BRISSON, Luc; PRADEAU, Jean-François. Plotin Traités. Paris: Éditions Flammarion, 2009. Resenha de: JÚNIOR, José Carlos Baracat. Revista Archai, Brasília, n.5, p.139-142, jul., 2010.

Este é o oitavo volume de uma nova tradução, ainda em andamento, dos escritos de Plotino, sob a direção de Luc Brisson e Jean-François Pradeau. Neste trabalho coletivo, Brisson e Pradeau recrutaram um exército notável de estudiosos para apresentar, traduzir e anotar cada um dos tratados do filósofo neoplatônico, seguindo a ordem cronológica de sua composição, tal como informada por Porfírio (Vida de Plotino, capítulos 4-6).

Os escritos que compõem este volume são os tratados 45: A eternidade e o tempo, 46: Sobre a felicidade, 47-48: Sobre a providência (os dois tratados formavam um único tratado na origem, dividido por Porfírio), 49: Sobre as três hipóstases que conhecem e sobre o que está além, e 50: Sobre o amor – respectivamente III. 7, I. 4, III 2-3, V. 3 e III. 5, no arranjo sistemático em que Porfírio publicou as obras de seu mestre e ao qual chamou Enéadas (Vida de Plotino, capítulos 24-26). Matthieu Guyot é o responsável pelo tratado 45 (III. 7); Thomas Vidart, pelo 46 (I. 4); Richard Dufour se encarrega do tratado 47-48 (III. 2-3); Francesco Fronterotta, do 49 (V. 3) e Jean-Marie Flamand, do 50 (III. 5). Os volumes anteriores foram: tratados 1-6, em 2002; 7-21, em 2003; 22-26, em 2004; 27- 29, em 2005; 30-37, em 2006; 38-41, em 2007; e 42-44, em 2008. Há ainda quatro tratados a serem publicados (51= I. 8, 52=II. 3, 53=I. 1, e 54=I. 7), que devem sair num único e último volume em 2010.

Cada tradução, acompanhada de exaustivas notas filosóficas, filológicas e bibliográficas, é precedida por um estudo introdutório que expõe os temas centrais do tratado, e por um plano detalhado de seu desenvolvimento. No final de cada volume, há uma bibliografia selecionada, relativa aos tratados que compõem o volume; um quadro cronológico que põe em paralelo a vida de Plotino, os fatos culturais e os acontecimentos militares e políticos; um índice remissivo dos principais conceitos, e outro de nomes próprios.

As notices  individuais às traduções se estruturam de modo semelhante: os autores procuram, em não mais do que quinze páginas, situar o tratado em relação à obra de Plotino, e o tema em relação às suas fontes e aos seus adversários, reconstruindo o desenvolvimento do tratado capítulo a capítulo de modo bastante claro e detalhado, e explicitando a originalidade e a profundidade do pensamento de Plotino.

Assim, Guyot apresenta o tratado 45 (III. 7) explicando o sentido da definição da eternidade como vida do intelecto (noûs) e do tempo como vida da alma, e notando que Plotino, aqui, numa exegese original do Timeu de Platão, busca uma definição da essência do tempo que seus predecessores não encontraram. Vidart enfatiza a importância do tema da eudaimonía  na Antiguidade, e mostra como reflexão acerca da felicidade, em Plotino, é indissociável da reflexão acerca da constituição de um “sujeito”; sendo o eu múltiplo, uma hierarquia de vidas, vividas segundo o intelecto, segundo a alma, ou segundo o corpo, a verdadeira felicidade pertence apenas ao verdadeiro eu, isto é, o superior; o eu verdadeiro do sábio é impassível, mas os outros “eus”, os inferiores, sofrem, e muito, no Touro de Fálaris. A introdução de Dufour aos tratados 47-48 (III. 2-3) merece atenção especial pela nitidez com que consegue explicar os temas centrais desses tratados, tão propensos a criar confusões; Dufour nos guia em uma leitura segura da reflexão importante de Plotino acerca da providência (outro tema de grande relevo na Antiguidade), mostrando que a beleza deste mundo sensível é garantida pelo intelecto, através da ação dos lógoi (princípios formativos); ele chama nossa atenção ainda para o modo como Plotino, partindo das Leis de Platão e incorporando idéias estóicas, responde com originalidade aos epicuristas, aos peripatéticos e aos gnósticos. Fronterotta, por sua vez, nos mostra como o escrito 49 (V. 3) retoma o tema dos três princípios do real (alma, intelecto e uno) de uma nova perspectiva: tratado várias vezes, em escritos anteriores, do ponto de vista genético, isto é, de seu engendramento, ele é agora examinado a partir da possibilidade e do significado do autoconhecimento por parte de cada um dos princípios; a alma é capaz de conhecer a si mesma de modo imperfeito, ao contrário do intelecto, que é a perfeita identificação entre sujeito e objeto do conhecimento; o conhecimento de si não pode ser admitido quando se trata do uno, dada sua absoluta simplicidade, mas isso de modo algum implica carência ou enfraquecimento. Flamand, por fim, adverte que o tratado 50 (III. 5) busca dizer, filosoficamente, o que é Eros, o amor, enfatizando, por um lado, a forte influência do Banquete e do Fedro  de Platão e, por outro, a interpretação alegórica da mitologia realizada por Plotino.

As notas costumam ser valiosas, não apenas por destrincharem as dificuldades dos argumentos, mas sobretudo pela grande quantidade de referências à literatura crítica; nas referências às fontes de Plotino, por exemplo, Platão e Aristóteles, os tradutores nunca se contentam com uma remissão simples aos textos, mas apresentam e discutem a passagem referida. É preciso esforço para encontrar uma passagem dos tratados que mereça uma nota e que não a tenha recebido; o tratado 45, por exemplo, têm 525 notas, que preenchem, com letras pequenas, quase 60 páginas. O trabalho de anotação dos tratados talvez seja, para os estudiosos de Plotino, o ponto alto do trabalho do grupo.

Mas é preciso reconhecer que não são poucas as notas completamente desnecessárias que nos fazem interromper a leitura da tradução e demandam esforço das nossas retinas. As traduções seguem o texto da editio minor de Paul Henry e Hans-Rudolph Schwyzer e acatam quase todas as correções propostas pelos editores; no início de cada volume, são listadas todas as discrepâncias das traduções em relação ao texto da editio minor sem as correções dos editores: ora, seria mais simples listar, então, apenas as divergências em relação às correções de Henry e Schwyzer. Não fosse o bastante, os tradutores assinalam novamente, através de nota, todas essas divergências já elencadas no início do livro. Dufour nos dá outra amostra: na introdução, ele adverte que os tratados 47 e 48 formavam, originalmente, um só escrito, que foi dividido por Porfírio em sua edição das Enéadas; todavia, a primeira nota de sua tradução é justamente para fornecer essa mesma informação.

De modo geral, as traduções deste volume, assim como as dos anteriores, são bastante confiáveis. É admirável como as batutas de Brisson e Pradeau conseguem manter a harmonia de um trabalho executado a tantas mãos. Leitores não especializados encontrarão um material satisfatório para ingressar nos difíceis escritos de Plotino; os especialistas, os mais recentes desenvolvimentos da interpretação de Plotino aplicados a uma tradução competente. Há, porém, algumas observações que eu gostaria de fazer a respeito da tradução.

Causa-me certo incômodo a tradução da palavra grega ousía  por “realité”(realidade), em vez das escolhas tradicionais, “essência”ou “substância”. Não é que a palavra não possa ser traduzida assim – pelo contrário, ela pode e essa seria uma excelente solução. No entanto, com freqüência, essa escolha torna o texto bastante confuso para os leitores que não lêem o Grego – e são eles os que mais precisam da tradução, não? –; mesmo os conhecedores do Grego, se não se têm o texto original à mão, ficam constantemente em dúvida se a palavra “realité”, sempre que aparece, está traduzindo ousía.

Neste volume, é verdade, não encontrei passagens tão problemáticas como nos anteriores. No sexto volume (tratados 38-41), por exemplo, lemos na introdução de Fronterotta ao tratado 38 (VI. 7): “l’ Un qui est le premier principe de la réalité”(o Uno que é o princípio primeiro da realidade, p. 15); e, na sua tradução do mesmo tratado: “cette partie assure la sauvegarde de cette réalité”(essa parte garante a segurança dessa realidade, p. 45, VI. 7. 3. 16). Na primeira citação, “realidade”significa a totalidade das coisas existentes, o que, no caso de Plotino, não equivale à totalidade de essências ou substâncias (pois o Uno está além da essência, e a matéria, aquém); na segunda, a palavra traduz ousía. Se a confusão não fosse suficiente, ele ainda traduz pan sýntheton por “toute réalité composé”(toda realidade composta, p. 57, VI. 7. 10. 10): parece-me até questionável supor a noção de ousía aqui, onde um simples e inofensivo “coisa”bastaria.

Neste oitavo volume, encontramos passagens como estas: “comment une réalité absolutement simple et une peut engendrer l’unité multiple du monde intelligble”(como uma realidade absolutamente simples e una pode engendrar a unidade múltipla do mundo inteligível; Fronterotta, na introdução ao tratado 49, p. 312). Ora, o Uno não é ousía, mas é chamado “realidade”. Evidentemente a palavra está aí por “coisa existente”. Vejamos mais exemplos. Na página 42, tradução de Guyot do escrito 45 (III. 7. 3. 3-5), lemos “L’éternité, en effet, se manifeste dans la realité en vertu de la réalité elle-même…elles viennent de la réalité et sont avec la réalité”(a eternidade, com efeito, se manifesta na realidade em virtude da própria realidade…

elas [as coisas que provêm do intelecto] vêm da realidade e estão com a realidade); e, na página 39 (III. 7. 2. 30): “repos de la réalité”(repouso da realidade). Se não fazemos um esforço constante para lembrar que réalité (geralmente) traduz ousía, passagens como essas soam, no mínimo, estranhas. Principalmente depois de lermos, na introdução do mesmo Guyot (p. 18), que “les réalités temporelles ne sont jamais complètes”(as realidades temporais jamais são completas) e que “une réalité temporelle n’atteint donc sa complétude qu’au seuil de son anéantissement”(uma realidade temporal alcança sua completude apenas a caminho de sua anulação).

O grande embaralhamento provém, no fundo, do descompasso entre as introduções e as traduções: naquelas, a palavra “realidade”é empregada de modo mais amplo, com mais liberdade, não apenas como tradução de ousía, ao passo que nas traduções há um uso (geralmente) fixo do vocábulo. De qualquer maneira, parece-me haver certa negligência no uso da palavra “realidade”, tão complexa em filosofia. Uma advertência prévia para esse caso, quiçá o emprego exclusivo de “realidade”para traduzir ousía, e muita confusão seria evitada.

Outra dificuldade: freqüentemente nóesis  e diánoia, e seus derivados, são traduzidas pela mesma palavra, “pensée”, “penser”(pensamento, pensar). Contudo, em Plotino esses conceitos nem sempre são sinônimos, dado que nóesis costuma aplicar-se ao noûs, e diánoia à alma. Há passagens cuja tradução acaba nos frustrando, talvez por alguma imposição do idioma francês: Fronterotta traduz (49, V. 3. 5. 28-29) “mais si l’intellection e l’intelligible sont une seule et même chose, comment alors ce qui pense se penserá-t-il ainsi lui-même ?”(mas se a intelecção e o inteligível são uma só e mesma coisa, como então aquilo que pensa pensará assim a si mesmo?). Ele preserva “intellection”e “intelligible”para nóesis e noetón, mas, enquanto Plotino emprega na seqüência nooûn (aquilo que intelige) e noései (inteligirá), Fronterotta infelizmente passa para “ce qui pense”e “pensera”. Se não temos o texto grego, temos a impressão, com isso, de que Plotino emprega palavras diferentes, e não diversas formas derivadas de noûs.

Uma última observação: tenho cá comigo que traduzir os escritos de Plotino como se eles fossem diálogos é um pouco desonesto com os leitores que não podem ler ou consultar o texto grego. Não sei exatamente quem deu início a essa prática, mas ela ocorre pelo menos desde 1982 (penso no primeiro volume da excelente tradução espanhola de Jesus Igal, publicada pela editora Gredos). Ela leva o leitor a pensar que o texto tem uma forma literária que, na verdade, não tem. E, como não há um dramatis personae, o leitor não tem certeza de quando é e de quando não é Plotino quem está falando. A intenção de separar as objeções e perguntas de interlocutores fictícios das respostas de Plotino é louvável, mas o que resulta disso não é, invariavelmente, uma clareza maior dos argumentos.

É tarefa fácil mas ignóbil apontar deslizes insignificantes em ótimas traduções cuja contribuição para os estudos de determinado autor é inquestionável. Assim, não desejo, de modo algum, que as observações acima dêem a entender que o trabalho dirigido por Brisson e Pradeau seja menos do que excelente. Mais valioso do que o resultado desse trabalho talvez seja o processo para se chegar a ele: transparecem o Brisson e o Pradeau professores, formando jovens pesquisadores, em condições ideais de trabalho, para serem referência nos estudos plotinianos.

José Carlos Baracat Júnior – Professor Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: [email protected]

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