Para o leitor bem informado o esforço de ler uma nova resenha de um livro editado em 2008 deve parecer inútil, ainda mais se outras resenhas sobre esse livro já tiverem sido feitas. Embora se deva esperar que muitas pessoas não tenham lido Adam Smith em Pequim nem suas resenhas, deixe-me oferecer uma recompensa para quem o leu. Ofereço-lhe uma resenha das outras resenhas, brasileiras e estadunidenses, desse livro. É um movimento surpreendente? Pouco atraente? Qual a minha intenção? Explico: quero instigar tanto a releitura quanto a leitura de Adam Smith em Pequim informando antigos e novos leitores das diferentes recepções desse livro nos dois países.

Deve-se esperar isto de uma resenha? Não, se buscarmos o Aurélio, pois nele encontramos uma definição muito restrita da palavra ‘Resenha’: “relato minucioso, enumeração, descrição pormenorizada”. Contudo, entendo que deveríamos nos deixar levar pelas definições mais amplas do termo latino ‘Resigno’, que é traduzido como: “rasgar o selo, abrir uma carta ou um testamento; violar o segredo; desvendar, descobrir; anular, cancelar, rescindir, romper, violar; entregar; renunciar, resignar”. Por esta definição do termo original, pode-se dizer que quem resenha, desvela e desvenda, mas também renuncia e resigna. Se resenharmos as resenhas antigas desvelaríamos seus segredos, violaríamos suas renúncias? Talvez.

Se começarmos nosso exercício pela ‘Apresentação’ escrita pelo economista Theotonio dos Santos para ‘Adam Smith em Pequim’, podemos observar que, em lugar de apenas expor a obra e o seu autor, Santos se preocupou mais em resenhar o livro para o leitor brasileiro. Nomeada ‘No rastro de Giovanni Arrighi’, a apresentação foi, portanto, a primeira resenha de Adam Smith em Pequim no Brasil, primus inter pares, uma vez que os brasileiros são levados a lê-la antes do texto de Arrighi. Estes são logo advertidos do “abismo que vem se cavando entre a intelectualidade brasileira e o pensamento de esquerda mundial” e que a obra “é dedicada a Andre Gunder Frank, conhecido no Brasil apenas por seu livro de 1966 (!) [sic] sobre desenvolvimento e subdesenvolvimento”. Trabalhando o que chama de “alegoria teórica” de Arrighi, a saber, o paradoxo da China e a Inglaterra do XIX e XXI poderem servir como representações das doutrinas de Adam Smith e Marx, Theotonio dos Santos apontou que a crise do projeto imperialista estadunidense teria a ver com a resolução do paradoxo, pois em nosso século se engendraria um acomodamento entre o “novo hegemón”, a China, ou um “enfrentamento radical” desse país com os Estados Unidos que “nos faria voltar ao período da Guerra Fria ou, pior ainda, ao princípio do século XX […]”.[1]

Influenciado pelo raciocínio anterior, a resenha feita pelo embaixador Amaury Porto de Oliveira também apontou que a publicação de Adam Smith em Pequim no Brasil veio corrigir o “atraso com que tem a intelectualidade brasileira tomado conhecimento dos esforços de toda uma plêiade de cientistas sociais, nos EUA, na Europa e no Leste Asiático, com vistas ao melhor entendimento de aspectos fundamentais do mundo moderno”. Continuando na argumentação historicista de Theotonio dos Santos, Oliveira explicou que o objetivo principal de ‘Adam Smith em Pequim’ é responder se a China atual estaria em “rota de transição para o Capitalismo” e que Arrighi trabalha o problema por meio de seu paralelo com o período da dinastia Qing. Assim, os dois períodos históricos se distinguiriam exatamente pelo socialismo, “a integração na modernidade sociológica trazida pela Revolução de 1949, de cuja dinâmica não se desligou Deng Xiaoping”.[2]

No mesmo rastro historicista, o sociólogo Antônio José Escobar Brussi, desenvolveu a compreensão de que ‘Adam Smith em Pequim’ proporia que a liderança chinesa se ancorava numa legitimidade teórica e moderna avant la lettre, a partir do que entendeu ser a questão central do trabalho de Arrighi – apontar a “incontrastável decadência” estadunidense e a ascensão chinesa enquanto “mensageira de maior igualdade e respeito mútuo entre europeus e não europeus… (ponto que) que Smith antecipou e defendeu 230 anos atrás.”[3] Nesse caminho, Wagner de Melo Romão escreveu que “a crise de hegemonia norte-americana não se refere apenas à perda de credibilidade de sua posição como força invencível ou à sua débâcle econômico-financeira”, assim como “o próprio american way of life, que sustentou a pujança consumista da maior economia do mundo e a admiração de populações de todos os países, aparece como o grande responsável pela devastação ecológica de nosso tempo”. Nesse sentido, Romão entendeu que a China poderia se tornar um modelo para o mundo.[4] Finalmente, esse entendimento foi mais afinado por Marina Scotelaro de Castro e Rodrigo Correa Teixeira, na medida em que apontaram que Arrighi colocaria que a expansão chinesa já estaria sendo contida pelos Estados Unidos e que a liderança da China constituía “uma nova ordem internacional mais favorável aos povos do hemisfério sul”.[5]

Contudo, a compreensão brasileira de que ‘Adam Smith em Pequim’ anuncia a nova liderança mundial chinesa, mais benévola porque moderna e socialista, difere grandemente da compreensão da esquerda estadunidense, problema importante por conta dos intelectuais estadunidenses fazerem parte daquilo que os autores das resenhas brasileiras evocaram como “o novo pensamento da esquerda mundial”.

No final de 2008, dezesseis meses depois da publicação de ‘Adam Smith em Pequim’ [6] o Journal of World-Systems Research iniciou uma chamada de artigos para discutir o livro a partir de sua resenha, visando um debate que deveria ser subsidiado pelo próprio Giovanni Arrighi caso este não houvesse falecido em junho de 2009. A despeito disto, os artigos foram publicados já na edição do segundo semestre de 2009 do Journal of World-Systems Research.

No caso, verificamos existir uma convergência de todos os artigos em torno de um ponto, a ideia de que Giovanni Arrighi possuía uma compreensão continuada do problema da transição do atual ‘ciclo de acumulação sistêmica’, uma dimensão do pensamento arrighiano que seria mais desenvolvida pelo próprio Journal of World-Systems Research em dossiê do primeiro semestre de 2011.[7] Assim, ‘Adam Smith em Pequim’ deveria ser entendido como uma continuação das duas obras principais de Giovanni Arrighi, a saber, O longo século XX e Caos e Governabilidade e que nesta compreensão Arrighi se encontrava em diálogo com outros autores que trabalhavam a partir da perspectiva do Sistema Mundo, dentre os quais Andre Gunder Frank.

Partindo deste enfoque, podemos notar para nosso leitor que em O longo século XX, [8] escrito em 1994, Arrighi já entendia que o ciclo sistêmico de acumulação estadunidense e o poder hegemônico dos Estados Unidos estariam dando lugar a um novo ciclo, desta vez Asiático. Giovanni Arrighi citava o Japão como o país capaz de localizar o núcleo da transição sistêmica, mas, ao mesmo tempo, salientava que o Japão não preenchia todos os pré-requisitos para a transição completa do centro da Economia-Mundo. Já no livro Caos e Governabilidade, [9] publicado nos Estados Unidos em 1999, Giovanni Arrighi continuaria demonstrando a compreensão de que as hegemonias ocidentais deveriam ser entendidas numa perspectiva histórica mais ampla e que estas hegemonias se realizaram posteriormente a um ciclo sistêmico desenvolvido na Ásia, especificamente na China, e que a retorno do centro dinâmico da Economia-Mundo para esse continente dependeria do “surgimento de uma nova liderança global nos centros principais da expansão econômica do Leste da Ásia”, posição em que o Japão poderia se encaixar.

Assim, o livro Adam Smith em Pequim consolidaria uma visão já longamente esboçada desde 1994, que previa a transição do ciclo sistêmico de acumulação estadunidense para a Ásia, mas apenas neste livro o papel da China seria mais bem clarificado. Analisando as origens e dinâmicas da ascensão chinesa, Arrighi procura recuperar determinados conceitos que já haviam sido esboçados por Adam Smith em A Riqueza das Nações, no caso, para defender a ideia de que a China teria realizado o chamado ‘caminho natural’ para a riqueza nacional. Este poderia ser visualizado no gradualismo do desenvolvimento econômico e no papel central do Estado, gerenciando as reformas de mercado e promovendo objetivos particulares, especialmente o resguardo da estabilidade social. Nesse raciocínio, poder-se-ia reconhecer atitudes e dinâmicas já profundamente enraizadas na história chinesa e que demonstrariam o papel central da China no desenvolvimento da Ásia Oriental, interrompido pela subordinação da região a um regime de acumulação centrado na Europa.

Voltando aos artigos do Journal of World-Systems Research, podemos observar que Robert A. Denemark, único a centrar seu raciocínio no diálogo com Andre Gunder Frank, colocou que a ascensão asiática não estava relacionada ao socialismo, mesmo porque o socialismo não deveria ser compreendido enquanto um par comparativo com o capitalismo, uma vez que Arrighi, tal como Frank, teriam passado a considerar o capitalismo apenas como um sistema local ou regional e não mais como um sistema explicativo global.[10]

Em entendimento semelhante, Ganesh Trichur e Steven Sherman apontaram a impossibilidade de predizer se a China assumiria a liderança global, embora ressaltassem que a estrutura civilizacional e a sociedade de mercado daquele país seriam um fator chave na reestruturação das relações internacionais.[11] Essa incerteza foi também reforçada por Jennifer Bair, a partir de constatar a incapacidade de se definir os próprios passos da política chinesa.[12] Thomas E. Reifer, salientando a complexidade do trabalho de Arrighi, colocou que seu objetivo fora oferecer uma interpretação do deslocamento do epicentro da economia política global para a Ásia Oriental.[13] Por sua vez, John Gulick enfatizou que a China poderia formar uma comunidade de estados na Ásia Oriental, mas sem que se constituísse ali um centro dominante.[14] Dentre todos os intelectuais participantes do debate promovido pelo Journal of World-Systems Research, apenas Gary Coyne colocou a ideia de que poderia surgir, a partir dessas transformações, uma “comunidade de civilizações” [meu grifo] baseada em nações que respeitassem o direito de todos.[15]

Em reforço às compreensões dos estadunidenses, a recém-publicada entrevista de Giovanni Arrighi no mesmo Journal of World-Systems Research, mostra que ele considerava que a China não poderia ser um modelo para outras regiões e que, quanto ao controle do poder político nesse país, Arrighi acreditava que a hipótese mais plausível era a de que o Estado não estivesse sob o controle estrito de nenhum dos atores tradicionais, dentre os quais o Partido Comunista.16

Portanto, velhos e novos leitores de Adam Smith em Pequim, acredito que a diferença de foco e da compreensão entre as resenhas brasileiras e as estadunidenses nos instiga uma primeira leitura ou a releitura desse complexo e inteligente livro, seja porque nele se aventa uma das chaves para a compreensão das transformações do XXI, seja porque nos permite entender certos afastamentos entre os intelectuais brasileiros e os estadunidenses.

Notas

1. SANTOS, Theotonio. Apresentação – No rastro de Giovanni Arrighi. In: ARRIGHI, Giovanni. Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. São Paulo: Boitempo Editorial, 2008, p. 9-12.

2. OLIVEIRA, Amaury Porto de. Resenha de “Adam Smith em Pequim”, de Giovanni Arrighi, por Amaury Porto de Oliveira. Blog de Theotonio dos Santos. Disponível em: <http://theotoniodossantos.blogspot.com.br/2009/10/resenha-de-adam-smith-em-pequim-de.html>. Acesso em: 10 de outubro de 2012.

3. BRUSSI, Antônio José Escobar. A pacífica ascensão da China: perspectivas positivas para o futuro? Revista Brasileira de Política Internacional, v.51, n.1, Brasília, 2008, p. 187-191.

4. ROMÃO, Wagner de Melo. Resenha de Giovanni Arrighi, Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. Tempo Social USP, v. 21, n. 1, jun. 2009.

5. CASTRO, Marina Scotelaro de; Teixeira, Rodrigo Correa. Adam Smith em Pequim, por Giovanni Arrighi. Conjuntura Internacional – PUC Minas. Ano 8, n. 11, 17 a 30 set. 2011.

6 ARRIGHI, Giovanni. Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. São Paulo: Boitempo Editorial, 2008. Originalmente publicado em inglês no ano de 2007.

7. ‘The World-Historical Imagination: Giovanni Arrighi’s The Long Twentieth Century in Prospect and Retrospect’ Ed. Jason W. Moore In Journal of World-Systems Research’, v. XXVII, n. 1, 2011.

8. ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX. São Paulo: UNESP, 1996.

9. ARRIGHI, Giovani; SILVER, Beverly J. Caos e Governabilidade no Moderno Sistema Mundial. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2001.

10. DENEMARK, Robert A. World System History: Arrighi, Frank, and the Way Forward. Journal of World-Systems Research, v. XV, n. 2, 2009, p. 233-242.

11. TRICHUR, Ganesh; SHERMAN, Steven. Giovanni Arrighi in Beijing. Journal of World-Systems Research, v. XV, n 2, 2009, p. 256-263.

12. BAIR, Jennifer. The New Hegemon? Contingency and Agency in the Asian Age. Journal of World-Systems Research, v. XV, n. 2, 2009, p. 220-227.

13. REIFER, Thomas E. Histories of the Present: Giovanni Arrighi & the Long Duree of Geohistorical Capitalism. Journal of World-Systems Research, v. XV, n. 2, 2009, p. 249-256.

14. GULICK, John. Giovanni Arrighi’s Tapestry of East & West. Journal of World-Systems Research, v. XV, n. 2, 2009, p. 243-248.

15. COYNE, Gary. Natural and Unnatural Path’. Journal of World-Systems Research, v. XV, n. 2, 2009, p. 228-232.

16. Interview with Giovanni Arrighi “At Some Point Something Has To Give” – Declining U.S. Power, the Rise of China, and an Adam Smith for the Contemporary Left, by Kevan Harris’ In Journal of World-Systems Research, v. 18, n. 2, Summer 2012, p. 157-166.

Renato Amado Peixoto – Professor Adjunto do Derpartamento de História –
UFRN. Doutor em História – UFRJ.

ARRIGHI, Giovanni. Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. Tradução de Beatriz Medina: Boitempo, 2008. 448p. Resenha de: PEIXOTO, Renato Amado. Adam Smith Reloaded. Revista Porto. Natal, v.1, n.2, p.130-135, 2012. Acessar publicação original [IF].

 

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