Introdução

Todo Chávez se trata da publicação de uma entrevista de Hugo Chávez com o jornalista Eleazar Díaz Rangel. A obra parte das origens de Chávez até seu alçamento à presidência da república – e as suas dificuldades para montar um governo, o qual se distanciava das correntes políticas tradicionais do país. A entrevista se inicia com perguntas sobre a infância e adolescência de Chávez, um rapaz aficionado por baseball, até a seu contato com o Exército e, posteriormente, com a sua vida política.

A obra se divide em diferentes partes. Nas três primeiras, estão contidas a entrevista. Nesta parte, Chávez é indagado e discorre sobre sua infância, ingresso no Exército e a articulação do golpe de 4 de Fevereiro de 1992. Na segunda, há uma abordagem sobre o seu governo e a ideologia bolivariana. Na terceira parte, temos uma análise do golpe de abril de 2002.

Além das partes dedicadas à entrevista com Chávez, existem outras as quais servem para auxiliar na compreensão dos temas abordados. Nestas, Rangel analisou o momento político posterior à tentativa de golpe em 1992, buscando explicar as razões para o crescimento da popularidade de Chávez, mesmo no período em que esteve na prisão, e as motivações para a sua eleição à presidência em 1999.

Além disso, Rangel delimita o posicionamento de Chávez frente à política norte-americana em relação à Venezuela. Ademais, há uma parte dedicada aos apêndices, com o discurso de posse na presidência por Chávez em 1999 e a sua trajetória política.

Hugo Chávez, jogador de baseball

A primeira pergunta feita por Eleazar Rangel à Chávez foi “Desde quando você é magallanero [2]?” pergunta que expõe o caráter bem impessoal do início da entrevista. Chávez era mm aficionado por baseball. Ele mostra como essa atividade preencheu grande parte de sua infância e adolescência. A partir desse hobbie do entrevistado, Rangel faz perguntas sobre a sua família, perguntas sobre seus pais, irmãos, sobre sua cidade de origem – Sabaneta – até chegar à origem do interesse de Chávez pela carreira militar.

O baseball teve um importante papel para o futuro de Chávez. Apesar de não ter se tornado um profissional nesse esporte, como sonhou quando jovem, a paixão pelo baseball fez com que Chávez entrasse na Academia Militar. Seu primeiro contato com esta foi em 1970, mas o menino de Sabaneta não se interessou em ingressar na mesma de imediato.

Foi somente quando um amigo seu, José Rafael Angarita, ao tentar convencer Chávez a entrar na Academia Militar, mencionou que lá se treinava baseball com Antonio Casanova e Héctor Benítez Redondo o que, nas palavras de Chávez, era “a glória, o Olimpo” do baseball. Então, com a intenção de treinar baseball com tais figuras do esporte, Chávez ingressou na Academia Militar e, com o tempo, o baseball acabou tomando menos espaço entre os seus interesses prioritários, em detrimento a sua carreira militar.

Hugo Chávez, conspirador bolivariano

Chávez diz na entrevista que dentro do exército teve contato com as ideias de Bolívar e começou a ler seus textos, além de outros escritos que o auxiliaram na formação da sua mentalidade revolucionária com o intuito de transformar a realidade social e política venezuelana.

Suas intenções revolucionárias lhe renderam algumas dificuldades dentro das Forças Armadas, mas nunca algo que o prejudicasse. Sempre sob suspeita, Chávez fora colocado em regimentos fronteiriços onde suas ideias não pudessem ser propagadas e onde a comunicação era escassa. Apesar disso, em 17 de dezembro de 1982, em comemoração ao bicentenário de Bolívar, Chávez faz um discurso para o Regimento de Paraquedistas que lhe angariou adeptos para criar o Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (MBR-200).

O MBR-200 esteve em vigência de 1982 até 1997, quando se transformou em Movimento V República (Movimento Quinta República) com o intuito de lançar a candidatura à presidência de Chávez. Na entrevista, Eleazar Rangel indaga Chávez sobre o funcionamento do movimento e como este conseguiu se manter ativo no interior do Exército sem ser detectado.

Nessa questão, Chávez ressalta que o MBR-200 nunca fora desvendado, porém, sua possível existência fora conhecida. Suspeitava-se dentro das Forças Armadas da existência de uma conspiração, suspeitava-se de pessoas efetivamente envolvidas com a mesma, mas não havia provas para ligar tais indivíduos a tal conspiração, devido ao fato de o movimento ser muito bem organizado internamente.

Por isso, alguns efetivos do movimento, como o próprio Chávez, eram colocados em posições de pouco poder dentro do Exército, o que fazia com que os membros do movimento tivessem que se rearticular dentro das Forças Armadas até reconhecerem um cenário estratégico propício para a articulação de um golpe de estado.

O primeiro sinal de que o momento favorável para se desferir um golpe se deu em 1989, na ocasião do Caracazo [3] a qual permitiu ao MBR-200 evidenciar a insatisfação da sociedade venezuelana frente às medidas neoliberais tomadas pelo governo de Carlos Andrés Pérez. Mas, fora somente em 1992 que o movimento se deparou com um cenário propício para o golpe. Em meados de 1991, muitos efetivos do MRB-200 receberam comandos de batalhões. Isso possibilitou ao movimento se organizar e então, em 4 de fevereiro de 1992, colocar em prática seu golpe de Estado.

O golpe sofreu com acontecimentos não previstos no plano original, discutido e rediscutido diversas vezes durantes meses. O plano necessitava que ações fossem tomadas para que os golpistas pudessem se comunicar e, enquanto esse passo não era dado, suas células permaneceriam incomunicáveis até segunda ordem.

Então, uma deleção do golpe impossibilitou o sucesso desse, mesmo antes de ser colocado em prática. Depois da sua descoberta, conspiradores foram neutralizados antes de deixar a base e aos poucos as células foram sendo capturadas e seus membros levados à prisão. Apesar desse ocorrido, a tentativa de golpe foi o suficiente para tornar Chávez uma figura pública importante no cenário nacional venezuelano.

Hugo Chávez, El Comandante

Depois de dois anos preso, Chávez fora anistiado pelo então presidente Rafael Caldera Rodríguez e teve de abdicar de sua carreira militar. Na entrevista, ele conta suas exigências para que isso fosse feito na Academia Militar onde ele começou sua carreira e por muitos anos fora um instrutor.

Terminada essa fase em sua vida, Chávez ingressou no mundo da política. Assim, ele visitou diferentes municípios em busca de apoio político, com o intuito de disseminar os ideais bolivarianos. Então, em 1997 o MRB-200 se transforma em MVR e Chávez lança sua candidatura à presidência. Em 1999, Chávez se torna presidente da Venezuela com 57% dos votos.

Nessa etapa a entrevista entra na sua segunda parte e Rangel passa a perguntar a Chávez sobre suas convicções políticas enquanto governante. O entrevistador o questiona sobre sua opinião em relação aos partidos políticos tradicionais, o porquê dele considerar seu governo revolucionário e se Chávez vislumbrava reações violentas à revolução bolivariana. Além disso, há perguntas sobre sua relação com a Igreja Católica, bem com outros pontos políticos, até abordar o golpe de Estado que ele sofreu em abril de 2002.

Na ocasião do golpe, uma passeata organizada pela oposição passaria pelo Palácio Miraflores. Contudo, enfrentamentos entre chavistas e opositores ocorreram nas proximidades do palácio presidencial, culminando em dezenas de mortos e feridos. Na ocasião, a grande mídia manipulou as imagens para deslegitimar o governo, de forma a parecer que a guarda de Chávez estivesse abrindo fogo contra a população.

Batalhões das Forças Armadas já estavam sob o poder de golpistas e pressionavam Chávez a renunciar ao governo. Para evitar conflitos nas ruas de Caracas, o presidente se entregou às forças golpistas, mas não renunciou ao mandato de presidente.

Porém, o que era anunciado pela mídia era o contrário e um novo governo seria instituído. Na entrevista, Chávez admite que a possibilidade dele ser assassinado era grande. Apesar dessa desarticulação do governo, militares fiéis a Chávez organizaram e articularam um contra golpe, colocando Chávez de volta no poder.

Uma longa entrevista

É importante ressaltar que essa entrevista ocorreu em 2002, mesmo ano em que Chávez sofreu o golpe. Assim, muitas informações cruciais que alterariam as relações da Venezuela para com governos estrangeiros não haviam sido reveladas, tornando muito recentes as ideias de Chávez para com o golpe na ocasião da entrevista.

Por isso, quando perguntado na entrevista sobre sua relação com os Estados Unidos, Chávez disse que queria melhorar a relação com esse país, em razão de não haver necessidade de provocar faíscas entre eles. Porém, a obra em questão se trata de uma segunda edição de Todo Chávez, lançada somente quatro anos depois da primeira.

Portanto, para que as opiniões dispostas por Chávez na entrevista e, o próprio livro, não se tornarem anacrônicos, o autor apresenta uma quarta parte à obra na qual analisa diversas falas e discursos de Chávez entre 2002 e 2006, ano da segunda edição, para poder atualizar a obra e emparelhá-la com o posicionamento sobre assuntos abordados na entrevista e que foram modificados com os anos.

O principal tópico o qual sofreu alterações fora a posição da Venezuela em relação aos Estados Unidos, uma vez que, após a entrevista, foram encontradas provas do envolvimento dos EUA no golpe de 2002. Na quarta parte, tal mudança recebe o título de “Sua denúncia do imperialismo” em que Rangel demonstra o escalar do tema nos discursos de Chávez, conforme esse vai recebendo informações mais seguras do envolvimento dos EUA no golpe.

Essa parte também é utilizada para demonstrar como o país continuou sendo vítima das investidas da oposição a Chávez, mesmo depois da derrota do golpe de abril de 2002. Um exemplo foi a tentativa de sabotagem do setor petroleiro ao fim de 2002, que foi responsável por prejudicar a economia venezuelana, que só voltou a se estabilizar em 2005.

Referências

RANGEL, Eleazar Díaz. Todo Chávez: De Sabaneta al socialismo del siglo XXI. 2 ed. Caracas: Planeta Venezolana, 2006. 248 p.

ARAUJO, Rafael. A história do Tempo Presente venezuelano: De 1950 ao Século XXI. Olinda: Livro Rápido. 2009.

Notas:

2. Navegantes del Magallanes é um time de baseball venezuelano.

3. O Caracazo consistiu em uma revolta social espontâneo da Venezuela, que teve seu centro em Caracas. Ver: ARAUJO, Rafael. A história do Tempo Presente venezuelano: De 1950 ao Século XXI. Olinda: Livro Rápido. 2009.

Ciro Alves NolascoGraduado em História pela UFRJ em 2013. Foi bolsista PIBIC/CNPq e é pesquisador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente.


RANGEL, Eleazar Díaz. Todo Chávez: De Sabaneta al socialismo del siglo XXI. 2 ed. Caracas: Planeta Venezolana, 2006. 248 p. Resenha de: NOLASCO, Ciro Alves. África e Brasil no mundo moderno. Boletim do Tempo Presente, Rio de Janeiro, n.7, p.1-6, 2013. Acessar publicação original. [IF].

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