Os estudos europeus tomaram um impulso notável nos últimos vinte anos. Se a construção da integração européia é objeto, há cerca de cinqüenta anos, de análises econômicas, políticas e comerciais, a perspectiva histórica e historiográfica ganhou espaço após a queda do Muro de Berlim.

Com efeito, a superação da fratura bipolar característica da Guerra Fria trouxe conseqüências interessantes para a reflexão acerca da Europa. A Europa ocidental esteve inserida numa lógica de opção atlântica e ocidental cujo fundamento foi a oposição entre democracia e socialismo, com seus desdobramentos econômicos e militares. As longas tradições européias — matrizes do mundo, pode-se dizer em risco de exagero — estiveram em surdina enquanto os “grandes” (Estados Unidos e União Soviética) polarizavam a atenção de todos, em manobras táticas de constante adiamento do apocalipse.

A modificação da correlação de forças na década de 1990 provocou uma intensificação do interesse pela história e pela cultura européias como fatores de identificação, coesão e estruturação da unidade política supra-nacional que se formava desde meados dos anos 1950: a União Européia. A realização da unidade européia evoluiu, na consideração das ciências sociais, de um exercício comercial e estratégico, reservado aos governos e aos juristas, para um elemento crucial de auto-afirmação e de personalidade política historicamente relevante.

Autores favoráveis (eurotimistas) como desfavoráveis (euro-céticos) aos processos de integração européia passaram a se contrapor, em particular no plano político-institucional — sobretudo por causa da crise que esses processos acarretaram na concepção e na prática dos estado-nação. As alianças comerciais e políticas, assim como o lento processamento de uma longa história de rivalidades e contraposições intra-européias, trouxeram um ritmo vagaroso ao progresso da integração européia, mas não a impediram nem a fizeram regredir. A análise histórica dos fatores que concorrem para essa construção tem conduzido à produção crescente de pesquisas e estudos historiográficos que se debruçam sobre três pontos de reflexão: a idéia de Europa, a identidade européia e os processos efetivos da construção institucional da unidade européia pós-1945.

Nesse contexto reflexivo destacam-se, no espaço de língua portuguesa, as obras da professora Maria Manuela Tavares Ribeiro, da Faculdade de Letras e do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20), da Universidade de Coimbra. Grande animadora dos estudos europeus em Portugal, Ribeiro co-organiza, com diversas outras universidades européias (Siena, Salamanca, Atenas, Granada, Swansea, Cracóvia, Estrasburgo, Hannover) um respeitado curso de Master in European Studies, centrado no processo da construção européia. Maria Manuela Ribeiro publicou, em 2003, A idéia de Europa — uma perspectiva histórica (Coimbra: Quarteto, 2003, 972- 8717-84-9, 190 p.).’ Dotado de meridiana clareza, A idéia de Europa — uma perspectiva histórica é um notável guia reflexivo do itinerário percorrido pela concepção de “Europa”, para além de sua mera fixação geográfica, no campo do pensamento e da cultura. Em seis capítulos, divididos em duas partes, a autora conduz o leitor pela emergência da idéia de Europa (parte I), por sua evolução e crise (parte I I , caps. 1-11) e por suas transformações recentes (parte I I , caps. III-V).

A reflexão é instigante e não mascara as crises por que passou o Velho Continente, destacando, contudo, a persistência salutar da perspectiva utópica da construção européia, que afinal vem-se realizando desde meados dos anos 1950 — resultado da consciência coletiva tanto dos conflitos quanto da necessidade de os superar de uma vez por todas.

O olhar analítico da autora se projeta à Antigüidade e à formação do espaço político e cultural helênico para localizar as raízes virtuais da idéia de Europa como topos físico e mental. Se os séculos que se sucederam até o século 20 mostraram a fragilidade dos processos de homogeneização e liderança entre os europeus — soberanos e Estados — a referência a um denominador comum é constante. O conflito entre as interpretações do patrimônio cultural europeu e a concorrência — amiúde violenta — pela hegemonia no Velho Continente são examinados com pertinência e lucidez, indicando a contradição entre o humanismo valorativo e a rudeza dos embates por preeminência entre os contraentes europeus.

Sob o elegante título de “A primavera da Europa”, Maria Manuela Tavares Ribeiro alinha as grandes tradições que emergiram da longa história de rivalidades em que os europeus estiveram mergulhados, por centenas de anos, afastando-se uns dos outros ao optarem (ou serem forçados a optar) por crenças excludentes, nações estranhas, estados combatentes. O trauma do horror, chegado a seu clímax com 2a Guerra Mundial, e a experiência também traumática de viver no clima da Guerra Fria, conduziram não apenas a uma espécie de “exame de consciência” das lideranças políticas e sociais, mas igualmente ao renascimento do pensamento comum, à “primavera” de expectativa e de esperança, ao menos para os próprios europeus. Um preço ainda está por ser pago — ou está a ser pago: a crise da identidade, por tanto tempo ancorada na exclusão do outro (mesmo se co-europeu), e a tentação umbilical de pensar agora somente em si (uma sorte de egoísmo político que, de francês ou alemão, inglês ou italiano, passaria a “europeu” — ainda refém da mesma lógica de estranhamento prático contraposta às boas palavras teóricas). A exposição de Maria Manuela Tavares Ribeiro representa uma demonstração sólida do interesse que há em praticar a reflexão historiográfica para equacionar os fatores da experiência do tempo que marcam a consciência e a cultura histórica.

A reflexão de fundo é acompanhada por um plano pormenorizado de um curso sobre a idéia de Europa (p. 83-96) e por duas vastas bibliografias: uma sistematizada de acordo com o plano de curso (p. 97-138) e outra, geral, sobre a Europa em geral (p. 139-177). Dois índices (onomástico e remissivo) completam o trabalho, de grande utilidade para o leitor. Este livro de Maria Manuela Tavares Ribeiro é um grande instrumento de trabalho para o estudioso dos temas europeus na contemporaneidade, compondo a acuidade da reflexão sobre o complexo tema da noção de Europa e da identidade européia, como questão subjetiva e coletiva, com a limpidez didática em que está lavrado o texto. Um elemento adicional merece destaque: a autora não negligencia de apontar os desafios que ainda esperam a União Européia (entrementes tomada pela Europa como um todo…) no plano político como no cultural e individual. Com efeito, a redefinição da identidade de si, dos cidadãos, e a da Europa — como unidade política — , requerem complexo processo de reorganização mental, por parte das pessoas e dos dirigentes. A contribuição historiográfica de uma reflexão desta qualidade indica como a questão européia já não mais pode ser tratada apenas como um item da agenda interestatal ou intergovernamental, como foi o caso durante os seus primeiros quarenta anos e como a evolução recente das negociações em torno de uma constituição para a Europa demonstrou. O formalismo ainda eivado de um nacionalismo tardio tende a ser superado, mesmo se o processo tenha de ser lento e gradual, desde que seja constante.

Outros trabalhos organizados por Maria Manuela Tavares Ribeiro merecem aqui menção, para a melhor ilustração do leitor. Lembre-se em primeiro lugar a coleção “Estudos sobre a Europa” (de que o volume comentado acima é o terceiro), cujos dois primeiros volumes reúnem estudos relevantes para conhecer a diversidade da reflexão na Europa e sobre ela: Olhares sobre a Europa (vol. 1, 2002) e Identidade Européia e Mulriculturalismo (vol. 2, 2002). Iniciada em 2001, esta coleção é publicada pela Editora Quarteto, de Coimbra. Importa ainda recomendar à leitura do interessado a revista Estudos do Século XX (ISSN 1645-3530), fundada pelo CEIS20 em 2001, que tem Maria Manuela Tavares Ribeiro na direção, como coordenadora. O primeiro número da revista está dedicado ás “Estéticas do Século” (2001) e o segundo, organizado por Maria Manuela Tavares Ribeiro, tem por eixo “Europa-Utopia — Europa-Realidade” (2002), confrontando nesse binômio a dialética que move os europeus, apesar deles mesmos.

Essas publicações, e a qualidade das reflexões que veiculam, mostram ao leitor a amplitude do interesse que a Europa suscita entre os historiadores e o cosmopolitismo crescente da academia portuguesa, na qual se destacam o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (CEIS20) e a produção científica e pedagógica de Maria Manuela Tavares Ribeiro.

Estevão de Rezende MARTINS – Universidade de Brasília.


RIBEIRO, Maria Manuela. A idéia de Europa uma perspectiva histórica. Coimbra: Quarteto, 2003. 190p. Resenha de: MARTINS, Estevão C. de Rezende. Europa: uma idéia em mutação? Textos de História, Brasília, v.10, n.1/2, p.221-224, 2002. Acessar publicação original. [IF]

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