identifying endogamous territories, matrilocal residence, village movement, contemporary settlements, and reoccupation of sites, as well as the impact of intermittent severe droughts that leave no permanent imprint on the biota. Even when radiocarbon dates can be obtained for past climatic events, they are less precise than those from archaeological contexts, which can also provide more specific identification of the locations and severity of their impact.

The negation of the evidence for cultural diffusion, particularly obvious in the refusal to consider the Jomon origin of the earliest pottery in Ecuador and Colombia, is another remarkable rejection of traditional cultural interpretation. The fact that pottery can be decorated using hundreds of different arbitrary techniques and motifs has always made it a primary tool for differentiating independent invention from common ancestry. The probability of independent duplication of the decoration on Jomon, Valdivia, and San Jacinto pottery is nil. Similarly, the presence of several of these motifs in the initial pottery complexes in Panama, at the mouth of the Orinoco and the mouth of the Amazon, and the north highlands of Peru testifies to migrations at different times from the northwestern part of the continent attributable to otherwise invisible fluctuations in the local climate.

Its geographical isolation prior to European colonization makes prehistoric South America a unique laboratory for examining the relationship between temporary and permanent environmental conditions and cultural development. In contrast to the rest of the planet, most of which has been continuously occupied since the early Paleolithic, it remained isolated from the continuous biological and cultural interactions that affected the course of history throughout Europe and Asia. Whereas the latter regions are dominated by temperate climates and fertile soils, deserts are mild, and forests and plains blend into one another, South America has large unbroken extents of distinct environments, including barren deserts, treeless plains, dense rainforest, snow-capped mountains, highland basins, and sea coasts that extend from tropical to subarctic latitudes. Large sectors of all these regions remain free from significant disruption by cities, roads, mechanized agriculture, and other kinds of modification that have altered the original characters of the landscapes in most of the Old World and destroyed archaeological evidence of conditions in the past. Isolation from modern encroachment has also permitted indigenous populations in many parts of the continent to pursue their traditional ways of life, providing examples of tangible and intangible behavior that can be compared with the archaeological evidence.

Suddenly much of this picture is changing. Rampant globalization is attracting foreign invaders, who have the technology to make drastic modifications in topography and biota, destroying the cultural configurations that maximize sustainable exploitation of unique environmental constraints, especially in the tropical lowlands. Their impact has eliminated key species from the food chain, interrupted the closed system of nutrient transfer that protected the infertile soil from further depletion, and disrupted the rainfall regime. Unfortunately, the insistence by the historical ecologists that prehistoric humans learned to “domesticate” the landscape to suit their needs is even less true today than it was in the past. I urge readers of this Handbook to take seriously the potential of archaeology to make a significant contribution to our understanding of prehistoric cultural adaptation in this unique and fascinating part of the world.

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Betty J. Meggers – National Museum of Natural History, Smithsonian Institution, Washington DC, USA.

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La Arqueología y la Etnohistoria. Un Encuentro Andino – TOPIC (C-RAC)

TOPIC, John R. (Ed). La Arqueología y la Etnohistoria. Un Encuentro Andino. Lima: Instituto de Estudios Peruanos e Institute of Andean Research, 2009. 369p. Resenha de: MILLONES, Luis. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.43, n.2, p.323-326, dic. 2011.

John Topic nos entrega un nuevo texto guiado por la idea de presentar un retrato sobre los estudios andinos en nuestros días. En su introducción, menciona a varios autores que destaca por su capacidad de pasar por encima de las fronteras de las disciplinas comprometidas en este libro (antropología, arqueología, historia) para acercarse al objetivo de sus investigaciones. Son esas las pautas de la publicación: el estado del trabajo interdisciplinario en los estudios andinos en el primer decenio del año dos mil.

En las mismas páginas da cuenta del esfuerzo que ha tenido que desplegar hasta que la publicación llegue a nuestras manos. No lo dudamos. Convertir una reunión académica en un libro que incluya los debates grabados de los participantes es algo que pocos colegas se atreverían a hacer. No siempre el resultado refleja lo que pudo ser una controversia vivaz e interesante, con aportes que justifiquen el trabajo realizado. En este caso, el editor intenta trasmitir ese quehacer íntimo del evento, con las dificultades que menciona y las que podemos adivinar a través de experiencias parecidas.

A lo dicho se suma la ausencia del trabajo de Idilio Santillana, participante de la reunión, cuya tesis doctoral sigue esperando su turno en el editorial de su universidad, lo que decidió a Idilio a dejarnos sin su contribución, lo que lamentamos. Actuó de madrina nuestra hermanita mayor, María Rostworowski, cuya participación es siempre un lujo. El evento recordó a Craig Morris, cuya muerte en el 2006 es una pérdida notable en los estudios andinos.

Dividido en cuatro rubros, el que se dedica a Mitos y Cosmología, tiene un solo expositor, Segundo Moreno, que eligió un tema importante y complejo, el Chimborazo como ancestro. El autor nos dice al final de su artículo que carece de fuentes escritas similares a las que pueden encontrarse en las visitas de los extirpadores de idolatrías del arzobispado de Lima. Pero exprime con mucha habilidad la documentación y la tradición oral recogida en la época colonial y republicana, en las faldas del volcán. Moreno nos recuerda que el Chimborazo era una de las huacas relacionadas con los seguidores del Taki Onqoy, justamente la que se encontraba en el extremo norte de las que fueron convocadas para derribar a los dioses cristianos. Posteriormente esta visión cambia y la montaña restablece su calidad de apu (señor) exigente, al que no satisfacían los rebaños que le estaban consagrados (camélidos y posteriormente ovejas), a ellos agregaba en sus demandas el sacrificio de niños y niñas, como otros nevados a lo largo de la cordillera de los Andes. El autor nos entrega desde el folklore los relatos sobre la condición masculina del Chimborazo y los enredos de su “pareja”, Tungurahua, cerro al que se feminiza, quizás “porque su influjo climatológico es lejano”.

La Segunda Parte está dedicada a la etnicidad e identidad, y empieza con un caso paradigmático, Sechura (Departamento de Piura, al borde del Océano Pacífico) en el Norte del Perú. El conocimiento del tema está garantizado por el autor, Lorenzo Huertas, que habiendo nacido en la región, es un hurgador de documentos que ha trabajado en localidades distritales (el Perú se divide en departamentos, éstos a su vez en provincias, que están compuestas por distritos) con el apoyo de los municipios de cada jurisdicción, y es autor de un libro sobre Sechura. Esta vez prefiere viajar en el tiempo, analizando la conservación de los espacios sechuranos en manos de sus habitantes originales. Usando el nombre que se le dio en la Colonia, Huertas concluye que “San Martín de Sechura resultó en un pueblo monoétnico, de allí su uniformidad cultural y homogeneidad genética y lingüística; además tuvo una estructura política policuracal”. Si así sucedió, esto fue el resultado de diversas estrategias de sus habitantes: aun los que vivían fuera del perímetro urbano regresaban para las festividades, incluso después de muertos para ser enterrados en su cementerio. Más tarde, en el siglo XIX, se crearon “fronteras vivas”, es decir se levantaron caseríos en zonas en conflicto con hacendados u otras comunidades calificadas de invasores. Esta solidaridad con su suelo se alimentaba en un parentesco endogámico que hasta hace muy poco tiempo hacía posible descubrir a sus pobladores o descendientes por sus apellidos.

Para el mismo rubro de identidad y etnicidad, cuatro autores (Santoro, Romero, Standen y Valenzuela) eligieron el valle de Lluta, al norte de Chile como caso de estudio. Muy centrados en el viejo esquema de verticalidad, predicado por John Murra en la década del sesenta, se proponen a estudiar los cambios en la estructura económica y política en el período que va del Intermedio Tardío a la intervención del estado incaico. El espacio señalado es “una cuenca hidrográfica de más de 150 km de largo y comprende una hoya de 3.450 km2″ que ha sido objeto de interés en la bibliografía chilena desde varios años. Esta vez, los autores basan su análisis en “muestreos de superficie aleatorios y estratificados de los 29 sitios arqueológicos habitacionales y funerarios, algunos ya conocidos en inventarios regionales”. Para su estudio han clasificado el espacio en tres tipos de valles: costero, intermedio y fértil.

Su primera conclusión es que en el Intermedio Tardío “el sector del valle costero y del valle fértil fueron controlados por población de origen local”. Por el momento se desconoce el carácter de su estructura política, pero se puede decir que en el valle intermedio, el control de las tierras es compartido por poblaciones de origen altiplánico.

El tema se replantea con la irrupción del Estado incaico que se hará visible en la cerámica cuya presencia y variaciones, a decir de los autores, puede reflejar “arreglos políticos y económicos” que se constituyen “para administrar la población y los territorios de los valles”, tal sería el caso de Arica.

Buscando la colaboración del dato histórico, el artículo nos recuerda las hazañas atribuidas a Tupac Yupanqui “quien después de conquistar a los grupos altiplánicos del área circum-Titicaca, separó específicamente para los pacajes algunas tierras de cultivo de maíz… en las costas de Arica y Arequipa”. A continuación queda planteado el dilema de la articulación de la zona de los valles y costa de Arica (Lluta y Camarones) que pudo ser multiétnica, con pacajes y carangas compartiendo el control; o bien reafirmando a los pacajes como dominantes en el período incaico y a los carangas como presencia colonial.

Jorge Hidalgo se suma al tema en debate desde una perspectiva diferente, en lugar de fijar un espacio geográfico para discutir sobre su identidad, prefiere contrastar las comunidades de pescadores y agricultores que habitaron la región que María Rostworowski llamó Colesuyo (desde Camaná hasta Tarapacá).A continuación Hidalgo, basado en una copiosa documentación, trata sobre el intercambio entre estos habitantes yungas.

El punto de partida del trabajo de Hidalgo es la propuesta de Rostworowski que los habitantes del Colesuyo al carecer de un centro de poder estuvieron dominados por la gente serrana desde el período que los arqueólogos llaman Intermedio Tardío, que precedió a los Incas. Para Hidalgo, tal supremacía recién se logra en la última etapa prehispánica. Para demostrar su propuesta recurre a tres casos significativos: Ilo, Tacna y Arica. Su argumentación concluye estableciendo que Ilo era un cacicazgo de pescadores, Tacna era un escenario compartido por agricultores y pescadores y Arica (como Tacna) aun sin conclusiones definitivas, muestra una población multiétnica con territorios interdigitados.

Jorge Hidalgo utiliza la documentación que acompaña el estudio de Efraín Trelles sobre el encomendero Lucas Martínez Vegazo, cuyos tributarios pertenecían a las actuales jurisdicciones de Tarapacá, Arica, Ilo y Arequipa. A ello suma un juego comparativo entre las informaciones que proceden de las visitas de Pedro de La Gasca y de Francisco de Toledo. Como se sabe, luego del primer intento del reparto de encomiendas, bolsa de pensiones y distribución de yanaconas, el licenciado La Gasca se vio obligado, en 1548, a realizar una inspección de los repartimientos indígenas de todo el virreinato, a partir de las declaraciones de los curacas y los encomenderos de cada jurisdicción con datos específicos de población (originales y forasteros), tipo de cultivos, productos de cada región (textiles, ganados, etc.) y en especial de los tributos que proporcionaban al encomendero, e incluso antes de la Conquista a las autoridades incaicas o jefes locales. Con mucho mayor detalle dado que las circunstancias políticas eran otras, el virrey Toledo, entre 1570 y 1575, instruyó a sus funcionarios de tal forma que los propios encomenderos asegurasen la veracidad de los resultados. Esto quiere decir que los datos estadísticos obtenidos permitieron analizar desde la composición familiar hasta el nivel productivo de cada región. Además, detrás de esta propuesta demográfica y económica, estaba la necesidad de describir al imperio de los Inca como una tiranía que se redimía con la administración hispana y por supuesto, con la catequización cristiana.

El resultado está volcado en cuadros comparativos que también incluyen la información de Lucas Martínez Vegazo (1540) y que servirán de fuente para futuros estudios. Hidalgo concluye que el cacicazgo de Ilo aparece en las fuentes como una comunidad de pescadores, que además practicaba la agricultura. Al contrario, en el de Tacna no parece haber mucho contacto con la ribera marítima. Cuando aparecen quienes practican la pesca, son mitimaes que terminan siendo parte de este cacicazgo.Aun así es difícil pensar que las actividades se mantuvieron separadas. Esta división es notoria entre los aymaras, lo que contrasta con la población original. Finalmente, tenemos el caso de los caciques e indios uros en Lluta y Azapa y de los indios camanchacas con tierras de cultivo en la ciénaga de Ocurica… que se vieron obligados a vender sus tierras para satisfacer el impuesto reclamado por Toledo. En conclusión, Hidalgo propone que la ausencia de diferencias entre pescadores y agricultores, encontradas en la tradición cultural de la costa, habría tenido sus orígenes en la tradición cultural alto andina.

En su Tercera Parte el libro trata del siempre espinoso tema de las fronteras del Imperio. El primer trabajo de este rubro pertenece a Sonia Alconini que reabre el estudio de los límites con el Chaco boliviano, lo que tiene una larga historia, en especial por su relación con las tribus chiriguanas de filiación guaraní.Alconini centra su trabajo en dos zonas: Oroncota al oeste y Cuzcotuyo al este de los piedemonte del Chaco, ambas en la Cordillera Oriental de los Andes.

El artículo empieza con una provocadora cita del Inca Garcilaso de la Vega, en la que el cronista muestra el estereotipo usual que desplegaban incas y europeos con respecto a las sociedades más allá de su territorio conocido. Llega a decir: “Y no solamente comían la carne de los comarcanos que prendían, sino también la de los suyos propios cuando se morían…” También los cronistas españoles repiten sus prejuicios: “los Chiriguanas que es una nación de montaña desnudos y que comen carne humana…” a decir de Pedro Sarmiento de Gamboa. Como nos recuerda la autora, esta percepción de los “bárbaros” es común en todas las historias oficiales de los imperios que se encuentra en varios continentes. Pero si bien estas calificaciones son repetitivas, los límites físicos entre sociedades diferentes, propician opciones de investigación que suelen ser novedosas, y ayudan a comprender al propio estado expansivo, de mejor manera.

Alconini proporciona dos fórmulas fronterizas: la militar y la cultural. Al obvio despliegue de barreras y soldados de una de ellas, la otra sería el de Incanizar a las poblaciones externas (bárbaros), a través de las poblaciones que habitaban dentro de sus límites. Para ello se centra en los datos de arquitectura, prospección y distribución de cerámica incaica. A los que suma la documentación histórica, que a su juicio refleja la perspectiva incaica, en la que las tribus chiriguanas figuran como invasores, por lo que el espacio fronterizo sería una zona militarizada a partir del gobierno de Tupac Yupanqui. Esta versión no coincide con la que procede de la arqueología: el sistema de caminos, el muro en la cima de la montaña Cuzcotuyo y las colinas amuralladas adyacentes, en lo que se refiere a la arquitectura, y la distribución de la cerámica guaraní-chiriguana que también se encuentra en espacios de ocupación incaica.

Sonia Alconini concluye que la frontera debe pensarse como un espacio de interacción, no como una línea demarcatoria. Dentro de esta perspectiva pudieron existir espacios militarizados como el complejo Cuzcotuyo y también centros provinciales como Oroncota, de larga inversión de trabajo en su infraestructura. Esto nos está diciendo que al lado de la construcción de lo que sería una frontera militarizada coexistían fórmulas de jugar con los límites como espacios de interacción con los grupos étnicos locales. Esta relación era también una forma de frontera que hacía de aquellas tribus parte del Imperio.

Las contribuciones preparadas para este rubro continúan con el trabajo de Verónica I. Williams sobre la dominación incaica en el noroeste argentino (NOA). En su artículo analiza la fórmula de ocupación incaica en los espacios que comprende el valle de Calchaquí, el de Yocavil-Santa María, la quebrada de Humahuaca y en el bolsón de Andalgalá. La pregunta pendiente sigue siendo la naturaleza de esta dominación. En algunos casos, la arquitectura prueba la presencia de los especialistas imperiales para la construcción de obras de naturaleza variada, en otras ocasiones, a partir de la alfarería se puede hablar de asentamientos mixtos (incaicos y santamarianos).

Williams enfatiza la variedad de estrategias usadas por los señores del Cusco para marcar su presencia en un espacio codiciado. Un Estado en expansión necesita en primer lugar una red de caminos, que en su fase inicial pudo ser heredada de los waris, en lo que se ha llamado “primer round” del imperio. A continuación, una vez establecidos los espacios y habitantes a ser dominados, se procedía a la instalación de centros estatales a lo largo de las vías. Dichos centros, o nichos provinciales, cubrían varias urgencias, entre ellas, presencia política, áreas de intercambio económico y ceremonial, pero sobre todo tenían la función de convertir a los sorprendidos habitantes, en miembros del Tahuantinsuyu. Parte importante en este afán era la determinación de las cumbres que se convertían en santuarios incaicos, confirmados con el sacrificio de niños y jóvenes, cuyas momias cargadas de ornamentos se siguen encontrando en el sur del Imperio.

No fue tarea fácil, el territorio prehispánico del NOA fue un mosaico de etnias, muchas de ellas alojadas bajo la cómoda denominación de calchaquíes. Esta fragmentación de etnias trajo consigo que en el aspecto militar (si es que la hubo) se diera un mayor avance, mientras que en el aspecto productivo el desarrollo fue más lento y complejo. Este panorama cambió en cuanto los hijos del sol implementaron la organización social incaica.

Es interesante descubrir esta voluntad incaica de construir estos complejos habitacionales en lugares poblados y despoblados, lo que implica consideraciones geopolíticas de larga duración que ahora escapan de nuestro conocimiento. En todo caso Willliams encuentra dos patrones generales: aquellos poblados integrados por varios sectores, como podría ser un cerro con defensas, barrios residenciales y zonas públicas; un poblado al pie del cerro y conjuntos arquitectónicos dispuestos en forma aislada, vinculados a unidades domésticas, talleres artesanales y terrazas agrícolas. El otro patrón se caracteriza por centros ubicados en terrazas o mesetas altas y relativamente planas.

Para concluir Williams propone que las diferentes formas de ocupación del Estado incaico “pudieron responder a un control territorial de tipo directo o indirecto, confluyendo en los asentamientos estatales los centros de poder y de intercambio”. Aun así, es difícil saber los criterios incaicos de ocupación, que debieron variar de acuerdo a la reacción de los pobladores originales.

Culminan los trabajos en este rubro con el artículo de Ana María Lorandi, maestra de larga e importante trayectoria en las ciencias sociales argentinas. El tema de su trabajo tiene que hacer con las relaciones centro-periferia del Tahuantinsuyu, usando como ejemplo el NOA. Se interesa especialmente en la producción de bienes y servicios a favor del Estado incaico, usando como herramienta las acciones de los mitimaes o poblaciones desplazadas con ese propósito. Como en el trabajo anterior, los calchaquíes son protagonistas en este juego de intereses, su aceptación o rechazo a estos colonos forzados es el eje de las preocupaciones de Lorandi y otros especialistas.

Lorandi empieza analizando el rol de mitimaes y yanaconas en el desarrollo del Tahuantinsuyu. Estas poblaciones cuya función y estilo de vida era transformada por decisión estatal, por mucho tiempo fueron considerados como serviles, sin que se determinasen las especificidades de su accionar, lo que incluía, en algunos casos, privilegios con respecto al hatun runa. Ubicarlos en el NOA no fue fácil, Lorandi nos dice que aun bajo el gobierno español, la región fue frontera de guerra, lo que a ella le permite extrapolar la situación para épocas prehispánicas, concluyendo que “los incas controlaron más fácilmente a las jefaturas más septentrionales que a las del centro y sur de la región”.

Superada la fase guerrera, lo que se conoce en las crónicas como etapa de pacificación imperial o pax incaica, debió involucrar un cuidadoso manejo de los mitimaes. Si la distancia con sus pueblos de origen no era superior a unos días de camino, la estrategia debió ser muy diferente si los desplazados terminaban ocupando espacios a muchos kilómetros. Y por más que se guardasen sus privilegios en los pueblos de sus padres, la reubicación implicaba situaciones de adaptación para los pueblos originales y para los forzados migrantes. Concluye su trabajo con una pregunta que resume el estado actual de nuestro conocimiento sobre el tema, ¿Cuáles eran los límites de la capacidad del Estado para movilizar miles de personas a cientos o a más de mil kilómetros, sin provocar resistencias activas o pasivas, o sin provocar un agotamiento que conspirase con los objetivos políticos y económicos para los cuales se implementaban estas prácticas?”

La Cuarta Parte, en manos de Rostworowski, es una reflexión sobre la necesidad de enfatizar el carácter interdisciplinario de los estudios andinos. Temas diversos como los mitos de Huarochirí, el santuario de Pachacamac o las peregrinaciones precolombinas, etc., que corresponden a temas investigados por ella misma y que forman parte de sus obras completas, dan ejemplo a seguir en la necesaria interacción de las disciplinas. María, nuestra hermana mayor, caminó por los espacios del valle de Lurín siguiendo los pasos de las deidades de Huarochirí y de los peregrinos de Pachacamac. Su síntesis es un ejemplo de la mirada que abarca las disciplinas sociales.

Reseñado por Luis Millones – Profesor Emérito, Universidad Nacional Mayor de San Marcos, Lima, Perú.

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Moche. Cosmología y Sociedad: Una Interpretación Iconográfica – GOLTE (C-RAC)

GOLTE, Jürgen. Moche. Cosmología y Sociedad: Una Interpretación Iconográfica. Lima-Cusco: Instituto de Estudios Peruanos-Centro Bartolomé de Las Casas, 2009. 472p. Resenha de: LOZA, Carmen Beatriz. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.43, n.especial, 607-608,  2011.

El interés del libro del antropólogo alemán Jürgen Golte y su importancia son evidentes, tanto por el tema como por la manera de abordar la iconografía y cultura moche. Después de un trabajo sostenido y de largo aliento, el autor se impone como uno de los mejores conocedores de la iconografía moche, pues escudriñó pinturas, esculturas y cerámicas para aproximarse a la cosmovisión de los artesanos que elaboraron para su sociedad hermosas y significativas piezas. Y, como un historiador, desplegó todo su conocimiento al servicio de las narraciones plasmadas en imágenes, la mayoría de las cuales provienen de colecciones, privadas y estatales, tanto alemanas, egipcias, chilenas como también estadounidenses y peruanas. Pero resulta que si bien son miles de piezas arqueológicas las que tuvo entre manos para estudiar, son aproximadamente 50.000 imágenes identificadas y analizadas con el apoyo de cientos de referencias bibliográficas consultadas para la elaboración de la obra. Sin lugar a dudas, todo ello fue posible gracias al importante apoyo brindado por la Frei Universtät Berlin, donde ofrece cátedra y el respaldo de una de las mayores financiadoras de la investigación en Alemania, la Deutsche Forschungsgemeinschaft. No debe dejar de mencionarse la ayuda prestada por los curadores de los museos, quienes pusieron en sus manos los ceramios, lo cual no es banal de mencionar, pues como él mismo lo señala “la mayoría de los que hablan e investigan sobre el arte moche no han visto los originales, muchas veces de difícil acceso en colecciones o en depósitos de museos públicos diseminados por el mundo, o no les prestan la atención debida” (Golte 2009:38). La conjunción de ambas limitaciones es superada por el autor para ofrecernos una obra muy documentada, en vista de los últimos y grandes descubrimientos realizados en la costa del Perú.

El libro se abre con una extensa, profunda y pertinente introducción sobre los procesos formativos iniciales que dieron nacimiento a la sociedad moche. Allí, se sostiene que los cambios radicales y revolucionarios deben haberse generalizado con bastante lentitud y que las nuevas formas quizás fueron desarrolladas a partir del fondo simbólico socializado y difundido con anterioridad. El proceso de identificación está destinado a marcar las fronteras y las particularidades del grupo expresado en un lenguaje comprensible a todos. Desde la introducción, el autor tiene la intención de marcar la distancia con el objeto de estudio y dejar claro el alejamiento cultural que lo separa (por extensión a nosotros) de los artesanos y artistas mochicas, quienes eran hábiles comunicadores de ideas cosmológicas y de comprensión de su mundo, de ahí que tanto los “productores como los receptores estaban familiarizados a esas reglas porque pertenecían a una tradición cultural común” (Golte 2009:18). Insiste en aproximarnos a las imágenes alejándose de la comprensión ingenua proveniente de nuestras propias categorías. Se busca con ello mostrar, reiterativamente, la tensión que conoce el investigador al evitar que su imaginario invada su análisis de las imágenes. En ese sentido, el libro entrama, desde el principio hasta el final, una doble inquietud: dotarnos de una metodología para la comprensión de la iconografía y la cultura moche desechando las ideas etnocéntricas que han imperado en gran parte de la literatura producida con anterioridad a su libro. Su propuesta, entonces, es planteada como un modelo para entender la cosmovisión y las culturas de los Andes Centrales.

La principal tesis apunta a demostrar que “La cerámica mochica es un medio que construye sentido con objetos tridimensionales” (Golte 2009:20). De este planteamiento resulta una doble enseñanza: si no reconocemos la parte bidimensional del ícono y la dimensión tridimensional de una efigie o escultura adolecemos de una falla inicial al relacionar la temática y las expresiones iconográficas. Sólo así reconocemos que los personajes representados son identificados por los atributos que poseen. Este procedimiento, paradójicamente, no fue problematizado por los arqueólogos e historiadores del arte debido a su familiaridad con el arte europeo ampliamente difundido en los estudios iconográficos. En este punto, parece pertinente subrayar su postura de tomar en cuenta y en serio la condición de los ceramios moche como objetos tridimensionales. Tan en serio lo asume, que la totalidad del libro abunda en infinidad de ejemplos para convencernos de su utilidad. Pero resulta que, si bien este aspecto es central, no es menos importante su demostración acerca del manejo que tenían los artesanos mochicas del tiempo y del espacio para establecer un lazo entre vivos y muertos bien representados en los ceramios. En esta brecha, Golte ahonda en consideraciones teóricas acerca de la historia, la cual es capital para situar las imágenes mochicas, pues estas tienen un lugar en la larga historia de desarrollo de convenciones y representaciones. De ahí que enfáticamente afirme que los moches “no son creadores ex-nihilo”, razón por la cual es imprescindible no aislar las piezas del contexto y universo de la cultura moche (Golte 2009:25).

Entre los hallazgos destaca la ubicación del lugar desde el cual se debe iniciar la lectura de las imágenes dibujadas en los ceramios (principalmente botellas). Esta identificación tiene trascendencia en la medida que sólo a partir de ello es posible restituir el panel representado en la botella de acuerdo a un orden lógico. Gracias a ese procedimiento, al parecer sencillo, son recuperadas las imágenes en su totalidad para poder comprender su narrativa. Restitución íntegra que ayuda a identificar y entender la secuencia de escenas para poder ir entendiendo, paulatinamente, sus mensajes. En esa línea, Golte presta una especial atención a los lugares que ocupan cada una de las imágenes, sin descuidar por ejemplo los lugares menos expectantes como la base o las asas. No deja de mencionar los lugares vacíos cuyo papel es necesario para la transmisión de sentido, lo que significa que se los debe tener presentes porque son parte del panel y juegan un rol significativo. Y este aspecto deja establecida la idea de que los pintores moche no cubrían las superficies con pinturas sin un propósito bien definido. Se detectó que en algunos ceramios se quiso connotar un encuentro de contrarios complementarios en un juego entre imágenes de arriba frente a imágenes de abajo. Para explicar esta oposición de contrario, el autor se sumerge en los principios andinos de los cuales extrae la explicación de que se trataría de una especie de tinku, es decir, el interface que se produce en el encuentro de opuestos. Golte establece la relación estrecha entre forma del ceramio y narrativa desplegada en imágenes. Son aspectos que podrían parecer evidentes, pero son difíciles de manejar. Ahí es donde Golte abre un gran debate con los estudiosos de la cultura moche, Donna McClelland y Christopher Donnan, porque en sus trabajos las representaciones de los paneles que presentan son incompletas, tal como el autor lo demuestra. En realidad, la totalidad del libro apunta a mostrar las grandes fallas metodológicas en los estudios a lo largo del tiempo. En particular, cuando revisita los temas y las piezas moche utilizadas por otros investigadores estadounidenses con quienes tiene varios desacuerdos fundados en lecturas opuestas de las representaciones realizadas por los artesanos moches.

En suma, se trata de una obra muy útil por su propuesta metodológica para abordar un estudio iconográfico en los Andes. La fuerza radica en la articulación de cada una de las partes como un todo donde la sucesión de imágenes dibujadas y las reflexiones forman una unidad y no simplemente elementos yuxtapuestos. Hubiera sido interesante, dada la enorme cantidad de imágenes utilizadas, un complemento cuantitativo con el análisis de algunas variables, lo cual sin lugar a dudas también habría ofrecido muchas luces sobre esa base de datos que ha reunido más de 50.000 imágenes. En todo caso, el acercamiento individualizado, detallado y reflexivo propuesto en esta importante obra deja abiertas numerosas vetas a explorar. Al mismo tiempo, habría sido importante la edición con excelentes fotografías que si bien han sido reproducidas en innumerables libros de arte prehispánico, cobrarían otro sentido a la luz de la densa e inteligente propuesta de Golte para entender los mensajes de los artesanos mochicas.

Beatriz Loza – Directora de Investigación del Instituto Boliviano de Medicina Tradicional Kallawaya. La Paz, Bolivia. E-mail: [email protected]

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Develando Órdenes y Desatando Sentidos. Un Atado de Remedios de la Cultura Tiwanaku – LOZA (C-RAC)

LOZA, Carmen Beatriz. Develando Órdenes y Desatando Sentidos. Un Atado de Remedios de la Cultura Tiwanaku. La Paz: Instituto Boliviano de Medicina Tradicional Kallawaya, 2007. 153p. Resenha de: BISONARD, Rosana Patricia. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.43, n.especial, 609-610, 2011.

Las investigaciones sobre atados medicinales prehispánicos son escasas, de tal suerte que el libro de Carmen Beatriz Loza sobre un atado del período Tiwanaku viene a enriquecer la literatura especializada en etnomedicina andina desde su vertiente arqueológica. La historiadora y demógrafa-médica boliviana, a través del Instituto Boliviano de Medicina Tradicional Kallawaya, realizó un notable esfuerzo editorial por ofrecer a los lectores un texto en castellano e inglés, sobre el análisis detenido de un atado de remedios encontrado fortuitamente en Pallqa, provincia Larecaja del Departamento de La Paz. Se trata de un pequeño fardo envuelto en cueros de ciervo que contenía pequeños objetos utilizados por un religioso/ médico de la época de Tiwanaku, aproximadamente del año 900 de nuestra era.

La autora inmersa en la cultura Kallawaya pudo realizar una catalogación completa y un desciframiento del significado de cada uno de los objetos por muy extraños que se presenten ante nuestros ojos. En realidad, esto se consiguió gracias a un proceso basado en la contrastación de resultados de numerosas investigaciones arqueológicas y etnográficas andinas con los testimonios de los herbolarios y médicos Kallawayas y K’awayus en un “intrincado proceso de elucidar la antigua ciencia de sanar que era practicada por los tiwanakotas”. Dicho proceso lo desarrolla a través de cinco capítulos documentados por hermosas fotografías que dan sustento a un primer capítulo destinado a la “descripción y evaluación de estudios sobre atados en contextos andinos”. Este tema permite abordar las circunstancias históricas del descubrimiento; las características en términos andinos para describir la evidencia arqueológica y la aprehensión del modelo cognitivo que prima en el orden del atado. El segundo capítulo trata de la “distribución jerárquica de contenidos” a través de la comprensión de la organización, almacenamiento y ordenación de los remedios, lo cual derivó en el planteo del modelo cognitivo que lo sustenta. Mientras que el “análisis de los cordajes finos” forma parte de un tercer capítulo donde se presentan como componentes claves para la comprensión de las actividades curativas del religioso/médico de Pallqa. Se realza en este capítulo la relación existente entre los cordajes y algunos aspectos del funcionamiento de los quipus. El cuarto capítulo trata de “la jerarquía de objetos animados e inanimados” mostrando una coincidencia con la propuesta teórica del antropólogo y filósofo francés Phillipe Descola sobre la ausencia de división tajante entre naturaleza y cultura (cf., Descola, 1993, 2005). Finalmente, el quinto capítulo acerca del “contexto del ajuar inhalatorio” (microcontextos) enfatiza en los aspectos desechados precedentemente por otros estudiosos para describir la parafernalia inhalatoria la cual no era necesariamente para consumir psicotrópicos.

Los cinco capítulos completan la visión panorámica amplia del contenido y su relevancia arqueológica, a pesar de la existencia de un trabajo preliminar incompleto sobre esas mismas evidencias arqueológicas (Capriles Flores, 2002: 23-50). De ahí que se hizo necesario “complejizarlo”, para lo cual trabajó desde el enfoque “etno-arqueológico”, debido a la distancia cultural y temporal que nos separa del atado. La analogía etnográfica utilizada a lo largo del texto apunta hacia el “reconstruccionismo arqueológico”, privilegiada como metodología empleada por la autora. Metodología que además permite el acercamiento a las evidencias arqueológicas del período Tiwanaku y su relación a las culturas Kallawaya y K’awayu mediante el estudio de los restos materiales de la cultura médica prehispánica. En esa línea, reúne elementos para la mejor comprensión de la tumba multifuncional de Niñokorin recogida parcialmente por el etnólogo Henry Wassén en (1971) (cf., Wassén 1972). La autora, siempre retomando en el marco conceptual desarrollado por Philippe Descola, se adentra en la comprensión del empleo de los cueros y sus funciones medicinales, desechando parcialmente la idea de que sólo servían como recipientes. De hecho, la propuesta de una clasificación de los cueros por parte de los Kallawayas y K’awayus contribuye a comprender los sistemas de pensamiento andino, mediante el análisis de la ordenación de una diversidad de objetos de diferente naturaleza correspondientes a la cultura Tiwanaku, estableciendo la matriz ontológica que la sustenta.

En suma, del análisis se desprende, que el “modelo cognitivo de organización simbólica de pensamiento secuencial”, utilizado por Carmen Beatriz Loza, permite afirmar que el atado de Pallqa responde a una estructura de pensamiento secuencial, eficaz y operativo, basado en un modelo cognitivo de organización simbólica llamado también modelo simbólico de representación del conocimiento. Esto nos lleva a encuadrarnos en un paradigma que permite ver entre los médicos/religiosos de Tiwanaku una forma particular de ensamblaje y sistema de organización de almacenamiento de las medicinas. Todas ellas ordenadas acorde a una jerarquía de cueros y a una asociación de elementos de distintos materiales y de peculiar naturaleza animal, destinados a la fabricación de remedios. Este paradigma representa un modelo simbólico de representación de conocimiento, ya que entraña un valor, en tanto significación de un acto de codificación de la información a través de símbolos externos. Los mismos no pueden ser comprendidos al margen del marco de las operaciones simbólicas, ya que los diferentes tipos de cueros no son sólo reservorios, sino que tienen funcionalidad específica. En el atado moran los espíritus de los animales domésticos y silvestres, de los que provienen los cueros, que eran activados por el religioso/médico de Pallqa, quien los manipulaba, para las curaciones, reproduciendo atributos de poder inherentes a las especies. En otros términos, el atado se metamorfoseaba convirtiéndose en sujeto animal, entramando esta metamorfosis a diversas escalas de organización de los cueros/contenedores estudiados por la autora.

El proceso de investigación científica que utilizó Carmen Beatriz Loza representa un desafío digno de destacar. En primer lugar, planteando una relación intrínseca entre epistemología y metodología, no reducidas ambas a un simple tecnicismo, sino a una reflexión sobre la teoría del descubrimiento. La autora en cada momento del proceso de investigación estableció y desarrolló áreas temáticas con selección específica del campo de trabajo, lo que le permitió establecer en cada aproximación el objeto de investigación, planteando claramente problemas e interrogantes resueltos durante el proceso de investigación y otros planteados para un posterior trabajo. Además, en el momento lógico-epistemológico precisó correctamente el objeto, por lo cual se abocó a la construcción del marco teórico, reflexionando sobre las categorías teóricas que le permitieron el abordaje del objeto, delimitando clara y específicamente los propósitos de la investigación. En esa línea, el modelo etno-metodológico le permitió abordar el estudio del fenómeno social que rodeaba al atado de Pallqa, reforzando así las interacciones de los individuos con su medio, y las ideas que el mundo social está compuesto de significado y puntos de vista compartidos. Considero que el aporte del libro evidenció, por primera vez, que los remedios/cueros/contenedores, del atado del período Tiwanaku, intervinieron en el proceso curativo porque son portadores de poderes en sí mismos. Aporte que sólo fue posible por el conocimiento cercano del mundo de los especialista médicos Kallawayas y K’awayus con quienes ha sabido compartir, discutir y descubrir los secretos de un atado del período Tiwanaku.

Referencias

Capriles, J.M. 2002. Intercambio y uso de fauna por Tiwanaku. Análisis de pelos y fibras de los conjuntos arqueológicos de Amaguaya, Bolivia. Estudios Atacameños 23:33-50.         [ Links ]

Descola, P. 1993. Les Lances du Crépuscule: Relations Jivaros. Haute-Amazonie. Plon, Paris.         [ Links ]

—2005. Par-delà Nature et Culture. Éditions Gallimard, Paris.         [ Links ]

Wassén, S.H. 1972. A Medicine-man’s Implements and Plants a Tihuanacoid Tomb in Highland Bolivia. Göteborgs Etnografiska Museum, Goteborg.         [ Links ]

Rosana Patricia Bisonard – Programa “Doctorado en Cultura y Sociedad”, CONICET, Salta, Argentina. E-mail: [email protected]

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Bakhtiniana | PUC-SP | [2011]

BAKHTINIANA3 2 Bakhtiniana

A Bakhtiniana – Revista de Estudos do Discurso ([20011]-), em formato eletrônico, bilíngue (português e inglês), foi criada pelo programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo / LAEL-PUCSP e os membros da Linguagem, Identidade e Grupo de Pesquisa em Memória / CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) em 2008. A missão da revista é promover e divulgar pesquisas sobre estudos do discurso.

A cada quatro meses, publica artigos, resenhas de livros, debates e relatórios de conferências escritos por professores e estudantes de pós-graduação.

A abreviatura de seu título é Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso , que deve ser usado em bibliografias, notas de rodapé e referências e tiras bibliográficas.

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Entrepalavras | UFC | 2011

Entrepalavras Entrepalavras | UFC | 2011

Entrepalavras não cobra taxa de processamento de artigos (submissão e avaliação).

Alinhada aos princípio da ciência aberta, Entrepalavras permite livre acesso a todo o conteúdo das edições aos leitores.

No espírito de colaboração que rege a comunidade acadêmica nas universidades públicas, a revista convida, eventualmente, os autores de artigos publicados a avaliarem manuscritos submetidos à revista, como pareceristas ad hoc.

De periodicidade quadrimestral, a revista abre chamadas específicas para o número 1 e recebe trabalhos em fluxo contínuo para os números 2 e 3. A publicação em um número de dado volume dependerá da data de conclusão da edição.

  • Número 1: edição temática dedicada a cada ano a uma das linhas da revista: Teoria e Análise Linguística, Práticas Discursivas e Linguística Aplicada. Chamadas vão até outubro de dado ano e a edição é publicada até abril do ano seguinte. A partir de 2021, o número temático passará a ser o 2. Confira a notícia aqui.
  • Números 2 e 3: edições atemáticas que abrangem trabalhos sobre linguística teórica ou aplicada em uma das linhas (Teoria e Análise Linguística, Práticas Discursivas e Linguística Aplicada). Submissões em fluxo contínuo. Os artigos aprovados serão publicados na modalidade contínua em dado número atemático, até atingir o limite de artigos editados para aquela edição (no máximo, 15) ou a data final de publicação do número (último mês do quadrimestre), o que acontecer primeiro. Para maior transparência, no link “chamadas“, indica-se o andamento do fluxo editorial.

Podem ser submetidos para publicação trabalhos originais inéditos que se enquadrem na política editorial da revista e se classifiquem nos gêneros:

  • artigos originais (apresentação de resultados de pesquisas inéditas);
  • resenhas (livros publicados no Brasil, em 1ª edição, há, no máximo, 2 anos, e no exterior, há 3 anos);
  • traduções (artigos ou ensaios que representem contribuição à Linguística, acompanhados de autorização do autor/periódico original)

Acesso livre

ISSN 2237 6321

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Población Andina de las Provincias de Arica y Tarapacá. El Censo Inédito 1866 – RUZ et. al (C-RAC)

RUZ, Rodrigo; DÍAZ, Alberto; GALDAMES, Luis. Población Andina de las Provincias de Arica y Tarapacá. El Censo Inédito 1866. Arica: Ediciones Universidad de Tarapacá, 2008, pp. 426, Arica. Resenha de: CONTRERAS, Carlos. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.42, no.2, p.541-542, dic. 2010.

El libro de Ruz, Díaz y Galdames pone a disposición de los estudiosos un documento importante para la historia de una frontera tan convulsionada como la que separan a Bolivia, Chile y Perú. Representa también un producto del trabajo que desde hace varios años ellos llevan adelante acerca del estudio de las poblaciones andinas de una región que ha sido un permanente terreno -ora de olvidos, ora de disputas- entre las élites políticas que controlan los gobiernos nacionales de las repúblicas de Chile, Perú y Bolivia. Estos investigadores, junto con otros colegas, como Jorge Hidalgo, Sergio González, Luis Miguel Glave, Tristan Platt y Mark Thurner (por nombrar a algunos), han tenido el mérito de mostrar cómo paralelamente a las “historias nacionales” construidas bajo el canon académico del romanticismo y el positivismo europeos, fluyeron las historias de otras comunidades, que en cierta forma trascendieron los moldes nacionales modernos. Los pueblos andinos de las provincias de Arica y Tarapacá han debido mutar de “incas”, en “españoles”, “peruanos” y “chilenos”, buscando acomodarse a su cambiante filiación.

El mapa de la carátula del libro recuerda que Arica y Tarapacá correspondieron en el siglo XIX al departamento peruano de Moquegua, que a su vez nació de una escisión de lo que fuera la antigua intendencia de Arequipa en la tardía época colonial. Tensionada entre sus relaciones con el sur peruano (Arequipa) y el altiplano boliviano (la región minera de Potosí), y escasa de agua, la región se caracterizó por su especialización en la minería. Tras la era de la plata, llegó la del salitre, que terminó provocando la Guerra del Pacífico de 1879 y la anexión a Chile de dichos territorios. Pero mientras en los mapas los nombres de letras grandes cambiaron con el tiempo, los de los pueblos, de letras pequeñas, permanecieron, representando con su persistencia la continuidad de una historia, en medio de las turbulencias desatadas por la política de diplomacia y cañonazos de las élites reinantes en las lejanas capitales nacionales.

Tal como mencionan los autores, el censo peruano de 1876 fue el primer censo de esta república organizado según cánones modernos, aunque oficialmente el Estado peruano reconoce tres censos nacionales anteriores, a saber: los de 1836, 1850 y 1862. Con la finalidad de levantar la contribución de indígenas y castas (junto con otras contribuciones, que afectaban a los habitantes no indios) las autoridades políticas de cada provincia peruana debían realizar censos o “matrículas” de los habitantes de sus circunscripciones cada cinco años. Algunas de estas matrículas existen en el Archivo General de la Nación de Lima, para fechas dispersas. Sobre la base de los informes de los subprefectos, las Guías de Forasteros y el diario oficial “El Peruano” publicaban periódicamente cifras de población de los departamentos del Perú, que luego se consolidaban en un total nacional. Desde luego, los subprefectos, que estaban al mando de las provincias, no fueron capaces de mantener el ritmo quinquenal de los empadronamientos y los apoderados fiscales que contrataban para estos menesteres, a veces se contentaban con cotejar los registros de bautizos y defunciones de las parroquias para presentar las nuevas cifras de contribuyentes.

La abolición de la contribución de indígenas y castas en 1854 terminó con la necesidad de tales recuentos para fines fiscales, pero en los años siguientes se discutieron en el Congreso varios proyectos encaminados a reintroducir algún tipo de impuesto general a la población económicamente activa, que reemplazase al abolido “tributo”. Ninguno de ellos llegó a ser aprobado -y cuando llegó a serlo, no alcanzó a ser aplicado-, hasta que en 1865 una revolución estallada en el marco de la crisis del conflicto con España llevó al gobierno al coronel Mariano Ignacio Prado. Su Ministro de Hacienda fue Manuel Pardo y Lavalle. Sin Congreso que se le opusiera, éste consiguió instaurar un impuesto universal al que se denominó “contribución del jornal”, por estar basado en el pago al Estado de doce días de jornal al año. Probablemente el censo de Arica y Tarapacá ubicado por Ruz, Díaz y Galdames conesponda a los esfuerzos de las autoridades nacionales y locales por actualizar las cifras de tributarios con vistas a la nueva contribución. Esta imponía un pago anual al Estado de acuerdo al nivel del jornal prevaleciente en cada provincia, por lo que se requería un “estado” de la población activa de cada una de ellas, con los datos de ocupación económica y oficio, que permitan deducir su nivel de ingresos.

La Guía Política, Económica y Militar de 1858 estimó para el departamento de Moquegua la cantidad de ochenta mil habitantes, con esta anotación: “Su población, según los censos practicados en el año 1858, pasa de 80.000 almas, lo que no puede dudarse desde que es tan considerable la inmigración que hay de bolivianos, chilenos y europeos sobre las provincias de Tacna, Arica y Tarapacá, estimulados por el subido jornal que se paga y facilidades para adquirirlo” (p. 245).

La historiografía peruana sobre el siglo XIX ha sido una buena muestra de ese silencio sobre la población indígena que refieren los autores en su texto introductorio del libro. Falta de fuentes sobre la población indígena, una vez que la crisis del Estado colonial dejó paso a una república que se pretendía más criolla que andina; falta de rebeliones que despertasen la atención de los historiadores; falta de interés del propio Estado por la población andina, desde que la riqueza del guano hizo prescindible su contribución fiscal; todo se confabuló para alejar a los historiadores de los avatares de una población que componía tres quintas partes de la población nacional. Sólo recientemente, gracias al trabajo de los autores antes citados, a los que cabría añadir a otros como Jean Piel, Florencia Mallon, Nelson Manrique y Cecilia Méndez, que desarrollan una historiografía menos étnica pero igualmente preocupada en el “rescate” del papel de los campesinos, ese olvido ha comenzado a corregirse.

En medio de tales esfuerzos es que ubico el trabajo de Rodrigo Ruz, Alberto Díaz y Luis Galdames. Y por supuesto lo saludo y encomio como digno de todo apoyo, allá y acá. Con frecuencia sus autores tropezaron con la incomprensión y los recelos nacionalistas del personal de los repositorios, y nunca fueron considerados por las comisiones binacionales de historiadores, que se reunían en las antiguas capitales virreinales a tratar de curar las heridas de las guerras en la conciencia de los pueblos. Me alegro de que no hayan desmayado frente a los obstáculos y de que ahora podamos tener en las manos este estupendo documento que ayudará a reconstruir un pasado que realmente une a nuestros pueblos.

Lima, julio de 2009

Carlos Contreras – Departamento de Economía, Pontificia Universidad Católica del Perú, Lima, Perú. [email protected]

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Roberto Gerstmann. Fotografías, Paisajes y Territorios Latinoamericanos – ALVARADO (C-RAC)

ALVARADO, Margarita; MATTHEWS, Mariana; MÖLLER, Carla Möller. Roberto Gerstmann. Fotografías, Paisajes y Territorios Latinoamericanos. Santiago: Pehuén, 2009. 179p. Resenha de: MIRANDA, Pablo. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.41, n.2, p.317-318, dic. 2009.

La percepción de lo inalcanzable que pueden evocar las fotografías se suministra directamente a los sentimientos eróticos de quienes ven en la distancia un acicate del deseo… todos los usos talismánicos de la fotografía expresan una actitud sentimental y explícitamente mágica: son tentativas de alcanzar o apropiarse de otra realidad, Susan Sontag.

Roberto Gerstmann: El pasado en blanco y negro. Ver un álbum fotográfico es una labor arqueológica: hojeamos sus páginas una a una, avanzando cuidadosamente y a medida que avanzamos penetramos cada vez más en las profundidades de nuestra memoria, es decir, de nuestros recuerdos, de nuestros olvidos, de nuestra imaginación, abriendo lo representado, lo fotografiado, hacia nuevas dimensiones, ordenándolo para una lectura, porque siempre hay algo que decir sobre una imagen, sobre una serie de ellas. Siempre hay una realidad que construir, una historia que contar.

La emoción suscitada por este ritual será más profunda en la medida que aquello representado esté más íntimamente relacionado con la vida personal del observador; un extremo de la experiencia transforma al espectador en vidente, el otro, en turista, viajero en un mundo que no le pertenece.

Ciertos álbumes de viajes logran equilibrar ambas dimensiones: tiempos y espacios diversos que nos permiten configurar nuestro propio relato, entrever, interpretar. Vernos.

Acceder a un tiempo que no es el nuestro, pues “no existíamos”, pero paralelamente ingresar a espacios familiares, aunque transformados: hemos estado allí y a la vez nunca lo hemos hecho.

Porque ciertamente yo he estado y no he estado en esa quieta estación de trenes en Bolivia, en esas calles de un Santiago todavía provinciano; he visto y no he visto los ojos de ese niño chipaya que mira intrigado la cámara. He estado y no en el inmenso desierto.

A través de las imágenes de Gerstmann, el pasado irrumpe y transforma el presente, habitándolo de la nostalgia de un mundo que jamás conocimos, pero que tal vez al observarlo fijo por toda la eternidad, en su imposible quietud, lejos de generar una lectura única, nos instan a traducir, interpretar y traicionar estas fotografías, y en ese sentido se vuelven inagotables en su productividad, por lo que se desarrolla un fenómeno de creación y recreación permanente, elaborando nuevos sentidos, rutas y comprensiones.

Esto es justamente lo que transforma este recorrido visual en una experiencia siempre contingente y no en un mero ejercicio estético, ya que releer las fotografías y animarlas es también una de las rutas de la mirada humana: volver sobre la casa que ya no está, sobre el paisaje desaparecido y preguntarse cómo, quién o por qué es entrar en el juego del relato, pues así como las fotografías son fragmentos y jirones de historia, los hombres son también seres fragmentados que sólo hablan desde los límites de sus experiencias en un intento de constituirse como unidad.

Ver estos rostros, ver estos parajes es emocionarse viendo la propia historia. Lo que quedó sin habla logra voz desde la imagen de este álbum, penetrando la experiencia personal de cada observador y traspasándola con la memoria de lo propio (el acto fotográfico perfecto es esencialmente un ritual solitario, Gerstmann lo sabía).

Así, nos interpelan gentes que ya no existen, pueblos que han desaparecido, formas de vida que han caducado, paisajes que se han transformado; hablan para, por y con nosotros, desmintiendo de alguna manera su muerte a través de la imagen y la reflexión que ésta suscita, del recuerdo que revive.

Acicateado por el deseo, elijo una fotografía, una sola de todas aquellas que detienen mi mirada: la Iglesia de Los Dominicos, año 1924, levantándose solitaria a los pies de una Cordillera de los Andes seminevada con un cielo transparente de fondo; un carretero y su caballo dormitan al atardecer (eso lo dicen las sombras), ofreciendo una imagen al futuro que es imposible mirar desde el presente sin nostalgia.

Yo he estado ahí. Yo nunca he estado ni podré estar ahí. Hay cierto sentimiento ominoso en toda gran fotografía y el álbum de Gerstmann está repleto de ellas. Todos podrán tener la suya. En blanco y negro. Porque ese es el color de la memoria.

Pablo Miranda – Escuela de Arte, Pontificia Universidad Católica de Chile, Santiago, Chile. E-mail: [email protected]

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