SANTOS, José Trindade. Platão: a construção do conhecimento. São Paulo: Paulus, 2012. Resenha de: ARAÚJO, Rodrigo. Revista Archai, Brasília, n.12, p.195-196, jan., 2014.

Centrada na temática do conhecimento, a obra de José Trindade Santos se volta ao tratamento das questões relativas ao ‘ser’ e ao ‘saber’ por dentro  dos diálogos platônicos.

Evidencia, de logo, dois problemas com que Platão se confronta: a constituição da ‘realidade’  (distribuída pelos mundos ‘sensível’ e ‘inteligível’) e a organização das ‘competências cognitivas’  (‘saber’ e ‘opinião’) que possibilitam conhecê-la  adequadamente.

Para enfrentar esses problemas, Platão teria divisado um sofisticado e complexo programa de  investigação que perpassaria toda sua obra, fortemente marcada pelas críticas às concepções cognitivas correntes na Grécia clássica (sécs. V-IV a. C.).

Empreendendo tal crítica, que na visão do  Autor poder-se-ia sintetizar como  construção do  conhecimento, Platão aborda a cognição a partir  da leitura do poema de Parménides,  Da natureza, na qual o “pensamento/conhecimento”é colocado como um estado infalível, percebido pela inteligência, independente da senso-percepção e captado  pela linguagem.

Levando igualmente em conta os paradoxos levantados pelos sofistas, Platão tenciona mostrar como uma concepção coerente e consistente da  cognição é capaz de adequar o contato com o mundo instável, construído pela sensibilidade, à exigência da estabilidade do ‘ser’.

Trindade principia pela acurada análise dos  diálogos chamados ‘socráticos’, o Autor expõe o  elemento pedagógico dos debates e a utilização da metodologia refutativa, com a finalidade de denunciar as limitações dos pretensos “saberes”humanos.

Seguidamente, refletindo sobre a ‘reminiscência’ e a chamada ‘Teoria das Formas’, mostra o postulado ontoepistemológico nesse outro grupo de diálogos:  todas as mentes humanas são dotadas da mesma estrutura eidética e todos devem esforçar-se por recordar, recuperando a memória das Formas. Como, para Platão, ‘o que é’ são as Formas, somente estas constituem o ‘ser’, sendo nesta recuperação que consiste o ‘saber’.

Nos capítulos subsequentes, empenhado na  compreensão dos chamados ‘diálogos críticos’, o  Autor apresenta a discussão sobre a reformulação da ‘Teoria das Formas’, na qual Platão parece tentar reconhecer uma função cognitiva para a ‘ doxa ’, encarando então a cognição como um  processo que será avaliado pelo resultado a que conduz:  verdadeiro ou falso.

No entanto, segundo o Autor, na revisão da ‘Teoria das Formas’, Platão põe em causa a herança eleática, descartando pressupostos ligados direta ou indiretamente a Parménides. Rejeita o monismo, o imobilismo do ser e a identificação do saber com  o ‘conhecimento como  estado ’. Para atingir essa  finalidade obriga-se a redimensionar o significado do ‘não-ser’, passando a encará-lo como ‘um outro ser’, entendido como ‘diferença’ – ‘o outro’ –, e não apenas como o ‘contrário’ do ser.

Nessa nova abordagem das relações entre  ‘conhecimento’ e ‘ser’, Platão desenvolve um projeto unitário de conhecimento da realidade, vinculando o mundo sensível à estrutura inteligível que serve de matriz à própria cognição. É dessa reformulação que nascerá aquilo a que se nomeará ‘conhecimento’.

Desvelando uma das mais belas e clássicas  temáticas que principiaram a literatura filosófica,  a obra insere-se no rol dos textos indispensáveis  aos que se debruçam sobre os diálogos platônicos, ao tempo em que vem cunhada pelo espírito do  pioneirismo, inaugurando a série de publicações da Coleção Cátedra.

Rodrigo Araújo – Universidade Federal da Paraíba.

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