GEBAUER, Gunter. O pensamento antropológico de Wittgenstein. São Paulo: Loyola, 2013. Resenha de: PERUZZO JÚNIOR Léo; BORGES. Valdir. Revista de Filosofia Aurora, Curitiba, v.26, n.38, p.435-439, jan./jun., 2014.

Voltado para uma concepção antropológica sobre a obra de WiĴgenstein, Gunter Gebauer, professor de Filosofia e Sociologia do Esporte na Universidade Livre de Berlim desde 1978, apresenta como tese de sua obra, O pensamento antropológico de WiĴ genstein, aquilo que teria destruído a teoria da afiguração do Tractatus. Gebauer toma como ponto de partida a intitulada “virada antropológica” de WiĴ genstein, que teria ocorrido entre 1929 e 1931. Além de um projeto audacioso sobre os limites da linguagem, o filósofo vienense mostraria um estilo novo de pensar presente no próprio estilo de escrita pois, em WiĴgenstein, “vida e filosofia são como a frente e o verso de suas folhas manuscritas, recto e verso. A reflexão filosófica é parte de sua vida” (GEBAUER, 2013, p.14).

O texto de Gebauer, com dinamismo filosófico, pretende perpassar a obra de WiĴgenstein em seu conjunto, desde a perspectiva da linguagem envolta na práxis do referido filósofo, passando pela concepção de mundo até voltar-se ao pensamento antropológico presente nas entrelinhas dos manuscritos wiĴgensteinianos. Podemos captar o pensamento antropológico de WiĴgenstein ao tentar captar os gestos como o uso do corpo, o método da operacionalização do emprego da linguagem como expressão do corpo entendida pela coletividade como uma aprender a fazer no cotidiano da vida. Além disso, a corporeidade presencializa o ser humano, especialmente naquilo que tange às suas relações essenciais, dentre as quais estão os gestos e os símbolos. O ser humano, além de ser um ser de relações, é um ser simbólico, ou seja, de uma realidade conhecida, imanente, chega a uma realidade transcendente, desconhecida. E transcendência e relação são as duas categorias fundamentais do ser humano que, juntamente às suas estruturas fundamentais — corpo, alma e espírito —, constituem a totalidade de sua dimensão antropológica. Nesse sentido, Gebauer é enfático ao provocar o leitor agregando uma nova compreensão gramatical que subjaz aos gestos, buscando elucidar o mostrar wiĴgensteiniano. Sobrepõem-se aos gestos uma verdadeira gramática corporal que ultrapassa a teoria figurativa do Tractatus, uma vez que WiĴgenstein não busca mais uma forma geral da proposição. Na filosofia tardia, o autor vienense se remete à busca da contextualização dos gestos no espaço coletivo dos jogos de linguagem, perfazendo um itinerário filosófico que abre espaço para a hermenêutica expressa nos gestos linguísticos.

Desta forma, o autor tenta decifrar as intenções e perspectivas subjacentes aos jogos de linguagem, elucidando, assim, a gramática dos referidos jogos. Nesses jogos, existe uma intenção peculiar e uma produtividade da ação linguística, tornando necessário o aparecimento do eu cognoscente como limite do mundo. Esse elemento que já havia sido enunciado no Tractatus, agora, é explicado especialmente nas Investigações Filosóficas. “O posicionamento de WiĴgenstein a partir de Investigações corresponde a uma simplificação e esclarecimento dos emaranhados filosóficos, partindo da análise da linguagem ordinária, que passa a ser vista independente de uma estrutura apenas de cunho sintático e semântico” (PERUZZO Jr., 2011, p.49). Por isso, a linguagem não é um modelo uniforme como expressa Agostinho, mas está aberta para a produtividade que aparece a partir das relações humanas vividas ou experienciadas na conexão com o mundo. É nele que se dá a concordância entre os diversos jogadores que se dispõem a praticar o jogo. Mas, como esses jogadores mantêm concordância entre si? Tal pergunta pode ser respondida porque, segundo Gebauer, WiĴgenstein apela para a necessidade de autorreferencialidade advinda do papel das regras. Elas são responsáveis por orientar o comportamento e garantir a normatividade do discurso de nossa gramática superficial e profunda.

Segundo Gebauer (2013, p.171),

no jogo de linguagem, aos jogadores são atribuídos dois tipos de posições. Há o eu, que inicia um jogo e define qual jogo é jogado: quais são seu tema e sua estrutura. Em relação a ele, os cojogadores, se encontram no papel da pessoa abordada, você, que recebe as contribuições do eu, responde, comenta e eventualmente as corrige. […] O modelo de jogo de WiĴgenstein delineia a distribuição das posições do jogo como um processo dinâmico; cada cojogador pode, por princípio, assumir o papel do fazedor do jogo. Contanto que o jogo seja igualitário […].

Ou seja, no jogo de linguagem, além de haver autocomprometimento e autorrelação, há um comprometimento coletivo e um processo de inter-relação entre os participantes.

Cada participante do jogo de linguagem o interliga à sua vida, que como causador do jogo, pode exigir a cooperação dos demais cojogadores. Por isso, traz em si a responsabilidade e a corresponsabilidade no uso e na alteração das regras durante o jogo. Nesse sentido, Gebauer resgata que a dimensão da linguagem é pensada por WiĴgenstein como um sistema complexo assentado sobre uma série de outras práticas. É necessário salientarmos que, assim como na metáfora das ferramentas, uma das principais fontes da falta de compreensão, segundo Wittgenstein, é ver toda uma mitologia embutida na linguagem (WITTGENSTEIN, 1996, § 422-426, 2012, § 90).

Nessa corresponsabilidade, na qual interagem os diversos jogadores, deve-se considerar os problemas éticos. Segundo Gebauer, eles foram excluídos da filosofia por WiĴgenstein, pois não podem ser ditos ou discutidos por meio da própria filosofia. “No entanto com duas exceções: Conferência sobre Ética e as últimas reflexões na segunda parte das Investigações Filosóficas” (GEBAUER, 2013, p.172). A inspiração de Gebauer para esse tipo de argumento pode ser considerada uma leitura um pouco leviana do Tractatus e, com isso, uma interpretação cientificista dos tipos de proposições realmente dotadas de valor. Uma dedicada atenção para esse aspecto permite não reduzir a filosofia de WiĴgenstein a certos antagonismos ou jargões neopositivistas já cunhados na história da filosofia.

O discurso do mundo é sempre o discurso de uma vontade ética, nem sempre perscrutável. Essa é a tese, por exemplo, que subjaz ao trabalho Ética e Lógica no Tractatus de Wittgenstein (BORGES, 2008, 13-15, 44-52), que propõe uma conciliação entre a análise lógica e o projeto ético de WiĴgenstein. Para esclarecermos tal questão, precisamos considerar a Conferência sobre ética, de 1929, na qual WiĴgenstein expõe suas principais ideias sobre aquilo que a ética não é:

Meu único propósito, e creio que o de todos aqueles que trataram alguma vez de escrever ou falar de ética ou religião, é arremeter contra os limites da linguagem. Este arremeter contra as paredes de nossa gaiola é perfeita e absolutamente desesperador. A ética, na medida em que surge do desejo de dizer algo sobre o sentido último da vida, sobre o absolutamente bom, o absolutamente valioso, não pode ser uma ciência (WITTGENSTEIN, 1989, p.43).

A admissão de um olhar sobre a ética, nas Investigações, mostra que os jogos de linguagem acontecem no cotidiano da vida, onde se determinam as regras em que jogadores e cojogadores participam de um acontecimento, no qual os desconcertos e os desassossegos provocam fortes sensações e reações de comportamento. Nessa práxis, não se pode passar sem a reflexão ética, pois o jogo exige corresponsabilidade dos envolvidos. Sendo assim, é no contexto de comprometimento e autorrelação que a filosofia pode levantar exigências éticas. É com o que concorda Gebauer:

A expressão linguística de sua autorrelação é o lugar em que a filosofia pode levantar exigências éticas […]. Inúmeras observações do WiĴgenstein da última fase criativa tratam de uma eticalização do falar de si mesmo. Uma atitude ética exigida onde há de fora um ponto cego para a compreensão do jogo de linguagem. Quem toma a liberdade com essa situação comporta-se, segundo o julgamento de WiĴgenstein, desonestamente e, com isso, é eticamente reprovável (GEBAUER, 2013, p.173).

Cremos que ao reafirmar a dimensão da ética, inerente ao ser humano no que tange às suas interações e inter-relações, Gebauer está apontando para um comprometimento com o desenvolvimento de uma nova leitura sobre o pensamento de WiĴgenstein. Por isso, a dedicação dispensada por Gebauer ao tema, especialmente nos últimos dois capítulos de sua obra, é reveladora. Longe de retornar a lugares comuns, seus aportes inscrevem uma novidade substancial à temática wiĴgensteiniana.

Referências

GEBAUER, G. O pensamento antropológico de WiĴgenstein. São Paulo: Loyola, 2013.

BORGES, v.Ética e lógica no Tractatus de Wittgenstein. Curitiba: Vicentina, 2008.

PERUZZO Jr., L. WiĴgenstein: o interior numa concepção pragmática. Curitiba: CRV, 2011.

WITTGENSTEIN, L. Conferencia sobre ética. Trad. Fina Burulés. Barcelona: Universidad de Barcelona, 1989. (Pensamiento contemporâneo).

WITTGENSTEIN, L. Investigações filosóficas. São Paulo: Vozes, 1996.

WITTGENSTEIN, L. Da certeza. Lisboa: Edições 70, 2012.

Léo Peruzzo Júnior – Doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e do Centro Universitário Franciscano do Paraná (FAE), Curitiba, PR – Brasil. E-mail: [email protected]

Valdir Borges – Doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Curitiba, PR – Brasil. E-mail: [email protected]

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[DR]

 

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