A obra produzida em 2004 foi relançada em 2011 – em evento promovido pelo Programa de Pós-Graduação Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade (PGAU-Cidade), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). É constituída pelos estudos do Antropólogo, Doutor em Letras e Filosofia Massimo Canevacci, docente de Antropologia Cultural na Faculdade de Sociologia da Universidade de Roma. Em seu início, apresenta uma instigante epígrafe de Walter Benjamin: “Não saber se orientar numa cidade não significa muito. Perder-se nela, porém, como a gente se perde numa floresta é coisa que se deve aprender a fazer” (BENJAMIN, 1971, p.76)1.

No texto de Massimo Canevacci, esse desejo de querer “perder-se na cidade” traduz-se como condição para realizar a metodologia da comunicação urbana. É o ponto de partida para a compreensão do fenômeno comunicacional, por intermédio de uma visão antropológica inovadora ancorada no conceito de “polifonia”. O autor utiliza tal conceito para analisar a cidade de São Paulo sob o prisma de diversas técnicas interpretativas que levam à identificação de um “paradigma inquieto” a partir do qual a cidade é interpretada.

Com um estilo refinado e envolvente, a escrita de Canevacci leva o leitor a transitar por um universo temático em que se destaca a multiplicidade conceitual, reflexo da tentativa de analisar a complexidade dos ritmos que caracterizam o espaço urbano, os espaços comportamentais e psicológicos dos indivíduos que transitam por ele. Na introdução, o relato de sua primeira visita à capital paulista, no ano de 1984, instiga o leitor a tentar compreender as dimensões do aparato simbólico da cidade.

Para Canevacci, o tecido urbano de São Paulo pode ser conhecido a partir da alternância de três ritmos de comportamento e controle espaço-temporal: a imobilidade doméstica, a hipervelocidade noturna e a lentidão do passeio solitário. Contudo, através da experiência, o autor pôde constatar o excesso de “metropolitanidade” como elemento de “irrepresentabilidade simbólica” da grande metrópole.

A impossibilidade de “mapear simbolicamente” o paulistano somente a partir de uma exploração superficial dos espaços públicos e privados nutre o conceito de “polifonia”, central na obra do antropólogo. O aspecto polifônico da cidade é caracterizado pelo entrecruzamento de diversas vozes copresentes nas ruas, avenidas, lojas, shopping centers, centros culturais e outros espaços da comunicação urbana.

Desse modo, busca o estabelecimento de passos para análise da cidade polifônica. Cada capítulo se desenvolve em torno de um tema específico, na tentativa de caracterizar cada aspecto da cidade a partir da abstração epistemológica do perder-se na cidade, destacando-se a autonomia das “vozes” que constroem seu caráter polifônico.

Assim, na primeira parte do livro, o autor apresenta os critérios epistemológicos para o desenvolvimento da pesquisa antropológica no âmbito da metrópole. Canevacci caracteriza a comunicação como eixo central para a discussão de tal pesquisa no seio da sociedade “pós-moderna”. Para tanto, o antropólogo desenvolve cinco capítulos.

No primeiro capítulo, são discutidas as particularidades da pesquisa urbana antropológica. O autor enfatiza a comunicação que ocorre no interior da “zona cinzenta”, formada pela interação entre as diferentes construções da cidade e os videopanoramas reprodutíveis.

O segundo capítulo evoca o tema do abandono sedutor à metrópole. Segundo o autor, tal discussão fora fomentada pelo futurismo a partir da oposição a uma espécie de “passadismo”, característico da tradição artística.

O terceiro capítulo aponta o nexo entre pensamento abstrato e forma-cidade. Com base na idéia de “pensamentos selvagens”, o autor evoca Claude Levi-Strauss, Canevacci para introduzir o estruturalismo como eixo de análise do contexto urbano.

O quarto capítulo apresenta uma tentativa de compreender a metrópole atual a partir das polifonias comunicativas. Desse modo, o autor recorda o olhar de Walter Benjamin sobre Paris como modelo de procedimento para compreensão do caráter polifônico em qualquer metrópole da contemporaneidade.

O último capítulo da primeira parte evoca a perspectiva literária para interpretação da condição urbana atual. Nesse capítulo, o autor elege o realismo fantástico de Italo Calvino como exemplo de estilo narrativo que evoca o sentido expresso pela polifonia urbana.

Na segunda parte do livro, Canevacci apresenta uma seleção de imagens que retratam os modos de comunicação urbana na grande metrópole paulista. A partir da interpretação de vinte e um sítios urbanos significativos para a cidade de São Paulo, o autor tenta “mapear” visualmente a cidade, desvendando as redes de significados que se formam através da comunicação polifônica.

O caráter empírico-aplicado da análise associa-se a uma escrita cujo estilo literário seduz o leitor e o estimula a conhecer as “vozes” que compõem o ethos da cidade. O complexo de tráfegos-miasmas-engarrafamentos é o caminho a ser percorrido pelo flâneur para compreender o estilo particular da cidade, a multiplicidade dos circuitos metropolitanos e os movimentos que definem sua urbanidade.

Em A cidade polifônica, Massimo Canevacci rompe com os meios tradicionais do métier antropológico. Através de uma instigante análise da metrópole comunicacional, o autor busca compreender seus sujeitos múltiplos, atores no processo interativo que formata o caráter sócio-espacial da cidade.

A cidade é compreendida como um organismo subjetivo que inventa valores e modelos de comportamentos estruturados por uma linguagem própria, baseada em intervalos delimitados pela ação dos indivíduos que habitam o espaço urbano. A leitura é indicada para todos aqueles que buscam compreender os sentidos de mobilidade, hibridismos e sincretismos culturais, substância da polifonia urbana na metrópole contemporânea.

Diêgo Marinho Martins – Mestrando PPGCULT-UFMA. São Luís, MA- Brasil. E-mail: [email protected]


CANEVACCI, Massimo. A cidade polifônica: ensaio sobre a antropologia da comunicação urbana. 2. ed. São Paulo: Studio Nobel, 2004 (reimpresso em 2011). Resenha de: MARTINS, Diêgo Marinho. Outros Tempos, São Luís, v.9, n.13, p.252-254.jul. 2012. Acessar publicação original. [IF].

 

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