LUCAS, Maria Elizabeth; LOBO, Janaina. O Ensaio de promessa de Quicumbi entre quilombolas do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Iphan/GEM-PPGMUS-UFRGS, 2013. 128 p.  Resenha de: KUSMA, Vinícius Silveira. O quilombo, os cânticos e o tambor: as multivocalidades do Ensaio de promessa de Quicumbi. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 219-225, jul./dez. 2014.

O livro intitulado “O Ensaio de promessa de Quicumbi entre quilombolas do Rio Grande do Sul”, organizado pelas pesquisadoras Maria Elizabeth Lucas e Janaina Lobo, é fruto do projeto “Saberes e práticas músico-rituais do Ensaio de Promessa de Quicumbi entre quilombolas do Rio Grande do Sul”, o qual foi financiado pelo Programa Nacional de Patrimônio Imaterial/Iphan-MinC em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O trabalho de dezoito meses proporcionou um acúmulo de muitos registros textuais, sonoros e imagéticos de um ritual singular praticado pelas comunidades quilombolas de Caporocas e Olhos D’Água, e suas respectivas Associações, Vovô Virgilino e Vó Marinha, no litoral norte do estado do Rio Grande do Sul. Neste contexto, o trabalho decorre de uma experiência coletiva acumulada, trazendo como aporte teórico e metodológico a Etnomusicologia e a Antropologia da Música. Além disso, fica evidente o teor participativo e colaborativo que a inserção em campo e a permanente interlocução com os agentes demandantes dessas ações culturais contemplam. Ao entender que o ritual “O Ensaio de promessa de Quicumbi” em louvor à Nossa Senhora do Rosário, necessitava de um registro sistemático de todo o seu conteúdo narrativo e performático, a edição do livro se consolidou como uma forma de garantir aos guardiões e guardiãs da memória ritual, a permanência e a continuidade de um legado ancestral.

O livro basicamente divide-se em duas partes “As múltiplas vozes do Ensaio de Promessae Os múltiplos registros do Ensaio de Promessa, e cada uma delas é composta por quatro seções. Além disso, o livro é acompanhado por dois CDs, que trazem, como registro sonoro, as cantigas do Ensaio de Promessa de Quicumbi.

Em “As múltiplas vozes do Ensaio de Promessa”, primeira seção da Parte I, é possível, através de mapas, saber a localização de um território em aliança com o sagrado os territórios ancestrais Capororocas e Olhos D’Água, localizados em Tavares/RS, no extremo sul brasileiro, situada na estreita faixa de terra que compreende o Parque Nacional da Lagoa do Peixe, entre o Oceano Atlântico e a Lagoa dos Patos, local também conhecido como santuário das aves migratórias. Além de indicar a localização, o texto versa sobre o surgimento das duas Associações fundadas por essas comunidades e sobre suas lutas pela regularização de seus territórios e obtenção de políticas públicas, previstas em lei. Segundo Lobo e Lucas, a criação das Associações foi uma forma de dar visibilidade para essas lutas, no desejo pelo reconhecimento e pela certificação legal dessas comunidades enquanto remanescentes de quilombos. Porém, é possível perceber, ao longo da leitura, que, mesmo com a criação de duas entidades políticas, as duas comunidades confundem-se, ou se inter-relacionam, não apenas pela proximidade dentro do mesmo contexto rural, mas por seus laços parentais e afetivos. Sendo assim, a constituição de seus territórios partilha de várias memórias, as quais, ao longo do tempo, vão compondo e recompondo as narrativas que tecem e tramam os pontos de ligação entre as vidas de cada um.

Os títulos das Associações, Vó Marinha e Vovô Virgilino, homenageiam os responsáveis pela formação e o estabelecimento das comunidades negras em Tavares, os quais, segundo Dona Idene Lopes da Silva, 81 anos, considerada pelas autoras, uma das guardiãs da memória da comunidade, foram trazidos como cativos, ainda no século XIX, para o trabalho nas antigas charqueadas, próximas às terras de Capororocas e Olhos D’Água.

Ainda nessa seção, as autoras trazem um breve panorama da situação das duas comunidades, situando-as num contexto rural, afastadas do centro da cidade, com difícil acesso à educação básica e a um transporte escolar eficiente, além da insuficiência de escolas e da ausência de ensino de nível técnico, tolhendo, assim a capacitação das crianças e dos jovens das comunidades. Um contexto que acaba colaborando com as eloquentes taxas de analfabetismo, e que nos remete a um cenário bem mais amplo que se repete em muitas outras regiões do país, as quais também sofrem com as desigualdades socioeconômicas, a falta de investimentos em saúde, educação e aplicação de políticas públicas adequadas.

Na segunda seção, Como tudo começou: fala o rei de Congo, seu Orlando Duarte da Costa, chefe da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Mostardas e Rei de Congo, falecido em 2013 aos 77 anos, narra como surgiu o Ensaio de Promessa Quicumbi, e ensina que sua prática foi um dos primeiros passos para a liberdade no interior da ordem escravocrata. Foi na percepção da eficácia de cura que o Ensaio possuía, que os Senhores o libertaram da clandestinidade. É possível perceber na fala de seu Orlando, percurso de uma resistência cultural que mantém vivo o Ensaio em um território negro, no qual ainda é latente a memória da escravidão.

Ainda na Parte I, a terceira seção – As muitas vozes do Ensaio de Promessa de Quicumbi– apresenta o contexto deste ritual, que carrega semelhanças com os rituais afro-angola. Com uma descrição etnográfica atenta aos detalhes, a narrativa das autoras nos dá a ideia da dimensão do evento e de tudo que o envolve e o compõe, como as coreografias e dramatizações, o canto antifonal, o conjunto instrumental, a fabricação do tambor pelo mestre-construtor, a hierarquia e todos os elementos que organizam e dão sentido ao ritual. Tudo isso carrega uma densa dinâmica de trocas culturais entre os participantes do Ensaio, que, por não ser estático, admite variações ao longo do tempo e das diferentes regiões em que é praticado. Além disso, o texto aponta a origem africana dos quicumbis e de sua linguagem, destacando as características particulares trazidas por esses ancestrais escravos, que legaram a especificidade do canto com suas articulações fonéticas e semânticas.

A quarta seção – A ciência do Ensaio: os saberes músico-rituais dos mestres”, fecha a Parte I do livro, com uma homenagem ao mestre centenário, Tio Silva, e mostra uma parte da sua história de 40 anos dentro da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Tavares, um caminho desde sua iniciação como dançante geral até assumir as baquetas e tornar-se o mais respeitado tamboreiro da Irmandade e da região. O texto traz trechos da fala de Tio Silva, num diálogo com Paulo Gaúcho, outro membro da irmandade, por onde é possível perceber a troca dos saberes sobre a matéria-prima adequada na confecção dos tambores e todos os pormenores para entoar as cantigas e tocar bem o instrumento durante o Ensaio. Torna-se fácil perceber o quanto o processo de construção desses tambores está envolto numa atmosfera de romance, construída de tradições e experiências pessoais.

Na segunda parte do livro – Os múltiplos registros do ensaio de promessa” – encontra-se os suportes de memória que formam o aporte documental do complexo narrativo do Ensaio: as preces cantadas, seus versos completos, suas localizações nas diferentes fases do ritual, as entoações das cantigas e suas estruturas recorrentes, transcritas em partitura, os esquemas coreográficos e cênicos executados pelos dançantes durante o evento ritual. Porém, pode-se perceber a preocupação dos pesquisadores em não reproduzir de forma literal tudo o que ocorreu durante as doze horas de acompanhamento do Ensaio de Promessa, o qual foi realizado em 2010. O trabalho mostra uma sistematização colaborativa, que expõe na forma escrita, os percurso, as lógicas e saberes dos mestres e participantes em diálogo com os pesquisadores.

O livro segue com um quadro de imagens, que mostra um resumo das principais etapas do ritual, com a intenção de facilitar o entendimento da distribuição das 28 cantigas. Esse quadro é composto por onze fotografias que dão um esboço da dimensão visual e temporal de cada momento específico do Ensaio, como a convocação da irmandade, o cortejo de entrada, a entoação das cantigas, assim, até a imagem que contempla o fim do ritual. Obviamente que esse quadro de imagens não concebe a totalidade da riqueza imagética do ritual, não apenas pelo número, mas também pelo tamanho dessas onze imagens dispostas na página. Porém, as autoras deixam claro que a intenção é ajudar o leitor a compreender como essas 28 cantigas distribuem-se ao longo do Ensaio.

O livro é permeado por fotografias, começando pela capa, com imagens que emolduram o seu título e dão uma riqueza visual ao seu formato quadrado, que foge do convencional. Além da característica estética, a capa já nos dá a ideia da dimensão visual que compreende o Ensaio. O livro traz em seu interior 26 fotografias. Embora essas imagens, num primeiro momento, pareçam apenas ilustrar o texto, elas tornam-se passíveis de observação e abstração, pois emprestam ao livro uma dimensão poética, que não é apenas ilustrativa, mas é carregada de uma subjetividade visual e sonora. São fotografias sem legendas, imagens que não necessariamente, muitas vezes, dialogam com o texto diretamente, mas trazem as cantigas para além do aparente silêncio das páginas. É possível imaginar-se no colorido ambiente do Ensaio, ao olharmos, por exemplo, para a fotografia que mostra o cortejo e o tambor, o principal instrumento do Ensaio, ou ouvir o som do pandeiro na imagem dos músicos na fase noturna do ritual, uma imagem com um tom avermelhado, acentuado pelo fogo da vela que brinda o canto esquerdo da imagem, dando um ar de devoção. A mesma imagem mostra as mãos desfocadas de quem toca o pandeiro, sugerindo seu movimento, e trazendo para a imaginação do leitor, o som que permeia a ambiência retratada.

Além das fotografias, o livro conta com mapas que dão a localização do município e suas comunidades, um croqui que esquematiza seis evoluções coreográficas do ritual e um esboço da distribuição espacial dos microfones utilizados para a captação do áudio do Ensaio.

Em A força poética das cantigas”, temos os comentários e as transcrições dos versos das 28 cantigas, entoadas na sequência ritual original, cujas gravações encontram-se nos dois CDs que acompanham o encarte. Todo o trabalho de transcrição e fixação dos versos contou com a ajuda e os esclarecimentos do mestre cerimonial, em interação com os colaboradores rituais. Ao ouvir as cantigas, é possível imaginar a dimensão do Ensaio, sua força espiritual, poética e, por vezes, dramática; as vozes e os timbres instrumentais, que buscam atingir a comunicação com Nossa Senhora do Rosário.

Nos Ensaios de tradução gráfica das cantigas”, são abordados os critérios das transcrições dos fragmentos selecionados, que identificam as estruturas rítmico-melódicas recorrentes no conjunto poético entoado. Também é explicitada a lógica de intercalação dos dois gêneros musicais que, em concordância com as diversas etapas a serem superadas pelo grupo performático, inspiram a narrativa ritual. As autoras atentam para a extensão temporal e a complexidade do Ensaio de Promessa de Quicumbi e, com isso, para a necessidade de cuidados e ponderações nos diversos sentidos de critérios seletivos. Fica clara a preocupação, sob o olhar da etnomusicologia, de que a utilização de um sistema de notação musical deve sempre considerar as particularidades das marcas estéticas e as formas expressivas dos saberes nativos. Aqui, a intenção é promover a interconexão entre Guias (solo) e Dançantes (coro), acompanhados do tambor, pandeiro e caninhas, instrumentos de percussão que não apenas sustentam a base melódica e rítmica, mas também se fundem com as vocalidades das rezas, os timbres, as gingas dos corpos e todo o universo performático que move e comove a cena ritual.

É possível perceber a dimensão do Ensaio de Promessa de Quicumbi ao chegar-se ao final do livro, através da interação entre textos, imagens visuais e sonoras, que vibram, despertando a imaginação do leitor, privado da experiência de ter estado lá. Em meio a danças, gingas e performances, em consonância com cânticos, vozes e sonoridades, delineia-se uma organização cênica que dura doze horas, guiada pelos guardiões e guardiãs dos saberes rituais do Ensaio de Promessa de Quicumbi. Considero importante salientar o entrelaçamento de saberes acadêmicos e comunitários que o trabalho de pesquisa evidencia aqui, ao propor uma multivocalidade de ações e afetos mobilizados em cada ação do Ensaio. Creio que, ao fornecer esse suporte de memória, história, territorialidade, é possível contribuir para a instrumentalização dessas comunidades quilombolas na luta política para continuarem a existir, pois a reinvenção de sua identidade política portadora de direitos é informada, justamente, por essa memória ancestral a qual tentam manter viva.

Referência

LUCAS, Maria Elizabeth; LOBO, Janaina. O Ensaio de promessa de Quicumbi entre quilombolas do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Iphan/GEM-PPGMUS-UFRGS, 2013. 128 p.

Vinícius Silveira Kusma – Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social e Cultural da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Bacharel em História pela UFPel. Membro colaborador do GT História, Imagem e Cultura Visual ANPUH-RS. E-mail: [email protected]

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