Livro composto de 193 páginas, incluindo o glossário, está dividido em quatro capítulos, sendo que o primeiro: Bases essenciais, o autor inicia com um prólogo ao livro original onde recapitula o contexto de criação do conceito da afrocentricidade relacionando-o a conjuntura atual e destacando a contribuição de novos elementos, a exemplo do hip-hop para uma nova releitura. Após o prólogo, no subitem definição o autor define e fala da afrocentricidade como uma metodologia que tem por fim o deslocamento dos sujeitos africanos para o centro, contextualizando-os e colocando-os, a partir de questionamentos, em seus respectivos lugares. Na página sete, no subtópico, as questões religiosas, o autor demonstra a “eficiência” e as possibilidades interpretativas da metodologia afrocêntrica questionado o lugar que a religião islâmica para os povos africanos relacionando-a com os costumes e tradições do continente. O autor evidência as bases que contribuíram para que o islamismo se tornasse uma religião universal. Nestes questionamentos Asante demonstra como o pensador afrocêntrico deve se posicionar para descortinar os “equívocos” que a história convencional tratou de convencionar em relação às culturas da África. Em outro tópico: Desafios, Asante coloca os desafios de se tornar um afrocêntrico no mundo pós-moderno, demonstrando a forma como fazê-lo a partir da reinterpretação da História. O autor deixa muito claro que o conhecimento histórico, é a base para (da) mudança afrocêntrica. Ainda no sentido de demonstrar os desafios que a interpretação afrocêntrica exige Asante faz uma retrospectiva no pensamento dos principais líderes políticos do século XX – Booker Taylor Washington, Marcus Garvey, Martin Luther King, Malcolm – X, Maulana Ron Karenga e William Du Bois – expondo seus respectivos pensamentos ideológicos, evidenciando suas aproximações e distanciamentos. Paralelo a exposição, Asante demonstra que exceto o pensamento de Marcus Garvey e de Elijah Mohammed, embora os demais pensadores exerçam importância incomensurável para o que viria ser mais tarde o pensamente afrocêntrico, apenas Garvey e Mohammed já se utilizavam de uma análise conjuntura proto-afrocêntrico. Já no tópico: Njia: o caminho, Asante depois de uma reflexão sobre a importância de uma ação coletiva aponta a Njia como uma estratégia prática de ação afrocêntrica no sentido de dar início a um processo de dissociação e valorização da cultura africana em detrimento da epistemologia eurocêntrica. Em seguida, no tópico, rumo à consciência coletiva o autor nos fala da importância da filosofia da afrocentricidade como uma estratégia de conscientização. É importante destacar a digressão que o autor faz no sentido de demonstrar que a afrocentricidade não é uma “metodologia filosófica” que busca a unidade entre as comunidades africanas e afro-americanas na diáspora e que a mesma almeja um projeto de conscientização coletiva que é algo que está mais além do a unidade. Finalizando o primeiro capítulo, o tópico, a crise dos nomes, o autor volta na história da escravidão americana e explica como os africanos escravizados perdiam sua identidade africana – quando tinham seus nomes retirados – e recebiam os nomes dos seus senhores para em seguida explicar a importância de voltar a usar nomes africanos, não apenas como uma forma de reassumir suas respectivas identidades africanas, mas como uma forma de se colocar em prática a filosofia afrocêntrica. O capítulo dois, os constituintes do poder, é iniciado com um subtópico libertação da linguagem o autor discorre sobre como a opressão histórica da escravidão imposta aos afro-americanos foi responsável pela construção de uma linguagem opressora e racista e a necessidade das pessoas de cor, na atualidade, desenvolver uma linguagem alternativa que seja revigorante e positivamente reconstrutora. Para ilustrar seu pensamento Asante toma como exemplo a experiência do Partido dos Panteras Negras demonstrando que a linguagem comunista assumida pela liderança, embora tenha exercido um impacto significativo sobre a população africana da América foi limitada em sua mobilização e conteúdo por não utilizar-se e não desenvolver uma linguagem afrocentrada. Nesse sentido, Asante destaca que a liderança do partido teve uma maior preocupação em absolver os conteúdos comunistas do que desenvolver uma linguagem afrocêntrica. No tópico: tipos de inteligência, Molefi destaca a existência de três tipos de inteligência: a inteligência criativa, a reprodutiva e a consumidora-reprodutora, sendo a primeira dos pensadores que criam; a segunda dos pensadores que reproduzem aquilo que foi criado pelos primeiros e a terceira, a dos pensadores que reproduzem e consomem e que é produzido, nesse sentido, percebe-se que Asante estabelece uma relação entre essas inteligências deixando claro que as mesmas não são determinações biológicas, mas que o mesmo as usa como uma forma de localizar a filosofia afrocêntrica. O autor evidencia que independente dos tipos de inteligência, todas, fazem parte de uma mesma inspiração que é Deus e que não há nenhum problema na utilização das mesmas pelo pensador associado a afrocentricidade. No último tópico do segundo capítulo, bases comparáveis, Assente demonstra como o processo de negação da história africana reflete a falta de referências para às próprias populações africanas e da diáspora, além de ser um dos principais obstáculos para a reconstrução de uma interpretação associada a afrocentricidade. A exposição de Asante tem o objetivo de demonstrar que o conhecimento da História da África e da diáspora é o principal meio de construção dos referenciais que são necessários a filosofia afrocêntrica para a descolonização das mentes e da construção de uma imagem positiva da África e de suas populações descendentes. O capítulo três, Análise e Ciência, iniciam-se com um subtópico crítica e análise mais uma vez com o autor expondo a importância da história na implementação da análise afrocêntrica e nesse sentido Asante elenca termos como tribo, selva, dialeto africano, dentro outros, que apartir de uma análise da afrocentricidade imperam por uma redefinição semântico-conceitual ou mesmo um banimento. No tópico seguinte, o caminho da inovação o autor reflete sobre a importância da construção de escolas negras afrocentradas para dar início ao processo de desconstrução da imagem negativa da África e de seus descendentes consolidada no ocidente. O autor destaca que os educadores nessa escola não bastam apenas ser negros, pois, muitos negros foram educados em escolas ocidentais brancas e por esse motivo carecem dos referenciais históricos necessários para a implementação da filosofia-metodológica afrocêntrica. No subtópico Níveis de transformação, Asante discorre sobre o processo de transformação\ identificação com a afrocentricidade, destacando as cinco fases que todas as pessoas passam até incorporarem a filosofia afrocêntrica, sendo estas: o reconhecimento de pele, é quando, segundo o autor, a pessoa reconhece a cor da sua pele, mas não consegue compreender o contexto histórico e da realidade em que vive; na segunda fase tem-se o que reconhecimento do meio, é o momento onde a pessoa o ambiente através dos abusos e das discriminações que estão submetidas; em seguida, tem-se a consciência de personalidade onde o indivíduo identifica-se com os elementos da cultura africana, porém, Asante deixa claro que essa identificação por si só, não constituí afrocentricidade; preocupação\ interesse constituem a quarta fase, sendo esta caracterizada pelo fato de a pessoa reconhecer-se nos três primeiros itens, demonstrando interesse e preocupação com os problemas do povo africano; no quinto nível, consciência afrocêntrica é quando o indivíduo é tomado, transportado e envolvido por alto nível de afrocentricidade em sua mente. No tópico consciência, o autor discorre sobre os dois tipos de consciência com os quais a afrocentricidade tem que tratar, sendo elas a consciência da opressão e a consciência da vitória. No caso da consciência da opressão ela apresenta-se de forma significativa na mente da comunidade afro-americana, onde, na interpretação do autor muitas pessoas tem a consciência de suas exploração\opressão, mas, não possuem a consciência da vitória, sendo elas indissociáveis. Para Asante, além de o pensador afrocêntrico ter a consciência de sua exploração, ele tem que ter a consciência\ fé na vitória como o produto final do projeto afrocêntrico. Já no subitem relacionamento, Asante nos fala sobre o que vem a ser um relacionamento afrocêntrico entre um homem e uma mulher. Segundo o autor é necessário para que o mesmo obtenha êxito que ambos esteja em harmonia com o projeto afrocêntrico tornando-se ambos um só com a finalidade de somar-se a coletividade. Na visão do autor o tornar-se afrocêntrico vai desde a vestimenta externa – trajes, torços – até a o conhecimento histórico que produz a consciência coletiva afrocêntrica. Nesse tópico Asante reflete sobre um o tema complexo e delicado da relação entre a homossexualidade e sua relação com a relação à filosofia afrocêntrica. Segundo Asante a homossexualidade deve ser aceita, porém dever ser demonstrado quanto a mesma é prejudicial em termos de projeto coletivo. O diz que ao assumir esse posicionamento ele afirma que não é homofóbico, nem defende a homofobia, mas reconhece que a homossexualidade eurocidental, não é o discurso mais coerente como projeto para a coletividade afro-americana. Já no tópico afrologia\africologia o autor diz que esses dois termos não possuem qualquer diferença, possuindo o mesmo significado. Asante ressalta que a criação dos mesmos surge da conjuntura e exigência dos alunos afro-americanos durante a criação dos departamentos de estudos africanos e da diáspora durante os anos 1960 do século XX. De acordo com a interpretação do autor a afrologia surgiu como uma possibilidade que pudesse preencher o vazio em função da ausência de uma posição filosófica unificadora que pudesse contemplar as possibilidades contidas em uma nova lógica, ciência e retórica. No tópico método, Asante fala sobre os pré-requisitos básicos para implementação da teoria afrocêntrica, destacando a competência, clareza de perspectiva e clareza do objeto. Para o autor a competência diz respeito à habilidade e a capacidade que o investigador afrocêntrico possui quando confrontado com os problemas da pesquisa e de sua área de estudo. Clareza de perspectiva para Asante é ter consciência de que a metodologia afrocêntrica é pan-africana e que em seu tratamento devem ser levados em conta os aspectos da criatividade, políticos, geográficos e culturais evidenciando a relação das experiências diaspóricas em âmbito universal. No quarto capítulo, Bases de ação, Asante traça um panorama de suas ideias discutidas no decorrer do livro estabelecendo os pré-requisitos do que é na prática ser afrocêntrico. O autor reflete sobre o que se deve ou não repudiar, quanto pensadores da afrocentricidade. Nesse sentido eles nos fala sobre as estratégias de demolição e reconstrução sobre o que diz respeito aos termos que devem (ou não) ser usados dentro da linguagem afrocêntrica. Fala-se da demolição dos nomes impostos pela colonização e que carregamos até hoje, sendo que estes devem ser substituídos por nomes africanos, devem-se substituir as noções derrotistas pelas visões vitoriosas e de orgulho, dentre algumas citadas pelo autor. A família, a cidade e a religião são alguns dos segmentos citados por Asante onde a filosofia da afrocentricidade pode ser inserida e trabalhada. Molefi faz uma reflexão entre a inovação X tradição, destacando que a tradição não é um corpo estático e homogêneo. O autor introduz essa discussão com o objetivo de demonstrar a teoria da afrocentricidade como uma junção de ambas. Em seguida, Asante coloca as expectativas futuras para afrocentricidade no século XX. Por fim o autor finaliza o livro expondo os princípios da Njia que no seu entender seria o caminho para se atingir a afrocentricidade.

Márcio Paim – Mestre em Estudos Africanos pelo Programa Multidisciplinar em Estudos Étnicos e Africanos da Universidade Federal da Bahia – Pós-Afro/UFBA. Graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (UCSAL).


ASANTE, Molefe Kate. Afrocentricidade. Philadelphia: Editora Afrocentricity Internacional, 2014. Resenha de: PAIM, Márcio. Escritas – Revista do Curso de História, Araguaína, v.7, n.1, p.230-235, 2015. Acessar publicação original. [IF]

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