L’Economie de l’Afrique / Philippe Hugon

Como a economia da África evoluiu da época colonial ao período da independência? Por que sua produtividade econômica se encontra em fase de estagnação? Quais os efeitos da intensa competividade internacional dos últimos anos sobre as debilitadas estruturas econômicas do continente? Os instrumentos tradicionais da análise econômica são eficazes diante dos desafios interpretativos que são impostos pelas novas condições econômicas da África? Por que as trajetórias econômicas de seus países são tão diversas entre si? A África, enfim, recusa o desenvolvimento? Essas, entre outras relevantes questões, constituem os pontos de partida do professor de economia de Universidade de Paris-X (Nanterre), Philippe Hugon, para a produção do sua obra, em formato de “livre de poche”, com a profundidade do especialista que tem o sentido do grande público leitor. Contando com a experiência da direção do Centre de Recherche en Economie du Dévelopment (CERED) e a autoria de muitas obras dedicadas à análise do desenvolvimento na África; com a vivência de inúmeras consultorias internacionais; e com as lições de dez anos como professor em diferentes países africanos (principalmente nos Camarões e em Madagascar), Hugon apresenta ao leitor uma obra condensada e rica.

Qualquer autor que pretenda produzir uma obra de síntese sobre o tema da economia africana enfrentará um desafio delicado. Há a dificuldade de delimitar o essencial, mesmo quando se pretende, como foi o caso na obra de Hugon, abordar exclusivamente a África ao sul do Saara. É que o subcontinente é uma terra de contrastes: nove grandes regiões, com 45 países, dos quais 35 possuem menos de 10 milhões de habitantes e 15 são enclaves. Todos eles abrigados sob um PIB da ordem de 230 milhões de dólares, em 1990, o mesmo do México ou dos Países Baixos. Somam cerca de 520 milhões de habitantes e representam, sem a África do Sul, 10% da população mundial, 2% do PIB, 1,7% das exportações e menos de 1% do valor agregado industrial do mundo. Abordar, portanto, essa diversidade no quadro da economia mundial é uma tarefa que impõe um tremendo esforço de síntese. Philippe Hugon dá provas da sua capacidade de construtor de sínteses através desta obra recém lançada.

Existem ainda as dificuldades metodológicas. Os utensílios da análise econômica devem ser aplicados linearmente ao continente? Ou devem ser questionadas as categorias da análise econômica a partir das particularidades africanas? Há uma complexa especificade africanista que deve ser compreendida, ao mesmo tempo que há legitimidade da economia. As perspectivas da longa-duração e os regimes de acumulação e de crise devem ser privilegiados sobre os quadros de equilíbrio e dequilíbrio de preços e quantidades? Para Hugon, a economia do desenvolvimento não deve ser somente a aplicação de um campo particular dos instumentos da análise econômica universal. E l a deve ser também um espaço de questionamento da “caixa preta” das estruturas sociais e dos mecanismo particulares dos países com herança colonial. Esse é exatamente o caso africano. Assim, a análise da economia do desenvolvimento africano não pode prescindir da História e dos enfoques econômicos de longa duração que permitem vislumbrar a gênese de parte das grandes questões sugeridas pela atualidade africana.

A partir das duas perspectivas anteriores, Hugon divide sua obra em três grandes unidades. Na inicial, apresenta a evolução estrutural da economia, da época mercantilista às crises contemporâneas. Em uma perspectiva macroeconômica, o autor trata o tema da colonização direta do continente, de 1870 a 1960, depois de uma abordagem bastante breve, mas convincente, dos séculos do tráfico mercantilista. Há também nessa unidade uma interessante análise das disfunções e desequilíbrios setoriais constituídos com o processo colonial na África.

Três temas extremamente reinteressantes encerram a referida unidade: a crescente marginalização internacional do continente, a crise comercial e o endividamento permanente. Lembrando Raffinot, o autor afirma claramente que “a África sub-saárica ficou, ao longo dos anos 80, presa à engrenagem do endividamento permanente.” (p. 48) A segunda unidade aborda as questões da racionalidade socio-econômica da economia do desenvolvimento africano. O autor busca atacar a antinomia colonialista da chamada irracionalidade do homo africanas contra a racionalidade do homo economicus. Mas isso não significa que não se deva buscar especificidades no comportamento econômicos dos agentes econômicos africanos. Hugon não deixa de discutir a lógica da minimização dos riscos, típica dos agentes econômicos africanos. O pouco investimento, o desinteresse pela educação e a tendência à diversificação seriam características bastante relevantes para a instabilidade e a incerteza econômica.

Ainda nessa segunda unidade, vale observar a análise de Hugon sobre a informalização da economia africana. Tema de grande interesse para o leitor brasileiro, a economia informal permanece como uma reminiscência pré-colonial, e colonial com grande significado no sistema econômico.

A terceira unidade do livro talvez seja a que mais chama a atenção. Hugon aborda o tema das políticas econômicas a do tadas e suas trajetórias históricas. Abordando desde as políticas liberais, de ajustamento ou de intervenção, o autor mostra seu ceticismo em relação à eficiência de tais políticas no contexto africano. Ao longo da histórica econômica do continente, elas não teriam conseguido enfrentar plenamente ou solucionar os principais desafios econômicos da África.

Outro aspecto interessante observado é a diversidade das trajetórias históricas dos diferentes modelos de política econômica. Os principais pólos regionais, em torno dos quais houve certo nível de desenvolvimento econômico, são analisados, a saber: a África do Sul, a Nigéria e a África Ocidental de expressão francesa.

Para concluir, Hugon discute perspectivas. Em uma visão bastante menos pessimista do que a maioria dos textos recentes sobre a economia da África, o autor não deixa de reconhecer a viabilidade do continente. Criticando o afro-pessimisme, Hugon acredita que será possível a saída do fundo do poço, desde que os países africanos, através de um esforço político brutal das suas elites, encontrem algum caminho menos tortuoso para o desenvolvimento.

José Flávio Sombra Saraiva

HUGON, Philippe. L’Economie de l’Afrique. Paris, Editions La Découverte, 1993. 124p. Resenha de: SARAIVA, José Flávio Sombra. Textos de História, Brasília, v.1, n.2, p.154-157, 1993. Acessar publicação original. [IF

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