Heintze é autora de obras bem conhecidas sobre a história angolana, mais dedicada às grandes expedições dos alemães ao interior da África Central Ocidental, além de uma série de artigos sobre a região, em alemão, inglês e português. Na década de 1980, publicou a coletânea documental do governador português em Luanda, no século XVII, Fernão de Sousa2. Este foi um trabalho primoroso com uma cuidadosa transcrição, genealogia e notas dos documentos do governador e os manuscritos se encontram na biblioteca da Ajuda, em Lisboa. Essa historiadora alemã vem publicando sobre os povos dessa região desde 19703. Com mais de cinqüenta escritos, entre artigos, ensaios e livros, pode-se dizer que tem dado contributo do mais relevante para a construção da história angolana.

Neste livro, a autora, diferentemente dos estudos anteriores, pretende evidenciar não os exploradores e comerciantes europeus, mas, como diz, os “invisíveis” participantes africanos e luso-africanos nas caravanas. “Os Pioneiros” é um livro solidamente ilustrado com belíssimas fotografias, bons mapas com as rotas das caravanas, um glossário com termos africanos, um apêndice com a bagagem de uma expedição alemã de 1879, uma lista dos títulos dos soberanos da Lunda, região para onde se direcionavam a maior parte das expedições, além de enumerar as estações da expedição de Henrique de Carvalho.

A obra está estruturada em três partes, a primeira, ‘Tara a História de uma Aproximação Européia”; a segunda ‘Esboços Bibliográficos” t a terceira, “Comerão, Investigação e Comunicação na África Central Ocidental”.

O primeiro item, da primeira parte do livro, trata do tema da África “virgem”, quando o continente era visto como sem história, constituído de uma narrativa imutável ao longo do tempo. Estas terras africanas “virgens” estavam por “descobrir”, seriam eles, os europeus, os “descobridores”. Essas construções imaginárias exerceram tamanha atração no século XIX, que levaram para a África Central Ocidental quase trinta expedições num curto tempo de treze anos. Contudo, a autora explica que apesar de ter em mente essas idéias, de terras por descobrir, os exploradores rapidamente viam seus ideários esvaecer ao pisar as terras africanas. Ficavam a saber, ou acabavam por reconhecer, que eram territórios coalhados de rotas, formando redes interligadas complexas, comerciais. Os africanos e os luso-africanos possuíam um amplo conhecimento das rotas e por elas transitavam há muito tempo.

Apesar de tudo, a África real ficava encoberta pela imaginada. Se assim não fosse, como esses exploradores tornariam-se os famosos “descobridores”, com ares científicos e aventureiros na Europa? No item seguinte, a autora nos apresenta os carregadores, intérpretes e guias, do ponto de vista dos exploradores e comerciantes nas suas caravanas, chamados de ralés, ladras, descaradas, desavergonhadas, indolentes, covardes e, quase de forma unânime, adjetivados de traiçoeiros. Um retrato profundamente negativo do africano. Mas por vezes alguns “nativos” foram agraciados com adjetivos como generosos, inteligentes e de confiança. Na terceira e última seção da primeira parte do livro, em “As interpretações Históricas Depois de Cem Anos”, a autora faz um perfil do seu tema, as caravanas de carregadores e o seu lugar nos relatos históricos, insere essas atividades no contexto, desde o fim do tráfico atlântico de escravos, passando pelo comércio do marfim até o fluxo econômico da borracha. Mapeia, de forma exaustiva as rotas, as direções que tomavam essas caravanas e por fim faz uma caracterização dos ambaquistas. Esses africanos, que se apropriaram da escrita, língua e vestes portuguesa, são classificados pela autora como luso-africanos, mestiços.

A segunda parte do livro é, sem dúvida nenhuma, a narrativa mais original do texto da Heintze. Ao tentar refazer os percursos dos agentes africanos nas caravanas, no primeiro item, descreve a família Bezerra, uma das mais conhecidas da região e que teve suas gerações dedicadas a estas atividades. Logo em seguida, destaca a saga de Germano de José Maria, que foi, na sua trajetória um escravo, depois um “criado” livre e chegou a guia e intérprete das caravanas dos alemães.

Na terceira parte do livro, no primeiro item, com o título, ‘Brancos’, negros: os ambaquistas, numa clara indicação das idéias do artigo, já clássico de Jill Dias, a autora enfatiza o caráter ambíguo desse grupo chamado ambaquistas.

No segundo item, descreve como se organizavam as caravanas, como funcionava o recrutamento e quem era recrutado, de onde partiam, fazendo uma prospecção geográfica do tema. Do contexto comercial da região, são dimensionadas as caravanas, para que o leitor possa ter idéia do número de pessoas que participavam e as diferenças, que a autora faz, entre caravanas de comerciantes e de exploradores. Aos detalhes, a autora, fornece-nos os tamanhos dos tecidos e os tipos de medição usados no interior da África Central, e quanto de peso levavam os carregadores, os fardos do homem negro, e nos descreve a melhor época para se fazer a viagem. Abre o terceiro item apresentando-nos mercadorias e rotas das expedições.Como tinha prometido, chega-se ao cotidiano nas caravanas e o item final, a caravana como meio de divulgação e comunicação das noticias.

Aparentemente a historiadora alemã cercou de todos os lados seu objeto, deu conta de todos ângulos da narrativa, abordando todas as partes sem deixar frestas. Vejamos.

Heintze, logo na apresentação, explicita sua intenção de abordar os “Pioneiros africanos” dos ângulos dos exploradores, das biografias dos chefes, dos intérpretes e carregadores. Assinala, contudo, que por serem as fontes relatos de viagens dos europeus, fica impossível uma mudança de perspectiva.

Mas avisa em seguida, “os relatos dos exploradores do século XIX serão aqui contrastados com estudos científicos dos séculos XIX/XXI”. As fontes utilizadas pela autora foram, como ela mesma diz, a monumental obra de Henrique de Carvalho, mas ela cita, além da obra do viajante português, os trechos de obras dos exploradores alemães (Buchner 1879, Wissmann 1891, Pogge 1883). Na terceira parte do livro, “As interpretações Históricas Depois de Cem Anos”, suas analises são baseadas nos trabalhos de Vellut (1972); Dias (1998) e Heywood (1984), obras já bem conhecidas sobre a região e população da África Central Ocidental.

No início do livro a autora afirma que os saberes sobre os caminhos, rotas preferências, épocas possíveis para viagens, foram informações retiradas dos guias, intérpretes e carregadores africanos e que, sem tais conhecimentos, teria sido impossível as caravanas européias existirem. Ao longo do livro, porém, ela caracteriza os agentes africanos segundo os adjetivos nomeados pelos exploradores/comerciantes europeus, sem nenhuma preocupação em analisar, ou sugerir o que seriam esses “africanos traiçoeiros” que as fontes tanto nomeavam. Ao descrever alguns poucos africanos chamados, pelos exploradores/comerciantes, de “inteligentes”, o texto sugere ser esse termo sinônimo de colaborador. Os dados essenciais eram fornecidos pelos guias e intérpretes africanos, desde estratégias de como tratar e ser relacionar com os sobas (chefias locais), até conseguir permissão de atravessar suas terras. Era uma verdadeira arte, cumprir os rituais de troca de presentes, de visitas e as longas esperas para se obter a licença e chegar a ganhar sua confiança.

Alguns exploradores/comerciantes chegaram a se transformar em amigos dos sobas, tudo isso graças a intermediação dos guias, intérpretes e carregadores africanos. Então, quem são esses “traiçoeiros” e uns poucos “inteligentes” dos quais todas expedições dependiam ? Uma pena que Heintze não tenha usado “estudos científicos dos séculos X IX / XXI ” para trabalhar conceitos já tão conhecidos como, das identidades, fronteiras, estratégias sociais, mestiçagem e cultura atlântica no tratamento desses segmentos sociais que hoje nos parece muito mais flexíveis do que simples rótulos, portugueses mestiços. Embora, as fontes sejam européias, não estamos condenados a uma mono visão.

Por se achar impossibilitada de ver, pelas fontes européias, a autora passa batido nos casos de verdadeiros enredo de dramas amorosos nas caravanas.

Ficam de soslaio, necessitando um olhar mais alongado, os músicos africanos e seus instrumentos, que sempre acompanhavam as caravanas. E os ambaquistas, com tantos dados fornecidos pelas fontes, afinal como eram? Surpresos, ficamos nós, da autora achar conflitante os ambaquistas apresentarem comportamentos tão lusitanos e ao mesmo tempo tão africanos. São ângulos que podem ser vistos por outras fontes, européias, que não só os textos dos exploradores/comerciantes. Aí sim, tem-se a possibilidade de uma mudança de perspectiva!

Notas

1 Simultaneamente saiu outra edição em Lisboa, HEINTZE, Beatrix. Pioneiros Africanos: caravanas de carregadores na África Centro-Ocidental (entre 1850 e 1890). Lisboa: Caminho (Coleção Estudos Africanos), 2004.

2 Fontes para a História de Angola do século XVII. Memória, relações e outros manuscritos da coletânea documental de Fernão de Sousa (1622-1635). Franz Steiner Verlag Wiesbaden GMGH, Stuttgart, 1985, V. 1; em 1988, lança o volume 2, com as cartas e documentos oficias da coletânea (1624-1635).

3 Beitrage zur Geschichte und Kultur der Kisama (Angola). Paideuma 16,1970, pl59- 186. (segundo lista fornecida pela própria autora com todas as suas obras publicadas).

Selma Pantoja – Professora do Departamento de História da Universidade de Brasília.


HEINTZE, Beatrix. Pioneiros Africanos. Caravanas de carregadores na África Centro-Ocidental (entre 1850 e 1890). Luanda, Nzila, 2004. . Resenha de: Textos de História, Brasília, v.12, n.1/2, p.233-237, 2004. Acessar publicação original. [IF]

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