Esta colectanea tem como objectivo ampliar o nosso conhecimento sobre um tema que nas últimas décadas tem atraído cada vez mais a atenção de africanistas dedicados aos período colonial, nomeadamente nas áreas de história social e a antropologia. Focando a actuação de mulheres cujas vidas foram profundamente afectadas pelo colonialismo, o livro preenche uma grande lacuna. Era urgente lançar um olhar sobre aspectos que raramente são tratados na literatura, não obstante a existência de arquivos ainda pouco explorados dos ex-colonisadores e nos países africanos agora independentes.

Além disso, está por aproveitar um sem número de testemunhos oculares que viveram o tempo colonial, e cujas estórias ainda ficam por gravar. As coordenadoras desta colectanea, todas specialisadas na história de mulheres em África, e baseados nos E U A e em Uganda, têm conseguido reunir um notável conjunto de textos. Dividido em três partes, dedicadas respectivamente a ‘encontros e alianças’, ‘percepções e representações’, e ‘reconfigurações e contestações de poder’, abrangem uma banda larga de assuntos relacionados com o tema. Nas suas contribuições os treze autores passam em revista o passado colonial em várias zonas do continente, na altura sob a tutela de Portugal, Bélgica, França e Reino Unido, à partir dos meados de oitocentos até os anos setenta de novecentos. As mulheres africanas aparecem em vários papeis: como rainhas mãe e princesas de dinastias; como mães, esposas, parceiras e divorciadas, como parideiras e trabalhadores, como comerciantes, migrantes e viajantes, e como emancipadoras e rebeldes.

Apesar de oferecer um tão vasto panorama, o leitor nunca se perde. Enquanto a introdução permite enquadrar os textos nas correntes actuais do estudo das relações de gênero, cada secção traz também uma curta apresentação. Os artigos, bem cuidados, contêm abundantes notas e referências, cujo formato obedece a tradição acadêmica anglo-americana. Têm em comum uma ênfase em metodologia e historiografia, num estilo que tanto tem marcado as obras de autores associados ao estudo, vincadamente interdisciplinar, das relações de gênero. Procura-se sempre atravessar fronteiras, no que diz respeito a espaços geográficos e sociais, e ao questionamento de pré-conceitos e a abertura de novos caminhos através das vozes de mulheres, muitas vezes ouvidas, registadas ou divulgadas pela primeira vez. Personalizar a história sem perder de vista a sociedade no seu todo não é, como se sabe, uma tarefa fácil, já que exige um conhecimento que vai muito além de uma mera consulta arquivística ou de algumas entrevistas a que historiadores ou antropólogos costumam-se limitar. Alias, o tema obriga a este esforço maior, precisamente porque as mulheres e as suas vidas não estão ‘à mão’, à superfície, fácil de apanhar numa investigação rápida e incisiva. Como os encontros que descrevem com o colonialismo e os seus representantes tem essencialmente a ver com hierarquias e poderes instalados, o tratamento adequado das fontes é essencial.

Daí a importância de incluir excertos de documentos ou testemunhos orais que nos permitem situar as mulheres como pessoas e partilhar uma fase marcante das suas vidas. Tanto o investigador como o leitor se confrontam com um imaginário que implica também questionar o dito e o não dito, ler entrelinhas e cruzar dados para reconstruir situações e contextos. O caso de uma mulher moçambicana, que fala da sua relação com um colono, a conversa entre uma mulher e uma missionária em Botswana, o relato de uma parteira sobre o seu encontro com um médico francês, o testemunho de uma mulher em Gana acusada de adultério perante o juiz, o protesto de uma mulher congolesa contra a atitude do seu marido, as estórias de mulheres sulafricanas que migraram para Rodésia, a resistência passiva de mulheres contra inspecções médicas obrigatórias, a ignorância de autoridades perante a hierarquia bicéfala de mulheres e homens em Buganda, as estratégias de mu lheres no contexto das relações conjugais a seguir a introdução da cultura de cacau na Costa de Ouro, as metáforas usadas pelas mulheres Ibo que lutaram contra a perda de direitos em Nigéria, a radicalização de mulheres nos movimentos nacionalistas na Guiné francesa e os desafios por que mulheres guerrilheiras passaram em Zimbabwe, todos estes fragmentos formam peças de um puzzle colorido e fascinante.

O resultado é francamente positivo, mostrando como o estudo sobre mulheres africanas avançou a passos largos em poucas décadas. Faz falta sim, nesta grande diversidade, um fio condutor além do ‘‘disempoverment’ e reacções de mulheres, que nos ajude a contextualizar a grande diversidade das estórias. Folhando as páginas, é notável o abrir de um espaço, outrora marginalizado, cada vez maior onde mulheres se exprimem e actuam como actores autônomos com uma dinâmica muito própria, explorando estratégias, vontades e sentimentos. Ao mesmo tempo, há aspectos das relações de gênero que ficam por esclarecer por causa da ênfase casuística, sobretudo no plano teórico relacionada com a agência feminina. Embora, o contingente feminino já não apareça como vítima, como na segunda onda do feminismo nos anos setenta, mas como pessoas e personalidades com corpos e vozes, perguntamo-nos: onde estão os relatos de mulheres vindas de espaços lusófonos? Será que estas correntes inovadoras passaram despercebidas em Portugal e nos PALOP? Não é por acaso que a única excepção é Moçambique, rodeado por países anglófonos, cuja história tem sido alvo de atenções crescentes durante as ultimas duas décadas, também do ponto de vista de gênero.

Estas lacunas deviam fazer nos pensar, e ver como acrescentar peças que dizem respeito a estas zonas na historiografia e antropológica africana. É urgente, por causa da passagem do tempo e do envelhecimento de potenciais informantes, iluminar as vidas de mulheres – e homens – em Angola, Cabo Verde, Guiné, Moçambique, e São Tome num passado ainda muito recente. Oportunidades não faltam para acabar com estes grandes hiatos: os respectivos arquivos destes países, e em Portugal, contêm um sem f im de documentos que envelhecem em prateleiras poeirentas. Muito ainda tem que ser feito para acabar com este déficit, que é uma responsabilidade de todos nós, e valorizar a memória colectiva e pessoal daqueles que até agora não tiveram o privilégio de serem ouvidos.

Philip J. Havik – Professor da Universidade de Leiden, Holanda.


ALLMAN, Jean; GEIGER, Susan & MUSISI, Naknyike (coords.). Women in African Colonial Histories. Bloorrúngton, Indiana Universiiy Press, 2002. 338p. Resenha de: HAVIK, Philip J. Textos de História, Brasília, v.12, n.1/2, p.229-231, 2004. Acessar publicação original. [IF]

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